Open-access As teorias de Ferdinand de Saussure, Mikhail Bakhtin e Émile Benveniste: relações possíveis e heranças epistemológicas

O leitor certamente perceberá alguma ambiguidade no título acima, que sintetiza a proposta temática deste número da Revista Bakhtiniana. Trata-se necessariamente de propor relações entre os três pensadores? Ou admite-se que se possa priorizar apenas uma díade? No conjunto de trabalhos que apresentamos a seguir, como se verá, é possível encontrar ambas as interpretações. E foi intencionalmente que conservamos a ambiguidade, porque nossa expectativa - que felizmente se concretizou - era a de que auxiliasse a configurar um convite à interpretação para os nossos colaboradores. Intuíamos que a manutenção desse espaço interpretativo levaria à produção de artigos que subsidiariam uma pluralidade reflexiva em torno das noções de “relações possíveis” e de “heranças epistemológicas”, o que efetivamente aconteceu. Falemos um pouco sobre cada uma.

A ideia de “relações possíveis”, quando aplicada a sistemas de pensamento, pode ser fonte, sem dúvida, de impropriedades que beiram o equívoco nos âmbitos teórico e metodológico. Não são poucos os trabalhos em que se vê, entre teorias, a afirmação de relações que não encontram sustentação epistemológica. Isso é um fato. Mas essa mesma ideia pode ser mola propulsora da prospecção de outras maneiras de pensar. Quer dizer, leituras em contraponto podem proporcionar o surgimento de algo novo; e é salutar que um determinado campo do conhecimento reserve lugar para que o novo advenha. Investimos nessa segunda interpretação de “relações possíveis”; e fomos bem-sucedidos.

Adiante, o leitor encontrará trabalhos que apropriadamente - e por que não dizer criativamente - exploraram pontos de contato entre Saussure, Bakhtin e Benveniste em favor de um gesto de inovação nos estudos da linguagem e com vistas à resolução de outros problemas que não aqueles originalmente pensados por nossos autores. Ora, que outra forma teríamos para fazer avançar o conhecimento em um campo que reflete sobre a linguagem humana? Que outro mecanismo existiria para sairmos da mera repetição e irmos em direção à construção de algo novo?

O estabelecimento de “relações possíveis” leva necessariamente a evocar o passado das teorias, aquilo que há de compartilhado. Sobre isso, cabe lembrar o belo livro De que amanhã... Diálogo (2004), que reproduz um longo diálogo entre a psicanalista Elizabeth Roudinesco e o filósofo Jacques Derrida, em que se vê, logo no primeiro capítulo, a psicanalista defender, a propósito do que chama de “ostracismo estéril” (atitude corrente de simplesmente rejeitar os pensadores dos anos 1970, marcados pela conjuntura estruturalista), que o importante é escolher sua herança, sem com isso ter de aceitar tudo, ou rejeitar tudo, fazer tábula rasa. Tem razão a psicanalista.

De certa maneira, ler e reler teorias, estabelecendo diálogos possíveis entre elas - sejam eles críticos, desfavoráveis, favoráveis, tanto faz -, é uma forma de mantê-las vivas, de fazê-las falar, de conservá-las como a base retrospectiva de uma prospecção consequente.

A ideia de “heranças epistemológicas” configura-se, a partir disso, no efeito que a suposição das “relações possíveis” propicia. Isso encontra respaldo numa atitude corajosa de Henri Meschonnic que, a propósito da relação Humboldt-Saussure-Benveniste, considera que “um pensamento de Humboldt pode ser reconhecido onde uma filiação não é expressamente reivindicada1” (Meschonnic, 1995, p. 16; tradução nossa).

Certamente, essa atitude é bastante instigante, pois dá a oportunidade de relacionar autores não apenas pelo conteúdo explícito de seus textos, mas também pelo fato de que abordam questões semelhantes, de mesma ordem epistemológica. Os trabalhos que integram este número de Bakhtiniana exploram exatamente isso e mostram que um autor pode estar em continuidade com outro sem que, para isso, se precise, necessariamente, de uma citação direta e sem que isso implique planificação de diferenças.

