Resumo
Objetivo: identificar a presença de adoecimento mental e as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos enfermeiros de um hospital universitário localizado na cidade de Maceió, Alagoas, Brasil.
Método: estudo quantitativo, transversal, do tipo descritivo, realizado entre junho de 2022 e janeiro de 2023. Foram utilizados: Questionário sociodemográfico e aspectos da saúde, Escala de Avaliação de Sintomas-40-R e Inventário de Estratégias de Enfrentamento de Folkman e Lazarus. Realizada análise estatística descritiva univariada e coeficiente de correlação de Pearson.
Resultados: foram entrevistadas 97 pessoas que relataram que já se sentiram deprimidas por duas semanas ou mais (34%); tinham diagnóstico de transtorno mental (35,1%); estão fazendo acompanhamento psicológico (8,2%) e psiquiátrico (7,2%). Apresentaram maior comprometimento na dimensão obsessividade-compulsividade e utilizaram mais a estratégia de enfrentamento Reavaliação Positiva.
Conclusão: o estudo contribui para orientar gestores de enfermagem na implementação de programas que incentivem estratégias de enfrentamento visando melhorar a saúde mental desses profissionais.
Descritores:
: Enfermagem; Saúde do Trabalhador; Saúde Mental; Enfermagem do Trabalho; Enfermagem Psiquiátrica.
HIGHLIGHTS
1. 35,1% dos enfermeiros tinham diagnóstico de transtorno mental.
2. Maior comprometimento de sintomas psicopatológicos na dimensão obsessividade-compulsividade.
3. A estratégia de enfrentamento mais utilizada foi reavaliação positiva.
4. A estratégia de enfrentamento menos utilizada foi fuga-esquiva.
Abstract
Objective: to identify the presence of mental illness and the coping strategies nurses use at a university hospital in Maceió, Alagoas, Brazil.
Method: a quantitative, cross-sectional, descriptive study between June 2022 and January 2023. The following were used: Sociodemographic and health aspects questionnaire, Symptom Assessment Scale-40-R, and Folkman and Lazarus Coping Strategies Inventory. Univariate descriptive statistics and Pearson’s correlation coefficient were analyzed.
Results: 97 people were interviewed who reported that they had already felt depressed for two weeks or more (34%), had been diagnosed with a mental disorder (35.1%), and were undergoing psychological (8.2%) and psychiatric (7.2%) counseling. They showed more significant impairment in the obsessiveness-compulsiveness dimension and made greater use of the coping strategy Positive Reappraisal.
Conclusion: the study helps to guide nursing managers in implementing programs that encourage coping strategies aimed at improving the mental health of these professionals.
Keywords:
Nursing; Employee Health; Mental Health; Occupational Health Nursing; Psychiatric Nursing..
HIGHLIGHTS
1. 35.1% of nurses had been diagnosed with a mental disorder.
2. Greater involvement of psychopathological symptoms in the obsessiveness-compulsiveness dimension.
3. The most used coping strategy was a positive reappraisal.
4. The least used coping strategy was escaping avoidance.
Resumen
Objetivo: identificar la presencia de enfermedad mental y las estrategias de afrontamiento utilizadas por enfermeros de un hospital universitario localizado en la ciudad de Maceió, Alagoas, Brasil.
Método: estudio cuantitativo, transversal, descriptivo, realizado entre junio de 2022 y enero de 2023. Se utilizaron: Cuestionario sociodemográfico y de aspectos de salud, Escala de Evaluación de Síntomas-40-R e Inventario de Estrategias de Afrontamiento de Folkman y Lazarus. Se analizó estadística descriptiva univariante y coeficiente de correlación de Pearson.
Resultados: se entrevistó a 97 personas que declararon haberse sentido deprimidas durante quince días o más (34%); haber sido diagnosticadas de un trastorno mental (35,1%); estar recibiendo asesoramiento psicológico (8,2%) y psiquiátrico (7,2%). Mostraron un mayor deterioro en la dimensión obsesividad-compulsividad e hicieron un mayor uso de la estrategia de afrontamiento Reevaluación positiva.
