Resumo
A presente nota de pesquisa tem por objetivo investigar a participação do Museu Paraense no ‘movimento de museus’ que ocorreu na transição do século XIX para o XX, tendo como recorte a análise de uma coleção de mamíferos coletada por Emília Snethlage no interior da Amazônia e, posteriormente, enviada ao Museu Britânico para a identificação de espécies. A pesquisa está situada no campo da História das Ciências e dentre as fontes de informação utilizadas estão trabalhos publicados por Snethlage, uma mensagem do governador do estado do Pará à Assembleia Legislativa, um periódico da instituição inglesa e cartas. A análise da documentação permite visualizar os diferentes aspectos que perpassam a construção do conhecimento científico. No que se refere à identificação de novas espécies, pode-se elencar a heterogeneidade e a assimetria dos atores envolvidos nas etapas de coleta, transporte e determinação dos animais. Na conclusão, observa-se como as atividades científicas não podem ser dissociadas de contextos sociais e políticos.
Palavras-chave
Emília Snethlage; Amazônia; Coleções; História Natural; Museu Paraense Emílio Goeldi
Abstract
The aim of this research note is to investigate the participation of the Museum of Pará in the ‘museum movement’ that took place in the transition from the 19th to the 20th century, analysing a collection of mammals collected by Emília Snethlage in the interior of the Amazon and later sent to the British Museum for species identification. The research is situated in the field of the History of Science and among the sources of information used are works published by Snethlage, a message from the Governor of the State of Pará to the Legislative Assembly, a periodical from the British institution and correspondence. Analysing the documentation allows us to visualise the different aspects that permeate the construction of scientific knowledge. With regard to the identification of new species, the heterogeneity and asymmetry of the actors involved in the stages of collecting, transporting and determining the animals can be listed. In conclusion, it can be seen how scientific activities cannot be dissociated from social and political contexts.
Keywords
Emília Snethlage; Amazon; Collections; Natural History; Museu Paraense Emílio Goeldi
INTRODUÇÃO
No final do século XIX, a concepção de intelectualidade no Brasil começa a sofrer transformações. Ocorre a transição de uma ‘ciência geral’ para uma ‘ciência especializada’, ou seja, se anteriormente o intelectual era aquele que detinha o conhecimento em várias áreas do saber, a partir desse momento, os pesquisadores passam a se dedicar a questões cada vez mais mais delimitadas, culminando na profissionalização da ciência (Sá, 2006). Nesse cenário, a ciência passa a ser alvo de constantes disputas e com uma linguagem de compreensão cada vez mais difícil entre o público leigo.
Uma das formas de compreender o processo de especialização da ciência no país é por meio do entendimento da institucionalização das ciências naturais. Figueirôa (1998) argumenta que esse processo deve ser analisado por um duplo viés: por um lado, deve-se observar a mundialização das ciências e, por outro, as respostas dos grupos locais, que rompiam com a historiografia anterior, a qual tendia a considerar como passiva a recepção das ideias científicas no país.
Lopes (2009), ao tratar dos museus de história natural no Brasil, tendo como estudo o Museu Nacional do Rio Janeiro, afirma que o desenvolvimento da entidade carioca foi resultado de medidas modernizadoras adotadas pelas elites do estado, as quais viam na ciência uma utilidade prática para a prosperidade do país. No entendimento da autora, esse fenômeno pode ser visto também de uma outra forma, no plano das mudanças operadas no campo das ciências naturais, com a diversificação de disciplinas e instituições que as abrigavam.
Entre 1870 e meados de 1930, os museus eram os principais locais para a pesquisa científica. Durante esse período, os cientistas realizavam viagens de campo para coletar materiais, e coleções, ideias e cientistas circulavam entre os museus, formando redes de intercâmbio. Tal período ficou conhecido como “movimento dos museus brasileiros” (Lopes, 2009).
A ampliação do papel do Museu Paraense nesse movimento de museus pode ser atribuída às iniciativas do cientista suíço Emílio Goeldi (1859-1917). Durante a gestão dele (1894-1907), delineou-se pela primeira vez um projeto científico para a Amazônia, com o objetivo de sistematizar os conhecimentos sobre a fauna da região. Goeldi aspirava realizar uma obra intitulada “Fauna do Brasil”, que, de acordo com Sanjad (2010, p. 238), deveria ser uma referência sobre o assunto, uma espécie de enciclopédia sem precedentes na literatura zoológica do país. Sanjad (2010) afirma que esse foi o projeto que Goeldi desejava assegurar para si e para o Museu Paraense.
