Resumo
Introdução: O elevado tempo despendido sentado tem sido associado a desfechos negativos de saúde. Devido às mudanças nos processos de trabalho, o trabalhador passou a realizar sua jornada empregatícia na posição sentada.
Objetivo Avaliar a prevalência do tempo sentado e os fatores associados em trabalhadores homens.
Métodos: Estudo transversal com uma amostra de 1.024 trabalhadores homens com 18 anos ou mais de um município do interior da Bahia. O elevado tempo sentado foi definido como passar 6 horas ou mais por dia na posição sentada. Variáveis sociodemográficas, de hábitos e comportamentos e relacionadas à saúde/doença foram testadas como explicativas para o evento. Utilizou-se a regressão de Poisson com variância robusta e adotou-se a entrada hierárquica das variáveis.
Resultados: A prevalência de tempo sentado foi de 24,22% (IC95% 21,6–26,9). Maior escolaridade e renda, pior percepção da qualidade de vida e indivíduos com sobrepeso ou obesidade foram positivamente associados ao desfecho. Trabalhadores mais velhos e ativos fisicamente foram negativamente associados com o tempo sentado.
Conclusão: Tornam-se necessárias abordagens específicas voltadas para trabalhadores, a fim de que eles adotem hábitos mais saudáveis e de que as complicações provindas pelo excesso de tempo sentado possam ser reduzidas.
Palavras-chave:
estudos epidemiológicos; comportamento sedentário; categorias de trabalhadores; masculino
Abstract
Introduction: Spending too much time sitting has brought negative health outcomes. Due to new advances in technology, workers were led to complete their working hours mostly in a sitting position.
Objective: The aim of the study was to evaluate the factors associated with the length of time spent by male workers.
Methods: A cross-sectional study with a sample of 1,024 male workers aged 18 years or older from a county of Bahia. Long sitting time was defined as spending 6 h or more per day in a sitting position. The sociodemographic variables of habits and behaviors related to health and disease were tested as explanatory factors for the event. For the study, Poisson regression with robust variance was used, and the hierarchical input of the variables was adopted.
Results: The prevalence of sitting time was 24.22% (95%CI 21.6–26.9). Individuals with higher education and income, a worse perception of quality of life, as well as overweight or obese were positively associated with the outcome. Older and physically active workers were negatively associated with sitting time.
Conclusion: Specific worker-oriented approaches are vital to adopt healthier habits so that the damage caused by excessive sitting time can be reduced.
Keywords:
epidemiological studies; sedentary behavior; occupational groups; male
INTRODUÇÃO
O processo de trabalho se configura como um importante cenário em que o trabalhador está inserido. Devido a mudanças organizacionais contínuas e introdução de novas tecnologias, observa-se um aumento de atividades laborais sedentárias que contribuem para o desenvolvimento de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) entre os trabalhadores1. Pressões para maior produtividade e insegurança no emprego também favorecem o surgimento dessas doenças e podem reduzir a satisfação no trabalho e a produtividade2,3.
Sabe-se que as mudanças ocorridas nos ambientes de trabalho podem propiciar o aumento do risco de adoecimento nos trabalhadores, comprometendo o bem-estar social, a qualidade de vida, além do desempenho no trabalho2. Um ambiente sobrecarregado de trabalho contribui para o desenvolvimento de doenças como distúrbios musculoesqueléticos e dor lombar, que estão associados ao estresse psicológico sofrido pelos trabalhadores3. Além disso, longas jornadas de trabalho também são relatadas como fator de risco para DCNT, como a síndrome metabólica1.
Devido ao uso de tecnologias no ambiente de trabalho, o trabalhador pode passar a maior parte da sua jornada realizando tarefas na posição sentada4. O tempo sentado despendido no local de trabalho é outro fator que está relacionado com o desenvolvimento de doenças neste grupo. O acúmulo de tempo sentado durante o dia ou despendido em visualização de tela, como televisão, computador, entre outras, é caracterizado como comportamento sedentário, e este tem sido fortemente associado a maiores taxas de morbimortalidade em adultos e a desfechos como doenças cardiovasculares, câncer e diabetes tipo 25,6.
