Open-access Smart city: entre a tendência global e os riscos sociais locais

Resumo

Cidades são vitais para o desenvolvimento econômico e sustentável, mas enfrentam desafios, como rápido crescimento urbano, desigualdades socioeconômicas e escassez de recursos em países em desenvolvimento. As smart cities surgem como soluções, mas também apresentam riscos sociais. Este artigo revisa a literatura sobre esses riscos, com o objetivo de ampliar a compreensão dos desafios sociais enfrentados pelas cidades do futuro e traçar uma agenda de pesquisa. Conclui-se que planejar e executar projetos de smart cities considerando aspectos tecnológicos e sociais é essencial para garantir cidades inclusivas e engajadas. Simultaneamente, avaliar riscos sociais e implementar medidas proativas é crucial para distribuir equitativamente os benefícios tecnológicos, contribuindo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e para a qualidade de vida urbana.

Palavras-chave:
cidades inteligentes; desafios urbanos; dimensão social; Objetivos do Desenvolvimento Sustentável; risco social

Abstract

Cities are vital for economic and sustainable development. However, they face challenges such as rapid urban growth, socio-economic inequalities, and resource scarcity in developing countries. Smart cities emerge as solutions, but they also present social risks. This article reviews the literature on these risks, aiming to broaden the understanding of the social challenges faced by the cities of the future and outline a research agenda. It is concluded that planning and executing smart city projects considering technological and social aspects is essential to ensure inclusive and engaged cities. At the same time, assessing social risks and implementing proactive measures is crucial to equitably distribute technological benefits, contributing to the Sustainable Development Goals and urban quality of life.

Keywords:
smart cities; urban challenges; social dimension; Sustainable Development Goals; social risk

Introdução

Cidades são consideradas comunidades organizadas, pilares econômicos de uma nação e sua sustentabilidade. No entanto, em países em desenvolvimento, essas características dificilmente são encontradas nas cidades (Aghimien et al., 2022). O rápido crescimento da população urbana, as desigualdades socioeconômicas e a escassez de recursos naturais proporcionaram às cidades desafios quanto ao seu desenvolvimento sustentável e à qualidade de vida da sua população.

As Cidades Inteligentes e Sustentáveis (Smart Sustainable Cities – SSC), ou por vezes apenas Cidades Inteligentes (Smart Cities), são frequentemente apresentadas como uma solução possível para as limitações e dificuldades ligadas à rápida urbanização e aos impactos ambientais das cidades (Ringenson et al., 2017).

As incorporações de tecnologias avançadas em smart cities oferecem diversas vantagens. Os dados em tempo real coletados por sensores eletrônicos e dispositivos conectados permitem decisões bem informadas pelas autoridades da cidade. Ferramentas de colaboração, como aplicativos móveis e portais da web, facilitam o engajamento dos cidadãos com o governo. Tecnologias como câmeras de vigilância e reconhecimento de placas automotivas podem aumentar a segurança. Sensores de monitoramento da qualidade do ar e tecnologias de coleta de lixo inteligentes reduzem os impactos ambientais. Por fim, parcerias entre o setor privado e governos em projetos de smart cities podem impulsionar o desenvolvimento econômico (Shayan et al., 2020).

As Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) são consideradas cruciais na infraestrutura urbana para monitoramento, eficiência e compartilhamento de informações, promovendo estilos de vida urbanos mais sustentáveis. No entanto, existem limitações significativas para alcançar a SSC, como os riscos ambientais na implementação e manutenção da infraestrutura digital, além de desafios relacionados à crescente complexidade e vulnerabilidade das cidades (Bibri e Krogstie, 2017; Ringenson et al., 2017).

Além disso, apesar da emergência da inteligência artificial (IA) e o seu impacto cada vez mais amplo em diversos setores serem benéficos para o alcance dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), eles também poderão criar novos riscos sistêmicos de sustentabilidade à medida que as tecnologias de IA se difundem em novos contextos sociais, econômicos e ecológicos (Galaz et al., 2021; Vinuesa et al., 2020). De acordo com o estudo de Vinuesa et al. (2020), a IA pode impactar, tanto positivamente como negativamente, o desenvolvimento sustentável, ou seja, influenciar a capacidade de cumprir os ODS.

A criação de smart cities inclusivas representa um desafio significativo e, muitas vezes, a sua execução pode inadvertidamente promover fenômenos como a gentrificação e a exclusão social, impulsionados por “muros” tecnológicos (Beck, Boff e Cenci, 2022). Desse modo, os riscos sociais associados às smart cities podem agir como barreiras na consecução dos ODS, especialmente no ODS 11 (cidades e comunidades sustentáveis), que tem como objetivo tornar as cidades e comunidades mais inclusivas, seguras, resilientes e sustentáveis. Alguns desses principais riscos sociais incluem: exclusão digital, privacidade e segurança de dados, deslocamento e gentrificação, desemprego tecnológico e desigualdades sociais.

Ao considerar que o início do século XXI tem sido caracterizado por novos desafios, relacionados ao crescimento, sustentabilidade, desigualdade e segurança, destaca-se a crescente importância da pesquisa, inovação e governança eficiente para enfrentá-los. Não existe abordagem única, pois os desafios de crescimento diferem entre países e regiões, como destacado por Komninos (2018).

Para construir smart cities eficazes no contexto brasileiro, é imprescindível abordar desafios históricos, como segurança, saúde, educação, saneamento básico, habitação e desigualdade social. Além disso, é necessário enfrentar novos desafios urbanos, como mobilidade, sustentabilidade e diversidade social. Essa abordagem é essencial para garantir melhor qualidade de vida para os habitantes, reconhecendo que as smart cities são concebidas por e para pessoas (Cunha et al., 2016). Assim, os processos de decisão sobre o planejamento da smart city e os investimentos em infraestruturas necessitam reduzir a vulnerabilidade e aumentar as oportunidades para as populações urbanas brasileiras.

Dessa forma, considerando as cidades como um organismo vivo que vive, evolui e se adapta, elas constituem um sistema complexo. Uma vez gerenciadas por sistemas tecnológicos, elas deveriam ter flexibilidade suficiente para contemplar não só mudanças de rumo determinadas pelas necessidades dos habitantes como também desafios impostos por novos problemas urbanos. Esses novos sistemas urbanos seriam capazes dessa flexibilidade? Aliás, esses sistemas seriam inclusivos e/ou atenderiam a uma pequena parcela da população capaz de ter acesso a esses recursos? A smart city possibilita, de fato, que cada cidadão acesse todos os serviços por ela oferecidos, tanto públicos como privados?