Conclusión: el estudio ayuda a orientar a los gestores de enfermería en la implantación de programas que fomenten estrategias de afrontamiento dirigidas a mejorar la salud mental de estos profesionales.
Descriptores:
Enfermería; Salud Laboral; Salud Mental; Enfermería del Trabajo; Enfermería Psiquiátrica.
HIGHLIGHTS
1. Al 35,1% de las enfermeras se les diagnosticó un trastorno mental.
2. Mayor implicación de síntomas psicopatológicos en la dimensión obsesividad-compulsividad.
3. La estrategia de afrontamiento más utilizada fue la revalorización positiva.
4. La estrategia de afrontamiento menos utilizada fue el escape-evitación.
INTRODUÇÃO
Os profissionais de Enfermagem são essenciais na assistência prestada aos indivíduos, sendo responsáveis por acolher todos que necessitam de algum tipo de cuidado. Os enfermeiros são o cerne da assistência, possuindo papel fundamental para a promoção da saúde1. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a saúde mental está relacionada com o bem-estar do indivíduo e sua capacidade em desenvolver-se na sociedade, mesmo passando por situações estressoras. De acordo com o Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS, um bilhão de pessoas convive com transtornos mentais2. No Brasil, os transtornos mentais são a terceira causa de afastamento no trabalho3.
Além da pressão psicológica considerada cotidiana entre os profissionais de Enfermagem, em 11 de março de 2020, a OMS decretou a pandemia da COVID-19. Essa pandemia contribuiu com o sofrimento psíquico dos enfermeiros devido ao aumento do estresse laboral, medo relacionado à exposição ao agente viral, síndrome de burnout, ansiedade e depressão4.
Estudos mostram que, com o advento da pandemia da COVID-19, a saúde mental dos enfermeiros ficou prejudicada, tendo em vista a sobrecarga de trabalho e a aflição gerada pela transmissão do vírus5-6. Estudo realizado na Itália demonstrou que 66% dos enfermeiros referiram estar mais estressados5. Estudo realizado no Estado do Rio Grande do Norte, Brasil, identificou que 30,4% da equipe de enfermagem obteve diagnóstico de algum transtorno mental, sendo os principais: a ansiedade (39,6%), depressão (38%) e síndrome de burnout (62,4%)6.
Assim, a presente pesquisa teve a seguinte questão norteadora: como se apresenta o adoecimento mental e quais são as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos enfermeiros de um hospital universitário? Para isso, teve como objetivo: identificar a presença de adoecimento mental e as estratégias de enfrentamento utilizadas pelos enfermeiros de um hospital universitário localizado na cidade de Maceió, Alagoas, Brasil.
Durante a revisão da literatura sobre o tema, constatou-se a escassez de estudos que abordam o adoecimento mental de enfermeiros e as estratégias de enfrentamento diante de situações estressoras. Considerando que os profissionais de enfermagem desempenham papel central no cuidado contínuo e próximo aos pacientes, torna-se fundamental compreender os aspectos relacionados ao adoecimento mental desses profissionais, bem como a relação entre suas condições psicológicas e as demandas estressoras do cotidiano laboral. Esse estudo irá contribuir com informações que permitem a elaboração de intervenções de cuidado visando à melhoria e à promoção da saúde mental e laboral desses profissionais.
MÉTODO
Estudo quantitativo, observacional do tipo transversal, norteado pela ferramenta STROBE (Estudos observacionais em epidemiologia)7-8.
A pesquisa foi realizada em 20 setores onde há a atuação de enfermagem de um hospital localizado na Região Nordeste do Brasil. Os setores são: Maternidade, Centro Obstétrico, Centro Cirúrgico, Clínica Pediátrica, Clínica Cirúrgica, Clínica Médica, Clínica Oncológica, Unidade de Terapia Intensiva Neonatal, Unidade de Terapia Intensiva Adulto, Alojamento Conjunto, Unidade de Cuidado Intermediário Neonatal Canguru, Centro de Alta Complexidade em Oncologia, Setor de Nefrologia, Hospital Dia, Ambulatório de Feridas, Ambulatório de Fototerapia, Central de Material e Esterilização, Comissão de Controle de Infecção Hospitalar, departamento de Saúde Ocupacional e Segurança do Trabalho, departamento da Divisão de Enfermagem.
