Open-access MANIFESTAÇÃO DA FORMA PERFEITA DE LEUCOCOPRINUS GONGYLOPHORUS(MOLLER) HEIM EM SAUVEIRO ARTIFICIAL DE ATTA SEXDENS RUBROPILOSA FOREL

MANIFESTATION OF LEUCOCOPRINUS GONGYLOPHORUS (MOLLER) HEIM IN ARTIFICIAL NEST OF ATTA SEXDENS RUBROPILOSA FOREL

RESUMO

É registrado, em sauveiro artificial deAtta sexdens rubropilosa Forel, 1908, mantido em exposição no Instituto Biológico, Estação Experimental de Campinas, a ocorrência da forma perfeita de Leucocoprinus gongylophorus (Moller) Heim.

PALAVRAS-CHAVE:
Atta sexdens rubropilosa; Leucocoprinus gongylophorus.

ABSTRACT

The ocurrence of perfect shape of Leucoprinus gongylophorus (Moller) Heim in artificial sauval of Atta sexdens rubropilosa Forel, 1908, maintanined in laboratory conditions in the Biological Institute of São Paulo, Brazil, was registered.

KEY WORDS:
Atta sêxdens rubropilosa; Leucocoprinus gongylophorus.

As formigas cortadeiras são referidas no Brasil desde a época do descobrimento. Sua ação, que é devastadora em agroecossistemas, afeta a maioria das plantas denossa flora e tem sido incrementada em função daderrubada deflorestas naturais, na busca de novas áreas de plantio para as culturas econômicas. Tal procedimento vem contribuindo para agravar o desequilíbrio biológico, ativando condições que favorecem o crescimento ex11cerbado de populações das diversas espécies de formigas cortadeiras.

O prejuízo econômico decorrente da presença da praga nas Culturas paulistas, levou o Instituto Biológico de São Paulo, desdeos seus primórdios, ao estabelecimento de linhas de pesquisa que objetivassem o conhecimento da biologia da saúva e a determinação e aperfeiçoamento de técnicas para o seu combate. São conhecidos os trabalhos pioneiros de José Pinto da Fonseca e Maria Autuori, que em condições de laboratório iniciaram as pesquisas sobre a biologia da saúva e, depois, no campo, conduziram um vasto trabalho junto aos hortos florestais do Estado de São Paulo, pertencentes à Cia. Paulista de Estrada de Ferro, visando o cambate da praga **. Tais estudos, que levaram Autuori à consagração científica mundia:1 através da produção de conhecimentos inéditos (3, 4), seguiram até épocas mais recentes, com Elpidio Amante e Nelson Teixeira de Mendonça, voltados principalmente, para o controle químico (1, 2, 7).

Com o objetivo de melhor conhecer as características biológicas de um sauveiro, foi montado no Instituto Biológico, na década de 50, um formigueiro artificial que chegou a contar com aproximadamente 50 compartimentos (panelas) de vidro, e que por longos anos foi mantido e estudado por Mario Autuori. Com a extinção desse enorme sauveiro, o Instituto Biológico acabou por _desativar um atração que era motivo de visitações repetidas e entusiásticas.

Em 1991, com objetivo fundamentalmente didático, mas pensando também em desenvolver, no futuro, pesquisas alternativas de combate à saúva pela utilização de microrganismos de ação formicida, foi instalado na Seção de Controle Biológico das Pragas um formigueiro artificial, atualmente com 20 panelas. Este formigueiro encontra-se no "Espaço Cultural Mario Autuori", inaugurado em O1 de julho de 1991, por ocasião do 21º aniversário da Unidade, que é lotada na Estação Experimental de Campinas.

A montagem do sauveiro foi iniciada em 14 de março de 1991, quando foi feita a introdução de uma colônia coletada no município de Araras, SP., com idade aproximada de 1 ano. A colônia foi identificada como Atta sexdens rubropilosa Forel, 1908 (saúva limão).

