Open-access O OUTRO LADO DO SONHO EUROPEU NO RETORNO DE UM ESCORT BRASILEIRO1

THE OTHER SIDE OF THE EUROPEAN DREAM IN THE RETURN OF A BRAZILIAN ESCORT

EL OTRO LADO DEL SUEÑO EUROPEO EN EL RETORNO DE UN ESCORT BRASILEÑO

Resumo

O presente artigo se debruça sobre o caso de Matheuzinho, um jovem do interior de Minas Gerais cuja trajetória revela as fraturas do sonho europeu, especialmente ao explorar a frustração, o adoecimento, a precariedade e a continuidade de lógicas transnacionalmente articuladas. O artigo é parte de uma pesquisa maior que explorou as experiências de trabalho sexual de homens brasileiros na Europa, cujo trabalho de campo foi realizado entre 2020 e 2023. Ao analisar as frustrações, o adoecimento e a precariedade enfrentadas por esse interlocutor, problematiza-se o sonho europeu de ascensão social e financeira. O artigo também discute a ressignificação de práticas sexuais transnacionais, como as sex parties com chemsex, adaptadas ao contexto de Ipatinga, Minas Gerais, evidenciando a complexidade das migrações e o impacto do retorno nos contextos de origem. A pesquisa adota uma perspectiva interseccional, considerando raça, classe, gênero e nacionalidade na estruturação das hierarquias nos mercados de sexo. retorno migratório, bem como de possibilidades de agência.

PALAVRAS-CHAVE:
Trabalho sexual; Brasileiro; Retorno; Escort; Sex part


Abstract

This article focuses on the case of Matheuzinho, a young man from the interior of Minas Gerais whose trajectory reveals the fractures of the European dream, especially by exploring the frustration, illness, precariousness, and the continuity of transnationally articulated logics. The article is part of a larger research project that explored the sex work experiences of Brazilian men in Europe, with fieldwork conducted between 2020 and 2023. By analyzing the frustrations, illness, and precariousness faced by this interlocutor, the “European dream” of social and financial ascent is problematized. The article also discusses the re-signification of transnational sexual practices, such as sex parties with chemsex, adapted to the context of Ipatinga, Minas Gerais, highlighting the complexity of migrations and the impact of return in the contexts of origin. The research adopts an intersectional perspective, considering race, class, gender, and nationality in the structuring of hierarchies in sex markets, migratory return, as well as possibilities for agency.

KEYWORDS:
Sex work; Brazilian; Return; Escort; Sex part


Resumen

El presente artículo se centra en el caso de Matheuzinho, un joven del interior de Minas Gerais cuya trayectoria revela las fracturas del sueño europeo, especialmente al explorar la frustración, el deterioro de la salud, la precariedad y la continuidad de lógicas articuladas transnacionalmente. El artículo es parte de una investigación más amplia que exploró las experiencias de trabajo sexual de hombres brasileños en Europa, cuyo trabajo de campo se realizó entre 2020 y 2023. Al analizar las frustraciones, el deterioro de la salud y la precariedad enfrentadas por este interlocutor, se problematiza el “sueño europeo” de ascenso social y financiero. El artículo también discute la resignificación de prácticas sexuales transnacionales, como las sex parties con chemsex, adaptadas al contexto de Ipatinga, Minas Gerais, evidenciando la complejidad de las migraciones y el impacto del retorno en los contextos de origen. La investigación adopta una perspectiva interseccional, considerando raza, clase, género y nacionalidad en la estructuración de las jerarquías en los mercados de sexo, el retorno migratorio, así como las posibilidades de agencia.

PALABRAS CLAVE:
Trabajo sexual; Brasileño; Retorno; Escort; Sex part


1INTRODUÇÃO

Este artigo é parte de uma pesquisa que analisou experiências de trabalho sexual de homens brasileiros na Europa – em especial em Lisboa – e os desdobramentos desses percursos após o retorno ao Brasil. A pesquisa etnográfica multissituada, desenvolvida entre 2020 e 2023, percorreu dez países europeus e cinco estados brasileiros, com foco nas trajetórias de 30 escorts brasileiros. A investigação teve como ponto de partida o sonho europeu compartilhado entre os interlocutores: uma expectativa de mobilidade ascendente e conquista de capital financeiro e simbólico, que culminaria em um retorno ao Brasil sob condições mais favoráveis. O presente artigo se debruça sobre o caso de Matheuzinho, um jovem do interior de Minas Gerais cuja trajetória revela as fraturas desse sonho, especialmente ao explorar a frustração, o adoecimento, a precariedade e a continuidade de lógicas transnacionalmente articuladas.

A experiência de retorno é observada como parte constitutiva do próprio projeto migratório, e não como fracasso ou epílogo. A partir do caso de Matheuzinho, o artigo enfatiza os percalços do percurso migratório, tais como, entre outros, a violência estrutural da xenofobia e da exploração sexual, e os rearranjos de pertencimento e distinção nos lugares de origem.

A produção de dados para a pesquisa maior iniciou-se com uma fase de mapeamento de sites de anúncios, estratégia para o estabelecimento de contato com os escorts em Portugal. A partir de setembro de 2020, dediquei-me a um esforço sistemático de levantamento de plataformas portuguesas e estrangeiras que veiculavam anúncios de trabalho sexual de homens. Foram contatados aproximadamente 300 perfis de homens brasileiros anunciados nessas diversas plataformas, sendo esses contatos a base para as primeiras aproximações com o campo de pesquisa.

A constituição da rede de interlocutores, embora não se configurasse como uma rede no sentido estrito do termo, deu-se a partir de cinco frentes principais: os sites de anúncios, um interlocutor-chave, uma ONG portuguesa, a circulação pela “noite gay de Lisboa” e a minha rede de relações pessoais. O conjunto final de interlocutores foi composto por 38 homens: 30 escorts brasileiros, 4 frequentadores/conhecedores da “noite gay” de Lisboa e 4 clientes de escorts brasileiros.

O aprofundamento do contato com esses homens envolveu a realização de observações em diversas situações, tanto em Lisboa quanto em outras cidades de Portugal, do Brasil e de países europeus por onde eles circulavam. Foram realizadas conversas informais (tanto online quanto offline) e, em momentos distintos do trabalho de campo, entrevistas semiestruturadas gravadas.

A pesquisa, deslocando-se entre Europa e Brasil, entre clubes noturnos e festas sexuais, entre centros urbanos e cidades interioranas, mobilizou observação de situações, entrevistas e convivência cotidiana com o interlocutor. Adota-se uma perspectiva interseccional que não apenas enxerga o trabalho sexual como parte de uma economia sexual global, mas também analisa como os marcadores de raça, classe, gênero e nacionalidade estruturam hierarquias nos mercados do sexo e nas possibilidades de mobilidade.2 O artigo atenta para cidades não autorreferentes, evidenciando como práticas vividas em contextos centrais são apropriadas e reconfiguradas em cidades como Ipatinga e Governador Valadares, no estado de Minas Gerais.