Considerando a população total de 204 enfermeiros atuantes no hospital, 97 (47,5%) aceitaram participar voluntariamente da pesquisa. A amostra foi selecionada por conveniência. Foram incluídos enfermeiros e enfermeiras do hospital, pertencentes aos setores supracitados e que faziam parte do quadro efetivo de plantões diurnos e noturnos, seja na gerência ou na assistência direta ao paciente. Foram excluídos os enfermeiros com licença-saúde ou licença-maternidade no período da coleta de dados; bem como enfermeiros atuantes como enfermeiros residentes.
A coleta de dados foi realizada entre junho de 2022 e janeiro de 2023. A escolha dos setores ocorreu mediante aceite voluntário dos participantes. Já a abordagem foi realizada durante o período dos plantões, por meio de convite e explicação dos objetivos, contribuições, riscos e benefícios. Aos enfermeiros que aceitaram participar, foi garantida a livre participação no estudo, solicitando previamente a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.
Foram utilizados três instrumentos para a coleta de dados: Questionário de dados sociodemográficos e aspectos relacionados à saúde mental e laboral do profissional enfermeiro, Escala de Avaliação de Sintomas-40-R e Inventário de Estratégias de Enfrentamento de Folkman e Lazarus.
O Questionário de dados sociodemográficos e aspectos relacionados à saúde mental e laboral do profissional enfermeiro apresentava perguntas objetivas divididas em três eixos, sendo eles: Dados socioeconômicos; Aspectos relacionados à saúde mental e qualidade de vida; e Aspectos laborais. As perguntas abordavam a faixa etária, cor/etnia, situação conjugal, maternidade/paternidade, religião, local de residência, condição socioeconômica, atuação laboral (gerencial ou assistencial), horas dedicadas ao trabalho, turno laboral, há quanto tempo atua na profissão e no hospital, horas semanais dedicadas ao lazer, qualificação da sua saúde mental, presença de transtornos mentais, acompanhamento com profissionais psicólogos e/ou psiquiatras, uso de psicotrópicos, álcool ou tabaco, e prática de exercícios físicos. Esse instrumento foi elaborado pelas pesquisadoras desse estudo e não é validado.
A Escala de Avaliação de Sintomas-40-R (EAS-40-R) é uma escala de autoavaliação multidimensional em que é possível investigar a existência de sintomas psicopatológicos no indivíduo, não se tratando de traços da personalidade9. Essa escala foi validada para o Brasil9 e tem 40 itens, divididos em quatro dimensões (psicoticismo, obsessividade-compulsividade, somatização e ansiedade), contendo 10 itens cada uma.
O Inventário de Estratégias de Enfrentamento de Folkman e Lazarus (IEE) é um questionário contendo 66 itens onde é avaliado pensamentos e ações que os indivíduos utilizam para lidar com demandas internas ou externas de um evento estressor, sendo dividido nos fatores: Confronto, Afastamento, Autocontrole, Suporte Social, Aceitação de Responsabilidade, Fuga-Esquiva, Resolução de Problemas e Reavaliação Positiva. Visa compreender o coping do ponto de vista das respostas cognitivas e comportamentais que as pessoas usam para gerenciar a angústia e resolver os problemas da vida diária que causam desconforto10. Ele foi validado no Brasil por Savoia e colaboradores11.
Foi utilizado o Pacote Estatístico para as Ciências Sociais (SPSS) versão 23 para as análises estatísticas. Foi utilizada a análise estatística descritiva univariada por meio da medida de distribuição (frequência absoluta e relativa), medida central (média e desvio padrão) e análise bivariada por meio do coeficiente de correlação de Pearson.
A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa, sob o parecer n.º 5.418.217, em 19 de maio de 2022.