Para implementar o mencionado projeto, Goeldi contou com a colaboração de vários cientistas, selecionados através de seu extenso círculo de contatos acadêmicos em institutos de pesquisa europeus. Dentre os especialistas que vieram a Belém do Pará, destacam-se o botânico suíço Jacques Huber (1867-1914), o botânico e entomólogo austríaco Adolpho Ducke (1876-1959) e a zoóloga alemã Emília Snethlage (1868-1929).
Snethlage desempenhou um papel crucial no avanço do projeto liderado por Goeldi, no qual ela identificou, descreveu e compilou informações sobre a avifauna amazônica disponíveis até aquele momento. O resultado final desse esforço foi publicado no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, sob o título “Catálogo das aves amazônicas, contendo todas as espécies descriptas e mencionadas até 1913” (Snethlage, 1914).
O inventário de Emília Snethlage teve grande repercussão, tanto que, apenas um ano após sua publicação, o ornitólogo americano Witmer Stone (1866-1939), editor da revista The Auk, afirmou que este catálogo de aves representou um avanço significativo no estudo das aves neotropicais, sendo de extrema necessidade, pois organizava os conhecimentos dispersos de vários autores e listava uma amostragem significativa das espécies de aves da região (Stone, 1915).
A presente pesquisa está situada no campo da História das Ciências. As fontes utilizadas são os relatos de viagem de autoria de Emília Snethlage e periódicos do Museu Britânico, consultados na Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna e na Biodiversity Heritage Library, que permitiram visualizar tanto as experiências de coleta em campo, como o exercício de identificação e descrição desses animais. Por outro lado, no Arquivo Guilherme de La Penha, do Museu Goeldi, foi examinada a documentação relativa à gestão de Emília Snethlage à frente do museu, o que possibilitou entender o contexto de intercâmbio das coleções zoológicas.
Este estudo discute inicialmente as influências teóricas do trabalho de campo realizado por Emília Snethlage, destacando como seus relatos de viagem se inserem no debate sobre a distribuição geográfica das espécies. Além de se concentrar nas aves, a pesquisadora também coletou mamíferos, parte dos quais foi enviada ao Museu Britânico, o que rendeu reconhecimento, tanto a ela quanto ao Museu Paraense, no meio científico internacional.
O próximo item aborda a contribuição de Snethlage na formação de redes de conhecimento, partindo da premissa de que o trabalho de campo e de gabinete são complementares. Nesse contexto, destaca-se a natureza coletiva na construção do conhecimento nas ciências naturais, envolvendo a ação conjunta de indígenas, políticos e cientistas.
AS INFLUÊNCIAS TEÓRICAS NO TRABALHO DE CAMPO DE EMÍLIA SNETHLAGE
Ao assumir em Agosto de 1905 as funcções de auxiliar de zoologia do Museu Paraense fui encarregada pelo Prof. Dr. E. A. Goeldi, director do Museu e meu chefe de secção n’aquelle tempo, de principiar logo os trabalhos preparatorios para a edição de um catalogo da avifauna amazonica, tendo por base principal as collecções de pelles de passaros conservadas no proprio Museu, enumerando-se tambem todas as especies mencionadas em outros trabalhos como provenientes da nossa região
(Snethlage, 1914, p. 1).
O trecho acima, escrito por Snethlage (1914), sublinha a continuidade de um projeto científico para o Museu Paraense, reforçando que, mesmo com a mudança de direção na instituição, houve a permanência de um mesmo ideal a ser buscado. Sanjad (2010) considera este trabalho o exemplo mais bem sucedido do projeto inicialmente formulado por Goeldi, pois seguiu fielmente os propósitos determinados pelo cientista suíço, com foco na fauna e na biologia regional.
O trabalho de Snethlage teve um impacto significativo na zoologia e na biogeografia da região amazônica, pois, até então, as informações disponíveis sobre esse local eram escassas. O naturalista Alfred Wallace (1823-1913), durante sua passagem por esse território, no século XIX, comentou sobre a distribuição geográfica de primatas, alertando que na literatura zoológica da época as informações sobre esses animais eram vagas e dispersas, carecendo, assim, de maiores estudos para preencher essa lacuna.
Os resultados da viagem de Wallace destacaram o impacto da dimensão dos rios amazônicos na distribuição de espécies. Ele observou que os rios de grande porte funcionavam como barreiras geográficas, resultando na ocorrência de espécies distintas em um mesmo nicho ecológico. Esse fenômeno foi evidenciado nos rios Amazonas, Negro e Madeira, por exemplo, pelo viajante inglês.
