Open-access As mulheres e a educação física feminina nos congressos científicos internacionais

Women and women’s physical education at international scientific congresses

Las mujeres y la educación física femenina en los congresos científicos internacionales

Les femmes et l’éducation physique féminine dans les congrès scientifiques internationaux

Resumo

As pesquisas sobre os congressos internacionais de educação física na literatura científica são permeadas quase que exclusivamente pela atividade dos homens. Assim, o objetivo deste artigo é investigar a presença das mulheres nesses congressos e compreender qual era a proposta da educação física destinada a elas. Nas análises, identificou-se a presença significativa das mulheres; no entanto ela era limitada, restrita a espaços de menor privilégio e com pouca interlocução com os seus pares. A educação física feminina, por sua vez, foi prescrita como forma de cultivar qualidades “inerentes” ao feminino e de aprimorar a saúde e a harmonia das formas corporais delas para exercerem o papel de mulher, mãe e responsáveis pelo sucesso e a saúde das gerações futuras.

EDUCAÇÃO FEMININA; CONGRESSOS; EDUCAÇÃO FÍSICA; HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

Abstract

Research on international physical education congresses in the scholarly literature has been dominated almost exclusively by the activities of men. Accordingly, this paper aims to investigate women’s presence at these congresses and to understand what physical education had to offer them. The analysis identified a significant presence of women; however, it was limited, confined to less prestigious spaces and characterized by little interaction with their peers. Women’s physical education, in turn, was prescribed as a means of cultivating qualities considered “inherent” to women and to improve their health and body harmony so that they could fulfill their roles as women, mothers, and those responsible for the success and health of future generations.

WOMEN’S EDUCATION; CONGRESSES; PHYSICAL EDUCATION; HISTORY OF EDUCATION

Resumen

Las investigaciones sobre los congresos internacionales de educación física en la literatura científica están permeadas, casi exclusivamente, por la actividad de los hombres. Por ello, el objetivo de esta comunicación es investigar la presencia de las mujeres en dichos congresos y comprender cuál era la propuesta de la educación física destinada a ellas. En los análisis, se identificó una presencia significativa de las mujeres; no obstante, era limitada y restringida a espacios de menor privilegio, con poca interlocución con sus pares. La educación física femenina, por su parte, fue prescrita como una forma de cultivar cualidades “inherentes” a lo femenino y de optimizar la salud y la armonía de sus formas corporales, con el fin de ejercer el rol de mujer, madre y responsables por el éxito y la salud de las generaciones futuras.

EDUCACIÓN FEMENINA; CONGRESOS; EDUCACIÓN FÍSICA; HISTORIA DE LA EDUCACIÓN

Résumé

Les recherches publiées dans la littérature scientifique sur les congrès internationaux d’éducation physique sont presque exclusivement consacrées aux activités masculines. Cette communication entend donc étudier la présence des femmes dans ces congrès et analyser la proposition d’éducation physique qui leur est destinée. Les analyses mettent en évidence une présence féminine significative ; toutefois, celle-ci demeure limitée, voire restreinte, à des modalités moins valorisées et se caractérise par une faible interaction avec leurs pairs. En outre, l’éducation physique féminine y est prescrite comme un moyen de cultiver des qualités considérées comme « inhérentes » à la féminité et d’améliorer la santé et l’harmonie des formes corporelles, inscrivant ainsi dans une perspective visant à préparer les femmes à exercer leur rôle de femme, de mère et de responsable du succès et de la santé des générations futures.

ÉDUCATION FÉMININE; CONGRÈS; ÉDUCATION PHYSIQUE; HISTOIRE DE L’ÉDUCATION

Introdução

Um dos marcos importantes nas pesquisas sobre as mulheres se deu no início dos anos 1970 em diferentes áreas do conhecimento. Michelle Perrot (2020) desenvolveu, no campo das pesquisas históricas, discussões sobre a ausência das mulheres na historiografia e indicou um “oceano de silêncio” e “zonas silenciadas” da história. Desde os seus escritos, inúmeras pesquisas têm se debruçado na investigação e na problematização dessas lacunas, embora se reconheça que há muito a ser feito.

No âmbito da história da educação física e dos esportes, esses estudos, produzidos a partir de múltiplas perspectivas teóricas e metodológicas, incluíram análises dos papéis sociais das mulheres, da desigualdade de oportunidades nos esportes, da emancipação das mulheres e dos seus corpos nas diferentes práticas corporais. Assim como debateram as perspectivas teóricas sob as quais essas temáticas são analisadas, esses estudos também investigaram os diferentes obstáculos enfrentados pelas mulheres em sua participação no campo da educação física e do esporte, seja como atletas, professoras, esportistas, instrutoras, entre outras (Bandy, 2014; Bloomfield, 2005; Bohuon & Luciani, 2009; Bolling & Yttergren, 2015; Park, 2007, 2012; Park & Hult, 1993; Pfister, 1990, 2010; Vertinsky, 1994; Vertinsky & Hedenborg, 2018).