Estudos indicam que níveis elevados de tempo sentado entre adultos estão relacionados a um aumento na probabilidade de mortes por doenças cardiovasculares, independentemente de praticarem Atividade Física (AF)5. Essa situação pode se agravar em indivíduos do sexo masculino, uma vez que neste grupo tem sido observada com maior frequência a presença de fatores de risco para o desenvolvimento de DCNT (fumo, álcool, alimentação inadequada), aliados a uma menor busca de serviços de saúde e consequente menor oportunidade de acesso ao cuidado7,8.
No entanto, sabe-se que outras questões, para além das escolhas individuais, são determinantes na adoção de um estilo de vida não saudável. Fatores interpessoais e psicossociais e condições de trabalho, como as longas jornadas, por exemplo, podem contribuir para a adoção de estilo de vida inadequado1. Além disso, questões relacionadas às diversidades econômicas, sociais, raciais e geográficas são também consideradas determinantes importantes do estilo de vida9. Condições sociais e econômicas podem influenciar expressamente as condições de saúde das pessoas9.
Ao se referir a uma população de trabalhadores, é possível também agregar uma menor disponibilidade de tempo como barreira para o cuidado e contribuição para o surgimento de agravos. Esta população tende a apresentar uma maior proporção de tempo sentado em dias úteis10; por isso, as atividades laborais podem representar mais da metade do tempo sentado diário neste grupo11.
Diante do contexto ao qual o trabalhador está exposto, aliado a diversas outras condições que podem comprometer sua saúde, o objetivo do presente trabalho foi avaliar a prevalência de tempo sentado e os possíveis fatores associados em indivíduos trabalhadores do sexo masculino1. A realização desta pesquisa torna-se relevante, pois poderá contribuir para que lacunas relacionadas à influência do tempo sentado em trabalhadores do sexo masculino possam ser preenchidas.
MÉTODOS
Trata-se de um estudo transversal realizado com a população de trabalhadores assistida no Serviço Social da Indústria (Sesi), em unidade localizada na cidade de Vitória da Conquista/BA. Os dados foram coletados entre julho de 2017 e julho de 2018.
Foi considerado para o cálculo amostral todos os trabalhadores com 18 anos ou mais, residentes no município, que compareceriam ao Sesi para as consultas de rotina admissionais ou periódicas com o médico do trabalho e que não estavam em situação de demissão, totalizando 2.014 trabalhadores. Utilizou-se nível de 95% de confiança, prevalência de 50% (devido aos multidesfechos mensurados no projeto principal) e um erro tolerável de 2%. A amostra final foi de 1.218 trabalhadores, considerando-se 10% de perdas. Foram entrevistados 1.275 trabalhadores; deste total, 1.024 eram do sexo masculino, sendo esta a população do presente trabalho.
Coleta de dados
Foram realizadas entrevistas individuais, por entrevistadores devidamente capacitados utilizando tablets contendo o software KoboToolbox. Os dados coletados foram sincronizados de forma criptografada. O instrumento de entrevistas utilizado foi um questionário semiestruturado baseado no questionário da Pesquisa Nacional de Saúde12, Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ, na sigla em inglês)13, em sua versão curta e escala de qualidade de vida EUROHIS-QOL-814.