A preocupação da cientista alemã com a biogeografia assemelha-se à de Wallace, ao demonstrar como questões climáticas e geomorfológicas influenciam na distribuição da fauna da região, conforme indicado em:
De modo geral, confirmei tanto nos macacos quanto nos outros mamíferos a regra por mim há tempos notada nas aves amazônicas de que os vertebrados locais tendem a se dividir em subespécies bem definidas (as chamadas subespécies geográficas) quanto mais estejam adaptados à vida no interior da mata virgem de terra firme. Por outro lado, as espécies que habitam exclusiva ou preferencialmente a várzea apresentam de modo geral uma ampla distribuição que se estende por toda a Amazônia ou pela maior parte dela
(Snethlage, 1925, pp. 339-340).
A Figura 1 retrata a preocupação de Emília em registrar, por meio de uma fotografia, a presença dos rios como barreiras geográficas.
A Figura 1 retrata um trecho do rio Curuá, afluente do Xingu. Emília esteve nesse local em 1909, quando explorou a diversidade da fauna, da flora e dos povos indígenas amazônicos. Ao incluir essa imagem no relato de viagem publicado em 1912 e intitulado “A travessia entre o Xingú e o Tapajoz” (Snethlage, 1912), objetivava evidenciar aos leitores como as aves daquela região se diferenciavam de uma margem para a outra do rio, alterando, por exemplo, as características morfológicas.
Assim, o trabalho de campo de Emília Snethlage segue as observações feitas por Wallace, ambos diretamente influenciados pelos estudos darwinistas. Ambos buscavam explicar a variação das espécies através da relação entre os seres vivos e o ambiente que os rodeia. As atividades de coleta de Emília se inserem em um panorama de mudanças, no qual campo e gabinete passam a se interrelacionar. Para a historiadora Junghans (2009, p. 55): “o trabalho de campo feito por Emília Snethlage inscreve-se nesse novo momento dos estudos das ciências da natureza, para o qual contribuiu o trabalho de Wallace, como coletor e analista”.
Apesar das mudanças, nem sempre era o coletor quem realizava a descrição da espécie coletada. Dois fatores ajudam a entender esse cenário. Primeiramente, em algumas ocasiões, o Museu Paraense não possuía os instrumentos necessários para o processo de determinação do animal. Além disso, outro fator estava relacionado ao envio desses animais para o exterior, visando fortalecer os laços do museu do Pará com importantes instituições estrangeiras (Sanjad, 2010). Então, é possível perceber que a colaboração com especialistas estrangeiros desempenhava um papel crucial na determinação e na descrição das espécies coletadas.
Um dos museus que mais recebeu coleções provenientes do Museu Paraense foi o Museu Britânico durante os anos suíço-germânicos. Destaca-se especialmente o grupo dos mamíferos, cuja identificação era realizada por Oldfield Thomas (1868-1930). Sua ligação com o Museu Paraense remonta à gestão de Emílio Goeldi.
Entre os textos que o cientista inglês publicou a partir de coleções advindas de espécies coletadas por funcionários do Museu Paraense, estão “On a collection of bats from Para” (Thomas, 1901), “On mammals collected in Ceará, N.E. Brazil, by Fräulein Dr. Snethlage” (Thomas, 1910), “On some rare Amazonian mammals from the collection of the Para Museum” (Thomas, 1913) e “On mammals from the lower amazons in the Goeldi Museum, Para” (Thomas, 1920).
Um detalhe a ser ressaltado é que os três últimos trabalhos só foram possíveis a partir das coleções formadas por Snethlage. Conforme será visto mais adiante, apesar de ser especialista em ornitologia, os mamíferos chamavam a atenção dela na floresta. Em razão disso, além de reunir significativos acervos de aves, também trazia animais dessa classe.
A partir da data de publicação dos textos mencionados, evidencia-se a continuidade da relação entre o museu brasileiro e o museu inglês, mesmo diante das mudanças de diretores. Isso revela a consolidação do projeto científico de Goeldi, de integrar o Museu Paraense ao circuito global de produção científica.
Portanto, vislumbra-se um fluxo de intercâmbios formado entre o Museu Paraense e o Museu Britânico no início do século XX, principalmente mediante a circulação de mamíferos. Ao enfatizar essa rede de conhecimento entre as instituições, busca-se evidenciar a atuação de uma mulher cientista nesse cenário, Emília Snethlage. Para isso, dois aspectos serão sublinhados: o contexto de envio das coleções do Pará para Londres e a participação de Snethlage na mobilização de colaboradores que possibilitaram o sucesso das coletas em campo.
