RESUMO
Em agosto de 1996, o Instituto Biológico - Seção de Doenças das Plantas Frutíferas, recebeu amostras de folhas e frutos de mamoeiro infectadas por um tipo de míldio pulverulento, provenientes de tabela (BA) e Tupi Paulista (SP). Os materiais estavam infectados por um tipo de míldio pulverulento diferente daquele causado por Oidium caricae, conhecido como oídio do mamoeiro. Os exames dos corpos de frutificação realizados, permitiram identificar o agente causal como sendo Leveillula taurica (Lév) Am. na sua forma anamórfica de Oidiopsis taurica (Lév.) Salmon. Trata-se do primeiro relato deste fungo em plantas de mamoeiros, no Brasil.
PALAVRAS-CHAVE:
Carica papaya, míldio pulverulento; Leveillula taurica.
ABSTRACT
In August 1996, the Biological Institute - Department of Fruit Plant Diseases, received samples of papaya (Carica papaya L.) consisting of leaves and fruits of a commercial crop from the counties tabela (BA) and Tupi Paulista (SP). The materials were affected by a kind of powdery rnildew showing symptoms somewhat different of those caused by Oidium caricae F. Noak., the very known papaya powdery mildew. The fungus examined under stereo and compound rnicroscope showed endofitic thallus and typical conidial morphology perrniting to identify it as Leveillula taurica in its anamorphic form Oidiopsis taurica. This was the firs record of the disease on papaya in Brazil.
KEY WORDS:
Carica papaya, powdery mildew; Leveillula taurica.
O cultivo de frutas no Brasil, tem se apresentado como economicamente importante para os produtores, devido à sua valorização no mercado externo. O mamoeiro (Carica papaya L.) tem grande aceitação no mercado internacional, além de ser fonte de papaína, enzima de ação proteolítica usada como amaciante de carne e também na indústria cervejeira (SANCHES et al.,1991). É ainda utilizada em cortumes, na indústria têxtil, na fabricação de alimentos pré-cozidos, na indústria farmacêutica, produção de cosméticos, na indústria de suco de frutas e vinhos, no tratamento de efluentes industriais, e outros (MELO & RUGGIERO, 1988).
O Brasil é o maior produtor mundial da fruta, tendo o Estado da Bahia a maior área cultivada (KIST & MANICA, 1994).
No mês de agosto de 1996, a Seção de Doenças das Plantas Frutíferas do Instituto Biológico, recebeu amostras de folhas de mamoeiro provenientes do · Município de tabela, BA, com sintomas de crestamento na face superior correspondendo na face inferior a um profuso crescimento fúngico de coloração branca do tipo causado por mildio pulverulento. Esta anormalidade atingiu cerca de 40% das plantas em uma área irrigada de 320.000 pés, a partir da fase final de frutificação. O cultivo era originário da 2ª geração de plantas cujas sementes foram importadas de Taiwan.
Embora a extensão das lesões fosse bastante incipiente, os mesmos sintomas também foram observados em uma pequena plantação no município de Tupi Paulista, SP.
No material proveniente da Bahia, juntamente com as amostras de folhas, vieram também, frutos apresentando na parte superior mais exposta, numerosas lesões de forma mais ou menos circular e que variavam de 1 a 8 mm. Tais lesões mostravam nos bordos, sintomas de anasarca, ou seja, de aspecto encharcado semelhante a uma bolha.
Os exames dos corpos de frutificação encontrados nos dois materias foram feitos ao microscópio estereoscópico e ótico, permitindo identificar o agente causal como sendoLeveillula taurica (Lév.) Arn., na sua forma anamórfica de Oidiopsis taurica (Lév.) Salmon.
De acordo com CORREL et al. (1987), este fungo é o único patógeno foliar que tem a capacidade para infectar um tão amplo e diversificado número de espécies. HIRATA (1968), citado, por CORRELL et al. (1987), descreve cerca de 710 espécies hospedeiras deste fungo, distribuídas em 59 famílias botânicas. PALTI (1974), relatou L. taurica em 27 espécies de plantas de interesse econômico.
L. taurica é um fungo bastante adaptado a regiões de clima árido e semi-árido como ocorre em certas regiões da Ásia, Mediterrâneo e norte da África (PALTI, 1971).
Nos Estados Unidos, este fungo foi descrito também em culturas de interesse econômico como pimentão na Flórida e Utah (BLASQUEZ, 1976; THOMSON & JONES, 1981) tomate, (KONTAXIS & VAN MAREN, 1978), cebola (LAEMMLEN & ENDO, 1985) e algodão (CORRELL, 1986) na Califórnia.
Levantamento realizado no Herbário Micológico do Instituto Biológico, revelou que em dezembro de 1956, foi observado por A.C. Andrade em amostras de folhas de tomateiro procedentes da região de Pindamonhagaba, o fungo Oidiopsis sp., porém, nada foi relatado (material registrado sob nº IBI 6722). Recentemente foi constatado em pimentão cultivado pelo sistema de plasticultura em Brasília, DF (BOITEUX et al., 1994) e na região de Itupeva, SP. SINAGAGLIA et al. (1995) e SANTOS et al. (1994) também relatam a primeira ocorrência deste fungo em plantas de tomateiro, no Distrito Federal.
Na literatura mundial, há algumas referências sobre Leveillula taurica ocorrendo em mamoeiro, na Índia (ULLASA et al., 1983), onde estudaram 6 cultivares de mamão com resistência a doenças, incluindo a causada por L. taurica.ULLASA & RAWAL (1984) relatam na Índia a infecção de L. taurica em plantas de Papaver rhoeas, um tipo de papoula e em Moringa oleifera, planta produtora de óleo lubrificante de mecanismos de precisão, localizadas nas proximidades da cultura do mamoeiro, também apresentando a doença. Em Portugal, SEQUEIRA (1982) relata a ocorrência de L. taurica em plantas de mamoeiro sob condições de casa de vegetação e campo.
L. taurica, ao contrário das doenças membros de Erysiphaceae que possuem micélio superficial, possui micélio predominantemente endofítico parasitando os tecidos do mesófilo. Os conidioforos são longos, frequentemente ramificados com conídios desenvolvidos solitariamente ou em cadeias curtas de até 5 conídios dimórficos, lanceolados quando terminais ou cilíndricos quando intercalares. As dimensões dos conídios são extremamente variáveis (70) 61x16 (-8) µme (72-) 61x16 (-12) µm. (Figs. 1, 2 e 3).
A forma teleomórfica, não observada em nosso meio é morfologicamente semelhante aErysiphe, com fulcras simples e cleistotécios contendo vinte ou mais ascos por ascocarpo. A separação do gênero é feita pela morfologia do anamorfo e posição endofítica do talo somático.
Confirmada a etiologia deL. taurica nos Estados de Bahia e São Paulo, parece oportuno chamar a atenção sobre o controle da doença. Trabalhos conduzidos por RAWAL (1986), na cultura do mamão com os princípios ativos triadimefon e carbendazim a O,1 %, aplicados a intervalos de 15 dias e experimentos realizados por ZIV et al. (1994), na cultura do pimenta utilizando bicarbonato de sódio e potássio a 0,5%, reduziram a incidência da doença.
Esta é a primeira constatação do fungo Leveillula taurica (Oidiopsis taurica), causando doença em mamoeiro no Brasil. O material herborizado foi registrado no Herbário Micológico do Instituto Biológico sob o nº IBI 11814.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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