Open-access Carbamazepina: perfil de uso, medicamentos associados, eventos adversos e adesão ao tratamento - um estudo transversal*

RESUMO

Objetivo:  Descrever o perfil, os medicamentos associados, os eventuais eventos adversos (EA), o nível de ansiedade e a adesão ao tratamento entre usuários de carbamazepina (CBZ).

Método:  Estudo transversal, descritivo e analítico, realizado por meio de questionário e consulta a dados secundários em prontuários médicos. O estudo foi conduzido no sistema público de saúde do município de Ijuí.

Resultados:  45,9% dos participantes utilizavam carbamazepina para algum transtorno de humor e 35,3% para epilepsia. 60% da população relatou eventos adversos e 20% acreditavam que estes estavam associados ao uso de carbamazepina. Sonolência (40%) e tontura (35,3%) foram os eventos adversos mais frequentes. 51,8% dos participantes foram considerados polimedicados. Apenas 3,5% dos respondentes foram considerados totalmente aderentes ao tratamento.

Conclusão:  Foi possível identificar o perfil dos usuários de carbamazepina, contribuindo para o conhecimento sobre o tema, visto que há poucos estudos sobre essa população na literatura.

DESCRITORES:
Epilepsia; Questionário de Saúde do Paciente; Medicamentos Sob Prescrição; Polimedicação; Transtornos de Humor.

HIGHLIGHTS

1. A maioria dos pacientes tem baixa adesão ao tratamento.

2. Os eventos adversos estão associados a sintomas de ansiedade moderados ou graves.

3. A maioria dos pacientes utilizava carbamazepina para algum tipo de transtorno de humor.

4. 60% dos participantes relataram ter eventos adversos.

ABSTRACT

Objective:  To describe the profile, associated medications, potential adverse events (AE), anxiety levels, and treatment adherence among carbamazepine (CBZ) users.

Method:  Cross-sectional, descriptive, and analytical study conducted through a questionnaire and consultation of secondary data in medical records. The study was conducted in the public health system of the municipality of Ijuí.

Results:  45.9% of participants used carbamazepine for some mood disorder and 35.3% for epilepsy. 60% of the population reported adverse events, and 20% believed these were associated with the use of carbamazepine. Drowsiness (40%) and dizziness (35.3%) were the most frequent adverse events. 51.8% of participants were considered polypharmacy users. Only 3.5% of respondents were considered fully adherent to treatment.

Conclusion:  It was possible to identify the profile of carbamazepine users, contributing to the understanding of the topic, given that there are few studies on this population in the literature.

DESCRIPTORS:
Epilepsy; Patient Health Questionnaire; Prescription Drugs; Polypharmacy; Mood Disorders.

HIGHLIGHTS

1. Most patients have low adherence to treatment.

2. Adverse events are associated with moderate to severe anxiety symptoms.

3. Most patients used carbamazepine for some type of mood disorder.

4. 60% of participants reported experiencing adverse events.

RESUMEN

Objetivo:  Describir el perfil, los medicamentos asociados, los posibles eventos adversos (EA), el nivel de ansiedad y la adherencia al tratamiento entre usuarios de carbamazepina (CBZ).

Método:  Estudio transversal, descriptivo y analítico, realizado mediante cuestionario y consulta a datos secundarios en historias clínicas. El estudio fue conducido en el sistema público de salud del municipio de Ijuí.

Resultados:  El 45,9% de los participantes utilizaban carbamazepina para algún trastorno del estado de ánimo y el 35,3% para epilepsia. El 60% de la población reportó eventos adversos y el 20% creía que estos estaban asociados al uso de carbamazepina. Somnolencia (40%) y mareo (35,3%) fueron los eventos adversos más frecuentes. El 51,8% de los participantes fueron considerados polimedicados. Solo el 3,5% de los encuestados fueron considerados totalmente adherentes al tratamiento.