Ipatinga, cidade de Matheuzinho, será tratada no artigo como uma cidade não autorreferente. A estarei pensando como alteridade das cidades autorreferentes. As cidades autorreferentes teriam a capacidade de conectar ideias sobre urbanismo, identidade e imagem urbana. Elas tornam-se símbolos de si mesmas (Lynch, 1960). Elas destacam características que reforçam sua própria identidade, imagem, ou narrativa cultural (Augé, 1995). Assim, quando se desenvolvem, as cidades autorreferentes projetam uma identidade singular, baseada em características próprias, sejam históricas, culturais, sociais ou econômicas (Harvey, 1989). Elas reforçam elementos únicos, como arquitetura, tradições culturais, ou práticas sociais (Lefebvre,1974). Isso atrai investimentos, turistas e eventos. O contexto do retorno, onde Matheuzinho volta a viver, não parece se enquadrar nessas características. Daí pensá-lo como o de uma cidade não autorreferente.

O retorno migratório no âmbito das dinâmicas do trabalho sexual de homens é parte de um campo ainda pouco explorado nos estudos de gênero e sexualidade. A maior parte da literatura nacional, por exemplo, concentra-se na migração de mulheres trabalhadoras sexuais, especialmente cis e trans, para países centrais. O presente artigo, a seu turno, aborda a inserção de Matheuzinho nos mercados sexuais europeus e como ela é atravessada por relações de afeto, violência, exploração e capitalização de corpos eroticamente racializados – o que Ulrike Schaper, Magdalena Beljan, Pascal Eitler, Christopher Ewing e Benno Gammerl (2018) chamam de sexotic.

Além disso, a análise dialoga com estudos sobre o retorno migratório (Sayad, 2000; Castro et al., 2015), mostrando que ele não se dá apenas como fracasso, mas como reinserção estratégica em circuitos morais e simbólicos nos contextos de origem. Retornar à cidade natal, por vezes rejeitando as capitais ou grandes centros urbanos, aparece como uma forma de reconquistar pertencimento em contextos de alta vigilância moral.

O artigo está dividido em duas partes. Na primeira delas, apresento Matheuzinho, bem como os tensionamentos de Matheuzinho nas fronteiras entre exploração sexual, trabalho sexual e tráfico de pessoas, desafiando a naturalização dessas categorias. Em um segundo momento, mostro como a incorporação das festas chemsex em um bairro popular de Ipatinga, como sex parties improvisadas com elementos da cultura europeia e local, pode ser uma chave analítica potente para pensar circulação transnacional de práticas sexuais e usos de substâncias ilícitas reconfigurando sociabilidades e formas de prazer em contextos não autorreferentes. Essa articulação entre circuitos globais e locais pode ajudar a repensar as cidades não autorreferentes e os fluxos de inovação cultural que as atravessam. O caso das sex parties nos bairros populares de Ipatinga pode ilustrar como a Europa, enquanto símbolo de modernidade e sofisticação sexual, é incorporada e ressignificada nos interstícios urbanos do Brasil.

A EUROPA NÃO É PARA TODOS: OS ROLÊS (ERRADOS) DE MATHEUZINHO EM PORTUGAL

No começo de 2021, quando conheci Matheuzinho, ele tinha 24 anos. Ele se considerava pardo, tinha 1,81m, 75kg e corpo definido como magro. Ele possuía ensino médio completo, cursado no Brasil. Sua situação em Portugal, do ponto de vista da documentação, era irregular, mas dizia estar tentando regularizar-se: já entreguei a papelada para a advogada, contou-me certa vez. Matheuzinho chegou a Portugal com a pandemia de Covid-19, em março de 2020. Ele considerava-se gay. Entendia-se como pobre, trabalhador e só se comunicava em português.

Para Matheuzinho deu tudo errado na Europa. Era assim que ele costumava se referir aos anos que passou em Portugal. No projeto migratório há uma série de desafios e de dificuldades enfrentados por todos aqueles que se aventuram nele. O périplo de Matheuzinho rumo a Portugal, não teria sido diferente. É comum aos brasileiros em Portugal, por exemplo, enfrentarem barreiras burocráticas (Oliveira, 2006). Ainda que o processo de regularização documental seja menos complexo para brasileiros, a obtenção do visto, as autorizações de residência, bem como todos os demais documentos ensejam um trâmite demorado e, ainda assim, complexo (Costa, 2006). O “tempo dos documentos” costuma causar frustração e dificulta que o cara fique legal no país. É um medo atrás do outro, dizia Matheuzinho.

As condições socioeconômicas são fatores significativos no âmbito dos processos migratórios. Matheuzinho estava na pior quando emigrou do Brasil. No entanto, o mercado de trabalho em Portugal, conforme lembram João Peixoto e Alexandra Figueiredo (2006), não é exatamente receptivo aos recém-chegados. Se, por um lado, os brasileiros migram na expectativa de melhores oportunidades econômicas, as condições desejadas nem sempre se apresentam. Não são raras as vezes que os recém-chegados devem contentar-se com colocações no subemprego e com postos de trabalho muito abaixo de sua formação e/ou capacidades. Esse foi o caso de Matheuzinho. Viu-se em um mercado de trabalho competitivo, com oportunidades de emprego limitadas e baixos salários.

O interlocutor reclamava constantemente da discriminação e da xenofobia. Aliás, Matheuzinho experimentou uma gama de estereótipos e o encarceramento simbólico associados aos brasileiros (Machado, 2006), o que lhe negava oportunidades de colocação que ele percebia como melhores, para além do trabalho sexual. A discriminação e a xenofobia com imigrantes não é uma particularidade de Portugal em relação aos brasileiros. Essa é uma situação corrente em diversos países do mundo. No entanto, a relação secular entre Portugal e Brasil torna esse processo especialmente violento e, ao mesmo tempo, sutil, estrutural em todos os âmbitos da vida social. Isso impede/dificulta o processo de integração.

Matheuzinho também reclamava constantemente do alto custo de vida em Lisboa frente aos ganhos que tinha. Isso se mostrava complicado especialmente no que diz respeito à habitação. O custo elevado dos aluguéis é uma recorrência nas reflexões sobre o processo migratório na cidade (Frangella, 2013) sobretudo na última década. Ainda que cidades “mais baratas” que muitas outras do continente, Lisboa e Porto observaram uma elevação vertiginosa do custo de vida que pode representar um desafio para os migrantes que buscam estabilidade financeira e melhores condições de vida. Tal impacto é mais relevante, sem dúvidas, nos primeiros momentos, quando ainda se está em processo de adaptação ao novo país e se está, igualmente, refém de oportunidades de trabalho que estão longe de serem as melhores.

