Open-access Validação do self-efficacy questionnaire (SE-12) para o contexto de saúde brasileiro

Validation of the Self-Efficacy Questionnaire (SE-12) for the Brazilian health context

Resumo

Introdução:  Habilidades de comunicação são importantes ferramentas para sistemas e serviços de saúde, sendo necessária avaliação por meio de instrumentos válidos que identifiquem mudanças na prática clínica.

Objetivo:  Validar o Self-efficacy Questionnaire (SE-12) para o contexto brasileiro.

Método:  Estudo metodológico de validação, desenvolvido em quatro etapas de equivalência: conceitual e de itens (IVC: Índice de Validade de Conteúdo); semântica; operacional e idiomática; e de mensuração. Foi desenvolvido entre fevereiro e junho de 2019, com 30 profissionais de saúde no pré-teste e 170 na etapa de mensuração. Realizou-se a análise de consistência interna, análise fatorial por componentes principais e do teste "t" para amostras independentes.

Resultados:  O IVC apontou para viabilidade e pertinência dos itens. Alguns termos foram retirados ou modificados para tornar o instrumento mais direto e contextualizado, mostrando-se compreensível e de fácil aplicação no pré-teste. A versão brasileira (SEbr-12) apresentou alta consistência interna (α=0,946), e a análise fatorial aponta um único fator dominante e alta correlação entre os itens. Profissionais submetidos a treinamento anterior apresentaram maior avaliação da autoeficácia (p=0,027).

Conclusões:  O SEbr-12 apresenta-se como instrumento válido e poderá ser utilizado de maneira confiável para avaliação de habilidades de comunicação de profissionais de saúde brasileiros.

Palavras-chave:
assistência centrada no paciente; comunicação; autoeficácia; inquéritos e questionários; estudo de validação

Abstract

Background:  Communication skills are an important tool for health systems and services, requiring evaluation utilizing valid instruments that enable changes in clinical practice.

Objective:  To validate the Self-Efficacy Questionnaire (SE-12) in the Brazilian context.

Methods:  Methodological study of validation, in four stages of equivalence: conceptual and items (CVI: Content Validity Index); semantic; operational and idiomatic; and measurement equivalence. It was developed between February and July of 2019, with 30 health professionals in the pre-test and 170 in the measurement stages. Internal consistency analyses, factor analyses by main components, and the t-test for independent samples were performed.

Results:  The CVI pointed out the items’ viability and relevance. We removed or modified some terms to improve comprehension and contextualization, and the questionnaire demonstrates easy application in the pre-test. The Brazilian version (SEbr-12) showed high internal consistency (α=0.946), and the factor analyses pointed to one dominant factor, with a high correlation between items. Professionals who had undergone previous training had higher self-efficacy (p=0.027).

Conclusions:  The SEbr-12 is valid and reliable to assess the communication skills of health professionals in Brazil.

Keywords:
patient-centered care; communication; self efficacy; surveys and questionnaires; validation study

INTRODUÇÃO

A Atenção Centrada no Paciente (ACP) destacou-se, nas últimas décadas, como uma estratégia para a melhoria dos serviços de saúde e para a boa prática dos profissionais, ao priorizar a perspectiva e o envolvimento do paciente, o foco nos resultados relatados e o compartilhamento da tomada de decisão1. A ACP envolve uma mudança de postura que requer a compreensão integral das necessidades do paciente, reconhecendo-o como um ser humano único. Para tanto, é importante destacar conceitos como empatia, comunicação e foco holístico2, do mesmo modo que a relação de confiança entre os pacientes e suas equipes de saúde, e a qualidade dessa relação3.

A pesquisa desenvolvida por Skär e Söderberg4 aponta que a maioria das queixas relatadas pelos pacientes está relacionada a falhas na comunicação e na interação com os profissionais, que podem gerar ansiedade e reduzir a confiança no sistema de saúde. Nesse sentido, uma comunicação de alta qualidade pode, portanto, aumentar a participação dos pacientes nas tomadas de decisões, assim como a satisfação dos pacientes com os encontros de saúde. O estabelecimento de boas habilidades de comunicação (HC) possibilita a criação de um espaço de compartilhamento de informações, vinculadas com a redução dos sintomas e com a melhor adesão ao tratamento e recuperação, que podem minimizar as queixas e melhorar a satisfação do paciente5,6.

