Open-access ACARINOSE DOS CANÁRIOS: UM PROBLEMA EMERGENTE

ACARINOSIS OF CANARIES: AN EMERGENT PROBLEM

RESUMO

O presente relato enfoca o problema da acarinose das vias respiratórias de canários (Aves Passeriformes), onde o Sternostoma tracheacolumLawrence, 1948 é apontado como o agente responsável mais significativo.

Os autores destacam o papél emergente que a doença vem assumindo dentro da criação de aves ornamentais e o perigo da aquisição de exemplares cuja procedência não seja conhecida.

PALAVRAS-CHAVE:
Acàrinose; canários; Sternostoma tracheacolum.

ABSTRACT

The authors point out the importance of the species Sternostoma tracheacolumLawrence, 1948, as the cause of respiratory disease in canaries (Serinus canarius L.). They also describe the emergent role of the disease in ornamental bird breeding, as well as the danger represented by the acquisition of birds from unknown origin.

KEY WORDS:
Acarinosis; canaries; Sternostoma tracheacolum...

A acarinose dos canários, vulgarmente conhecida como asma ou fole, é uma doença que vem se apresentando de modo crescente nas criações de canários e de outras espécies de pássaros ornamentais criados em cativeiro.

Duas espécies de ácaros têm sido apontadas, por vários autores, como responsáveis pela acarinose dos canários: Sternostoma tracheacolumLawrence, 1948 e Cytoleichus nudus (Vizioli, 1870).

Diferentes espécies do gênero Sternostoma Berlçse & Trouessart, 1889 já foram assinaladas nas cavidades nasais de aves da ordem Passeriformes (TROUESSART, 1883; BERLESE & TROUESSART, 1889; VITZTHUM, 1935; STRANDTMANN, 1951). Entretanto, as primeiras citações de S. tracheacolum como sendo o agente causal de problemas respiratórios em canários são devidas a STEPHAN et al.(1959) que descreveram a sua ocorrência na África do Sul, associando-o definitivamente à•sintomatologia observada e que se caracterizava por 'dificuldade no ato de respirar e um ruído audível a cada movimento respiratório.

Seguidame11te, outros autores passaram a registrar a ocorrênci_a da acarinose em diversas espécies de aves. Assim, CASSAMAGNAGHI (1952) responsabilizava asespéciesC. nudus, Laminosioptes cysticola e S. tracheacolum como agentes da doença em pássaros cativos; MEDDA (1953a, 1953b) assinalava a acarinose em canários, em cardeais e em andorinhas européia ; CUMMING (1959) afirmou que a doença se encontrava disseminada na África do Sul e assinalava sua presença em diamante de Gould (Peophila gouldiar), considerando que nesta ave a doença mostra um curso rápido e se reveste de mortalidade muito elevada.

Na literatura nacional citam-se os trabalhos de TORRES etal. (1951) que descrevem aacarinose em canários no Rio de Janeiro e identificam como agente causal o S. tracheacolum e BIRGEL & PEREIRA (1962) que assinalaram a presença doS. tracheacolum determinando quadro típico da acarinose respiratória em canários no Estado de São Paulo.

As citações da doença entre nós são raras, embora o problema venha mostrando um perfil crescente nas criações de aves ornamentais, especificamente .da ordem Passeriformes. A presente comunicação teve como objetivos registrar o aspecto emergente da acarinose por S. tracheacolum, alertar para o perigo de uma disseminação mais ampla e para os prejuízos significantes que ela pode representar para as criações de aves ornamentais, uma atividade que vem assumindo uma importância de alto significado econômico.

Na rotina de atendimento aos criadores de aves ornamentais, realizado pelo Setor de Ornitopatologia do Instituto Biológico, tem surgido em frequência crescente casos de canários apresentando dispnéia em graus variados, perda do canto, nítida diminuição na intensidade do piar ou, até mesmo, total incapacidade de emitir qualquer som.

Ao exame das aves distinguiu-se um ruído audível, a cada movimento respiratório, constituido por um chiar persistente que ganhava intensidade na medida em que a ave aumentava a frequência respiratória.

À necrópsia, verificou-se na mucosa traqueal e mesmo na árvore brônquica pequenos pontos escuros devidos à presença do ácaro. O exame mais acurado, com auxílio de lupa, revelou que esse agente se encontrava envolvido por grande quantidade de muco (Fig. 1) que, emconjunto, diminuiaconsideravelmente a luz dos brônquios dificultando a respiração e determinando a sintomatologia observada. O exame desse agente permitiu, em todas as ocasiões, constatar tratar-se do S. tracheacolum descrito por LAWRENCE em 1948.

Com alguma freqüência outros ácaros foram observados por nós em canários, como Cytoleichus · nudus e representantes da farm1ia Dermoglyphidae.

A acarinose dos canários, entre nós, vem se mostrando como problema crescente, a julgai; pelo aumento das ocorrências que vêm sendo registradas ultimamente. Tal fato deve-se a significativa expansão que a canaricultura tem apresentado e, principalmente, a desinformação sobre esse problema, notadamente no que se refere aos cuidados sobre a procedência das aves no momento da aquisição.