A princípio a colônia contou com 5 panelas, que foram ocupadas de imediato. No compartimento reservado à rainha, o fungo, que esboroou na operação de transporte, teve recuperada sua estrutura em menos de 12 horas. A vida no sauveiro manteve-se normal até fins de maio, ou seja, dois meses e meio após sua instalação, quando passaram a ser observadas anormalidades que, em sequência, são relatadas a seguir:

31 de maio - A panela de fungo já se encontrava totalmente tomada, sendo observada uma movimentação anormal das formigas, que passaram a se concentrar em um dos compartimentos secundários, onde procediam a uma limpeza cuidadosa. Também no compartimento de alimentação havia movimento atípico. As formigas passaram a depositar lixo junto ao alimento e iniciaram seguidas tentativas de fuga.

03 de junho - Constatou-se, na câmara da rainha, emergindo da massa fúngica, o aparecimento de um corpo estranho, que se assemelhava a uma frutificação, e que crescendo passou a erguer a tampa de vedação. Tornou-se necessária a retirada da tampa, sobrepondo-se sobre a panela uma segunda peça de vidro, de forma a aumentar a altura do compartimento, assim possibilitando o desenvolvimento da frutificação.

04 de junho - Foi observado o início de nova colônia fúngica na panela secundária. Havia alto percentual de mortalidade entre as formigas e baixo corte de folhas na câmara de alimentação. Para ativar a alimentação da nova panela fúngica foi acrescentada ao sauveiro uma nova câmara para a colocação de folhas. Simultaneamente, constatou-se, na câmara da rainha, a existência de um segundo corpo de frutificação. A coloração de ambas era branco-creme e sua forma lobular (cebola).

10 de junho - Até essa data a movimentação continuava anormal; com tentativas de formação de novos ninhos de fungo (que foram removidos) na câmara de alimentação; tentativas de fuga; intensa remoção de cadáveres para as panelas de _ lixo. O corte de folhas prosseguia interrompido, a não ser na panela de alimentação secundária que atendia a segunda câmara de fungo, onde, aliás, era notório o seucrescimento.Na câmara da rainha havia redução paulatina no vÓlume do fungo, que com o correr do tempo chegou a menos da metade.

Entretanto, a partir de 10 de junho, a movimentação no sauveiro pareceu normalizar-se. As duas formações anormais apresentavam uma intumescência na região apical. O corpo maior apresentava-se arroxeado no ápice, enquanto que o menor era creme-escuro (Figura la).

12 de junho - A formação maior mostrava tendência de abertura da intumescência apical. Sua coloração mostrava-se bastante arroxeada e sua base havia se afilado (Figura lb).

13 de junho - O ápice da formação maior se abriu, aparecendo um chapéu característico de basidiomiceto. Este chapéu, quando totalmente aberto, alcançou 10 cm de diâmetro. Por sua vez, o pedicelo visível por estar fora da massa fúngica, tinha 15 cm de comprimento (Figura lc). A estrutura menor chegou a 5 cm para o diâmetro do chapéu e 6 cm para o pedicelo. A esta altura as formigas concentravam sua ação sobre os dois corpos de frutificação.

17 de junho - A frutificação menor havia sido totalmente consumida pelas formigas, razão pela qual foi procedida a retirada da maior, que também já se apresentava avariada.

Após a lavagem em água corrente, a frutificação foi remetida ao Instituto de Botânica da Secretaria de Estado do Meio Ambiente para efeito de identificação, tendo sido caracterizada como Leucocoprinus gongylophorus (Moller) Heim, fungo natural dos formigueiros de Atta sexdens rubropilosa. O material em apreço encontra-se herbarizado no Instituto de Botânica sob o nº SP 233.827.

