RESUMO
Objetivo: analisar o perfil dos usuários frequentes de um Serviço de Urgência Polivalente nos Açores, Portugal, relacionando caraterísticas sociodemográficas, clínicas e de tempo.
Método: estudo retrospetivo de abordagem quantitativa sobre a utilização de um Serviço de Urgência Polivalente nos Açores, Portugal, de 1 de janeiro a 31 de dezembro de 2022. A população incluiu todos os usuários com quatro ou mais visitas. Os dados foram extraídos da Glintt Healthcare® em outubro de 2023, com analise estatística descritiva.
Resultados: 6.553 (11,8%) eram usuários frequentes, predominantemente femininos (55,8%), ≤ 30 anos, solteiros (54,6%), residentes em Ponta Delgada (60,3%) e que recorreram sem referenciação (97%). Chegaram de ambulância (16,7%), com prioridades pouco e não urgentes (50%), apresentando pelo menos uma comorbidade (67%), taxa de internações (8,6%) e maior procura às segundas-feiras (15,8%).
Conclusão: é urgente integrar cuidados primários e hospitalares, promovendo parcerias para melhorar a assistência, avaliando se vulnerabilidades influenciam o uso excessivo do sistema de saúde.
DESCRITORES:
Perfil de Saúde; Fatores Sociodemográficos; Mau Uso de Serviços de Saúde; Enfermagem em Emergência; Necessidades e Demandas de Serviços de Saúde.
HIGHLIGHTS
Melhora da atividade assistencial com estratégias integradas.
Utilização dos serviços de urgência exige intervenções estratégicas.
Fatores de procura incluem acessibilidade a cuidados de saúde primários.
Padrões temporais indicam picos de procura diurnos.
ABSTRACT
Objective: to analyze the profile of frequent users of a Multipurpose Emergency Service in the Azores, Portugal, relating sociodemographic, clinical and time characteristics.
Method: a retrospective study with a quantitative approach on the use of a Multipurpose Emergency Service in the Azores, Portugal, from January 1 to December 31, 2022. The population included all users with four or more visits. Data were extracted from Glintt Healthcare® in October 2023, with descriptive statistical analysis.
Results: 6,553 (11.8%) were frequent users, predominantly female (55.8%), ≤ 30 years old, single (54.6%), living in Ponta Delgada (60.3%) and who sought treatment without referral (97%). They arrived by ambulance (16.7%), with low and non-urgent priorities (50%), presenting at least one comorbidity (67%), hospitalization rate (8.6%) and higher demand on Mondays (15.8%).
Conclusion: it is urgent to integrate primary and hospital care, promoting partnerships to improve care, assessing whether vulnerabilities influence the excessive use of the healthcare system.
DESCRIPTORS:
Health Profile; Sociodemographic Factors; Health Services Misuse; Emergency Nursing; Health Services Needs and Demand.
HIGHLIGHTS
Improvement of healthcare activity with integrated strategies.
Use of emergency services requires strategic interventions.
Demand factors include accessibility to primary healthcare.
Temporal patterns indicate daytime peaks in demand.
RESUMEN
Objetivo: analizar el perfil de los usuarios frecuentes de un Servicio de Emergencias Polivalentes en las Azores, Portugal, relacionando características sociodemográficas, clínicas y temporales.
Método: estudio retrospectivo con enfoque cuantitativo sobre el uso de un Servicio de Emergencia Polivalente en las Azores, Portugal, del 1 de enero al 31 de diciembre de 2022. La población incluyó a todos los usuarios con cuatro o más visitas. Los datos se extrajeron de Glintt Healthcare® en octubre de 2023, con análisis estadístico descriptivo.
Resultados: 6.553 (11,8%) eran usuarios frecuentes, predominantemente mujeres (55,8%), ≤ 30 años, solteros (54,6%), residentes en Ponta Delgada (60,3%) y que acudían sin derivación (97%). Llegaron en ambulancia (16,7%), con prioridades bajas y no urgentes (50%), presentando al menos una comorbilidad (67%), tasa de hospitalización (8,6%) y mayor demanda los lunes (15,8%).
Conclusión: es urgente integrar la atención primaria y hospitalaria, promoviendo alianzas para mejorar la atención, evaluando si las vulnerabilidades influyen en el uso excesivo del sistema de salud.
DESCRIPTORES:
Perfil de Salud; Factores Sociodemográficos; Mal uso de los Servicios de Salud; Enfermería de Urgencia; Necesidades y Demandas de Servicios de Salud.
