Open-access O que se tem pesquisado sobre a memória implícita na fonoaudiologia? Uma revisão de escopo

RESUMO

Objetivo  mapear como a memória implícita tem sido abordada na produção científica internacional em Fonoaudiologia.

Estratégia de pesquisa  Foi realizada busca eletrônica nas bases PubMed, Web of Science, Scopus, Embase, CINAHL e PsycINFO, complementada por busca manual nas referências dos estudos incluídos. A revisão de escopo foi conduzida com base no Manual para Síntese de Evidências do Joanna Briggs Institute, seguindo as diretrizes PRISMA-ScR. O protocolo foi registrado no Open Science Framework (10.17605/OSF.IO/PNDWF).

Critérios de seleção  Foram incluídos estudos que abordassem a memória implícita em contextos fonoaudiológicos, em português, inglês ou espanhol, independentemente do ano de publicação.

Análise dos dados  Dois revisores extraíram os dados de forma independente, considerando delineamento, população, objetivos e principais desfechos. Os estudos foram agrupados por área de aplicação e sintetizados por análise descritiva e narrativa.

Resultados  Um total de 2.565 documentos foram identificados, dentre os quais 39 compuseram essa revisão. Os estudos foram agrupados em 3 categorias (linguagem, audiologia e voz). Os temas mais frequentes encontrados foram: a aplicação da aprendizagem implícita em contextos terapêuticos fonoaudiológicos; o uso de tarefas implícitas para avaliação e caracterização de transtornos; as investigações de vieses, preconceitos e/ou percepções implícitas na prática fonoaudiológica.

Conclusão  A literatura trata a memória implícita de forma limitada e heterogênea, principalmente em linguagem, audiologia e voz, com foco em aprendizagem implícita, avaliação e vieses. Apesar do potencial clínico, há carência de sistematização conceitual e metodológica, indicando a necessidade de pesquisas futuras para consolidar seu uso na área.

Descritores:
Priming de Repetição; Memória Implícita; Fonoaudiologia; Viés Implícito; Revisão de Escopo

ABSTRACT

Purpose  to map how implicit memory has been addressed in international scientific speech-language-hearing production.

Research strategies  An electronic search was conducted in the PubMed, Web of Science, Scopus, Embase, CINAHL, and PsycINFO databases, supplemented by a manual search of references of the included studies. The scoping review was conducted based on the Joanna Briggs Institute Evidence Synthesis Manual, following the PRISMA-ScR guidelines. The protocol was registered in the Open Science Framework (10.17605/OSF.IO/PNDWF).

Selection  criteria: Studies addressing implicit memory in speech-language-hearing contexts, in Portuguese, English, or Spanish, regardless of year of publication, were included.

Data  analysis: Two reviewers independently extracted data, considering design, population, objectives, and main outcomes. The studies were grouped by area of application and synthesized by descriptive and narrative analysis.

Results  A total of 2,565 documents were identified, of which 39 comprised this review. The studies were grouped into three categories (language, audiology, and voice). The most frequent themes found were the application of implicit learning in speech-language-hearing contexts; the use of implicit tasks for the assessment and characterization of disorders; and investigations of biases, prejudices, and/or implicit perceptions in speech-language-hearing practice.

Conclusion  The literature deals with implicit memory in a limited and heterogeneous manner, mainly in language, audiology, and voice, focusing on implicit learning, assessment, and biases. Despite its clinical potential, there is a lack of conceptual and methodological systematization, indicating the need for future research to consolidate its use in the field.

Keywords:
Repetition Priming; Implicit Memory; Speech-Language Pathology; Bias; Implicit; Scoping Review

INTRODUÇÃO

Por volta da década de 1970, o estudo da memória humana passou por uma considerável transformação que, segundo Richardson-Klavehn e Bjork(1), constituiu uma revolução na forma como medimos e interpretamos a influência de eventos passados na experiência e no comportamento(1). O marco central dessa mudança foi o reconhecimento de que a memória de experiências anteriores pode ser expressa por duas vias distintas: a memória explícita e a memória implícita(2).

A memória explícita refere-se à evocação consciente de informações recentemente adquiridas. Em testes que analisam esse tipo de memória, os indivíduos são expostos a materiais - como palavras ou figuras - e, posteriormente, solicitados a lembrar ou reconhecer esses itens conscientemente. A maior parte dos estudos sobre memória humana tem se concentrado nesse tipo de processo(2,3).

Diferentemente da memória explícita, que é consciente, a memória implícita é inconsciente, envolvendo conteúdos que não são evocados por meio de palavras, mas por desempenho(4). A avaliação da memória implícita ocorre por meio de tarefas que não exigem a recordação consciente dos episódios prévios, como por exemplo, completar palavras que são apresentadas de forma fragmentada, preferir um estímulo previamente exposto em meio a um grupo de estímulos e/ou ler textos invertidos(2).

