Open-access Entre habitus e dépaysement: uma perspectiva decolonial sobre a favela carioca da Catacumba

Resumo

Este artigo explora a aplicação dos conceitos de habitus e dépaysement de Bourdieu na Favela da Catacumba, no Rio de Janeiro, Brasil, com base nas pesquisas de Janice Perlman. Ele examina também a influência de várias estratégias - como estereotipagem, mitificação, cooptação, erradicação, desencantamento e coerção - nas estruturas tradicionais de moradia, agregação social e socialização dentro da favela. Além disso, o estudo amplia seu foco para extrair lições e insights potenciais dessas dinâmicas observadas, especialmente para populações marginalizadas que vivem na periferia global. Em resumo, o estudo revisita a pesquisa seminal de Perlman sobre favelas, por meio da estrutura teórica de Bourdieu, para descobrir as raízes históricas das dinâmicas sociais atuais e sua relevância para a compreensão de práticas decoloniais em contextos urbanos contemporâneos. Os resultados oferecem contribuições valiosas para a compreensão dos impactos disruptivos das estruturas sociais e enfatizam a importância de abordar essas questões tanto em estratégias organizacionais quanto em políticas públicas. Ao revisitar a experiência da Catacumba, o estudo também lança luz sobre o desenvolvimento de líderes locais e a mobilização de formas distintas de capital dentro dessas comunidades marginalizadas. Além disso, faz uma contribuição significativa para os estudos decoloniais ao examinar processos de colonização históricos e contemporâneos e formas de resistência nas de comunidades marginalizadas. Ao expor e desafiar os legados coloniais duradouros que continuam a moldar a vida das populações marginalizadas, oferece insights sobre como essas comunidades resistem e navegam por tais legados, contribuindo para o discurso mais amplo sobre decolonização e rejeição das estruturas coloniais.

Palavras-chave:
Estudos decoloniais; Agência; Liderança comunitária; Favela

Abstract

This article explores the application of Bourdieu’s concepts of habitus and dépaysement within the Catacumba favela in Rio de Janeiro, Brazil, drawing insights from Janice Perlman’s research. It examines the influence of various strategies - such as stereotyping, mythification, cooptation, uprooting, disenchantment, and coercion - on the traditional structures of housing, social aggregation, and socialization within the favela. Moreover, the study extends its focus to extract potential lessons and insights from these observed dynamics, particularly for marginalized populations living in the global periphery. Briefly, the study revisits Perlman’s seminal research on favelas through Bourdieu’s theoretical framework to uncover the historical roots of current social dynamics and their relevance for understanding decolonial practices in contemporary urban contexts. The findings offer valuable contributions to understanding the disruptive impacts of social structures and emphasize the importance of addressing these issues in both organizational strategies and public policies. By revisiting the Catacumba experience, the study also sheds light on the development of local leaders and the mobilization of distinctive forms of capital within these marginalized communities. Furthermore, it makes a significant contribution to decolonial studies by examining historical and contemporary colonization processes and forms of resistance within marginalized communities. By exposing and challenging the enduring colonial legacies that continue to shape the lives of marginalized populations, it offers insights into how these communities resist and navigate such legacies, contributing to the broader discourse on decolonization and the rejection of colonial structures.

Keywords:
Decolonizing Studies; Agency; Community Leadership; Favela

Resumen

Este artículo explora la aplicación de los conceptos de habitus y dépaysement de Bourdieu en la favela de Catacumba, en Río de Janeiro, Brasil, basándose en las investigaciones de Janice Perlman. Asimismo, examina la influencia de varias estrategias ‒ como la estereotipación, mitificación, cooptación, erradicación, desencanto y coerción ‒ en las estructuras tradicionales de vivienda, agregación social y socialización dentro de la favela. Además, el estudio amplía su enfoque para extraer lecciones e insights potenciales de estas dinámicas observadas, especialmente para poblaciones marginadas que viven en la periferia global. En resumen, el estudio revisita la investigación seminal de Perlman sobre favelas a través del marco teórico de Bourdieu para descubrir las raíces históricas de las dinámicas sociales actuales y su relevancia para comprender las prácticas decoloniales en contextos urbanos contemporáneos. Los hallazgos ofrecen contribuciones valiosas para entender los impactos disruptivos de las estructuras sociales y enfatizan la importancia de abordar estos problemas tanto en estrategias organizacionales como en políticas públicas. Al revisitar la experiencia de Catacumba, el estudio también arroja luz sobre el desarrollo de líderes locales y la movilización de formas distintivas de capital dentro de estas comunidades marginadas. Además, hace una contribución significativa a los estudios decoloniales al examinar procesos de colonización históricos y contemporáneos y formas de resistencia dentro de comunidades marginadas. Al exponer y desafiar los legados coloniales duraderos que continúan moldeando la vida de las poblaciones marginadas, ofrece insights sobre cómo estas comunidades resisten y navegan por tales legados, contribuyendo al discurso más amplio sobre la decolonización y el rechazo de las estructuras coloniales.

Palabras clave:
Estudios decoloniales; Agencia; Liderazgo comunitario; Favela

INTRODUÇÃO

Alinhado aos princípios dos estudos decoloniais (Guha, 1983), este artigo aprofunda-se nas lutas históricas e estratégias empregadas em comunidades marginalizadas. Por meio do arcabouço teórico de Bourdieu (Bourdieu, 1984), é imperativo reconhecer a longa luta dessas comunidades com legados e estruturas de poder que moldaram profundamente suas realidades socioeconômicas, destacando, assim, as injustiças históricas e a marginalização sofrida por elas (Fanon, 1963; Said, 1979).

Neste contexto, o objetivo deste estudo é compreender como essas comunidades foram submetidas a várias formas de colonização e neocolonização (Castro-Gómez, 2021; Chambers, 2020; Chowdhury, 2023; Couldry & Mejias, 2019; Dyer-Witheford, 2015; Sassen, 2006; Tuck & Yang, 2012). Por meio dessa perspectiva, aspiramos promover uma compreensão mais inclusiva e crítica sobre as favelas e seus habitantes (Escobar, 2018; Grosfoguel, 2011; Lugones, 2007; Mignolo, 2011; Quijano, 2007; Santos, 2014). Com base na análise dos efeitos de estratégias como estereotipificação, mitificação, cooptação, desenraizamento, desencantamento e coerção sobre as estruturas tradicionais de habitação, coesão social e agência dentro das favelas (Fanon, 1952; Quijano, 2000), é possível entender melhor as dinâmicas complexas em jogo nas comunidades marginalizadas (Grosfoguel, 2007; Mignolo, 2011).