O processo de adaptação e integração cultural não deve ser negligenciado. José Carlos Marques e Pedro Góis (2015) contam como ele pode ser custoso para alguns imigrantes, ainda que partilhem a mesma língua (mesmo com variações) e/ou elementos culturais, como é o caso de Portugal e Brasil. Há, pois, a partir dessas “barreiras” desafios no processo de integração cultural. Há todo um estilo de vida que, nos primeiros momentos, é muito difícil de ser incorporado em sua completude, no tempo que as relações sociais exigem. Isso é mais desafiador ainda para pessoas que, como Matheuzinho, foram para a Europa sem qualquer pessoa de seu núcleo familiar e totalmente dependentes de um namorado, ou seja, sem qualquer rede de apoio mais ampliada.

Esses desafios e dificuldades, em alguns casos, levam ao fracasso do processo migratório. Eles marcam essa travessia com frustração e insucesso. No caso de Matheuzinho, tinha tudo para dar errado e deu, repetia ele. Ainda assim, é preciso pontuar que as experiências das pessoas migrantes são diferentes, os contextos são diversos, e os desdobramentos os mais variados possíveis. Dessa forma, nem todas as pessoas que migram passam pelo que meu interlocutor passou. Aliás, a minha pesquisa mais ampla mostrou um pouco essas diferentes faces do processo (Passamani, 2024). Ainda assim, compreender e destacar tais infortúnios parece relevante no sentido de não romantizar as mobilidades transnacionais como processos exitosos em si.

É preciso voltar um pouco no tempo e contextualizar a “vocação migratória” das cidades de Governador Valadares e Ipatinga. Sueli Siqueira (2011) mostra que os processos de migrações internacionais na região de Governador Valadares e Ipatinga tiveram início nos anos de 1960. Incialmente a rota tinha como destino privilegiado os Estados Unidos. Segundo a autora, “17 jovens da cidade, entre 18 a 27 anos, emigraram para aquele país com visto de trabalho. Pertenciam às famílias da elite, falavam inglês e a principal motivação era o desejo de conhecer um país que consideravam desenvolvido e cheio de grandes oportunidades” (2011, p.435). Siqueira classifica esse movimento como aquele que teria desencadeado um fluxo migratório de pessoas da região para o exterior.

A mobilidade dos jovens da elite local foi classificada como bem-sucedida. Os Estados Unidos, como a “terra das oportunidades”, era um elemento que mobilizava sonhos. Formou-se uma rede de informações sobre todos os meandros de um processo migratório que quisesse ser bem-sucedido. O Brasil mergulhava na ditadura militar e em uma crise econômica, portanto, um cenário aterrador. Todos esses elementos criaram o contexto adequado para a constituição de um boom de emigrantes da região, sobretudo nos anos de 1980, quando os países de destino diversificam, colocando Canadá, Portugal, Espanha, Inglaterra e Itália como destinos privilegiados (Siqueira, 2011). Os movimentos empreendidos por Matheuzinho e seu namorado foram capítulos mais recentes dessa história que começara na década de 1960.

Matheuzinho era mais um, entre tantos mineiros do chamado Vale do Aço, que havia ido buscar uma vida melhor na Europa. No entanto, seu script foi diferente. Ele lembra que sua desgraça teria começado quando ele morava em Ipatinga e conheceu um garoto de Governador Valadares. Juntos foram tentar a vida em Belo Horizonte. Na capital mineira descobriram o trabalho sexual nas ruas da cidade. Logo se aventuraram juntos a Vitória e ao Rio de Janeiro. O garoto da cidade vizinha tornou-se namorado e logo começou a almejar voos maiores, como ir para a Europa, algo muito comum nos projetos daqueles citadinos.

A sequência de rolês errados, expressão que Matheuzinho repetia aos borbotões, teria começado antes mesmo da viagem para o país europeu. O interlocutor considerava ter sido traficado pelo namorado, abandonado durante a Covid-19 e explorado por uma família portuguesa. O namorado de Matheuzinho foi o primeiro a viajar para Portugal. Meu interlocutor seguiu trabalhando com sexo entre Belo Horizonte, Vitória e Rio de Janeiro. Não tardou muito, no entanto, e ele rumou para Portugal para encontrar o namorado. Afinal, estava tudo acertado para eu trabalhar nos sites com ele e eu ia morar em uma praça no Porto, me contou Matheuzinho.

Aqui é importante destacar que o grosso do trabalho sexual exercido por homens em Portugal é divulgado e acontece, de fato, na internet. Quando pesquisamos um site de anúncio de garotos de programa, muito popular em Portugal, chamado viphomens.net, havia uma presença massiva de brasileiros se anunciando como trabalhadores sexuais (Alaman, Passamani, 2021). Em alguns casos, como os sites mais populares em Portugal (o nacional viphomens.net e o internacional hunqz.com) mostram que, mais ou menos, 90% dos homens que se anunciam ali são brasileiros. Havia a promessa de meu interlocutor trabalhar a partir de alguns desses sites.

O trabalha nos sites leva ao fazer praça. Entre as pessoas envolvidas com o trabalho sexual em contexto transnacional, a praça é o local onde se desenvolve o trabalho sexual. Normalmente não é um espaço público. Mas como aquela, a praça no trabalho sexual também é um lugar por onde se passa e no qual não se costuma permanecer por muito tempo. Trata-se de uma ressignificação do conceito e refere-se a uma casa ou a um apartamento. O fazer praça, por exemplo, será o ato de deslocar-se de um lugar para outro no intuito de obter mais clientes por ser uma novidade onde se acaba de chegar. Esses trânsitos podem ser dentro do país ou entre países. Portanto, é o ato de viajar de cidade em cidade para trabalhar mais.

No livro Vidas na raia: prostituição feminina em regiões de fronteira (2008), Manuela Ribeiro et. al. dizem que plaza (termo castelhano) refere-se a períodos previamente fixados, na maioria dos clubes espanhóis que recebe mulheres para o trabalho sexual, para uma estadia com duração de 15 dias em média. Essa mobilidade, naquele contexto, era uma forma de camuflar a situação irregular das imigrantes, mas também pode ser uma forma de ter sempre novidade no mercado sexual local. Na linguagem popular, o termo foi generalizado para definir espaço de trabalho sexual temporário.

Matheuzinho trabalhou em sites e fez praça. Mas ele experimentou inúmeros atravessamentos. Ao chegar a Portugal, ele passou a trabalhar para o namorado, que operou como uma espécie de chulo (cafetão), ficando com boa parte dos lucros do trabalho exercido por Matheuzinho. Além disso, a relação que era de parceria no Brasil, ficou cada vez mais abusiva em Portugal, inclusive envolvendo o confisco de sua documentação. No país, o namorado tinha uma rede de relações e meu interlocutor não conhecia ninguém.