Entre as manifestações da memória implícita, o fenômeno mais estudado é o priming ou repetição, no qual a exposição prévia a uma palavra ou objeto facilita seu reconhecimento ou processamento posterior, diante de pistas perceptivas mínimas(5). Além do priming, diversas formas de aprendizagem perceptiva, motora e cognitiva também são consideradas expressões da memória implícita, desde que ocorram sem referência consciente aos episódios de aprendizagem anteriores. Em termos operacionais, o priming é geralmente observado após um número limitado de exposições e está ligado à memória para itens específicos, enquanto a aprendizagem de habilidades tende a exigir múltiplas exposições e não depende da lembrança de elementos específicos(2,5).

Outras manifestações de memória implícita também foram descritas, incluindo efeitos enviesadores de experiências anteriores sobre julgamentos perceptivos, cognitivos, afetivos e sociais(2). Tais efeitos ilustram a amplitude dos domínios nos quais a memória implícita pode atuar.

Na Fonoaudiologia, ciência voltada ao estudo, prevenção, avaliação e tratamento das alterações da comunicação como a linguagem, a fala, a voz e a audição, muitos comportamentos clínicos e terapêuticos envolvem processos que ocorrem de maneira automática e inconsciente. A aquisição e a modificação de padrões comunicativos frequentemente resultam de práticas repetitivas, ajustes sensório-motores e aprendizagens incidentais, características típicas de processos implícitos(6-11).

Apesar de a memória implícita ser frequentemente mobilizada de forma indireta em práticas avaliativas e terapêuticas fonoaudiológicas, observa-se a ausência de uma sistematização que identifique como esse construto tem sido conceituado, operacionalizado e aplicado empiricamente no campo. Ainda é pouco evidente quais áreas da Fonoaudiologia têm incorporado a memória implícita, quais delineamentos e tarefas têm sido utilizados para avaliá-la, e quais objetivos clínicos ou investigativos têm orientado seu uso. Essa lacuna dificulta tanto a consolidação teórica do tema quanto a tradução do conhecimento produzido para a prática clínica baseada em evidências. Dessa forma, esta revisão teve como objetivo mapear como a memória implícita tem sido abordada na produção científica internacional em Fonoaudiologia.

MÉTODO

Trata-se de uma revisão de escopo fundamentada no manual Joanna Briggs Institute (JBI)(12) e nas recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR)(13) (Figura 1). O protocolo desta revisão foi registrado na plataforma Open Science Framework (10.17605/OSF.IO/PNDWF).

Figura 1
Fluxograma PRISMA

Foram definidas as seguintes etapas para este estudo: identificação da questão da pesquisa; estabelecimento dos critérios de elegibilidade alinhados à questão de investigação e ao objetivo; elaboração da estratégia de busca; identificação dos estudos relevantes; seleção dos estudos; extração dos dados; e mapeamento dos dados e sumarização dos resultados obtidos. Ademais, foi realizada a avaliação do nível de evidência dos estudos.

Questão de investigação

Com base no acrónimo PCC (população, conceito e contexto), em que a população é a fonoaudiologia e o conceito é a memória implícita, foi definida a seguinte questão de investigação: “O que tem sido estudado sobre memória implícita na fonoaudiologia?”. Os autores optaram por não utilizar descritores específicos para o contexto de modo a ampliar os resultados.

Critério de elegibilidade

Foram incluídos estudos publicados em português, inglês e espanhol, sem restrição quanto ao período de publicação. Excluíram-se estudos cujo acesso estivesse condicionado a pagamento ou que não estivessem disponíveis na íntegra, mesmo após tentativa de contato com os autores (ressalta-se que parte significativa dos periódicos foi acessada gratuitamente por meio da rede institucional da Universidade de São Paulo, Brasil). Também foram excluídos documentos oriundos da literatura cinzenta (como resumos de congressos e anais de eventos, capítulos de livros, dissertações e teses), bem como cartas ao editor, artigos de opinião e resenhas.

A partir dos textos incluídos, foram analisadas as suas respectivas referências e foram incluídos os textos que se enquadraram ao tema de pesquisa, assim como os demais critérios citados anteriormente.

Estratégias de buscas

As palavras-chaves e os descritores utilizados para a busca foram identificados nos Descritores de Ciência e Saúde (DeCS) e no Medical Subject Headings (MeSH), bem como por buscas prévias na literatura (Tabela 1).

Tabela 1
Descritores encontrados em pesquisas automáticas e manuais

Com base nos descritores definidos, foi realizada uma nova busca nas bases de dados Medline, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), Excerpta Medica Database (EMBASE), Web of Science, SciVerse Scopus (SCOPUS), Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), em 15 de abril de 2025. As estratégias de busca foram adaptadas para cada base de dados com a utilização dos operadores booleanos AND e OR (Tabela 2).

Tabela 2
Estratégia de busca

Identificação e seleção dos estudos relevantes / extração dos dados

Os dados foram exportados e categorizados na plataforma Rayyan Qatar Computing Research Institute (QCRI)(14). A primeira leitura foi realizada por dois pesquisadores independentes. Um terceiro avaliador foi convidado para auxiliar na tomada de decisões (inclusão ou exclusão) em casos de divergência. Assim, os estudos selecionados nessa etapa foram submetidos à leitura na íntegra, permitindo uma análise de sua relevância quanto à sua inclusão na revisão.

