Open-access EFEITO ACARICIDA I)E ALGUNS EXTRATOS VEGETAIS SOBRE TETRANYCHUS URTICAE (KOCH, 1836) (ACARI: TETRANYCHIDAE) EM LABORATÓRIO

ACARICIDE EFFECT OF SOME EXTRACTS ON Tetranychus urticae (KOCH, 1836) (ACARI: TETRANYCHIDAE) IN LABORATORY

RESUMO

Foram realizados testes para verificar a atividade acaricida de alguns extratos vegetais aquosos de diferentes plantas, para o controle do ácaro rajado Tetranychus urticae. Controle satisfatório foi obtido com os extratos de Annona sp., Agave sp., Ruta graveolens e Dieffenbachia brasiliensis, com eficiência superior a 80%. Outras plantas demonstraram atividade acaricida como Melia azedarach, Sonchus oleraceus, Nicotiana tabacum, Hevea brasiliensis, Spondias sp., Peninsetum purpureum, Codiaeum variegatum e lmpatiens walleriana, com eficácia entre 51,3 e 77,3%.

PALAVRAS-CHAVE:
Acaricidas; extratos vegetais; Tetranychus urticae.

ABSTRACT

Tests to evaluate the acaricide activity of different aqueous extracts, to contrai the "two-spotted spider mite" Tetranychus urticae were performed. Satisfactory contrai was obtained with Annona sp., Agave sp., Ruta graveolens, and Dieffenbachia brasiliensis extracts, showing efficiency higher than 80%. Other plants demonstrated acaricíde activity such as Melia azedarach, Sonchus oleraceus, Nicotiana tabacum, Hevea brasiliensis, Spondias sp., Peninsetum purpureum, Codiaeum variegatum and Impatiens walleriana, with efficiency between 51.3 and 77.3%.

KEY WORDS:
Acaricídes; extracts; Tetranychus urticae.

INTRODUÇÃO

O ácaro rajado Tetranychus urticae é considerado um dos ácaros de maior importância em todo o mundo, atacando um grande número de culturas, podendo-se citar o algodoeiro, morangueiro, roseira, tomateiro, feijoeiro, soja, pessegueiro, etc. Nessas culturas, este ácaro tem sofrido a ação de produtos químicos utilizados ao longo dos anos, para seu controle. Este fato tem levado ao aparecimento de resistência do ácaro a vários defensivos, em diversos países.

Em trabalhos realizados no Instituto Biológico, utilizando-se para todos os ensaios como parâmetro de comparação uma população de T. urticae sensível (proveniente de mata nativa); verificou-se que T. urticae oriundo de videira (Vitis spp.) de Pilar do Sul era 5,02 vezes mais resistentes ao dimetoato; apresentava início de resistência ao cíhexatin e propargito; e nenhuma ao naled e mevinfós (SOUZA FILHO et al., 1992). Na região de Itapevi/SP, em roseira, T. urticae demonstrou resistência de 1,88 vezes ao dimetoato; 5,22 ao cihexatin; 2,33 ao propargito; 3,54 ao naled e 2,30 ao mevinfós (SUPLICY FILHO et al.,1992). Constatou-se para a mesma praga em roseira (Rosa sp.) no município de Holambra/SP, 0,83 vezes de resistência ao dimetoato; 4,08 ao cihexatin; 1,24 ao propargito; 2,18 ao naled e 1,38 ao mevinfós (TAKEMATSU et al., 1993). Segundo SATO et al., 1993 na cultura do morangueiro (Fragaria sp.) foi constatado resistência ao dimetoato 1,16 vezes; 5,44 ao cihexatin; 2,43 ao propargito; 3,18 ao naled e 1,12 ao mevinfós, nos municípios de Atibaia e Piedade (SP).

O uso de extratos vegetais como inseticidas é bem antigo, como o trabalho realizado por McINDOO (1917) utilizando extratos de Qua.ssia sp. contra várias espécies de pulgões. HEAL et al. (1950) estudaram o efeito inseticida dediversos extratos aquosos em Biatelia germanica.JACOBSON (1958, 1975) realizou duas revisões da literatura sobre as espécies vegetais cujos extratos demonstraram ser tóxicos a insetos (Annona spp, Berberis thunbergii, Cordia spp, Anthemis spp, Ocimum spp e outras). CRAVEIRO etal. (1981) relatam várias plantas do nordeste do Brasil com atividade inseticida (Lippia sp., Croton compressus, Anacardium occidentale, Eucaliptus alba, Eugenia jambo/ana). GUERRA (1985) cita que 974 plàntas com ação inseticida já foram identificadas (Calendola_ Ç>jficinalis, Allamanda nobilis, Annona squamosa, Anthemis _spp, Capsicum annuum, Croton spp e outras).

MANSOUR & ASCHER (1984) utilizaram extratos de sementes de Azadirachta indica e obtiveram redução na produção de ovos de Tetranychus cinnabarinus.