Em 1969, Janice E. Perlman, professora no Instituto de Desenvolvimento Urbano e Regional da Universidade da Califórnia, Berkeley, conduziu uma extensa pesquisa em favelas do Rio de Janeiro, incluindo Catacumba, Nova Brasília e Caxias. Por intermédio de múltiplas técnicas de pesquisa, incluindo observação participante, entrevistas semiestruturadas e questionários detalhados, ela entrevistou residentes e líderes locais selecionados aleatoriamente, compilando uma história cronológica para cada respondente (Perlman, 1976).

Em 1970, aproximadamente um ano depois, cerca de 6 mil moradores da Catacumba foram reassentados pela Companhia Estadual de Habitação Popular do Rio de Janeiro (Cohab-RJ) no recém-construído Complexo Guaporé-Quitungo, na região da Penha. Outros foram transferidos para áreas como Cidade de Deus, Vila Aliança e Nova Holanda, que, eventualmente, evoluíram para novas comunidades de favelas. Subsequentemente, a área da Catacumba desocupada passou por reflorestamento e foi transformada no Parque da Catacumba (Perlman, 1976).

Em meados de 1973, Perlman retornou ao Rio de Janeiro para conduzir estudo de acompanhamento, para enriquecer sua pesquisa inicial com novas percepções sobre a vida dos favelados da Catacumba, bem como ampliar seu entendimento sobre as diversas experiências nas favelas do Rio de Janeiro (Perlman, 1976).

Com base nas descobertas de Perlman sobre a Catacumba de 1969 e 1973, este artigo investiga, por meio da teoria da prática de Bourdieu, como o habitus e o dépaysement foram mobilizados. O texto explora estratégias como estereotipificação, mitificação, cooptação, desenraizamento, desencantamento e coerção e seus impactos na habitação, coesão social e agência nas estruturas sociais locais (Bourdieu, 1977, 1962, 1958; Bourdieu & Sayad, 1964; Bourdieu et al., 1977).

Além disso, revisitar a pesquisa sobre a comunidade da Catacumba pode oferecer perspectivas valiosas para integrar essas considerações aos quadros estratégicos de instituições e organizações de forma mais eficaz. Tal exame também auxilia na formulação de políticas públicas destinadas a amenizar os impactos dessa transição, sublinhando a necessidade de líderes que possam percorrer desafios por meio da “bricolagem”, conforme descrito por Lévi-Strauss (1962) e Stinchfield et al. (2013).

A pesquisa pioneira de Perlman nas favelas do Rio de Janeiro nos anos 1970 oferece uma base empírica única e detalhada para examinar os desafios socioeconômicos persistentes e a resiliência das comunidades urbanas marginalizadas. Embora realizado há mais de 50 anos, o trabalho de Perlman oferece insights atemporais sobre a vida dos moradores de favela, tornando-o um recurso inestimável para entender as continuidades e transformações históricas nessas comunidades.

Esse trabalho fundamental estabelece o cenário para nossa exploração, permitindo-nos acessar um rico conjunto de dados que captura as complexidades da vida nas favelas durante um período de significativas mudanças sociais e econômicas. Ao revisitar as descobertas de Perlman por meio da lente teórica fornecida por Bourdieu, buscamos iluminar a natureza duradoura dessas dinâmicas sociais e sua relevância para os desafios contemporâneos enfrentados pelas comunidades de favela.

Além disso, em termos de importância, este artigo oferece uma contribuição para a compreensão de espaços marginalizados, como favelas, campos de refugiados, comunidades segregadas e entidades dentro do “circuito econômico inferior” (Santos, 2012). A releitura do trabalho de Perlman com as contribuições teóricas de Bourdieu oferece uma nova perspectiva sobre a realidade intrincada dessas comunidades, desafiando e reformulando narrativas e estereótipos profundamente enraizados. Essa reavaliação ilumina a agência, a resiliência e as estruturas sociais complexas inerentes às sociedades dos moradores de favelas.

Em nível organizacional, este estudo tem uma importância particular para a crescente agenda de Governança Ambiental, Social e Corporativa (ESG) (Kolk & Perego, 2014). Obter um entendimento mais profundo sobre as dinâmicas sociais nos espaços marginalizados (Quijano, 2000; Mignolo, 2007) pode moldar estratégias organizacionais para aumentar a sustentabilidade, promover a equidade e garantir uma conduta empresarial responsável (Kolk & Perego, 2014). Frequentemente negligenciadas no discurso mainstream sobre questões de ESG, esses espaços suportam desproporcionalmente o peso dos perigos ambientais, das disparidades sociais e de obstáculos de governança (Santos, 2012).

Este estudo também contribui para o campo ao conectar análises históricas e contemporâneas das comunidades de favela, oferecendo insights sobre a natureza persistente e evolutiva da marginalização no contexto de rápidas mudanças tecnológicas e econômicas. Ao integrar os achados empíricos de Perlman com a estrutura teórica de Bourdieu, esta pesquisa proporciona uma compreensão abrangente das dinâmicas sociais dentro das favelas, com destaque para sua relevância nas atuais discussões sobre decolonização, justiça social e desenvolvimento urbano.

Metodologicamente, esta pesquisa pode ser caracterizada como uma revisão minuciosa da literatura relevante para estudo de caso , enriquecida por uma avaliação das descobertas de Perlman com base no quadro teórico de Bourdieu. A técnica principal empregada para a análise de dados foi a verificação do conteúdo orientada pelos métodos estabelecidos de Bardin (2011).

Compreender a importância histórica dos fenômenos sociais dos anos 1970 nas favelas é crucial para a teoria decolonial contemporânea, pois marca um período essencial, em que as raízes das atuais estruturas sociais, dinâmicas de poder e resiliência comunitária foram firmemente estabelecidas. Os anos 1970 foram um tempo de significativas transições globais políticas, sociais e econômicas, e essas mudanças repercutiram nas favelas, influenciando a evolução de seu tecido social. Essa era lançou as bases para as formas de resistência, adaptação e identidade coletiva que são observadas nessas comunidades hoje.

Em essência, este estudo contribui para o campo ao conectar análises históricas e contemporâneas das comunidades de favela, oferecendo insights sobre a natureza persistente e evolutiva da marginalização no contexto de rápidas mudanças tecnológicas e econômicas. Ao integrar os achados empíricos de Perlman com a estrutura teórica de Bourdieu, esta pesquisa proporciona uma compreensão abrangente das dinâmicas sociais dentro das favelas, com destaque para sua relevância nas atuais discussões sobre decolonização, justiça social e desenvolvimento urbano.

Ao revisitar esse período crítico, por meio da pesquisa de Perlman, obtivemos insights inestimáveis sobre a gênese dessas complexas formações sociais e seu impacto duradouro na vida dos moradores de favela. Essa perspectiva histórica é essencial para a teoria decolonial, pois fornece uma compreensão matizada de como os legados coloniais foram perpetuados e contestados nesses espaços urbanos. A pesquisa destaca, ainda, as maneiras pelas quais as comunidades de favela navegaram nas estruturas de poder colonial e pós-colonial e resistiram a elas, oferecendo um contexto rico para examinar as formas contemporâneas de decolonização e transformação social.