Ressalta-se que foram elegíveis para inclusão os textos que abordassem a memória implícita de forma direta ou indireta, seja em seus descritores, títulos, resumos, objetivos, métodos e/ou resultados. Essa estratégia permitiu uma avaliação conceitual aprofundada do conteúdo dos artigos, garantindo a inclusão de evidências pertinentes ao fenômeno investigado, mesmo na ausência de terminologia padronizada nos vocabulários controlados ou nos próprios descritores dos estudos.

A extração dos dados foi realizada por meio de uma ficha padronizada elaborada pelos autores. Foram extraídos o título do artigo, os autores, o ano e o país de publicação, o tipo de estudo, as áreas e os temas prevalentes.

Avaliação do nível de evidência dos estudos

Os artigos selecionados foram classificados de acordo com seus respectivos níveis de evidência, com base nos critérios estabelecidos pela Oxford Centre for Evidence-Based Medicine (15).

RESULTADOS

Foram inicialmente identificados 2.565 documentos, dos quais 621 foram excluídos por duplicidade. Os 1.944 registros restantes foram submetidos à leitura de títulos e resumos, resultando na exclusão de 1.895 documentos. Dos 49 documentos selecionados para leitura na íntegra, 19 foram excluídos por não cumprirem com os critérios de elegibilidade e 5 por não estarem disponíveis. Destaca-se que seis estudos que não estavam inicialmente disponíveis na íntegra foram obtidos por solicitação direta aos autores via e-mail.

Ao final dessa etapa, 25 estudos foram considerados elegíveis para inclusão. Em seguida, os revisores realizaram uma busca complementar por meio da análise das listas de referências desses artigos, identificando 21 documentos potencialmente relevantes. Desses, 5 foram excluídos por duplicidade e 2 por indisponibilidade de acesso, resultando em 14 estudos adicionais incluídos. Dessa forma, 39(16-54) estudos compuseram esta revisão de escopo, conforme ilustrado na Figura 1.

Caracterização dos estudos

Os artigos foram publicados entre os anos de 2003 e 2024 em 9 países, sendo 28(16-20,22,24,26,28,29,31,32,34,36-41,45-50,52-54) provenientes de autores dos Estados Unidos da América, 4(21,25,27,43) da Suécia, 1(33) da Austrália, 1(23) da Bélgica, 1(42) do Brasil, 1(51) do Canadá, 1(44) da Finlândia, 1(35) do Reino Unido e 1(30) de Taiwan. A Tabela 3 traz a caracterização dos estudos por temas e metodologia empregada.

Tabela 3
Caracterização dos estudos

Dos estudos incluídos, 22(17,19-21,23,24,27-31,33,35-37,40,43,44,46-48,50) eram do tipo experimental. Além disso, foram identificados nove(16,22,25,38,41,45,52-54) estudos teóricos, cinco(26,34,39,42,51) estudos observacionais transversais, dois(18,32) estudos de caso, e um(49) estudo quase-experimental.

As áreas mais prevalentes foram relacionadas à linguagem, totalizando 33(16-24,26-28,30-40,42-46,48-50,52,53) artigos (84,6%), distribuídos entre linguagem adulta (15 artigos)(16,18,20,24,26,28,31,32,36,37,42,46,48-50), linguagem infantil (15 artigos) (19,21-23,27,30,33,35,38,40,43-45,52,53) e distúrbios da fluência e seus transtornos (3 artigos(17,34,39)). Os demais estudos abordaram temas vinculados à voz – 2 artigos(47,54) (5,1%) – e à audiologia – 4 artigos(25,29,41,51) (10,3%).

A figura 2 traz a caracterização dos estudos quanto ao seu nível de evidência científica(15). O nível 1 representa o nível mais elevado de evidência e o 5 o menos elevado.

Figura 2
Discriminação dos artigos incluídos com base no nível de evidência da OCEBM

DISCUSSÃO

De modo geral, os textos abordam a aplicabilidade da memória implícita na atuação fonoaudiológica. Diante da diversidade dos achados, optou-se por organizar a discussão em cinco tópicos, com base nas áreas da Fonoaudiologia mais frequentemente abordadas nos estudos: 1. linguagem (1.1. linguagem adulta, 1.2. linguagem infantil e 1.3. distúrbios da fluência e seus transtornos) 2. audiologia; 3. voz.

Linguagem

Linguagem adulta

Temas relacionados à linguagem no adulto foram recorrentes em 15(16,18,20,24,26,28,31,32,36,37,42,46,48-50) estudos, o que evidencia alta prevalência de estudos que abordaram a memória implícita nessa população. Os estudos se debruçaram sobre a aplicação da aprendizagem implícita em contextos terapêuticos fonoaudiológicos e o uso de tarefas implícitas para avaliação e caracterização de transtornos como a afasia e apraxia de fala, o comprometimento cognitivo leve, a demência/doença de Alzheimer, o comprometimento de memória declarativa e o traumatismo cranioencefálico com amnésia anterógrada profunda.

