RESUMO
O artigo discute as experiências de jovens que consideram trabalhar como empreendedores(as) e o modo como constroem e significam suas trajetórias laborais. Com base em pesquisa realizada com 103 jovens moradores(as) das periferias das Zonas Sul e Leste de São Paulo, em diálogo com a teoria sociológica contemporânea e com o debate em torno das transformações no mundo do trabalho e na educação, o texto apresenta uma análise qualitativa de vivências, significados e percepções juvenis, tendo como base um grupo de quatro casos emblemáticos de jovens que se declararam empreendedores e empreendedoras. Desse modo, busca contribuir para os estudos sobre as transformações no mundo do trabalho no Brasil e os modos de ação e reação da juventude periférica.
Palavras-chave
Jovens; Empreendedorismo; Trabalho; Periferias; Reflexividade
ABSTRACT
This article discusses the experiences of young people who consider working as entrepreneurs and how they construct and signify these career paths. Based on research conducted with 103 young people living in the outskirts of São Paulo’s South and East Zones, in dialogue with contemporary sociological theory and the debate surrounding transformations in the world of work and education, the text presents a qualitative analysis of the experiences, meanings, and perceptions of 4 young people who self-identify as entrepreneurs. Thus, it contributes to studies on transformations in the world of work in Brazil and the modes of action and reaction of urban outskirts youth.
Keywords
Youth; Entrepreneurship; Work; Urban outskirts; Reflexivity
RESUMEN
El artículo analiza las experiencias de los jóvenes que se plantean trabajar como emprendedores y la forma en que construyen y dan sentido a sus trayectorias laborales. A partir de una investigación realizada con 103 jóvenes residentes en los suburbios de las zonas Sur y Este de São Paulo, en diálogo con la teoría sociológica contemporánea y con el debate en torno a las transformaciones en el mundo del trabajo y de la educación, el texto presenta un análisis cualitativo de las experiencias, significados y percepciones de los jóvenes, basándose en un grupo de 4 casos emblemáticos de jóvenes que se declararon emprendedores. De este modo, busca contribuir a los estudios sobre las transformaciones en el mundo laboral en Brasil y las formas de acción y reacción de la juventud periférica.
Palabras clave
Jóvenes; Emprendimiento; Trabajo; Periferias; Reflexividad
Introdução
Entre as discussões a respeito das formas e definições do empreendedorismo e dos modos pelos quais este se difunde no Brasil e noutros países do mundo – nas políticas de emprego, nos currículos escolares, nas mídias e organizações da sociedade civil –, destaca-se neste artigo a pertinência de olhar para experiências concretas e interpretações do empreendedorismo entre uma parcela de jovens que reconhecem, muitas vezes ao lado da realização de outras atividades laborais para ganhar a vida, trabalhar como empreendedores/as.
Há tempos os estudos da condição juvenil evidenciam as diferenças e desigualdades – de classe social, gênero e sexualidade, cor ou raça, local de moradia – que balizam as trajetórias de jovens, em particular na educação e no mundo do trabalho, o que também contribui para demarcar experiências e percepções diversas em relação a tais dimensões (Corrochano, 2024).
Sem negar os efeitos da disseminação de práticas, discursos e políticas sobre o empreendedorismo entre as gerações mais jovens1, o que pode incluir a crença nesse tipo de atividade como saída para desafios do presente ou para a construção de horizontes futuros, trata-se aqui de refutar homogeneizações, por vezes reiteradas. Parte-se, assim, da possibilidade de encontrar, por trás de uma similitude de posições estruturais, uma “grande diversidade de estados sociais” (Martuccelli, 2004, p. 302).
Ao lado da retomada da reflexão sobre o empreendedorismo no Brasil, este artigo baseia-se num perfil de 103 jovens empreendedores das Zonas Sul e Leste de São Paulo e numa interlocução mais aprofundada com quatro deles.2 O objetivo é dar luz ao que leva um jovem a buscar esse tipo de trabalho para além da “viração” (Telles, 2011), analisando suas experiências e, com base nelas, o modo como significam, refletem e também criticam a saída empreendedora.
Empreendedorismo e jovens que empreendem: estratégia e jogo reflexivo
Várias interpretações sobre o empreendedorismo buscam compreendê-lo no contexto de transformações mais amplas do capitalismo, inclusive na produção de uma subjetividade neoliberal (Dardot; Laval, 2016; Foucault, 2008). Nesse contexto, o interesse não estaria apenas em buscar saídas para a crise estrutural do emprego, mas também fomentar uma personalidade marcada por atitudes proativas e engajadas, com responsabilização individual por sucessos e fracassos, diante do enfraquecimento do Estado e da ascensão de políticas neoliberais (Boltanski; Chiapello, 2009; Sennett, 2006; Tommasi; Corrochano, 2020).