Por sua vez, ao reexaminar a pesquisa de Perlman com a lente teórica de Bourdieu, obtêm-se insights profundos sobre o intrincado tecido social das favelas. Essa abordagem enriquece nossa percepção das dinâmicas de poder, das relações estruturais e do conceito de habitus no cotidiano dessas comunidades. Em vez de ver as favelas meramente como entidades periféricas, as ideias de Bourdieu revelam-nas como paisagens sociais matizadas, com mecanismos distintos para integração e coesão social. Habitus, um constructo central de Bourdieu, ilumina as maneiras pelas quais indivíduos e comunidades inteiras navegam em seus meios socio-organizacionais e físicos e são moldados por eles, forjando identidades distintas e um senso coletivo de lugar (Bourdieu, 1980).

Por fim, ao aplicar os conceitos de habitus e dépaysement de Bourdieu, buscamos explorar as formas intrincadas pelas quais os moradores das favelas percorrem e como eles são moldados por seu ambiente. Essa abordagem permite examinar a reprodução de estruturas sociais e dinâmicas de poder dentro das favelas, proporcionando uma compreensão matizada dos processos e das estratégias decoloniais em jogo nesses espaços marginalizados. Por meio desta análise, procuramos contribuir para o discurso mais amplo sobre desigualdade social, marginalização urbana e o potencial para mudança social em contextos pós-coloniais.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Tanto Bourdieu quanto Perlman têm contribuições significativas para a sociologia, especialmente no entendimento da desigualdade social e das dinâmicas de poder em diversos contextos. O engajamento às suas teorias oferece percepções mais profundas sobre a realidade social complexa em contextos de dépaysement (Perlman, 2010; Skeggs, 2015; Swartz, 1997).

O arcabouço sociológico de Bourdieu, que enfatiza o capital cultural, habitus e poder simbólico, fornece clareza sobre as dinâmicas sociais da Favela da Catacumba. O capital cultural, que engloba conhecimento, habilidades e educação, influencia as posições sociais dos residentes e o acesso a recursos. O habitus, composto por comportamentos e disposições internalizados, molda como os indivíduos navegam em seu mundo social e interagem na favela. O poder simbólico é manifestado por meio da valorização de certas práticas culturais, que reforça a hierarquia social e perpetua desigualdades (Bourdieu, 1986; DiMaggio, 1982; Lareau, 2011; Skeggs, 2015).

Desse modo, a sociologia de Bourdieu oferece um quadro abrangente para entender a desigualdade social e as dinâmicas de poder na favela, destacando como o capital cultural, o habitus e o poder simbólico moldam as experiências e a mobilidade dos residentes (Bourdieu, 1977). Contudo, pode apresentar uma limitação pelo seu foco nas restrições estruturais externas e nos fatores socioeconômicos e políticos mais amplos que afetam o contexto da favela (Jenkins, 2002).

Já a conceituação de Perlman, da favela como um assentamento informal, nos revela a estrutura, a governança e as atividades econômicas da Favela da Catacumba, com destaque para a importância das redes informais dos residentes e as estratégias para enfrentar desafios burocráticos e sobreviver à pobreza. Essa abordagem chama a atenção para as economias informais, como o comércio de rua e serviços baseados na comunidade, oferecendo oportunidades de subsistência. Também sublinha a importância das redes sociais e da solidariedade para enfrentar desafios diários (Perlman, 2010; Portes & Roberts, 2005).

A perspectiva de Perlman foca, portanto, as estratégias adaptativas e a resiliência dos residentes na favela, enfatizando como as redes informais e as atividades econômicas contribuem para o tecido social e os mecanismos de sobrevivência. No entanto, pode negligenciar questões sistêmicas e restrições estruturais que perpetuam a pobreza e a marginalização (Caldeira, 1996; Das, 2018; Perlman, 2010).

Estudos contemporâneos demonstram como os pesquisadores aplicaram as teorias de Bourdieu e Perlman para entender as desigualdades sociais, o capital cultural e as redes informais dentro de contextos urbanos. Johnson e Martinez (2020) exploram o papel do capital cultural na obtenção educacional em favelas urbanas, utilizando o arcabouço de Bourdieu. Nguyen e Lee (2018) examinam a relação entre classe social, capital cultural e mobilidade social em comunidades marginalizadas, aplicando os conceitos de Bourdieu. Já Torossian et al. (2017) investigam o uso de redes informais como estratégias de sobrevivência em assentamentos informais, refletindo sobre a teoria de Perlman.

Em suma, o foco de Bourdieu no capital cultural, habitus e poder simbólico oferece um quadro abrangente para entender as dinâmicas sociais e a desigualdade na Favela da Catacumba. Por outro lado, a ênfase de Perlman na estrutura informal da favela e nas estratégias dos residentes fornece insights práticos sobre as experiências de pobreza e marginalização. Juntas, essas teorias proporcionam uma visão holística sobre a vida social na favela, com informações de estudos contemporâneos sobre capital cultural e redes informais. Elas também são relevantes diante de discussões acerca da preocupação ambiental, social e de governança (ESG), na medida em que fornecem arcabouços significativos para entender a estratificação social e a resiliência nas comunidades urbanas.

Habitus e dinâmicas locais

Os achados de Perlman (1976) oferecem uma representação vívida do forte contraste entre as percepções externas das favelas e a realidade matizada nessas comunidades. Conforme registros do Secretariado de Serviços Sociais do Brasil durante a pesquisa de Perlman, as favelas eram, oficialmente, descritas como grupos de habitação densamente ocupados, caracterizados por construções desordenadas feitas com materiais inadequados. Elas careciam de zoneamento, serviços públicos e, muitas vezes, eram utilizadas sem o consentimento dos proprietários.

Do ponto de vista de um observador externo, uma favela típica apresentava-se como um assentamento humano congestionado e insalubre. Nesses locais eram observados mulheres carregando grandes latas de água na cabeça ou reunindo-se em torno de fontes de água comunitárias para lavar roupa; homens pareciam passar o tempo livre em bares, envolvidos em conversas casuais ou jogos de cartas, aparentemente sem tarefas específicas; crianças nuas brincavam na terra e as casas, construídas com material desparelhado, davam a impressão de instabilidade estrutural. Esgoto a céu aberto emitia odores desagradáveis, especialmente em dias quentes e sem vento. A poeira e a sujeira pervasivas se transformavam em lama durante as chuvas (Perlman, 1976).

No entanto, Perlman (1976) revela que a realidade interna da favela divergia significativamente dessas percepções externas. A construção das casas na favela levava em consideração fatores como conforto, eficiência, clima e disponibilidade de materiais. A disposição dos móveis refletia capricho, e os moradores mantinham espaços de vida limpos. Muitas casas exibiam portas e persianas pintadas de cores vivas, adornadas com flores e plantas nas janelas. Os animais de estimação não apenas estavam presentes, mas eram queridos e bem cuidados.