Ele repetia que havia sido traficado. O crime de tráfico de pessoas é complexo e multifacetado. Ele pode ser caracterizado a partir de diferentes formas que envolvem recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou recebimento de pessoas. Essa modalidade de tráfico se faz por meio de coerção, engano, abuso de poder e outras estratégias que levam à exploração das pessoas traficadas (Clemente e Varela, 2023; Lowenkron, 2023).

Conforme o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças, o chamado Protocolo de Palermo (2000), em seu Artigo 3º, as Nações Unidas definem o tráfico de pessoas como “o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coerção, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra, para fins de exploração”.

Ainda que haja um esforço de apresentar os distanciamentos existentes entre o trabalho sexual e a exploração sexual, Adriana Piscitelli (2008a), Alexandra Oliveira (2004), Bernardo Coelho (2009), entre outros, mostram como há recorrência de situações que configuram algum tipo de exploração sobre as pessoas que fazem trabalho em determinados contextos. Os chulos, as donas dos pontos, a polícia corrupta, as máfias. Em diferentes situações esses agentes se fazem presentes. Tal presença parece ser muito mais significativa no âmbito do trabalho sexual de mulheres cis e trans.

É preciso, no entanto, desafiar e problematizar as argumentações simplistas que associam automaticamente o trabalho sexual à exploração e ao controle por parte de máfias ou redes criminosas. Sem com isso ignorar a existência e atuação dessas organizações, por vezes mais, por vezes menos estruturadas (Agustín, 2007; Doezema, 2005). No caso que envolveu Matheuzinho a organização parecia mais precária, mas ainda assim traumatizante. A exploração, coerção, controle da atividade, tráfico humano, extorsão, exercício forçado do trabalho sexual e execução desse trabalho em condições precárias são formas utilizadas por máfias e outros grupos criminosos contra as pessoas que são por eles aliciadas (Anderson, Davidson, 2002; Bernstein, 2008).

No caso de Matheuzinho, o contexto de exploração e violência desdobrou-se no fim do namoro, na perda de trabalhos que estavam vinculados a contatos do namorado e na rápida queda dos rendimentos. Assim, ele foi procurar uma família amiga do namorado e passou a viver com eles. Lá também teria havido uma série de abusos e confisco de documentação outra vez, o que fez com que Matheuzinho ficasse na dependência dessa família, que funcionara como um arremedo de uma “máfia familiar”. É bom lembrar que, naquela altura, ele já estava irregular em termos de documentação consular, pois o período do visto de turista já havia vencido.3

O dono da casa em que ele vivia trabalhava na construção civil e levou Matheuzinho para trabalhar com ele. Parte dos valores semanais recebidos já ficava com o dono da casa, restando a Matheuzinho uma parte ínfima. Era nítida, segundo ele, a exploração que vivia. Com a deflagração da pandemia, houve uma queda no setor da construção civil. O homem, dono da casa, ficou sem emprego, Matheuzinho também. O subsídio governamental recebido pela família era insuficiente para as despesas de todos ali. Matheuzinho não era alguém da família e não tinha mais como pagar o aluguel.

Foi assim que ele voltou ao trabalho sexual, ainda que precário e arriscado, durante a pandemia. O trabalho sexual conseguiu garantir-lhe algum dinheiro. Esse dinheiro, outra vez, ia para a família com quem ele morava e que estava de posse de seus documentos. Ele vivia sob a ameaça de ser denunciado às autoridades consulares portuguesas, caso não repassasse, quase integralmente, o dinheiro recebido. Essa situação persistiu até o dia que conseguiu recuperar seus documentos, depois de revirar a casa inteira quando nela ficou sozinho.

O tráfico de pessoas nem sempre se faz para fins de exploração sexual. Pessoas são traficadas para diferentes fins, por exemplo: trabalho forçado, exploração sexual, servidão doméstica, entre outros. Portanto, é preciso diferenciar tráfico de pessoas, exploração sexual e trabalho sexual. Muitas vezes, especialmente entre militância abolicionista e conservadora, tomam-se essas três dimensões, muito diferentes entre si, como uma coisa só, no intuito de confundir a opinião pública e angariar apoio à abolição do trabalho sexual (Piscitelli, 2023; Sacramento, 2022).

Portanto, são diversos os fatores que podem vir a constituir o tráfico de pessoas. Tal diversidade de fatores pode incluir pobreza extrema, conflitos políticos, guerras, vulnerabilidade de gênero, migração forçada, empregos precários, defasagem educacional. Esses temas repetem-se em diferentes contextos nacionais, associados como causas e fatores de risco do tráfico de pessoas (Bales, 2007; Kara, 2010; Gallagher, 2010).

Esses fatores podem resultar em diferentes tipos de exploração, tais como o trabalho forçado no âmbito doméstico, na construção civil, nos mercados sexuais, no ramo têxtil, na agricultura. É importante lembrar que o tráfico de pessoas pode alimentar as máfias da adoção ilegal internacional, da indústria de casamentos forçados e da venda de órgãos humanos. Tudo isso é muito diferente do trabalho sexual, guardando com ele pouca ou nenhuma relação (Shelley, 2010; Goodey, 2004; Parreñas, 2001).

O tráfico impacta profundamente as pessoas tanto física, psicológica quanto socialmente. As vítimas relatam diferentes tipos de traumas, violências, estigmatizações (Padovani, 2023). O mundo de Matheuzinho parecia em desabamento. Ele foi ajudado por associações comunitárias. Iniciou o tratamento contra o vírus hiv e tornou-se indetectável. Dividiu casa com outros três brasileiros na região do Cacém e arrumou um emprego cuidando de idosos em um lar.4 Dividia-se entre o trabalho no lar e o trabalho sexual. Ele precisava pagar contas no Brasil, que estavam mais que vencidas, mas que ele não tinha qualquer condição de quitar. Seu empenho era para pagar as contas e conseguir comprar uma passagem de volta para Minas Gerais. Já eram quase três anos de agruras em Portugal e ele estava exausto. Queria voltar pra casa e esquecer tudo o que havia vivido ali.

A REINVENÇÃO DA EUROPA NA PERIFERIA DE IPATINGA: ENTRE MAURICINHOS E VILEIROS

Em maio de 2022 ele conseguiu reunir dinheiro para voltar ao Brasil. As contas no Brasil ainda não estavam totalmente pagas, mas ele pensava que estando no país poderia fazê-lo à medida que conseguisse trabalho. A prioridade era voltar. Voltou sem o namorado, voltou com hiv, voltou sem dinheiro, voltou com o sonho europeu completamente frustrado. Voltei com uma mão na frente e a outra atrás, mas voltei vivo. O que interessa é que eu voltei. A grande vitória de Matheuzinho foi conseguir voltar. Voltou para a casa dos pais. Boa parte dos perrengues sofridos foram suprimidos nas histórias contadas aos amigos, familiares e conhecidos. Ele tentava dourar um tempo completamente nebuloso.