No Brasil, a reflexão sobre a temática tem reiterado a necessidade de não se obscurecer que o trabalho por conta própria não é uma novidade (Silva, 2002; Prandi, 1978), uma vez que a formalização raramente alcançou mais da metade da população – e, menos ainda, a população pobre, os jovens, as mulheres e as pessoas negras (Cardoso, 2010). No entanto, é sua disseminação por toda a parte, em especial a partir da década de 1990 (Tommasi, 2018), que desafia os estudos sociológicos do trabalho, da educação e da juventude.
Entre os atores e instituições presentes neste processo, destaca-se o papel da educação. Em pesquisa realizada pelo Global Entrepreneurship Monitor (GEM, 2025), o Brasil é avaliado positivamente em função das chamadas melhorias expressivas em oferta de educação empreendedora, resultado da confluência entre reformas laborais e educacionais de caráter neoliberal das últimas décadas. Não por acaso, tanto a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) quanto as novas Diretrizes Curriculares Nacionais de 2024 estabelecem princípios formativos ligados à cultura empreendedora e à educação financeira nas escolas (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2024; Corrochano, 2025; Quadros; Krawczyk, 2024). Ainda assim, e mesmo que o percentual de jovens com negócio próprio tenha se elevado nos últimos anos, permanecem menores quando comparados aos adultos: em 2024 eram 12,5% de jovens na faixa de 14 a 24 anos e 21,7% de jovens entre 25 e 29 anos que tinham um negócio por conta própria, contra 23,7% entre os adultos de 30 a 49 anos. Na faixa entre 50 e 64 anos, é ainda mais elevada: 29,3% (IBGE, 2024).
A associação entre a difusão do empreendedorismo e as transformações no mundo do trabalho – como a precarização, a flexibilização das relações laborais e, mais recentemente, o trabalho por meio de plataformas digitais – no contexto do capitalismo neoliberal, ao lado de seus efeitos em torno da produção de formas subjetivas de subordinação, tem marcado várias análises em nosso país (Abílio, 2020; Lima, 2024). Por outro lado, pesquisas pioneiras sinalizavam a necessidade de compreender os sentidos de sua difusão, em especial entre os jovens, a partir da ruptura com leituras binárias, ou seja, tanto de celebração de uma presumida potência transformadora quanto de um olhar para aqueles que empreendem como se estivessem todos capturados pelo neoliberalismo (Tommasi, 2016, 2018). Desde então, estudos sobre o empreendedorismo no comércio popular (Rangel, 2021); ou nas periferias, considerando a cultura e seus modos de vida (Costa; 2024); sobre as formas de sua incorporação nas práticas (Fontes, 2024); ou entre as mulheres (Maia, 2022) e entre as mulheres negras (Silva, 2017) avançaram na sua compreensão com um olhar sensível para as pessoas que trabalham como empreendedores/as.
Em diálogo com essas análises, o olhar para os jovens de nossa pesquisa ancora-se em perspectivas da teoria da ação. Trata-se aqui de ir além de perspectivas “dessubjetivadas” ou meramente posicionais da ação, destacando aquelas que possibilitam relacionar ação, linguagem e vida cotidiana dos sujeitos, visando à “construção intersubjetiva dos significados através de relações” (Melucci, 2005, p. 40).
Com isso, buscamos refletir sobre o que significa um jovem morador das periferias de São Paulo se identificar como “empreendedor”, considerando o modo pelo qual responderam à nossa pesquisa e como trabalham nos seus empreendimentos. Dialoga-se com a própria condição juvenil contemporânea, em que a persistência de desigualdades estruturais se combina a novos desafios sociais, em especial no mundo do trabalho, que tornam experiências e expectativas mais plurais e incertas – e também mais instáveis, provisórios e reversíveis os seus trajetos, projetos e escolhas (Ferreira, 2017). A aproximação com o empreendedorismo não implica um ponto de chegada inevitável ou uma adesão definitiva, e não é isenta de crítica e reflexão sobre si mesmo e sobre o momento estrutural do país. Ao não encontrar saída pela via institucional das políticas públicas, a juventude age e busca novos espaços nas margens e brechas da sociedade.
Nessa chave interpretativa, o indivíduo não é um “idiota cultural”, mero suporte das estruturas sociais ou reprodutor passivo da dominação (Garfinkel, 2018). Capacidade reflexiva e competência cognitiva dos membros da sociedade estão presentes nas práticas cotidianas desses jovens, dotados de recursos interpretativos para compreender, deliberar e agir reflexiva e criativamente (Giddens, 2009). Ao invés de destacar mecanismos de dominação e reprodução, integração e desintegração, estabilidade ou mudança social, parte-se da compreensão dos atores sobre suas próprias orientações culturais na autoprodução da vida, em meio a lutas e resistências (Touraine, 1984), em seus processos de construção das próprias “experiências sociais” resultantes da articulação de lógicas de ação diferentes e às vezes contraditórias no trabalho de constituição de si por meio da atividade cognitiva de verificar, experimentar e construir o real, por meio das categorias do entendimento e da razão (Dubet, 1994).