No estudo de Lee et al.(36), investigou-se se pessoas com afasia apresentam efeitos de priming estrutural preservados e duradouros durante a interpretação de frases sintaticamente ambíguas, e se tais efeitos ocorrem de forma independente ou em conjunto com informações lexicais (verbais). O priming estrutural refere-se à tendência involuntária de um indivíduo repetir uma estrutura sintática previamente ouvida ou lida(55). Os resultados indicaram que pessoas com afasia continuam se beneficiando do priming estrutural abstrato, ou seja, da exposição repetida a estruturas gramaticais, mesmo na ausência de repetição de itens lexicais específicos. Esse mecanismo contribui para a compreensão e retenção da linguagem, revelando-se funcional tanto de forma imediata quanto duradoura.

Esses achados estão em consonância com o estudo de Lee e Man(32), que investigou a eficácia do priming estrutural como intervenção em um indivíduo com afasia agramática. Os resultados sugerem que o uso do priming estrutural implícito pode ser uma abordagem viável para a reabilitação da produção sintática na afasia, promovendo a recuperação global da linguagem a longo prazo por meio do fortalecimento das conexões entre representações linguísticas, baseado na experiência.

Ainda sobre o priming estrutural, Man et al.(37) investigaram se o priming estrutural abstrato e/ou o priming lexicalmente específico (com o mesmo verbo) promovem facilitação imediata e duradoura da produção sintática em pessoas com afasia. Os resultados mostraram que os participantes com afasia apresentaram efeitos de priming estrutural abstrato em frases transitivas, de forma semelhante aos adultos mais velhos saudáveis, tanto em medidas imediatas quanto mantidas. No entanto, diferentemente do grupo controle, o grupo com afasia não se beneficiou do reforço lexical, sugerindo uma limitação no uso de pistas lexicais para apoiar a produção sintática. Já Lee et al.(50) observaram que, em adultos mais velhos, tanto os mecanismos lexicalmente específicos quanto os independentes de priming estrutural permanecem preservados, o que corrobora a ideia de que o priming estrutural reflete um mecanismo de aprendizagem linguística ao longo da vida.

López et al.(48) também investigaram a afasia no contexto do tratamento de linguagem para bilíngues afásicos, com o objetivo de compreender como o modo de aquisição da segunda língua (L2) (explícito ou implícito) pode influenciar a generalização interlinguística após a intervenção realizada em L2. O estudo distinguiu os efeitos do tratamento no nível lexical (nomeação de objetos) e no nível gramatical (construção de frases), analisando dois participantes bilíngues com afasia: P1, que aprendeu L2 de forma explícita, e P2, que adquiriu L2 de forma implícita. Observou-se generalização interlinguística em ambos os casos, mas em diferentes componentes da linguagem. Os resultados sugerem que a aprendizagem naturalista (implícita) de uma segunda língua tende a fortalecer os vínculos gramaticais entre as línguas, enquanto a aprendizagem formal (explícita) promove conexões mais robustas no sistema léxico-semântico.

Outra estratégia utilizada no tratamento da afasia é o priming de repetição mascarada, utilizada por Silkes et al.(24) para intervir na anomia. O priming visual mascarado envolve a apresentação visual de um item principal precedido e/ou seguido por outros estímulos visuais que servem para interromper o reconhecimento consciente do item principal pelo cérebro. A partir desse conceito, o propósito deste estudo de Fase I, com um único participante e múltiplas linhas de base foi investigar se o treinamento repetido com priming de repetição mascarada tem efeitos positivos cumulativos na recuperação lexical, o que apoiaria seu potencial como um tratamento alternativo ou complementar para anomia. Assim, as redes seriam fortalecidas e se desenvolveriam automáticas e inconscientes, com influência limitada ou inexistente do processamento consciente. Os resultados sugeriram que o priming visual mascarado pode provocar mudanças na capacidade de nomeação ao longo do tempo e pode ter potencial como ferramenta para melhorar a recuperação de palavras em indivíduos com anomia. Esses resultados corroboram o estudo da Fase II dos mesmos autores(31).

Enquanto isso, Tabrizi et al.(46) abordaram o priming de repetição visível no tratamento da anomia com a justificativa de ser mais viável clinicamente. O priming visível nesse estudo demonstrou que este tratamento pode aumentar a precisão da nomeação para indivíduos com anomia e pode beneficiar outros aspectos da linguagem. Este estudo concorda com o estudo de Silkes(49), em que a aplicação do priming de repetição em cinco indivíduos com afasia demonstrou que itens previamente ativados por priming resultaram em melhorias maiores na nomeação do que aqueles apenas praticados, mas sem priming. Os dados sugerem que os ganhos podem ultrapassar a associação direta com os estímulos treinados.

A manipulação implícita de fonemas tem sido utilizada como estratégia terapêutica na apraxia de fala. Estudos experimentais com delineamento de linha de base múltipla com sujeito único, conduzidos por Davis et al.(20) e Farias et al.(28), demonstraram resultados positivos com essa abordagem. Os participantes apresentaram melhora na produção da fala espontânea e na precisão das palavras treinadas, incluindo redução de distorções sonoras, diminuição de erros fonológicos e aprimoramento da prosódia. Ambos os estudos também relataram generalização significativa para palavras não tratadas. Além disso, evidências de neuroimagem indicaram que essa abordagem ativa áreas cerebrais envolvidas no processamento fonológico, no planejamento e na programação motora da fala.