Depois da Europa, nosso reencontro seria em Ipatinga e Governador Valadares, quando eu faria o trabalho de campo com ele, como parte de minha pesquisa com alguns interlocutores retornados ao Brasil. No entanto, eu fui infectado por Covid-19 em dezembro de 2022. Precisei ficar em isolamento em Belo Horizonte. Matheuzinho foi ao meu encontro na capital mineira. Depois de mais de dois anos de pandemia, lá estávamos nós com máscaras, luvas, distanciamento, janelas abertas, nos reencontrando em um quarto de um velho hotel do centro da cidade. Dias depois, ao chegar a Ipatinga, recuperado da Covid, contatei Matheuzinho.

Quando estivemos juntos em Belo Horizonte, eu já notara que ele estava bem magro, parecia doente e triste. Além de ser cuidador de idosos, de fazer programas em condições precárias, ele me contou que voltou a usar substâncias e, para equilibrar as contas, também passou a se envolver em alguns corres. Havia, portanto, uma semelhança de situações em relação ao tempo que ele vivera em Portugal. O contexto era muito diferente, mas os lugares ocupados por ele eram sensivelmente parecidos.

Ainda que houvesse qualquer coisa de tristeza, uma magreza excessiva, também havia safadeza, afinal, se não houvesse safadeza não seria Matheuzinho: sábado tem um churrasquinho lá no bairro. Você vai gostar. Esse foi um dos primeiros temas de nossa conversa. A festa com os amigos seria no estilo das sex party de Lisboa.

No âmbito da pesquisa, sex party é mais que um encontro para fins sexuais, configurando-se como um acontecimento sociocultural, em que a sociabilidade entre as pessoas presentes está cercada de regras, códigos e dinâmicas próprias. Fundamentalmente, ela opera como uma cena (Braga, 2018), um espaço-tempo em que se intensificam e se negociam identidades, desejos e relações de poder.

Este fenômeno não pode ser reduzido a uma simples expressão de hedonismo; ele é, antes, um campo de performance onde os participantes – escorts, clientes e outros convidados – agenciam suas subjetividades. A festa torna-se um palco para a articulação de masculinidades, a exploração de fantasias e a gestão de riscos, tanto físicos (ISTs) quanto sociais (estigma, exposição). A dinâmica interna é fluida: a festa pode começar como um encontro social, evoluir para uma experiência sexual coletiva. A organização desses eventos, seja na casa de um cliente ou em locais clandestinos, revela uma rede de contatos e uma economia informal que envolve não apenas a troca de sexo por dinheiro, a construção de confiança e a criação de hierarquias temporárias, demonstrando que a sex party é um microcosmo onde se refletem e se refratam tensões mais amplas da vida social dos sujeitos envolvidos.

A sex party pode ser compreendida como uma heterotopia, nos termos de Michel Foucault (2008), um “outro lugar” que funciona sob regras distintas do mundo exterior, permitindo a suspensão temporária de normas sociais e a exploração de práticas e identidades marginais. A festa funciona, portanto, como um dispositivo biopolítico (Foucault, 2009) em microescala, onde os corpos são simultaneamente objeto de prazer e de controle, a partir da gestão das sensações e da performance. A distinção entre trabalho, vício e lazer torna-se porosa, e as relações de poder são constantemente renegociadas: o cliente que paga pode se tornar vulnerável, e o escort que vende seu corpo pode assumir o controle da cena. Assim, a sex party emerge não como um evento monolítico, mas como um fenômeno multifacetado que articula desejo, economia, poder e subjetividade de maneiras profundamente complexas e contextuais. Por ter uma longa duração, especialmente em contexto de escassez de clientes, como no caso da pandemia, durante uma sex party organizada por um cliente se faz muito dinheiro, afinal o trabalho segue sendo contato em horas. Muitas horas, muito dinheiro. Há, no entanto, sex party apenas com garotos de programa, ou com garotos de programas e outras pessoas que não são clientes.

Matheuzinho me disse que na festa de Ipatinga estaria um garoto que eu conheci em Portugal, mas que já voltara há um tempo. Era o Guga. Eu conhecia o Guga, mas tive pouco contato com ele. Quando estávamos na festa, o Guga me parecia mais bem sucedido que Matheuzinho. Ele chegou à festa de carro e diz trabalhar como personal trainer em uma academia da cidade.

A festa foi realizada em uma casa modesta, em um bairro popular de Ipatinga, onde Matheuzinho teria passado a residir com amigos. Quando cheguei à casa, nada me remetia às festas de Lisboa. A casa era bastante simples, com móveis usados e castigados pelos anos de uso. As paredes que tinham reboco ostentavam uma pintura igualmente desgastada. Outras paredes sequer eram rebocadas e via-se tijolos e cimento. Não havia forro no teto, via-se as folhas de zinco, que deixavam a casa ainda mais quente. No quintal, chão batido e uma piscina de plástico já lotada com apenas quatro homens. Pensei que a proposta fosse algo como uma “poor sex party”, afinal era um contexto pobre, bastante diferente daquele das festas na Europa, mas ainda assim tentando recompor aquele lugar.

Percebi uma movimentação nada discreta de algumas substâncias e muito bebida. Certamente haveria chemsex. Havia algo bem diferente em relação às festas na Europa: tocava samba. A trilha sonora – para além das instalações da festa – não guardava qualquer semelhança com as sex party de Lisboa, que, não raro, eram animadas por música pop ou eletrônica. Tinha carne assada circulando em algumas bandejas plásticas, outra diferença em relação ‘as festas que participei na Europa, já que as comidas por lá, ficavam completamente esquecidas em função da sex party ser efetivamente uma chemsex.

O chemsex, conforme Passamani (2024) é uma prática que consiste na combinação intencional de sexo com o uso de substâncias psicoativas específicas, os chems. Longe de ser apenas um encontro casual, ele é organizado frequentemente por aplicativos e redes de contato. As substâncias centrais dessa prática, como a metanfetamina (Tina), o GHB (G) e a mefedrona (bloom), não são meros acessórios, mas agentes que modulam a experiência, prometendo intensificar o prazer, aumentar a desinibição, a resistência e a conexão entre os participantes. Essa busca por um sexo turbinado, como dizia Matheuzinho, e por novas formas de sociabilidade ocorre em eventos que podem variar de sex party em grupo a encontros mais íntimos.