HIGHLIGHTS
Mejora de las actividades asistenciales con estrategias integradas.
El uso de los servicios de emergencia requiere intervenciones estratégicas.
Los factores de demanda incluyen la accesibilidad a la atención primaria de salud.
Los patrones temporales indican picos de demanda diurnos.
INTRODUÇÃO
O serviço de urgência (SU) é, por diversos motivos, considerado a porta de entrada do Serviço Nacional de Saúde (SNS)1, verificando-se, cada vez mais, “uma afluência crescente e um aumento das exigências de qualidade, a par da necessidade da redução de custos”2:17. O SU é caracterizado como uma unidade multidisciplinar e multiprofissional cuja missão é prestar cuidados de saúde em todas as situações classificadas como urgências ou emergências. Consideram-se urgências e emergências as situações que, em virtude de sua gravidade, de acordo com critérios clínicos adequados, requerem intervenção médica imediata3.
Atualmente, em Portugal, existem três níveis de SUs: SUs Básica, que são o primeiro ponto de atendimento e estão disponíveis sempre que o tempo de acesso a um serviço de nível superior ultrapassa 60 minutos; SUs Médico-Cirúrgica, que formam o segundo nível e são posicionados estrategicamente para garantir que o acesso a outro serviço equivalente ou superior não leve mais de 60 minutos; e SUs Polivalente, que representam o nível mais avançado de atendimento e estão normalmente localizados em hospitais centrais ou centros hospitalares, equipados com todos os recursos necessários para lidar com qualquer situação de urgência ou emergência2.
A colaboração eficiente entre os diversos profissionais de saúde e a organização adequada desses serviços são essenciais para melhorar o atendimento e salvar vidas. No entanto, nos últimos anos, tem-se observado um fenómeno de sobrelotação dos SUs, “maioritariamente devido ao número excessivo de” usuários “não urgentes”2:ix, o que “demonstra a incapacidade dos serviços de proximidade”2:2 de responder adequadamente. A conveniência por parte do usuário no acesso 24 horas por dia a um serviço de saúde e a facilidade em realizar exames e obter terapêutica4 são fatores que atraem os usuários.
O uso inapropriado do SU para resolver situações não urgentes é um fenómeno universal2 que consome um excessivo número de recursos humanos e financeiros1. De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Portugal foi, em 2021, o país com maior taxa de admissão em SU, com 63 admissões por cada 100 habitantes, o que traduz um valor significativamente maior do que a média da OCDE, que é de 27 admissões5. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2021, foram realizados 6,5 milhões de atendimentos nos SUs dos hospitais, correspondendo a mais 14,3% do que em 2020. Em 2021, 80,2% dos atendimentos foram realizados em hospitais públicos, tendo predominado as urgências de tipo geral (74,7%) e as urgências pediátricas (19,2%)6.
É fundamental fazer a distinção entre os usuários que procuram as urgências por episódios não urgentes e aqueles que se deslocam de forma excessiva a esses serviços7 em um determinado período de tempo. Esses indivíduos, embora em número reduzido, constituem a população responsável por uma significativa percentagem dos episódios totais de urgência8-9. Esses indivíduos são conhecidos como usuários frequentes, sendo também denominados por hiperusuários10.
Apesar da diversidade e falta de consenso na definição de “usuário frequente”, o presente estudo considerou, tendo em conta o número de episódios registados, o limiar de quatro ou mais visitas anuais, alinhando-se com parte da literatura nacional1,11 e internacional9,12-14 mais recente. Contudo, importa mencionar que as diversas definições existentes dificultam comparações entre estudos e realidades distintas. Segundo a literatura, os usuários frequentes são responsáveis por cerca de 14,6% a 47% dos episódios de urgência15.
Definir as características do usuário frequente configura-se um desafio, pois, apesar da aparente heterogeneidade e complexidade dessa população, a sua compreensão é contextual, o que dificulta a generalização dos dados9. Estudos transversais desenvolvidos em todo o mundo sobre o perfil desses usuários indicam que fatores sociodemográficos e clínicos influenciam a frequência dos episódios de urgência13,16-17.
O principal objetivo do presente estudo é analisar o perfil dos usuários frequentes de um SU Polivalente na Região Autónoma dos Açores, Portugal, relacionando as características sociodemográficas, clínicas e de tempo. Procura-se compreender se determinadas condições de vulnerabilidade que predispõem ao uso abusivo do SU. A compreensão e resolução do fenómeno de sobrelotação tornam-se fulcrais para desenvolver intervenções personalizadas, mitigar a afluência e garantir uma melhoria da qualidade da prestação de cuidados de saúde em contexto de urgência.