Esses questionamentos emergem tendo em vista que os programas de desenvolvimento de smart cities podem impactar substancialmente a vida cotidiana de indivíduos e comunidades locais, que podem se converter em riscos sociais e ameaçar as sociedades bem como afetar os objetivos do programa de smart city.

A transição inteligente nas cidades tem ocorrido há décadas, mas acelerou recentemente devido à rápida transição energética para fontes renováveis e ao aumento do uso de ferramentas digitais impulsionado pela pandemia de covid-19. Outro fator importante é a crescente necessidade de construir uma sociedade mais inclusiva e conectada, com maior engajamento cívico e social (Macaluso et al., 2023).

Nesse contexto, o objetivo deste artigo é realizar uma revisão teórica da literatura com o intuito de enriquecer o debate sobre os riscos sociais associados às smart cities, de modo a promover discussões sobre questões de justiça social, desigualdades, exclusão social e digital que impactam as cidades modernas – considerando que as tecnologias emergentes nas smart cities têm o potencial de ampliar tanto as oportunidades quanto as disparidades sociais – e, com isso, contribuir para um entendimento mais abrangente dos desafios enfrentados pelas cidades do futuro na promoção da inclusão e equidade. Além disso, a análise da literatura existente visa identificar lacunas de conhecimento e áreas que requerem pesquisas futuras.

Portanto, esta revisão teórica da literatura abrange uma ampla e diversificada seleção de fontes, como artigos de periódicos, textos de discussão, relatórios, anais de conferências e documentos políticos provenientes de diversas áreas disciplinares relevantes para o tema de pesquisa proposto, obtidas através das bases de dados Scopus, Web of Science e Google Acadêmico. O foco está na análise da teoria estabelecida e da pesquisa científica disponível, buscando fornecer uma visão qualitativa e fundamentada sobre o assunto.

O artigo está organizado em seis partes: a introdução; a segunda parte, que aborda o compromisso das smart cities com o cidadão e os ODS; a terceira parte, que discute o discurso e a prática das smart cities com foco específico nos riscos sociais; a quarta parte, que explora as perspectivas globais sobre os desafios sociais das cidades do futuro; a quinta parte, que apresenta uma agenda de pesquisa futura na dimensão social; as considerações finais, na sexta parte.

Smart city: além da tecnologia

A resposta das cidades aos desafios contemporâneos é o que sustenta o conceito de smart city, que “utiliza a tecnologia para prestar de forma mais eficiente os serviços urbanos, melhorar a qualidade de vida das pessoas e transformar a relação entre entidades locais, empresas e cidadãos proporcionando uma nova forma de viver na cidade” (Cunha et al., 2016, p. 28). A infraestrutura física, social, organizacional e econômica está ligada por meio de sustainable smart cities com foco na conscientização, envolvimento e governança do cidadão (Ullah et al., 2021).

Tendo em vista o aumento da população urbana mundial e em nível nacional, as cidades devem ser mais inteligentes do que nunca sobre como posicionar suas economias para o benefício máximo de todos os residentes ao mesmo tempo que protegem o meio ambiente e melhoram a qualidade de vida de sua cidade (UN-Habitat, 2022).

O Relatório Mundial das Cidades de 2022 revela que a urbanização global está em aceleração, prevendo-se que atinja 68% da população até 2050, em comparação aos 56% em 2021. Apesar de uma desaceleração durante a pandemia, estima-se um aumento anual de 2,2 bilhões de habitantes urbanos até 2050 (ibid.). No Brasil, os dados preliminares do Censo Demográfico 2022 indicam uma população de 203.062.512 habitantes, com 61,1% vivendo em áreas urbanas concentradas. O crescimento populacional nessas áreas representou 74,5% do aumento total da população brasileira entre 2010 e 2022, com um acréscimo de 9,2 milhões de habitantes (IBGE, 2023).

Quanto ao acesso à internet, segundo dados da pesquisa TIC Domicílios 2022, o número de domicílios com acesso à internet no Brasil chegou a 80%. Em números absolutos, são 60 milhões de domicílios conectados, cerca de 27 milhões a mais do que em 2015 (51%), quando a pesquisa começou a ser feita. A conectividade também faz parte da rotina de 81% dos brasileiros, o que representa 149 milhões de pessoas (CGI.br, 2023).

A urbanização é um processo transformador, mas desigual, afetando cerca de 1,6 bilhão de pessoas em moradias inadequadas. Isso compromete a erradicação da pobreza até 2030 (ODS 1) e demanda ação conjunta para evitar novas vulnerabilidades urbanas. A implementação da Nova Agenda Urbana, com foco nos ODS, pode promover a prosperidade e inclusão em cidades. Prevê-se um aumento da pobreza extrema em 32% até 2030, ressaltando a importância da resiliência econômica, social e ambiental, além de uma governança eficaz para moldar o futuro urbano. A multidimensionalidade da pobreza e desigualdade urbanas deve estar no centro das intervenções para criar futuros urbanos inclusivos e equitativos globalmente (UN-Habitat, 2022).

A maioria da população brasileira, cerca de 85%, reside em áreas urbanas, cada uma com suas próprias características. As cidades do Brasil são marcadas por desigualdades socioeconômicas e espaciais historicamente enraizadas, resultando em bairros mais pobres, com piores condições de vida. Todas as cidades enfrentam desigualdades no acesso a oportunidades e serviços, que afetam especialmente grupos vulneráveis, como pessoas com deficiência, de baixa renda, LGBTQIA+, mulheres, pessoas negras, idosos, jovens e crianças. Essas desigualdades impedem que tais grupos exerçam plenamente seu direito a cidades sustentáveis (Sousa Júnior et al., 2021).

A Nova Agenda Urbana se compromete com a realização do desenvolvimento sustentável em escala global. Além disso, destaca a importância de estabelecer uma sociedade onde a igualdade, a diversidade cultural e a valorização cultural sejam promovidas e respeitadas. Para atingir os ODS estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) na Agenda 2030 não basta apenas promover uma economia e padrões de consumo sustentáveis. É essencial direcionar as políticas públicas de desenvolvimento para os cidadãos, reconhecendo o papel fundamental que desempenham como principais agentes na sociedade (Beck, Boff e Cenci, 2022; UN-Habitat, 2022).

Embora a implementação de smart cities, em grande medida, seja benéfica e permita contribuir com muitos dos ODS, poderá também desencadear riscos que venham a inibir a concretização dos 17 objetivos (Galaz et al., 2021; Vinuesa et al., 2020). De modo específico, o acesso desigual à tecnologia pode causar exclusão digital, agravando disparidades sociais, contrariando o ODS 9. A coleta intensiva de dados em smart cities pode comprometer a privacidade, exigindo medidas para proteção dos dados alinhadas ao ODS 16.