A dinâmica do chemsex revela uma profunda ambivalência, oscilando entre a busca por prazer e a gestão de múltiplos riscos. Se por um lado a prática oferece um espaço para a exploração de fantasias, a libertação de ansiedades e a construção de uma intimidade farmacologicamente mediada, por outro, ela expõe os sujeitos a efeitos secundários severos. Estes incluem desde a exaustão física e emocional (“ressaca”), o risco de overdoses (especialmente com GHB), a maior vulnerabilidade a ISTs devido à prática de sexo sem preservativo, e a possibilidade de situações de abuso ou violência em um contexto de consentimento fragilizado. A cena opera em uma tensão constante entre euforia e perigo, onde a intencionalidade de usar substâncias para aprimorar o sexo é o elemento que a define, diferenciando-a de outras interações onde sexo e drogas podem coexistir de forma menos deliberada (Passamani, 2024).

Com o avançar da noite, chegaram outros homens e o samba ficava cada vez mais animado. A sex party contava com 15 homens. Eu vi pessoas com maconha, cocaína, poppers e Tina. Não entendia como determinadas substâncias estavam naquele contexto, afinal elas estavam muito mais associadas a outros círculos. Foi então que, ao conversar com Guga, ele me disse que alguns convidados eram mauricinhos da cidade, que eles conheciam da balada e gostavam daquela patifaria com vileiros.

Os vileiros, no contexto local, eram sujeitos sexotizados pelos mauricinhos do centro da cidade. Tal como acontecia no contexto europeu com os brasileiros, a partir de seus clientes. É dessa forma que me parece salutar dialogar, a partir do que Ulrike Schaper, Magdalena Beljan, Pascal Eitler, Christopher Ewing e Benno Gammerl (2018), nomeiam como de sexotic. Há, em minha percepção uma intersecção entre sexualização e exotização.

Segundo os autores, a dimensão da exotização acaba por basear-se em questões atinentes à dimensão sexual da vida de determinadas pessoas. Nesse sentido, a sexualização torna essas pessoas exotizadas, atraentes e desejáveis. A intersecção entre esses processos, que são independentes, mas aqui lidos como interdependentes, constituem o que os autores chamam de fetiche sexual. Se em algum momento, ele pode ser percebido clinicamente como uma perversão ou uma parafilia, no texto em tela não é esse o caso. Ali afere-se o sentido de fantasia sexual, estimulação do desejo, excitação sexual. No caso trazido pelos autores, a interpretação apresentada pode ser por pessoas de uma determinada cor, de um determinado lugar, com um determinado jeito, no caso da festa que eu participava em Ipatinga, os vileiros.

É interessante como o sexotic conjuga relações polivalentes entre lugares, pessoas, objetos e práticas no sentido de produzir fascinação e desejo sem perder, pelo contrário, mantendo a marca da diferença. Diferença esta que, inclusive, pode ser expressa por medo e perigo, pois também estimulantes do fascínio e do desejo. Penso que o sexotic explica didaticamente os lugares ocupados pelos vileiros ali na patifaria da periferia de Ipatinga.

Ocorre que nessa relação entre homens – homens mauricinhos e homens vileiros - ganha luz uma série de diferenças. Afinal, nem todos os vileiros constituem-se a partir de todos os estereótipos associados ao sexotic, ainda que muitos consigam neles se enquadrar com diferentes graus de engenhosidade. Portanto, um “jeito de vileiro” sexotic, mais que um dado objetivo da natureza, é uma marca (quase sempre) atribuída, ela mesma construída por meio da permanência dos estereótipos.

Ainda com base em Schaper, Beljan, Eitler, Ewing e Gammerl (2018), se a constituição do sexotic é um rótulo, em minha investigação, esse “jeito de vileiro” poderia dizer respeito a um script e a uma estética associados a esses homens. As categorias que articulam o sexotic podem ser as mais variadas como ponto de partida para a sexotização. Há diversas possibilidades de desdobramento. A violência, a discriminação, a idealização, a fascinação são algumas delas. Afinal, a sexotização cria uma imagem positiva de si e marca o outro como diferente ou, no limite, como inferior.

A relação com o outro sexotizado é ambígua. Há desejo. Mas há repulsa. Quando eu investiguei os brasileiros eu Portugal, eu percebi que para além de tudo isso, também era sintomático que havia desejo e, na mesma chave, uma xenofobia persistente. É possível pensar também, por exemplo, que há uma hiperssexualização dos corpos negros, ao mesmo tempo que há um imenso racismo. Eu penso que os vileiros, essas “pessoas diferentes”, conseguem explorar a potência do desejo e da fascinação em detrimento da potencial repulsa e discriminação naquele contexto controlado da “poor sex party”.

Esses vileiros eram os homens do bairro que chegaram mais tarde: muito masculinos, negros e parecendo mavambos5. Aqueles que Matheuzinho me disse serem seus amigos de infância. Eles não são gays, mas comem gays. Os homens que não são gays, mas comem gays, uma livre referência a homens que fazem sexo com outros homens, mas não assumem e/ou não reivindicam uma orientação sexual dissidente da norma, chamavam a atenção pela beleza do conjunto todo, mas em específico pelo corpo torneado e pela altura (tinham mais de 1,80m certamente). Eles eram cinco e tinham entre 20 e 30 anos, simpáticos com todo mundo. Quando os vi em ação do âmbito da festa, foi algo surpreendente e de uma potência cênica singular. Aqueles homens eram o perfil que os clientes de escorts na Europa facilmente identificam como os “típicos brasileiros”, que eu tanto ouvi em campo, a partir de um olhar sexotic. Entre os meus interlocutores de pesquisa, que eram escorts em Lisboa, alguns inseriam-se exatamente naquele perfil.

Na altura daquela pesquisa, eu percebi uma idealização dos homens brasileiros que faziam trabalho sexual, o que corresponderia a dimensões legitimadas e sexotizadas no campo das masculinidades. Tais dimensões são completamente instáveis, construídas e reconstruídas nas flutuações dos mercados do sexo. Mas, antes disso, há uma idealização do ser brasileiro. Há uma idealização do Brasil como país tropical, do calor, das praias, das poucas roupas, da exuberância e do cuidado com o corpo, do corpo bronzeado, moreno, “da cor do pecado”, das danças sensualizadas, de um jeito menos preocupado em relação ao futuro ou mais desencanado em termos de problemas cotidianos. Segundo Deborah Cameron e Don Kulick (2003), esses códigos de significação subjazem (possibilitam ou restringem) determinadas performances. A medida que são repetidos ad eternum naturalizam tais características como próprias de determinados sujeitos e lugares, no caso em análise, dos vileiros.