A Pressão Arterial (PA) foi aferida por meio do método oscilométrico, utilizando o esfigmomanômetro digital da marca Omron, modelo HEM 7113, validado internacionalmente15. Foram coletadas três medidas de PA (com intervalo de um minuto entre cada aferição), sendo utilizada para as análises a média das duas últimas medidas. As aferições foram realizadas após as entrevistas, visando garantir que os indivíduos estivessem em repouso, sentados, com as pernas descruzadas, os pés apoiados no chão, o dorso recostado na cadeira e relaxado, e o braço esquerdo apoiado sobre a mesa à altura do coração. Certificou-se de que os mesmos: não estavam com a bexiga cheia; não haviam praticado exercícios físicos há pelo menos 60 minutos; não haviam ingerido bebidas alcoólicas, café ou alimento e fumado nos últimos 30 minutos16.
O peso foi verificado com os indivíduos descalços, vestindo roupas leves, sem portar acessórios e objetos em bolsos, em balança eletrônica portátil digital da marca SECA 813 com capacidade para 200 kg e precisão de 100 g. Para a aferição da altura foi utilizado o estadiômetro portátil da marca NutriVida, composto por extensor com escala numérica e base para apoio dos pés, com os indivíduos descalços e em posição ereta.
Variáveis dependente e explicativas
A variável dependente foi o tempo total sentado em um dia da semana, partindo da questão utilizada pelo IPAQ versão curta13: "Em relação ao tempo que você permanece sentado todo dia, no trabalho, na escola ou faculdade, em casa e durante seu tempo livre. Isto inclui o tempo sentado estudando, sentado enquanto descansa, fazendo lição de casa, visitando um amigo, lendo, sentado ou deitado assistindo TV. Não inclua o tempo gasto sentado durante o transporte em ônibus, trem, metrô ou carro. Quanto tempo no total você gasta sentado durante um dia de semana?". As respostas foram obtidas em horas e minutos e analisadas em horas. Foi considerado positivo para excesso de tempo sentado os indivíduos que ficaram seis horas ou mais por dia nessa posição17-19.
As variáveis explicativas foram organizadas em três blocos: sociodemográficas, hábitos e comportamentos, e saúde/doença. No bloco de características sociodemográficas foram analisadas: a idade em anos (18 a 30, 30 a 39 e 40 anos ou mais); o estado conjugal (sem companheira(o) e com companheira(o)); anos de estudo (até 4, 5 a 8 e 9 anos ou mais); renda da família, segundo o salário mínimo vigente (menos que 2 salários, entre 2 até menos que 3 salários e 3 ou mais salários mínimos).
No que se refere ao trabalho, os turnos foram categorizados como diurno/noturno e apenas diurno. Quanto à ocupação, a categorização foi feita de acordo com a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sendo dicotomizada em braçal (trabalhadores das indústrias, construção civil, serviços gerais e serviços braçais avulsos) e não braçal (trabalhadores da saúde, administrativos e da educação)20. A frequência semanal no trabalho foi categorizada em até 5 dias/semana e mais que 5 dias/semana. A frequência de jornada diária foi dicotomizada em até 8 horas/dia e mais que 8 horas/dia.
Quanto ao bloco relacionado a hábitos e comportamentos, o consumo de frutas e salada crua foi avaliado de acordo com a frequência semanal, considerado adequado quando a ingestão foi maior ou igual a 5 dias por semana. O consumo de alimentos ultraprocessados foi definido como positivo para quem afirmou substituir refeições principais por esses alimentos em pelo menos um dia da semana. Quanto ao consumo de refrigerante, foram considerados como inadequada a ingestão maior ou igual a 5 dias por semana e adequado o consumo menor que 5 dias por semana21.
O consumo de álcool foi considerado abusivo quando os trabalhadores afirmaram ingerir cinco ou mais doses de bebida alcoólica, em uma única ocasião, nos últimos 30 dias22. Quanto ao uso de tabaco, foi avaliada a presença deste hábito e classificados como positivo aqueles que relataram fumar no período da pesquisa23.