MÉTODO
Estudo retrospetivo de abordagem quantitativa, realizado através da análise dos dados referentes à utilização de um SU Polivalente da Região Autónoma dos Açores, Portugal, que faz parte do terceiro nível de atendimento e representa a resposta mais avançada às situações de urgência e emergência. A população-alvo é constituída por todos os usuários (lactentes, crianças, adultos e idosos) com quatro ou mais visitas ao SU no período compreendido entre 1 de janeiro e 31 de dezembro de 2022. No conjunto de dados analisado, não foram identificados registros incompletos, não sendo necessária a exclusão ou imputação de dados.
Os dados utilizados foram obtidos em outubro de 2023, a partir de um instrumento estruturado pelos pesquisadores. Foram analisados dois bancos de dados distintos: um concedido pelo serviço de informática de apoio à gestão, em formato Excel®, com informação referente a todos os episódios de urgência ocorridos durante o período em estudo; e o outro estruturado com recurso à consulta do processo eletrónico dos usuários, constante do sistema integrado de informação hospitalar Glintt Healthcare®, plataforma utilizada para a gestão de dados clínicos e administrativos em unidades de saúde, permitindo o acesso ao histórico dos utilizadores, integrando informações sobre consultas, episódios de urgência, exames e terapêutica, tendo sido analisada a informação fornecida pelos múltiplos episódios de cada vinda ao SU.
A seleção das variáveis em estudo foi realizada após revisão bibliográfica aprofundada sobre o tema, uma vez que a definição do perfil do usuário frequente do SU implica identificar e quantificar diferentes características individuais, sociais, económicas e clínicas dos usuários. Para o efeito, foram recolhidos dados administrativos individuais referentes ao género e idade, hora, dia e mês de admissão, concelho de residência, pagamento, ou não, de taxas moderadoras, proveniência, meios de deslocação utilizados e existência, ou não, de médico de família. Foram também recolhidas informações relativas ao número de fármacos, de internações, número médio de dias de internação, grau de dependência para as atividades de vida diária, comorbidades, cor de prioridade e destino após alta do SU.
A análise dos dados recolhidos foi organizada no software Excel®, versão 2016, de acordo com os objetivos definidos para este trabalho de investigação, sendo realizada análise estatística descritiva.
Para garantir o cumprimento dos princípios éticos e das normas regulamentares atualmente em vigor, a realização do estudo foi alvo de autorização por parte da Comissão de Ética do Hospital do Divino Espírito Santo, EPER, tendo o pedido de autorizado sido registado internamente com o juízo 1403/CES-HDESPD/2023, aprovado em 14 de setembro de 2023. Ao longo de toda a investigação, foram cumpridas as disposições éticas inerentes a este tipo de estudo, garantido o anonimato e a confidencialidade inerentes à utilização dos bancos de dados administrativos.
RESULTADOS
No SU Polivalente, durante o ano de 2022, foram admitidos 55.392 usuários, que contabilizaram 108.859 episódios de urgência. Deste número, 6.553 (11,8%) foram identificados como usuários frequentes, responsáveis por 37.151 (34,1%) de todas as admissões, com uma média de 5,7 visitas anuais. A média das idades do usuário frequente foi de 34,3 anos, tendo sido considerada como idade mínima zero anos e a máxima 100 anos. A idade que surgiu com maior frequência foi de zero anos. O usuário com maior número de visitas ao SU apresentou 71 episódios de urgência em um só ano. Na Tabela 1, podem ser consultadas informações mais detalhadas da descrição sociodemográfica dos episódios.
A maioria dos episódios registados pertence a usuários do sexo feminino (55,8%), e cerca de 49,9% têm uma idade compreendida entre os zero e os 30 anos. De acordo com os dados analisados, a maioria do número de episódios diz respeito a usuários moradores no concelho de Ponta Delgada, e a minoria, a usuários do concelho de Nordeste, e o nível outros refere-se a concelhos de outros pontos do país. Quanto à proveniência, verificou-se que 97% dos episódios têm origem no exterior, ou seja, os usuários recorrem diretamente ao SU sem qualquer contacto prévio com os cuidados de saúde primários, e apenas 3% dos usuários recorrem ao SU por indicação de um profissional de saúde. Em relação ao meio de transporte, observou-se que 16,7 % dos episódios produzidos chegam de ambulância, e 82,4% dirigem-se por meios próprios. Os restantes usuários (0,9%) deslocaram-se ao SU através do Suporte Imediato de Vida ou de avião.