Naquele momento eu chamei as masculinidades brasileiras legítimas no trabalho sexual de masculinidades sexotizadas. Se essas masculinidades brasileiras carregavam elementos performativos, porque resultantes de uma estilística repetida no corpo sem um original (Butler, 2015), parece-me, no entanto, que há sim uma associação imediata, inteligível, quando se falava em garoto de programa brasileiro. Haveria alguns elementos fundamentais para que ele fosse lido como brasileiro e assim conseguisse ter condições para negociar um lugar melhor no mercado e, para além disso, melhores condições de lucrar nessa negociação empreendida.

Essas masculinidades brasileiras legítimas e sexotizadas fugiriam aos paradoxos “brasileiro bruto”, por um lado, ou “brasileiro sensível e refinado”. As masculinidades brasileiras legítimas e sexotizadas consistiriam em um escort que sabia falar diferentes línguas e sabia conversar sobre diferentes assuntos, o que configuraria certa erudição. Isso articulado com uma safadeza e malandragem (o jeito) em um corpo magro/definido, bem-dotado e moreno. Do ponto de vista da performatividade, esse seria o original. No entanto, como mostra Butler, “o original nada mais é do que uma paródia da ideia do natural e do original” (2003, p. 57), ou seja, “uma imitação persistente que passa como real” (Idem, p. 8).

Um interlocutor de pesquisa me dizia que esse aí é o topo da cadeia alimentar, esse faz o que quiser, ele tem o cliente que quiser, ele cobra quanto quiser. Tem cliente pra ele sempre. Cliente fixo. Esse tem carreira internacional bombando. Mas esse aí é raridade. Quando aparece, todos caem em cima. Portanto, esse seria entre as masculinidades brasileiras legítimas e sexotizadas, o arquétipo. Atendendo a estes requisitos, pode-se dizer que o moreno – safado – bem-dotado – corpo padrão – discreto – bilíngue/poliglota/culto seria o sujeito com a maior possibilidade de obter uma clientela fixa, qualificada e com status social elevado. Para esse sujeito, segundo meus contatos em campo, não faltaria trabalho e trabalho bom.

No caso da minha pesquisa com garotos de programa, que ilumina minha observação da festa na periferia de Ipatinga, era preciso saber dosar as performances da cama com as performances fora da cama, onde geralmente se conseguia mais dinheiro. Era preciso ser safado, explorar os músculos demoradamente criados em sessões de academia e ciclos de anabolizantes. Era preciso usar o pênis, que orgulhosamente confere a alguns a fama do brasileiro pauzudo. Mas o sexo era só uma parte do trabalho sexual. Muitos clientes buscavam escorts justamente porque a “carta de serviços” dos escorts seria mais variada. Essa carta variada – que sim, poderia acabar em uma noite de sexo com o malandro brasileiro – que os clientes pareciam buscar de forma mais recorrente. O malandro brasileiro estava ali, mas ele não queima a largada, ele é a cereja do bolo, no bom da festa, ele aparece, me comentava outro interlocutor. Um sexo safado e malandro garantiria cliente. Mas uma bela conversa acrescida a um sexo safado e malandro, uma performance social que surpreendia o cliente com um sexo bem ao estilo do estereótipo sexotic poderia contribuir para que esse cliente começasse a se fidelizar ao escort brasileiro.

Parte desse imaginário sobre as masculinidades brasileiras se aplica ao caso dos vileiros. Eu diria que a dimensão mais intelectualizada e cosmopolita é que não me parecia buscada naquele contexto. Todo o restante, sim. Essa percepção pode ser parte de um processo, ainda, cristalizado a partir da experiência colonial (Quijano,1992). O desejo sexotic, na e pela diferença, faz todo o sentido aí. A memória colonial parece renascer nas relações cotidianas. É preciso marcar claramente as diferentes posições ocupadas por uns e outros. É preciso hierarquizar os processos. As permanências são ressignificadas e os vileiros conseguem ter mais controle sobre os processos em relação aos mauricinhos e agenciar o “negócio do desejo”, ainda que sob um imaginário de permanências coloniais, a partir de outras bases.

Os vileiros encarnam personagens. Produzem paródias, isto é, “imitações que deslocam efetivamente o significado do original, imitam o próprio mito da originalidade” (Butler, 2015, p.238). O que cimenta isso é a maior ou menor aproximação aos atos performativos que tornam legítimas, porque sexotizadas, essas masculinidades. A malandragem, a safadeza, o axé, o borogodó, o tempero seriam essa qualquer coisa a mais que encantaria os mauricinhos e que só eles teriam.

Seria produtivo refletir sobre a brasilidade como performance racializada e erotizada, vinculando-a à colonialidade e às expectativas estrangeiras sobre o corpo brasileiro. Esse ponto poderia enriquecer a discussão sobre permanências coloniais e exotização do desejo, sendo pertinente considerar textos de Adriana Piscitelli para fundamentar esta análise.

O que eu chamei de “poor sex party”, dado o contexto socioeconômico mais frágil, foi surpreendente pois Ipatinga me pareceu uma cidade bem pacata. Guga e Matheuzinho me disseram que aquele evento tinha sido introduzido na rede de relações deles por eles. Eles tentavam reproduzir as sex party e chemsex da Europa ali no contexto local. Inclusive, um dos mauricinhos do centro está organizando um evento nos mesmos moldes em um bairro de classe média da cidade e outro em Governador Valadares. Há entre o mauricinho, Guga e Matheuzinho uma parceria na promoção dos dois eventos. Matheuzinho quer ganhar dinheiro profissionalizando esse tipo de evento. A parceria com o mauricinho do centro da cidade é fundamental para a efetivação do negócio, pois ele entraria com o maior montante do capital. Guga e Matheuzinho fariam os corres e levariam os vileiros para a patifaria gostosa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A trajetória de Matheuzinho ilustra a dimensão de venturas e desventuras da busca pela realização de um sonho europeu, revelando como o cenário de infortúnios, embora construído na Europa, se manifesta em seu retorno ao Brasil. Sua situação de precariedade e vulnerabilidade socioeconômica em Ipatinga, apesar das “fagulhas de possibilidades”, contrasta acentuadamente com a expectativa inicial do sonho europeu.

Essa experiência de retorno não deve ser interpretada como um fracasso isolado, mas como um desdobramento intrínseco do projeto migratório. A solidão, a xenofobia e as explorações sofridas por Matheuzinho em Portugal são elementos que moldam sua percepção de que a Europa não é nada disso que falam por aí, transformando o sonho europeu em um pesadelo rapidinho. Isso nos dá pistas de como as relações de poder e as dinâmicas transnacionais de exploração se perpetuam, mesmo após o retorno, reconfigurando as relações sociais e econômicas no contexto de origem.

Ao longo do texto, ao esmiuçar a trajetória de Matheuzinho, tentei deixar claro como o trabalho sexual não deveria ser desassociado de uma economia, ou talvez de múltiplas economias. A inserção dessa atividade na vasta gama das economias sexuais, como proposto por Laura Agustín (2005), sugere que ela constitui um segmento de uma indústria mais ampla. Contudo, é fundamental ir além da categorização industrial para explorar a complexidade moral que o envolve.