DO PARÁ A LONDRES: CONTEXTUALIZANDO A SAÍDA DAS COLEÇÕES DE MAMÍFEROS
Alberti (2005) ressalta que o estudo de coleções não deve ser concentrado apenas no objeto em si, pois é somente através do contato com os seres humanos que ele adquire significado. Partindo desse pressuposto, pretende-se analisar o deslocamento da coleção de mamíferos do Museu Paraense em direção ao Museu Britânico. O contexto social da capital paraense desempenha um papel significativo na movimentação desses animais.
A obra ora mencionada foi publicada em 1920, com autoria de Thomas, no periódico Annals and Magazine of Natural History, de responsabilidade do Museu Britânico. No trecho inicial do texto, o zoólogo afirma que:
The majority of the specimens have been collected by Fraulein Dr. E. Snethlage, and it is to her energy and ability in collecting, and to the enlightened generosity of the Trustees of the Goeldi Museum in the distribution of the specimens, that the greater part of our increased knowledge of Amazonian mammals is due
(Thomas, 1920, p. 266).
O reconhecimento ao trabalho de Emília Snethlage para o desenvolvimento dos estudos no campo da Mastozoologia era recorrente. Ao fazer isso, ela angariava prestígio tanto para si como para o Museu Paraense, que cada vez mais se alinhava a redes científicas transnacionais, aumentando, assim, a visibilidade da entidade amazônica.
Cabe pontuar que a contribuição da alemã não se restringia aos animais do norte do país, havendo registros de espécimes coletados no interior do estado do Ceará, em Ipu, e São Paulo, locais em que, segundo Thomas (1913), o campo de estudo dos mamíferos possuía informações mínimas. Além disso, em outro periódico, Thomas (1912, p. 89) parabenizava a cientista do Museu Paraense pela redescoberta de uma espécie considerada rara, a Isothrix pagurus Wagner. Nas palavras do zoólogo inglês: “A Senhora Snethlage está de parabéns pela redescoberta desse animal raro e interessante [tradução nossa]”.
Após essas breves considerações acerca da relação entre Thomas e Snethlage na circulação de espécimes zoológicos, cumpre retornar à análise do contexto das coleções. Com o intuito de compreender o deslocamento dessas coleções – resultantes de coletas realizadas por Snethlage e preparadores do Museu Paraense entre 1914 e 1920 – do estado do Pará em direção a Londres, deve-se visualizar a situação pela qual a região passou a partir de 1910.
Segundo Sarges (2002), nesse momento ocorre a acentuação da crise da economia gomífera. Conforme a autora, dois motivos levaram a isso: a queda no valor comercial da borracha da Amazônia, resultado da substituição deste produto pela borracha oriental, e a falta de união de uma elite local que lutasse por seus direitos e benefícios. A crise comprometeu fortemente as contas públicas, resultando em reduções nos orçamentos dos órgãos ligados ao governo estadual, como o Museu Paraense.
À medida que o tempo avançava, a crise econômica apenas se agravava. Em diversos ofícios enviados ao secretário geral do estado do Pará, nota-se os impactos da receita reduzida nas atividades do Museu Paraense, seja na manutenção do jardim zoológico, seja na dificuldade de manter em dia a folha de pagamento dos funcionários.
Esse cenário pode ser observado em um ofício enviado por Emília Snethlage, em 25 de maio de 1920. Nele, ela informava que as coleções acumuladas pelo Museu Paraense nos últimos seis anos pela seção zoológica não podiam ser completamente estudadas e classificadas internamente devido à falta de material para comparação. Essas coleções continham muitas raridades ainda não representadas no Museu, além de um número considerável de espécies novas, exigindo comparação com os tipos de espécies relacionadas em coleções de diversos museus europeus, especialmente Viena, Munique, Berlim, Londres e Tring. Por fim, ela chamava a atenção para a urgência do assunto, pois havia colecionadores de museus americanos na região, e seria lamentável perder a prioridade das descobertas científicas e a posse dos tipos das novas espécies. Snethlage (1920) enfatizava os esforços para manter esse acervo, apesar das adversidades. Logo, segundo o que foi assinalado, a situação na seção zoológica era crítica, pois o Museu Paraense não dispunha dos instrumentos necessários para quem fossem identificadas ou descritas novas espécies.
