Resumo
Objetivo Estimar a prevalência da violência geral por parceiro íntimo durante a pandemia de COVID-19, a coocorrência desse agravo e os fatores associados.
Métodos Estudo transversal de base populacional, realizado no município de Vitória, Espírito Santo, Brasil. A coleta de dados ocorreu entre janeiro e maio de 2022. Participaram 1.086 mulheres com 18 anos ou mais. Para identificar os casos de violência geral por parceiro íntimo, utilizou-se instrumento validado pela Organização Mundial da Saúde, e a prevalência foi estimada e analisada de acordo com as características socioeconômicas, experiências familiares e de vida. A regressão logística foi utilizada para estimar o Odds Ratio (OR) bruto e ajustado, e seus respectivos Intervalos de Confiança de 95% (IC95%).
Resultados A prevalência de violência geral contra a mulher perpetrada pelo parceiro íntimo durante a pandemia foi de 21,3%. Quanto aos fatores associados, observa-se que as mulheres com maior probabilidade de serem vítimas de violência por parceiro íntimo na pandemia eram as mais jovens, as que viviam sem o companheiro, as que tinham menor escolaridade e aquelas com histórico de violência sexual na infância (p<0,05).
Conclusão Fatores socioeconômicos e a experiência de vida estiveram associados à violência praticada pelo parceiro íntimo na pandemia.
Descritores:
Violência contra a mulher; Violência por parceiro íntimo; Violência; Pandemias; COVID-19
Abstract
Objective To estimate the prevalence of general intimate partner violence during the COVID-19 pandemic, the co-occurrence of this condition, and associated factors.
Methods This is a cross-sectional, population-based study conducted in the municipality of Vitória, Espírito Santo, Brazil. Data collection took place between January and May 2022. A total of 1,086 women aged 18 or older participated. An instrument validated by the World Health Organization was used to identify cases of general intimate partner violence, and prevalence was estimated and analyzed according to socioeconomic characteristics, family, and life experiences. Logistic regression was used to estimate the unadjusted and adjusted Odds Ratio (OR) and their respective 95% Confidence Intervals (95%CI).
Results The prevalence of overall intimate partner violence against women during the pandemic was 21.3%. Regarding associated factors, women most likely to be victims of intimate partner violence during the pandemic were younger, those living without a partner, those with less education, and those with a history of childhood sexual violence (p<0.05).
Conclusion Socioeconomic factors and life experience were associated with intimate partner violence during the pandemic.
Keywords:
Violence against women; Intimate partner violence; Violence; Pandemics; COVID-19
Resumen
Objetivo Estimar la prevalencia de la violencia general por parte de la pareja íntima durante la pandemia de COVID-19, la coocurrencia de esta agresión y los factores asociados.
Métodos Estudio transversal de base poblacional, realizado en el municipio de Vitória, estado de Espírito Santo, Brasil. La recopilación de datos se llevó a cabo entre enero y mayo de 2022. Participaron 1086 mujeres mayores de 18 años. Para identificar los casos de violencia general por parte de la pareja íntima, se utilizó un instrumento validado por la Organización Mundial de la Salud, y la prevalencia se estimó y analizó de acuerdo con las características socioeconómicas, las experiencias familiares y las experiencias de vida. Se utilizó la regresión logística para estimar la odds ratio (OR) bruta y ajustada, y sus respectivos intervalos de confianza del 95 % (IC95 %).
Resultados La prevalencia de la violencia general contra la mujer perpetrada por la pareja íntima durante la pandemia fue del 21,3 %. En cuanto a los factores asociados, se observó que las mujeres con mayor probabilidad de ser víctimas de violencia por parte de la pareja íntima durante la pandemia eran las más jóvenes, las que vivían sin pareja, las que tenían menor nivel educativo y las que tenían antecedentes de violencia sexual en la infancia (p<0,05).
Conclusión Los factores socioeconómicos y la experiencia de vida se asociaron con la violencia ejercida por la pareja íntima durante la pandemia.