No Brasil, muitos trabalhos históricos construídos com base em diferentes interesses de pesquisa tematizaram a presença das mulheres na educação física, investigando discursos, práticas, prescrições, presenças e ausências no âmbito das práticas corporais, como também se debruçaram sobre suas trajetórias e iniciativas (Baía, 2019; Bruschi, 2019; Bruschi & Schneider, 2019; Goellner, 1999; Martini & Avelar, 2023; Moraes e Silva & Fontoura, 2011). Esses estudos, em sua maioria, analisaram manuais, cursos de formação, revistas e jornais. Diferente dessa abordagem, a presente pesquisa pretende se debruçar na presença das mulheres e nas prescrições de educação física nos congressos científicos internacionais que começaram a ser realizados com maior intensidade a partir de meados do século XIX.

A ambiência desse período estava muito marcada pelo desenvolvimento científico e industrial, pela crescente interdependência econômica no mundo, pela ameaça à paz pela política nacionalista das potências imperialistas, especialmente França e Inglaterra, e pela preocupação com a saúde pública. Essas intensas transformações aconteceram especialmente no espaço urbano motivadas pelo desenvolvimento das indústrias e da manufatura, e que provocaram altos índices de mortalidade infantil, epidemias de doenças, entre outros (Soares, 1994). Nesse contexto, a educação física era vista como um instrumento para a recuperação do equilíbrio e da saúde da população (Soares, 1994).

Todos esses elementos são frequentemente utilizados na literatura científica para explicar a realização de eventos - exposições, feiras, jornadas e congressos - com pretensões internacionais na segunda metade do século XIX (Fuchs, 2004; Kuhlmann, 2001; Park, 2008; Pesavento, 1997; Rasmussen, 1989; Tapia & Taieb, 1976). Desse conjunto, os congressos científicos internacionais se tornaram a forma mais importante de internacionalização científica no período, assim como foram espaços fundamentais para o estabelecimento de organizações e comunidades científicas internacionais (Fuchs, 2004).

Congressos internacionais sobre higiene, higiene escolar e demografia, por exemplo, começaram logo após a metade do século. Entre os tópicos mais proeminentes nesses congressos estavam doenças transmissíveis, saneamento precário, moradias abaixo do padrão, acidentes industriais, alcoolismo e inspeção médica nas escolas (Park, 2008).

Além dos congressos, foram realizadas as exposições universais, chamadas por Pascal Ory (1989) de “festas do progresso”. Tratava-se de eventos que tinham como objetivo principal mostrar as realizações industriais, tecnológicas, culturais e científicas de diferentes nações do mundo. De forma geral, os países participantes tinham o seu pavilhão, no qual deveriam mostrar aquilo que de melhor existia no seu território (Kuhlmann, 2001; Pesavento, 1997; Sanjad, 2017). A primeira edição foi realizada em Londres no ano de 1851, e teve como sua principal demonstração de poder a construção do Crystal Palace, uma obra grandiosa construída em ferro fundido e vidro, um símbolo de modernidade e inovação (Kuhlmann, 2001; Pesavento, 1997; Sanjad, 2017).

Igualmente memorável, e com o mesmo objetivo de demonstração de poder, a Exposição Universal de Paris, em 1899, construiu a célebre Tour Eiffel, uma edificação de ferro com 420 metros de altura e uma base quadrada com lados de 115 metros de comprimento (Ory, 1989). A Torre era a atração principal de um espaço de setenta hectares que incluía o Grand Palais, o Jardins du Trocadéro, Quai d’Orsay, Avenue de Suffren, Ministère de l’Europe et des Affaires Étrangères, Esplanade des Invalides e o Champ de Mars (Ory, 1989). Na Exposição Universal, Charles Garnier (1825-1898), arquiteto conhecido por ter feito o projeto da Ópera de Paris, organizou uma exposição na qual traçava os diferentes tipos de habitação humana, desde a Pré-História até o Renascimento (Ory, 1989). Ela foi realizada às margens do rio Sena e dos dois lados da Torre. A exposição caminhava em direção às luzes, ao conforto e ao progresso (Ory, 1989).

Dentre esses eventos, destacam-se os congressos internacionais de educação física, que foram uma sequência de eventos científicos realizados entre os anos de 1900 e 1913 na Europa e que reuniram uma comunidade frequente de pessoas interessadas em debater sobre educação física.1 As análises desses congressos na literatura científica são permeadas quase que exclusivamente pela atividade dos homens que discutiram e debateram sobre as formas de se organizar a educação física (Bazoge et al., 2013; Brauer, 2012; Delheye, 2005, 2014; Lebecq & Saint-Martin, 2012; Park, 2008; Ramos do Ó & Carvalho, 2009; Sarremejane, 2006; Scharagrodsky & Gleyse, 2013; Soares, 1998).

No entanto, os documentos oficiais desses congressos demonstram que os debates deixaram espaço, ainda que limitado, para as mulheres, bem como para as propostas de educação física para elas. Assim, o objetivo deste artigo é investigar a presença das mulheres nos congressos internacionais de educação física, assim como compreender qual era a proposta da educação física destinada a elas. Essa investigação foi guiada pelas seguintes problematizações: quais eram os objetivos da educação física para as mulheres? Existiam diferenças entre a educação física para os homens e para as mulheres? Quais conhecimentos e práticas estavam previstos?