Sob a perspetiva de análise da descrição clínica dos episódios (Tabela 2), constatou-se que 67% dos usuários frequentes apresentava pelo menos uma comorbidade, com uma média de duas patologias por cada usuário frequente. As patologias cardiovasculares e psiquiátricas apresentaram alta prevalência entre esses usuários, sendo registados 1.723 casos de doenças cardiovasculares e 1.628 casos de diagnósticos de transtornos mentais.
Em relação à medicação habitual, observou-se que esses usuários fazem uso médio de cerca de três fármacos. Do total de 37.151 episódios gerados pelos usuários frequentes, constatou-se que 8,6% resultaram em internações, com uma média de 5,3 dias por episódio de internação. A faixa etária “maior de 65 anos” foi responsável por 1.681 (52%) das internações geradas pelos usuários frequentes no ano de 2022.
Quanto à distribuição absoluta e relativa dos episódios de urgência por prioridade de atendimento, verificou-se que as prioridades “pouco urgente” e “não urgente” corresponderam a 18.549 (50%) do total de admissões geradas pelos usuários frequentes. A faixa etária dos “mais de 65 anos” representa 38,5% do total das prioridades “muito urgente” e 23,9% das prioridades “urgentes”.
Ao analisar a distribuição dos episódios, sob a perspetiva dos meses, dias e horas, identificou-se que as admissões dos usuários frequentes não são uniformes ao longo dos meses, dias da semana ou horas do dia (Tabela 3).
Distribuição dos episódios por meses, dias e horas em 2022. Ponta Delgada, RAA, Portugal, 2023
Com base nos dados apresentados, ressalta-se que, na distribuição mensal dos episódios, não foram identificadas variações significativas que revelem uma sazonalidade marcante ao longo do ano, embora se observe que o mês de fevereiro foi o mês com menor procura por este perfil de usuário (6,6%). Por oposição, o mês de maio foi o mês que registou o maior número de episódios (9,6%).
A análise dos dados mostra que a segunda-feira foi o dia com maior procura de cuidados de urgência (15,8%), observando-se uma diminuição gradual ao longo da semana e atingindo o menor volume de episódios durante o fim-de-semana. Em relação ao horário de admissão no SU, a análise dos dados permitiu aferir a existência de um pico de procura durante o período das 8 às 12 horas. É notório que o período das 8 às 16 horas compreende a maioria dos episódios gerados pelos usuários frequentes (52,8%).
Os resultados apresentados constituem a base primária para a construção de uma discussão substancial e profunda sobre os fenómenos observados. A relação intrínseca entre os resultados e a discussão é fundamental para entender, não apenas o que foi observado, mas também para explorar o motivo dos padrões identificados.
DISCUSSÃO
Os dados recolhidos revelam alguns padrões, fornecendo insights fundamentais sobre a interação que existe entre variáveis específicas e o fenómeno observado. Explorar-se-ão agora os resultados obtidos, pretendendo-se contextualizá-los dentro do panorama científico atual, destacando semelhanças, diferenças e contribuições deste estudo para a compreensão ampla do fenómeno.
À semelhança de estudos realizados em diversos países, observa-se uma relevante proporção de usuários frequentes (11,8%), superando a média nacional para o mesmo período (4%)18. Na sua maioria, estudos em contexto internacional12-14,17 revelam prevalências menores, contudo estudo realizado no Canadá19 apresenta uma taxa mais elevada (13,8%-15,3%). Essa disparidade pode refletir, não só variações nas populações-alvo, mas também um viés decorrente da ausência de uma definição consensual para “usuários frequentes”.
A presença de uma elevada prevalência de usuários em idade pediátrica parece contrariar o perfil demográfico de outros estudos1,13,17,20-21. Apesar da evolução dos indicadores demográficos, as últimas décadas mostram que Portugal segue uma tendência de envelhecimento progressivo, e a ilha de São Miguel contrapõe essa dinâmica ao apresentar indicadores favoráveis. Especificamente nos sensos de 2021, observa-se uma proporção mais equilibrada entre jovens e idosos, com uma razão de 93 idosos por cada 100 jovens, em nítido contraste com os 183 idosos para cada 100 jovens residentes no país22. Relativamente à diferença entre géneros, a análise dos dados revela que o sexo feminino é responsável por mais de 10,6% dos episódios comparativamente ao sexo masculino, dados que vão ao encontro de outros trabalhos publicados13,19,17,23.