Contrariamente à imagem de homens ociosos em bares, as observações de Perlman indicaram que a maioria dos homens e mulheres na favela acordava cedo e se engajava em trabalho árduo durante todo o dia. Mulheres envolvidas em trabalhos de lavanderia com frequência ganhavam a vida com essas atividades, e homens frequentemente vistos em bares, muitas vezes estavam aguardando o início de seus turnos de trabalho. Embora nem todas as crianças frequentassem a escola, geralmente, demonstravam inteligência, vivacidade e boa saúde. Os pais enfatizavam a importância de proporcionar aos filhos o máximo possível de educação.

Importante destacar que os achados de Perlman iluminam aspectos regularmente negligenciados de coesão social, confiança mútua e organização social interna complexa dentro da comunidade da favela. Vários clubes e associações espontâneas prosperaram, demonstrando uma rica rede social interconectada que pode não ser aparente para observadores externos (Perlman, 1976).

O Quadro 1 resume três atitudes em relação às comunidades de favela conforme identificação da autora.

Quadro 1
A favela sob a perspectiva de distintos habitus

O Quadro 1 evidencia a importância de entender o habitus e as dinâmicas locais para compreender as complexidades sociais dentro da favela estudada por Perlman (1976). O habitus influencia significativamente a percepção dos moradores e a maneira como eles navegam pelo seu ambiente, afetando suas atitudes em relação à comunidade e suas estratégias para superar desafios. A pesquisa de Perlman (1976) revela ações diversas em relação aos aglomerados de favelas, variando desde vê-las como entidades patológicas até reconhecê-las como comunidades capazes de superar dificuldades. Essas variações no habitus desvendam a interação complexa de fatores sociais, econômicos e culturais que moldam as dinâmicas dentro das favelas, fornecendo insights sobre as experiências vividas, as relações sociais e as ações coletivas de seus residentes. Isso contribui para uma compreensão holística do tecido social da favela.

É crucial reconhecer que, apesar da ausência de dados atualizados, as descobertas de Perlman (1976) continuam significantes para compreender as dinâmicas sociais dentro da favela. Embora a incorporação de informações mais recentes pudesse enriquecer a análise, as informações de Perlman oferecem perspectivas históricas valiosas e a compreensão dos desafios duradouros enfrentados pelas comunidades de favelas. Ao reconhecer as limitações temporais e advogar por mais pesquisas, este artigo visa fornecer um entendimento abrangente sobre as dinâmicas da favela, considerando tanto a realidade passada quanto a atual.

A inclusão dos dados de Perlman - de seus trabalhos dos anos 1970 - é justificada por várias razões. Primeiramente, o estudo de Perlman representa uma exploração seminal e abrangente das dinâmicas da favela, fornecendo insights valiosos sobre os aspectos sociais, econômicos e culturais dessa comunidade. Referenciar e analisar suas descobertas é essencial para estabelecer um contexto histórico para a compreensão da favela estudada. Além disso, os dados de Perlman permanecem relevantes por causa dos desafios socioeconômicos persistentes enfrentados pelos moradores da favela. Embora as circunstâncias possam ter evoluído, questões fundamentais como habitação, infraestrutura, educação e emprego continuam pertinentes. Os dados de Perlman, então, servem como uma base de entendimento para avaliar mudanças, identificar continuidades e destacar áreas para investigação futura (Perlman, 1976).

Embora especificar proporções de gênero nas favelas fosse difícil na época em razão da falta de estudos censitários, Perlman (1976) encontrou uma porcentagem maior de mulheres (55%) do que de homens (45%) na Catacumba. Esse desequilíbrio pode ser atribuído a maiores opções disponíveis para os homens, como viver em quartéis, canteiros de obras ou pensões, e taxas de migração mais altas para as mulheres. Em relação aos tipos raciais, 21% dos favelados eram negros, 30% mestiços e 49% brancos. Os favelados negros representavam praticamente todos os indivíduos negros no Rio de Janeiro, enquanto os favelados brancos constituíam apenas uma fração da população branca (Perlman, 1976).

A idade média dos favelados é de 34 anos. Quanto ao estado civil, 24% são solteiros, 66% são casados ou estão em relacionamentos estáveis, 5% são separados e 5% são viúvos. A família nuclear prevalece na favela, com 90% das famílias na Catacumba sendo nucleares, com uma média de 4,6 filhos, o que é menor do que nas áreas rurais (60-70%) (Perlman, 1976).

Entre os favelados em idade produtiva, 28% estavam desempregados e 13% nunca haviam trabalhado. O valor da educação era uma preocupação significativa, frequentemente percebida como mínima em seu impacto e importância para o avanço socioeconômico. Tanto os migrantes para as favelas quanto os habitantes originais (nativos) enfrentavam escolhas limitadas de ocupação. A progressão na carreira parecia não ser afetada pela introdução de novas oportunidades educacionais, seja na cidade, seja em seus locais de origem. Tipicamente, o status profissional de um indivíduo era influenciado por seu contexto social e idade.

Os líderes comunitários locais eram predominantemente homens (nove em dez) e, na maioria, brancos (65%), com idade média de 41 anos, sete anos a mais do que a média de idade da população total. Eram alfabetizados e estavam empregados. Esses líderes, semelhantes a chefes indígenas, estavam profundamente ligados a suas comunidades, elevando suas preocupações com questões isoladas para aquelas que abrangem a totalidade de suas áreas. Embora as favelas não tivessem um líder único, com controle exclusivo sobre autoridades externas, um grupo de líderes funcionava como intermediário político, garantindo conexões vitais e relações entre o sistema local da favela e as entidades externas (Pearse, 1961). O conceito de “furo estrutural” (Granovetter, 1973; Lin, 2001; Peattie, 1968) ressalta ainda mais a importância de acessar níveis mais altos de autoridade na defesa dos interesses locais.

O envolvimento político entre líderes e residentes da favela manifestava-se, sobretudo, por causa de questões administrativas. Uma proporção significativa (85%) envolveu-se em atividades como consultar advogados, buscar orientação profissional, usar serviços bancários e inscrever-se em serviços de seguridade social, saúde ou sindicatos. O acesso a contatos administrativos representava uma fonte vital de poder entre os favelados, crucial para entender a política dentro de sua espacialidade (Perlman, 1976).

Essas descobertas levaram a autora a concluir que, embora a política não fosse o interesse dominante na vida dos favelados, eles estavam longe de ser apáticos e complacentes. Eles demonstravam preocupação sensata com questões que os afetavam diretamente e compartilhavam uma abordagem de senso comum para defender seus interesses e minimizar danos ao sistema. Embora os líderes tivessem participação mais ativa em todos os setores, eles seguiam a mesma estratégia de minimização de riscos e maximização de ganhos. No contexto brasileiro da época, isso significava uma integração serena e ordenada ao regime político vigente, contrariamente aos estereótipos generalizados sobre o radicalismo das favelas alimentado pelo medo das classes dominantes de subversão e comportamento antissocial (Perlman, 1976).