Descriptores:
Violencia contra la mujer; Violencia de Pareja; Violencia; Pandemia; COVID-19
Introdução
A violência por parceiro íntimo (VPI) é a forma mais comum de violência contra as mulheres. Estima-se que até 38% dos assassinatos de mulheres no mundo são cometidos por um parceiro íntimo do sexo masculino, e uma em cada quatro meninas e mulheres com 15 anos ou mais nas Américas sofreram violência física e/ou sexual.(1) No Brasil, dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019 mostraram que 7,6% das mulheres brasileiras de 18 a 59 anos relataram VPI no último ano.(2)
Comumente, relacionamentos íntimos violentos afetam diretamente os laços sociais das mulheres e prejudicam seus relacionamentos com familiares, amigos e vizinhos, além de dificultar o acesso e a busca por apoio em instituições, como saúde, serviços sociais, segurança e educação.(3) Nesse contexto, vale ressaltar que situações de instabilidade econômica, turbulência social e calamidades naturais estão frequentemente associadas a diversos fatores de risco que contribuem para o aumento da violência contra as mulheres, sendo as pandemias um desses agravantes.(4)
Em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia da COVID-19, e organizações nacionais e internacionais estimaram o aumento da violência neste período, especialmente aquela perpetrada por parceiros íntimos.(5,6) A crise sanitária gerada pela pandemia, aliada ao isolamento social, pode desencadear ou agravar as diversas formas de violência, uma vez que potencializam os determinantes sociais, estruturais e econômicos envolvidos na dinâmica da VPI.(4,6)
De acordo com estudo de meta-análise, em que foram analisados 103 estudos, dos quais a maioria utilizou o instrumento padronizado de rastreamento de VPI da OMS, a estimativa combinada de prevalência para qualquer tipo de violência contra a mulher durante a pandemia foi de 21,0%.(7) Em outro estudo de revisão, a prevalência geral de VPI foi de 31%, sendo maior em países em desenvolvimento, quando comparada aos países desenvolvidos.(8) Durante a pandemia da COVID-19, observaram-se mudanças na prevalência de VPI; no entanto, é necessário levar em consideração aspectos metodológicos, como a fonte dos dados e o tipo de amostra, pois há falta de dados representativos sobre VPI nesse período.(7,8)
No que tange aos fatores associados a esse agravo, de acordo com o modelo ecológico proposto pela OMS sobre causalidade,(9) os fatores relacionados à pandemia evidentemente repercutem em vários níveis, incluindo o comunitário, o relacional e o individual. No nível comunitário, a coesão social e o acesso a serviços públicos e instituições sociais são reduzidos, dificultando a busca por apoio e proteção contra a violência. Na esfera relacional, o aumento do tempo de convívio com o agressor e a diminuição do contato social da mulher com amigos e familiares aumentam o risco de violência. Na dimensão individual, fatores como aumento do estresse, incerteza quanto ao futuro, sobrecarga de trabalho doméstico, consumo de álcool e dependência financeira contribuem para agravar a violência.(10)
No entanto, ainda há muitas lacunas sobre os efeitos da pandemia de COVID-19 em torno da VPI.(4) Assim, compreender a ocorrência da violência contra a mulher e suas características em diferentes contextos, como na crise sanitária, é necessário para garantir direitos e proteção às mulheres, além de subsidiar políticas públicas voltadas à melhoria da capacidade de resposta a novas emergências.(6,11)
Diante do exposto, o objetivo deste estudo foi estimar a prevalência da violência geral por parceiro íntimo durante a pandemia de COVID-19, a coocorrência desse agravo e os fatores associados.
Métodos
Trata-se de estudo transversal, analítico, de base populacional, organizado segundo a diretriz Strengthening the Reporting of Observational studies in Epidemiology (STROBE),(12) realizado no município de Vitória, estado do Espírito Santo, Brasil.
A população do estudo foi composta por mulheres com 18 anos ou mais que tinham ou tiveram parceiro íntimo nos 24 meses anteriores à entrevista. Neste estudo, o parceiro íntimo foi definido como o parceiro atual ou anterior e/ou namorado desde que mantenham relações sexuais, independentemente de ser uma união formal ou não. Foram excluídas mulheres que não apresentavam capacidade de compreensão ou comunicação devido ao déficit intelectual ou sensorial e que, portanto, não conseguiram responder aos instrumentos de coleta de dados da pesquisa.