RESULTADOS
As tabelas que ilustram os principais resultados obtidos neste estudo serão apresentadas abaixo. Cada uma delas foi construída para fornecer uma visão clara dos dados coletados em relação ao perfil dos enfermeiros, à saúde mental, à avaliação das dimensões psicopatológicas e às estratégias de enfrentamento utilizadas.
O estudo teve a participação de 97 profissionais enfermeiros. A maioria dos entrevistados é do sexo feminino (n=87 - 89,7%), com idade média de 39 anos em ambos os sexos, dos quais 58 (59,8%) se consideram pardos ou pretos, 63 (64,9%) são casados, 63 (65,0%) são católicos e 68 (70,1%) têm filhos. A maioria refere morar num bairro próximo ao hospital (n=15 - 15,5%). As enfermeiras gastam em média 36 minutos (39,74%) e os enfermeiros 19 minutos (11,47%) de casa ao trabalho, sendo o carro (n=88 - 90,7%) o meio de transporte mais utilizado (Tabela 1).
Características gerais e perfil laboral de enfermeiros de um hospital. Maceió, AL, Brasil, 2023
Dentre os entrevistados, 52 (53,6%) relataram ter seu turno laboral pela manhã e tarde; 37 (57,8%) referem trabalhar 36 horas semanais; e 81 (83,5%) realizam atividades assistenciais. As enfermeiras possuem em média 18 horas de lazer e os enfermeiros 10 horas (Tabela 1).
Dos entrevistados, 59 (60,8%) relataram ter uma boa saúde mental; 33 (34%) sentiram-se deprimidos por duas semanas ou mais; 34 (35,1%) tinham diagnóstico de um ou mais transtornos mentais; 46 (47,4%) relataram que fez e oito (8,2%) que estão fazendo acompanhamento psicológico; 25 (25,8%) relataram que fez e sete (7,2%) que estão fazendo acompanhamento com psiquiatra; 24 (24,7%) referem que utilizou e 10 (10,3%) que estão utilizando medicamentos psicotrópicos; 63 (64,9%) declaram possuir um bom relacionamento social; 67 (69,1%) refere praticar atividade física; e 41 (42,3%) consomem cigarro, álcool e outras substâncias (Tabela 2).
A dimensão na qual o enfermeiro se apresenta mais sintomático é aquela caracterizada pela média mais próxima a dois. Sendo assim, os dados obtidos mostram que as enfermeiras (0,60±0,41) e enfermeiros (0,46±0,27) possuíam um maior comprometimento na dimensão obsessividade-compulsividade. As enfermeiras apresentaram um menor comprometimento na dimensão ansiedade (0,22±0,30) e os enfermeiros na dimensão psicoticismo (0,19±0,31). Observa-se que os enfermeiros apresentam menor comprometimento em todas as dimensões, quando comparados às enfermeiras, com exceção da dimensão ansiedade, que foi igual para ambos. (Tabela 3).
Média e desvio-padrão das dimensões da Escala de Avaliação de Sintomas e dos fatores do Inventário de Estratégias de Enfrentamento de enfermeiros de um hospital. Maceió, AL, Brasil, 2023
A estratégia de enfrentamento mais adotada é a que apresenta um escore com média mais próxima a dois. Assim, as enfermeiras (1,69±0,58) e enfermeiros (1.57±0,37) utilizaram mais a Reavaliação Positiva como estratégia de enfrentamento. A menos utilizada foi a de Fuga-Esquiva (0.86±0,53 para enfermeiras e 0.79±0,49 para enfermeiros). Observa-se que, no geral, os enfermeiros utilizam menos as estratégias de enfrentamento analisadas nesse estudo do que as enfermeiras (Tabela 3).
Houve correlação significativa entre o quanto uma família ganha por pessoa e a quantidade de horas de trabalho semanais do profissional da enfermagem (p < 0,05). Assim, profissionais de enfermagem que trabalham mais horas semanais podem estar relacionados a uma situação econômica familiar diferente dos que trabalham menos horas (Tabela 4).
Análise da correlação de Pearson entre as variáveis laborais e de saúde mental e as dimensões do Inventário de Estratégias de Folkman e Lazarus e fatores da Escala de Avaliação de Sintomas respondidas pelos enfermeiros de um hospital. Maceió, AL, Brasil, 2023.