Temporalmente, a pesquisa está circunscrita entre os anos de 1900 e 1913, que correspondem, respectivamente, ao primeiro e ao último ano de realização dos congressos internacionais de educação física, ambos realizados em Paris, na França. Como fontes, foram mobilizados principalmente os documentos oficiais produzidos pelas comissões organizadoras dos congressos, assim como as publicações dos congressistas em diferentes impressos (jornais, revistas, relatórios de viagem, entre outros). O conjunto documental foi coletado entre os anos de 2020 e 2023 em acervos físicos e virtuais localizados em diferentes países: Argentina, Bélgica, Brasil, Chile, França e Suíça.2 O processo de seleção e coleta foi orientado metodologicamente pelos escritos de Arlette Farge (2009) e Carlo Ginzburg (1989).

A construção teórica dessa trama deu-se em diálogo com os pressupostos da história cultural (Gruzinski, 2001, 2003), os quais convocam à análise encarnada, ou seja, sem perder de vista que, ao investigar os diferentes processos em perspectiva histórica, pressupõe-se identificar as ações e as práticas das pessoas. As análises foram construídas sob as lentes de Michel Foucault (1999), especialmente quanto aos escritos acerca da produção dos discursos. Para o autor, em toda sociedade, a produção do discurso é, “ao mesmo tempo, controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade” (Foucault, 1999, pp. 8-9).

Nesse processo, há três grandes procedimentos de exclusão que incidem sobre o discurso: a palavra proibida, a segregação da loucura e a vontade de verdade (Foucault, 1999). Este último é densificado pelo fato de se basear na racionalidade para se impor como um padrão que regula os sistemas em que é aplicado (Foucault, 1999). Uma das principais manifestações da vontade de verdade, como um procedimento de exclusão, é a produção do conhecimento científico, que, em geral, é vista de forma positiva e vinculada às ideias de riqueza, fecundidade, força doce e insidiosamente universal (Foucault, 1999). Ao fazer isso, ignoramos, em contrapartida, a vontade de verdade como um mecanismo prodigioso de excluir todos aqueles que procuraram contorná-la e recolocá-la como um meio de justificar a interdição e definir a loucura (Foucault, 1999). Portanto serão essas as lentes que guiarão a análise dos discursos e das prescrições direcionados à educação física feminina.

As mulheres nos congressos internacionais de educação física

As mulheres estiveram presentes em todos os congressos internacionais de educação física.3 No Congresso de 1900, Martina Bergman-Osterberg teve destaque na programação, coordenando uma exibição de ginástica sueca para todos os congressistas.4 Realizada nas instalações da Associação Cristã de Moços, essa demonstração gímnica contou com catorze mulheres que executaram uma série composta por exercícios ginásticos, jogos esportivos e danças com acompanhamento musical (Congrès International de l’Éducation Physique, 1900; De Varigny, 1900). Os exercícios foram realizados sem aparelhos e com a maioria dos gestos executados lentamente e outros excessivamente rápidos. Foram realizados movimentos de braço, tronco, pernas, extensões, flexões e caminhadas. A exibição foi muito elogiada pelos congressistas presentes (De Varigny, 1900).

Além de Bergman-Osterberg, as mulheres compuseram as comissões organizadoras (Jenny Billoud, secretária adjunta do congresso e professora), foram delegadas oficiais dos governos (Julia King, Maud Hopkings e Emily Scarborough, todas representando os Estados Unidos), apresentaram trabalhos (Kauffmann, professora na França, e Julia King, representante dos Estados Unidos) e posicionaram-se nos eventos (Lenoir-Boissier, representante das professoras de ginástica da cidade de Paris, Vernier e De Pischof).

No Congresso de 1905, a segunda edição do evento, Ballet - inspetora de ginástica nas escolas femininas da cidade de Genebra (Suíça) e representante oficial dessa cidade no evento - teve uma participação importante nos debates e na organização.5 Na lista dos representantes oficiais de cada país, identificamos igualmente Jessie Noble, inspetora escolar e representante do Conselho de Educação de Londres (Inglaterra), e Minnie Bronson, representante do Departamento de Educação de Washington (Estados Unidos). Apesar de mencionadas, não localizamos nenhum registro da participação delas no evento.

No Congresso de 1910, a organização do evento foi partilhada entre a Federação Real dos Propagadores da Ginástica Escolar6 e da Seção Belga da Comissão Internacional Permanente de Educação Física.7 Entre os membros da Federação, estavam: Hettema, Merckx e Nysten, todas regentes de uma Escola Normal, além de Robaye-Gérard, diretora da uma escola primária. Como representantes oficiais de seus países, podemos citar Zénoïde Stolitza e Vera Volkovitck, ambas representantes da Rússia e professoras. Não identificamos a participação de nenhuma delas nos debates.

No Congresso de 1911, realizado em Odense, verificamos uma maior presença das mulheres no debate. Entre elas, podemos citar Louise Wikström (Suécia), Birgit Tillisch (Suíça) e Kucksalska (Polônia). Além delas, Ketty Jentzer (delegada da Sociedade de Ginástica de Mulheres de Genebra, Suíça) assumiu a presidência de uma das sessões de debate e participou das discussões, enquanto Ragna Angell (Noruega) apresentou um trabalho sobre ginástica feminina.

