Open-access ENTRE QUITUTEIRAS E EMPREENDEDORAS NEGRAS: A PRODUÇÃO DA VIDA EM TERRITÓRIOS PERIFÉRICOS

BETWEEN “QUITUTEIRAS” AND BLACK ENTREPRENEURS: THE PRODUCTION OF LIFE IN PERIPHERAL TERRITORIES

ENTRE COCINERAS Y EMPRENDEDORAS NEGRAS: LA PRODUCCIÓN DE LA VIDA EN TERRITORIOS PERIFÉRICOS

RESUMO

As últimas décadas foram marcadas por avanços significativos na ampliação do acesso das classes populares a direitos, proporcionando à população negra jovem oportunidades historicamente limitadas. No entanto, o mesmo período foi marcado pelo esfacelamento dos direitos trabalhistas e o surgimento do empreendedorismo como uma categoria central para a constituição de um conjunto de experiências laborais de uma juventude, autodefinida periférica, cujas formas de afirmação política encontram-se cada vez mais vinculadas à lógica neoliberal. A adesão a cursos de capacitação para gerirem negócios próprios reflete uma mudança significativa, na qual as mulheres, antes invisíveis, agora são celebradas por seu empoderamento e potencial nos negócios. Por meio da combinação de pesquisa documental e etnográfica, enfocando as dinâmicas de empreendedorismo com especial atenção às experiências de mulheres negras, o artigo investiga continuidades e descontinuidades nas formas de produção da vida.

Palavras-chave
Mulheres negras; Trabalho; Mercado; Produção da vida; Territórios periféricos

ABSTRACT

The last few decades have been marked by significant advances in expanding access to social rights for the working classes, providing the young Black population with historically constrained opportunities. Nevertheless, the same period was also characterised by the dismantling of labour rights and the emergence of entrepreneurship as a crucial category for the constitution of a set of working experiences among urban periphery youth, whose forms of political affirmation are increasingly related to neoliberal logic. Attendance at training courses to manage their own businesses reflects a significant turn in which women, who were once invisible, are now celebrated both for their empowerment and their potential. Based on a combination of documentary and ethnographic research, with a focus on the dynamics of entrepreneurship and a particular focus on the experiences of Black women, this article investigates continuities and discontinuities in the ways in which they produce everyday life.

Keywords
Black women; Labour; Market; Production of life; Peripheral territories

RESUMEN

Las últimas décadas se han caracterizado por avances significativos en la ampliación del acceso de las clases populares a los derechos, lo que ha proporcionado a la población joven negra oportunidades históricamente limitadas. Sin embargo, el mismo período se ha caracterizado por el desmantelamiento de los derechos laborales y el surgimiento del emprendimiento como una categoría central para la constitución de un conjunto de experiencias laborales de una juventud, autodefinida como periférica, cuyas formas de afirmación política están cada vez más vinculadas a la lógica neoliberal. La adhesión a cursos de capacitación para gestionar negocios propios refleja un cambio significativo, en el que las mujeres, antes invisibles, ahora son celebradas por su empoderamiento y potencial en los negocios. A través de la combinación de investigación documental y etnográfica, centrada en las dinámicas del emprendimiento con especial atención a las experiencias de las mujeres negras, el artículo investiga las continuidades y discontinuidades en las formas de producción de la vida.

Palabras clave
Mujeres negras; Trabajo; Mercado; Producción de la vida; Territorios periféricos

Introdução

Domingo ensolarado. Um bom dia para empreender o longo trajeto que me separa do outro lado da cidade, o Jardim Lapena, na zona Leste, onde vai acontecer o I Fórum de Negócios de Impacto da Periferia – Zona Leste1. Estou animada, como sempre que participo de eventos que acontecem nos territórios periféricos. Depois de subir num ônibus, pegar um metrô e fazer baldeação para pegar um trem felizmente não lotado no dia de domingo, chego até uma estrada animada cheia de pequenas lojas, paralela às linhas do trem, e percorro a pé algumas centenas de metros até chegar numa praça quase inteiramente ocupada por um amplo galpão, situada no meio de construções baixas, casas e pequenos prédios.

