Open-access Os muitos sentidos compartilhados: Bakhtiniana e a Jornada comemorativa de seus 15 anos

O sentido é potencialmente infinito, mas pode atualizar-se somente em contato com outro sentido (do outro), ainda que seja com uma pergunta do discurso interior do sujeito da compreensão.

Mikhail Bakhtin

Escrevemos este Editorial pouco depois da “Jornada 15 Anos de Bakhtiniana. Atualidade e Transparência”, ocorrida no último dia 09 de agosto, na PUC-SP. Os muitos aspectos positivos do evento ainda ressoam entre nós. Somos realmente gratos à comunidade acadêmica, em geral, e muito especialmente a todos que dele participaram - de forma presencial ou virtual, pois isso significou um reconhecimento concreto tanto de nosso trabalho como da importância do periódico em sua missão de “promover e divulgar pesquisas produzidas no campo dos estudos do discurso, com destaque para os estudos dialógicos”. É no contato e na presença do outro - também de vocês, leitores, que temos a possibilidade de atualizar os muitos sentidos da publicação, com os inúmeros artigos científicos que ela tem divulgado; isto é, sua contribuição para a disseminação da ciência de qualidade, aqui e no exterior.

Tal importância, assim como sua atualidade e transparência, pôde ainda ser comprovada nas várias comunicações durante a Jornada, com destaque para o fator de impacto no Google Scholar H5 em que a Bakhtiniana obteve 10, enquanto os periódicos da área indexados pelo SciELO Brasil possuem em média 9, dado apresentados por Abel Packer, diretor do SciELO, na conferência que abriu o evento. Nas comunicações seguintes, autores do primeiro número da revista contaram de suas pesquisas naquele momento em que Bakhtiniana nascia, e da continuidade delas nos dias de hoje; vários colaboradores - autores, pareceristas, editores ad hoc de diferentes números, também compartilharam suas experiências com o periódico. A própria equipe da revista expôs os diferentes aspectos que compõem nosso trabalho.

Culminando o evento, tivemos uma surpresa para nossa Editora Responsável: um livro em sua homenagem - Beth Brait. Autora. Personagem. Diálogos, organizado por Maria Helena Cruz Pistori, Jean Carlos Gonçalves e Paulo Rogério Stella, e publicado pela Hucitec. Momentos de emoção que também fazem parte do fazer acadêmico.

Enfim, como já manifestamos anteriormente, o aniversário da revista é motivo de muita satisfação - e mesmo orgulho! - para nós, que labutamos no dia a dia com ela; e foi gratificante compartilhar esses sentimentos na Jornada dos 15 Anos. Repetimos: sem dúvida, num país como o nosso, onde não se pode ter certeza dos patrocínios institucionais a serem recebidos a cada ano - esses anos foram uma conquista! E é com esse sentimento que apresentamos os textos que compõem o número 19.4: 12 artigos e uma resenha. Como sujeitos da compreensão, juntamo-nos a nossos autores e leitores, buscando os sentidos presentes na ciência, na arte e na vida, em nosso cotidiano. Passemos aos artigos.

A diversidade, termo e conceito a que se tem recorrido constantemente na contemporaneidade, pode ser o elemento comum que congrega os seis primeiros textos. O primeiro deles, “O termo diversidade e seu deslocamento em portais de notícias: do discurso didático ao polêmico”, assinado por João Kogawa, Débora Kogawa e Indaiá de Santana Bassani, todos da UNIFESP - SP, constitui-se no guarda-chuva que permite englobar os demais nesta lista. Os autores estudam a circulação do termo em portais de notícias, de 2006 a 2022, orientando-se teoricamente pela Análise do Discurso de linha francesa e, metodologicamente, pelo software AntCon. Buscando a mutação de sentidos que diversidade sofreu ao longo desse período, deixando de participar de uma estrutura completiva (diversidade de...) para se tornar uma palavra intransitiva. A partir dos dados coletados, o artigo leva-nos a refletir, ainda, sobre a forma como o vocábulo foi apropriado pela economia de mercado.

Em seguida, é da diversidade referente a populações historicamente marginalizadas - os negros, que tratam os próximos dois artigos. Jacson Baldoino Silva, Silvana Silva de Farias Araújo e Huda da Silva Santiago, todos de Feira de Santana, Bahia (UEFS), são os responsáveis por “A literatura e a formação do português brasileiro: uma metaficção historiográfica dos contatos linguísticos”. Nele, os autores apontam as possibilidades de textos literários, como o romance Um defeito de cor, da autora mineira Ana Maria Gonçalves, contribuírem para o entendimento das formas de interação que moldaram a sociedade brasileira, dando origem ao “Brasil” e, especialmente, ao “português brasileiro”, avançando e indo além dos estudos da Linguística, da Sociolinguística de Contato e da História.