Em 1913, as mulheres estiveram à frente apenas da seção dedicada a elas, a Seção Feminina, que teve Georges Coulon como presidente; Cruppi como vice-presidente; Chauveau, professora e presidente da Associação Feminina da Liga de Educação Física, como secretária; e a dra. Parisse, secretária adjunta. Dos trabalhos apresentados na Seção Feminina, parte deles foi apresentada por mulheres, sendo elas a dra. Girard-Mangin (diretora do Escritório de Combate à Tuberculose do Hospital Beaujon, em Paris), Kergomard (inspetora geral das Escolas Maternais da França), Chauveau (presidente da Associação Feminina da Liga de Educação Física), Ketty Jentzer (do Departamento de Instrução Pública de Genebra e representante da Escola Superior Secundária de Meninas), Leroy (regente de educação física na Escola Média Profissional de Liège e presidente da Seção de Liège da Liga Nacional Belga de Educação Física), dra. Desmolières, Henriette Regnier (professora de dança na Université des Annales), e Lydie Malan (professora no Conservatório de Genebra), Anni Collan (professora adjunta de ginástica pedagógica no Instituto de Ginástica da Universidade de Helsingfors) e dra. Dora Teleky (da Áustria).

A comparação entre o número de mulheres e homens nos congressos internacionais de educação física não foi possível de ser realizada com precisão por duas razões principais. A primeira delas é porque localizamos apenas o número total de congressistas em duas edições, as de 1911 e 1913, sendo 262 e 2.400 congressistas respectivamente. Mesmo de posse desses números, deparamo-nos com o segundo desafio: nem todos os congressistas que participaram dos debates faziam parte das delegações oficiais e, por isso, não apareceram nas listas de participantes dos eventos nos documentos oficiais. Isso significa que era possível ter participado do congresso, mas não ter o seu nome descrito nessa lista. Assim como seria possível ter composto uma delegação oficial sem que tenha efetivamente participado do evento.

Para exemplificar, do evento de 1900, constam 29 homens e 3 mulheres na lista das delegações oficiais. No entanto, ao consultar a documentação, foi possível identificar, como demonstrado anteriormente, a participação de outras 5 mulheres - além das informadas acima, mais aquelas que eram membro do comitê organizador -, o que totalizaria 9 mulheres no evento, e não 3. Certamente, o número de homens que participaram foi superior a 29. Se tomarmos como referência as listas das delegações oficiais, estiveram presentes: 50 homens e 3 mulheres em 1905, 90 homens e 5 mulheres em 1910, 236 homens e 38 mulheres em 1911, e 413 homens e 22 mulheres em 1913.8

Para além da menção das mulheres que participaram dos congressos internacionais de educação física, como um importante registro histórico (e político), o esforço de citá-las permite verificar que, ao longo do tempo, as mulheres foram ganhando espaço nesses eventos. A cada edição, notamos que elas foram sendo mais numerosas e assumiram cargos importantes em diferentes instituições - professoras, inspetoras, diretoras, representantes oficiais dos países, entre outros -, assim como foram criadas instituições específicas para elas, sejam escolas femininas, sejam instituições associativas de educação física para mulheres nas quais elas assumiram papéis de liderança.

Esse cenário dialoga com movimentos e transformações que vinham acontecendo na educação física. No Instituto de Estocolmo, por exemplo, desde 1864, foi aberto um curso para que as mulheres, suecas e estrangeiras, pudessem estudar e se formar (Bolling & Yttergren, 2015). Essa formação permitiu que elas atuassem em institutos de ginástica e spas nos diferentes países, sobretudo aqueles da Europa Ocidental, enquanto a atuação como professoras de educação física era mais frequente na Suécia (Bolling & Yttergren, 2015).9 A formação, o aumento dos cargos que elas poderiam ocupar e o fato de poderem circular livremente entre os países, sem a necessidade de passaporte, até o início da Primeira Guerra Mundial, foram alguns dos principais fatores que permitiram que essas mulheres assumissem cargos e funções importantes com e na educação física (Bolling & Yttergren, 2015). Assim, podemos notar que essas mulheres, formadas no Instituto de Estocolmo, tiveram carreiras profissionais (Bolling & Yttergren, 2015).

Dentre essas mulheres formadas no Instituto de Estocolmo, destacamos Martina Bergman- -Osterberg (1849-1915), a coordenadora da exibição de ginástica sueca do Congresso de 1900. Ela teve uma importante atuação na Inglaterra, sobretudo em Londres, ao trabalhar o treinamento físico de meninas utilizando os princípios da ginástica de Ling (Bloomfield, 2005). Formada em 1881, mudou-se para Londres e, após se estabelecer, recebeu e treinou diversas mulheres vindas de Estocolmo para atuarem em várias escolas do Império Britânico (Bloomfield, 2005). Isto é, a sua formação permitiu não só a constituição de uma carreira profissional em um país estrangeiro, como também o estabelecimento de uma rede de contatos com outras mulheres, o que tornou possível que elas fizessem o mesmo (Bloomfield, 2005).

A ginástica e/ou a educação física feminina também estavam sendo ensinadas em outras partes do mundo, como foi o caso dos institutos de ginástica sueca - Escola Normal de Ginástica de Boston e Posse Gymnasium - criados em Boston, nos Estados Unidos, respectivamente em 1889 e 1890 (Matias, 2025), assim como os cursos de ginástica feminina ofertados na École Normale de Pau, na França, e no Les Peupliers, um internato feminino em Vilvoorde, na Bélgica (Bonifácio, 2024).