A coleta de dados ocorreu entre janeiro e maio de 2022, e foi realizada por uma equipe de entrevistadoras, todas do sexo feminino, devidamente treinadas. A equipe de pesquisa também contou com supervisores de campo. Ao chegar no domicílio selecionado, a entrevistadora se apresentava à mulher e mostrava sua carta de apresentação da pesquisa, assim como realizava o convite para participação do estudo. Como protocolo, a entrevista era realizada, somente com a presença da entrevistada e da entrevistadora, no domicílio, em local reservado, respeitando a privacidade e o sigilo das mulheres. Em caso da presença do companheiro e/ou outras pessoas na casa, não havendo um espaço que garantisse essa privacidade, a entrevista era agendada para um outro momento. A recusa acontecia quando a participante selecionada no domicílio não aceitava participar. Ainda no caso de a mulher não ser encontrada em seu domicílio após três tentativas por parte da entrevistadora, a participante seria considerada uma perda. Perdas e recusas não foram substituídas.
Em relação ao desfecho em estudo (violência geral por parceiro íntimo durante a pandemia), foi utilizado o questionário World Health Organization Violence Against Women (WHO VAW STUDY), traduzido e validado no Brasil.(13) O instrumento rastreia a ocorrência de tipos de VPI (psicológica, física e/ou sexual). A violência geral por parceiro íntimo na pandemia, ou seja, nos últimos 24 meses anteriores à entrevista, foi considerada presente quando a entrevistada respondeu “sim” a pelo menos um item do questionário.
As variáveis independentes do estudo foram faixa etária (18 a 29 anos, 30 a 39 anos, 40 a 49 anos, 50 a 59 anos, 60 anos ou mais), raça/cor da pele (branca, preta, parda), religião católica (não, sim), religião evangélica (não, sim), estado civil atual (vive sem companheiro, vive com companheiro), anos de estudo (0 a 8 anos, 9 a 11 anos, 12 anos ou mais) e tercil de renda familiar (1º tercil – mais pobre, 2º tercil, 3º tercil – mais rico).
A variável raça/cor da pele foi coletada, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em cinco categorias, como branca, preta, parda, amarela e indígena. Foram excluídas da análise as mulheres que se autodeclararam de raça/cor da pele amarela e indígena, por representarem menos de 1% da amostra, semelhante a outros estudos.(14,15) A variável religião foi coletada em cinco categorias, tais como sem religião, católica, evangélica, africana e/ou espírita, e outras, sendo posteriormente categorizada em católica (não, sim) ou evangélica (não, sim), conforme outros estudos realizados no mesmo município e estado.(15,16) Quanto às características da família e experiência de vida, as variáveis foram mãe já sofreu agressões do companheiro (não, sim) e violência sexual na infância (não, sim).
A amostra calculada para atingir o objetivo do estudo foi de 1.100 mulheres. Para o cálculo, foram consideradas uma prevalência de 50% do desfecho, com nível de confiança de 95%, e uma margem de erro de 5%. Para as associações, foram considerados um nível de confiança de 95%, poder de 80% e uma razão de exposto/não exposto de 1:1, sendo adicionados 10% para perdas e 30% para os fatores de confusão. O processo amostral adotado foi por múltiplos estágios, sendo a unidade primária os setores censitários. Após reordenação, foram sorteados 100 setores, sendo elencado um salto sistemático para o sorteio dos domicílios, com probabilidade proporcional ao número de domicílios e mulheres dentro de cada setor. Participaram do estudo 1.086 mulheres, ou seja, 14 mulheres se recusaram a participar ou não foram encontradas em seus domicílios após três tentativas de contato ao longo da realização do estudo.