Nessa perspectiva, ao considerar o contexto social de crise vigente, as fontes permitem afirmar que o intercâmbio de coleções entre o Museu Paraense e o Museu Britânico estava intimamente relacionado com a decadência da indústria da borracha e as dificuldades impostas ao museu do Pará, sobretudo no que se refere ao acesso a materiais científicos. No próximo tópico, será abordado como o trabalho de campo e o trabalho de gabinete efetuados por Emília Snethlage estavam conectados, a partir da publicação oriunda da coleção enviada por ela.
CIENTISTAS E INDÍGENAS NA CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO CIENTÍFICO: O CASO DA ESPÉCIE PITHECIA ALBINASA
No artigo “On mammals from the lower amazons in the Goeldi Museum, Para”, Thomas (1920) identifica 58 espécimes de mamíferos coletados por funcionários do Museu Paraense entre 1914 e 1920. Preliminarmente, chama a atenção a prática de nomear as novas espécies com epítetos que faziam referência a Emílio Goeldi ou a Emília Snethlage. Sobre isso, Lopes (2000, p. 231) comenta que, no início do século XX, “além de coleções e publicações, correspondências, interesses e amabilidades científicas – foi prática usual entre esses diretores nomearem espécies novas com o nome dos colegas, – os próprios diretores de museus circularam”.
No texto de Thomas (1920), constata-se isso nos nomes Hapale emiliae; Sciurus cestuans paraensis, Goeldi; Ecomys tapajinus, Thos; Proechimys goeldii, Thos; Lonchothrix emiliae, Thos; Monodelphis emiliae, Thos. O nome dos animais fazia alusão à Emília ou a locais na Amazônia, nesse caso, ao estado do Pará e ao rio Tapajós.
Esse fato pode ser interpretado como uma estratégia de legitimação da atuação de uma mulher cientista. Junghans (2008, 2009), ao analisar as ferramentas que Snethlage utilizava para angariar prestígio perante seus pares, ressalta o caráter ‘heróico’ presente nas narrativas de viagem da alemã, destacando sua bravura e coragem no trabalho de campo pelo vale amazônico.
Entretanto, para além desse aspecto, observa-se que os nomes Hapale emiliae, Lonchothrix emiliae e Monodelphis emiliae são homenagens à Emília Snethlage. Isso pode ser considerado uma forma de a cientista alemã obter ‘capital simbólico’ (Bourdieu, 2004), ou seja, reconhecimento no campo científico, o qual era fundamental naquele contexto, pois o meio acadêmico era predominantemente masculino.
Ademais, outro fator que se destaca na obra de Thomas (1920) é a menção às localidades. A lista a seguir contém a relação completa dos lugares onde houve a coleta dos animais descritos por ele: 1) Utinga (Pará), bosque perto do sistema hidráulico; 2) ilha de Marajó, fazenda Ilha de Roça e fazenda Pacovall dos Mellos; 3) rio Flor do Prado, rio a leste do Pará, em Quatipuru; 4) rio Tocantins, fazenda Vaicajó, Cametá; 5) rio Iriri, afluente do Xingu, em Santa Julia e Liberdade; 6) Monte Alegre, margem norte do Amazonas, fazenda São Pedro; 7) fazenda Taperinha, margem direita da Amazônia, abaixo de Santarém; 8) rio Tapajós, vila Braga; 9) rio Jamauchim, afluente do rio Tapajós, Santa Helena; 10) rio Negro, Acajutuba; 11) rio Solimões; e 12) Ceará, Ladeira Grande.
Entre os doze locais mencionados, há alguns próximos ao Museu Paraense, como a região do bosque do Utinga, mas também há áreas distantes e vastas, como os rios Tapajós, Negro e Solimões. Essa diversidade de espaços percorridos por Snethlage e os funcionários do museu entre 1914 e 1920 evidencia a amplitude de suas atividades de coleta. Para realizar essas tarefas de maneira satisfatória, era fundamental contar com um aparato humano que os auxiliasse.
O trabalho de campo é caracterizado pela imprevisibilidade, pois requer do cientista um grau de improvisação para lidar com as incertezas e os entraves da região explorada (Lopes, 2001). Particularmente, quando o ambiente a ser percorrido é a Amazônia, não se pode pensar na viabilidade da coleta de espécimes e objetos sem o auxílio de grupos locais, fornecendo informações para que o cientista se locomova e ajuda para que execute seu trabalho (Coelho, 2021).