A infraestrutura inteligente pode deslocar comunidades e gerar gentrificação, prejudicando a coesão social, em conflito com o ODS 11. A automação pode levar ao desemprego tecnológico, exigindo ações para requalificação e novas oportunidades de emprego, conforme o ODS 8. A implementação seletiva de tecnologias pode acentuar as desigualdades sociais, contradizendo o ODS 10.

Kim e Feng (2024) ressaltam que, embora as tecnologias inteligentes sejam amplamente aceitas em projetos de urbanização sustentável das SSC, divergências de interpretação podem minar a credibilidade desses projetos. Críticas apontam para a excessiva ênfase na inovação tecnológica, argumentando que as abordagens atuais para o desenvolvimento de smart cities não abordam adequadamente a sustentabilidade no contexto mais amplo das dinâmicas econômicas, da diversidade social e da complexidade espacial urbanas. Do ponto de vista social, o avanço significativo em direção às SSC requer abordagens humanas, engajamento das partes interessadas, inclusão, entre outros aspectos, enfatizando o desenvolvimento centrado no cidadão e seu impacto na sociedade.

A rápida evolução de novas tecnologias está impactando significativamente a vida das pessoas e o meio ambiente, exigindo novos métodos de governança. Tanto os indivíduos quanto os órgãos governamentais têm dificuldade em acompanhar esse ritmo, o que resulta na ausência de legislação eficaz para garantir a sustentabilidade dessas tecnologias. Assim, é importante estabelecer estruturas políticas e legislativas para maximizar o potencial da IA em benefício das pessoas, do meio ambiente e para alcançar os ODS. Uma visão regulatória prévia é essencial para formular políticas robustas (Vinuesa et al., 2020).

No Brasil, o Projeto de Lei n. 976/2021 institui a Política Nacional de Cidades Inteligentes (PNCI), visando implementar cidades inteligentes com base em tecnologias avançadas e participação cidadã. Em tramitação na Câmara dos Deputados, o projeto define princípios para melhorar a qualidade de vida e capacitar gestores e população, promovendo serviços digitais, compartilhamento de serviços, integração de políticas públicas e proteção de dados (Brasil, 2021). A Carta Brasileira para Cidades Inteligentes, em face das enormes desigualdades socioeconômicas e disparidades regionais no País, também promove a igualdade e a inclusão social, fomentando a transformação digital das cidades brasileiras (Fachinelli et al., 2023; Sousa Júnior et al. 2021). Essas iniciativas são motivadoras para regular e orientar a implementação e o desenvolvimento de smart cities no Brasil.

Saaty e De Paola (2017) salientam que, embora a vida urbana esteja em crescimento, as comodidades sociais e culturais de muitas grandes cidades não são facilmente acessíveis às suas populações. Afirmam, ainda, que cada cidade deveria ser como uma arena de criatividade, com atividades multidimensionais, onde os talentos das pessoas crescem e os sonhos se materializam. A criatividade é reconhecida como um motor essencial para a smart city, desse modo, as pessoas, a educação, a aprendizagem e o conhecimento têm uma importância central (Nam e Pardo, 2011). No entanto, as cidades têm um grande número de pessoas que devem se adaptar à vida urbana sem as competências necessárias a uma verdadeira adaptação. Em contrapartida, a criminalidade pode nascer desse conflito, além de outros riscos (Saaty e De Paola, 2017).

Contudo, o aumento da população urbana também pode trazer vantagens: em alguns casos, as cidades concentram a pobreza, mas, em outros casos, as cidades proporcionam, ao mesmo tempo, a saída mais importante da pobreza. Se as cidades geram problemas, é preciso considerar que elas também já incluem possíveis soluções. Destarte, os benefícios da urbanização são potencialmente superiores às suas desvantagens, e os problemas e as oportunidades são pontos-chave para melhorar a vida urbana, para o crescimento a longo prazo e para a sustentabilidade ambiental e social (ibid.).

À vista disso, Beck, Boff e Cenci (2022) afirmam que a concepção de smart cities deve estar intrinsecamente ligada ao conceito de direito à cidade, uma vez que seu propósito é assegurar que todos os residentes tenham acesso aos serviços urbanos municipais, promovendo o desenvolvimento sustentável. Além disso, é fundamental implementar políticas públicas que integrem os cidadãos ao mundo digital, tanto por meio da educação digital quanto pela erradicação das desigualdades socioeconômicas.

Nesse sentido, as smart cities têm o compromisso de assegurar e promover os direitos sociais estipulados no Artigo 6º da Constituição (Brasil, 1988). Isso abrange o acesso a serviços essenciais de alta qualidade, como educação, saúde, emprego, habitação, transporte, entretenimento e segurança, garantindo igualdade de oportunidades para todos os residentes. Assim, é fundamental que as tecnologias adotadas nas smart cities sejam aplicadas de maneira a aprimorar a qualidade de vida, reduzir desigualdades sociais e fomentar a inclusão social e o desenvolvimento sustentável.

A transformação digital de uma cidade pode gerar impactos positivos ou desafios, dependendo do seu contexto, pois a realidade de cada lugar influencia o potencial de uso das TICs. Por isso, é preciso considerar a ampla diversidade e as profundas desigualdades históricas que marcam o território brasileiro, por exemplo, ao refletir e agir sobre a transformação digital (Sousa Júnior et al., 2021).

Paralelamente, as smart cities apresentam oportunidades e desafios para governos e cidadãos. Entre as oportunidades estão a melhoria da integração e prestação de serviços públicos, o aumento da sustentabilidade ambiental, a facilitação da entrada de empreendedores, a melhoria da governança e inovação, o engajamento dos cidadãos e o gerenciamento do turismo. Já os desafios incluem dados, governança, capacidades, regulamentação e financiamento, exigindo uma abordagem integrada e multissetorial para evitar riscos, como comprometimento de dados, privacidade e desigualdades digitais (OECD, 2019).

Beck et al. (2020), a partir da literatura brasileira, averiguaram que a "dimensão social" das smart cities ainda está em estágio inicial. Com base no estado atual dessa literatura, foi possível compreender a composição da "dimensão social" das smart cities assim como a integração com a governança e a cadeia sociotécnica (Figura 1).

Figura 1
– Dimensão social das cidades inteligentes, governança e cadeia sociotécnica

Com isso, Beck et al. (2020) afirmam que não há consenso sobre os impactos sociais das smart cities. Por um lado, elas promovem desdobramentos positivos, como a inovação tecnológica, a inclusão social nos serviços públicos, o aumento do engajamento social e a transparência governamental. Por outro lado, há preocupações acerca da exclusão social, como o acesso desigual às tecnologias e o aumento da segregação socioespacial, que configuram desdobramentos negativos. Destacam, porém, que as TICs são fundamentais na inovação das smart cities, melhorando a gestão e a governança socioespacial com a colaboração da sociedade, indústria, academia e empresas, além de promoverem a sustentabilidade urbana ao integrar aspectos físicos, sociais e humanos da cidade.

