O consumo de animais silvestres, especialmente a paca (Cuniculus paca), é uma prática comum entre comunidades tradicionais. Este roedor representa o principal hospedeiro intermediário do Echinococcus vogeli, agente etiológico da equinococose policística humana, uma zoonose de crescente preocupação para a saúde pública na região. Este estudo teve como objetivo investigar a ocorrência de E. vogeli em fígados de pacas abatidas e consumidas por moradores de comunidades tradicionais da Amazônia Ocidental Brasileira. A pesquisa, de caráter observacional e descritivo, foi realizada entre maio de 2022 e dezembro de 2023, em comunidades tradicionais de Sena Madureira e Rio Branco (Estado do Acre, Brasil). Foram conduzidas entrevistas domiciliares para caracterizar práticas de caça e manejo de cães, bem como coletas de fígados de pacas para análises parasitológicas e moleculares (amplificação e sequenciamento de um fragmento do mtDNA cox1). Das 78 famílias entrevistadas, 78% relataram praticar caça de subsistência. Foram contabilizados 194 cães, dos quais 83% participavam de caçadas e 80% consumiam vísceras cruas, especialmente de pacas. Dos 23 fígados analisados, 48% apresentaram cistos hidáticos (1 a 13 por fígado), com confirmação de E. vogeli por morfologia e PCR. Os resultados sugerem que alimentar cães com vísceras cruas pode facilitar o estabelecimento do ciclo de transmissão doméstico de E. vogeli, aumentando assim o risco de infecção zoonótica. O contato próximo entre humanos, cães e fígados de pacas infectados ressalta a necessidade urgente de vigilância epidemiológica e estratégias educacionais visando à prevenção da equinococose em áreas endêmicas.
Palavras-chave:
transmissão zoonótica; fatores socioculturais; vigilância epidemiológica; parasitoses emergentes
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