Na entrada do espaço onde vai acontecer o evento, passando as grades que cercam o pátio do galpão, se instalaram, como usualmente acontece nessas ocasiões, várias barracas de vendedoras, cujos produtos variam ao sabor dos tempos. Nos últimos anos, sobressaem os produtos coloridos que remetem à cultura afro: livros de literatura infantil produzidos por escritores e editoras periféricas, roupas, turbantes e outros adereços para cabelos cacheados. Muitas cores fortes, imagens que celebram a estética do mundo afro em sua tradução em terra tupiniquim.

Em um dos lados do pátio, duas barracas compõem uma imagem que chama a minha atenção e se instala com insistência na minha memória: lado a lado, estão a barraca animada, hiperproduzida e multicolorida de duas jovens mulheres negras, com cabelos cacheados e luminosos e roupas chamativas, produtoras de acarajé; e a mesinha de uma produtora local de salgadinhos, uma mulher negra de cabelos alisados, roupas humildes, que, com seu pequeno tabuleiro no qual apoia uma caixinha de plástico de risoles e bolinhos, representa uma das típicas vendinhas que usualmente se encontram nas regiões pobres da cidade. Nas minhas andanças etnográficas pelas periferias e favelas, esses pontos de venda sempre foram paradas obrigatórias, para saciar a fome ou tomar uma bebida gelada.

Entre a “tiazinha” (assim geralmente as pessoas se referem às mulheres vendedoras de classe popular) e as jovens “empreendedoras” não havia comunicação, nem material nem simbólica. Duas estéticas, duas produções de si, dois mundos separados. Mesmo que a vendedora “informal” de salgadinho pudesse ser a mãe ou a avó das jovens vendedoras de acarajé, entre elas não parecia existir comunicação.

Essa imagem ficou na minha cabeça até hoje. Decidi, então, seguir a imagem e suas protagonistas. Procurando interrogar a fronteira que separa esses dois mundos, as continuidades e rupturas nas trajetórias existenciais e nas práticas laborais de mulheres negras vendedoras oriundas das periferias da cidade.

Para elaborar o texto, além da pesquisa documental, recorremos às nossas anotações de campo, situadas em lugares e tempos diversos.

Mulheres quituteiras e o cotidiano do trabalho

Sobre ambulantes e trabalhadores informais existe, no Brasil, uma vasta literatura. Sempre definida por sua alteridade com relação ao trabalho formal, tipificado no trabalho assalariado de tipo fordista, a informalidade nasce como uma categoria residual que, acredita-se, será superada pelo avançar do desenvolvimento das forças produtivas (Prandi, 1978). Nesse contexto, os ambulantes se tornaram um objeto de estudo privilegiado, tanto pela sua presença numérica e economicamente significativa nos contextos urbanos como por estarem conectados às redes de comércio transnacional, legal ou ilegal (Rabossi; Tassi, 2023). Presença incômoda, que alimenta políticas de gestão que combinam repressão, contenção (a criação dos mercados populares) e, mais recentemente, suporte para sua transformação em “empreendedores” (Rangel, 2021); nesse caso, a dualidade é invertida, e o “problema” se torna “solução” para movimentar a economia e contornar a crise do trabalho assalariado.

No âmbito dos estudos urbanos, os modos de vida em favelas e periferias também representam um campo de estudo prolífico (L. Silva, 2018; Cabanes; Telles, 2006). São raros, porém, estudos que se debrucem sobre as mulheres que vendem comida nas ruas, presença constante nas margens das cidades. Provavelmente por não representarem um “problema social”, como os jovens (Abramo, 1997) ou os vendedores de mercadorias ilegais, nem suas atividades serem significativas em termos econômicos. A permanência, ao longo do tempo, desse tipo de comércio operado por mulheres vendedoras de refrigerantes, balas ou salgadinhos, desde um cômodo da casa através da janela aberta para a rua, ou em pequenos quiosques nas esquinas, ou em tabuleiros improvisados ao longo das ruas nos bairros pobres das cidades, parece, de certa forma, produzir sua invisibilidade. Como se fossem parte da paisagem urbana, sem representar uma questão digna de nota.

Vender comida na rua é uma prática antiga para as mulheres pobres e negras brasileiras. Assim, os estudos históricos, em particular sobre a época da escravização, são importantes para observar a continuidade dessa prática ao longo do tempo.