Mesmo com discursos inclusivos, observa-se que a questão da desigualdade ainda se faz presente em boa parte das iniciativas de smart cities, especialmente nos países menos desenvolvidos em que os habitantes são definidos como meros consumidores das soluções tecnológicas (Mendes, 2020), assunto a ser discutido na próxima seção.

Os riscos sociais na smart city

A evolução nos projetos de smart cities revela o amadurecimento da compreensão de que toda cidade é construída por e para sua população. Com isso, os investimentos devem ser pensados e direcionados para os seres humanos, que serão seus principais receptores (Rampazzo, Corrêa e Vasconcelos, 2019). Embora ofereçam vantagens e excelentes oportunidades, as smart cities apresentam riscos e desafios sem precedentes, entre eles, a exclusão digital e social (Shayan et al., 2020; Shayan e Kim, 2023), seja pela falta de capacitação instrumental, cognitiva ou pela restrição econômica.

As TICs têm o papel crucial de promoverem a aproximação entre o Estado e a sociedade, sendo a governança inteligente o meio de garantir que o planejamento das smart cities seja inclusivo. Isso se traduz na criação de uma cidadania participativa, igualitária e inteligente, tendo em vista que a inteligência das cidades não se concretizará sem governos devidamente capacitados para gerenciar a interação entre os seres humanos e as tecnologias, bem como para assumir um compromisso efetivo com os direitos humanos e fundamentais (Beck, Boff e Cenci, 2022).

Entretanto, desenvolver soluções inteligentes, que abordem preocupações ambientais e necessidades socioeconômicas de menor relevância, não é a maneira mais eficaz de impulsionar o desenvolvimento e a inovação das TICs nas SSC. Em vez disso, é fundamental adotar uma abordagem realista dos problemas mais urgentes, como ineficiência energética, degradação ambiental, segregação urbana, desigualdade social e falta de acesso a oportunidades para orientar a criação de soluções inteligentes (Bibri e Krogstie, 2017). Então, o desafio que os governos locais enfrentam é de criar uma SSC que adote soluções modernas, voltadas para a melhoria da qualidade de vida de todos os residentes, evitando a exclusão de qualquer grupo social ou indivíduo (Giela, 2022).

O risco é um tema relativamente novo na disciplina de smart cities e é mais discutido no contexto dos países que possuem o maior número de smart cities existentes. Embora vários estudos abordem os riscos tecnológicos das smart cities, pouco foco é dado aos aspectos sociais relacionados. A razão para a falta de tais estudos é, parcialmente, porque a principal força motriz das smart cities se encontra na tecnologia promovida por grandes corporações de TIC. Assim como, ao contrário dos problemas técnicos, as questões sociais demoram a aparecer. Outro fato relevante é que países com uma longa história de smart cities, como Reino Unido e Itália, deram mais atenção aos riscos sociais. Em suma, os riscos sociais ainda não surgiram como uma questão crítica por um longo período, logo, não foram investigados com tanta frequência quanto os riscos tecnológicos (Shayan et al., 2020).

Os riscos sociais podem ser ocasionados tanto por consequências naturais do modelo e uso de TIC quanto por deficiências no planejamento, implementação e execução dos projetos e iniciativas de smart cities. Esses riscos envolvem privacidade e segurança de dados, exclusão digital, desigualdades sociais acentuadas, discriminação e gentrificação, além de falta de participação pública, falhas na infraestrutura e aumento da vigilância e controle (Gupta e Hall, 2021; Morozova e Yatsechko, 2022; Sengupta e Sengupta, 2022; Shayan e Kim, 2023).

De um lado, as smart cities dependem da coleta e análise de dados para melhorarem a eficiência e qualidade de vida. No entanto, sem medidas adequadas de segurança e privacidade, há riscos de violações e uso indevido dos dados dos cidadãos. A falta de acessibilidade às tecnologias pode criar uma divisão digital, excluindo certos grupos sociais dos benefícios das smart cities. A implementação desigual das soluções tecnológicas pode agravar as desigualdades sociais, favorecendo alguns grupos socioeconômicos em relação a outros. Além disso, a gentrificação pode intensificar a discriminação, deslocando comunidades historicamente marginalizadas em favor de novos residentes, mais privilegiados (Angelidou, 2014; Nam e Pardo, 2011; Rampazzo, Corrêa e Vasconcelos, 2019; Shayan e Kim, 2022). Adicionalmente, a integração de tecnologias digitais nas áreas urbanas pode afetar os indivíduos de maneira desigual com base em fatores sociodemográficos, como idade, nível educacional, renda e gênero (Shayan e Kim, 2023).

De outro, o planejamento das smart cities muitas vezes não envolve adequadamente os cidadãos e partes locais (associações comunitárias, organizações da sociedade civil, lideranças locais, comerciantes, pequenas e médias empresas), o que pode levar a soluções que não atendem às necessidades da comunidade ou são percebidas como impositivas, causando resistência ou alienação. Se as infraestruturas tecnológicas não forem robustas o suficiente ou não forem mantidas corretamente, as smart cities podem sofrer interrupções nos serviços essenciais, prejudicando a confiança dos cidadãos nas iniciativas. Além disso, se as tecnologias forem usadas para monitorar excessivamente os cidadãos, isso pode levantar preocupações sobre privacidade e liberdade, criando uma atmosfera de vigilância invasiva e opressiva (Aghimien et al., 2022; Gupta, Zhang e Hall, 2021; He e Tritto, 2022; Ismagilova et al., 2022; Sengupta e Sengupta, 2022).

Shayan et al. (2020) categorizaram os riscos das smart cities em três temas principais: organizacionais, sociais e tecnológicos. Os riscos organizacionais incluem desafios à governança, estratégias, tomada de decisões, coordenação e ambientes de negócios. Os riscos sociais envolvem ameaças às pessoas, sociedades e comunidades, e formas de mitigá-los. Os riscos tecnológicos focam na segurança cibernética, privacidade e interoperabilidade das tecnologias. Na intersecção desses temas, os autores identificaram três grupos: riscos de transformação digital, riscos sociotécnicos e riscos de responsabilidade social corporativa, destacando que os riscos sociotécnicos são os mais frequentemente sobrepostos (Figura 2).