A qualidade de vida foi avaliada de acordo com a escala EUROHIS-QOL-8. Esta escala consiste em oito questões que abordam a saúde em geral, as relações interpessoais, financeiras e domiciliares. As respostas são construídas por escalas com cinco respostas do tipo Likert, com as seguintes opções: muito ruim, ruim, nem ruim/nem boa, boa e muito boa. A qualidade de vida é calculada somando os oito itens e, geralmente, analisada como variável contínua, em que pontuações mais altas indicam melhor qualidade de vida14 (Figura 1).
Valores médios de qualidade de vida nos grupos de não trabalhadores classificados com tempo sentado menor que 6 horas (31,27; dp=+3,79) por dia e tempo sentado de 6 horas por dia ou mais (30,70; dp=+3,39). Projeto HealthRise, Vitória da Conquista/BA, 2017–2018.
*Diferente do grupo<6 h/dia (p=0,012).
A prática de atividade física foi avaliada pelo IPAQ curto13, sendo mensurada de acordo com a multiplicação da frequência semanal (dias) pela duração média (minutos) da prática de AF moderada e vigorosa. O tempo despendido em atividades vigorosas foi multiplicado por dois. Apenas atividades desempenhadas por pelo menos 10 minutos contínuos foram validadas. Ainda, consideraram-se ativos aqueles que praticavam 150 minutos ou mais de AF por semana24,25.
As variáveis que integraram o terceiro bloco abordaram saúde e doença. Em relação à Hipertensão Arterial (HA), os participantes foram classificados como hipertensos quando referiam ter diagnóstico prévio de HA e/ou constatadas medidas alteradas no momento da realização da pesquisa (pressão arterial sistólica ≥140 mmHg e/ou pressão arterial diastólica ≥ 90 mmHg) e/ou quando relataram fazer uso de medicamentos anti-hipertensivos16.
Para classificação do Índice de Massa Corporal (IMC) foram utilizados pontos de corte para adultos: <18,5 kg/m2 (baixo peso); ≥18,5 kg/m2 a <24,9 kg/m2 (normal); ≥25 kg/m2 a <29,9 kg/m2 (sobrepeso); e ≥30 kg/m2 (obesidade)26. A utilização dos serviços de saúde foi avaliada pela pergunta "Quando você consultou um médico pela última vez?", categorizada como: há menos de 1 ano, ou há 1 ano ou mais27. A autoavaliação da saúde foi analisada considerando a seguinte questão: "Em geral, como o(a) sr.(a) avalia a sua saúde?", dicotomizada como positiva (muito boa, boa) ou negativa (muito ruim, ruim)28.
Análise estatística
Foram estimados a prevalência de tempo sentado em trabalhadores homens e seu respectivo intervalo de 95% de confiança. Para verificar os fatores associados ao tempo sentado foram feitas análises bivariada e multivariada com estimativas de razões de prevalência e cálculo dos respectivos p-valor e intervalo de confiança por meio de regressão de Poisson com variância robusta.
Para a seleção das variáveis do modelo múltiplo, por sua vez, foram incluídas aquelas que apresentaram p<0,20 na análise bivariada. Adotou-se a entrada hierárquica das variáveis em blocos, de acordo com a seguinte ordem: variáveis sociodemográficas, variáveis de hábitos e comportamentos e, por fim, variáveis do bloco saúde e doença. As variáveis dos blocos mais distais permaneceram como fatores de ajuste para os blocos hierarquicamente inferiores. Um valor de p≤0,05 foi adotado como significativo. A comparação entre os modelos foi feita pelo critério de Akaike (AIC). Todas as análises foram realizadas no programa Stata versão 14.2.
Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia (CAEE 62259116.0.0000.5556; número do parecer: 1.861.073).
RESULTADOS
Entre os 1.024 trabalhadores do sexo masculino, população do presente estudo, a prevalência de tempo sentado de 6 horas ou mais por dia foi de 24,22% (IC95% 21,6–26,9).