Ao mesmo tempo que promovemos um processo de escuta e compreensão dos jovens em seus contextos (Bourdieu, 2003), situamos a análise na América Latina, onde a elasticidade da vida social constrange, mas possibilita as brechas pelas quais ocorrem a reapropriação, a imaginação e a produção de novas relações sociais (Martuccelli, 2023). Entre nós, a despeito das instituições e do Estado, é ao indivíduo que cabe enfrentar os desafios, graças à sua habilidade de aproveitar oportunidades, misturando o chamado jogo de cintura com esforço e constituição de relações (Araujo; Martuccelli, 2014). Tal diagnóstico não é novidade e antecede em muito a emergência do sujeito neoliberal.
Mesmo sem aderir ao papel do empreendedor neoliberal, os jovens jogam com os discursos e assumem em alguns momentos a lógica estratégica de apresentar o que fazem – e não o que são – como fruto do empreendedorismo. É uma parte desse jogo que o diálogo com nossos interlocutores e interlocutoras permitiu evidenciar.
Caminhos metodológicos, contexto e jovens interlocutores (as)
Os dados resultam de uma pesquisa que analisou as experiências de escolarização e trabalho de 208 jovens moradores das periferias Leste e Sul de São Paulo, tomando como ponto de partida aqueles/as engajados/as em coletivos ou que trabalhavam em pequenos negócios. O foco aqui está colocado no recorte de 103 jovens que se declararam empreendedores/as.
Destaca-se a extensão e a intensidade das ações voltadas ao empreendedorismo no município de São Paulo, em especial nas periferias, no momento da pesquisa. Além da disseminação da própria figura do Microempreendedor Individual (MEI)3 e da presença nas instituições escolares e universitárias, os cursos voltados ao empreendedorismo ocupavam os espaços de associações e organizações não governamentais nesses territórios, tendo como principais fomentadores o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), fundações empresariais e as próprias políticas de emprego e renda do município: em 2020, das 10 ações governamentais dirigidas a jovens no campo do trabalho na cidade de São Paulo, sete tinham como foco o empreendedorismo (Bresciani; Corrochano; Nogueira, 2023).
Para usar as palavras dos próprios jovens, a “nova roupagem” do trabalho por conta própria nas periferias também pode ser observada no fomento aos chamados Negócios de Impacto Social ou Empreendedorismo Social4, com vários eventos, fóruns e “pitches” (apresentações curtas de empreendedores visando obter financiamento). Ao mesmo tempo, ainda que nem todos tivessem envolvimento em coletivos ou acessado políticas de fomento a iniciativas culturais nas periferias, como o Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) e a Lei de Fomento à Periferia5, estas estão bastante presentes em seu universo, sendo muitas vezes percebidas como políticas de trabalho e renda, e não restritas ao fortalecimento da cultura.
O trabalho de campo contou com a parceria de uma organização não governamental (Ação Educativa), e de várias associações locais, além da participação juvenil desde o planejamento até a execução e análise dos resultados, seguindo a metodologia de pesquisa entre pares (Philliber, 1999). Desse modo, 12 jovens moradores dos mesmos territórios dos/as entrevistados/as atuaram no projeto como pesquisadores/as, mediante remuneração.
Entre 2020 e 2022, estes 12 jovens contribuíram para a aplicação de um survey com amostra não aleatória e realização de entrevistas por meio de plataformas de videochamada, dada a necessidade de distanciamento social em função da pandemia (Corrochano; Tarábola, 2023). Uma situação bastante valorizada pelos participantes foi justamente a aproximação com jovens de outras “quebradas” e o estabelecimento de relações pessoais após a pesquisa, por meio de redes sociais ou aplicativos de mensagens, de acordo com interesses compartilhados e mapeados durante os diálogos (Corrochano; Laczynski, 2021). A análise dos dados quantitativos e qualitativos foi realizada com apoio dos softwares SPSS e Atlas-ti, respectivamente.
Dos 103 jovens identificados como empreendedores/as, 50% tinham entre 18 e 31 anos, contra 36% entre 25 e 29 anos e 14% entre 30 e 31 anos. Embora este último grupo ultrapasse a faixa considerada jovem no Brasil, que se estende até os 29 anos, ainda assim foram incluídos, considerando o modo como se identificaram, além da relevância em não seguir formulações rígidas. O trabalho de campo possibilitou o encontro com uma miríade de pequenos negócios nos campos da produção cultural e audiovisual, estética, moda, alimentação, tecnologia e das artes. Os negócios não formalizados predominavam, assim como os baixos rendimentos obtidos: 54,7% dos negócios não tinham CNPJ, contra 45,3% de formalizados, sobretudo como MEI. Ainda, 60% dos rendimentos mensais auferidos eram de até 1 salário mínimo.