O movimento de criação de cursos sobre educação física feminina estava conectado com uma ideia predominante na época de que apenas mulheres poderiam ser professoras das meninas (Bohuon & Luciani, 2009). Como veremos mais adiante, a aceitação da importância da educação física para as meninas trouxe à tona a questão de quem seriam seus professores (ou professoras). Nesse contexto, as mulheres foram vistas como ideais para ocuparem esse papel. Isso é evidente na descrição feita dos cargos ocupados pelas mulheres: grande parte delas estava vinculada a instituições de ensino, especialmente as femininas.

As mulheres, apesar de presentes em todas as edições dos congressos internacionais de educação física, tiveram raras participações (ou ao menos o registro delas nos documentos oficiais) nas discussões dos eventos. Quando isso aconteceu, em geral, elas falavam principalmente sobre a educação física feminina e raramente sobre outras questões que estavam sendo debatidas em plenário.

Umas das exceções a essa regra foi a comunicação intitulada “Os esportes ao ar livre podem ser praticados sem danos excluindo a ginástica?”, por Anni Collan, professora adjunta de ginástica pedagógica do Instituto de Ginástica da Universidade de Helsinque, Finlândia.10 Em sua fala, Collan estabelece várias comparações entre o esporte e a ginástica sob aspectos intelectuais e morais, afirmando que não trataria sobre aspectos físicos nem fisiológicos. Ela, então, demonstra que a ginástica desenvolve, mais que o esporte, também a memória, a imaginação e a atenção, e que a prática esportiva negligencia os aspectos estéticos na execução dos exercícios. Collan conclui a sua comunicação afirmando que “os esportes ao ar livre não podem substituir a ginástica sem riscos, mas podem ser considerados um complemento valioso à ginástica, à qual devemos desejar a maior difusão possível” (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, p. 394, tradução própria).11

Esse embate entre as diferentes sistematizações de educação física (ginástica e esporte, nesse caso) era uma questão muito cara para o Congresso de 1913, já que o objetivo do evento era “julgar e coroar métodos” (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, p. 29). Para isso, a comissão organizadora do evento estabeleceu várias estratégias para que os congressistas pudessem emitir a sua própria opinião acerca dos métodos (Bonifácio, 2024). Entre elas, promoveram as exibições dos métodos para que, além das discussões científicas, os congressistas pudessem assistir a eles. No cenário mais amplo da educação física, os embates entre os diferentes métodos foram tão intensos que esse período, entre meados do século XIX e as primeiras décadas do século XX, é conhecido como “guerra dos métodos”.12

Nesse sentido, a comunicação de Collan demonstra não só a sua inserção na educação física, observada pelo cargo ocupado e também pela temática da sua comunicação, como ainda a participação feminina tematizando questões diversas e realizando suas comunicações fora da seção destinada especificamente às mulheres. Importante destacar que, apesar dessa relevância, não foram registradas e/ou identificadas discussões sobre a comunicação apresentada por Collan.

Se, no âmbito das comunicações, a participação feminina era reduzida; por outro lado, acerca das exibições de ginástica, as mulheres estiveram presentes na programação de todas as edições do congresso, com exceção da edição de 1905. Em 1913, por exemplo, elas se apresentaram diversas vezes ao longo dos dias de evento e demonstraram diferentes métodos ginásticos. Entre elas, cinquenta jovens alunas no Reale Società Ginnastica di Torino (Itália) se apresentaram, sob a coordenação do dr. Monti, conforme Figura 1.

Figura 1
Ginastas do Reale Società Ginnastica di Torino

Além do grupo italiano, um grupo de jovens ginastas, coordenado por Hart, apresentou a ginástica calistênica (método inglês); outro grupo, coordenado pelo professor M. Payssé, apresentou a ginástica helênica de Raymond Duncan; outro grupo, dessa vez representando a Liga Belga de Educação Física, apresentou a ginástica sueca sob a coordenação de De Genst; as jovens dos Liceus Victor-Duruy e Lamartine apresentaram, sob a coordenação de Karl, o chamado Método Demeny (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913).

Considerando que os congressos eram espaços que privilegiavam discursos científicos, predominantemente orais (e, de forma mais restrita, escritos), a constatação de que a participação das mulheres nos debates científicos era limitada, e potencialmente ausente dos registros documentais, bem como de que sua presença se fazia mais recorrente nas exibições práticas (não orais), evidencia que a participação feminina nos congressos internacionais de educação física era atravessada por tensionamentos e disputas. Desse modo, ainda que sua presença fosse formalmente admitida, ela se encontrava circunscrita a determinados temas e a espaços de menor prestígio simbólico, com reduzidas possibilidades de interlocução entre pares. Esses exercícios de poder em jogo, marcadamente presentes no século XIX, contribuíam para constituir uma rede de controle sobre os corpos, incidindo de maneira particular sobre o corpo social das mulheres (Perrot, 2020).

A educação física feminina: Discursos e prescrições

Observamos que, desde o Congresso de 1900, foram feitas algumas menções sobre a educação física proposta para as mulheres, mas o debate só aconteceu no Congresso de 1913. Essa novidade foi celebrada com entusiasmo na abertura da Seção Feminina: “uma das originalidades desse congresso foi que, pela primeira vez, ele contou com uma seção feminina muito importante” (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, p. 529, tradução própria).13 A importância da questão da educação física para as mulheres foi tida como uma mudança significativa no ideal que se tinha naquele momento.