Quanto às características desta população, 40,3% tinham entre 30 e 39 anos de idade; a maioria foi classificada como não branca (80,5%), declarou ter companheira(o) (65,2%), tinha entre 5 e 8 anos de estudos (58,5%), e menos da metade (36,7%) declarou ter renda familiar menor que dois salários mínimos. Em relação ao trabalho, 79,2% trabalhavam no turno diurno; a maioria exercia trabalho do tipo braçal (62%), trabalhava até 5 dias por semana, e mais da metade trabalhava até 8 horas por dia (Tabela 1).
Descrição da população de trabalhadores segundo características sociodemográficas, hábitos e comportamentos, saúde e doença. Projeto HealthRise, Bahia, 2017–2018.
Considerando hábitos e comportamentos, foram observadas maiores frequências de consumo irregular de frutas e verduras e uma menor frequência de consumo de refrigerantes (20,4%). A substituição das principais refeições por alimentos ultraprocessados foi observada em aproximadamente 40% da população. Quase metade dos trabalhadores foram classificados com consumo abusivo de álcool, 10,1% faziam uso do tabaco no momento do estudo, e 63,3% foram classificados como ativos fisicamente. A prevalência de hipertensão arterial foi de 28,3%, e sobrepeso ou obesidade estiveram presentes em 48,9% do grupo estudado. Questionados quando haviam realizado consulta com um médico pela última vez, 60,4% afirmaram que há menos de 1 ano; ainda, 33,7% avaliaram sua própria saúde como negativa (Tabela 1).
Em análise bivariada, foi observada maior prevalência de tempo sentado entre trabalhadores que tinham nove anos ou mais de estudos, com maiores rendas, que consumiam salada crua regularmente e entre aqueles classificados com sobrepeso ou obesidade. Já entre indivíduos de 30 anos ou mais, que declararam ter companheira(o), que exerciam ocupação do tipo braçal e classificados como ativos fisicamente apresentaram menores prevalências de tempo sentado (Tabela 2).
Análise bivariada do tempo sentado em relação a características sociodemográficas, hábitos e comportamentos, saúde e doença em uma população de trabalhadores homens. Projeto HealthRise, Vitória da Conquista/BA, 2017–2018.
A percepção da qualidade de vida foi menor (30,70; dp±3,39) entre aqueles que passavam maior tempo sentado quando comparados aos que passavam menos tempo por dia sentado (31,27; dp±3,79), com significância estatística (p=0,012) (Figura 1).
Na análise multivariada observou-se associação entre idade e tempo sentado, na qual indivíduos mais velhos apresentaram menor prevalência. Trabalhadores que possuíam maior escolaridade (nove anos ou mais de estudo) e aqueles com maior renda (três salários mínimos ou mais) apresentaram associação positiva com tempo sentado. Trabalhadores classificados como ativos fisicamente apresentaram menor prevalência de tempo sentado, quando comparados aos inativos. Em contrapartida, aqueles que tiveram uma menor pontuação na qualidade de vida (o que reflete uma pior qualidade de vida) apresentaram maior prevalência de tempo sentado quando comparado com sua contraparte. Para o estado nutricional, o sobrepeso ou a obesidade também foram positivamente associados ao tempo sentado quando comparados àqueles com baixo peso ou eutrofia (Tabela 3).
Análise multivariada por meio da regressão de Poisson para tempo sentado e fatores associados em uma população de trabalhadores homens. Projeto HealthRise, Vitória da Conquista/BA, 2017–2018
DISCUSSÃO
Entre trabalhadores do sexo masculino, população do presente estudo, a prevalência de tempo sentado diário de 6 horas ou mais foi de 24,22%. Variáveis sociodemográficas, de hábitos e comportamentos e relacionadas à saúde e doença foram associadas ao excesso de tempo sentado nesta população. Aqueles com nove ou mais anos de estudos, renda familiar de três salários mínimos ou mais, que percebiam pior sua qualidade de vida, e trabalhadores com sobrepeso/obesidade apresentaram uma maior prevalência de tempo sentado. Categorias mais elevadas de idade e trabalhadores classificados como ativos fisicamente tiveram menor prevalência de tempo sentado.