A rua representou, para a população negra, escrava ou liberta, uma fonte de sobrevivência. Os senhores destinavam alguns de seus escravos, os chamados “escravos de ganho”, para desenvolver atividades a serviço de terceiros, sendo alugados, por hora ou por dia, para desenvolver atividades na rua (Rolnik, 1989). Os “escravos de ganho” podiam morar fora da habitação do seu senhor, ficando com uma parte da receita para pagar seu sustento e sua moradia (Costa, 1991). Dessa forma, eles tinham mais facilidade para juntar o dinheiro necessário para pagar sua alforria. Se os homens trabalhavam, sobretudo como carregadores, de pessoas ou mercadorias, circulando pela cidade, as mulheres ficavam na rua para vender comida, inclusive para eles.

Assim, por já terem atividades estabelecidas e por falta de outras opções, a rua continuou representando uma fonte importante de renda, mesmo para os escravos libertos e depois da abolição. Lavadeiras, carregadores, sapateiros, barbeiros, produtoras e vendedoras de comida ocupavam e produziam o espaço urbano. Os pontos onde permaneciam na rua à espera de um serviço constituíam lugares de encontro, de troca, de organização. Na cidade de Salvador, eram chamados de “cantos” (Costa, 1991). As “lojas” eram, ao invés, os locais de moradia, extremamente precários e pobres, que se espalharam pelos centros das cidades à medida que a oligarquia os abandonava, pela falta de higiene e pelo aumento das doenças nas ruas estreitas e repletas de gente.

As negras quitandeiras e quituteiras, embora não fossem baianas, andavam vestidas como tal, vendendo seus acepipes nos locais públicos, como ruas e praças, cantando seus pregões. […] No entanto, essa nova condição dos negros, escravos ou libertos, não estava em consonância com o projeto urbano de modernização da cidade, conforme os modelos de civilidade considerados mais adequados pelos padrões estéticos europeus

(Jesus, 2010, p. 2-3).

A repressão às atividades desses ambulantes por parte do poder público é quase tão antiga quanto sua presença. Em 1886, o Código de Postura desloca os mercados para os bairros e impede as quitandeiras de vender na rua. Mesmo assim, essas atividades continuam a representar uma fonte de renda para as mulheres pobres até hoje.

Não é somente no Brasil que a produção do espaço urbano é marcada pela presença das mulheres vendedoras. Contestando as leituras que geralmente consideram o trabalho das mulheres um produto tardio da modernidade, Manuela Martini e Anna Bellavitis (2014) devolvem às mulheres trabalhadoras um lugar de destaque ao longo da história, desde a Idade Média; nessa época, segundo elas, a venda de comida na rua constituía uma atividade essencial para a difusão do comércio entre as cidades e o crescimento das urbes.

Num interessante estudo pioneiro, Luiz Antônio Machado da Silva (2018) se debruça sobre as atividades econômicas que, para as mulheres pobres brasileiras, representam uma extensão (e não uma alternativa) ao trabalho doméstico. Cozinhar, lavar, passar, arrumar a casa, são atividades naturalmente reservadas às mulheres que, supostamente, não necessitam de um saber especializado ou de uma formação (ao contrário da costura, como nota Machado) para serem exercidas. Além disso, produzir e vender comida na rua, ou abrir uma vendinha através da janela de um cômodo da casa, tem a vantagem de preservar a presença em casa, para poder cuidar do lar.

Hoje, essa não separação entre tempos e espaços (de trabalho remunerado e não, de produção e reprodução, de trabalho e moradia) é nomeada como uma característica marcante do atual estágio do capitalismo flexível que supera a organização fordista do trabalho centrada na separação e especialização das tarefas. Entretanto, para os trabalhadores informais, e ainda mais para as mulheres, tempos de trabalho remunerado e não, assim como espaço doméstico e espaço de trabalho, nunca foram rigidamente demarcados.

Resgato de minhas lembranças sobre meu trabalho de campo na Cidade de Deus (entre 2010 e 2015, no Rio de Janeiro) a presença marcante de Deuá, a mulher “dona”2 de um quiosque de salgadinho no cruzamento entre as ruas principais do bairro, logo em frente ao campo de futebol e ao lado do terreno onde deveria ser construída uma escola de ensino médio. Ponto cobiçado, portanto, para o comércio. Mesmo assim, o quiosque de Deuá não abria todos os dias, nem ficava aberto o dia inteiro. Para minha surpresa, dado o potencial de lucro daquele ponto comercial, ela costumava abrir somente no final da manhã, nos últimos dias da semana. Deuá não se preocupava muito em ganhar dinheiro.