Nessa perspectiva, a literatura aponta que o treinamento de habilidades de comunicação (Communication Skills Training — CST) se apresenta como um poderoso instrumento para o desenvolvimento de habilidades que aperfeiçoem o atendimento clínico e promovam um atendimento profissional de qualidade5. A eficácia dos programas de CST indica que as HC podem ser aprendidas pelos profissionais7.

Esses treinamentos, entretanto, utilizam métodos de avaliação heterogêneos que consideram tanto a percepção do usuário quanto a perspectiva do profissional, mediante diferentes medidas de desfecho que, por vezes, não são específicas para as HC8. Nesse cenário, a medida da autoeficácia dos profissionais se destaca, pois por meio da introspecção e autoconsciência, os profissionais podem mudar sua atitude e confiança no desenvolvimento das HC9.

A autoeficácia, conceito desenvolvido por Bandura10, pode ser definida como a crença de um indivíduo na sua capacidade de executar tarefas com sucesso. Esse construto compreende que os indivíduos podem modificar seus comportamentos, com base nos aspectos cognitivos e nas relações que estabelecem com o ambiente externo. A percepção das suas habilidades e competências promove uma avaliação crítica das mudanças de desempenho e comportamento, que podem ser favorecidas por programas de intervenção e de melhoria10. As mudanças na autoeficácia podem indicar uma mudança de desempenho e comportamento, e a consequente melhoria no processo de comunicação10,11.

Diante desse contexto, Axboe et al.12 desenvolveram o instrumento Self-Efficacy Questionnaire (SE-12) para tornar a avaliação da autoeficácia de HC mais precisa e confiável. O processo de construção do instrumento foi baseado no Guia Calgary-Cambridge13, originalmente desenvolvido para entrevistas médicas, sendo igualmente útil para a avaliação dos demais profissionais de saúde.

O Guia Calgary-Cambridge é uma das diretrizes para a consulta com o paciente, sendo considerado um modelo com estrutura abrangente e útil para orientar os profissionais na comunicação com os pacientes. Este se organiza de acordo com as etapas da entrevista e com as suas funções comunicativas, que se constituem de tarefas básicas, nas quais os profissionais devem utilizar com frequência na prática clínica. O Guia foi revisado e, no direcionamento para o ensino das HC, deve considerar as seguintes etapas para uma entrevista profissional centrada no paciente:

  1. Lista de problemas do paciente;

  2. Exploração dos problemas do paciente, considerando a perspectiva médica e do paciente;

  3. Contexto e histórico do paciente;

  4. Exame físico;

  5. Estabelecimento de hipóteses diagnósticas;

  6. Gerenciamento de um plano de cuidado;

  7. Explicação e negociação do planejamento com o paciente13.

As competências de comunicação são um componente central na rotina do profissional de saúde e são decisivas para a qualidade da relação com seus pacientes, razão pela qual as diretrizes e os programas de melhoria para o desenvolvimento dessas habilidades mostram-se imprescindíveis. Assim, faz-se necessário abordar a questão da autoeficácia para mudanças clínicas de atitudes e para o desenvolvimento de confiança na própria competência de comunicação, por meio da sensibilização e do autoconhecimento como condições necessárias para a melhoria nos indicadores de saúde e na redução dos sintomas dos pacientes9.

Diante da ampliação de estudos que visam investigar programas de treinamento de HC e da escassez de instrumentos adaptados ao idioma português, é fundamental a validação de instrumentos que permitam a avaliação dessas habilidades para melhoria e avaliação das relações profissional-paciente. Assim, este estudo tem como objetivo validar o Self Efficacy Questionnaire (SE-12) para o contexto brasileiro.

MÉTODO

Trata-se de um estudo metodológico de validação de um instrumento de medida para avaliação de autoeficácia de HC entre profissionais de saúde, considerando aspectos culturais e características específicas da população-alvo do instrumento14.

Em todas as etapas que envolveram o processo de validação, os participantes foram escolhidos por conveniência. Para o pré-teste, foram selecionados 30 profissionais14 e para a avaliação das propriedades psicométricas da versão final produzida, uma amostra de 170 profissionais de saúde, considerando o cálculo de 10 indivíduos por item do questionário15. A aplicação dos questionários aconteceu no período de fevereiro a junho de 2019, com profissionais dos diferentes distritos sanitários do município de Natal, Rio Grande do Norte (RN).