Em relação ao dado de prevalência, resultado similar foi encontrado entre adultos da Malásia, onde a prevalência de tempo total sentado foi de 23,8%. O ponto de corte adotado bem como o instrumento utilizado foram semelhantes ao do presente estudo17. Um estudo de coorte realizado com a população inglesa demonstrou que 27,7% dos entrevistados relataram passar 6 horas ou mais por dia em tempo sedentário29. Entre países da União Europeia, a prevalência de sentar-se por 6 horas ou mais por dia foi maior na Dinamarca (56%), enquanto Portugal apresentou a menor prevalência (24%). Neste mesmo estudo, na maioria dos países os homens apresentaram maiores prevalências de tempo sentado, quando comparados às mulheres. Apenas na Áustria, Dinamarca e Grã-Bretanha os indivíduos do sexo feminino tiveram maiores tempos sedentários19.
Numa população adulta da Alemanha a prevalência de quem passava 6 horas ou mais em tempo sentado foi de 30,1%; quando se estratificou apenas para homens, essa prevalência aumentou para 36,1%. Embora o instrumento utilizado tenha sido o Questionário Global de Atividade Física, a questão abordada se assemelha à do IPAQ, diferindo no tempo gasto durante transporte de carro, ônibus ou trem, que é contabilizado18.
Neste estudo, adultos com idade de 30 anos ou mais apresentaram menores prevalências de tempo sentado. A associação entre idade e tempo sentado também é encontrada em estudos anteriores, nos quais indivíduos mais velhos apresentaram menores escores de tempo sedentário quando comparados aos indivíduos mais jovens10,30,31. Diferenças culturais entre os grupos etários, maior uso de tecnologias, ocupações sedentárias e uso de modo passivo de transporte podem justificar a elevada prevalência de tempo sentado entre os adultos jovens, quando comparados aos mais velhos. Além disso, é provável que esse padrão de estar mais sentado entre os jovens contribua para o aumento de DCNT neste grupo10,31. Segundo as recomendações preconizadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), os adultos, incluindo jovens, devem limitar a quantidade de comportamento sedentário6.
Dois indicadores socioeconômicos estiveram associados ao desfecho de interesse. Trabalhadores com maior nível de escolaridade e maior renda apresentaram maiores prevalências de tempo sentado. Estudos anteriores também encontraram associação positiva entre indivíduos com maior nível econômico e maior tempo despendido sentado18,30-32.
Dispor de uma renda maior permite aos indivíduos o acesso a serviços ou tecnologias, contribuindo para que eles permaneçam mais tempo sentados, pois suas opções de lazer estão voltadas para o uso de computador, videogame, internet e assistir televisão, por exemplo5,33. Industriários brasileiros com maior nível de renda familiar apresentaram chances elevadas de estar a maior parte do tempo sentados5.
Em relação à escolaridade, pesquisas anteriores foram consistentes em reconhecer que pessoas com maior nível de instrução passam grande parte do seu dia sentadas, seja em adultos no geral ou em populações específicas de trabalhadores19,30,33. Este grupo está mais propenso a despender parte do seu tempo na posição sentada, pois, possivelmente, estão envolvidos em ocupações sedentárias. Entre trabalhadores do Reino Unido, mais de 60% do tempo despendido sentado era em seus locais de trabalho11. Para Buck e colaboradores, o nível ocupacional foi o principal fator ligado ao comportamento sedentário32. Acredita-se que o tipo de ocupação pode definir fortemente como o indivíduo passa a maior parte do tempo. Ademais, o tempo gasto sentado tem sido rotulado como um problema para trabalhadores de "colarinho branco", ou seja, aqueles que desenvolvem atividades de escritório ao longo do dia32.