A atividade no quiosque era para ela um complemento de outro trabalho que ela tinha como passadeira, outra atividade sem qualificação e de baixa remuneração tradicionalmente reservada às mulheres negras. E, nos fins de semana, o quiosque funcionava como uma extensão da casa, para receber amigos para um churrasco e uma cerveja na beira do rio. Lugar de acolhida, de refúgio do calor, de papos descontraídos. Deuá festejava minha chegada com um grande abraço apertado enquanto gritava “minha amiga!”. Amizade e cumplicidade que também sentia como uma honra. Com Deuá aprendi muitas coisas sobre a dor, o sofrimento e a luta das mulheres pobres e negras, o papel de mãe em contextos violentos, o trabalho e a festa. Com os filhos crescidos, Deuá não precisava de muito dinheiro. No quiosque, vendia salgados, sopa preparada em casa por ela, cerveja e refrigerante. Além de passar um café para completar as refeições.

Alheia às muitas atividades organizadas por associações, Organizações Não Governamentais (ONGs) e projetos sociais presentes no território, ela nunca pensou em fazer um curso para aprender a incrementar suas vendas, tampouco nunca se preocupou com a estética do quiosque. Sua atividade comercial pode ser considerada, portanto, à margem do mercado, do imperativo da busca incessante pelo lucro que caracteriza a economia capitalista. Deuá ficou à margem, também, dos muitos projetos que naqueles anos eram presentes nas favelas do Rio de Janeiro como parte dos esforços voltados a “pacificar” esses territórios. Toda uma gama de atividades, parcerias; agentes diversos ofereciam microcrédito, organizavam feiras, incentivavam práticas de economia solidária por meio da criação de uma moeda local e de um banco solidário; ofereciam cursos para “aprender a empreender”, incrementar as vendas, elaborar um plano de negócios. Uma rede sociotécnica composta por agentes estatais, consultores do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), jovens universitários, membros de ONGs e emissários de empresas, que operavam para estabelecer, na favela, outros padrões de consumo, comércio e economia.

Outras mulheres, ao contrário, foram em busca de apoios para incrementar seus ganhos e melhorar sua situação econômica e social, aderindo à oferta de cursos e às oportunidades de crédito oferecidas para montar um negócio próprio – ofertas e oportunidades que aumentaram de forma significativa nos últimos anos. Uma busca que expressa, sem dúvida, uma mudança geracional.

Assim, as mulheres vendedoras passaram de uma condição de extrema invisibilidade a uma, poderíamos dizer, de hipercelebração, centrada nas ideias de “empoderamento” e “potência”. Nesse hiato, temporal e conceitual, se situam transformações importantes do capitalismo, dos modos de produção do valor e das vidas. Modos que convivem, atravessando os tempos históricos e compondo as contradições e os impasses do presente.

Antes de fazer algumas reflexões sobre essa passagem, vamos desenhar os rasgos das práticas econômicas das mulheres negras que, na atualidade, se propõem como símbolo de empoderamento feminino e da visibilidade adquirida pela questão racial.

Rede sociotécnica, cultura empresarial e “empoderamento” de mulheres negras

No chamado centro velho da cidade de São Paulo, próximo à estação Anhangabaú do metrô, na Praça da Bandeira, se localizava o Red Bull Station, autodefinido como um espaço “criativo” para projetos culturais desenvolvidos pela marca Red Bull3. Foi nesse espaço cultural que, entre os dias 7 e 9 de março de 2019, acompanhei um programa de capacitação empreendedora que seria realizado pela Pretahub, uma incubadora e aceleradora de projetos, com sede em São Paulo.

Minha presença se deu a convite de Adriana Barbosa, criadora e coordenadora do Instituto Feira Preta, uma organização social dedicada ao apoio técnico e criativo ao empreendedorismo negro, responsável pela realização do Festival Feira Preta, em São Paulo, desde 2002. Empresária que se tornou uma figura pública no fortalecimento de oportunidades de criação e capacitação de negócios liderados por pessoas negras, Adriana havia se tornado minha principal interlocutora durante a pesquisa de doutorado (Silva, 2017). Se, até aquele momento, meu interesse era compreender como as práticas de empreendedoras negras articulavam cultura, política e mercado, tendo na Feira Preta um importante cenário de fortalecimento de redes locais de trabalho e ativismo (G. Silva, 2018), agora meu campo de observação se estendia às suas articulações profissionais, entremeadas por programas e redes de empresas transnacionais, as quais revelariam relações cada vez mais fluidas e cifradas entre trabalho e engajamento político.