Foi observada uma correlação significativa entre o uso de medicamentos psicotrópicos e o tempo de acompanhamento com psicólogos (p=0,025) ou psiquiatras (p=0,001); e entre o tempo de uso de medicamentos psicotrópicos e o tempo de acompanhamento com psicólogo (p=0,000) e psiquiatra (p=0,000). Isso sugere haver uma relação entre o tempo que uma pessoa está em acompanhamento com esses profissionais e o uso e o tempo de uso de medicamentos psicotrópicos (Tabela 4).
O estudo encontrou uma correlação entre o confronto (p=0,044), o suporte social (p=0,020) e a resolução de problemas (p=0,012) com as horas de trabalho semanais. Ou seja, a forma como os enfermeiros lidam com desafios (confronto), a rede de apoio que possuem (suporte social) e a capacidade de resolver problemas têm relação com a quantidade de horas que eles trabalham semanalmente (Tabela 4).
A correlação entre psicoticismo (p=0,015) e obsessividade-compulsividade (p=0,016) com o tempo de acompanhamento com o psiquiatra sugere que quanto maior o comprometimento na dimensão psicoticismo ou obsessividade-compulsividade, maior o tempo de acompanhamento psiquiátrico (Tabela 4).
A somatização mostrou correlação com o tempo de atuação como enfermeiro (p=0,033), com o tempo de acompanhamento com psicólogo (p=0,019) e com a estratégia de fuga e esquiva (p=0,003). Isso sugere que a somatização pode estar relacionada tanto à experiência profissional do enfermeiro quanto às estratégias que ele utiliza para lidar com o estresse (Tabela 4).
O psicoticismo apresenta uma correlação significativa com diversas estratégias de enfrentamento. Está relacionado com a estratégia de afastamento (p = 0,035), que envolve o distanciamento do problema ou da situação estressante, evitando enfrentá-la diretamente. Está relacionado à resolução de problemas (p = 0,015), indicando que pessoas com maior comprometimento na dimensão psicoticismo tendem a adotar uma abordagem mais ativa para resolver desafios. Está relacionado com a reavaliação positiva (p = 0,018), uma estratégia em que a pessoa tenta reinterpretar situações negativas de forma mais positiva. Por fim, está relacionado com a estratégia de fuga e esquiva (p = 0,001), sugerindo que indivíduos com maior comprometimento na dimensão psicoticismo podem recorrer com mais frequência a estratégias de evitamento, como fugir ou ignorar o problema (Tabela 5).
Análise da correlação de Pearson entre as dimensões do Inventário de Estratégias de Folkman e Lazarus e os fatores da Escala de Avaliação de Sintomas respondidas pelos enfermeiros de um hospital. Maceió, AL, Brasil, 2023
A dimensão obsessividade-compulsividade está correlacionada com a estratégia de fuga e esquiva (p=0,000), sugerindo que pessoas com altos níveis desses traços tendem a usar mais estratégias de evitamento para lidar com situações estressantes ou desconfortáveis (Tabela 5).
A dimensão ansiedade tem uma correlação significativa com a estratégia de aceitação de responsabilidade (p=0,032), o que pode indicar que pessoas ansiosas podem assumir a responsabilidade pelos problemas ou dificuldades que enfrentam, em vez de tentar culpar outras pessoas ou circunstâncias. Essa dimensão também está relacionada com a estratégia de fuga e esquiva (p=0,013). Ou seja, pessoas ansiosas tendem a evitar ou fugir das situações que provocam ansiedade, em vez de enfrentá-las diretamente (Tabela 5).