Evidenciou-se maior presença de jovens do gênero feminino (53,1% contra 40,6% do gênero masculino e 6,2% não binários), negros (64,1% contra 34,4% que se identificaram como brancos) e com renda familiar de até 2 salários mínimos (50%) ou entre 2 e 5 salários mínimos (50%). Chama a atenção a maior presença de jovens mulheres, uma vez que os dados nacionais indicam o predomínio de homens entre os trabalhadores/as por conta própria (IBGE, 2024). Ao interseccionar-se gênero e raça, as jovens mulheres e negras predominam (41,2%), sendo também mais presentes nos negócios não formalizados: 60% delas não tinham CNPJ e recebiam menores rendimentos com seu trabalho, evidenciando significativas desigualdades também entre os que se declaram empreendedores/as.
Em relação aos estudos, a maioria havia concluído a educação básica: 95,7%, contra apenas 4,3% que estavam cursando o ensino médio. Esses números expressam o progressivo (ainda que moroso) processo de expansão da oferta pública escolar que resultou na quase universalização do acesso ao ensino fundamental e na massificação do ensino médio no Brasil.
Aproximadamente 1/3 dos jovens finalizou o ensino superior (34%), revelando resultados do recente movimento de expansão do acesso deste nível de ensino, ainda que desigualdades persistam (Senkevics; Carvalho, 2020): 21,3% haviam abandonado o curso escolhido por falta de condições materiais ou insatisfação. Por fim, cabe destacar que 46,9% receberam o auxílio emergencial na época da pandemia, e a maioria (83,6%) ainda morava com algum responsável familiar (54,3%). Apenas 13% eram casados e 9% possuíam filhos, informação relevante quando se consideram os marcos da transição para a vida adulta.
Os dados relativos à escolarização, moradia e parentalidade revelam características que podem ser lidas como marcadores geracionais, indicando diferenças e desigualdades em relação à geração de seus pais. A postergação de casamentos, da saída da casa de origem e a parentalidade caminham com o aumento da escolaridade média e se juntam à participação nos processos de transformações tecnológicas e sociais em curso, num contexto sujeito à acelerada globalização e transnacionalização econômica, política e cultural (Pais; Bendit; Ferreira, 2011). Outro aspecto relevante foi a autoidentificação como periféricos e periféricas, indicativo apreendido noutras investigações com concentração de populações marginalizadas econômica, racial e socialmente (D’Andrea, 2020).
A maior parte começou a trabalhar ainda no ensino médio, combinando trabalho e estudos, como é típico da condição juvenil no Brasil, mas também se observam casos em que as famílias se esforçaram para que a inserção no trabalho acontecesse após finalizada essa etapa da escolarização. Metade de nossos interlocutores combinavam o trabalho como empreendedor/a com um “trabalho CLT” – emprego formal, portanto –, ou mesmo com outro tipo de trabalho assalariado informal.
Longe de uma caminhada linear rumo a um futuro previsível, os relatos apontam etapas ainda indefinidas, arriscadas e incertas, demandando reorientações, reinserções, reconversões e recomposições, tornando o presente repleto de inquietudes, ansiedades e medos diante da perspectiva de um longo e contraditório caminho de aprendizagens, reconstruções e instabilidades (Pais; Ferreira, 2010), o que também se evidencia na própria relação com o empreendedorismo.
O empreendedorismo entre a adesão, a reflexão e a crítica
Como figuras representativas desse agrupamento maior de 103 jovens identificados como empreendedores/as, apresentamos aqui a perspectiva de três interlocutoras e de um interlocutor da pesquisa, contemplando aspectos da sua história e de seu perfil, como se deu o encontro com o empreendedorismo, quais questões emergem de tal experiência e como reagiram a elas.
Cássia6: “Compensa agora ser empreendedora”
Cássia é uma das mais jovens de nossas interlocutoras. Com 19 anos, identificou-se como mulher cisgênero e branca. Mora na Zona Leste com dois irmãos mais novos e com seus pais, que não completaram o ensino fundamental e trabalham no setor de serviços. Começou a procurar trabalho aos 15 anos, quando ingressou no ensino médio técnico em logística, numa escola pública de período integral. À semelhança do que vários estudos já observaram, o desejo pelo trabalho vinha de uma combinação entre necessidade de apoio à família e busca por autonomia pessoal.