Interessada, portanto, em acompanhar o fortalecimento dessas redes de mulheres negras, fui instigada a conhecer o programa de capacitação empreendedora da Pretahub que seria lançado naquele ano, o qual tinha como público-alvo mulheres negras com idade entre 18 e 45 anos. Intitulado Afrolab para Elas, esta primeira edição tinha como objetivo a formação de 10 mentoras oriundas das capitais dos estados-alvo do projeto. Ao retornarem para seus estados, cada mentora ficaria responsável pela realização de oficinas com grupos de até 60 mulheres.

Um dos principais apoiadores do Afrolab era o Developing Inclusive and Creative Economies (DICE), um programa do British Council4 realizado em cinco países (Brasil, Egito, Indonésia, Paquistão e África do Sul), cujo objetivo era a formulação de projetos de ajuda econômica para o desenvolvimento de “pequenos negócios potenciais”. Além do British Council, o Afrolab Para Elas contou com apoio do Sebrae-SP, da Oi Futuro5, do Fundo Baobá6, além da parceria com a plataforma de financiamento coletivo Benfeitoria. Esse conjunto de parcerias garantiu o pagamento das profissionais envolvidas, enquanto as oficinas foram oferecidas gratuitamente.

As profissionais convidadas a integrar o Afrolab como mentoras eram mulheres negras, com idades que variavam entre 25 e 40 anos. Ainda que em muitos casos fossem as primeiras pessoas em suas famílias a terem acesso ao ensino superior, a maioria delas possuía cursos de especialização ou estava na pós-graduação e, em alguns casos, experiências de formação internacional. Todas se autodefiniam como ativistas, sendo algumas reconhecidas por sua atuação na coordenação de projetos sociais e associações dedicados ao empreendedorismo negro com enfoque nas mulheres. Todas se autoidentificavam como empreendedoras e atuavam como lideranças locais em suas cidades.

Entre 2020 e 2021, acompanhei 4 edições de mentorias oferecidas no modo remoto em distintas regiões do país, as quais eram propostas de maneira muito semelhante, contendo oficinas sobre empoderamento, comunicação/marketing, consultoria de imagem, comercialização e finanças. A primeira temática propunha um debate a respeito das condições socioeconômicas dos empreendedorismos negros no Brasil, trazendo um pouco do contexto das relações raciais, relacionando a experiência colonial ao racismo estrutural e apontando para a Feira Preta como um movimento político de fortalecimento dos negócios da população negra. Já as oficinas seguintes traziam um conteúdo mais técnico a respeito da construção de marcas, produtos, processos de precificação e educação financeira.

No que se refere aos grupos de mulheres, chamava a atenção sua heterogeneidade7. Tratavam-se de mulheres de distintas regiões do país, com idades variadas e em fases profissionais diversas. Professoras que empreendiam nas horas vagas, trabalhadoras que perderam o emprego durante a pandemia, ou profissionais que estavam tentando mudar de atividade. Donas de salões de cabeleireiros, restaurantes de comida caseira, vendedoras de peças de crochê para mães e bebês, produtoras de cosméticos naturais, criadoras de marcas de roupas e bijuterias. Negócios com perfil mais improvisado a marcas já consolidadas. Desigualdades transpareciam também pela tela online: a instabilidade na internet, atribuída por algumas delas à região em que moravam; algumas seguravam seus filhos pequenos no colo, outras falavam em meio a ruídos das televisões ligadas, familiares transitando ao redor e crianças interagindo, enquanto algumas acompanhavam as atividades isoladas em seus espaços de trabalho.

Independentemente das diferenças, existe uma dimensão comum às práticas econômicas de mulheres negras que se apoia em um imaginário histórico sobre as solidariedades femininas e é constantemente reavivada por elas. Desse modo, sustentam uma linguagem positiva do empreendedorismo, permeada de expectativas.