Figura 2
– Correlações entre riscos de smart cities

Nem todos os cidadãos são proficientes em tecnologias digitais ou cientes das tecnologias inteligentes disponíveis devido ao analfabetismo digital e ao acesso desigual às tecnologias. Isso pode levar à exclusão de pessoas vulneráveis, que não conseguem aproveitar todos os benefícios de uma smart city. Os sistemas sociotécnicos, que envolvem elementos humanos e tecnológicos, apresentam riscos sociotécnicos dinâmicos que refletem essas desigualdades (Shayan et al., 2020).

Os fatores tecnológicos e organizacionais estão interligados na transformação digital com organizações frequentemente não prontas ou cientes das mudanças necessárias, havendo muitas incapazes de investir em tecnologias avançadas. A Responsabilidade Social Corporativa (RSC), na interseção dos aspectos organizacionais e sociais, também envolve riscos, pois as tecnologias para smart cities, desenvolvidas por instituições de pesquisa e corporações, trazem responsabilidades sociais para essas corporações (ibid.).

Shayan e Kim (2022) identificaram riscos sociais, por meio da revisão da literatura, na transição para smart cities, em que evidenciaram dez riscos que incluem: exclusão social; gentrificação; fosso digital; desigualdade e discriminação; desempoderamento de pessoas vulneráveis (dependência de outros); foco excessivo na eficiência e negligência dos problemas sociais reais; aceitação de tecnologia; falta de compromisso com a aprendizagem ao longo da vida; não participação dos residentes; isolamento de residentes com acesso limitado à tecnologia.

Shayan e Kim (2023) também identificaram duas categorias de riscos sociais na transição para smart cities: riscos em nível individual e em nível de projeto. No nível individual, os principais riscos são: exclusão digital, desempoderamento, exclusão social e discriminação. No nível de projeto, os riscos são: resistência a tecnologias inteligentes, falta de compromisso com a aprendizagem contínua e não participação no desenvolvimento das smart cities. Além disso, os riscos sociais variam conforme os fatores sociodemográficos, como idade, educação, renda e gênero. Os resultados revelaram que a exclusão social é o maior risco social, seguida pela discriminação, sendo os adultos mais velhos e as mulheres os grupos mais sensíveis. No entanto, a renda e o grau acadêmico não mostraram correlação significativa com os riscos sociais.

Seidler et al. (2023) conduziram uma revisão sistemática da literatura dos últimos dez anos para esclarecer os riscos sociais associados à implementação de smart cities. O estudo identificou 15 riscos sociais, relacionados à qualidade de vida dos indivíduos, segurança, representatividade, direitos sociais e acessibilidade. Eles observaram que, ao considerar os estudos de smart cities, a atenção se concentra nos desafios técnicos e de segurança, enquanto os impactos sociais da transformação digital são frequentemente negligenciados, agravando a exclusão social em contextos de desigualdade.

Desse modo, para garantir que a digitalização não aumente o fosso ou que contribua para aumentar o descontentamento dos cidadãos e uma reação contra as instituições públicas, o elemento humano não deve ser esquecido, pois nem todas as tendências tecnológicas são benéficas para a saúde social ou a felicidade pessoal. No caso das smart cities, a ação pública e privada deve ser vista através da lente do seu valor para a sociedade, uma vez que os custos sociais podem surgir com a digitalização, especialmente, durante o período de transição (OECD, 2019).

Nesse sentido, torna-se fundamental problematizar o modo como essas iniciativas são concebidas e comunicadas. Com frequência, os diversos termos e rótulos adotados pelas cidades – como global, sustainable, resilient, creative ou smart – operam mais como estratégias de marketing urbano e branding territorial do que como instrumentos substantivos de enfrentamento das desigualdades estruturais (Hollands, 2008). Embora esses discursos frequentemente reivindiquem objetivos inclusivos, sua capacidade real de reduzir desigualdades sociais é limitada e, em alguns casos, meramente retórica, podendo inclusive obscurecer tensões e exclusões produzidas pelos próprios processos de transformação urbana e digital (Hatuka et al., 2018).

Figueiredo (2016) reflete criticamente sobre como as diversas formas de cidades "inteligentes" podem impactar a população vulnerável no Brasil. Ele sugere que a disputa sobre a definição e implementação das smart cities ocorre no campo do imaginário, no qual se formam as representações e ideais sobre essas cidades. Angelidou (2014) também destaca que acreditar que a simples introdução de tecnologia torna uma cidade "inteligente" e o uso superficial do termo dificultam a compreensão do conceito.

As cidades não são apenas sobre tecnologia e modernidade, o conceito de smart city pode obscurecer questões importantes e dificultar a mudança urbana progressiva e inclusiva. Para serem verdadeiramente inteligentes, as cidades precisam abraçar riscos maiores, combater desigualdades e redefinir o que significa ser inteligente. Isso implica devolver poder às comunidades e enfrentar desafios sociais, não apenas tecnológicos (Hollands, 2008).

Muitos problemas urbanos importantes, como pobreza, discriminação, desigualdade, polarização social, crime e negligência, além de problemas ambientais, como congestionamento de tráfego e reciclagem têm raízes sociais, políticas e culturais. As soluções tecnológicas simples não são suficientes para abordar essas complexidades. Isso cria um desafio para iniciativas inteligentes, sejam elas corporativas ou não (Hollands, 2015).

Também há uma dicotomia entre beneficiar e incluir a população dentro das smart cities. Em grande parte, as cidades buscam apenas beneficiar a sua população através da utilização da tecnologia, seja sob a forma de aplicativos, disponibilização de redes públicas de Wi-Fi, entre outros. Já a efetiva inclusão, que visa, de maneira pontual, melhorar a qualidade de vida de pessoas em risco de pobreza e exclusão social para que tenham as mesmas oportunidades e recursos para participarem das esferas social, econômica e cultural em todo o processo de transformação digital, não é observada com frequência (Rampazzo, Corrêa e Vasconcelos, 2019).

Outra questão a ser considerada se refere às características únicas de cada cidade, como tamanho, recursos financeiros e ambiente construído, que influenciam sua capacidade de adotar tecnologias inteligentes. Não há uma solução única que funcione para todas as cidades. Tipologias de smart cities podem ajudar a entender as necessidades individuais de cada cidade e promover o diálogo para encontrar soluções comuns. Elas servem como guias para direcionar o desenvolvimento urbano (OECD, 2020). Assim, a paisagem da smart city deve ser moldada pelas características locais, prioridades e necessidades das cidades, além das forças do mercado global e da tecnologia disponível (Angelidou, 2014).