As análises foram realizadas utilizando o programa estatístico Stata®, versão 15.1. A análise descritiva da prevalência de VPI foi realizada com frequências brutas e relativas. Para a análise bivariada, foi utilizado o teste qui-quadrado de homogeneidade. A regressão logística foi utilizada para estimar a medida de Odds Ratio (OR) bruta e ajustada e seus respectivos Intervalos de Confiança de 95% (IC95%). Inicialmente, as variáveis associadas ao desfecho em estudo (p<0,20) foram incluídas no modelo para considerar possíveis fatores de confusão, e o método de seleção backward foi utilizado para selecionar as variáveis. No modelo final, foi adotado nível de significância de 5% (p<0,05). Os critérios de qualidade foram avaliados utilizando o teste de Hosmer-Lemeshow e R2 ajustado. Também foi realizada análise de contraste para obter informações mais precisas e específicas, avaliando, assim, a diferença entre os grupos dentro de uma mesma variável.(17)
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo, sendo aprovada sob Parecer no 4.974.080 (Certificado de Apresentação de Apreciação Ética: 41628820.6.0000.5060). Todas as entrevistadas assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, e quaisquer dúvidas quanto aos objetivos do estudo e seus possíveis riscos e benefícios foram esclarecidas.
Resultados
A prevalência de violência geral por parceiro íntimo na pandemia no município de Vitória foi de 21,3% (IC95% 18,9–23,8). As participantes (N=1086), 4,7% (N=51) apresentaram coocorrência de violência psicológica, física e sexual. A coocorrência de violência psicológica e física foi de 3,9%. Já a coocorrência de violência física e sexual foi de 0,1%, e a coocorrência de violência psicológica e sexual foi de 1,1%. Além disso, 78,7% das mulheres entrevistadas não relataram ter sofrido nenhum tipo de violência (Figura 1).
Coocorrência de violência psicológica, física e sexual de parceiros íntimos na pandemia de COVID-19
Maiores prevalências de violência geral por parceiro íntimo na pandemia foram observadas entre mulheres de 18 a 29 anos, não católicas, evangélicas, que vivem com companheiro, com até oito anos de estudo e mais pobres. Em relação à experiência familiar e de vida, as maiores frequências de vitimização foram entre mulheres cujas mães já haviam sido espancadas pelos parceiros e com histórico de abuso sexual na infância (p<0,05) (Tabela 1).
A tabela 2 apresenta a análise bruta e ajustada da violência geral por parceiro íntimo durante a pandemia segundo as características socioeconômicas, familiares e experiência de vida das mulheres. As variáveis que permaneceram associadas à ocorrência de violência geral da análise bruta para a análise ajustada foram faixa etária, estado civil atual, anos de estudo e violência sexual na infância (p<0,05). Após ajustes, percebe-se que mulheres mais jovens apresentaram 2,25 vezes mais chances de serem vítimas de violência pelo parceiro durante a pandemia quando comparadas às mulheres mais velhas (OR: 2,25; IC95% 1,37–3,69). Aquelas que viviam sem companheiro apresentaram 107% mais chances de sofrer violência (OR: 2,07; IC95% 1,44–2,99). Aquelas com menor escolaridade (até oito anos de estudo) apresentaram mais chances de sofrer violência geral do que aquelas com maior escolaridade (OR: 4,23; IC95% 2,78–6,44). Além disso, mulheres com histórico de violência sexual na infância apresentaram 1,9 vezes mais chances de serem vítimas de violência pelo parceiro na pandemia (p<0,05) (Tabela 2).
A tabela 3 apresenta os resultados da análise de contraste. Os resultados mostram diferença estatística na chance de violência geral por parceiro íntimo na pandemia, quando comparadas às mulheres de até 29 anos, e aquelas na faixa etária de 30 a 39 anos com as mulheres de 60 anos ou mais (p<0,05). Ao contrário, quando comparada a faixa etária das mulheres de 40 anos ou mais com aquelas de 60 anos ou mais, não se observa diferença estatisticamente significativa (p>0,05). Comparando com as categorias intermediárias das variáveis ano de estudo e renda familiar em tercis, verificou-se que as mulheres pertencentes à categoria de menos anos de estudo e menor renda familiar apresentaram maiores chances de violência geral por parceiro durante a COVID-19, enquanto as mulheres com mais anos de estudo e pertencentes ao maior tercil de renda familiar apresentaram menores chances do que aquelas da categoria intermediária (p<0,05).
Discussão
Durante a pandemia de COVID-19, a prevalência de violência geral (psicológica, física e sexual) contra mulheres praticada por parceiros íntimos, em Vitória, Espírito Santo, foi de 21,3% (IC95% 18,9–23,8). Ainda, a análise de associação mostrou que mulheres mais jovens, que viviam sem companheiro, com menos anos de estudo e com histórico de violência sexual na infância apresentavam maiores chances de serem vítimas de violência pelo companheiro durante a pandemia.