Conclusión:  Fue posible identificar el perfil de los usuarios de carbamazepina, contribuyendo al conocimiento sobre el tema, dado que hay pocos estudios sobre esta población en la literatura.

DESCRIPTORES:
Epilepsia; Cuestionario de Salud del Paciente; Medicamentos bajo Prescripción; Polifarmacia; Trastornos del Humor.

HIGHLIGHTS

1. La mayoría de los pacientes tiene baja adherencia al tratamiento.

2. Los eventos adversos están asociados a síntomas de ansiedad moderados o graves.

3. La mayoría de los pacientes utilizaba carbamazepina para algún tipo de trastorno del estado de ánimo.

4. El 60% de los participantes reportaron haber tenido eventos adversos.

INTRODUÇÃO

A carbamazepina (CBZ) é um composto tricíclico inicialmente utilizado para tratar a neuralgia do trigêmeo, posteriormente, passou a ser indicada para depressão bipolar e epilepsia1-2. Mesmo com a variedade de opções disponíveis, a CBZ está entre os cinco medicamentos mais consumidos mundialmente para epilepsia, devido ao seu uso consolidado há décadas3. No Brasil, é um medicamento essencial e faz parte da Lista Nacional de Medicamentos4-5. É o tratamento de primeira linha para adultos com epilepsia focal, juntamente com fenitoína e ácido valproico. Além de ser indicada por protocolos clínicos para esquizofrenia, transtorno bipolar e mania, também pode ser utilizada, em conjunto com lítio, como estabilizador do humor para ansiedade e depressão4.

A frequência de uso da CBZ varia conforme a indicação terapêutica. Em um estudo com pacientes com epilepsia no Cazaquistão, 64,3% dos participantes a utilizaram6. Entre pacientes do Centro de Atenção Psicosocial (CAPS) no estado de Minas Gerais, as prescrições de CBZ foram de 5,11%7, e no município de Ijuí (noroeste do Rio Grande do Sul) de 6,4%8.

O mecanismo de ação da carbamazepina (CBZ) consiste no bloqueio dos canais de sódio dos neurônios e, consequentemente, na inibição da atividade neuronal de alta frequência repetitiva4. Os eventos adversos incluem tontura, ataxia, alterações mentais e motoras, hiponatremia e arritmias1-2. A incidência de eventos adversos e a adesão ao tratamento variam de acordo com o perfil da população9-10. Portanto, é de extrema importância verificar esses dados, uma vez que o nível de adesão à medicação está significativamente associado aos efeitos adversos9,11.

Considerando as particularidades descritas acima, relacionadas ao uso de CBZ, o objetivo do estudo foi descrever o perfil, os medicamentos associados, os eventuais eventos adversos (EA), o nível de ansiedade e a adesão dos usuários de CBZ.

MÉTODO

O estudo tem delineamento observacional, transversal, analítico e quantitativo, com o objetivo de descrever o perfil sociodemográfico, clínico e de uso de medicamentos de usuários de carbamazepina (CBZ) no sistema público de saúde de Ijuí, no Rio Grande do Sul. Este trabalho segue as diretrizes do STROBE (Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology). A pesquisa foi realizada com pacientes do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Colmeia e com usuários da Farmácia de Dispensação da Atenção Primária do Sistema Único de Saúde (SUS) de Ijuí, no Rio Grande do Sul, Brasil. O período de coleta de dados foi de janeiro a julho de 2023.

Os pacientes foram identificados por meio de a) um relatório de dispensação de carbamazepina (CBZ) no sistema informatizado de dispensação de medicamentos do município; b) acesso aos prontuários médicos do CAPS e identificação do uso de CBZ. Uma vez identificados, foram convidados a participar do estudo durante suas consultas no CAPS ou ao retirarem a CBZ na farmácia do SUS em Ijuí. Outra estratégia de recrutamento foi agendar a participação na pesquisa, convidando as pessoas, de acordo com sua disponibilidade, para participar no CAPS, na Farmácia Central ou em domicílio.