A Revista inicia com dois artigos que privilegiam a perspectiva interpretativa que coloca em relação Saussure, Bakhtin e Benveniste. O trabalho de Patrícia da Silva Valério (UPF/RS) - “Saussure, Bakhtin e Benveniste: o legado de três pilares no ensino e no pensamento linguístico” - propõe uma visada realmente original: ele busca enlaçar os autores pela via da sala de aula. O três foram professores e, desse lugar, compartilharam o século XX, deixando impacto significativo no campo do pensamento linguístico, cuja herança continua a influenciar os debates. O artigo examina a biografia dos autores, com destaque tanto para aquilo que os aproxima quanto para aquilo que os diferencia no que tange à atividade docente. Já o trabalho de Marlete Sandra Diedrich, Gabriela Golembieski e Marina de Oliveira (todas da UPF/IHCEC/RS) - “Contribuições de Ferdinand de Saussure, Mikhail Bakhtin e Émile Benveniste aos estudos de aquisição da linguagem no Brasil” - investe no mesmo entendimento das “relações possíveis”, implicando os três pensadores em um debate de considerável ineditismo a respeito da aquisição da linguagem, um tema não diretamente desenvolvido por eles. O artigo apresenta um quadro resumitivo, com destaque para a linguística brasileira, dos estudos aquisicionistas que foram influenciados pelos três autores: a partir de pressupostos saussurianos, os estudos sociointeracionistas; na vertente bakhtiniana, a abordagem dialógico-discursiva; na esteira benvenistiana, a perspectiva enunciativa.

As relações Saussure-Bakhtin são contempladas em dois outros trabalhos. Em “Bakhtin e a Linguística: um diálogo iniciado nos anos 1920”, os autores e as autoras (GP Linguagem, Identidade e Memória - PUC/SP, UFSCar, UFRJ, Universidade Paris VIII, UFBA, UFAC, UFAL, UENP) exploram a referência a Saussure na obra bakhtiniana em três vieses: da presença de Saussure nos escritos do Círculo; do diálogo de Bakhtin com a ciência na unidade da cultura; do diálogo com a ciência linguística, em especial com a escola de Genebra em “O problema do conteúdo, do material e da forma” (1993, p. 13-70). O texto edifica-se sobre a noção de “contraponto científico-filosófico”, gesto teórico considerado necessário para a constituição da teoria dialógica bakhtiniana, noção essa que se configura em verdadeira categoria de análise epistemológica cujos efeitos podem ser alargados inclusive para o estudo de outras relações teóricas, entre outros autores que não os aqui discutidos. Em seguida, em “O que há de Saussure em Bakhtin? Um estudo a partir de um comentário sobre a tradução de Rabelais em russo”, Valdir do Nascimento Flores (UFRGS) também recorre a Saussure-Bakhtin para abordar um possível dessa relação, com base no comentário de Henri Meschonnic a propósito da tradução da obra de Bakhtin sobre François Rabelais para o russo, citada por Meschonnic no contexto de uma leitura antiestruturalista de Saussure. O artigo finaliza discutindo a relevância de abordar comentários metalinguísticos - como por exemplo, comentários sobre traduções -, o que pode constituir foco de uma teorização enunciativo-antropológica.

Os dois últimos artigos examinam as relações - de filiação, de influência, de oposição etc. - entre Saussure e Benveniste. O artigo de Sara Luiza Hoff (UFRGS) e Gabriela Barboza (FURG) - “As línguas, a língua e os linguistas: o estudo da diversidade das línguas em Saussure e Benveniste” aborda aspectos relativos ao tratamento dados às línguas em ambos os linguistas. Examinam-se obras selecionadas dos autores, buscando, a partir de evidências, discutir o papel que eles concedem às línguas em suas teorizações. O estudo aponta para o protagonismo da diversidade das línguas como um dos pontos de encontro entre os dois linguistas. O artigo de Eduardo Alves Rodrigues (UNICAMP) e Cármen Agustini (UFU), “Benveniste-Saussure: uma relação de nunca acabar”, discute o conceito de filiação no quadro teórico-metodológico da Análise de Discurso, a partir do qual analisam relações entre o pensamento benvenistiano e o pensamento saussuriano. A análise indica que tal relação de filiação pode ser vista como um diálogo, em que se vê tanto um movimento de aproximação como de deslocamento/destacamento do pensamento benvenistiano ao pensamento saussuriano.