Embora a sociedade brasileira não seja baseada em grupos de parentesco amplos ou clãs, laços de parentesco fortes existem. O sistema de compadrio eleva amigos à posição de “quase parentes”. Quase dois terços dos migrantes encontraram seu primeiro emprego com a ajuda de amigos ou familiares, com uma porcentagem maior entre as mulheres. Apenas 23% tiveram que buscar emprego de forma independente por meio de métodos como ir de porta em porta, responder a anúncios de jornal ou utilizar agências de emprego (Perlman, 1976).

Segundo Smith e Inkeles (1966), avaliados por Perlman (1976), por meio da escala de modernidade geral como indicadora de tradicionalismo-modernidade, fatores como religiosidade, abertura à inovação, orientação familiar e empatia contradiziam hipóteses sobre a “cultura da pobreza” (Lewis, 1966) e outros mitos sobre a natureza marginal dessas espacialidades.

Quanto à orientação religiosa, 94% dos favelados consideravam-se seguidores de alguma religião, sendo 72% católicos, 10% da Assembleia de Deus, 5% batistas, 5% espíritas e 4% de outras denominações. No entanto, 58% declararam não pertencer a nenhuma organização religiosa e apenas 3% dos filiados frequentavam regularmente os serviços. Poucos exibiam dogmatismo, rupturas ou fanatismo (Perlman, 1976).

Quando se tratava de abertura à inovação, os entrevistados mostravam relativa aceitação da ciência e da tecnologia, mas eram mais hesitantes em relação às mudanças nas práticas tradicionais. Eles também demonstravam entusiasmo em adotar aspectos novos e modernos, muitas vezes limitados por razões econômicas, e não por atitude. Eles estavam entre os primeiros a adotar roupas da moda, seguir, ávidos as últimas tendências da música americana e comprar, ansiosos, novos gadgets sempre que possível (Perlman, 1976).

Em termos de valores pessoais, aproximadamente 72% dos homens e 70% das mulheres expressaram simpatia pela ideia de formar um grupo moderno, superando até mesmo a classe média como ponto de comparação. A taxa de natalidade nas favelas era significativamente menor do que nas áreas rurais. Os favelados mostravam altos níveis de secularização, flexibilidade cognitiva e empatia. A educação era muito valorizada na favela, com indivíduos que possuíam um diploma universitário sendo respeitados como se tivessem um doutorado. Geralmente, as aspirações dos favelados não diferiam das da classe média, e eles mostravam otimismo em relação ao futuro dos filhos e das futuras gerações (Perlman, 1976).

De acordo com as descobertas de Perlman (1976, p. 190), os favelados da Catacumba não possuíam uma subcultura de tradicionalismo ou pobreza. Quando os moradores da favela expressavam que “os pobres não têm chance” ou acreditavam que tentar algo “não adianta”, eles não estavam refletindo resignação inerente ou fatalismo. Em vez disso, eles estavam avaliando realisticamente sua situação, sugerindo que uma mudança nas barreiras que enfrentavam poderia levar a respostas diferentes.

Os dados de Perlman (1976) revelaram um grau significativo de submissão à autoridade. No entanto, o conceito de submissão precisava de uma interpretação cuidadosa. As normas igualitárias eram a exceção, e não a regra, na vida social e política brasileira, pois a passividade e o respeito pela autoridade eram incutidos pelo regime ditatorial vigente imposto pelos militares com o apoio do governo dos Estados Unidos.

Contrariamente aos mitos sobre a limitada contribuição econômica dos favelados em termos de trabalho ou consumo, Perlman (1976) coletou dados que indicam que apenas 10% dos trabalhadores do sexo masculino realizavam suas atividades dentro da comunidade, enquanto o resto contribuía diretamente para a economia metropolitana externa. Além disso, quase um terço das mulheres da favela trabalhava em serviços domésticos considerados essenciais pela classe média. Apenas 32% dos favelados eram considerados não qualificados na época, desempenhando, principalmente, tarefas necessárias que geravam renda que fazia a economia circular (Perlman, 1976).

Os favelados também contribuíam significativamente para o consumo: 92% compravam roupas e 72% compravam alimentos fora da comunidade. Apesar dos baixos rendimentos que obtinham, eles constituíam um mercado importante para bens de consumo. Na época da pesquisa, 35% estavam pagando prestações, sendo 24% para itens domésticos e 11% para roupas e sapatos (Perlman, 1976).

Os entrevistados também contribuíam para a economia por meio de atividades empreendedoras dentro da comunidade: quatro em cada dez favelados construíam as próprias casas e entre 5% e 10% abriam tendas, lojas ou bares, que geravam impostos municipais (Perlman, 1976). Além disso, os dados refutavam o mito da ética de trabalho predominante nessas comunidades. Contrariamente ao ideal prevalecente, os favelados valorizavam o trabalho, a tecnologia científica e expressavam respeito pelas relações burocráticas impessoais (Perlman, 1976).

Igualmente, ao contrário da crença geral, os favelados declaravam-se razoavelmente satisfeitos com suas vidas e perspectivas para o futuro. Nove em cada dez mencionavam aspectos de suas vidas atuais na cidade de que gostavam particularmente e 70% acreditavam que havia tanta ajuda mútua na favela quanto em seus locais de origem (Perlman, 1976).

O dépaysement e seus impactos

O desfecho da realocação dos moradores da Catacumba, em 1973, trouxe consequências imediatas em várias dimensões, deixando um impacto indelével nos aspectos econômicos, sociais, culturais, políticos e psicológicos da comunidade (Perlman, 1976).

Economicamente, os residentes enfrentaram desafios ampliados, incluindo aumento do custo do transporte e do tempo gasto no deslocamento. A busca por emprego, especialmente para as mulheres, tornou-se mais árdua, agravada pelo ônus das prestações hipotecárias mensais. Os comerciantes da favela foram desproporcionalmente afetados, já que muitos foram obrigados a fechar seus negócios por causa da redução da base de clientes, do custo para obter novas licenças, das restrições do uso das casas para fins comerciais ou dos aluguéis exorbitantes das novas lojas (Perlman, 1976).

Socioculturalmente, a dispersão dos ex-residentes para novos empreendimentos habitacionais baseados em renda em vez de laços sociais e familiares, levou à desintegração das estruturas de apoio dentro das favelas. O isolamento geográfico contribuiu ainda mais para um sentimento de desligamento da vida e das atividades urbanas. Esse transtorno provocou suspeita, desconfiança e percepção de aumento da taxa de criminalidade entre os residentes realocados (Perlman, 1976).