Na discussão em torno das viagens de Snethlage pelas intendências amazônicas, Corrêa (2001) mostra as redes de apoio que viabilizavam o desenvolvimento das atividades da cientista. Segundo a autora:
É só nesse texto que ficamos sabendo o quanto o trabalho de pesquisa da época se devia à iniciativa privada e quão importante era uma rede de apoio ao pesquisador que saía de uma instituição para a pesquisa de campo – campo minado, já que todo ele distribuído entre proprietários que poderiam impedir o acesso dos cientistas
(Corrêa, 2001, p. 169).
No entanto, como fica evidente nos próprios relatos da cientista alemã, nas idas aos rios Xingu, Iriri e Curuá, ela sempre contava com a colaboração de vários sujeitos. A rede de atores ia desde o governador do estado do Pará, que autorizava os recursos para a realização das viagens, até grupos de indígenas, que conviviam com Snethlage em meio às adversidades da mata amazônica. No relato de viagem da travessia entre o Xingu e o Tapajós, de 1909, ela aponta a participação de indígenas e donos de seringais para que fosse possível a coleta de animais:
Se foi o senador Porfirio Miranda que me abriu as portas do sucesso, posso dizer que o coronel Ernesto Accioly me conduziu ate quasi ao termo. Elle não somente me offereceu hospitalidade nas suas canoas durante mais de 6 semanas, mas tambem deu-me as preciosas informações sobre os rios Iriri e Curuá, que elle explorou o primeiro e dos quaes é o melhor conhecedor. De importancia ainda maior para a sorte da minha viagem foi o facto de que, usando de sua influencia com os indios Curuahés e Chipayas elle me procurou os guias necessarios para atravessar a região inexplorada entre o Curuá e o alto Jamauchim
(Snethlage, 1912, p. 53).
Alberto (2022) sugere que Snethlage era capaz de tecer relações que extrapolavam o âmbito científico. Isso pode ser visto quando a naturalista faz referência a Accioly, Porfirio Miranda e os indígenas.
Na mesma publicação, ela registra esses atores por meio de uma fotografia, na qual mostra a presença de um dono de terras, centralizado na imagem e vestindo branco (Ernesto Accioly); ao lado dele, também com uma roupa na cor branca, um indígena Xipaya, de nome Manoelsinho, que intermediava a relação dos brancos com seus parentes; e no fundo, um grupo de indígenas Xipaya e Kuruaya (Figura 2). A utilização de fotografias como instrumentos de pesquisa em História evidencia que o registro visual possui uma intencionalidade no momento em que é produzido. Nessa lógica, apesar da sensibilidade etnográfica de Emília com os povos que encontrava, deve-se ter em mente que ela carrega uma mentalidade eurocêntrica, por vezes emitindo, mesmo que sutilmente, uma perspectiva colonizadora (Alberto, 2022).
A Figura 2 ilustra isso. Uma reflexão sobre a posição ocupada por cada sujeito, seja na margem ou no centro do retrato, evidencia claramente a hierarquia existente nesse cenário. A presença e a tonalidade das vestimentas são outros indicativos que distinguem os sujeitos.
Os indígenas não devem ser vistos como meros ajudantes dos naturalistas, desprovidos de uma lógica de ação. Ao contrário, no contato com povos alheios à sua cultura, eles negociaram demandas para promover o auxílio. Na literatura de viagem publicada em 1912, Emília relata que, anualmente, grupos Xipaya e Kuruaya se dirigiam até o rio Curuá, na maloca do indígena Manoelsinho, onde haveria uma troca dos ubás, espécie de canoa, produzidos por estes, recebendo de Ernesto Accioly ferramentas como machados e facas. Acerca do primeiro encontro que Emília presenciou entre os indígenas e o Coronel Ernesto, ela escreve:
Pertenciam elles às tribos dos Chipayas e Curuahés e tinham descido o Curuá para ir ao encontro do Coronel Ernesto, que costumava visitar anualmente a primeira maloca do Curuá, a do chipaya Manoelsinho, para trocas perolas (missanga), machados, facas, etc., contra as ubás que estes índios sabem fazer á perfeição e que servem como meios de comunicação em todo o Iriri e Curuá
(Snethlage, 1912, p. 58).
A prática do ‘homem branco’ de oferecer objetos aos indígenas, visando obter alguma vantagem junto a eles, como a simpatia do grupo, foi recorrente durante a passagem de viajantes no século XIX pela Amazônia. Henrique (2017), ao pesquisar a perspectiva indígena na troca de presentes em aldeamentos, considera que esses artefatos devem ser vistos através do simbolismo a eles atribuído, e não apenas comercialmente. De acordo com o autor, longe de serem observados como itens secundários remetidos aos povos tradicionais, os brindes, ao adentrarem nessas sociedades, são reinterpretados.