A dificuldade em encontrar trabalho com jornada adequada ao período integral da escola e com “remuneração digna” fez com que Cássia se transferisse para o ensino médio regular noturno, passando a buscar, sem sucesso, trabalhos protegidos, como aprendizagem e estágio. Assim, seu encontro com o empreendedorismo se relaciona com a própria escassez de políticas de apoio à inserção protegida de jovens no campo do trabalho. Ao procurar trabalho na internet, percebeu que poderia “ganhar dinheiro com a escrita”, que, além de gerar renda, era uma atividade que sempre gostou de fazer. A partir daí, “começou a se qualificar, buscar cursos, correr atrás”. Foi assim que iniciou seus trabalhos como “redatora freelancer”, diante de ofertas de trabalho das plataformas digitais que buscam mobilizar jovens adolescentes num contexto de precarização do trabalho, inclusive na área da comunicação (Barros et al., 2021).
Trabalhando no setor há três anos, Cássia afirma que a possibilidade de fazer o que gosta, ao lado da maior flexibilidade de horários e maiores ganhos, foram elementos que a atraíram para este trabalho, mas com o tempo percebeu que era preciso “ficar esperta”: em muitos casos, o volume de trabalho era excessivo e não condizente com a remuneração, “quase um trabalho escravo”. O fato de ser jovem e sem ensino superior também contribuía para a desvalorização do seu trabalho e algumas situações de agressão verbal, especialmente por parte dos homens que vez ou outra mandavam recados: “Vai estudar, menina!” Foi preciso aprender, sozinha, a defender-se, valorizar seu trabalho e cobrar um valor justo. Cássia expressa, de maneira explícita, uma demanda dupla, tanto por remuneração digna quanto por reconhecimento (Fraser, 2001).
Entre a percepção de vantagens na flexibilidade do trabalho empreendedor com a sensação de exploração, a jovem não deixa de ressentir-se da ausência de direitos: “Não tem seguro-desemprego, não tem férias; e quando tem trabalho, é noite em claro”. Ainda assim, considera que compensa, porque é uma área que está crescendo, em que tem autonomia e recebe uma boa remuneração, comparativamente. Questionada sobre considerar-se empreendedora, Cássia declara que sim, na medida em que tem planos de formalizar-se como MEI e também de contratar outros jovens da periferia para trabalharem com ela, refletindo sobre a importância de transferir seus aprendizados e gerar trabalho no território.
Cássia também tem planos de cursar o ensino superior: não mais medicina, como sonhava no início do seu ensino médio, e sim marketing, no qual pretende se especializar. Para ela, compensa agora continuar trabalhando por conta própria: “Ninguém vai contratar um jovem aprendiz ou um redator júnior pagando R$ 3. 500”. Ao mesmo tempo, pondera: “Se uma agência me oferecesse um bom salário, com chance de crescimento, aí eu largaria”.
Giovana: “É um negócio, não é ativismo”
Giovana é uma jovem de 25 anos e mora com sua mãe num distrito da Zona Sul, identificando-se como mulher e negra. Ela declara que, até a entrada no curso de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP), em 2014, quando ainda não existiam ações afirmativas na instituição, foi “blindada do trabalho doméstico” e da busca por outros trabalhos por sua mãe, a despeito das cobranças de seu pai. Durante o curso, participou de vários coletivos em defesa das cotas e começou a apoiar a organização de eventos, assumindo atividades de comunicação, o que acabou lhe rendendo convites para trabalhar no campo. Fez cursos na área e outros voltados para o empreendedorismo. O contato de Giovana com o empreendedorismo aconteceu quando estava na universidade, mas enfatiza que a decisão de abrir um negócio associou-se à percepção das dificuldades de seguir carreira acadêmica, num contexto de corte de bolsas.
Sua produtora de comunicação, formalizada como MEI, presta serviços para a iniciativa privada e para órgãos públicos, além de possuir uma frente de atuação voltada para “pessoas periféricas”, na perspectiva de aumentar a atuação destas no mercado, seja em “cargos corporativos”, seja por meio de “atuação autônoma”. Giovana relacionou parte das dificuldades em seu empreendimento ao fato de ser mulher, negra e periférica: “É muito difícil ser produtora executiva com todos estes marcadores; temos que ter muita firmeza e segurança para bancar nossas posições”. Como suporte para esse enfrentamento, estava, há dois anos, fazendo terapia.
A afirmação de sua produtora como “negócio”, e não como “ativismo”, marca boa parte de sua entrevista. Ainda que sem desvalorizar o período vivido na universidade, estava em busca de reconhecimento profissional e estabilidade como produtora. Tinha uma perspectiva crítica aos chamados “negócios de impacto social”, o que também apareceu entre outros jovens. A jovem destacou que não queria uma “ajudinha”, mas sim reconhecimento e pagamento justo para seu trabalho: “As fundações, empresas e agentes do poder público precisam compreender que nossos orçamentos não são baixos por sermos pessoas periféricas”. Afirmou pagar acima do mercado porque considera importante não reproduzir a lógica vigente, de “contratar precário, pagar mal as pessoas e tudo mais”.