Foram incluídos profissionais de saúde em atuação na Atenção Primária em Saúde (APS) — cirurgiões dentistas, enfermeiros, médicos, técnicos em enfermagem, técnicos de saúde bucal e agentes comunitários de saúde. Não ter a língua portuguesa como língua materna foi critério de exclusão neste estudo.

Instrumento

O "Self-efficacy Questionnaire (SE-12)" foi desenvolvido por pesquisadores do Departamento de Saúde Pública da Dinamarca, para avaliar a autoeficácia de profissionais de saúde com relação às suas HC, com uma abordagem centrada no paciente.

A construção original do SE-12 deu-se em duas etapas:

  1. Estudo de validação do conteúdo — uma etapa qualitativa— com a participação de professores de comunicação e profissionais de saúde, que realizaram a discussão e construção dos itens;

  2. Aplicação do questionário, etapa na qual participaram 787 profissionais de diferentes departamentos, vinculados a três instituições hospitalares diferentes.

O instrumento é direcionado para diferentes grupos de profissionais: médicos, enfermeiros, técnicos e auxiliares de saúde, parteiras, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. Os itens incluem os elementos-chave do Guia Calgary-Cambridge, um modelo para orientar os profissionais na comunicação com os pacientes, que se organiza de acordo com as etapas da entrevista, refletindo as seguintes tarefas e objetivos: iniciando a sessão, coletando informações, fornecendo estrutura para a consulta, construindo o relacionamento, explicando e planejamento, encerramento da sessão12.

A escala, unidimensional, descreve doze questões que refletem habilidades gerais de comunicação e iniciam-se com a expressão: "O quanto você é capaz de…" seguido de uma habilidade específica. Para cada resposta, foi atribuída uma escala de 10 pontos, sem itens negativos, variando de 1 (muito incapaz) a 10 (muito capaz), na qual o participante assinala o número correspondente à sua resposta, além de uma caixa de seleção "não se aplica". A pontuação global se dá pelo resultado da soma de todos os valores atribuídos aos itens, variando entre 17 e 170 pontos, na qual os valores elevados indicam maior autoeficácia em HC. O questionário contém, ainda, cinco itens relativos à conversa com pacientes e familiares e seis itens de identificação dos participantes12 (Quadro 1).

Quadro 1
Versão original e versão final do Questionário de Autoeficácia (SEbr-12) para avaliação de habilidades de comunicação de profissionais de saúde. Rio Grande do Norte, Brasil, 2019.

Etapas da validação

O estudo envolveu quatro etapas:

  1. equivalência conceitual e de itens;

  2. equivalência semântica;

  3. equivalência operacional e idiomática;

  4. equivalência de mensuração1618 (Figura 1).

Figura 1
Etapas do processo de validação do Questionário de Autoeficácia para avaliação de habilidades de comunicação de profissionais de saúde, Rio Grande do Norte, Brasil, 2019

Equivalência conceitual e de itens

Esta primeira etapa tem como objetivo avaliar se os domínios que compõem o instrumento original são relevantes, na qual se considerou a avaliação da natureza do conceito e a viabilidade dos itens ao contexto brasileiro. Para a equivalência de itens, avaliou-se a relevância dos domínios para o construto e a maneira pelo qual são mostrados1618. Para tanto, realizou-se uma discussão, por meio da técnica de grupo nominal19,20, com um comitê multidisciplinar representativo da população-alvo14,18, composto por seis avaliadores (2 dentistas, 1 nutricionista, 1 fisioterapeuta, 1 educador físico e 1 psicóloga) selecionados por conveniência, especialistas nas áreas de adaptação de instrumentos, de gestão da qualidade em serviços de saúde, de HC, e de profissionais da APS.