Ao longo das oficinas, compartilharam suas experiências de escolarização e de trabalho, marcadas pela necessidade de contribuir financeiramente em suas casas desde jovens e pelo entendimento da educação como uma chave de acesso a melhores oportunidades; e, também, pela luta contra a discriminação racial cotidiana, pelo racismo institucional vivenciado nos espaços de trabalho e evidenciado por menores salários e oportunidades, ainda que sejam muito qualificadas – o que frequentemente as impede de conquistarem, como diz uma delas, “além do mínimo esperado para uma pessoa negra, como é o sonho da casa própria”.

Na busca por autonomia econômica e reconhecimento, especialmente para as gerações mais novas, o que muitas narrativas elucidam é como o empreendedorismo se revela não um ideal de escolha de carreira, mas, sobretudo, uma rota de fuga de estruturas institucionais, corporativas e acadêmicas. Nesse contexto, as redes comunitárias tornam-se formas de criar espaços onde suas habilidades e perspectivas possam ser valorizadas.

Comércio ambulante, empreendimentos de sucesso ou formas de ganhar a vida?

[...] minha avó era chefe de família, com um salário de empregada doméstica, então quem sustentava a casa era ela. Morava eu, ela, minha bisavó, minha mãe e meus dois irmãos, e quando tinha alguma dificuldade financeira minha bisavó falava: “Adriana, a gente tem que fazer alguma coisa pra ajudar a sua avó. Vamos fazer coxinha”. Fazia coxinha e eu ia vender coxinha na rua. Ou fazia marmitex e eu ia vender marmitex na rua. Até abrir a própria casa pra fazer almoço, sabe. Então essa veia empreendedora veio da minha bisavó. Quando precisava sobreviver, inventava alguma coisa que pudesse dar grana. E eu lembro que ela falava assim, vamos fazer uns cartões, umas faixas. Ela tinha uma veia muito visionária porque não era só fazer as coxinhas e vender, e fazer os marmitex, era do tipo: “vamos fazer uns cartões de visita, deixar nos lugares, fazer uma faixa e colocar na avenida”. E foi com esses materiais de comunicação que a gente ficou conhecido. E era a minha família toda fazendo. Minha avó fazia a comida, minha mãe fechava e eu ia entregar, eu e meus irmãos íamos entregar os marmitex

(Trecho de entrevista com Adriana Barbosa – Silva, 2017, p. 188-189).

O fato de ter muito mais empreendedores negros é porque essas pessoas não encontraram mercado de trabalho. Hoje a gente chama de empreendedorismo o que se chamava de “se-virologia”, porque você tem que se virar. O que a gente vai fazer? Esse é o tal do empreendedorismo, mas é o que a gente faz pra se virar no dia a dia, pra se manter.

(Trecho de entrevista com Adriana Barbosa – Silva, 2017, p. 202-203).

Conforme argumentei (Silva, 2017), o investimento das classes populares, particularmente da população negra jovem, no empreendedorismo tem relação com dois conjuntos de transformações. Por um lado, com as mudanças político-econômicas que atravessaram a virada dos anos 2000, como o aumento da escolaridade e a melhoria da renda média da população, devido às políticas sociais voltadas às classes populares – marcadamente o investimento do governo em políticas culturais e políticas de ação afirmativa para o acesso ao ensino superior. Mudanças sociais que impactaram significativamente tanto os processos de autodeclaração das pessoas negras (pardas e pretas) quanto seus padrões de consumo e suas expectativas para o futuro. Por outro lado, a busca pelo trabalho autônomo também coincide com um movimento de crescente precarização do trabalho formal e aumento do desemprego – cenário que favorece o empreendedorismo e complexifica as relações entre autonomia e precarização, particularmente no contexto de profunda crise econômica que se intensifica com o fim do governo Dilma em 2016.

Não é coincidência que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a Reforma do Ensino Médio Brasileiro, implementada pela Lei n.º 13.415/2017, tenham dado centralidade ao empreendedorismo como uma forma de “preparar” os estudantes para o mercado de trabalho. Conforme analisa Alexandre Pereira (2024), tal reforma não só precariza a formação dos estudantes – ao reduzir as disciplinas fundamentais para produzir condições de entrada no ensino superior, o qual ainda representa um recurso relevante para a construção de repertórios e de projetos de futuro – como naturaliza a individualização do “se virar” em resposta à precarização laboral e à falta de oportunidades no mercado formal.

