RESUMO
Os autores constatam a ocorrência da dermatite estival crônica recidivante pela primeira vez em São Paulo, observada em uma criação de eqüinos puro-sangue árabe. Além dos aspectos clínicos, são enfocadas as alterações anatomopatológicas microscópicas ocorridas na derme. São ainda tecidas considerações sobre o diagnóstico diferencial com outras patologias cutâneas, bem como o papel de insetos sugadores do gênero Culicoides como responsáveis por este tipo de ocorrência.
PALAVRAS-CHAVE:
Culicoides, eqüinos; dermatite estival recidivante.
ABSTRACT
The authors describe an occurrence of equine chronic seasonally recurrent dermatitis ("sweet itch") for the first time in São Paulo state, observed in a horse breeding establishment of Arabian pure-blood equines. Clinicai aspects and rnicroscopic anatomopathologic alterations of dermal tissue are studied. Differences in its diagnosis as compared to other skin pathologies are considered. The responsibility of the insects of the Culicoides genus is discussed, as is the cause of the disease.
KEY WORDS:
Culicoides, equines; "sweet itch".
INTRODUÇÃO
Adermatite estival recidivante crônica dos eqüinos é uma afecção de fundo alérgico, conseqüente a uma hipersensibilidade do animal às picadas de insetos. Costuma ser mais freqüente nos períodos quentes do ano e manifesta-se por uma dermatite proliferativodescamativa que surge após repetidas picadas de insetos que vão sensibilizar o animal em virtude dos alergenos que são por eles inoculados no ato de picar.
Tem, em geral, uma localização ao longo da linha dorsal do animal com alguma preferência para as regiões da crina, da inserção da cauda e primeiras vértebras coccígeas. Determina uma hiperqueratose com prurido local intenso o que leva o animal a coçarse contra objetos rígidos, ocasionando freqüentemente erosões da pele e conseqüente complicação do quadro clínico por infecções secundárias.
Foi descrita em diversos países tendo recebido denominações variadas conforme o autor e o local. Assim, é possível encontrar na literatura os seguintes nomes: "summer eczema" na Alemanha; "dermatite estival des équides", "eczéma d'été", "eritheme solaire", "derrnite du chaleur" e" gale d'été" na Algéria; "equine dhobie itch" nas Filipinas; "lichen tropicus" e "indian ringworm" na Índia; "alergic urticaria" em Israel; "kazen disease" no Japão; "Queensland itch" na Austrália; "sweet itch" no Reino Unido; "summer dermatitis'', "chronic seasonaly recurrent dermatitis" e "alergic dermatitis of equines" nos Estados Unidos e "dermatose estivale récidivante du cheval", "sores dété", "affection saisonniere récidivante du cheval" e "Ardeours", na França.
A primeira citação desta entidade patológica é atribuída a Lecoq e data de 1840 apud H NRY & BORY°(1937). Em 1888 foi assinalada na Austrália onde um comitê especialmente criado para estudar a doença divulgou oficialmente suas conclusões.
Seguidamente a doença foi registrada em diversos países: na França (HENRY & BORY, 1937); na Algéria(SEACH, 1946); naAustrália(RIEK, 1953a); no Japão (NAKAMURA et al., 1956; ISHIHARA & UENO, 1958); nos Estados Unidos (McMULLAN, 1971) e no Reino Unido (McGAIG, 1973; BACKER & QUINN, 1978).
Os trabalhos iniciais enfocando a presença de Culicoides no Brasil são devidos à LUTZ (1912,13) quando este autor publicou seus estudos taxonômicos desse gênero, incluindo adescrição de novas espécies.
Não encontramos, entretanto, na literatura nacional pertinente à Medicina Veterinária citações anteriores do problema, embora com relação à espécie humana a doença já tenha sido detectada na Bahia conforme os trabalhos de GUIMARÃES & ROCHA (1959) e SCHERLOCK (1963, 64) que realizaram observações sobre a presença dessa dermatozoonose entre nós.
O presente relato refere-se à constatação de um quadro de dermatite em eqüinos da raça puro-sangue árabe, com as lesões situadas preponderantemente à altura da inserção da cauda e primeiras vértebras coccígeas, onde era evidente um quadro de hiperqueratose e os pelos locais mostravam-se hirtos, sem brilho, secos e quebradiços. A pele exibia um aspecto áspero e forte descamação (Figs.1 e 2).