Os achados deste estudo indicam que aproximadamente uma em cada cinco mulheres sofreu VPI durante a pandemia. Revisão sistemática de 103 publicações de diferentes países identificou prevalência geral de VPI contra mulheres de 21% durante a pandemia, reforçando a proporção de uma em cada cinco mulheres sofrendo VPI nesse período.(7) Este mesmo estudo aponta que a VPI contra mulheres não aumentou durante a pandemia quando comparado ao período pré-pandêmico. Os achados deste estudo são consistentes com os relatados na literatura, que destacam a VPI como um problema significativo de saúde pública que requer atenção tanto no Brasil quanto no mundo.(7)
A coocorrência dos três tipos de violência rastreados (psicológica, física e sexual) foi observada em aproximadamente 5% das participantes. Ao analisar a coocorrência de um tipo de violência com outro, destacaram-se as violências psicológicas e físicas, o que corrobora outro estudo realizado em Pelotas, Rio Grande do Sul, que encontrou 13,2% de coocorrência entre essas duas formas de violência e 2,6% dos três tipos.(18) Esses dados reforçam a continuidade e o agravamento da violência. Por vezes, o relacionamento violento perdura enquanto houver dependência, afetiva ou financeira, transformando-se a partir da intensificação de conflitos, desgaste do relacionamento ou empoderamento derivado de outras conquistas das mulheres.(19,20,21)
Durante a pandemia de COVID-19, as mulheres jovens tiveram 2,25 vezes mais chances de serem vítimas de VPI quando comparadas com as de mais idade. Essa associação também foi observada em uma pesquisa de base populacional nacionalmente representativa com dados de seis países da África Oriental, na qual mulheres de mais idade tiveram menos probabilidade de sofrer VPI em comparação com mulheres mais jovens.(22) Uma provável explicação para esse resultado se deve ao fato de mulheres mais jovens serem mais dependentes de seus parceiros no que tange ao cuidado com os filhos e despesas da casa.(23,24) Além disso, esse achado pode indicar o domínio exercido pelos agressores sobre essas mulheres, o que pode estar relacionado à imaturidade emocional das mulheres mais jovens.(25) Por outro lado, mulheres com mais idade podem ter maior independência financeira e social, o que lhes dá uma vantagem para sair de relacionamentos abusivos.(26)
Ao analisar o estado civil, nota-se que as mulheres que viviam sem um parceiro tiveram 107% mais chances de sofrer VPI durante a pandemia da COVID-19 quando comparadas com aquelas que viviam com o parceiro. Nesse mesmo sentido, outro estudo transversal realizado no em Vitória, Espírito Santo com 991 participantes encontrou maior prevalência de VPI entre mulheres sem companheiro. É possível que, anteriormente, essas mulheres tenham vivenciado relacionamentos violentos e tenham conseguido romper com a situação.(27)
Outro achado na presente pesquisa, foi a maior chance de violência geral por parceiro entre mulheres com menor escolaridade (OR: 4,23; IC95% 2,78–6,44), esse resultado corrobora com estudo realizado no Nepal em que mulheres sem educação formal tiveram quatro vezes mais chances de sofrer violência em comparação com aquelas que tiveram educação formal tanto antes (OR: 3,94; IC: 2,07–7,52), quanto depois (OR: 4,13; IC: 2,11–8,06) da pandemia.(28) Além disso, uma revisão sistemática constatou que maiores níveis de educação estão geralmente associados à redução da vitimização da violência contra as mulheres.(29) Ainda assim, refletir que há diferentes hipóteses para associar a escolaridade à vitimização é importante, mas, segundo Mascarenhas,(30) uma das possibilidades seria que um maior nível educacional poderia proporcionar proteção às mulheres, uma vez que pode representar a aquisição de habilidades sociais e recursos para lidar com situações de violência.(30)
Outro dado a destacar foram as mulheres com histórico de violência sexual na infância, que apresentaram 1,9 vez mais chances de serem vítimas de violência pelo parceiro na pandemia (p<0,05). O achado está em consonância com estudo realizado na Inglaterra e no País de Gales, no qual o abuso infantil, independentemente do tipo (físico, sexual e psicológico), aumenta o risco de sofrer VPI na vida adulta.(31) Ainda, estudo realizado no Brasil encontrou prevalência 45% maior de violência física na vida adulta em mulheres com histórico de violência sexual na infância.(32) A revitimização na idade adulta pode estar associada à maior vulnerabilidade da vítima, devido a sequelas do abuso anterior, tais como o transtorno de estresse pós-traumático e sintomas de dissociação.(15,33) Além disso, sobreviventes de violência na infância, ao revelarem a situação sofrida na vida adulta aos seus parceiros, estavam expostos a novos abusos, uma vez que a informação era utilizada como mecanismo de controle.(34)