Giovana gostaria que sua produtora pudesse ter um orçamento que possibilitasse ao grupo viver ao menos um ano sem se preocupar com o dia seguinte, sem atravessar períodos alternados de “pindaíba e bonança”. Sonha com coisas que considera muito difíceis para sua geração, como “a casa própria”, atrelando isso à dificuldade de ser CLT: “Dizem que as pessoas da minha geração não têm mais esse sonho. Porque sabe que nunca mais vai conseguir. Até porque não existe mais quase CLT, né? E nem trabalho formalizado, nem garantias e nem direitos”. Entretanto, mesmo em tal contexto, afirma que “ainda mantém seus sonhos”.
Vale atentar para o modo como Giovana se refere à CLT para as pessoas de sua geração: aqui, não se trata de colocar luz em dimensões como autonomia ou flexibilidade que encontraria no trabalho como empreendedora, o que aparece como relevante para ela e tem se destacado noutras pesquisas (Tommasi, 2018; Costa; Iamamoto, 2025), mas numa reflexão sobre o próprio mercado de trabalho: como sonhar com algo cada vez mais difícil de conseguir? Entre o avanço do discurso e do investimento no empreendedorismo e as dificuldades em encontrar um trabalho “CLT” ou de continuar os estudos por meio de bolsas na pós-graduação, Giovana encontra um caminho possível que parece responder, ainda que parcialmente, às suas expectativas e aspirações desde a conquista do diploma.
Kiara: “Não me considero empreendedora, mas preciso”
Kiara é uma jovem de 26 anos, identificando-se como amarela. Mora com seus pais e avós na Zona Sul. Abandonou o curso de Engenharia Química e um trabalho CLT como professora de inglês numa escola particular para ser “trabalhadora autônoma” no campo da cultura e do meio ambiente. Em seu caso, a possibilidade “de combinar trabalho e ativismo no lugar de moradia” é descrita como principal motivação, para além da busca por escapar de relações hierárquicas e do baixo salário que recebia. Desde 2016, além do envolvimento com coletivos, trabalha com a família num negócio de alimentação vegetariana para eventos, ao lado da realização de oficinas e rodas de conversa. Já teve apoio da Lei de Fomento à Periferia e de alguns coletivos locais, mas no momento da entrevista estava sem parcerias, com o negócio funcionando em sua própria casa, e destacando as limitações de se combinar ambiente familiar e profissional.
Em sua entrevista, afirmou que não se considera uma empreendedora, mas que “precisa” para não ser retirada de circulação, dado que é impossível pagar contas “por outros meios no sistema capitalista”. A jovem não conseguia reconhecer seu empreendimento nem como coletivo, nem como negócio, entendendo ser as duas coisas ao mesmo tempo: é empresa porque tem registro MEI, emite nota fiscal, faz contratações; mas também não é, na medida em que se discute tudo coletivamente, incluindo as funções e as remunerações das pessoas. Ainda que não nomeasse desse modo, a forma de funcionamento de seu empreendimento parecia aproximar-se de um empreendimento de economia solidária (Gaiger, 2013). Inclusive, considerava que o modelo de cooperativa seria melhor, mas dados os desmontes neste campo, referindo-se ao então governo de Jair Bolsonaro, optou por seguir como MEI.
Kiara discordava de uma visão empreendedora “enfiada goela abaixo” não apenas de si mesma, mas de toda sua geração, como afirmou:
Tem muito de neoliberal nisso: basicamente, cada um abrir seu CNPJ e começar a ter funcionários, crescer, vender produtos, fazer marketing. Vem o empreendedorismo, onde o governo fala que não existe desemprego, porque agora todo mundo é empreendedor. Não é assim. Muitas pessoas não conseguem, e aí essa pressão que é ser empreendedor deságua muitas vezes e a pessoa adoece. Ela não tem apoio [...] ela não tem uma família para apoiar e trabalhar junto. Então, é injusto a gente ter empreendedorismo como a salvação da nossa era e da nossa geração, porque precisa de muitos privilégios para poder surfar nessa onda, e não é o caso da população periférica.