BARAKATet al. (1986a) empregaram vários extratos de plantas e constataram decréscimo na oviposição e longevidade de fêmeas de T. urticae.BARAKAT et al. (1986b) verificaram que o extrato acetônico de Datura stramonium foi eficiente avicida para T. urticae.BARAKAT et al. (1986c) avaliaram a compatibilidade e eficiência de misturas de extratos de plantas com acaricidas no controle de T. urticae, sendo que o extrato acetônico de Lupinus termis misturado com a deltametrina foram eficientes no controle.

MANSOUR et al. (1986) empregaram soluções acetônicas de Lavandula angustifolia, L /atifolia, Melissa officinalis, Mentha piperita, Salviafruticosa e Ocimum basilicum em fêmas adultas de T. urticae, e obtiveram mortalidade e indução de repelência. MANSOUR et al. (1987) avaliaram vários extratos de sementes de Azadirachta indica e o extrato pentânico foi o mais eficiente para Tetranychus cinnabarinus.

REICHLING et al. (1991) estudaram o efeito biológico de fenilpropanóides de plantas do gênero Pimpinella sobre várias pragas e verificaram que a atividade acaricida em Tetranychus telarius ocasionou 100% de controle na concentração de 100 ppm. DIMETRY et al. (1990) trataram fêmeas de T.urticae com b-amyrin (composto isolado de sementes deAbrus precatorius) obtiveram redução significativa nonúmero de ovos e na fertilidade dos mesmos. DIMETRY et al. (1992) testaram alcalóides isolados de sementes deAbrus precatorius sobre fêmeas de T. urticae e obtiveram redução do período de oviposição e fecundidade.

DIMETRY et al. (1993) constataram que a azadirachtina (substância extraída de Azadirachta indica,formulação comercial NEEM azal-S) exibiu grande toxicidade e decréscimo na produção e fertilidade de ovos de fêmeas de T. urticae.

Considerando-se . a importância econômica das culturas prejudicadas pelo ácaro rajado T. urticae, foi realizado o presente trabalho para verificar a atividade acaricida de alguns extratos vegetais objetivandose oferecer um método alternativo de controle.

MATERIAL E MÉTODOS

Através de levantamento bibliográfico selecionou-se diversas espécies vegetais (Ensaios Ia VI) baseando-se: a-) na sistemática química dos vegetais, considerando o princípio da predição; b-) no conhecimento da natureza química de alguns de seus componentes; c-) na tradição popular do uso de certos vegetais como inseticidas.

O trabalho foi desenvolvido no Laboratório de Entomologia do Instituto Biológico, em São Paulo, SP. Os vegetais coletados foram corretamente identificados através de comparação com exemplares de herbários oficiais e com literatura especializada.

Para a obtenção dos extratos aquosos foi utilizado o método adotado por ROBERT (1976) onde; partes frescas da planta foram maceradas em água destilada (na proporção de 20g de folhas pata 200 mL de água destilada), separando-se a -massa vegetal com um coador, obtendo-se o extrato aquoso.

Para a obtenção dos extratos acetônicos, o mate rial fresco foi triturado em liqüidificador com quantidade suficiente de acetona para a massa existente. Posteriormenteesta massa foi colocada em um becker de 1000 mL e agitada com um bastão de vidro, permanecendo nessa condição por 24 horas. Após este período a massa foi separado através de filtragem em funil com papel de filtro. A parte líquida foi concentrada em um evaporador à temperatura de 50ºC, resultando o extrato bruto que posteriormentefoi diluído em água.

Ensaio 1
Vegetais utilizados: espécie botânica, família, nome popular, tipo de extrato e partes empregadas.

Os adultos de T. urticae foram coletados no município de Jundiaí, na cultura de pêssego. Após a coleta, os ácaros foram mantidos em casa de vegetação sobre feijão comum (Phaseolus vulgaris L. cv. IAC-Carioca), plantados em vasos, para manutenção da criação estoque.

Odelineamento estatístico adotado foi inteiramente casualizado com 9 tratamentos nos ensaios de I a V e 8 tratamentos no ensaio VI, ambos com repetições em cada ensaio (Quadros I a VI).

A metodologia adotada na execução dos experimentos com T. urticae foi a mesma utilizada por SUPLICY FILHO et al. (1979) e é descrita a seguir.

Utilizou-se uma lâmina de vidro de 75mm x 25mm, na qual se colocou fita adesiva dupla face, o que permitiu a existência de um campo de fixação de ácaros, equivalente. Fixou-se 20 ácaros fêmeas pelo dorso com o auxílio de um pincel de pêlo fino em lâmina previamente preparada. Executou-se o tratamento da lâmina, com os respectivos ácaros, imergindo-a no extrato por 5 segundos e levemente agitada. As lâminas tratadas com os respectivos ácaros foram mantidas em laboratório com T ºC de 25 ± 2C e 70 ± 10% UR, pelo período de 48 horas. Ao término deste prazo as lâminas foram avaliadas. Os ácaros que não apresentaram movimento nas pernas ao serem tocados levemente com pincel no ventre, foram considerados mortos. O delineamento estatístico foi inteiramente casualizado com cinco repetições. Os dados foram transformados em x+0,5 e submetidos ao teste F e Tukey a 5% de probabilidade.