Os animais exibiam um quadro clínico de inquietação motivado por prurido local e procuravam atritar a referida região contra objetos rígidos.
MATERIAL E MÉTODOS
Coletaram-se, das áreas lesadas, materiais para estudo laboratorial, constando de amostras de pelo, raspados profundos da pele e fragmentos da derme obtidos por biópsia local mediante uma incisão em cunha efetuada com bisturi comum. Estes fragmentos foram fixados em formal neutro a 20% para a realização de estudo histopatológico.
Após a inclusão em parafina, obtiveram-se, pelás técnicas habituais, cortes com a espessura de 5 micrometros que foram corados pelo método de hematoxilina-eosina.
Os pelos, bem como os raspados de pele foram destinados à pesquisa micológica, bacteriológica e parasitológica, para verificação da possível presença de fungos, bactérias patogênicas e ectoparasitas respectivamente.
RESULTADOS
Os espécimes de pele examinados à luz da histopatologia exibiram a epiderme com epitélio pavimentoso estratificado mostrando alterações na camada de Malpighi que se encontrava espessada e emitindo projeções em direção à derme, formando cones epiteliais profundos caracterizando assim um quadro de acantose; na superfície, notou-se grau discreto de hiperqueratose (Fig.3).
As alterações mais relevantes diziam respeito à derme e caracterizavam-se pela presença de infiltrado inflamatório com predomínio absoluto de células mononucleares e raros neutrófilos. Havia uma escassez de mastócitos no tecido conjuntivo da derma. O quadro inflamatório limitava-se às regiões próximas à epiderme e mostrava-se difuso (Fig.4). Os anexos dérmicos apresentavam-se preservados.
Áreas da pele da região de implantação da cauda e primeiras vértebras coccígeas exibindo espessamento da derme e os pelos eriçados.
Outra alteração notável, refere-se ao quadro de vasculite e perivasculite que comprometia todos os vasos presentes no tecido e que se caracterizava por um infiltrado de células mononucleares na parede e, por vezes, na periferia dos mesmos (Fig.5).
A somatória das lesões caracterizou um quadro de acantose e hiperqueratose associado a uma dermatite e vasculite crônicas, compatíveis com uma situação de hipersensibilidade local.
Não foi visualizada a presença de estruturas sugestivas de filarídeos nos cortes examinados e as pesquisas micológica, bacteriológica e de presença de ectoparasitas resultaram negativas.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
Os Culicoides têm sido apontados como os responsáveis pelo surgimento da dermatite estival crônica recidivante dos eqüinos (HENRY & BORY, 1937; SEACH, 1946; RIEK, 1953a,b e 1954; NAKAMURA et al., 1956; Me MULLAN, 1971; McGAIG, 1973; MELLOR, 1974; BAKER & QUINN, 1978).
Embora autores tenham demonstrado experimentalmente que outros insetos picadores também sejam dotados da propriedade de provocar afecções da pele, persiste para os componentes do gênero Culicoides a parcela mais significativa de culpa pc10 surgimento desses tipos de problema (BAKER & QUINN, 1978; QUINN et al. 1983).
Por outro lado, a literatura assinala que a doença mostra maior incidência em pôneis quando se considera o conjunto dos demais eqüideos (BRIT.EQU.VET.ASS.,1965; McGAIG, 1973) e ainda que, entre os eqüinos, os jovens são mais acometidos (HENRY & BORY, 1937; BRIT.EQU.VET.ASS., 1965). Este fato foi igualmente constatado por nós e, provavelmente, esteja relacionado a áreas mais delicadas da pele, o que favoreceria o inseto no ato de picar.
Fotomicrografia do corte histológico da pele mostrando acantose e discreto grau de hiperqueratose (66X).
A denominação de "Queensland itch" deve-se ao fato de que na Austrália, a província de Queensland é aquela que apresenta o maior índice deocorrência desta doença que chega a comprometer geograficamente cerca de metade do seu território (RIEK, 1953 a,b,c).
O diagnóstico diferencial deverá ser sempre considerado uma vez que a doença pode ser clinicamente confundida com outras dermatoses como sarnas, micoses, dermatofiloses, dermatites decorrentes de filariose ou de infecções várias, além das alérgicas que podem ser devidas a produtos químicos, medicamentos ou mesmo alimentos (HENRY & BORY, 1937; VAILLS, 1946; MELLOR, 1974).
Corte da pele com dermatite, onde se evidencia uma vasculite e perivasculite com infiltrado de células mononucleares (400X).