O conceito de smart city, muitas vezes, é baseado na ideia de um modelo urbanístico universal, que presume que todos os problemas urbanos podem ser resolvidos com tecnologias existentes. No entanto, essa abordagem desconsidera a complexidade dos processos sociais e conflitos territoriais presentes nas cidades, resultando em um equívoco analítico significativo (Figueiredo, 2016).

A heterogeneidade dos espaços urbanos demanda soluções adaptativas, pois o sucesso em uma área não garante replicabilidade em outra. A escolha entre abordagens top-down e bottom-up na implementação de smart cities determina se os benefícios alcançarão toda a população ou apenas uma parte dela. É essencial envolver diversos stakeholders, como planejadores urbanos, engenheiros, sociólogos, empresas e startups para evitar que a definição dos recursos tecnológicos fique exclusivamente nas mãos das grandes corporações. Uma abordagem bottom-up pode genuinamente promover a inclusão social, priorizando as necessidades dos habitantes (Mendes, 2020). A inclusão social é um processo para incluir pessoas que são excluídas da sociedade por diversos fatores, por exemplo, a tecnologia sob a forma de exclusão digital (Rampazzo, Corrêa e Vasconcelos, 2019).

A melhor alternativa, provavelmente, seja a mescla dos dois modelos. Como afirmam Nam e Pardo (2011), uma smart city bem-sucedida pode ser construída a partir de abordagens de cima para baixo ou de baixo para cima, desde que haja o envolvimento ativo de todos os setores da comunidade, o que é essencial. As smart cities do futuro não serão aquelas criadas a partir de cima para baixo, mas aquelas que cresceram organicamente mais inteligentes (Papa, Gargiulo e Galderisi, 2013).

Apesar de muitos projetos urbanos afirmarem tratar de questões sociais, econômicas e ambientais, críticas crescentes têm apontado para a retórica da smart city, ou ainda entrepreneurial city e corporate smart city (Hollands, 2008, 2015), argumentando que ela mascara a desigualdade e, principalmente, serve para se vender, onde os negócios, a tecnologia impulsionada e a gentrificação podem ser interpretadas como uma forma urbana relativamente despreocupada com a desigualdade de classe (Hatuka et al., 2018; Hollands, 2008).

Em outras palavras, a imaginação utópica de smart city prioriza a urbanização como um modelo de negócios, em vez de um modelo de justiça social (Datta, 2015). De tal modo, a abordagem neoliberal e capitalista busca transformar os espaços urbanos em ambientes voltados para o consumo, privando os cidadãos do direito à cidade e de uma vida urbana saudável, igualitária e inclusiva (Beck, Boff e Cenci, 2022).

Como acrescentam Paskaleva et al. (2017), o paradigma da smart city tem sido criticado por favorecer soluções tecnológicas e interesses empresariais em detrimento da inclusão social e da inovação urbana. Apesar da retórica de “abordagens centradas no cidadão” e de “dados gerados pelos utilizadores”, o nível de envolvimento das partes interessadas e de capacitação pública ainda não está consolidado.

Holston, em seu estudo sobre Brasília (Holston, 1989), analisa a construção da cidade como uma tentativa de mudar a sociedade, mas destaca como os paradoxos desse projeto minam suas premissas utópicas, resultando em críticas ao modernismo. Ele destaca como Brasília, inicialmente concebida para ter uma sociedade livre de divisões de classe e disparidades sociais, ainda enfrenta desafios significativos de justiça social mesmo após muitos anos de sua fundação.

Um estudo crítico sobre a smart city de Dholera, na Índia, revela um processo de construção de novas cidades marcado por demandas contraditórias de crescimento econômico e justiça social. Dholera exemplifica como estados adotam abordagens neoliberais para atrair capital global e promover crescimento econômico através da construção de novas cidades e ecocidades, sob a ideologia da urbanização empreendedora. A rápida disseminação da ideologia das smart cities na Índia destaca como os estados podem impor narrativas de cidadania e modernidade, reprimindo a resistência e ação social de grupos marginalizados, enquanto promovem a urbanização como um "bom modelo de negócios" (Datta, 2015, p. 18).

O planejamento urbano deve integrar a dimensão digital para garantir a coesão social. A digitalização dos serviços pode fragmentar a sociedade, deixando grupos sem acesso digital, isolados. O caso do Rio de Janeiro ilustra essa questão, com críticas à falta de consideração das desigualdades sociais, em que o lema "Smarter Favela" evidencia a falha em lidar com as disparidades, ampliando o fosso social e a polarização espacial (Angelidou, 2014). Figueiredo (2016) sugere que o Brasil precisa compreender melhor sua realidade urbana complexa e desigual para alcançar um urbanismo sustentável, especialmente no aspecto social. Também destaca a importância de estudar casos e experiências de outras cidades para entender as particularidades de cada contexto social, histórico e territorial, visto que os avanços tecnológicos correm o risco de exacerbar as desigualdades socioeconômicas existentes e gerar novas. A exclusão digital, por exemplo, tende a afetar negativamente as mulheres, os idosos, as minorias étnicas e os imigrantes. As cidades podem mitigar isso com medidas que incluem o fornecimento de acesso disponível à Internet, treinamento de habilidades e apoio à comunidade. Uma divisão ambiental ocorre quando as iniciativas de sustentabilidade urbana beneficiam desproporcionalmente os residentes de classe média. Com isso, as cidades enfrentam uma série de questões éticas, legais e técnicas complexas por meio da introdução de tecnologias de ponta, como drones e veículos autônomos, logo, isso requer uma avaliação cuidadosa (UN-Habitat, 2022).

Apesar do alto índice de conexão à internet no Brasil, a pesquisa TIC Domicílios 2022 revela uma exclusão digital significativa. Cerca de 62% dos usuários acessam a internet apenas pelo celular, refletindo a acessibilidade desigual dos dispositivos. Apenas 39% dos domicílios têm acesso à internet e computador, enquanto 42% possuem apenas internet. Além disso, aproximadamente 14% da população nunca usou a internet, sendo cerca de 27 milhões de brasileiros. A falta de habilidade com o computador é o principal motivo citado, seguido pela falta de interesse e necessidade, custos de conexão e preocupações com segurança e privacidade. Essa exclusão digital afeta especialmente as classes DE e C, totalizando aproximadamente 36 milhões de pessoas (CGI.br, 2023).

Nesse contexto, as desvantagens da infraestrutura pesada/rígida da smart city incluem disparidades sociais, exclusão digital, polarização espacial, gentrificação e questões de transparência e privacidade. Há riscos de desigualdades no acesso e conhecimento sobre tecnologia, fragmentação na habitação e estilo de vida, segmentação de consumidores e custos elevados, integração complexa de sistemas e necessidade de atualizações frequentes (Angelidou, 2014).