Snethlage (1912) comenta também que recebeu informações dos indígenas, particularmente, detalhes sobre o curso do alto rio Curuá. Eles relataram que essa área do rio ainda era navegável por um trecho considerável, localizado acima das malocas, e era ocupada pelos Xipaya. Essas observações destacam não apenas a geografia da região, mas também a presença e a dinâmica das comunidades indígenas locais. Tal exemplo possibilita pensar sobre a presença dos saberes tradicionais na ciência, tendo em vista que esses povos, por conhecerem plenamente a floresta amazônica, eram fundamentais para o deslocamento e a sobrevivência dos viajantes.
A viagem de 1909 repercutiu fortemente no meio científico mundial da época. Segundo Cunha (1989, p. 88), “nas mais importantes revistas científicas da Europa e dos Estados Unidos, escreveram-se artigos informando e enaltecendo o feito da modesta cientista do Museu do Pará”. Além da contribuição geográfica da excursão, ela também trouxe informações relevantes sobre os campos da etnografia, botânica e zoologia. No texto, há um enfoque maior na área da zoologia, uma vez que possuía maior habilidade nele, como atestado em:
Para mim é mais fácil tratar de aspectos zoológicos do que botânicos, pelo menos que diz respeito às formas mais importantes e marcantes com que se possa deparar em tal jornada e, por isso, quero aqui iniciar meu panorama, obviamente breve, com os representantes mais relevantes e, por vários ângulos, particularmente interessantes – os macacos
(Snethlage, 1925, p. 338).
O grupo dos primatas foi o que mais despertou a atenção de Emília Snethlage, já que estava ciente de que, no território entre os rios Xingu e Tapajós, havia várias espécies raras, das quais a ciência dispunha de pouca ou quase nenhuma informação (Snethlage, 1912, 1925). Exemplos representativos desse caso são o cuxiú-de-nariz-branco (Pithecia albinasa) e o coatá-de-fronte-branca (Ateles marginatus), mencionados em suas publicações.
A viagem de Snethlage aos rios Iriri, Curuá e Xingu trouxe para o museu significativas coleções, como apontou o então governador do estado do Pará, Éneas Martins (1872-1919), ao dizer que contribuiu “consideravelmente para o aumento das coleções científicas do estabelecimento, sendo que a primeira foi também de apreciável resultado geográfico, por haverem sido percorridos vastos trechos de terras desconhecidas, das quais se levantou planta” (Martins, 1915, p. 25). Parte do material coletado foi estudado e publicado por Oldfield Thomas.
Na obra, o zoólogo inglês faz referência à espécie Pithecia albinasa, a mesma que Snethlage apontava como pouco conhecida pelo universo científico. Isso é evidenciado quando Thomas (1920) menciona que esse exemplar foi colhido entre os rios Iriri e Xingu, mostrando que ele reconhecia a relevância do material enviado por Snethlage. Nas palavras dele:
A redescoberta desta espécie bem definida é de grande interesse, pois parece nunca ter sido obtido desde a sua descrição original em 1848, e o espécime do tipo em Paris até agora permaneceu único. Esse tipo foi obtido vivo dos índios em Santarém
(Thomas, 1920, p. 268).
Tratava-se, assim, de uma espécie considerada rara, além de ser o único exemplar conhecido que foi coletado no início do século XIX e descrito em 1848. Neste trecho, Thomas (1920) também explicita o protagonismo indígena nas redes de conhecimento envolvendo a circulação de coleções. Baseado na documentação, constata-se que o animal foi obtido a partir de negociações com os indígenas no baixo Amazonas. Em razão da limitação das fontes, não se tem mais detalhes sobre como ocorreu essa troca.
O conceito de ‘espaços de circulação’, conforme empregado por Raj (2017, p. 52), é definido por uma perspectiva de “análise dos processos de encontro, negociação e reconfiguração do conhecimento que ocorrem na interação intercultural [tradução nossa]”. Essa forma de compreensão reconhece que a circulação do saber acontece em territórios geográfica e socialmente delimitados, através do movimento de pessoas e do compartilhamento de saberes.
Desse modo, cabe retornar à espécie Pithecia albinasa, pois é válido problematizar o fato de que Oldfield Thomas, ao redescrevê-la, registra que o exemplar-tipo foi obtido por indígenas em Santarém.