A histopatologia será sempre um método de diagnóstico de reconhecido valor (RIEK, 1954c; BAKER & QUINN, 1978). Outrossim, a captura de insetos com o escopo de verificar a possível presença de Culicoides compondo a fauna díptera da região é outro dado de importância fundamental.
No que se refere aos locais da picada parece haver certas áreas de preferência, assim é que no trabalho de MELLOR (1974) o autor estabelece pontos de eleição relacionados à espécie do culicoide capturado. Por outro lado, a preferência pela região de implantação da cauda e primeiras vértebras coccígeas que foi por nós verificada é igualmente assinalada nos trabalhos de HENRY & BORY (1937), RIEK (1953a, 1954) e McMULLAN (1971). Este último autor chega a utilizar a expressão "cauda de rato" para ilustrar o aspecto observado em relação aos pelos do local.
Finalmente devem ser citados os trabalhos experimentais de QUINN et al. (1983) que inoculou em eqüinos extratos obtidos de algumas espécies de insetos picadores, observando que as reações alérgicas mais significativas clinicamente foram aquelas obtidas a partir de Culicoides, fato que ilustra a forte condição alergênica existente nos mesmos e o grau de alteração causada pela picada desses insetos.
O problema das alergias às picadas de insetos é um assunto que permanece ainda pouco estudado no âmbito da veterinária nacional. Entretanto, em medicina humana já foi estudado de algum tempo como se constata pelos trabalhos de LUTZ (1912,13), FORATINI (1957), GUIMARÃES & ROCHA(1959), além dos trabalhos de SHERLOCK (1963/64) que observou na Bahia uma dermatose conseqüente à ação de Culicoides, efetuando detalhado estudo a respeito do problema.
Nesses trabalhos, o autor não apenas registra · a ocorrência clínica mas também realiza testes experimentais com a inoculação de um antígeno preparado a partir de insetos coletados. Nesse estudo destaca ainda a existência de um componente para a manifestação clínica queseria asensibilidade individual, chegando mesmo a afirmar: "cada indivíduo reage de modo diferente à picada deCulicoides, atingindo o grau da reagibilidade do insensível ao hipersensível".
Tal raciocínio pode, por analogia, ser aplicável à patologia veterinária, o que explicaria o fato de que em uma mesma propriedade e no mesmo lote de animais seja verificada a presença de alguns sem qualquer alteração cutânea ao lado de outros com significativa manifestação clínica.
Na presente ocorrência os dados obtidos pelos exames histopatológicos são compatíveis com aqueles encontrados por outros autores (HENRY & BORY,1937; RIEK, 1953a,b; BAKER & QUINN, 1978).
Acaptura deexemplares do grupoCulicoides (Fig.6) é ponto importante no estabelecimento do diagnóstico, reforç do ainda pelofatodenãoseterobtido positividade na pesquisa de agentes causais de sarnas, micoses, filariose, dermatofilose ou mesmo estafilococcias.
TRATAMENTO
Inicialmente foi recomendada a retirada dos animais do piquete de pasto onde o problema foi registrado. Tal recomendação prendeu-se ao fato de que ao lado do referido pasto havia um córrego, o que favorece a presença dos insetos.
Após a realização da tricotomia na região atingida foi aplicada, com massagem duas vezes ao dia, uma pomada cuja composição envolvia um antihistamínico, um anestésico visando minimizar o prurido e um agente queratinolítico para favorecer a penetração dos medicamentos.
O uso de anti-histamíniêos por via sistêmica ou local constitui-se na medicação de uso mais freqüente e é aquela que melhores respostas terapêuticas oferece, como se constata pelos trabalhos de RIEK (1953a,b), McMULLAN (1971), MELLOR (1974) e QUINN et al. (1983).
Por se tratar de animais de linhagem zootécnica diferenciada adotou-se abrigar os animais em recinto fechado no período noturno, recolhendoos antes do ocaso, momento em que a atividade dos Culicoides se mostra mais intensa. O uso de soluções repelentes para insetos mostrou ser um recurso complementar valioso.
As medidas adotadas lograram a recuperação dos animais e o controle do problema na propriedade.
AGRADECIMENTO
Os autores agradecem à colaboração prestada pelo Dr. Fernando Amadeu Oliveira Motta Azevedo Correia, pesquisador da Diretoria de Combate a Vetores da Superintendência do Controle de Endemias do Estado de São Paulo (SUCEN).
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