Diante dos achados, é importante considerar que estratégias para fortalecer as redes de apoio, ampliar o acesso a serviços especializados e incentivar a independência econômica das vítimas são fundamentais. Programas governamentais que promovam a educação financeira e profissionalização das mulheres podem reduzir a dependência econômica dos parceiros agressores, possibilitando maior autonomia para romper ciclos de violência.(19)Outra abordagem importante é a educação da sociedade sobre a violência de gênero. Campanhas educativas e ações de sensibilização em escolas, ambientes de trabalho e comunidades podem ajudar a desconstruir normas sociais que naturalizam a violência, reforçando a importância da equidade de gênero.
Também é necessário ampliar os serviços da rede intersetorial de proteção às mulheres em situação de violência, para garantir a segurança e o suporte necessário àquelas em risco. Além disso, a capacitação intersetorial como dos profissionais de saúde, segurança pública e assistência social, para fomento de ações de prevenção, promoção da cultura da paz e intervenção, é fundamental para mitigação desse agravo.
Entre as limitações do estudo, devemos citar aquelas inerentes à natureza transversal da pesquisa, com a possibilidade de os resultados terem sofrido interferências, como a possibilidade de viés durante a coleta de dados, uma vez que as vítimas tendem a omitir a violência. No entanto, devemos ressaltar que, para minimizar isso, as informações foram coletadas em um espaço privado: apenas com a mulher e o entrevistador. Outro ponto é a impossibilidade de determinar relações causais, mas sim explorar as relações entre os desfechos e as variáveis em estudo, não avaliando fatores de risco e proteção. No entanto, os achados evidenciados nesta pesquisa são semelhantes aos de outros estudos, também de natureza transversal, como apresentado na discussão, e reforçam a demanda por estudos longitudinais nesta área que permitam estabelecer relações de temporalidade e possível causa.(15,16,22,27)
Por fim, é importante destacar que o presente estudo contribui para o conhecimento, ao fornecer um panorama das prevalências de VPI durante um período de isolamento social, e identifica grupos mais vulneráveis, sendo seus achados essenciais para intervenções e políticas de prevenção e cuidado serem priorizadas, especialmente em períodos de pandemia.
Conclusão
O estudo apontou a prevalência de violência geral por parceiro íntimo contra mulheres durante a pandemia de COVID-19, a coocorrência desse evento e os fatores associados. Destaca-se a maior chance de violência entre mulheres mais jovens, que viviam sem companheiro, tinham menor escolaridade e mulheres com histórico de violência sexual na infância. Esses dados são preocupantes, devido ao impacto negativo da exposição à violência. Considerando que os serviços de saúde estavam focados em atender às demandas da pandemia nesse período, muitas mulheres permaneceram sem suporte e/ou cuidado; portanto, sem possibilidades de enfrentamento e quebra do ciclo. Nesse sentido, este estudo aponta que situações de isolamento social exigem o desenvolvimento de políticas de atendimento às vítimas de violência, bem como políticas de prevenção e rastreamento, para garantir a essas mulheres seus direitos sociais, segurança e bem-estar.
Agradecimentos
Os autores declaram agradecimento às agências de financiamento: Nº 09/2020 – PPSUS, Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (FAPES) / Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) / Departamento de Ciência e Tecnologia (Decit), Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE), Ministério da Saúde (MS) / Secretaria de Estado da Saúde do Espírito Santo (SESA); b) Nº 04/2021 – Bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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Editor Associado:
Paula Hino (https://orcid.org/0000-0002-1408-196X) Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil
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