Os itens do instrumento foram avaliados pelo comitê multidisciplinar por meio de uma escala tipo Likert de "1" a "4", em ordem crescente de conformidade, em relação à relevância, (1: irrelevante; 2: pouco relevante; 3: relevante; 4: muito relevante), ao conceito (1: não claro; 2: pouco claro; 3: claro; 4: muito claro) e à viabilidade ao contexto brasileiro (1: inviável; 2: pouco viável; 3: viável; 4: muito viável). Cada avaliador analisou os itens individualmente para o cálculo do Índice de Validade de Conteúdo por Itens (IVC-I), por meio da porcentagem de itens que receberam avaliação "3" ou "4" pelos especialistas, sendo estipulado o ponto de corte mínimo para aprovar o item de 80%. Para avaliação global do instrumento, foi calculado o Índice de Validade de Conteúdo do questionário (IVC-Q) por meio da média das proporções dos itens considerados pelos juízes14,21.

Equivalência semântica

A equivalência semântica corresponde à transferência de significados dos conceitos contidos no instrumento original para a versão adaptada, proporcionando um efeito semelhante nos respondentes das duas culturas1618. Envolve as etapas:

  1. Tradução;

  2. Retradução;

  3. Apreciação formal (avaliação da equivalência semântica);

  4. Discussão com a população-alvo;

  5. Discussão com especialistas;

  6. Pré-teste.

O instrumento "Self-efficacy Questionnaire (SE-12)" foi traduzido, de forma independente, para a língua portuguesa por duas tradutoras (T1 e T2). Conforme recomendação14,16, as tradutoras eram brasileiras, com conhecimento da área de saúde e fluência no idioma original do instrumento (inglês). Na sequência, as traduções foram retraduzidas para o inglês (R1 e R2), de forma independente, por dois tradutores bilíngues, nativos de língua inglesa e fluentes no português brasileiro. As traduções e retraduções ocorreram de forma independente e cega.

Na etapa de Apreciação Formal, uma profissional brasileira com domínio da língua inglesa e conhecimento nas HC, realizou a análise da equivalência semântica sob a perspectiva do significado referencial (denotativo) e geral (conotativo). Foi verificada a equivalência entre o instrumento original e cada uma das retraduções (R1 e R2), com o objetivo de avaliar a correspondência literal entre as palavras. Na avaliação geral, o instrumento original foi comparado com as versões traduzidas (T1 e T2), a fim de avaliar, além da literalidade, os aspectos mais sutis, como a contextualização dos termos e afirmativas ao contexto brasileiro.

Posteriormente, uma versão síntese do questionário foi submetida à apreciação da população-alvo, composta por um grupo de cinco profissionais de saúde (2 enfermeiras, 1 psicóloga, 1 médico, 1 dentista). Os enunciados e os itens foram avaliados, por meio da técnica de grupo nominal19,20, quanto à linguagem (clareza, adequação dos termos e contextualização cultural), à adequação ao cotidiano de trabalho brasileiro, e à pertinência para avaliação das HC em profissionais. Posteriormente, os pesquisadores reuniram-se com uma das tradutoras do instrumento (especialista em linguística) para analisar criticamente as etapas anteriores e, ao final, produzir a versão síntese do instrumento.

Assim, a versão síntese foi aplicada na população-alvo por uma única pesquisadora na etapa do pré-teste. Participaram dessa etapa 30 profissionais de saúde14 de um município do estado do Rio Grande do Norte, que atuam na Atenção Primária à Saúde em diversos cargos e com diferentes níveis de escolaridade (médicos, enfermeiros, cirurgiões-dentistas, técnicos de enfermagem, técnicos em saúde bucal e agentes comunitários de saúde). Os questionários foram respondidos individualmente pelos profissionais de saúde.

Após responder o questionário, o profissional era estimulado a julgar os itens e enunciados, quanto à compreensão, de acordo com níveis de avaliação:

  1. Não está compreensível;

  2. Precisa de alterações para se tornar compreensível;

  3. Compreensível, mas precisa de pequenas alterações;

  4. Muito compreensível.

Em seguida, os profissionais avaliavam subjetivamente cada questão com as indicações das dúvidas e sugestões de alterações para os itens.

Equivalência operacional e idiomática

A equivalência operacional tem como finalidade avaliar aspectos relacionados às características do instrumento. A avaliação da equivalência idiomática, por sua vez, tem como objetivo adaptar termos e expressões que são difíceis de traduzir. Nessa etapa do processo de adaptação cultural, foram realizadas as alterações do instrumento para a elaboração da versão final considerando, principalmente, as avaliações realizadas no pré-teste1618. Após ajustes para melhoria da estrutura dos itens, a versão final do SE-12 foi concluída.