A partir dos relatos, selecionou-se uma população de 237 pessoas. Após exclusões e perdas, obteve-se uma amostra de 85 participantes (Figura 1). Os critérios de inclusão para o estudo foram: ter utilizado carbamazepina (CBZ) por pelo menos uma semana e ter mais de 18 anos de idade no período de coleta de dados. Foram excluídos pacientes com diagnóstico de câncer ou que não puderam responder aos questionários.

Figura 1
Fluxograma para a seleção e recrutamento de participantes. Ijuí, RS, Brasil, 2023 Fonte: Os autores (2023).

Os dados foram coletados após a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foi utilizado um questionário estruturado. A coleta de dados foi realizada pela proponente do estudo e por uma equipe previamente treinada. Os prontuários médicos dos participantes também foram consultados para confirmar o diagnóstico e a medicação administrada.

A adesão ao tratamento foi avaliada por meio do Brief Medication Questionnaire (BMQ), um instrumento previamente validado. O escore total do BMQ corresponde à soma dos seus três domínios: Regime, Crença e Recordação. Quando as pontuações dos três domínios são combinadas, a classificação é definida como: aderente, incluindo todos os pacientes sem respostas positivas em nenhum domínio; provável adesão, quando o paciente apresenta resposta positiva em um domínio; provável baixa adesão, quando há respostas positivas em dois domínios distintos; e baixa adesão, quando todos os domínios apresentam pontuação ≥ 212.

Os medicamentos utilizados foram classificados pela Classificação Anatômica, Terapêutica e Química (ATC)13. Os níveis de classificação utilizados foram o nível 1 (anatômico/farmacológico principal), o nível 2 (farmacológico ou terapêutico) e o nível 5, referentes ao medicamento em si. Os eventos adversos (EA) foram autorrelatados pelos participantes, que primeiro relataram se haviam ou não experimentado esses efeitos e, em seguida, se acreditavam que esses efeitos estavam relacionados à carbamazepina (CBZ) ou não.

A ansiedade dos participantes foi avaliada com o Inventário de Ansiedade de Beck (BAI), que identifica 21 sintomas de ansiedade observados na semana anterior. Cada sintoma pode ser pontuado de 0 a 3, sendo 3 o mais grave. Ao final, a pontuação total pode variar de 0 a 63 (quanto maior a pontuação, maior a ansiedade). A classificação geral da pontuação é: ansiedade mínima (0-7), ansiedade leve (8-15), ansiedade moderada (16-25) e ansiedade grave (26-63)14.

O índice de massa corporal (IMC) foi calculado dividindo-se o peso, em quilogramas (medido em uma balança digital Multilaser©), pelo quadrado da altura (medida com uma fita métrica).

As variáveis do estudo foram: sexo, idade, escolaridade, IMC, medicamentos utilizados, doenças, EA (de acordo com a bula do medicamento), nível de ansiedade e grau de adesão.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, com parecer nº 5.840.304, de 27 de dezembro de 2022.

Todas as análises foram realizadas utilizando o software Statistical Package for the Social Science (SPSS Inc., Chicago, IL, EUA), versão 23.0. A normalidade dos dados foi testada pelo teste de Kolmogorov-Smirnov. Os dados contínuos são apresentados como média ± desvio padrão (DP), e os dados categóricos como frequência absoluta e relativa. O teste qui-quadrado de Pearson foi utilizado para verificar a associação entre duas ou mais variáveis qualitativas. Um nível de significância de 5% foi adotado para todos os testes.

RESULTADOS

Dos 85 participantes, 47 eram do sexo masculino (55,3%), 91,8% se declararam brancos, 7,1% pardos e 1,2% negros. A maioria era casada 39 (45,9%) e tinha ensino fundamental incompleto 38 (44,7%) (Tabela 1). A idade média foi de 49,00 ± 15,2 anos, com mínimo de 20 e máximo de 79 anos. O IMC médio foi de 29,5 ± 8,1.