Kiara demonstrou a tensão de agir como empreendedora sem abdicar da gramática dos direitos sociais, demandando empregos formais “menos agressivos” e “mais acolhedores”, nos quais seja possível reunir geração de renda com realização profissional e pessoal, além do desenvolvimento socioeconômico e cultural de sua própria comunidade. A possibilidade de criação de trabalhos para além dos tradicionalmente ofertados para os jovens das periferias e de trabalhar no próprio território são aspectos valorizados no empreendedorismo. Ao mesmo tempo, reconheceu as desigualdades e aquilo que considerava “a parte mais complicada da promessa empreendedora: a falta de direitos trabalhistas que a gente não tem”.
A jovem não tinha planos de deixar seu empreendimento e estava inscrita no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), projetando o retorno para a universidade. Ainda não havia decidido o curso, mas estava mais certa de que seria algo relacionado ao meio ambiente ou ao cuidado de animais, perspectivas estimuladas por sua atuação no empreendimento e nos coletivos juvenis.
Luan: “Ser jovem, empreendedor, periférico, é você ter que matar mais de um leão por dia. E, às vezes, você é o leão”
A combinação entre trabalho formal e num empreendimento também aparece entre alguns jovens, como na trajetória de Luan. Com 28 anos, morava com a namorada na Zona Sul e identificou-se como homem e negro. Começou a trabalhar informalmente aos 16 anos, combinando com a conclusão do ensino médio e com iniciativas empreendedoras ligadas à cultura que não deram certo: “Era muito jovem”. Fez História numa universidade particular e, à época, era professor temporário no ensino médio público. Além disso, cursava Letras e tinha uma produtora cultural ainda não formalizada com o objetivo de apoiar artistas das periferias, especialmente do rap. Tanto a decisão de ingresso no ensino superior como a de abertura de uma produtora vieram da sua inserção no movimento hip hop: “O meu trampo no rap que fez eu ser essa pessoa que eu sou hoje, que me motivou a fazer uma faculdade, a pensar neste trabalho” – para além dos ganhos financeiros, queria retribuir o que o movimento hip hop havia lhe oferecido, “acolhendo o máximo de pessoas”.
Luan considerava-se um empreendedor porque, para ele, era algo “inato” à periferia. À semelhança do posicionamento de outros jovens, reconheceu que a “quebrada” “empreende desde sempre; agora é que virou um termo da moda, um termo do “capital”. Afirmou que já teve vários outros empreendimentos, sempre voltados à cultura hip hop, mas a maior parte não deu certo porque ele “era muito novo”. Em seu empreendimento atual, trabalhava com três amigos, com responsabilidades diferentes. Para ele, foi fundamental a incorporação de mais pessoas para deixar de se sentir “um polvo”, realizando todas as atividades sozinho. O trabalho na produtora tinha uma importância fundamental em sua trajetória, mas seu principal desafio era conciliá-lo com o trabalho remunerado, mantido enquanto não conseguia auferir remuneração suficiente com a produtora.
O jovem declarou que trabalhava tantas horas que, se tivesse opção no questionário, teria declarado trabalhar 48 horas por dia, e não 24: “Ser jovem, empreendedor, periférico, é você ter que matar mais de um leão por dia. E, às vezes, você é o leão. Saca?!”. Luan pretendia seguir com seu empreendimento, mesmo diante das inúmeras dificuldades: de combinação com outras atividades remuneradas; da ausência de recursos, equipamentos e apoio do poder público; e da distância em relação ao centro: “Se eu parar esse empreendimento, eu paro com meu sonho. Não posso desistir. E eu tenho pessoas que trampam comigo que me motivam pra caramba também. E a gente tá fechado nisso. E um vai ajudando o outro [...]”.
Luan apostava na sua capacidade de ação a despeito da inexistência de apoios institucionais. O limite da exaustão na realização conjunta de dois trabalhos estava ligado à convicção de que, por meio de suas próprias forças, conseguiria enfrentar elementos estruturantes da sociedade (Araujo; Martuccelli, 2012; 2014).
Considerações finais
Ao lado de um período prolongado de contato ou de efetiva formação para o empreendedorismo, incluindo sua vertente social nas periferias de São Paulo (Catini, 2020), os jovens que aqui destacamos estavam imersos em experiências concretas de “tocar seu negócio”, de “se esfolar nas quebradas”, sem ilusão de que as desigualdades (de cor ou raça, gênero e classe) presentes no mundo social e no trabalho não seriam recolocadas novamente no desempenho da atividade empreendedora.
Embora os dados não permitam generalizações, e nem seja este o objetivo, é possível afirmar que o empreendedorismo não significa apenas “viração” para estes jovens, nem que todos assumam a lógica do empreendedor de si mesmo.
A transição da promessa do assalariamento para a do empreendedorismo como “salvação de uma geração” aparece como uma inversão injusta. Além disso, para tal grupo social, a motivação para o empreendedorismo não está apenas atrelada à necessidade de renda, embora esta seja fundamental. Como tem sido recorrente noutras análises, também para essas e esses jovens, a busca por autonomia e possibilidade de realização pessoal e profissional, sem deixar de lado a preocupação com seus locais de moradia e com os próprios jovens das periferias – “os seus e suas” –, funciona como motivação para o negócio próprio.