Levando em conta o conceito de redes de conhecimento proposto por Raj (2017), delineia-se um quadro de atores heterogêneos, formado pelos indígenas que capturaram o macaco no século XIX; pelos coletores portugueses desse exemplar vivo; por Geoffroy de Saint-Hilaire e por Deville, que descreveram a espécie na França, em 1848; por Snethlage, que ‘redescobriu’ o animal no início do século XX; e por Thomas, que o redescreveu em 1920, com explícito crédito à participação dos indígenas no início do processo.
Como se observa nos trabalhos de Thomas, citados anteriormente, a relação entre o Museu Paraense e o Museu Britânico, especialmente com o departamento de mamíferos da instituição inglesa, foi duradoura. Isso é evidente desde a gestão de Emílio Goeldi, passando pelo seu sucessor, Jacques Huber, até Emília Snethlage. O envio de coleções para serem determinadas era uma constante.
Além disso, as publicações de Thomas permitem visualizar preliminarmente as formas de legitimação do trabalho de uma mulher cientista em um ambiente predominantemente formado por homens, vide as homenagens feitas a Snethlage no nome das novas espécies descritas a partir das coletas feitas pelos funcionários do Museu Paraense. Isso concatena as atividades de campo e o trabalho de gabinete feitos em ambientes distintos e distantes.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os estudos no campo da História das Ciências ressaltam a necessidade de pensar as atividades científicas de forma contextualizada, ou seja, vinculada a questões de ordem social (Figueirôa, 1998). Particularmente no início do século XX, era uma prática recorrente entre os museus de história natural a realização de troca de coleções. Tal ação contribuiu para o processo de institucionalização das ciências naturais, pois, assim, novas espécies foram descobertas e contribuíram para o saber existente sobre a fauna e a flora de diversas regiões.
No caso da região amazônica, no final do século XIX, o Museu Paraense iniciou uma agenda científica que buscava sistematizar os conhecimentos sobre a fauna. A formação de redes científicas que conectavam essa instituição aos museus estrangeiros foi fundamental para a ampliação dos saberes sobre os animais da floresta amazônica, pois, por vezes, o museu do Pará não possuía os meios necessários para a identificação ou a comparação de espécies.
Emília Snethlage atuou no Museu Paraense entre 1905 e 1921. A historiografia que analisa o legado dela, em geral, tende a ressaltar os estudos ornitológicos e etnológicos por ela produzidos, em razão da maior disponibilidade de documentos relativos a isso. Todavia, nos rastros dos relatos de viagem dela, em cartas e periódicos, evidencia-se a contribuição de Snethlage para a mastozoologia, uma questão pouco abordada pela literatura.
Nesse sentido, objetivou-se analisar a inserção do Museu Paraense em redes de intercâmbio de espécimes zoológicos, particularmente os mamíferos. A pesquisa analisou a atuação de Snethlage no envio de animais para o Museu Britânico, como fruto das coletas que ela realizava em campo na Amazônia.
Desse modo, o processo que culmina com a descoberta de novas espécies inicia-se com a coleta do animal em um dado território no interior da Amazônia, seguido pelo transporte dele para o Museu Paraense e, posteriormente, do Museu Paraense ao Museu Britânico.
Ao estudar o deslocamento de uma coleção de mamíferos do Pará em direção a Londres, é possível observar o aspecto contextual inerente ao trabalho científico. As fontes analisadas permitem perceber como o contexto de crise econômica da borracha influenciou o andamento das atividades de pesquisa no Museu Paraense, comprometendo a segurança das coleções dessa instituição.
Ademais, aborda-se nesta pesquisa a importância do trabalho de uma mulher cientista, Emília Snethlage, tanto em campo como na diretoria da instituição. Os documentos consultados atestam o reconhecimento ao trabalho efetuado por ela, o que lhe rendeu homenagens.
Por fim, cabe salientar a presença de uma variedade de atores que integram a circulação do conhecimento na coleção analisada. Para além do mero destaque concedido à figura dos cientistas, Emília Snethlage e Oldfield Thomas, é relevante pontuar também a contribuição de grupos indígenas para que a coleta fosse eficaz, haja vista as dificuldades que permeavam o trajeto pela mata amazônica.
AGRADECIMENTOS
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por financiar esta pesquisa. Os autores agradecem também ao Prof. Nelson Rodrigues Sanjad pelas indicações bibliográficas.
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DADOS DA PESQUISA
Os dados foram depositados no repositório SciELO Data e podem ser acessados em Santos e Amorim (2025).
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Lucia Hussak van Velthem




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