Em vez de ser um paradoxo moral dicotômico, o trabalho sexual se insere em um gradiente moral multifacetado, permeado por contradições, camadas e sensibilidades diversas. A manutenção da ordem moral, paradoxalmente, parece ser constituída também pelo trabalho sexual, evidenciando uma interdependência entre moralidade e economia. A experiência de Matheuzinho, ao transitar entre a exploração, o adoecimento e a busca por autonomia, sublinha a fluidez dessas fronteiras e todas as ambiguidades inerentes a essa prática.

O conceito de sexotic (Schaper et al., 2018) aplicado à dinâmica das “poor sex parties” em Ipatinga escancara a intersecção entre sexualização e exotização, que se manifesta na relação entre mauricinhos e vileiros, revelando como estereótipos e fantasias sexuais são construídos e reconfigurados em contextos locais. A ideia de que o jeito de vileiro é uma marca atribuída, e não um dado objetivo, reforça a natureza performática e construída dessas identidades.

As “poor sex parties” não são meras reproduções das festas europeias, mas sim reconfigurações que incorporam elementos da cultura local, como o samba e a carne assada, ao mesmo tempo em que mantêm a presença de substâncias associadas ao chemsex. Essa hibridização cultural e sexual aponta para a agência dos sujeitos locais em ressignificar práticas globais. A profissionalização desses eventos, com a parceria entre Matheuzinho, Guga e o mauricinho do centro, sugere uma nova dinâmica de empreendedorismo sexual que desafia as noções tradicionais de exploração e trabalho. O sexotic no contexto brasileiro não apenas reflete permanências coloniais, mas também abre espaço para novas formas de controle e agenciamento do negócio do desejo, onde os vileiros exercem um controle maior sobre os processos, ainda que sob um imaginário de permanências coloniais, a partir de outras bases.

A trajetória de Matheuzinho e as festas de sexo em Ipatinga oferecem insights para a compreensão das migrações, do trabalho sexual e das dinâmicas de gênero e sexualidade no Brasil e em contextos transnacionais. Sobretudo destacando abordagens interseccionais que consideram raça, classe, gênero e nacionalidade na análise das hierarquias e possibilidades de mobilidade.

É crucial enfatizar a necessidade de desromantizar as mobilidades transnacionais e de reconhecer as vulnerabilidades e explorações que podem acompanhá-las. Ao mesmo tempo, não se pode perder de vista uma reflexão sobre a agência dos sujeitos ao reconfigurar suas realidades, mesmo em condições adversas. Parece fundamental que futuras pesquisas aprofundem a análise das redes de apoio e resistência, e explorem as políticas públicas e intervenções sociais que possam mitigar os riscos e promover a dignidade de pessoas envolvidas em contextos de trabalho sexual e migração.

Em última análise, a narrativa de Matheuzinho e as dinâmicas reveladas nas “poor sex parties” de Ipatinga podem sinalizar mais que algo particular a um estudo caso, elas podem funcionar como lentes privilegiadas por quais se refratam as complexas intersecções entre globalização, precariedade, sexualidade e agência. Longe de qualquer binarismo simplista entre sucesso e fracasso, ou entre exploração e autonomia, emerge um tecido social onde as fronteiras são fluidas e as identidades, performáticas.

Por fim, entendo que ao desvelar as camadas de um sonho europeu que se transmuta em pesadelo e de uma economia moral que transcende a mera transação financeira, há a possibilidade de uma reavaliação crítica das narrativas dominantes sobre migração e trabalho sexual. A ressignificação do sexotic em contextos periféricos, a persistência de imaginários coloniais e a emergência de novas formas de empreendedorismo sexual, mesmo sob condições adversas, sublinham a resiliência e a capacidade de reinvenção dos sujeitos. Assim, o que se revela não é apenas a fragilidade de um ideal, mas a potência disruptiva de experiências que, em sua singularidade, desconstroem verdades estabelecidas e pavimentam caminhos para compreensões mais nuançadas das complexidades humanas no século XXI.

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  • 2
    Os olhares sobre a interseccionalidade são variados. A perspectiva aqui adotada, no âmbito do trabalho sexual, está para além de uma soma de categorias de opressão, posicionando-se como uma abordagem construcionista que se distingue de uma análise sistêmica. A análise sistêmica (Crenshaw, 1991; Akotirene, 2019), quando deslocada para pensar o trabalho sexual tenderia a focar nas estruturas macroeconômicas e políticas que criariam as condições de vulnerabilidade e exploração no trabalho sexual, por exemplo. Embora fundamental para identificar as raízes da desigualdade, essa visão corre o risco de reduzir as pessoas que fazem trabalho sexual a meros produtos dessas forças, negligenciando a agência e a subjetividade dos sujeitos. A abordagem construcionista da interseccionalidade, por outro lado, entende que as categorias de identidade e as relações de poder são produzidos, negociadas e performadas ativamente no cotidiano e em contextos específicos (Piscitelli, 2008; Brah, 2006; McClintock, 2010). A perspectiva interseccional construcionista não vê a raça, a classe e o gênero, por exemplo, apenas como sistemas que oprimem, mas como eixos de poder que são construídos e ativados nas interações sociais, definindo quem tem acesso a quais recursos, quem é considerado vulnerável e quem pode exercer agência dentro do mercado de sexo. No caso aqui estudado, ela permite analisar as fraturas do sonho europeu não apenas como falhas do sistema migratório, mas como a produção de novas formas de subjetivação e, quem sabe, potência do sujeito.
  • 3
    Sobre brasileiros indocumentados em Portugal, ver Sergio Oliveira (2006).
  • 4
    Sobre os brasileiros vivendo na região do Cacém, na grande Lisboa, ver Paula Togni (2019).
  • 5
    “[...] mavambo evidencia um estereótipo empregado para definir perfis estéticos, comportamentais e corporais de homens jovens das classes populares e destacar neles um conteúdo sexual e erótico. [...] No léxico do pajubá [...] sinônimo de ‘marginal’, ‘bofe com pinta de ladrão’ e ‘traficante’. [...] o termo mavambo ocupa um espaço no imaginário popular, sobretudo quando o termo serve para classificar sujeitos a partir de sua idade, estética, performance de gênero, raça e classe social (Moreira, 2023, p.189-190).
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor Guilherme R. Passamani.
  • 1
    Artigo financiado pela Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq (2025-2028), processo 303854/2024-3
  • Editor Chefe:
    Renato Francisquini Teixeira

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor Guilherme R. Passamani.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    17 Set 2025
  • Aceito
    12 Nov 2025
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