Quanto a acessibilidade das TICs, um bom exemplo é a chamada cidade ubíqua (U-city), que representa uma extensão do conceito de cidade digital, enfatizando acessibilidade e infraestrutura onipresentes (Anthopoulos e Fitsilis, 2010). Exemplificada na República da Coreia, busca disponibilizar computação onipresente para elementos urbanos, permitindo que qualquer cidadão acesse serviços em qualquer lugar e momento por meio de qualquer dispositivo (Lee et al., 2008).

A infraestrutura leve/flexível da smart city, centrada nas pessoas, traz vantagens como valorização do capital humano, empoderamento do cidadão, avanço do capital social, sustentabilidade social, inclusão digital e mudança comportamental positiva. Ela promove uma abordagem humanizada, adaptando-se às necessidades dos usuários e respeitando sua diversidade. No entanto, também apresenta desafios, como o acesso desigual ao ciberespaço, a necessidade de garantir a integridade das informações e o fato de que o acesso digital nem sempre se traduz em participação efetiva da comunidade (Angelidou, 2014).

Como enfatizado por Nam e Pardo (2011), a infraestrutura social (capital intelectual e capital social) é um dom indispensável para as smart cities, diz respeito às pessoas e ao seu relacionamento. Uma vez que, pessoas inteligentes geram e se beneficiam do capital social, pode-se dizer que a smart city é uma mistura de educação e formação; cultura e artes; e, negócios e comércio. Constitui uma mistura híbrida de empresa social, empresa cultural e empresa econômica.

Dessa forma, é relevante ressaltar o framework teórico da dimensão social das smart cities proposto por Beck et al. (2020). Em que a governança urbana dispõe dos mecanismos da participação social e das TICs para gerar valor social, e assim, beneficiar a sociedade pela transformação do ambiente urbano em uma smart city (Figura 3).

Figura 3
Framework da dimensão social das cidades inteligentes

Beck et al. (2020) apontam que os atores sociais desempenham um papel importante no desenvolvimento da smart city. Os principais aspectos sociais identificados incluem o fortalecimento dos laços comunitários, a melhoria da segurança pública e o aumento da acessibilidade urbana, que promovem a qualidade de vida. A interação entre os elementos centrais da dimensão social (governança, TICs e valores sociais) enfatiza a eficiência dos serviços públicos, o desenvolvimento urbano sustentável, a inovação nos sistemas públicos, a modernização da infraestrutura e os avanços educacional e humano.

Por fim, a revolução digital da Era da Internet 4.0 deve beneficiar a todos, não apenas grupos privilegiados. A fusão entre o mundo real e o virtual trouxe novas formas de interação, especialmente na política, ampliando os espaços democráticos. No entanto, é crucial garantir que a população vulnerável tenha acesso a essas inovações para que políticas públicas de governança tecnológica sejam adaptadas às suas necessidades. Caso contrário, há o risco de exclusão e impactos da gentrificação tecnológica (Beck, Boff e Cenci, 2022).

Perspectivas globais sobre os desafios sociais

As smart cities estão na interseção das dimensões sociais e tecnológicas, atendendo a comunidades de todos os tamanhos, inclusive municípios menores e regionais. Porém, a ênfase tem sido mais na tecnologia, liderada por empresas como IBM, Cisco, Intel, General Electric, Microsoft, Oracle e Amazon (OECD, 2019). As grandes corporações veem as smart cities como uma oportunidade de crescimento financeiro, impulsionando um mercado que se espera atingir um tamanho de US$620,5 bilhões até 2025. Estima-se que esse mercado registre uma taxa de crescimento anual composta (CAGR) de 18% ao longo do período de previsão, alcançando um valor de US$1,256,8 bilhões até 2032 (Chavan, 2025).

Globalmente, diversas iniciativas visam mitigar os riscos da digitalização e das inovações tecnológicas. A adaptação das práticas de inovação aos contextos locais é essencial, especialmente em cidades menores e em países em desenvolvimento. Há uma agenda de capacitação para enfrentar as desigualdades sociais e a exclusão decorrentes dos avanços tecnológicos. As cidades podem aproveitar ferramentas digitais de maneira inovadora para aprimorar serviços públicos e decisões locais, enfatizando a necessidade de inclusão, colaboração e empoderamento para evitar comunicações unilaterais (UN-Habitat, 2022).

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) lançou o programa Iniciativa Cidades Emergentes e Sustentáveis (Ices) em 2011, focado no apoio a cidades médias da América Latina e Caribe, com população entre 100 mil e 2 milhões de habitantes. Esse programa visa desenvolver projetos de smart cities em várias áreas temáticas (Figura 4), os quais incluem inclusão social, produtividade, inovação, igualdade de gênero, mudança climática, sustentabilidade ambiental e capacidade institucional (Bouskela et al., 2016).

Figura 4
– Dimensões de projetos de smart cities apoiadas pelo BID

A European Parliamentary Research Service (EPRS) desenvolveu uma estrutura para entender as smart cities em cinco componentes, conforme a Figura 5. O primeiro componente tem o maior impacto na vida diária dos cidadãos, o que também traz riscos sociais associados.

Figura 5
– Os componentes de uma smart city e seus objetivos

Conforme Macaluso et al. (2023), na análise foram examinados os potenciais riscos para indivíduos, comunidades e territórios em várias escalas. Os impactos de 25 casos de uso foram mapeados em seis domínios: econômico, ambiental, ético, político/legal, social e tecnológico. Observaram-se efeitos específicos em diversos grupos demográficos e escalas territoriais. Os resultados apresentaram a identificação de 48 riscos, que podem ser agrupados em seis principais macrodesafios, como mostra a Figura 6.

Figura 6
– Seis macrodesafios identificados em smart cities europeias

Ao avaliar os impactos sociais e indiretos dos riscos, é importante reconhecer que alguns têm consequências diretas, enquanto outros podem ter efeitos menos evidentes, porém igualmente significativos. Por exemplo, os riscos de segurança cibernética podem afetar a infraestrutura essencial, embora seu impacto seja principalmente tecnológico; suas consequências podem afetar os cidadãos, tornando-os socialmente relevantes. Da mesma forma, na transição para smart cities, os efeitos sociais podem ser negligenciados, pois são frequentemente indiretos ou secundários (Macaluso et al., 2023).

Embora os indicadores da ISO 37120 tenham se tornado referência internacional para cidades sustentáveis, apresentam limites: privilegiam métricas quantitativas, desconsideram contextos culturais e sociais, não abordam riscos de exclusão social ou digital e podem priorizar eficiência técnica sobre governança inclusiva. Especialistas identificaram a necessidade de indicadores adicionais para as smart cities. Nesse sentido, a ISO 37122, em conjunto com a ISO 37120, fornece um conjunto completo de indicadores para medir o progresso em direção a uma smart city (ISO/FDIS 37122, 2019).