A ginástica deveria se tornar obrigatória em todas as escolas femininas para produzir um desenvolvimento completo do corpo, fortalecer e manter a saúde, acostumar as crianças a movimentos harmoniosos, aumentar a força física e a destreza, a rapidez de percepção, a vigilância da mente, o frescor do corpo, a coragem e a resistência, o senso de ordem e de comunidade, e criar um interesse pelo exercício físico no futuro.

Os dias em que todas essas qualidades não eram consideradas femininas felizmente acabaram.

As mulheres que são fisicamente inferiores aos homens devem, entre 13 e 18 anos, fazer todo o possível para aumentar sua resistência, especialmente em uma idade em que a anemia, a miopia, a perda de cabelo e a escoliose são muito comuns. (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, pp. 531-532, tradução própria).14

A despeito de nenhum outro congressista ter também defendido (e nem se oposto) a ideia de que as mulheres eram inferiores aos homens, foram prescritos ajustes nessa prática: “a ginástica para meninas deve ser idêntica à dos meninos, com uma pequena redução no esforço exigido”, “a dança rítmica também é altamente recomendada”, “a jovem deve ser poupada de muita fadiga, mas não deve ser poupada em demasia”, “é absolutamente errado recomendar repouso absoluto durante a menstruação . . . Recomenda-se a prática de exercícios físicos moderados nesse período” (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, p. 532, tradução própria).15 Ou ainda:

Acima de tudo, a ginástica para meninas deve evitar exercícios violentos; deve ser lenta, rítmica, flexível e elegante. Deve atuar sobre as principais funções fisiológicas, especialmente a respiração e a circulação, e dar força e flexibilidade aos músculos abdominais, que desempenham um papel tão importante. (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, p. 533, tradução própria).16

Esses “ajustes” previstos na intensidade, na inclusão e/ou exclusão de exercícios partiam do pressuposto de uma diferença entre homens e mulheres. Para as mulheres, portanto, os exercícios passaram a ter um papel central no desenvolvimento completo do corpo dada a sua “inferioridade”, nos próprios termos da fonte, e por suas diferenças fisiológicas em relação aos homens (a menstruação, no exemplo acima). Ao defenderem essa ideia, notamos a utilização dos termos: elegante, flexível, ritmo e crianças. Todos eles buscavam, de alguma maneira, dar conta das especificidades das mulheres ou, mais precisamente, construir um ideal de feminilidade muito atrelado à ideia de “retidão do seu comportamento, a pureza da sua alma e a beleza do seu corpo” (Goellner, 2000, p. 68).

A recomendação, sobretudo pelos médicos, para serem evitados os exercícios violentos estava conectada a um entendimento de que as práticas físicas tinham o risco de provocar danos aos órgãos reprodutivos das mulheres e, consequentemente, a esterilidade (Bohuon & Luciani, 2009). Se, até então, a ginástica, os jogos e os esportes foram amplamente defendidos como práticas que compunham a educação física, nessa construção de uma feminilidade, a dança e os elementos rítmicos foram sugeridos como práticas para as mulheres.

A dança é a forma mais comum de brincadeira para as meninas. A criança mal está segura de seu andar quando já está tentando dançar; a menor expressão de alegria provoca nela um passo de dança. Ela dança como um menino corre e pula. (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, pp. 540-541, tradução própria).17

Nesse trecho, é possível perceber a diferenciação entre as práticas de dançar e de correr e pular, que foram atribuídas, respectivamente, às meninas e aos meninos como características “naturais”, isto é, uma ideia de que as crianças, a depender do seu sexo biológico, apresentam predisposições para alguma dessas práticas. A dança, portanto, era vista como uma forma de cultivar qualidades inerentes ao ser feminino, além de aprimorar a saúde e a harmonia das formas corporais das mulheres.

A construção desse ideal feminino pôde ser observada ainda na programação do evento. Na Seção Feminina, foi reservada uma tarde para uma visita à Printemps, uma tradicional loja de roupas em Paris, criada em 1865, e que tinha como principais inovações para a época a venda de roupas prontas e a oferta de descontos para atrair os clientes. “A tarde terminou com uma visita aos Magasins du Printemps, onde as senhoras do Congresso e as moças estrangeiras ficaram maravilhadas, em mais de uma ocasião, com a prodigiosa organização de um grande estabelecimento comercial” (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, p. 542, tradução própria).18

A inclusão de uma programação como essa, até então inédita nos congressos, demonstra que a presença das mulheres, especialmente marcada pela criação de uma seção de debates exclusiva a elas, “demandou” iniciativas que atendessem às suas supostas “especificidades”. A inclusão de um passeio para um estabelecimento comercial de roupas desvela, portanto, um entendimento de uma certa “superficialidade feminina” ao associá-las não só ao consumo, mas também a uma preocupação com a sua aparência.

Na educação física para as mulheres, os pressupostos higiênicos e eugênicos norteavam o pensamento da época e colocavam a questão da reprodução no centro do debate, já que o pressuposto desses dois movimentos era a mudança de hábitos e o aprimoramento da raça (Bohuon & Luciani, 2009; Goellner, 2000). Nesse sentido, a mulher era um alvo importante nas prescrições e nos discursos.