O estudo de Hopper(16) discute a aprendizagem implícita em indivíduos com doença de Alzheimer, evidenciando que esse tipo de aprendizagem pode estar relativamente preservado mesmo na presença de prejuízos significativos na memória explícita. Essa constatação baseou-se na observação de que participantes com demência foram capazes de aprender informações funcionais por meio de técnicas como a recuperação espaçada ou exposição repetida, mesmo sem consciência declarativa da aprendizagem. Esses achados fornecem uma justificativa sólida para intervenções fonoaudiológicas que priorizem a comunicação funcional. Nesse sentido, a atuação precoce e preventiva do fonoaudiólogo é essencial, com foco em estratégias como triagens periódicas, reavaliações contínuas e uso de métodos como a aprendizagem sem erro, que evita reforçar respostas incorretas e tem se mostrado eficaz neste grupo. Dessa forma, visa-se aproveitar a memória procedural preservada e minimizar as demandas de aprendizagem declarativa(16,18).

Embora não tenha como foco central a memória implícita, o estudo de Maziero et al.(42) contribui para este campo de conhecimento ao utilizar o Teste de Gestão Implícita para investigar o desempenho de idosos com comprometimento cognitivo leve. Esse teste é uma medida que avalia a capacidade de compreensão de inferências durante atividades de leitura por meio de textos que contêm informações explícitas e implícitas, necessárias para a correta interpretação durante a leitura. Os achados ressaltam que, mesmo diante de déficits em memória episódica e em tarefas explícitas, aspectos do processamento implícito ainda podem exercer influência importante na compreensão textual. Esse tipo de evidência reforça a relevância de considerar estratégias terapêuticas baseadas em vias cognitivas alternativas e menos dependentes da recordação consciente em contextos de intervenção fonoaudiológica.

Linguagem Infantil

Temas relacionados à linguagem infantil foram recorrentes em 15(19,21-23,27,30,33,35,38,40,43-45,52,53) estudos.

Dentro do campo da linguagem infantil, um dos temas mais abordados foi a Hipótese do Déficit Processual (PDH) no Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL)(19,21,23,30). Esta teoria foi proposta por Ullman e Pierpont(56) para explicar os problemas linguísticos e não linguísticos observados em crianças com TDL. A PDH baseia-se no modelo declarativo/procedimental de aprendizagem da linguagem, segundo o qual as aquisições lexicais estão intimamente associadas à memória declarativa, enquanto a aprendizagem procedural apoia vários aspectos da gramática. Nessa perspectiva, a memória declarativa processa a ligação de representações conceituais, fonológicas e semânticas, enquanto a memória procedural, que é um dos vários sistemas envolvidos na aquisição implícita, sustenta aspectos da aprendizagem de regras e é particularmente importante para a aquisição e uso de habilidades que envolvem sequências, sejam elas abstratas, sensório-motoras ou cognitivas(57).

Salienta-se que alguns estudos(19,21,23,30) utilizam a nomenclatura ‘Comprometimento Específico de Linguagem’ (CEL) ou ‘Distúrbio Específico da Linguagem’ (DEL) , atualmente substituída por ‘Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem’ (TDL), conforme as recomendações do projeto CATALISE(58,59).

Tomblin et al.(19) ao comparar adolescentes com TDL e com desenvolvimento típico (DT) usando o paradigma Serial Reaction Time (SRT), uma tarefa de aprendizagem implícita de sequências que mede o tempo que o participante leva para responder corretamente (por exemplo, apertar a tecla da caixa onde aparece uma imagem), viram que ambos os grupos melhoraram na tarefa de aprendizagem implícita (SRT), mas adolescentes com TDL apresentaram taxas de aprendizagem mais lentas. Essa diferença foi observada quando o comprometimento foi definido por gramática, mas não por vocabulário(19,21,23,30).

Gabriel et al.(23) realizaram estudo semelhante, porém com dois experimentos: o primeiro usando um teclado como modo de resposta e o segundo usando uma tela sensível ao toque, o que diminuiria as demandas motoras e cognitivas da tarefa. No primeiro experimento, com respostas via teclado, crianças com TDL foram mais lentas e cometeram mais erros; já no segundo, com respostas em tela sensível ao toque, essas diferenças desapareceram, sugerindo que as dificuldades anteriores podiam estar ligadas a exigências motoras e não a déficits de aprendizagem procedural. Portanto, esse estudo contraria o de Tomblin et al.(19), sugerindo que os comprometimentos de linguagem em TDL não são sustentados por habilidades de aprendizagem procedural deficientes.