A lista de indicadores da ISO 37122 contempla 19 temas: economia; educação; energia; meio ambiente e mudanças climáticas; finanças; governança; saúde; habitação; população e condições sociais; recreação; segurança; resíduos sólidos; esporte e cultura; telecomunicação; transporte; agricultura local/urbana e segurança alimentar; planejamento urbano; esgotos; e, água (ibid.).

A maioria dos casos de sucesso (ou fracasso) em smart cities é observada em cidades europeias, americanas e asiáticas, que têm dinâmicas sociais e qualidade urbanística diferentes das cidades brasileiras. Enquanto no Norte Global a questão é "como fazer igual ou melhor com menos", no Sul Global, no Brasil, o "como fazer" ainda carece de resposta (Figueiredo, 2016).

Traçando o futuro das cidades

Os índices globais de inteligência e inovação urbana consideram uma variedade de indicadores, incluindo infraestrutura tecnológica, qualidade de vida e participação cidadã (Berrone e Ricart, 2022). No Brasil, o Ranking Connected Smart Cities é uma referência desde 2015. Em 2025, foi reorganizado com indicadores provenientes das normas ISO 37120, 37122 e 37123 da ABNT (CSC, 2025).

A avaliação das cidades integra 75 indicadores em 13 eixos temáticos: Economia e Finanças; Governança; Meio Ambiente e Mudanças Climáticas; Resíduos Sólidos, Esgotos e Água; Educação; Habitação e Planejamento Urbano; Mobilidade Urbana; Saúde, Agricultura Local/Urbana e Segurança Alimentar; Telecomunicações; Energia; Inovação e Empreendedorismo; População e Condições Sociais; e, Segurança (CSC, 2025).

No entanto, é importante questionar se essas classificações refletem, de fato, a realidade geral da população em termos de qualidade de vida e acesso equitativo às tecnologias. Autores como Ringenson et al. (2017) e Fachinelli et al. (2023) alertam para o risco de exclusão digital e econômica em iniciativas de smart cities, destacando a importância da inclusão social e das desigualdades socioeconômicas e regionais ao considerar o futuro das cidades.

A governança das smart cities enfrenta desafios complexos devido à interseção com questões não digitais, como justiça social e política, ressaltando-se a importância de considerar fatores sociais ao analisar os impactos desses projetos (Beretta, 2018; Sengupta e Sengupta, 2022; Tan, 2022). Shayan et al. (2020) sugerem foco em estratégias de mitigação para riscos sociais e integração de processos de gerenciamento de riscos em smart cities. Ullah et al. (2021) destacam a necessidade de uma abordagem sociotécnica para equilibrar componentes tecnológicos e sociais.

Seidler et al. (2023) ressaltam a importância de estudos empíricos sobre riscos sociais em smart cities, especialmente em países em desenvolvimento, e sugerem que parcerias público-privadas e práticas corporativas responsáveis podem ajudar a mitigar esses riscos. Em meio ao avanço tecnológico, a equidade e a justiça frequentemente são negligenciadas, enfatizando-se a importância de considerar os impactos sociais das tecnologias nas smart cities (UN-Habitat, 2022).

Enfim, os debates devem considerar que a 4ª Revolução Industrial trouxe benefícios tecnológicos, mas também desafios, especialmente para grupos marginalizados. Para uma verdadeira inteligência urbana, as smart cities devem equilibrar tecnologia com desafios urbanos e necessidades sociais, adotando uma abordagem centrada no ser humano. No entanto, ainda há uma necessidade de mais pesquisas abrangentes nessa área (OECD, 2020; Rampazzo, Corrêa e Vasconcelos, 2019).

Considerações finais

O objetivo deste artigo foi revisar a literatura para aprofundar o debate sobre os riscos sociais das smart cities, visando promover discussões sobre justiça social, desigualdades e exclusões nas cidades modernas. Destaca-se que as tecnologias emergentes nessas cidades podem tanto ampliar oportunidades quanto acentuar disparidades sociais. Além disso, a análise buscou identificar lacunas de conhecimento e áreas para pesquisas futuras.

As tecnologias têm o potencial de beneficiar a população, mas sua integração nas cidades pode influenciar as desigualdades socioeconômicas. Dependendo da abordagem escolhida, os benefícios podem ser equitativamente distribuídos ou favorecer apenas alguns. Logo, transições mal planejadas para smart cities, que ignoram o contexto social, podem agravar as desigualdades e a exclusão social e digital.

O planejamento cauteloso e a execução criteriosa de projetos de smart cities são fundamentais, considerando tanto os aspectos tecnológicos quanto os impactos sociais. Essa abordagem é essencial para promover smart cities inclusivas, que incentivem a participação e o engajamento dos cidadãos. Além disso, os riscos sociais são uma realidade nessas cidades, exigindo estratégias de gestão adaptadas a diferentes contextos, especialmente em países em desenvolvimento com maiores carências econômicas e sociais.

O Brasil apresenta iniciativas voltadas ao desenvolvimento de smart cities, mas ainda necessita de maior integração entre os setores público e privado, além de investimentos significativos em infraestrutura tecnológica, governança e capacitação técnica. A implementação de políticas públicas voltadas para a promoção de inclusão digital, sustentabilidade e participação cidadã é fundamental para enfrentar os desafios urbanos e criar cidades mais justas e eficientes.

Concluindo, o framework (Figura 3) de Beck et al. (2020) propõe uma smart city “ideal”, socialmente orientada, integrando governança participativa, TICs e valores sociais para mitigar riscos sociais como exclusões e segregação. A participação dos atores sociais conecta inovação, equidade e sustentabilidade, alinhando-se aos ODS, e orienta a modernização urbana para a justiça social, a inclusão e a cidadania ativa, além da eficiência técnica.

Por fim, é crucial avaliar os riscos sociais e adotar medidas proativas locais, com a colaboração e participação de todos os atores sociais envolvidos no processo de construção da smart city. Isso garantirá uma distribuição equitativa dos benefícios das tecnologias avançadas, contribuindo para alcançar os ODS e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos de forma abrangente.

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  • Declaração de disponibilidade de dados da pesquisa:
    Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Editores:
    Lucia Bógus
    Luiz César de Queiroz Ribeiro
  • Organizadores deste número:
    Ana Marcela Ardila Pinto
    Carlos Fernando Ferreira Lobo, Natália Villamizar Duarte

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados de apoio aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2026

Histórico

  • Recebido
    22 Maio 2024
  • Aceito
    10 Jan 2025
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