Irene Machado (USP), no artigo “Entoação visual negra em experimento audiovisual de Arthur Jafa”, busca a singularidade do cinema negro na composição fílmica do vídeo-ensaio Love is the Message, the Message is Death (2016). Levando o leitor a querer conhecer a importante obra de Arthur Jafa, o texto mostra como o vídeo expõe criticamente a exteriorização de energias interiores interativas de pessoas negras em cantos e danças, que ali tanto expressam a si mesmas como também expressam desejos, sonhos e aflições. A autora mostra, assim, como o artista convoca artisticamente formas culturais tradicionais esparsas pela diáspora africana.

Os próximos três artigos tratam da diversidade de gênero; e podemos afirmar que, neste número, ela é vista no grande tempo bakhtiniano, ressuscitando sentidos da atualidade em textos de outros tempos. O artigo “O Elogio de Helena de Isócrates: argumentação em muitas camadas”, de Bárbara Amaral da Silva (UFMG), propõe o exame das estratégias argumentativas utilizadas pelo retor em seu texto, analisando a construção argumentativa da personagem mítica Helena, de Homero, na Ilíada e na Odisseia. Por meio da análise, a pesquisadora mostra como Isócrates, em 390 aC, reproduz imaginários de feminilidade e de masculinidade em Elogio de Helena, ainda que este não tenha sido seu objetivo explícito.

Na continuidade, partimos para 1387, ano em que foram escritos Os contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer, o primeiro grande clássico da literatura inglesa. Vanessa Rodrigues Barcelos e João Batista Costa Gonçalves (UECE), tendo como horizonte teórico-metodológico a obra bakhtiniana, especialmente o conceito de carnavalização, assinam “Os Contos de Canterbury, de Geofrey Chaucer, a partir do carnaval bakhtiniano: a esposa de Bath e a subversão de gênero feminino pela profanação do discurso bíblico”. A análise mostra como a esposa de Bath, na obra chauceriana, subverte o conceito de feminino corrente na época medieval, profanando e subvertendo orientações bíblicas de comportamento, de forma tensa e/ou cômica.

E chegamos à contemporaneidade no tratamento da diversidade de gênero, com o artigo “‘O feminismo finalmente venceu’”: metapragmáticas misóginas e antifeministas disfarçadas de liberdade de expressão", de Rodrigo Albuquerque e Suzy de Castro Alves (UNB). Na análise de uma interação no X (antigo Twitter), fundamentando-se teórica e metodologicamente na Sociolinguística Interacional e na Pragmática, os autores apontam estratégias de impolidez que constroem os cenários de violência linguístico-discursiva on line, gerando posicionamentos machistas, misóginos, patriarcais e antifeministas.

A seguir, três artigos nos propõem diálogos teóricos significativos com a obra de Mikhail Bakhtin. O primeiro deles, “Sobre as ciências humanas: diálogos entre Ernst Cassirer e Mikhail Bakhtin”, é de Ludmila Kemiac (UFCG - Campina Grande, PB). Num estudo profundo, Kemiac toma as “ciências culturais” como foco da comparação entre os autores e, a partir das ideias de “personificação” e “coisificação” (Bakhtin) e conhecimento do “outro” e conhecimento da “coisa” (Cassirer), aponta diferenças e semelhanças entre os autores, indicando possíveis leituras anteriores de ambos.

Suelio Geraldo Pereira (PUC-Minas) escreve “Autor-criador e autor-modelo: possíveis (des)aproximações entre Mikhail Bakhtin e Umberto Eco”. Pereira parte do conhecido ensaio de Roland Barthes, A morte do autor (1967), para questionar, aproximar e debater a questão do autor em Bakhtin e Eco, examinando diferenças e semelhanças entre o conceito bakhtiniano de “autor-criador”, e o conceito do filósofo italiano “autor-modelo”, e mostrando como esses conceitos exercem forças criadoras e estratégicas no texto.

O próximo diálogo é proposto por Pedro Henrique Oliveira Simões (UFPE), no artigo intitulado “Dever ser, ciência e ser na filosofia moral e na teoria jurídica: entre Mikhail Bakhtin e Hans Kelsen”. Com o objetivo de apresentar considerações éticas especialmente para o Direito e a Linguística, o autor centra-se nas obras Para uma filosofia do ato ético (Bakhtin, 2010) e Teoria geral do Direito e do Estado (Kelsen, 1990) com o objetivo de iluminar o fundamento jurídico de Bakhtin na perspectiva da filosofia moral como prima filosofia, abarcando filosofia da religião e filosofia do Direito.