Os líderes comunitários, instrumentais na promoção da coesão, estavam entre os primeiros a serem realocados e desapareciam ou eram dispersos para assentamentos distantes de seus eleitores. As tentativas de estabelecer novas associações de bairro ou organizações enfrentaram apatia e desconfiança entre os vizinhos. Os sentimentos generalizados de medo e desespero tornaram desafiador reunir pessoas para as reuniões (Perlman, 1976).

Durante o processo de democratização do Brasil, na década de 1980, vários fatores remodelaram a percepção das favelas, que passaram a ser vistas como problemas com potenciais soluções (Ribeiro, 1997; Valladares, 2005). Na esfera global, emergiram críticas sobre o descompasso entre urbanistas, arquitetos e a realidade das comunidades de favelas. Autores como Gans (1982) e Jacobs (2011) contribuíram para uma mudança de foco, afastando-se de projetos que excluíam o acesso à cidade. A pressão dos residentes e de suas organizações, que se opuseram às remoções forçadas e lutaram pelo reconhecimento legal de seus bairros, desempenhou um papel crucial na mudança de perspectivas (Valladares, 2005).

No Brasil, a crise econômica dos anos 1980, aliada a programas austeros e à redução dos investimentos públicos, levou a um aumento sistemático na população das favelas. O fim da censura à mídia ampliou as reportagens sobre violência, tráfico de drogas e criminalidade nas favelas do Rio de Janeiro, reforçando uma percepção dual do medo dos habitantes da “cidade formal” em relação à população que residia nas colinas. Termos como “cidade partida” e “cidade dividida” tornaram-se comuns, aprofundando essa dicotomia (Ventura, 1984).

A questão das favelas ganhou destaque nos círculos acadêmicos nos anos 1990, com aumento no volume de estudos e pesquisas. Dados do Censo de 1991 e 2000 indicaram a expansão das aglomerações para outras regiões do Rio de Janeiro, como Jacarepaguá e Barra da Tijuca, à medida que condomínios fechados destinados à classe média alta foram construídos (Valladares, 2005).

Conforme as estimativas mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2020), existem 13.151 aglomerações subnormais (favelas) no país, que compreendem 5,1 milhões de domicílios. Apenas na cidade do Rio de Janeiro, há 453.571 domicílios nessas aglomerações, que representam 12,63% do total, o que coloca a cidade atrás apenas de São Paulo em termos de número de domicílios em aglomerações subnormais (IBGE, 2020).

ESPECTROS E LIÇÕES APREENDIDAS DA CATACUMBA

Os grupos marginalizados não são periféricos, mas parte integrante do sistema. A integração nem sempre implica reciprocidade, pois a sociedade é um todo, e a questão é como suas partes se encaixam. Os marginais, nesse caso, estão permanentemente fora da sociedade, sem participação nos valores comuns que a definem. Essa perspectiva se opõe ao modelo de conflito, pois toda sociedade envolve a coerção de alguns membros por outros (Dahrendorf, 1959).

Perlman (1976) observou que as causas e a continuação da marginalização não estavam enraizadas no habitus (Bourdieu, 2021) dos indivíduos, e suas atitudes, crenças, valores e comportamentos não incluíam uma síndrome autodestrutiva e inibidora da moralidade. Portanto, a busca por explicações nos leva a examinar fatores estruturais ou instituições sociais, como mercados de trabalho e capital, sistemas de classes, estratificação social, o papel do estado em sociedades capitalistas e o contexto internacional. Esses fatores influenciam grandemente as desigualdades urbanas.

O ponto-chave é que a marginalidade não é apenas resultado de condições habitacionais deficientes ou características individuais, mas, sim, uma consequência de uma forma social enraizada no processo histórico de industrialização e crescimento econômico em nações periféricas, especialmente na América Latina. A marginalização surge de um modelo de desenvolvimento que exclui sistematicamente vastos segmentos da população do aparato produtivo central (Comisión Económica para América Latina y el Caribe [CEPAL], 1965; Perlman, 1976; Quijano, 1973; Santos, 1974).

De acordo com dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL, 1965), o desenvolvimento industrial em países menos desenvolvidos não leva mais a um aumento significativo no emprego industrial. Isso resulta em um número desproporcional de pessoas subempregadas, sem empregos assalariados, sem segurança social, proteção trabalhista ou renda estável, vivendo em um estado de constante incerteza (Perlman, 1976). Quijano (1973) enfatizou, ainda, que existe uma categoria de pessoas que são excluídas do núcleo principal do trabalho por causa de sua renda insuficiente, que as deixa incapazes de acessar o consumo de bens e serviços. Essa questão se estende além de indivíduos isolados ou pequenos grupos e afeta vastos setores da população, tornando-se um problema para a sociedade como um todo.

No cenário atual, são identificados dois tipos de “marginais” ou “forasteiros”. O primeiro grupo consiste em uma burguesia marginalizada, incluindo empreendedores autônomos e profissionais altamente qualificados cujas ocupações são eliminadas por novas tecnologias digitais. O segundo grupo compreende aqueles em posições ocupacionais precárias, como migrantes, trabalhadores intermitentes, motoristas de Uber explorados, beneficiários de programas de assistência social e indivíduos que ganham uma renda mínima universal (Frey & Osborne, 2017; Standing, 2014).

A dinâmica do trabalho na economia digital pode ser entendida por meio das noções de circuitos econômicos. O “circuito superior” inclui empresas modernas a hipermodernas, enquanto o “circuito inferior” envolve atividades de pequena escala e serviços não modernos voltados para populações pobres (Santos, 2012). O circuito inferior constitui uma fonte de trabalho, emprego e renda para uma parcela significativa da população, sustentando sua sobrevivência. Na sociedade digital contemporânea, essa coexistência de modos de produção intensifica a separação entre os “conectados” e os “precários”, levando a uma forma extrema de marginalização (Kowarick, 1974; Santos, 2012).

Ao contrário de sugestões anteriores de alternativas orientadas ao capitalismo para a inclusão dos marginalizados, as tendências atuais indicam uma expansão desenfreada da concentração de renda e riqueza. A adoção de tecnologias digitais, automação, robótica e máquinas inteligentes tornou muitas ocupações obsoletas, impactando tanto papéis técnicos especializados quanto profissões altamente valorizadas. O resultado é um crescente fosso entre os “vencedores” e os “perdedores” (Brynjolfsson & McAfee, 2014; Frey & Osborne, 2017; Piketty, 2014; Schwab, 2017).

Esse aumento da disparidade levanta questões sobre o papel da grande população marginalizada na fase atual do desenvolvimento capitalista, caracterizada por grandes ecossistemas e redes de negócios que exigem uma força de trabalho menor, mas altamente educada, habilidosa, flexível e adaptável. A população restante, que compreende a maioria, é deixada para fornecer serviços e produtos de baixo valor, por meio de sistemas de produção e gestão intensamente automatizados. Eles enfrentam incerteza e marginalização (Dowbor, 2018; Haskel & Westlake, 2018; Mason, 2017).