Quanto à prática de atividade física, observou-se neste estudo que trabalhadores ativos fisicamente apresentaram menores prevalências de tempo sentado comparados aos inativos; tal associação foi mantida após ajuste no modelo multivariado. A prática regular de atividade física é considerada um importante agente no controle e na prevenção de DCNT, auxiliando no tratamento de inúmeras doenças e na melhoria da saúde cognitiva, mental e do sono6,24,25. O incentivo a programas de promoção de saúde e de AF, com o intuito de aumentar e promover a aptidão entre os trabalhadores, tem sido cada vez mais amplo no âmbito do trabalho. Além disso, essas ações oferecem importante apoio relacionado a saúde e bem-estar desses indivíduos em seus locais de emprego34.
A cada dia existem mais evidências que comprovam a eficácia da AF em resultados no que tange à satisfação no trabalho, produtividade, capacidade, e ausência de doenças e de estresse ocupacionais35. As intervenções devem ser baseadas com o objetivo de diminuir o tempo que indivíduos passam sentados em seus locais de trabalho. No entanto, fatores sociodemográficos, de hábitos de vida e ambientais podem interferir nesse comportamento36. Entre trabalhadores de escritório da Inglaterra, os participantes apresentaram elevado tempo despendido sentado, enquanto demonstraram baixos níveis de AF ocupacional36.
Mesmo atingindo os níveis recomendados de AF, os indivíduos podem gastar uma grande quantidade de tempo envolvidos em atividades sedentárias37. O tempo sedentário aumenta o risco de doenças, como diabetes mellitus tipo 2, câncer e obesidade, ainda que indivíduos atinjam os níveis recomendados para AF5. Novas diretrizes recomendadas pela OMS sugerem que fazer alguma atividade física é melhor do que nenhuma, mesmo aquelas de baixa intensidade. E pode-se iniciar com pequenas quantidades de atividade e aumentar gradualmente a frequência, intensidade e duração ao longo do tempo6.
Os trabalhadores que relataram passar seis horas ou mais do seu dia em posição sentada tiveram pior percepção a respeito da sua qualidade de vida, comparados àqueles que declararam passar menos tempo sentado. A má qualidade de vida, aliada ao estresse ocupacional, pode resultar em falta de eficiência e esgotamento precoce entre os trabalhadores35. Em um estudo transversal realizado na Bahia com 400 trabalhadores mototaxistas observou-se que rotinas diárias, trabalho repetitivo e ambiente ocupacional pouco favorável têm sido relacionados ao maior risco de adoecer e, portanto, afetar negativamente a qualidade de vida dos trabalhadores38.
A prática de AF pode melhorar a qualidade de vida, o bem-estar e a saúde mental dos trabalhadores, principalmente daqueles que são sedentários e possuem empregos estressantes35. Para além das condições ocupacionais, a prática regular de atividade física, alimentação e os relacionamentos pessoais são influenciadores relevantes na qualidade de vida39. É importante que haja equilíbrio na relação do indivíduo com o trabalho, pois quando as condições oferecidas são negativas, estas podem afetar a saúde do trabalhador, resultando em problemas como depressão, ansiedade, insatisfação e doenças crônicas — o que, consequentemente, prejudica sua qualidade de vida38.
Trabalhadores que estavam com sobrepeso ou obesidade apresentaram maiores prevalências de tempo sentado. Em uma pesquisa realizada com trabalhadores de escritório, na Irlanda do Norte, indivíduos obesos relataram maior tempo sentado, tanto em dias úteis quanto naqueles dias em que não trabalhavam39. A diferença no IMC também pode ser percebida de acordo com a ocupação. No estudo desenvolvido por Kazi et al.11, os funcionários envolvidos com ocupações referentes a vendas e atendimento ao cliente, que relataram passar mais tempo sentado, consequentemente, tiveram IMC significativamente mais alto do que aqueles que ocupavam outros cargos.