A proximidade geográfica entre o domicílio do usuário frequente e a unidade de urgência desempenha um papel fulcral na acessibilidade e tomada de decisão relacionada à procura por este perfil de cuidados de saúde. Estudo transversal realizado no Hospital de Lausanne, na Suíça24, concluiu que os usuários a residir mais próximo do SU têm 4,4 vezes mais probabilidade de serem usuários frequentes do que aqueles que vivem mais longe.
No contexto do presente estudo, observaram-se alguns padrões. Constatou-se que as áreas geográficas mais próximas da unidade hospitalar (concelhos de Ponta Delgada, Lagoa e Ribeira Grande) registaram o maior número de episódios de utilização, fenómeno também verificado no âmbito de outros trabalhos9,13. Essa associação pode ser parcialmente explicada pelo facto de essas áreas geográficas apresentarem uma maior densidade populacional. Contudo, ao calcular o índice de utilização do SU por 100 habitantes, é notório que os concelhos de Lagoa e de Ponta Delgada apresentam números que se destacam dos demais concelhos, com 34 e 33 episódios por 100 habitantes, respetivamente, circunstância que poderá estar relacionada com eventuais desafios ao nível do acesso aos cuidados de saúde primários, pois esses conselhos não possuem unidades básicas de urgência e a lista de espera para consulta programável é considerável. Este dado, ao contrário das expectativas convencionais, sugere que a procura por cuidados de urgência nessas áreas não é apenas impulsionada pela proximidade física, mas também por outros fatores, como a acessibilidade aos cuidados de saúde.
Um dado importante na compreensão dos padrões de procura por cuidados de saúde surge ao abordarmos as comorbidades existentes. Muitos estudos identificam que uma componente significativa dessa dinâmica é a existência de condições de saúde preexistentes, que impactam diretamente a frequência e natureza das interações com os SUs1,17,21. Os resultados desta pesquisa estão em consonância com os achados dos estudos mencionados anteriormente1,17,21, demonstrando que a maioria da população estudada possui condições médicas preexistentes. Além disso, observa-se que o uso de medicamentos entre os usuários é frequente, embora em menor quantidade em comparação com o estudo realizado em Castelo Branco1.
A prioridade de atendimento é uma variável que importa discutir, pois permite compreender a dinâmica dos usuários frequentes do SU. A análise dos dados revela que a maioria dos usuários frequentes (53,9%) foi classificada com prioridade pouco urgente, não urgente ou sem motivo aparente de urgência, facto corroborado por algumas literaturas analisadas13,20,25. Este padrão sugere uma dinâmica na qual a demanda por cuidados de urgência não está alinhada com a gravidade imediata do episódio de urgência. A compreensão desta discordância é fundamental para a construção de abordagens eficazes dentro da sociedade na gestão da procura por cuidados de urgência.
Considerando que as internações frequentemente refletem a gravidade e urgência dos episódios, o número observado neste estudo, embora relevante, pode ser interpretado de várias formas, já que outros estudos relatam valores superiores26-27. Essa informação pode indicar uma maior prevalência de episódios não urgentes, indicando uma utilização dos SUs de casos que poderiam ser geridos em outros contextos de saúde. Por outro lado, podem estar relacionados a fatores sistémicos, como a capacidade de resposta dos serviços de saúde, ou características específicas do contexto local.
Analisar o momento específico da admissão, incluindo o mês, dia e hora, torna-se relevante, pois essa análise temporal proporciona insights sobre os padrões de procura por cuidados em contexto de urgência. Ao considerar-se o momento da admissão, consegue-se identificar tendências sazonais, dias da semana mais críticos e horas de pico, enriquecendo a compreensão dos fatores que influenciam a utilização do SU por parte dessa população.
O número de visitas realizadas ao longo do ano apresenta uma pequena variação de 3% entre o mês com maior e menor procura. Os usuários frequentes recorreram mais ao SU durante o mês de maio, verificando-se que o mês de fevereiro é o mês com menor procura, o que poderá ser justificado pelo facto deste mês possuir menos dias que os restantes meses do ano.
A segunda-feira foi o dia da semana com maior procura, verificando-se uma diminuição dos episódios ao longo da semana, com o fim-de-semana a apresentar menor número de episódios, dados que vão ao encontro dos resultados obtidos no âmbito de outros estudos20,28. Julga-se que a maior procura de cuidados na segunda-feira deve-se à reduzida disponibilidade de serviços de saúde durante o fim-de-semana, o que resulta na aglomeração de episódios no SU, na segunda-feira, de usuários que foram acometidos por problemas de saúde durante o sábado e domingo.