O estudo de Hsu e Bishop(30) apoiou essa conclusão tendo utilizado o SRT e igualmente com uma tarefa de aprendizagem procedural motora que não envolvia a aprendizagem de relações sequenciais entre elementos discretos para testar crianças com TDL, crianças com desenvolvimento típico e idade correspondente, e crianças mais novas com desenvolvimento típico e gramática receptiva correspondente. Os resultados mostraram que as crianças com TDL tiveram o mesmo nível de desempenho das crianças com gramática correspondente, mas foram piores do que os controles com idade correspondente na aprendizagem de sequências motoras. No referido estudo, na tarefa de aprendizagem procedural motora, as crianças com TDL tiveram um desempenho comparável ao de crianças com idade correspondente e melhor do que os controles com gramática correspondente mais jovens. A partir deste resultado, pode-se concluir que os déficits em TDL estão mais ligados à aprendizagem de informações sequenciais do que a uma deficiência generalizada na aprendizagem procedural.

O estudo de Hedenius et al.(21) examinou a consolidação e aprendizagem de sequências procedurais a longo prazo em crianças com TDL, utilizando a tarefa Alternating Serial Reaction Time (ASRT), que difere da SRT, pois as tentativas aleatórias são alternadas com tentativas seguindo a sequência fixa ao longo da tarefa. Os resultados indicaram prejuízos na consolidação e na aprendizagem de longo prazo, especialmente associados a déficits gramaticais, corroborando a ideia de que dificuldades na linguagem estão relacionadas a déficits específicos, e não generalizados, na aprendizagem procedural.

Além da investigação sobre os mecanismos cognitivos no TDL, alguns estudos se voltam para estratégias terapêuticas relacionadas ao tratamento desse transtorno. Uma das abordagens em destaque é o priming estrutural, utilizado tanto em estudos com crianças com TDL, quanto em pesquisas sobre afasia. Crianças com TDL demonstraram uma taxa de aprendizagem mais lenta com priming estrutural na produção de orações relativas com foco no sujeito e no objeto, em comparação com crianças com desenvolvimento típico(19).

Nesse contexto, Wada et al.(40) exploraram a viabilidade de combinar tarefas de priming implícito com reformulação explícita no ensino de orações relativas focadas no sujeito, mostrando que tais estratégias podem ser eficazes, embora provavelmente seja necessário um número maior de tentativas ou instruções adicionais para que crianças com TDL alcancem desempenho consistente.

Complementarmente, Baron e Arbel(45) publicaram um tutorial que discute como diferentes características das intervenções fonoaudiológicas, como instruções, feedback e técnicas de elicitação, influenciam o envolvimento dos sistemas de aprendizagem implícita e explícita. Os autores destacam que, por conta do viés de desenvolvimento, a maioria das intervenções tende a envolver predominantemente o sistema explícito, tanto em crianças quanto em adultos. No entanto, a compreensão dos dois sistemas permite aos clínicos ajustar suas escolhas terapêuticas ao comportamento-alvo, posicionando a intervenção ao longo de um contínuo entre implícito e explícito. Um estudo aplicado, citado no próprio tutorial, demonstrou ganhos significativos em testes padronizados de gramática geral receptiva e expressiva e morfossintaxe expressiva a partir do uso combinado de técnicas implícitas e explícitas por um fonoaudiólogo.

O priming sintático também tem sido utilizado como estratégia para avaliar a aprendizagem implícita da sintaxe em crianças com TDL. O estudo de Calder et al.(33) mostrou que, embora crianças com TDL apresentem efeitos imediatos de priming sintático, tais efeitos tendem a ser menos intensos e menos duradouros do que nos pares com desenvolvimento típico. Isso sugere que essas crianças têm dificuldade em aprender padrões gramaticais de forma implícita, extraindo menos informação útil de cada exposição linguística, o que dificulta a construção gradual de conhecimentos sintáticos mais complexos.

Nesse sentido, o estudo teórico de Montgomery et al.(52) destaca que a aprendizagem de estruturas sintáticas depende de experiências repetidas de priming sintático. Assim, incluir atividades desse tipo no repertório de intervenção pode fortalecer o conhecimento sintático e promover melhorias na compreensão e produção de frases em crianças com dificuldades gramaticais.

Estudos sobre a aprendizagem implícita na dislexia do desenvolvimento (DD) também foram identificados. Uma das hipóteses teóricas mais consolidadas na área sugere que os déficits observados na DD estão associados a uma disfunção no sistema de memória procedural, envolvendo especialmente os circuitos córtico-cerebelares e/ou córtico-estriatais(60).

Nesse contexto, Hedenius et al.(21), em 2011, conduziram uma série de estudos para aprofundar a compreensão dos mecanismos de aprendizagem procedural em crianças com DD. Já em 2013(27), os autores investigaram o desempenho dessas crianças não apenas durante a sessão inicial de prática, mas também em etapas posteriores, incluindo a consolidação noturna e a prática em um segundo dia. Os resultados sugeriram que os déficits de aprendizagem procedural mais pronunciados emergem após prática prolongada, indicando que as dificuldades associadas à DD podem se manifestar mais fortemente nos estágios posteriores da aprendizagem, o que reforça a hipótese de disfunção na memória procedural.

Em um estudo posterior, publicado em 2021, Hedenius et al.(43), testaram se uma prática inicial mais longa poderia compensar as dificuldades de consolidação. Embora essa prática prolongada tenha sido implementada, os déficits na consolidação procedural persistiram, sugerindo que os problemas de aprendizagem observados anteriormente não se restringem à fase inicial, mas estão mais relacionados à consolidação da memória ao longo do tempo, especialmente durante o sono.