Tabela 1
Estado civil, escolaridade e IMC de usuários de carbamazepina no Sistema Único de Saúde do município de Ijuí (n=85). Ijuí, RS, Brasil, 2023

Em relação às doenças gerais (autorrelatadas), a epilepsia foi a mais comum, presente em 37 casos (43,5%), seguida da hipertensão arterial. Além disso, 14 participantes (16,5%) afirmaram não saber o motivo do uso de carbamazepina. O tempo médio de uso desse medicamento foi de 160,2 ± 127,5 meses, com um mínimo de 1 mês e um máximo de 624 meses. A maioria dos participantes relatou ter experimentado eventos adversos (EA), com 51 casos (60,0%), e 17 (20,0%) acreditavam que esses eventos estavam associados ao uso de carbamazepina. O efeito mais comum mencionado pelos participantes foi sonolência, com 34 casos (40%), seguida por tontura, com 30 casos (35,3%). Os demais dados estão apresentados na Tabela 2.

Tabela 2
Doenças e eventos adversos autorrelatados entre usuários de carbamazepina do Sistema Único de Saúde no município de Ijuí (n=85). Ijuí, RS, Brasil, 2023

A maioria dos participantes, 82 (96,5%), utilizava outro medicamento além da carbamazepina de forma contínua. O número médio de medicamentos foi de 5,2 ± 2,6, sendo a fluoxetina a mais utilizada, 24 (28,20%), seguida pelo omeprazol e pela sinvastatina, 18 (21,2%). Além dos medicamentos apresentados na Tabela 3, outros 47 foram descritos pelos participantes. No entanto, estes foram utilizados por apenas 1,20% da amostra e não estão incluídos na tabela. Mais da metade dos participantes foi considerada polimedicada, 43 (51,8%), por utilizarem 5 ou mais medicamentos.

Tabela 3
Classificação anatômica, terapêutica e química dos medicamentos utilizados por usuários de carbamazepina no sistema de saúde de Ijuí (n=85). Ijuí, RS, Brasil, 2023

De acordo com o Inventário de Ansiedade de Beck, a média de pontos obtidos foi de 14,02 ± 11,8, com mínimo de 0, máximo de 50 e mediana de 11. Ao classificar os pacientes utilizando o Inventário de Ansiedade de Beck, a maioria dos participantes 34 (40,0%) apresentou grau mínimo de ansiedade, e 13 (15,3%) apresentaram sintomas de ansiedade grave (Tabela 4). Em relação à adesão ao tratamento, 38 participantes (44,7%) apresentaram provável baixa adesão, enquanto apenas três (3,5%) foram aderentes. Quanto ao diagnóstico médico confirmado nos prontuários, a maioria dos participantes apresentou algum transtorno de humor (Tabela 4).

Tabela 4
Diagnóstico segundo a CID-10 descrito nos prontuários médicos, nível de adesão ao tratamento e ansiedade entre usuários de carbamazepina do Sistema Único de Saúde (SUS) do município de Ijuí (n=85). Ijuí, Rio Grande do Sul, Brasil, 2023

Em relação aos sintomas de ansiedade, os pacientes foram divididos em dois grupos: pacientes com baixa ansiedade, 54 (63,5%) e pacientes com ansiedade moderada/alta, 31 (36,5%). A ocorrência de eventos adversos (EA) relacionados ao uso da medicação (não necessariamente da carbamazepina) foi avaliada nesses grupos. Entre os pacientes com baixa ansiedade, 29 (34,1%) não relataram nenhum EA, enquanto entre os pacientes com ansiedade moderada/alta, apenas 5 (5,9%) não relataram nenhum EA. Assim, observou-se uma associação significativa entre menor frequência de EAs e baixa ansiedade (p=0,001). Além disso, ao estratificar a população por indicação terapêutica, a frequência de ansiedade moderada/alta foi maior em pacientes com transtornos de humor (19; 76%), enquanto, naqueles com epilepsia, foi de 6 (24%) (p=0,030).