Pois, embora a jovem romântica, delicada e lânguida tenha estado na moda por muito tempo, não apenas na França, mas em toda a Europa, finalmente percebeu-se . . . que essa palidez poética não passa de anemia, que dá origem à neurastenia e à tuberculose, e que isso é fatal para a raça; - Percebemos que o papel da mulher, da mãe, exige não apenas força moral, mas também força física, e que sua saúde é uma fonte de saúde para toda a família. (Congrès International de l’Éducation Physique, 1913, p. 529, tradução própria).19

Mulher e mãe, nesse excerto, são tidas como sinônimos, e as suas atitudes em prol da sua própria saúde, nesse caso, seriam uma fonte de saúde para toda a família, visto que a mulher assume o duplo papel de mãe e de educadora, isto é, de responsável por garantir o sucesso e a saúde das gerações futuras. Nesse sentido, a educação física seria capaz de promover essa força moral e física necessárias para desempenhar essas funções. Sendo assim, esse trecho revela o entendimento marcadamente presente no discurso médico de que as mulheres estavam essencialmente ligadas às suas funções procriadoras. Todo o aparato biológico feminino, sobretudo aqueles específicos à reprodução, eram vistos como a evidência inegável da “natureza” das mulheres e, portanto, do seu papel social de gerar filhos (Bohuon & Luciani, 2009; Goellner, 2000).

Esse pensamento foi reiterado nas resoluções da Seção Feminina do Congresso de 1913 (Congrès International de l’Éducation Physique, 2013, tradução própria): “Que a luta contra a mortalidade infantil em todos os lugares comece com uma melhor educação física para as meninas da classe trabalhadora” (p. 557); “Cursos práticos, acompanhados de trabalhos de ensino doméstico, serão introduzidos em todos os estabelecimentos secundários” (p. 554); “Criação de uma escola normal de educação física, com uma seção de educação doméstica, para preparação de professores especiais” (p. 555).20 Como apenas nos cursos femininos estavam previstos os conhecimentos da vida doméstica, caberia somente às mulheres essa dupla responsabilidade de mães e educadoras no espaço escolar e do lar.

Ao mesmo tempo, o excerto apresentado demonstra que houve uma mudança no entendimento nesse ideal de feminino. Anteriormente, a prática dos exercícios físicos não era recomendada para as mulheres pela questão da reprodução e os riscos de que essas práticas as tornariam estéreis, sobretudo pelos impactos que poderiam causar na região dos órgãos reprodutores. Esse entendimento alterou-se, na medida em que os exercícios físicos eram vistos não mais como um risco, e sim como úteis para a procriação, principalmente a “boa procriação”; assim, as práticas físicas passaram a ser recomendadas (Bohuon & Luciani, 2009; Goellner, 2000).

O desenvolvimento de uma educação física feminina não foi, portanto, uma obra desinteressada: a mulher e a educação de seu corpo eram vistas como elementos centrais no processo reprodutivo e, consequentemente, no processo de “regeneração da raça” sob uma perspectiva eugenista e higienista, já que se acreditava na transmissão dos caracteres na reprodução humana. Assim como, nos termos de Foucault (1999), havia a construção de discursos que, baseados em uma suposta racionalidade, buscaram impor um padrão que regula os sistemas nos quais é aplicado, produzindo discursos do que era ser “mulher” e “feminina”, e de qual era a sua forma corporal ideal a ser construída pela educação física.

Considerações finais

O objetivo deste trabalho foi investigar a presença das mulheres nos congressos internacionais de educação física, assim como compreender qual era a proposta da educação física destinada a elas. A crescente presença feminina identificada nos eventos revelou que, ao longo das quase duas décadas de realização dos eventos, houve um aumento nas formações e nas instituições de educação física feminina, o que permitiu que essas mulheres ocupassem cargos cada vez mais importantes. Por outro lado, essa presença foi marcada por restrições e limites.

A educação física feminina foi prescrita como forma de cultivar qualidades “inerentes” ao feminino e de aprimorar a saúde e a harmonia das formas corporais das mulheres para exercerem o papel de mulher e mãe. Isto é, foram feitos “ajustes” nas práticas destinadas aos homens para torná-las adequadas às representações sociais vinculadas às mulheres e às suas funções de responsáveis por garantir o sucesso e a saúde das gerações futuras. Todas essas adaptações tinham como pressuposto a construção de um ideal de feminilidade sustentado na beleza, na saúde e na maternidade.

De acordo com Michelle Perrot (2020, p. 17), “a irrupção de uma presença e de uma fala femininas em locais que lhes eram até então proibidos, ou pouco familiares, é uma inovação do século XIX que muda o horizonte sonoro”. No entanto, apesar dessa presença, ainda permanece um “oceano de silêncio” relativo à memória, como se as mulheres estivessem fora do tempo e do acontecimento. Em outras palavras, embora tenham sido feitos diversos estudos sobre os congressos internacionais de educação física, pouco se fala sobre a presença dessas mulheres, ou ainda os registros, de certo modo, tornam difícil identificar a análise da participação delas nesses (e outros) eventos.