RESULTADOS

No ensaio I, todos os extratos diferiram estatisticamente da testemunha, porém apenas o extrato de Dieffenbachia brasiliensis apresentou resultado significativo de controle, eficiência de 82,88% (Tabela 1). Os extratos de Pennisetum purpureum, Allamanda cathartica e Spathodea campanulata apresentaram eficiência de 53,82; 46,02 e 40,89%, respecüvamente. Bauhinia sp., Dracaenafragans, Paspalum notarum e Ambrosia elatior tiveram eficiência abaixo de 40,0% (Tabela 1).

Não obteve-se no Ensaio II nenhum resultado altamente significativo com os extratos aquosos que indicasse a possibilidade de novos estudos para a sua utilização em campo, pois o melhor resultado obtido foi com o extrato de Spondias sp. o qual apresentou 54,21% de eficiência (Tabela 2). Extratos de Anthurium sp. e Panicum maximum apresentaram 35,99 e 26,14% de eficiência, respectivamente. Os extratos de Cymbopogon citratus, Digitaria insularis, Ocimum basilicum, Hibiscus rosa-sinensis e Tabebuia ipe tiveram eficiência abaixo de 20,0% (Tabela 2).

Verificou-se que os extratos de Annona sp., Agave sp. e Ruta graveolens tiveram eficiência de 91,48%, 90,41% e 86,15%, respectivamente, diferindo dos demais tratamentos (Tabela 3). Os extratos de Bambusa sp. e Leucaena leucocephala tiveram eficiência de 48,88 e 47,81%, respectivamente. Os demais extratos, Baccharis trimera, Cassia sp. e Salvia splendens apresentaram eficiência abaixo de 30,0% (Tabela 3).

Com os resultados expostos acima verifica-se que estudos futuros poderão ser feitos com os extratos de D. brasiliensis, Annona sp., Agave sp. e Ruta graveolens, visando sua utilização em campo.

Os extratos de Sonchus oleraceus, Nicotiana tabàcum e Hevea brasiliensis apresentaram eficiêneia.de 70,62; 70,52 e 66,79%, respectivamente, diferindo dos demais tratamentos (Tabela 4). O extrato de lmpatiens walleriana obteve 51,30% de controle. Os demais extratos, Zingiber officinale, Eucalyptus citriodora, Cyperus rotundus e Sinaspis arvensis apresentaram eficiência entre 30,0 e 40,0% (Tabela 4).

O extrato de Melia azedarach obteve 77,31% de controle. Bidens pilosa, Helianthus annuus e Castanea vesca tiveram 38,85; 20,93 e 15,89% de eficiência. Os demais extratos, Caesalpiniaferrea, Caesalpinia pelthophoroides e Solanum americanum, não diferiram estatisticamente da testemunha (Tabela 5).

Os extratos de Codiaeum variegatum e Ricinus communis apresentarem 51,92 e 26,62% de eficiência. Os extratos de Arachis hipogaea, Piper nigrum, Euphorbia pulcherrima tiveram 17,73; 17,73 e 16,26% de controle. Euphorbia miili teve eficiência de 5,20% e o extrato de Phyllanthus corcovadensis não diferiu significativamente de testemunha (Tabela 6).

Tabela 1
Número de ácaros mortos por tratamento (nº) e porcentagem de eficiência (% Efic.)* de extratos vegetais sobre Tetranychus urticae (Koch, 1836) (Acari:Tetranychidae).
Tabela 2
Número de ácaros mortos por tratamento (nº) e porcentagem de eficiência (% Efic.)* de alguns extratos vegetais sobre Tetranychus urticae (Koch, 1836) (Acari:Tetranychidae).
Tabela 3
Número de ácaros mortos por tratamento (nº) e porcentagem de eficiência (% Efic.)* de alguns extratos vegetais sobre Tetranychus urticae (Koch, 1836) (Acari:Tetranychidae).
Tabela 4
Número de ácaros mortos por tratamento (nº) e porcentagem de eficiência (% Efic.)* de alguns extratos vegetais sobre Tetranychus urticae (Koch, 1836) (Acari:Tetranychidae).
Tabela 5
Número de ácaros mortos por tratamento (nº) e porcentagem de eficiência (% Efic.)* de alguns extratos vegetais sobre Tetranychus urticae (Koch, 1836) (Acari:Tetranychidae).
Tabela 6
Número de ácaros mortos por tratamento (nº) e porcentagem de eficiência (% Efic.)* de alguns extratos vegetais sobre Tetranychus urticae (Koch, 1836) (Acari:Tetranychidae).

DISCUSSÃO E CONCLUSÕES

Verificou-se atividade acaricida dentre os extratos vegetais testados. Os extratos de Annona sp., Agave sp., Ruta graveolens e Dieffenbachia brasiliensis obtiveram eficiência de controle superior a 80%. Outras plantas demonstraram bom potencial acaricida como Melia azedarach, Sonchus oleraceus, Nicotiana tabacum, Hevea brasiliensis, Spondias sp., Peninsetum purpureum, Codiaeum variegatum e lmpatiens walleriana, com eficácia entre 51,3 e 77,3%.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    21 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1999

Histórico

  • Recebido
    26 Ago 1998
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