Fig. 1
Exemplar de S. tracheacolum envolto pelo muco traqueal.

O papel dos pardais ou outras aves nativas como propagadores da infestação não deve ser cogitado já que.o mecanismo de transmissão direta dos adultos às crias durante a fase de alimentação, ainda no ninho, é a principal via de contágio.

A possibilidade deoutras espécies de ácaros serem responsabilizadas por problemas respiratórios em passeriformes, embora não sendo inviável, é uma ocorrência pouco comum, apesar de CASSAMAGNAGHI (1952) ter feito referência ao C. nudus e ao L. cysticola como causadoras de . endocarioses em aves cativas. Também BIRGEL & PEREIRA (1963/4) denunciaram a presença de C. nudus em sacos aéreos de Serinus canarius.

CASSAMAGNAGHI (1952) e TORRES et al. (1951) estudando a histopatologia em casos de acarinoses citam a aerosaculite, as broncoectasias e os focos de broncopneumonias, com a presença de nódulos inflamatórios no parênquima pulmonar contendo o ácaro, além de processos hemorrágicos, enfizema e um infiltrado inflamatório nas áreas adjacentes ao mesmo, inclusive com a presença de células gigantes envolvendo o parasita. Tal quadro caracterizava o que os autores denominaram de nódulo parasitário.

Tentativas de tratamento têm sido realizadas, embora a fragilidade física das espécies hospedeiras seja sempre um fator limitante para a utilização de medicamentos ou produtos acaricidas.

O uso de Dicloryos*, em suportes físicos que liberam o princípio ativo por volatilização no ambiente, foi um recurso bastante utilizado há alguns anos, distribuindo-se as placas impregnadas pelo inseticida no criatório, obedecendo-se a um número determiJ;iado por metro cúbico do ambiente.

Mais recentemente o uso do Trichlorton**, em solução a 1:1000 e de preparo recente, também tem sido preconizado, fazendo-se a aplicação com auxílio de cotonete em um único ponto de toque sobre a pele na região dorsal da ave, a altura dos pulmões. A manobra poderá ser repetida após 10 dias se necessário. Entretanto, deve-se alertar os criadores para o risco de intoxicação para as aves se a manobra não for realizada com os devidos cuidados, visto que o produto é de elevado teor tóxico.

É importante um controle perfeito no preparo da solução, cuja proporção deve ser rigorosamente observada e_ser de preparo recente, já que o produto. se desnatura algumas horas após a sua diluição.

  • *
    DDVP, CIBA GEIGY/SHELL
  • **
    NEGUVON, BAYER DO BRASIL

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  • BERLESE, A. & TROUESSART, E.L. Diagnoses d' acariens nouveaux ou peu connus. Bol.Soc.Sci.Nat.Ouest.France(Nantes), v.2, n.2, p.126-130,1889.
  • BIRGEL, E.H_, & PEREIRA, P.C. Observações clínicas sobre a associação de levedura à infecções e infestações de canários (Serinus canarius). Rev..Fac.Med.Vet., São Paulo,v.7, n.l, p.289-297, 1963/4.
  • CASSAMAGNAGHI, A. Las endoparasitosis de nuestras especies domesticas. Boi. Mens. Mini. Ganad.Agric. Uruguay, v.33,n.2,p.80-90,1952.
  • CUMMING, R.B. Respiratory acariasis of canaries and gouldian finches. J.S.Afr.Vet.Med.Assoc., v.30, n.l, p.31-32,1959.
  • LAWRENCE, R.F. Studies on some parasitic mites from Canada and South Africa. J.Parasitol., v.34, n.5, p.364-379,1948.
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  • STEPHAN, S.A.R.; KASCHULA, V.R.; CANHAM, A.S. Respiratory acariasis of canaries. J.S.Afr.Vet.Med.Assoc., v.21, n.2, p.103-107,1950.
  • STRANDTMANN, R.W. The mesostigmatic nasal mites of birds. II. New and poorly known species of Rhinonyssidae. J. Parasitol., v.37, n.2, p.129-140,1951.
  • TORRES, C.M.;LENT, H. & MOREIRA, L.F. Acarinose das vias respiratórias do canário ("Serinus canarius" L.) por "Sternostoma tracheacolum" Lawrence, 1948. Rev.Brasil.Biol., v.11, n.4, p.399-406,1951.
  • TROUESSART, E.L. Note sur les acariens parasites des fosses nasales des oiseaux. Comp.Rendus Heddom Soc.Biol, (ser 9), v.7, n.1, p.723-725,1883.
  • VITZTHUM, H.G. Milben aus der Nasenhoehle von Vogeln. J.Ornithol., v.83, n.4, p.563-587,1935.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1996

Histórico

  • Recebido
    15 Mar 1996
  • Aceito
    09 Abr 1996
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