Equivalência de mensuração

Assim, com o objetivo de realizar a equivalência de mensuração do construto, por meio da avaliação das propriedades psicométricas, foi aplicada a versão final produzida em 170 profissionais de saúde15. O instrumento, autoaplicável, continha os itens aprovados para a versão brasileira do Questionário de Autoeficácia, dados sociodemográficos como idade, sexo e estado civil, além de informações sobre o trabalho, como a função exercida pelo profissional na APS, o tempo de atuação na área e a realização de treinamento prévio em HC.

A análise descritiva foi realizada para avaliação dos dados sociodemográficos e das informações sobre o trabalho dos profissionais. A consistência interna dos itens foi examinada usando o Alpha de Cronbach (α) geral, no qual valores podem variar de 0 a 1, sendo os altos valores de α relacionados a uma maior correlação entre os itens da escala. Para este estudo, considerou-se o valor "α>0,70" como satisfatório na avaliação da consistência interna15,22.

No processo de análise dos dados, utilizou-se a Análise Fatorial por Componentes Principais (ACP), considerando a adequação geral por meio do Kaiser-Meyer-Olkin (KMO) e do Teste de Esfericidade de Bartlett com o intuito de verificar a estrutura do SEbr-12. O KMO foi utilizado para avaliar a adequação da amostra, e esse parâmetro pode variar de valor entre 0 e 1, sendo o "KMO>0,70" considerado bom e o "KMO>0,90", excelente. Os valores do Teste de Bartlett com níveis de significância de 5% (p<0,05) indicam que a matriz é fatorável, rejeitando a hipótese nula de que não há correlação entre os itens do questionário. Para a análise de seleção dos fatores, que podem representar a estrutura das variáveis originais, foi produzido o gráfico de sedimentação — scree plot, que apresenta o número de fatores extraídos a partir dos seus autovalores (eigenvalues)15,22.

A validade do construto também foi realizada por meio do teste de hipótese, na qual o teste "t" para amostras independentes foi utilizado para verificar se existem diferenças significativas (p<0,05) entre as médias de autoeficácia dos profissionais de saúde com relação à participação em CST e ao cargo que ocupam (superior e médio)23. As análises foram conduzidas por meio do software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) 24.0".

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o CAAE n° 66567017.9.000.5568, e parecer n° 2.171.554, conforme a Resolução n° 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. O processo de validação foi iniciado após a solicitação de autorização para a utilização do instrumento, concedida por e-mail pelo autor principal do estudo original.

RESULTADOS

Os resultados relativos à equivalência conceitual e de itens do Questionário de Autoeficácia (SE-12) mostraram forte consenso com relação à relevância, ao conceito e à viabilidade dos itens e do instrumento. No entanto, na primeira rodada de avaliação, três itens (2, 9 e 16) obtiveram concordância inferior a 80% em alguma das dimensões avaliadas. Após a discussão entre o comitê, foi realizada a segunda votação, e todos os itens tiveram IVC-I igual a 100%, demonstrando forte consenso entre os avaliadores e uma boa avaliação dos itens e do instrumento de forma geral.

A apreciação formal para avaliação semântica apontou equivalência satisfatória entre o instrumento original e as traduções e retraduções. O título do questionário foi traduzido de forma literal pelas duas tradutoras para "Questionário de Autoeficácia (SE-12)", e mantido nas demais etapas de avaliação. Na discussão com o público-alvo e o comitê de especialistas foi recomendada a retirada dos termos How certain e successfully, bem como a alteração de alguns termos, a fim de melhorar a compreensão dos itens e torná-los mais simples, sem alterar seu significado e contexto.

Na etapa de discussão dos pesquisadores com a profissional de linguística, foi sugerida a retirada da expressão "de forma bem sucedida" e "está seguro de que", a fim de deixar os itens mais diretos e compreensíveis. Dessa forma, os comandos dos itens que iniciavam com "Quão certo você está de que é capaz de…com sucesso…" foi substituído por "O quanto você é capaz de…", o que modifica a escala de avaliação de Muito Incerto/Muito Certo para Muito Incapaz/Muito Capaz.