Ocorrências da forma perfeita de fungos em formigueiros, naturais ou não, constituem-se em fatos incomuns, consequentes, provavelmente, de desequilíbrios que tenham precipitado uma queda na atividade das formigas. BONONI et al. (5) em 1981, ao relatarem uma ocorrência de L. gongylophorus em dois formigueiros de A. sexdens rubropilosa mantidos no Parque Zoológico de São Paulo, citam de um levantamento de literatura os seguintes casos: 1) Moller, em 1893, fez a primeira constatação ao estudar um ninho de Acromyrmex discigerMayr (o fungo foi identificado comoRozites gongylophoraMoller); 2) Autuori, em São Paulo, em 1940, em um formigueiro artificial de A. hispidus atratus, e Stahel & Geijskes, em 1941, em A. cephalotes L., observaram frutificações do mesmo fungo; 3) Weber, em 1957, constatou a presença de uma nova espécie de Lepiota em ninho de Cyphomyrmex costatus Mayr. Ainda segundo BONONI et al. (5), Heim, em 1957, estudando os fungos citados, incluiu-os no gênero Leucocoprinus e Weber, em 1979, embora sugerindo a possibilidade da ocorrência de diversos fungos para diferentes espécies de formigas, admite que algumas delas cultivamLeu- cocoprynus gongylophorus.

Para o caso específico da colônia mantida na Seção de Controle Biológico das Pragas parece não haver dúvida, face às características de vida do sauveiro, que algo de anormal provocou a queda de atividade das formigas e o consequente desenvolvimento da forma perfeita do fungo. Recuperado o equilíbrio as formigas iniciaram um trabalho de eliminação da formação atípica. As condições predisponentes determinaram, portanto, uma das raras manifestações do fenômeno em formigueiro artificial no Brasil. E por notável coincidência, se Autuori teve a oportunidade de acompanhar pessoalmente os três primeiros casos, este aconteceu naquele que, numa homenagem "postmortem", foi a ele dedicado em Campinas, na Estação Experimental do Instituto Biológico.

FIGURA 1
Leucocoprinus gongylophorus- Fases do desenvolvimento do basidiocarpo em panela com formigueiro - a: aos sete dias de crescimento; b: aos dez dias; c: aos onze dias.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem a Dr.ª Vera Lúcia Ramos Bononi, Pesquisadont do Instituto de Botânica, pela identificação do fungo e ao Biólogo Luís Francisco Angeli Alves pela colaboração prestada.

  • **
    Informação pessoal Nelson Teixeira de Mendonça. ln: CRUZ (6)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • 1 AMANTE, E. Competição entre Heptacloro pó e outros formicidas cloradas em pó, no combate à formiga saúva (Atta spp.). Biológico, São Paulo, 33(4):80-4, 1967.
  • 2 AMANTE, E. Combate a formiga saúva Atta capiguara Gonçalves, 1944 - praga das pastagens, com formicidas: concentrado emulsionável, gases liquefeitos, pós secos e iscas granuladas. Biológico, São Paulo,34(7): 149-58, 1968.
  • 3 AUTUORI, M. Algumas observações sobre formigas cultivadoras de fungo (Hym. Formicidae). Rev. Entomol., 11(1-2):215-24, 1940.
  • 4 AUTUORI, M. Investigações sobre a biologia da saúva. Ciênci. Cult.,São Paulo,1(1-2):4-12, 1949.
  • 5 BONONI, V.L.R.;AUTUORI,M.;ROCHA,M.B. Leucocoprinus gongylophorus (Moller) Heim, o fungo do formigueiro de Atta sexdens rubropilosaForel.Rickia,9:93-7, 1981
  • 6 CRUZ, B.P.B. No centenário da Secretaria da Agricultura e Abastecimento: 64 anos do Instituto Biológico. Instituto Biológico. Seção de Controle Biológico das Pragas, Campinas, 1991. 73 p. [Apostila].
  • 7 MENDONÇA, N.T.; NETO, A.M.; MENDON- ÇA, R.S. Biologia e testes experimentais com novos formicidas para o controle de formigas dos gêneros Atta e Acromyrmex. ln: PACHECO, P. & BERTI FILHO, E. eds. Formigas cortadeiras e o seu controle. Piracicaba, Instituto de Pesquisas Florestais, 1987. p.91-109.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1993

Histórico

  • Recebido
    16 Out 1991
  • Revisado
    Mar 1995
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