À medida que a concentração de renda e riqueza aumenta, fatores demográficos, geopolíticos, ambientais e tecnológicos contribuem ainda mais para essa marginalização. Os setores marginalizados, incluindo os favelados, tornaram-se objetos de estudo e experimentação para grandes plataformas e arranjos organizacionais que substituem as indústrias de produção em massa. Eles fornecem atributos valiosos como criatividade, flexibilidade, adaptabilidade e resiliência, que são mapeados e convertidos em abordagens, metodologias e algoritmos distintos para o “circuito superior” da era digital (Dowbor, 2018; Kurzweil, 2007; World Economic Forum [WEF], 2020).

Considerando isso, os estudos de Perlman (1976) ganham significado quando examinados por meio das noções bourdieusianas de habitus e dépaysement. Eles lançam luz não apenas sobre as dinâmicas da sociedade industrial, mas também sobre a transição em andamento para a era digital catalisada pela pandemia de COVID-19. Esses estudos contribuem para entender como agentes sociais com diferentes habitus e distribuição desigual de capital interagem em um espaço social, onde conflitos e alianças se desenrolam na busca por manter ou transformar as dinâmicas de poder atuais.

Apesar das críticas ao trabalho de Perlman, seus estudos continuam sendo os mais referenciados sobre marginalização (Valladares, 2005). Seu rigor, riqueza e diversidade metodológica os tornam valiosos para análises históricas e comparativas. No entanto, são necessárias mais pesquisas e análises para explorar as complexidades e nuances da marginalização e seu impacto nas relações e desigualdades sociais (Mason, 2017; Standing, 2014).

Em resumo, a transição em andamento para o capitalismo digital exacerba a marginalização de certos grupos sociais, criando um abismo profundo entre os “conectados” e os “precários”. Essa crescente disparidade na concentração de renda e riqueza apresenta desafios significativos para as sociedades em todo o mundo. Compreender os fatores estruturais, as instituições sociais e as dinâmicas de poder em jogo é crucial para abordar e mitigar as desigualdades sociais e econômicas inerentes a esta era transformadora (Krugman, 2012; Piketty, 2014; Schwab, 2017).

Além disso, no âmbito dos negócios e da gestão, especialmente em questões relacionadas com o discurso ESG, as contribuições deste artigo apontam para temas na agenda estratégica das organizações. Suas percepções são particularmente relevantes para os tomadores de decisão organizacionais ao entender as premissas e os valores subjacentes, bem como seus potenciais impactos nos níveis social, organizacional e individual.

Adicionalmente, o artigo enfatiza a necessidade de mais pesquisas e análises para compreender as complexidades e nuances da marginalização no contexto da era digital. Entender os fatores estruturais, as organizações, as instituições sociais e as dinâmicas de poder em jogo é crucial para abordar e mitigar as desigualdades sociais e econômicas que surgem desta era transformadora. Os tomadores de decisão precisam estar cientes das premissas e dos valores subjacentes que impulsionam essa transição para fazer escolhas informadas e evitar repetir ou exacerbar os desafios enfrentados durante dinâmicas de transição anteriores (Castells, 2010; Floridi, 2014; Giddens, 1984).

Diante dessa lacuna, este artigo traz contribuições significativas para o campo dos estudos decoloniais, já que, ao extrair o quadro teórico de Bourdieu, ele revela como o habitus e o dépaysement foram historicamente mobilizados e como estratégias como estereotipação, mitificação, cooptação, desenraizamento, desencanto e coerção tendem a se reproduzir no contexto da transição para a economia digital (Bourdieu, 1977, 1962, 1958; Bourdieu & Sayad, 1964; Bourdieu et al., 1977; Fanon, 1952). Nesse sentido, ele fornece, com base em uma perspectiva de estudos decoloniais, insights relevantes para se analisarem estratégias contemporâneas de dominação e exploração promovidas por tecnologias digitais e modelos emergentes de negócios e gestão na era digital (Mignolo, 2011; Quijano, 2000; Schwab, 2017).

Ademais, a contribuição do artigo para os estudos decoloniais envolve a reavaliação crítica de narrativas e estereótipos enraizados (Quijano, 2000; Mignolo, 2007). Nesse sentido, ele desafia e desconstrói narrativas e estereótipos tradicionais associados a essas comunidades marginalizadas (Fanon, 1963; Spivak, 1988). Reconhece que os habitantes da favela têm práticas culturais e sociais únicas moldadas por seus ambientes socio-organizacionais e físicos (Grosfoguel, 2011; Lugones, 2010), nos levando além de uma visão unidimensional dessas comunidades como periféricas ou problemáticas. Essa perspectiva nos permite apreciar a agência e a resiliência dentro das favelas, destacando a capacidade dessas comunidades de definir as próprias identidades e estruturas sociais (Lugones, 2010; Quijano, 2000).

Além do mais, entender que os benefícios da era digital (Schwab, 2017) devem ser acessíveis a todos, em vez de ficar concentrados nas mãos dos privilegiados (Mignolo, 2007; Quijano, 2000), é crucial para permanecer vigilante em relação aos riscos da colonização digital dessas comunidades, por meio de formas tradicionais e emergentes de dominação e exploração (Dardot & Laval, 2019; Noble, 2018). Para decolonizar, medidas proativas devem ser tomadas para superar a divisão digital, promover a inclusão digital e garantir que a tecnologia sirva aos interesses dos marginalizados, em vez de perpetuar sua marginalização (Dardot & Laval, 2019; Warschauer, 2003). Em outras palavras, esse esforço abrange não apenas o enfrentamento de injustiças históricas, mas também o enfrentamento de desafios contemporâneos relacionados com a tecnologia, a informação e o acesso (Dardot & Laval, 2019; Warschauer, 2003).

Ao expor e desafiar as heranças coloniais duradouras que continuam a moldar a vida das populações marginalizadas, esta pesquisa oferece insights sobre como essas comunidades resistem e navegam por essas heranças, contribuindo significativamente para o discurso mais amplo sobre decolonização e rejeição de estruturas coloniais. Essas contribuições estão alinhadas com os princípios dos estudos decoloniais (Grosfoguel, 2007) e oferecem perspectivas valiosas para entender a interseção entre lutas históricas e desafios contemporâneos em comunidades marginalizadas.

Da mesma forma, reconhecemos as contribuições de Castro-Gómez (2021) e Chowdhury (2023) para aprimorar nosso entendimento da teoria decolonial e sua aplicabilidade à análise de comunidades marginalizadas. A crítica de Chowdhury (2023) ao neocolonialismo epistêmico destaca a deturpação e marginalização sistêmica dessas comunidades nos sistemas de conhecimento dominantes. Essa perspectiva se alinha à nossa análise das comunidades de favela, em que a imposição de narrativas externas, muitas vezes, obscurece a realidade complexa e a resiliência desses espaços. Ao reconhecer como os grupos marginalizados são mal representados, pode-se melhor apreciar a importância do conhecimento e das narrativas locais na construção de uma compreensão mais inclusiva e equitativa das dinâmicas sociais.