O acúmulo de tempo sentado tem sido associado a diversas consequências à saúde, entre elas o excesso de peso37. Em uma revisão sistemática sobre tempo sentado no trabalho e riscos para a saúde foram encontradas evidências de associação positiva entre o tempo despendido sentado e IMC elevado em metade dos estudos analisados. Além disso, outros estudos sugerem que homens com IMC maior eram mais predispostos a terem empregos sedentários40.
Para incentivar o aumento da prática da atividade física e a diminuição no tempo despendido sentado, em grupos populacionais específicos, é preciso utilizar ferramentas para apoiar a adoção destes hábitos e disseminar a informação por meio de campanhas e implementação de diretrizes, envolvendo governos e as partes interessadas, para que possam trabalhar juntos ao longo da vida6.
Uma das principais limitações do estudo é o uso de dados autorrelatados para determinação do evento estudado. Embora este método seja considerado um meio prático para a maioria dos sistemas de vigilância e pesquisas, alguns estudos sugerem que as ferramentas de autorrelato subestimam o tempo sedentário, quando comparadas às medidas objetivas dos dispositivos (acelerômetros, por exemplo)41. Entretanto, sabe-se que estas medidas têm correlação com medidas objetivas; além disso, as questões do IPAQ que abordam o tempo sentado possuem confiabilidade e validade para serem usadas em medidas de vigilância em adultos42. Ademais, outra limitação é a ausência de comparabilidade com outros estudos, em especial os nacionais. Além de o ponto de corte divergir, muitas vezes o método utilizado para mensurar o tempo sentado também. Estudos nacionais e inquéritos internacionais sugerem uma variação de 3 horas até 7,5 horas por dia sentado. Essa variação pode diferir, inclusive, quando se analisam domínios diferentes de tempo sentado (lazer, tempo de tela, trabalho, deslocamento, entre outros)43,44. O estudo apresentou outra limitação quanto ao tipo de delineamento (transversal), que não permite determinar relações de causa e efeito.
O contexto em que o trabalhador está envolvido o torna vulnerável à manutenção de tempo despendido sentado, principalmente considerando as comodidades ofertadas pelas inovações tecnológicas, com estilo de vida cada vez mais inativo. Ademais, percebe-se que há uma escassez de estudos voltados para o tema abordado, principalmente se considerando uma população específica como a do sexo masculino. Estudos voltados especificamente para o público de homens reforçam a necessidade de elaboração de estratégias que visem aumentar a participação dos homens nos serviços de saúde, estimulando o autocuidado e a adoção de hábitos saudáveis.
Os resultados desta pesquisa ajudam a mensurar os fatores relacionados ao acúmulo de tempo sentado e podem nortear como e quais condutas devem ser elaboradas, em parceria com as empresas, a fim de que os trabalhadores possam adotar hábitos mais saudáveis e evitem passar muito tempo sentado, seja em seu local de trabalho ou no seu tempo de lazer. Portanto, identificar os fatores relacionados ao tempo sentado é determinante para que ações e abordagens voltadas para a população de trabalhadores sejam propostas, pois, consequentemente, poderá reduzir todos os prejuízos causados pelo excesso de tempo sentado, como agravamentos e doenças, além dos custos aos serviços de saúde.
AGRADECIMENTOS
Medtronic Foundation, Abt Associates, Institute for Health Metrics and Evaluation.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
Todos os dados gerados ou analisados neste estudo estão incluídos neste artigo publicado.
Como citar:
Fonseca NT, Donato TAA, Oliveira MGG, Kochergin CN, Soares DA, Medeiros DS, et al. Tempo sentado e fatores associados em trabalhadores homens. Cad Saúde Colet. 2026;34(1):e34010101. https://doi.org/10.1590/1414-462X202634010101
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Editor responsável:
Guilherme Werneck https://orcid.org/0000-0003-1169-1436