DISCUSSÃO

No presente estudo, observou-se maior uso de anticonvulsivantes no manejo de transtornos de humor, o que indica um perfil de prescrição distinto do observado em outros contextos. Em um estudo realizado na Colômbia, por exemplo, a epilepsia foi a principal indicação para o uso desses medicamentos, seguida por dor neuropática (26,8%), transtornos afetivos (14,2%) e profilaxia da enxaqueca (12,3%).15

Embora a maioria dos participantes tenha apresentado baixa adesão ao tratamento, outros estudos16-17, com pacientes cujas doenças indicam o uso de CBZ, descreveram participantes com maior adesão ao tratamento. Em uma pesquisa com indivíduos com transtorno bipolar, 51% relataram baixa adesão, e os indivíduos não aderentes apresentavam idade mais jovem, conflitos familiares, polifarmácia, menor funcionamento, maior gravidade dos sintomas de humor e comorbidades17.

Resultados semelhantes foram encontrados em um estudo nos Estados Unidos com pacientes com transtorno bipolar, no qual apenas 28% foram considerados aderentes18. No entanto, vale ressaltar que as diferenças observadas na literatura podem ser atribuídas às diferentes populações, quanto às doenças incluídas, aos medicamentos utilizados e aos diferentes questionários de adesão empregados. Fatores que afetam a adesão ao tratamento incluem dificuldades de acesso à medicação, multimorbidades, polifarmácia, grau de confiança no profissional de saúde, crenças, autopercepção negativa da saúde, incapacidade funcional, reações adversas a medicamentos, menor escolaridade e barreiras logísticas (acesso à medicação, renovação da prescrição em tempo hábil)10,19-20. A baixa adesão ao tratamento farmacológico impacta o controle da doença, podendo levar à falha terapêutica, agravamento do quadro e aumento de eventos adversos20.

Foram observadas diferenças no perfil de eventos adversos em comparação com estudos envolvendo pacientes epilépticos, nos quais o cansaço (30,4%), a cefaleia (22,5%) e a dificuldade de concentração (19,6%) foram os sintomas mais frequentemente relatados9. No entanto, os sintomas estão de acordo com a bula da carbamazepina, que descreve ataxia, vertigem, sonolência, vômitos e náuseas como eventos adversos muito comuns21. Não foram encontrados estudos comparativos que incluíssem pacientes com transtornos de humor e epilepsia em suas populações, como é o caso deste estudo. Embora os eventos adversos analisados sejam possivelmente devidos à carbamazepina, uma vez que foram atribuídos a ela em estudos anteriores, o uso concomitante de outros medicamentos deve ser considerado, uma prática que ocorreu entre os participantes deste estudo.

Pacientes em polifarmácia, que representaram metade da amostra, podem ser mais suscetíveis a eventos adversos (EA) e interações medicamentosas2,5. Além disso, alguns medicamentos utilizados pelos participantes deste estudo podem resultar em EA semelhantes, como a sinvastatina, que pode causar efeitos colaterais como cefaleia, dor abdominal, náuseas, vômitos e tonturas2,5. Em relação às interações medicamentosas, destaca-se que a fluoxetina é um inibidor da enzima CYP3A4, que metaboliza a carbamazepina, aumentando as concentrações plasmáticas de carbamazepina e, consequentemente, seus efeitos colaterais, quando utilizada concomitantemente. Outros medicamentos relatados nesta população têm potencial para interagir com a carbamazepina, como o ácido valproico, a quetiapina, a amitriptilina e o omeprazol2,5,21. Esses dados justificam a ocorrência de EA atribuída tanto à carbamazepina quanto aos medicamentos utilizados concomitantemente.