As falas de Adriana Barbosa colocadas na epígrafe, ao rememorar as experiências das mulheres de sua família que marcaram profundamente o modo como ela se compreende enquanto trabalhadora, enunciam não só o cotidiano de muitas famílias brasileiras, mas também um certo mal-estar com a palavra “empreendedorismo”. Afinal, o que significa pensar a atividade empreendedora, enquanto lógica de precarização do trabalho, para mulheres negras, cujas experiências têm sido historicamente marcadas por processos de subalternidade, precariedade e insegurança social?

Essa é uma pergunta importante de ser feita e que nos ajuda a compreender que características celebradas como centrais para a atividade empreendedora, como capacidade de adaptação, ousadia, flexibilidade de tempo e resiliência, se entrelaçam, muitas vezes, a experiências já familiares para as mulheres negras. Palavras que parecem dialogar de maneiras renovadas e insidiosas ainda mais fortemente com as vidas cotidianas de boa parte da classe trabalhadora brasileira jovem.

Programas e discursos têm contribuído para a normalização do encorajamento ao empreendedorismo pela possibilidade cada vez menor de acesso ao trabalho assalariado e digno. Assim, o foco no trabalho duro individual, no incentivo ao autoaperfeiçoamento e na criatividade desvia da desigualdade estrutural, das contradições, da necessidade de transformações nas estruturas de poder e de oportunidades.

Igualmente, muitas categorias êmicas utilizadas para definir as dificuldades do cotidiano da atividade empreendedora – viração, sevirologia, correria, euquipe – dizem respeito à necessidade de se movimentar, de se virar como pode para trazer dinheiro para casa. O grande desafio, nos parece, tem sido descrever essas economias sem diluir seus valores e saberes nas categorias de empreendedorismo ou informalidade.

Considerações finais

O empreendedorismo ocupa hoje um lugar central no debate sobre os rumos da economia mundial, tendo na igualdade de gênero um dos pilares para a erradicação da pobreza, a produção de condições de trabalho decente e a redução das desigualdades. Com vistas à autonomia financeira das mulheres e ao seu empoderamento, distintas organizações internacionais, como o Banco Mundial e a ONU Mulheres, em diálogo com marcas globais e políticas governamentais, têm investido em programas voltados à promoção do empreendedorismo feminino na expectativa de estimular economias locais, particularmente em países pobres do Sul Global.

Para demonstrar de que modos as metas feministas de igualdade de gênero se subordinam às metas internacionais de desenvolvimento, intelectuais e gestoras públicas feministas têm contestado tanto a eficácia dos projetos e programas de gênero, que não pode ser avaliada apenas pelo número de mulheres alcançadas pelas ações, quanto questionado a própria noção de “desenvolvimento” que sustenta tais políticas, bem como as condições de transformações efetivas nas estruturas de poder e de oportunidades que, de fato, possam impactar a vida das mulheres afetadas por essas iniciativas. Conforme assinala Andrea Cornwall (2007),

nas últimas décadas, investir nas mulheres tem se tornado um bom negócio, uma vez que, ao mesmo tempo que reforçam alguns dos valores mais estimados do feminismo, como poder de decisão e autonomia, os discursos sobre o desenvolvimento voltados às mulheres das classes populares apoiam-se nos estereótipos tradicionais que relacionam as mulheres ao trabalho duro, ao cuidado com a família e com a comunidade.

Nos últimos anos, assistimos no Brasil a um crescimento exponencial de profissionais de todo tipo, entre educadoras de Organizações da Sociedade Civil (OSCs), coaches e youtubers, privilegiando o tema da educação financeira e digital. Este que tem sido, também, o principal enfoque dos cursos de capacitação para empreendedoras que temos acompanhado nos últimos anos, com especial atenção ao Programa Afrolab para Elas – que, nos anos seguintes, incluiu em seu público-alvo mulheres indígenas e pessoas LGBTQIAPN+. Do mesmo modo, permanecemos acompanhando as tantas trabalhadoras que seguem fazendo e vendendo seus quitutes, de maneiras improvisadas, em suas casas e nos seus bairros, sem necessariamente se compreenderem em posições precárias, mas entendendo tais atividades como condição de possibilidade de cuidarem de suas famílias.