Distúrbios da Fluência e seus transtornos

Foram identificados três(17,34,39) estudos sobre a gagueira. Dois deles utilizaram o Teste de Associação Implícita (TAI)(34,39) para avaliar atitudes implícitas em relação a indivíduos que gaguejam. O TAI é um instrumento que avalia a latência de resposta na associação entre categorias-alvo e atributos valorativos, partindo do princípio de que associações mais fortemente consolidadas na memória implícita são processadas com maior rapidez e menor número de erros. O TAI permite, portanto, mensurar atitudes implícitas, que podem divergir das atitudes explicitamente declaradas pelos indivíduos(61). O primeiro estudo, conduzido por Walden e Lesnar(34), teve como objetivo investigar as atitudes implícitas e explícitas de jovens adultos com fluência típica em relação a pessoas que gaguejam. Para avaliar as atitudes explícitas, foram aplicadas escalas específicas e uma escala de desejabilidade social. Os resultados confirmaram a existência de estereótipos negativos associados à gagueira, com participantes demonstrando tanto atitudes negativas implícitas quanto explícitas.

O segundo estudo com o TAI, de Walden et al.(39), teve foco semelhante, mas com fonoaudiólogos como participantes. Neste caso, as atitudes explícitas em relação a pessoas que gaguejam foram geralmente positivas, embora menos favoráveis do que em relação a pessoas que não gaguejam. As atitudes implícitas, no entanto, foram negativas. Esses achados destacam a importância de considerar os vieses implícitos na formação profissional, já que atitudes negativas não intencionais podem impactar o engajamento terapêutico e a empatia na relação clínico-paciente.

O terceiro estudo, de Anderson e Conture(17), examinou o priming sintático em crianças que gaguejam (CWS) e crianças com desenvolvimento típico (CWNS). As CWS apresentaram tempos de reação mais lentos na ausência de frases de priming e demonstraram efeitos de priming sintático mais intensos, sugerindo uma maior dependência de pistas estruturais externas. Esses achados indicam que a gagueira pode estar relacionada a dificuldades no acesso rápido e eficiente a representações sintáticas, o que pode contribuir para a disfluência. Tais evidências apontam para o potencial terapêutico de estratégias que explorem a estruturação implícita da linguagem.

Audiologia

Foram identificados quatro estudos na área da audiologia(25,29,41,51). Dois(29,51) deles utilizaram o Teste de Associação Implícita (TAI).

O estudo de Beadle et al.(51) investigou as percepções de idosos e jovens adultos sobre pessoas das mesmas faixas etárias que utilizam aparelhos auditivos. Para isso, os participantes completaram dois testes de associação implícita: um com imagens de adultos mais velhos e outro com adultos mais jovens, ambos com e sem aparelhos auditivos. Também avaliaram a idade, atratividade e inteligência das pessoas retratadas. Enquanto as tarefas de julgamento explícito indicaram atitudes neutras em relação aos usuários de aparelhos auditivos, os resultados do TAI sugerem a presença de atitudes implícitas negativas, já que os participantes responderam mais rapidamente e com maior precisão quando imagens de usuários de aparelhos auditivos foram associadas a palavras negativas, em comparação com palavras positivas.

Já o estudo de Moring et al.(29) avaliou a viabilidade do uso do TAI para medir atitudes relacionadas ao zumbido, além de investigar se instrumentos tradicionais, como o Tinnitus Handicap Inventory (THI), funcionariam como estímulos de priming. Embora as palavras relacionadas ao zumbido não tenham gerado associações implícitas fortes, e as pontuações do TAI não tenham previsto os escores no THI, os autores observaram que o preenchimento prévio de questionários explícitos pode influenciar negativamente os resultados do TAI, ao ativar um viés negativo nas respostas. Assim, o estudo sugere que estímulos auditivos reais (como sons de zumbido) podem ser mais eficazes do que palavras escritas na ativação de estruturas implícitas relacionadas ao zumbido.

O estudo de Evans(41) aborda preconceitos e vieses implícitos na prática audiológica, incluindo a sub-representação de profissionais negros, o viés socioeconômico e linguístico, e o audismo. Destaca como esses fatores afetam a forma como as informações são compartilhadas com famílias, e propõe uma abordagem afirmativa e culturalmente sensível na comunicação clínica. Propõe a reflexão sobre o currículo da pós-graduação e em como o currículo pode refletir com mais precisão as comunidades que atendem.

Além dos estudos que investigam atitudes implícitas na audiologia, foi identificado um artigo que, embora não tenha como foco central a aprendizagem implícita, aborda sua atuação no processamento da linguagem em condições auditivas adversas. O estudo de Rönnberg et al.(25) propõe uma atualização do modelo Ease of Language Understanding (ELU), que descreve como a memória de trabalho interage com mecanismos de processamento implícito e explícito na compreensão da fala. O modelo sugere que o processamento implícito rápido é essencial para o reconhecimento automático da fala quando o sinal auditivo é claro, enquanto o processamento explícito (mais lento e dependente da memória de trabalho) é recrutado quando há distorções no sinal, como em situações com ruído ou uso de aparelhos auditivos. Embora o foco principal seja a memória de trabalho, o reconhecimento do papel de mecanismos implícitos nesse modelo amplia a compreensão sobre como o processamento auditivo interage com diferentes sistemas de aprendizagem, especialmente em populações com perda auditiva.