Em relação ao estado de ansiedade dos participantes, 15,3% apresentaram sintomas mais graves. Esses resultados são semelhantes aos de epilépticos tratados em um centro hospitalar no Canadá, que utilizou dois questionários de avaliação, nos quais 12,3% apresentaram resultados positivos para sintomas de ansiedade (BAI ≥ 22) e 30,3% para sintomas de TAG (GAD-7 > 7 - Transtorno de Ansiedade Generalizada-7)22. Assim como no presente estudo, uma pesquisa realizada no México identificou uma correlação entre EA e a escala de ansiedade e depressão HADS; entretanto, esse estudo avaliou diversos anticonvulsivantes e também indica que a gravidade dos efeitos colaterais pode estar correlacionada com transtornos psiquiátricos23. O baixo nível de ansiedade em parte da população também pode ser explicado pelos próprios resultados do estudo, visto que alguns usuários de CBZ utilizam o medicamento para condições neurológicas, nas quais a ansiedade não é um sintoma central. Isso foi observado na análise estatística, que demonstrou maior ansiedade especificamente em pacientes com transtornos de humor. É importante destacar que mais de um terço da população estudada apresentou ansiedade moderada ou alta (36,2%).

Em relação às doenças autorrelatadas, a alta prevalência de epilepsia se justifica pelo fato de ser uma das indicações terapêuticas da carbamazepina (CBZ)24 e um critério de inclusão neste estudo, enquanto a hipertensão se deve à alta prevalência dessa doença em brasileiros25. Cabe ressaltar que as doenças não relacionadas à prescrição de CBZ foram obtidas somente por meio de autorrelato. Isso ocorreu porque os registros clínicos locais são incompletos, visto que os pacientes no Brasil consultam tanto serviços médicos públicos quanto privados, e não existe um banco de dados único para acessar essas informações. Isso justifica a obtenção de algumas informações por meio de autorrelato, embora o viés dessa forma de coleta de dados seja conhecido.

A presença de diversas doenças na população pode estar relacionada à alta frequência de polimedicação. Entre os medicamentos mais comumente utilizados estão a fluoxetina, o omeprazol e a sinvastatina. Em um estudo com usuários de CAPS em uma região de Minas Gerais, os medicamentos mais prescritos foram haloperidol, clonazepam, biperideno, diazepam e ácido valproico e a CBZ foi utilizada por apenas 5,11% dos usuários de CAPS7. Na Colômbia, analgésicos, antiulcerosos, anti-histamínicos e antidepressivos foram mais frequentes em uma população com epilepsia.15. De forma semelhante aos resultados do presente trabalho, no Distrito Federal brasileiro, a fluoxetina foi um dos psicotrópicos mais dispensados em uma farmácia pública do SUS26. Cabe destacar que os estudos utilizados para fins de comparação diferem em termos de local de realização e público-alvo, o que pode justificar certas diferenças nos resultados. Além disso, a carbamazepina faz parte da Lista Nacional de Medicamentos Essenciais (RENAME) no Brasil e é um medicamento essencial para a atenção primária à saúde. Na cidade do estudo, estava disponível gratuitamente no SUS, pois constava na Lista Municipal de Medicamentos Essenciais (REMUME)4.

O que explica a maior frequência de uso de fluoxetina na população é o fato de ser um dos medicamentos disponíveis gratuitamente pelo SUS na cidade do estudo. Isso também pode estar relacionado à sua indicação terapêutica como antidepressivo, por ser um inibidor seletivo da recaptação de serotonina (ISRS)2,5. Segundo os prontuários médicos, 16,8% tinham diagnóstico de depressão (isolada ou associada), enquanto 15,3% autorrelataram essa condição no questionário. Diversos outros transtornos psiquiátricos também apresentam resposta clínica ao uso de inibidores seletivos da recaptação de serotonina, incluindo transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno do pânico, transtorno de ansiedade generalizada e bipolaridade2,5.