Em todo esse campo discursivo do empreendedorismo voltado às mulheres negras, o empoderamento representa uma categoria de grande identificação, entrelaçando movimentos, representações compartilhadas e práticas associadas com narrativas dos feminismos negros recentes, cujos repertórios de ação e estratégias coletivas de representação têm sido marcados pelo esforço de produzir coalização entre mulheres em sua ampla diversidade – motivo que torna o conceito de interseccionalidade crucial para a construção de alianças políticas mais diversas entrelaçando ativismo, mercado e consumo (Facchini; Carmo; Lima, 2020).

Atentando para o fato de que os aspectos relacionados à iniciativa de empreender são sociais, econômicos e políticos, não podendo ser atribuídos apenas a uma necessidade individual, considerar as redes de solidariedade significa tomar a identidade política e os repertórios feministas, manejados não só pelas políticas sociais destinadas a elas, mas também por elas mesmas, à sua maneira, também como um importante capital. Como para Deuá, suas escolhas não são regidas exclusivamente pela racionalidade econômica, mas, também, pela preservação de espaços de convivência, solidariedade, troca de afetos.

Desse modo, as experiências das quituteiras e das empreendedoras não se dão em uma linha de continuidade, por meio da qual a afirmação do empreendedorismo representa alguma forma de progresso em termos de desenvolvimento profissional, ainda que possa significar algum ganho de oportunidades, sobretudo em contextos coletivos como a Feira Preta. Tais mulheres encontram-se em relações de contiguidade, que compõem suas experiências de trabalho, suas lutas, seus afetos e sofrimentos cotidianos em busca por formas mais justas de ganharem a vida.

Agradecimentos

Agradecemos à Maria Carla Corrochano pelo convite para integrarmos o dossiê.

Notas

  • 1
    Evento realizado no dia 17 de agosto de 2019 com o objetivo de “abrir um diálogo entre a Zona Sul e a Zona Leste e promover um encontro entre os diferentes segmentos do Ecossistema de Negócios Sociais endereçado para empreendedoras e empreendedores das periferias da cidade de São Paulo. Teremos a colaboração de fomentadores, empreendedores, investidores e atores relevantes ligados aos Negócios de Impacto Social e de Economia Criativa no Brasil” (Geledés, 2019). O evento, organizado pela empresa A Banca, aconteceu no Galpão ZL, no Jardim Lapena, espaço da Fundação Tide Setúbal. A Banca (produtora sediada no Jardim Ângela, na Zona Sul), a organização Artemísia e o Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas são os principais fomentadores de negócios de impacto social no Brasil (Lab NIP, 2021).
  • 2
    Deuá não era legalmente proprietária do quiosque, mas tinha um título de posse supostamente concedido pela prefeitura por meio da associação de moradores. Por isso, mesmo com muitas críticas que expressava recorrentemente acerca da administração municipal, acabava por dar seu voto ao candidato da situação, porque, como ela dizia, “eles nunca mexeram comigo”, ou seja, a deixavam exercer seu comércio.
  • 3
    Pela internet, descobri que o espaço foi fechado, mas não encontrei informações sobre o motivo.
  • 4
    O British Council Brasil é uma organização internacional britânica, atuante no país desde 1945, dedicada a criar relações culturais e oportunidades educacionais entre o Reino Unido e o Brasil.
  • 5
    O instituto Oi Futuro é uma OSC para impacto social, fundada em 2001, dedicada à realização e ao apoio de ações educacionais, culturais e de inovação.
  • 6
    O Baobá é um fundo para equidade racial criado em 2011, gerido por pessoas negras e destinado ao fortalecimento de lideranças e de organizações negras como forma de combate ao racismo e promoção da equidade racial no Brasil.
  • 7
    Não obstante a heterogeneidade observada durante a pesquisa de campo, não há dados quantitativos disponíveis a respeito do perfil de mulheres que participam das mentorias do Afrolab.
  • Declaração de uso de ferramentas de inteligência artificial
    As autoras declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi usada na preparação, redação, análise de dados ou revisão deste manuscrito.
  • Financiamento
    Não se aplica.
  • Dossiê organizado por:

Disponibilidade de dados de pesquisa

Todos os dados foram disponibilizados no presente artigo.

Referências

  • ABRAMO, H. W. Considerações sobre a tematização social da juventude no Brasil. Revista Brasileira de Educação, n. 5-6, p. 25-36, 1997. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?pid=S1413-24781997000200004&script=sci_abstract. Acesso em: 9 mar. 2026.
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Set 2025
  • Aceito
    30 Jan 2026
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