No artigo seguinte, “O gênero entrevista sociolinguística e suas dimensões cronotópicas”, Érica Marciano de Oliveira (UFSC) articula conceitos bakhtinianos, como cronotopo e campo discursivo, com outros do campo antropológico e sociolinguístico, para ampliar a perspectiva de análise do gênero “entrevista sociolinguística” em uma abordagem interdisciplinar. A autora mostra as contribuições possíveis com essa articulação conceitual e de estratégia metodológica na análise de entrevistas com pescadores artesanais da Barra da Lagoa, integrantes da Associação Saragaço, em Florianópolis, SC.

Os últimos dois textos nos vêm de autores do Cazaquistão e da Turquia. No artigo “Modelo poético de lugares sagrados”, Marzhan Mirazova e Zhanat Aimukhambet, da Eurasian National University, Astana; Zhibek Bultanova, da Instituição Estatal Republicana do Ministério da Cultura e Informação, Astana; Yelena Sabiyeva e Tatyana Ahmetova, da Universidade do Norte do Cazaquistão, Petropavlovsk, tratam da interpretação poética do simbolismo dos lugares sagrados, verificando como os escritores cazaques ressignificam tal herança cultural em suas obras. Em “O papel e o lugar da poesia zhyrau na literatura mundial”, Yerik T. Sarzhigitov e Muratbek M. Imangazinov, da Universidade Zhetysu em homenagem a I. Zhansugurov, em Taldykorgan; Bereke D. Zhumakyeva, da Universidade Suleyman Demirel, em Kaskelen, todos do Cazaquistão, e Kenan Koch, da Universidade Cosima da cidade de Mugla, na Turquia, estudam o fenômeno zhyrau, suas características e presença na literatura cazaque, na medida em que cada fragmento do zhyrau constitui o quebra-cabeça da cultura daquele povo.

Uma resenha da obra Perspectiva dialógica nos estudos de tradução e interpretação da língua de sinais (Hucitec, 2023), organizada por Vinicius Nascimento, importante pesquisador bakhtiniano de LIBRAS, fecha o número. Em sua resenha, Lúcia Masini (PUC-SP) oferece-nos um panorama dos estudos constantes no livro, além de destacar que a “leitura dessa obra é, em si, uma experiência ética e estética de enorme importância não só para a esfera acadêmica dos estudos da linguagem, como para a vida em sociedade”.

Finalmente, podemos afirmar que os sentidos compartilhados neste número de Bakhtiniana atestam a qualidade e relevância da pesquisa que tem sido realizada em nossa área. Por isso, convidamos todos - leitores, autores e colaboradores - a responder ativamente a esses textos, saboreando e incluindo em suas pesquisas este conjunto, que congrega 26 autores de 11 instituições brasileiras (UNIFESP, UEFS, USP, UFMG, UECE, UNB, UFCG, PUC - Minas, UFPE, UFSC, PUC-SP), e 6 estrangeiras, 5 do Cazaquistão (Eurasian National University, Astana; Instituição Estatal Republicana do Ministério da Cultura e Informação, Astana; Universidade do Norte do Cazaquistão, Petropavlovsk; Universidade Zhetysu em homenagem a I. Zhansugurov, em Taldykorgan; Universidade Suleyman Demirel, em Kaskelen) e uma da Turquia (Universidade Cosima da cidade de Mugla).

Agradecemos, mais uma vez, o inestimável e constante apoio, auxílio e reconhecimento da PUC-SP, por meio do Plano de Incentivo à Pesquisa (PIPEq)/ publicação de periódicos em 2024 (PubPer-PUC-SP) - 2º semestre de 2023 EDITAL PIPEq 11956/2023, Solicitação 29157 e ao CNPq/CAPES, Chamada CNPq/CAPES Nº 30/2023 Programa Editorial (Versão Republicada).

REFERÊNCIAS

  • BAKHTIN, M. Fragmentos dos anos 1970-1971. In: BAKHTIN, M. Notas sobre literatura, cultura e ciências humanas. Organização, tradução, posfácio e notas Paulo Bezerra. Notas da edição russa Serguei Botcharov. São Paulo: Editora 34, 2017. p. 21-56; p. 41.
  • BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello & Carlos Alberto Faraco. São Carlos, SP: Pedro & João Editores, 2010.
  • BARTHES, Roland. A morte do autor. In: BARTHES, Roland. O rumor da língua. Tradução Mario Laranjeira. São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 57-64.
  • GONÇALVES, Ana Maria. Um defeito de cor. 26. ed. Rio de Janeiro: Record, 2021.
  • KELSEN, Hans. Teoria geral do Direito e do Estado. Trad. Luís Carlos Borges. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
  • PISTORI, Maria Helena Cruz; GONÇALVES, Jean Carlos; STELLA, Paulo Rogério (orgs.). Beth Brait. Autora. Personagem. Diálogos. São Paulo: Hucitec, 2024.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    18 Out 2024
  • Data do Fascículo
    Oct-Dec 2024
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