O que surge como um achado relevante dos relatos desta pesquisa é o momento singular do percurso de vida em que se encontram: a maior escolarização, a difusão do empreendedorismo e a vivência das transformações ocorridas nas periferias, incluindo o fortalecimento dos coletivos e das políticas a eles dirigidas. Destaca-se também que, mesmo entre aqueles sem experiência em coletivos, há preocupação com as próximas gerações.
A articulação entre as diferentes lógicas de adesão, estratégia e subjetivação (Dubet, 1994) emerge em todos os relatos, constituindo experiências sociais bastante ímpares na relação com o empreendedorismo e como tal prática ocupa lugar em suas vidas.
Por fim, a crítica e a reflexividade não vinham apenas atreladas às experiências anteriores de trabalho, incluindo o trabalho como CLT, mas também ao próprio empreendedorismo e à sua difusão. O discurso dos direitos não desapareceu de seus relatos, como se observa em outras pesquisas (Costa; Iamamoto, 2025). Pelo contrário, ganhou centralidade entre os quatro jovens.
Ao buscar responder à pergunta “Qual é o meu empreendedorismo?”, feita por ela mesma, uma das jovens nos desafia – tanto aos pesquisadores das áreas da juventude, do trabalho e da educação, quanto às políticas públicas de trabalho, em especial aquelas voltadas para os jovens: o “meu empreendedorismo” deveria ter um outro nome, que comportasse a garantia de direitos e assegurasse remuneração digna.
A resposta e o horizonte – não apenas para si próprios, mas para as próximas gerações – é continuar agindo e construindo saídas para um trabalho justo em que haja tempo para o trabalho e tempo para a vida, sem ter que matar um leão por dia – sendo, por vezes, o próprio leão. Face à tamanha injustiça, a demanda juvenil colocada é por mais políticas sociais e por ações menos solitárias e individuais7. Não se “ganha o jogo” se “chegarmos lá” sozinhos; também aqui, quando há mérito, ele não é individual.
Agradecimentos
Às e aos jovens interlocutores(as) e pesquisadores(as) do projeto Coletiva Jovem (https://coletivajovem.org.br/) e às instituições parceiras, em especial: Ação Educativa, Bloco do Beco, Rede Sul – Quebrada Presente e São Mateus em Movimento.
Notas
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1
No período recente, observa-se uma onda de circulação de mensagens de ataques à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e valorização do empreendedorismo, inclusive entre jovens, nas redes sociais. Sobre essas campanhas, ver instigante análise de Rosana Pinheiro-Machado (2025).
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2
Os dados foram obtidos por meio de pesquisa que contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) – Processo n.º 2018/12094-3.
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3
Sobre a criação desta política pública que possibilita a inclusão dos trabalhadores por conta própria na Previdência, suas potencialidades e problemas, cf. Constanzi (2018).
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4
A despeito das várias nomenclaturas, trata-se do fomento a negócios que permitam “resolver problemas sociais de forma lucrativa” (Sales, 2022, p. 56).
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5
Um dos principais objetivos do VAI é apoiar coletivos artísticos culturais constituídos por jovens entre 18 e 29 anos, oferecendo financiamento para suas ações. O Programa de Fomento à Cultura da Periferia visa ampliar o acesso à cultura nas periferias e fomentar o desenvolvimento de expressões artísticas e culturais locais por meio de apoio financeiro a coletivos periféricos com pelo menos três anos de atuação.
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6
Os nomes são fictícios para preservar o anonimato.
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7
É evidente a urgência da retomada de um debate público sobre a condição juvenil no mundo do trabalho, em especial de jovens pobres, mulheres, negros/as e moradores/as de regiões periféricas, além de ações públicas nesta dimensão, à semelhança do proposto pela Agenda Nacional de Trabalho Decente para a Juventude no Brasil (Corrochano, 2024).
-
Declaração de uso de ferramentas de inteligência artificial
Os autores declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi usada na preparação, redação, análise de dados ou revisão deste manuscrito.
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Financiamento
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São PauloProcesso n.º 2018/12094-3Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e TecnológicoProcessos n.º 315164/2020-4 e 306127/2025-3.
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Dossiê organizado por:
Maria Carla Corrochano https://orcid.org/0000-0001-8030-6461
Disponibilidade de dados de pesquisa
Dados serão fornecidos mediante solicitação.
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Editado por
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Editoras associadas:
Débora Dainez https://orcid.org/0000-0002-8223-098X e Ana Luiza Bustamante Smolka https://orcid.org/0000-0002-2064-3391