A alta frequência de uso de sinvastatina poderia estar relacionada ao risco de desenvolvimento de dislipidemia devido ao uso de carbamazepina (CBZ)27. Resultados in vitro sugerem que a CBZ está associada a um aumento no nível de colesterol não-HDL, causado por uma redução na expressão da CYP7A1 (colesterol 7-hidroxilase), enzima que controla a taxa de metabolismo do colesterol28. Além disso, de acordo com estudos em animais, a CBZ promove alterações nas atividades enzimáticas e nos níveis de transcrição de enzimas/genes relacionados ao metabolismo lipídico, regulando positivamente a lipogênese29. Esse uso poderia, portanto, ser justificado por iatrogenia ou pelas características dietéticas dessa população, o que requer mais pesquisas.

Em relação aos dados sociodemográficos, a maioria era do sexo masculino, assim como no estudo realizado na Turquia30, enquanto na Jordânia a prevalência foi do sexo feminino16. A idade média dos participantes no estudo realizado no hospital turco foi de 45 anos 30, semelhante à observada no presente estudo, de 49 anos. Em contrapartida, o estudo realizado nos Estados Unidos apresentou uma idade média de pacientes inferior, de 35 anos, mas cabe ressaltar que esse estudo incluiu apenas pacientes com transtornos de humor18.

Com base nos dados encontrados neste estudo, como polimedicação e eventos adversos entre usuários de carbamazepina, além da baixa adesão, essas informações precisam ser usadas para apoiar o desenvolvimento de um acompanhamento diferenciado e cuidadoso para esses pacientes, a fim de alcançar melhores resultados de tratamento e qualidade de vida.

As limitações incluem a falta de informações nos prontuários médicos, incluindo a ausência de um diagnóstico (CID-10) para 15% dos participantes do estudo, bem como a falta de dados para identificar o tipo de epilepsia. Poucos estudos sobre a mesma população e o uso de carbamazepina para transtornos de humor foram encontrados, o que dificulta as comparações; além dos dados autorrelatados sobre como as doenças e os eventos adversos foram relatados. No entanto, aponta-se um diferencial neste estudo: buscou fornecer mais informações sobre os usuários de carbamazepina.

CONCLUSÃO

Entre os principais achados, observou-se maior frequência de uso de carbamazepina (CBZ) para transtornos de humor. Fluoxetina, omeprazol e sinvastatina foram os fármacos mais utilizados pelos participantes, seguidos pela carbamazepina. Metade da população foi identificada como polimedicada, apenas 3,5% aderiram ao tratamento e a frequência de eventos adversos (EA) autorrelatados foi alta. O diferencial do estudo foi a inclusão de diferentes diagnósticos para o uso de CBZ, o que permitiu um conhecimento mais aprofundado do perfil desses pacientes no Brasil, visto que há poucos dados sobre essa população na literatura.

  • *
    Artigo extraído da dissertação do mestrado: “Carbamazepina: perfil de uso, biomarcadores de estresse oxidativo e variantes genéticas”, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Ijuí, RS, Brasil, 2024.
  • COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
    Kleibert KRU, Andres ATG, Krause LS, de Melo VF, Kolankiewicz ACB, Botton MR, et.al. Carbamazepina: perfil de uso, medicamentos associados, eventos adversos e adesão ao tratamento - um estudo transversal. Cogitare Enferm [Internet]. 2026 [cited “insert year, month and day”];31:e100997pt. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v31i0.100997pt
  • FINANCIAMENTO
    Este estudo foi parcialmente financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código Financeiro 001.

Disponibilidade de dados:

Os autores declaram que os dados estão disponíveis de forma completa no corpo do artigo.

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Editado por

  • Editor associado:
    Dra. Cremilde Aparecida Trindade Radovanovic

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    27 Ago 2025
  • Aceito
    02 Mar 2026
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