Em relação à hora de admissão, neste estudo, verificou-se uma maior afluência no período das 8 às 12 horas, seguido do período das 12 às 16 horas. Resultados de alguns estudos apontam o horário diurno como o período mais frequente20,23,28. A preferência dos usuários frequentes pelo horário diurno pode ser atribuída a vários fatores; por exemplo, durante o horário diurno, o SU trabalha com uma capacidade mais abrangente, tanto em relação a termos de disponibilidade de profissionais de saúde quanto em relação a exames complementares de diagnóstico e outros recursos essenciais disponíveis. É importante considerar que a preferência por horários diurnos também poderá dever-se a fatores logísticos, como a disponibilidade de transporte e a conveniência para o próprio usuário.
É fundamental reconhecer as limitações inerentes ao presente estudo, as quais se prendem essencialmente com a metodologia adotada. Por se tratar de pesquisa retrospetiva, na qual foram obtidas informações por meio da análise de processos clínicos, a investigação está sujeita a restrições ao nível dos dados que a equipe de saúde regista no processo único de cada usuário, referindo-se que a mesma ainda não se encontra padronizada entre os profissionais, podendo gerar enviesamentos ao nível da qualidade e quantidade dos dados alvo de análise.
A natureza retrospetiva do estudo limitou, também, a capacidade de detetar eventos em tempo real, bem como obter informações adicionais sobre variáveis que não estão incluídas nos registos, como o grau de escolaridade, a situação profissional e o rendimento mensal de cada usuário. Essas considerações destacam a importância de se proceder à interpretação dos resultados com alguma cautela, e incentivam a exploração de abordagens complementares ou prospetivas para a obtenção de dados mais abrangentes no futuro.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
No âmbito do presente estudo, foi identificado um número significativo de usuários frequentes, resultando em uma proporção importante de episódios de urgência gerados. A maioria dessas admissões esteve associada a situações classificadas como pouco urgentes ou não urgentes, ostentando uma baixa taxa de internações e ocorrendo maioritariamente durante o período diurno. Esse padrão sugere que muitos desses episódios não requereram cuidados urgentes e que poderiam ter sido avaliados em contextos mais apropriados, como os cuidados de saúde primários. Essa realidade pode ser interpretada como uma manifestação de uso inadequado dos SUs, refletindo lacunas na acessibilidade e ineficiências na articulação da rede de cuidados de saúde.
Essa observação enfatiza a importância de se introduzir estratégias destinadas a otimizar a gestão desses casos, promovendo uma utilização eficaz e eficiente dos SUs e redirecionando o usuário para as unidades de cuidados adequadas de acordo com a gravidade e natureza de cada situação. Com isso, não se pretende limitar o acesso aos cuidados de saúde, mas sim encaminhá-los para cuidados mais adequados, atenuando a sobrecarga dos SUs e assegurando uma resposta mais qualificada.
A necessidade de implementação de medidas e estratégias de intervenção, tanto a nível nacional quanto a nível regional ou local, é premente. A criação de um modelo de intervenção, como o gestor de caso de usuários crônicos, complexos e com multimorbidades, bem como a constituição de Unidades Locais de Saúde que articulem os cuidados de saúde primários com os cuidados hospitalares, podem representar uma abordagem eficaz para resolver o problema dos usuários frequentes dos SUs, contribuindo para a redução de custos e melhoria da qualidade assistencial.
Por último, considera-se que, para efeitos de realização de estudos como este, seria benéfico ampliar a dimensão da população estudada e incluir um grupo de controle composto por usuários ocasionais. Esta alteração permitiria uma definição mais robusta das características dos usuários frequentes, proporcionando uma compreensão mais abrangente e comparativa entre esses dois grupos de usuários. Ao incluir um grupo de controle de usuários ocasionais, seria possível realizar paralelos e identificar padrões distintos entre os que influenciam a frequência de utilização dos SUs.
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COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:
de Medeiros AT, Picanço JLS, Araújo NMF. O perfil do usuário frequente de um Serviço de Urgência Polivalente: uma realidade arquipelágica. Cogitare Enferm [Internet]. 2025 [cited “insert year, month and day”];30:e93924. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v30i0.93924
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Editor associado:
Dra. Luciana de Alcantara Nogueira