Acompanham ainda este número da Revista Bakhtiniana dois trabalhos de natureza distinta dos demais. Primeiramente, uma entrevista com o Professor Eduardo Guimarães, reconhecido linguista brasileiro, com grande atuação institucional dentro e fora do Brasil e autor de um sem-número de publicações responsáveis pela consolidação de vários estudos no âmbito da linguística brasileira. Essa entrevista, realizada por Verli Petri (UFSM) e Heitor Pereira Lima (PUC-Minas) documenta uma trajetória importante; sua publicação é, portanto, oportuna. Por fim, uma resenha, de autoria de Alena Ciulla (UFRGS), do livro Saussure e a Escola de Genebra (Editora Contexto, 2023), recentemente organizado e publicado por Valdir do Nascimento Flores e Gabriel de Ávila Othero. Trata-se de coletânea de artigos (um de autoria dos próprios organizadores e outros oito traduzidos do francês para o português) que permite ter contato com a vida e a obra de linguistas que sucederam a Saussure em seu programa linguístico - linguistas pertencentes à “Escola de Genebra”, Albert Sechehaye em especial, mas também Charles Bally e Henri Frei. Como se sabe, a “Escola de Genebra” é reiteradamente evocada por Bakhtin em alguns de seus trabalhos. É feliz, portanto, a iniciativa em tornar pública uma resenha que ajuda a difundir o material contido no livro.

Como o leitor facilmente verá, este número de Bakhtiniana reúne um conjunto de estudos importantes, tanto para a formação do linguista brasileiro quanto para a consolidação de perspectivas de análises e abordagens teóricas. Somente isso já a torna bem-vinda entre nós. Mas há mais: ela dá voz ao diálogo entre diferentes perspectivas de entendimento da linguagem humana; isso é salutar e necessário nos dias de hoje, às vezes tão refratários ao debate pacífico e profícuo.

Uma última palavra de agradecimento cabe à equipe Editorial da Revista Bakhtiniana: a segurança e a competência, aliadas à gentileza e ao verdadeiro espírito colaborativo, tornaram prazeroso esse trabalho para todos os que nele estiverem envolvidos. Junto a ela, agradecemos o inestimável apoio, auxílio e reconhecimento da PUC-SP, por meio do Plano de Incentivo à Pesquisa (PIPEq)/ publicação de periódicos em 2024 (PubPer-PUC-SP) - 2º semestre de 2023 EDITAL PIPEq 11956/2023, Solicitação 29157 e ao CNPq/CAPES, Chamada CNPq/CAPES Nº 30/2023 Programa Editorial (Versão Republicada).

REFERÊNCIAS

  • BAKHTIN, Mikhail. O problema do conteúdo do material e da forma na criação artística. In: BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. 3. ed. Tradução Aurora F. Bernardini, José Pereira Júnior, Augusto Góes Júnior, Helena S. Nazário, Homero F. de Andrade. São Paulo: UNESP/HUCITEC, 1993, p. 13-70. [1924].
  • DERRIDA, Jacques; ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã ... Diálogo. Hans Robert. A literatura como provocação. Trad. André Telles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
  • MESCHONNIC, Henri. Penser Humboldt aujourd’hui. In: MESCHONNIC, Henri (org.). La pensée dans la langue: Humboldt et après. Saint-Denis: Presses Universitaires de Vincennes, 1995. p. 13-50.
  • 1
    No original: “une pensée Humboldt peut se reconnaître là où une filiation n’est pas expressément revendiquée.”

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2025
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