DISCUSSÃO
Com base nos resultados do estudo, é possível afirmar que a maioria dos profissionais de enfermagem do hospital é composta pelo público feminino, com idade média de 39 anos, pardas, casadas e mães. Mesmo com a evolução quanto às questões de gênero envolvendo a sociedade, ainda é evidenciado o protagonismo feminino na enfermagem. Dados levantados pelo Conselho Federal de Enfermagem revelaram que 85% da categoria ainda é composta por mulheres e que 60% dos enfermeiros brasileiros possuem até 40 anos12. Apesar de a força motriz da enfermagem ainda ser composta por profissionais jovens, um estudo13 apontou um crescimento exponencial de enfermeiros com 65 anos ou mais atuando em sua profissão, em todas as regiões brasileiras, entre os anos de 2003 e 2017. Isso não foi identificado no presente estudo.
A maioria possui alguma religião, sendo a principal o catolicismo. Estudo aponta o impacto positivo da religiosidade e espiritualidade no enfrentamento de situações de adoecimento, auxiliando na promoção da qualidade de vida14. Uma pesquisa15 apontou que os benefícios relacionados aos indivíduos com religiosidade/espiritualidade extrapolam sua psique, sendo evidenciado que os enfermeiros com religião ou espiritualidade apresentavam uma melhor imunidade e maior autoconhecimento em relação à sua saúde.
No atual estudo, a maioria dos profissionais entrevistados era casada. Ter um companheiro ou companheira pode ser benéfico em questões emocionais e de apoio financeiro. Entretanto, essa situação conjugal pode trazer um aumento de responsabilidades, principalmente na população feminina16.
A maioria dos enfermeiros faz uso exclusivo de carro para se deslocar para o trabalho. Um estudo17 realizado em Porto Alegre destaca a relação entre o transporte em carros e aplicativos como promotor de uma maior qualidade de vida, visto que apesar de outras opções de transporte, como coletivos, bicicleta e até a caminhada, proporcionarem momentos de apreciação do local, estes possuem limitações quanto às acomodações e singularidades dos indivíduos.
A maioria dos profissionais trabalha em horário diurno, em regime laboral de 36 horas semanais, e desempenha atividades assistenciais. Apesar disso, é necessário um olhar para a qualidade de vida dos enfermeiros que têm sua jornada de trabalho de forma noturna. Sabe-se que o relógio circadiano regido pelos núcleos supraquiasmáticos é influenciado principalmente pela luz e alimentação. Assim, estes possuem um papel fundamental na regulação hormonal, metabólica, imunológica, bem como na saúde mental18-19.
A saúde mental e a satisfação laboral caminham de forma conjunta. Um estudo com enfermeiros perioperatórios destacou a influência da satisfação laboral com a relação entre os colegas de trabalho e a saúde mental do próprio trabalhador20.
Os enfermeiros (35,1%) relataram ter diagnóstico de transtorno mental. Um estudo realizado em uma unidade de emergência hospitalar do Estado de São Paulo mostrou que 91,3% dos enfermeiros atuantes apresentavam sintomas de depressão, sendo majoritariamente apontado por eles a ligação entre o sofrimento mental e a falta de estrutura de insumos e gerenciamento de atividades21.
A quantidade de pessoas que realizam ou já realizaram sessões de terapia foi maior que aqueles que indicam a procura por profissionais da psiquiatria. A procura pela psicoterapia em detrimento da psiquiatria demonstra o interesse desses enfermeiros em seu autoconhecimento e relevância na resolubilidade do cerne de suas problemáticas22.
Estudos realizados nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais com enfermeiros revelaram que a maioria desses profissionais já usou algum psicotrópico durante sua vida, sendo eles tranquilizantes, sedativos e analgésicos de ação central, como o tramadol e a codeína. Sendo enfatizada a população mais jovem e tendo como principal causa para o desfecho da medicalização a alta exposição a esses fármacos e as situações estressoras vivenciadas por esses profissionais23. Isso reforça a necessidade de se ter um olhar cuidadoso quanto ao adoecimento mental desses profissionais, visando promover saúde mental.
O ambiente de trabalho pode contribuir para um menor sofrimento mental e desgaste durante a jornada laboral24. Estudo aponta que o alto índice de apoio social nos trabalhadores da área da saúde está associado a um menor nível de ansiedade, além de uma maior satisfação laboral25.