O conceito de “hubris do ponto zero” de Castro-Gómez (2021) enriquece ainda mais esste discurso ao investigar as raízes coloniais da construção do conhecimento e suas implicações para as estruturas sociais contemporâneas. A análise histórica da colonialidade do conhecimento revela como as dinâmicas de poder moldaram os quadros epistêmicos, levando à exclusão e marginalização de formas de saber não ocidentais. Essa lente teórica é particularmente relevante no contexto das comunidades de favela, pois nos permite interrogar as estruturas de poder que perpetuam a desigualdade e a marginalização. Ao integrar essas teorias decoloniais, pode-se explorar o potencial para decolonizar o conhecimento e promover uma epistemologia mais inclusiva que reconheça o valor de perspectivas diversas, especialmente diante dos desafios impostos pela era digital.

Em essência, a integração dessas perspectivas decoloniais pode proporcionar uma compreensão mais matizada das experiências históricas e contemporâneas das comunidades de favela. Ela destaca a importância de desafiar e reavaliar narrativas e sistemas de conhecimento dominantes para entender melhor e abordar as complexidades da marginalização. Essa abordagem não apenas contribui para a teoria decolonial, mas também oferece insights práticos para a justiça social e o desenvolvimento urbano, enfatizando a necessidade de políticas e práticas informadas pela realidade vivida e pela resiliência das comunidades marginalizadas.

Além disso, o estudo desenvolvido por Chambers (2023) oferece vias significativas para aprimorar nosso entendimento dos processos decoloniais dentro das comunidades marginalizadas. Sua análise (Chambers, 2023) sobre “epistemologia e dominação” destaca a imperatividade de questionar e desafiar as teses dominantes sobre a colonialidade do conhecimento na teoria decolonial latino-americana. Ao abraçar essa perspectiva, pode-se obter uma compreensão mais profunda e destacar as formas de injustiça epistêmica enfrentadas por comunidades marginalizadas, enfatizando a importância de valorizar e integrar conhecimentos e práticas culturais em estratégias decoloniais eficazes.

Ao alinhar o estudo com essas teorias, procuramos não apenas contribuir para a teoria decolonial, mas também fornecer insights práticos para o empoderamento das comunidades de favela. Essa abordagem ampliada enfatiza a necessidade de reconhecer e desmantelar as estruturas de poder que perpetuam a marginalização e a injustiça, ao mesmo tempo que promove a resiliência, agência e integração social dessas comunidades em uma paisagem global em constante mudança.

Portanto, eles não apenas contribuem para os estudos decoloniais ao reavaliar as heranças duradouras da colonização em espaços urbanos, mas também ao propor um quadro que reconhece o potencial das comunidades marginalizadas, como as das favelas, para contribuir e moldar o discurso sobre decolonização e justiça social no contexto de mudanças tecnológicas e econômicas rápidas. Por meio da integração das teorias de Castro-Gómez (2021) e Chambers (2023), defende-se uma compreensão mais matizada da marginalização, que reconhece as contribuições epistêmicas dessas comunidades e desafia as estruturas coloniais persistentes na produção de conhecimento e na organização social.

Além disso, o artigo destaca a importância de integrar as práticas de ESG à gestão das organizações. A economia e a sociedade digitais exigem uma agenda estratégica que abrace práticas sustentáveis e responsáveis para garantir a viabilidade de longo prazo e impactos positivos na sociedade e no ambiente. O quadro de ESG oferece uma lente, por meio da qual as organizações podem alinhar suas estratégias, políticas e operações a considerações éticas, ambientais e sociais. Essa abordagem permite que as organizações naveguem efetivamente pela transição, minimizando consequências negativas e maximizando resultados positivos (Henderson & Van der Kaaij, 2016; Schwab, 2017).

Este contexto representa uma mudança profunda na sociedade e mostra desafios e oportunidades em vários níveis. Compreender as implicações, abordar a marginalização, promover o crescimento inclusivo e incorporar princípios de ESG é crucial para que organizações e tomadores de decisão naveguem efetivamente nessa era transformadora. Ao adotar uma abordagem holística e responsável, a sociedade pode se esforçar por um futuro mais equitativo, sustentável, pacífico e próspero (Henderson & Van der Kaaij, 2016; Schwab, 2017).

Para reforçar ainda mais a importância do contexto histórico no entendimento da realidade presente, este estudo destaca como as descobertas contribuem para a teoria decolonial ao oferecer uma compreensão mais profunda dos impactos duradouros das heranças coloniais em espaços urbanos. Ele ressalta a resiliência e agência das comunidades de favela como modelos para esforços decoloniais contemporâneos, ilustrando sua capacidade de forjar novos caminhos de integração e coesão social diante de desafios sistêmicos. Esse conhecimento histórico não apenas enriquece nossa compreensão das dinâmicas sociais atuais, mas também serve como base para desenvolver estratégias que apoiem a decolonização e o empoderamento das comunidades marginalizadas na paisagem global atual, em rápida mudança.

AGRADECIMENTOS

O autor agradece o suporte financeiro da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP)

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  • Wynter, S. (2003). Unsettling the coloniality of being/power/truth/freedom. The New Centennial Review, 3(3), 257-337.
  • DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

PARECERISTAS

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RELATÓRIO DE REVISÃO POR PARES

  • 22
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  • 23
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Editado por

  • EDITOR-CHEFE
    Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
  • EDITOR ADJUNTO
    Fabricio Stocker (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6340-9127
  • EDITORES CONVIDADOS
    Michelle Mielly (EM Lyon Business School, Lyon - França). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-3321-5334
  • EDITORES CONVIDADOS
    Hélio Arthur Reis Irigaray (Fundação Getulio Vargas, Rio de Janeiro / RJ - Brasil). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9580-7859
  • EDITORES CONVIDADOS
    Penelope Muzanenhamo (University College Dublin, Dublin - Irlanda). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-8575-9347
  • EDITORES CONVIDADOS
    Sandiso Bazana (Rhodes University, Grahamstown - África do Sul; Grenoble Ecole de Management, Grenoble - França). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5177-2567
  • EDITORES CONVIDADOS
    Ana Maria Peredo (University of Ottawa / Telfer School of Management, Ottawa - ON, Canadá). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-5534-4834
  • EDITORES CONVIDADOS
    Gazi Islam (Grenoble Ecole de Management, Grenoble - França; Institut de Recherche en Gestion et Économie, Annecy - França). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7617-3376

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    01 Dez 2022
  • Aceito
    05 Abr 2024
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