No pré-teste, os participantes consideraram as questões do questionário relevantes e ressaltaram a rapidez da aplicação do instrumento. Além disso, demonstraram um bom nível de entendimento das questões, com uma média global de compreensão de 3,90±0,10, considerando a escala de avaliação entre 1 e 4. Qualitativamente, sugeriram a troca de alguns termos, sendo necessários poucos ajustes na versão final, e a inserção de explicações nos itens 2 e 6, para minimizar as dúvidas dos participantes.

Na etapa de equivalência operacional e idiomática, os pesquisadores reuniram-se e, por consenso, definiram os ajustes para a versão final do instrumento. Consideraram as avaliações do pré-teste, as avaliações anteriores dos especialistas e da população-alvo. Manteve-se o número de itens e a sua forma de avaliação, bem como o método de autoaplicação do instrumento. Alguns itens tiveram termos modificados para melhor compreensão na língua portuguesa e no contexto dos profissionais de saúde. Foram consultados estudos sobre o Guia Calgary-Cambridge13,24,25, que nortearam a construção original do instrumento12, para ajudar no esclarecimento de termos dos itens 2, 6 e 9. Foi definido, ainda, que o título do questionário recebesse uma identificação para a versão brasileira, com o acréscimo da sigla "br", passando a intitular "Questionário de Autoeficácia (SEbr-12). As alterações estão em destaque na versão final, descrita no Quadro 1.

Os resultados referentes à equivalência de mensuração, em que participaram 170 profissionais de saúde em atuação na APS, apontaram para uma média de idade de 41,6 anos (DP=12,1 anos), sendo 25,9% na faixa de 21 a 31 anos, para uma maioria de profissionais do sexo feminino (61,8%) e de casados (42,9%). No tocante ao tempo de atuação, cerca da metade da amostra (47,6%) está há mais de sete anos trabalhando na APS, e a maioria dos profissionais afirma não ter recebido treinamento anterior em HC (72,9%). Quanto aos cursos de pós-graduação, 31,2% dos profissionais fizeram especialização, 8,4% cursos de mestrado e 7,2% concluíram programas de residência. A Tabela 1 apresenta outras características da amostra.

Tabela 1
Caracterização da amostra estudada para validação do Questionário de Autoeficácia (SEbr-12). Rio Grande do Norte, Brasil, 2019

As respostas aos itens do Questionário de Autoeficácia (SEbr-12) estão apresentadas na Tabela 2, com omissão de dados variando entre 0,6 e 4,7%. Os resultados mostram que os participantes apresentaram médias elevadas em todos os itens. Ademais, a tabela apresenta, em valores percentuais, na última coluna da direita, a frequência de marcação da maior pontuação/avaliação (nota 10) autorreferida pelos profissionais em cada um dos itens. Assim, em relação ao item 4 do questionário, por exemplo, observa-se que 34,7% dos profissionais se consideram muito capazes de "ouvir o paciente com atenção", ao assinalarem a pontuação máxima no item.

Tabela 2
Estatística descritiva dos itens do Questionário de autoeficácia (SE-12), e a distribuição de respostas de acordo com a realização de treinamento em HC, para o total de 170 respondentes. Rio Grande do Norte, Brasil, 2019

Percebeu-se, também, que os profissionais que receberam treinamento se avaliaram com melhor autoeficácia em relação aos que não receberam treinamento em HC para alguns itens (3, 4, 5, 10, 13 e 17). Essa diferença foi estatisticamente verificada também para o escore geral, pelo teste "t" para amostras independentes (p=0,027), confirmando a validade do construto por meio do teste de hipótese. Os profissionais de nível superior fizeram melhor avaliação da autoeficácia, com a apresentação de um escore geral maior (149,45±14,40) em relação aos profissionais de nível médio (136,87±16,80). A avaliação pelo teste "t" para amostras independentes apontou, ainda, uma diferença estatística entre os cargos profissionais (superior e médio) e o escore geral (p<0,001).

Na análise de confiabilidade, avaliada pelo Alpha de Cronbach geral, o Questionário de Autoeficácia (SE-12) apresentou valor α=0,946. Considerando que os altos valores de α estão relacionados a uma maior correlação entre os itens da escala, esse resultado aponta alta consistência interna.