No presente estudo, 42,3% dos enfermeiros faziam uso de álcool, tabaco e outras substâncias. Estudo26 realizado em um Hospital Geral no Estado de Minas Gerais apontou que o número de enfermeiros que consumiram álcool em 12 meses foi de 32,7% (n=72) e o uso de tabaco foi de 31,4% (n=97).
Houve um maior comprometimento na dimensão Obsessividade-Compulsividade em ambos os sexos e um menor comprometimento na dimensão Psicoticismo nos enfermeiros e Ansiedade nas enfermeiras. Estudo realizado com enfermeiros de um hospital universitário de Pernambuco identificou que estes também apresentaram um maior comprometimento na dimensão de Obsessividade-Compulsividade, sendo a Ansiedade a menor dimensão apresentada27. Por outro lado, outro estudo28 observou um maior comprometimento na dimensão Somatização em ambos os sexos. A dimensão Obsessividade-Compulsividade, por sua vez, apresentou um comprometimento semelhante ao da somatização. A dimensão com menor comprometimento foi a Ansiedade.
A estratégia mais utilizada em situações de estresse, por ambos os sexos, foi a Reavaliação Positiva, que envolve a capacidade do indivíduo de reinterpretar a situação, buscando melhorar a situação e focando nos aspectos positivos29. Em contrapartida, a estratégia menos empregada foi a Fuga e Esquiva, que consiste em evitar ou escapar das situações estressantes, sem, no entanto, promover uma resolução eficaz do problema10. Numa unidade de emergência de um Hospital Universitário em São Paulo, a estratégia de coping mais utilizada pelos enfermeiros foi a de Resolução de Problemas, em ambos os sexos. Um estudo30 observou que na unidade de UTI Neonatal os enfermeiros utilizaram principalmente o coping de Autocontrole, sendo o Confronto o menos utilizado.
A limitação do estudo está relacionada à amostra ser intencional e não probabilística, limitando a generalização dos resultados para enfermeiros de outros hospitais.
CONCLUSÃO
Este estudo identificou que a maioria dos enfermeiros são mulheres pardas/pretas, casadas, católicas e mães; trabalham principalmente com a assistência direta ao paciente, no turno diurno, e dedicam 36 horas da sua semana na jornada laboral. Quanto às condições de saúde mental, algumas têm diagnóstico de transtorno mental; possuem um maior comprometimento nos sintomas psicopatológicos relacionados à dimensão obsessividade e compulsividade e utilizam principalmente estratégias de enfrentamento funcionais para a resolução das problemáticas do cotidiano.
O estudo sugere haver várias correlações entre fatores psicossociais, como uso de psicotrópicos, tempo de acompanhamento terapêutico e condições de trabalho, com aspectos da saúde mental dos participantes. Vale lembrar que correlação não implica necessariamente causalidade. Ou seja, uma coisa não causa necessariamente a outra, mas há uma relação observada entre elas. Apesar disso, esses achados contribuem para entender como as pessoas com diferentes perfis psicológicos lidam com o estresse e como suas abordagens podem ser tanto adaptativas quanto potencialmente prejudiciais, dependendo da situação. Isso pode ser usado para direcionar futuras pesquisas ou intervenções de cuidado no ambiente laboral. Essas intervenções podem beneficiar não apenas o bem-estar dos enfermeiros, mas também melhorar a qualidade do atendimento aos pacientes, pois profissionais emocionalmente saudáveis são mais capazes de enfrentar os desafios diários de maneira eficaz e oferecer cuidados de maior qualidade.
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COMO REFERENCIAR ESTE ARTIGO:Oliveira MSS, Alvez VM, Lúcio IML, dos Santos PS. Mental illness and coping strategies of nurses at a university hospital. Cogitare Enferm [Internet]. 2025 [cited “insert year, month and day”];30. Available from: https://doi.org/10.1590/ce.v30i0.97844
AGRADECIMENTOS
Agradecemos ao hospital pela oportunidade de desenvolver esta pesquisa, que surgiu a partir do Programa Institucional de Iniciação Científica Cód. 001.
REFERÊNCIAS
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Editado por
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Editora associada: Dra. Susanne Elero Betiolli