Voz

Os dois(47,55) estudos encontrados na área de voz abordam preconceitos implícitos na prática clínica vocal. O primeiro, de Norotsky et al.(47), investigou o papel do viés racial implícito nas avaliações perceptivo-auditivas de vozes disfônicas, com o objetivo de verificar se a raça do falante influenciava as avaliações feitas por ouvintes novatos. Estudantes de pós-graduação em Fonoaudiologia ouviram gravações de falantes negros e brancos com distúrbios vocais, avaliaram a voz por meio de uma escala analógica visual de 100 unidades e, em seguida, realizaram o TAI para medir seu viés racial. Os resultados sugeriram a presença de um viés minimizador nas avaliações de falantes negros, indicando que pacientes negros com distúrbios vocais podem receber avaliações menos severas, o que pode comprometer o diagnóstico e tratamento adequado.

Esses achados são aprofundados no estudo de Morton-Jones e Sund(54), que discutem de forma mais ampla o impacto do preconceito implícito na prática clínica em voz. O artigo ressalta que viés inconsciente e ausência de práticas culturalmente responsivas podem comprometer a qualidade do cuidado fonoaudiológico e até afastar pacientes da busca por tratamento vocal. Assim, os autores reforçam a necessidade de que fonoaudiólogos e equipes interdisciplinares desenvolvam estratégias conscientes de enfrentamento aos preconceitos implícitos, promovendo atendimentos mais éticos, equitativos e inclusivos.

Sobre a avaliação da qualidade metodológica

Em relação ao nível de evidência dos estudos, observa-se que a maioria dos estudos se enquadra no nível 3 (36,0%), indicando predominância de evidências derivadas de estudos observacionais, estudos de coorte ou caso-controle, enquanto apenas 5,1% alcançam o nível 2, correspondendo a evidências de ensaios clínicos randomizados bem conduzidos. Os níveis 4 e 5, que representam estudos de séries de casos, relatos de casos ou opiniões de especialistas, correspondem a 3,3% e 25,6% dos estudos, respectivamente. Esses achados refletem a heterogeneidade metodológica da literatura sobre memória implícita em Fonoaudiologia e sugerem que, embora existam estudos experimentais, grande parte das evidências ainda é baseada em delineamentos observacionais ou relatos, o que reforça a necessidade de investigações com delineamentos mais robustos e padronização metodológica, a fim de consolidar a base de conhecimento e subsidiar práticas clínicas mais fundamentadas em evidências.

Limitações e contribuições para o futuro

Como limitação, observa-se que, do ponto de vista conceitual, há ausência de padronização de termos e certa ambiguidade na definição de memória implícita nos estudos incluídos. Em relação aos instrumentos de avaliação, a diversidade de tarefas utilizadas e a falta de padronização podem dificultar comparações entre os achados. Por fim, quanto à generalização dos resultados, os estudos se concentram principalmente em algumas áreas da Fonoaudiologia, como linguagem, audiologia e voz, sugerindo a possibilidade de investigação em outros contextos clínicos e subáreas do campo.

Uma das contribuições desta revisão é apontar aos especialistas as lacunas existentes nas demais áreas da fonoaudiologia como potenciais campos de investigações com aplicabilidade clínica.

CONCLUSÃO

A produção científica internacional em Fonoaudiologia tem abordado a memória implícita de forma ainda incipiente e heterogênea, concentrando-se principalmente nas áreas de linguagem, audiologia e voz. Observa-se predomínio de estudos que exploram a aprendizagem implícita como recurso terapêutico, o uso de tarefas implícitas para avaliação e caracterização de transtornos, bem como investigações sobre vieses e percepções implícitas na prática fonoaudiológica. Apesar de evidenciar o potencial da memória implícita para ampliar estratégias avaliativas e interventivas, a literatura apresenta limitações conceituais e metodológicas, incluindo a ausência de padronização terminológica e a diversidade de delineamentos e instrumentos utilizados. Esses achados indicam a necessidade de investigações futuras mais sistematizadas, com maior clareza conceitual e metodológica, a fim de consolidar o papel da memória implícita no campo da Fonoaudiologia e subsidiar práticas clínicas baseadas em evidências.

  • Trabalho realizado no Departamento de Fisioterapia, Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional – FOFITO, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – USP - São Paulo (SP), Brasil.
  • Fonte de financiamento:
    nada a declarar.
  • Disponibilidade de dados:
    Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.
  • Utilização de tecnologia assistida por inteligência artificial
    Os autores declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi utilizada na pesquisa aqui relatada ou na preparação deste artigo.

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Editado por

  • Editora:
    Ana Carolina Constantini.

Disponibilidade de dados

Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Set 2025
  • Aceito
    03 Fev 2026
Creative Common - by 4.0
Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution (https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/), que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.
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