A Análise Fatorial por Componentes Principais aponta para a adequação da estrutura do instrumento avaliado. O KMO=0,933 apresenta adequação amostral, ao evidenciar uma correlação entre as variáveis, e o teste de esfericidade de Bartlett também mostrou adequação da técnica de análise fatorial (p<0,001). No gráfico de sedimentação (scree plot) é possível identificar um único fator dominante, que corresponde a 55,9% das respostas do SEbr-12 na análise fatorial por componentes principais, e a indicação de que os itens de autoeficácia correlacionaram-se uns com os outros, semelhante ao apresentado no questionário original12 (Figura 2).

Figura 2
Scree plot dos autovalores relacionados aos fatores. Rio Grande do Norte, Brasil, 2019

DISCUSSÃO

O questionário SE-12 foi originalmente desenvolvido de forma processual, fundamentado em estudos anteriores9,26, e passou por melhorias e ajustes até sua versão final. Uma versão anterior foi utilizada em pesquisa com estudantes de enfermagem, sendo considerada uma ferramenta confiável para medir as HC27. Além de estar baseado em competências utilizadas internacionalmente — Guia Calgary-Cambridge12, tem a vantagem de uma aplicação rápida e econômica, favorável ao contexto de saúde brasileiro, diferente de outros questionários que avaliam as habilidades por meio de vídeos e/ou consultas simuladas25,28.

No processo de validação brasileiro, os itens foram considerados relevantes, conceitualmente adequados e viáveis culturalmente. Houve a necessidade de exclusão de alguns termos, que tornavam os itens extensos e de difícil compreensão. No entanto, entende-se que essas exclusões não alteram o significado dos itens e mantêm relação com o conteúdo expresso no instrumento original. A compreensão e a clareza dos itens foram confirmadas, não sendo necessária a exclusão de nenhum deles. Os pesquisadores optaram pela manutenção da estrutura e da apresentação, do modo de aplicação e da pontuação do instrumento.

O seguimento de um procedimento metodológico com etapas preconizadas permite, ao estudo, robustez e qualidade, além da minimização de discrepâncias no entendimento do construto. Dessa forma, o processo mostrou que o SE-12 é um questionário viável para aplicação no idioma português e no contexto de saúde brasileiro, que permite verificar as HC em profissionais de saúde. O presente estudo considerou indivíduos de diferentes cargos e níveis de escolaridade no processo de adaptação1618 e essa característica revelou-se importante, sobretudo no tocante à compreensão dos itens, ao consolidar a possibilidade de utilização do instrumento por diferentes categorias de profissionais de saúde.

Outrossim, a elevada consistência interna (α=0,946) encontrada nos resultados da presente pesquisa está em conformidade com o que é recomendado para estudos de validação, e também foi semelhante ao resultado do estudo original (α>0,95)12, o que constata a fidedignidade do instrumento. No entanto, a ausência de estudos de adaptação transcultural e validação do SEbr-12 em diferentes contextos culturais não permite outras comparações.

A análise fatorial apontou que os itens do questionário apresentaram forte correlação entre si, mantendo sua estrutura unidimensional, e indicando que o instrumento é pertinente na avaliação da autoeficácia das HC de profissionais de saúde. Ainda foi possível identificar, com a aplicação do instrumento, uma diferença significativa (p=0,027) na avaliação da autoeficácia em profissionais já treinados. Outros estudos já utilizaram o instrumento como uma ferramenta válida e específica para aferição das HC em programas de treinamento para melhoria dessas habilidades, bem como em diferentes contextos de saúde28,29.

A diferença estatística (p<0,001) apresentada entre os cargos de nível superior e médio e o escore geral do Questionário de Autoeficácia pode apontar para uma diferença na formação dos profissionais de saúde. Os cursos de nível superior possuem estruturas curriculares definidas, com abordagem de conteúdos sobre humanidades e ética, que permitem pensar o sujeito de forma integral, o que também é um facilitador do processo de comunicação com o paciente. Além disso, tarefas mais complexas, desafiadoras e que demandam maior autonomia dos profissionais de nível superior, como, por exemplo, a investigação diagnóstica, exigem maior proximidade e vinculação com o paciente. Da mesma forma, trazem a possibilidade de considerar características do modelo biopsicossocial no atendimento, que podem se constituir como um espaço de reflexão e aplicação de comportamento empático e da comunicação eficaz30.

Deve-se considerar, entretanto, que as habilidades de comunicação não devem ser vistas como características inatas ou construídas de forma natural, uma vez que não podem ser aprimoradas apenas com a experiência clínica. É importante considerar que a melhoria dessas habilidades pode acontecer por meio de estratégias estruturadas de ensino, que consideram a vivência do profissional e as necessidades do paciente, levando um efeito benéfico para a relação e para o desempenho das atividades9,13.

As características sociodemográficas e a média dos itens do Questionário de Autoeficácia (SEbr-12) apontam para resultados similares ao estudo original, nos quais os profissionais apresentaram médias elevadas de avaliação, com escores superiores a 8 (oito) pontos em quase todos os itens12. Semelhanças também foram encontradas nas médias dos profissionais que afirmam ter recebido treinamento em HC, que corroboram com a perspectiva de que intervenções podem viabilizar a reflexão sobre o desempenho e a aquisição de novas HC, com a possibilidade de melhoria na autoeficácia e na capacidade em demostrar empatia e de considerar as emoções do paciente31,32.

Pereira e Puggina33 consideram que instrumentos baseados em autoavaliação podem apresentar limitações na medida em que os resultados dependem da capacidade crítica e reflexiva do profissional sobre sua atuação. O conceito de autoeficácia, no entanto, propõe que o indivíduo avalie sua capacidade de executar tarefas, bem como reflita se resultados influenciam os objetivos, as expectativas e as metas, e essa caraterística tende a mitigar essas limitações.

O SEbr-12 apresenta-se como uma ferramenta importante no processo de autoavaliação que os indivíduos realizam sobre sua percepção, seu desenvolvimento e sobre os processos de mudança10,34, que são elementos fundamentais para avaliar os processos de melhoria baseados em intervenções. Ademais, permite uma avaliação rápida e econômica, adequada aos serviços de saúde. Um instrumento que considere habilidades eficazes de comunicação do profissional com o paciente e que forneça uma estrutura baseada em evidências para sua análise e ensino25 é fundamental para atender às novas demandas de saúde, que consideram as necessidades do paciente como centro do cuidado, bem como na busca da melhoria dos serviços de saúde35.

Nesse contexto, o SEbr-12 apresenta-se como uma ferramenta importante e válida para avaliar profissionais de saúde, em contraponto com a utilização de escalas específicas para algumas categorias profissionais36, ou que não possuem um processo de validação37. Ou, ainda, a realização de avaliações subjetivas de consultas reais ou simuladas, realizadas por meio de checklists38,39.

CONCLUSÕES

O processo de validação do Questionário de Autoeficácia (SEbr-12) para HC forneceu uma medida válida e útil ao contexto brasileiro, com a manutenção da estrutura do instrumento original, com alta consistência interna e alta correlação entre os itens. O SEbr-12, por ser autoaplicável, permite rapidez no preenchimento, característica fundamental para uma aplicação que respeite a dinâmica de funcionamento dos serviços de saúde.

A versão final do SEbr-12 para o idioma português do Brasil mostrou-se adequada e em conformidade com os parâmetros internacionais e nacionais e, por essa razão, é recomendada como um instrumento útil e específico para a avaliação da autoeficácia das HC de profissionais no contexto de saúde brasileiro, ao viabilizar a identificação de fragilidades e a necessidade de intervenções na melhoria dos indicadores.

Entretanto, alguns fatores podem limitar o presente estudo: a seleção dos participantes por conveniência; a ausência de informações sobre as especificidades do treinamento em HC, que alguns profissionais disseram ter participado; a impossibilidade das análises para inferências e correlações acerca dos fatores relacionados à avaliação das habilidades dos profissionais, em virtude do tipo de estudo realizado.

Observa-se que a expansão da avaliação das propriedades psicométricas, bem como sua utilização em pesquisas brasileiras baseadas em evidências, permitirão a identificação e a realização de melhorias na relação profissional-paciente e, consequentemente, na satisfação e na saúde dos usuários, fortalecendo o cuidado em saúde na perspectiva da ciência da melhoria.

  • Uma versão preliminar deste manuscrito foi apresentada com parte da Tese de Doutorado em Saúde Coletiva intitulada Tecnologias leves para a promoção das habilidades de comunicação na atenção primária à saúde de autoria de Ádala Nayana de Sousa Mata apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2019.
  • Fonte de financiamento:
    nenhuma.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    13 Maio 2021
  • Aceito
    14 Mar 2022
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