Essa investigação demonstra, portanto, não apenas a presença das mulheres e de temáticas relativas a elas, mas também um jogo de poderes em que foram sendo construídos discursos, tidos como legítimos, sobre ideias e práticas de uma educação física feminina. Isto é, a presença das mulheres e o debate sobre uma educação física feminina não foram uma concessão, e sim o resultado de múltiplas disputas e interesses que permearam todas as edições do evento.

  • Como citar este artigo
    Bonifácio, I. M. dos A., Moreno, A., & Martini, C. O. P. (2026). As mulheres e a educação física feminina nos congressos científicos internacionais. Cadernos de Pesquisa, 56, Artigo e12389. https://doi.org/10.1590/1980531412389
  • 1
    Ao todo, foram realizadas seis edições dos eventos: 1900 (Paris), 1905 (Liége), 1910 (Bruxelas), 1911 (Odense), 1912 (Roma) e 1913 (Paris). Apesar de termos localizado excertos de jornais falando sobre a realização do evento de 1912, não foram identificadas fontes sobre o evento. A primeira comissão organizadora do Congresso Internacional de Educação Física foi composta por franceses destacados no debate da educação física e que atuavam como militares, políticos, médicos, professores de ginástica, instrutores e pesquisadores. Ao final do Congresso de 1900, foi criada a Comissão Internacional Permanente de Educação Física, a qual ficou responsável pela organização das edições seguintes, com exceção dos congressos de 1911 e 1913. A sequência desses eventos foi interrompida pela eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Mais informações sobre esse processo, consultar Bonifácio (2024).
  • 2
    A seleção dos acervos e das fontes foi construída a partir da leitura de outros trabalhos sobre os congressos, do diálogo com outros pesquisadores e da leitura das fontes. As buscas foram feitas pelos nomes dos eventos e dos congressistas. A identificação de parte significativa desse conjunto de fontes só foi possível graças ao cuidadoso e incansável trabalho realizado por Pascal Delheye (2005) em sua tese de doutorado, na qual ele descreve detalhadamente os acervos e os documentos disponíveis em cada um deles. Os acervos on-line foram o ponto de partida. Os acervos consultados foram: o Internet Archive, a Wellcome Library, a Biblioteca Nacional da França (Gallica), o acervo digital da Babord Num (Biblioteca da Université de Bordeaux), a Bibliothèque Historique de l’Éducation, a American Physical Education Review, os acervos do Centro de Documentación Histórica do Instituto Superior de Educación Física (Isef), a Biblioteca Nacional Digital do Chile e a Biblioteca Nacional do Brasil. A coleta de fontes nos acervos físicos aconteceu a partir de 2022 na França, Bélgica e Suíça. Em território francês, foram consultados os acervos do Archives Nationales, da Biblioteca Nacional da França, do Institut National du Sport, de l’Expertise et de la Performance (Insep) e da Fédération Française d’Éducation Physique et de Gymnastique Volontaire (FFEPGV). Na Bélgica, foram consultados os acervos: da Biblioteca Real da Bélgica (KBR); do Sportimonium; da Fédération d’Education Physique et Sportive; e da Biblioteca da Universidade de Gent. Na Suíça, por fim, foi consultado o acervo do Comitê Olímpico Internacional (CIO).
  • 3
    Em alguns casos, não foi possível localizar mais informações biográficas de algumas mulheres além de seus nomes nos documentos. Por essa razão, alguns dos nomes não serão acompanhados de mais dados sobre elas.
  • 4
    A ginástica sueca ou ginástica de Ling foi um método de exercício do corpo sistematizado pelo sueco Per Henrik Ling (1776-1839) nas primeiras décadas século XIX. Após fundar, em 1813, o Royal Gymnastic Central Institute (GCI), também conhecido como Instituto de Estocolmo, Ling deu início ao processo de formação de pessoas para atuarem com a sua ginástica, ao mesmo tempo que a sistematizava. A ginástica de Ling era dividida em ginástica médica, militar, pedagógica e estética. Os exercícios poderiam ser feitos com ou sem aparelhos, e cada lição tinha uma estrutura relativamente padronizada que contava com uma progressão de exercícios. Mais informações, consultar Lundvall (2015) e Moreno e Baía (2019).
  • 5
    A segunda edição do Congresso Internacional de Educação Física foi realizada em 1905 em Liège, Bélgica; no entanto, na proposta inicial, ela deveria ter sido realizada em 1902 em Genebra, Suíça. Diante de todos os impasses que levaram a isso, a comissão organizadora da Suíça designou Ballet como secretária do evento como forma de compensar os atrasos e o fato de o evento não ter acontecido na Suíça.
  • 6
    A Fédération des Propagateurs de la Gymnastique Scolaire foi uma instituição criada em 1878 na Bélgica por alunos dos primeiros cursos de qualificação de professores de ginástica da Bélgica.
  • 7
    A Comissão Internacional Permanente de Educação Física foi criada na primeira edição do Congresso Internacional de Educação Física e tinha como objetivo não só organizar as próximas edições dos eventos, como também dar continuidade aos debates nos períodos de intervalo entre as edições. A Comissão era organizada em seções nacionais; a Seção da Bélgica organizou a edição de 1910 do Congresso.
  • 8
    Mais uma vez chamamos atenção para as possíveis imprecisões desses números, especialmente os de 1911. Além dos elementos já descritos, no evento em questão, diante dos limites de idioma do documento, nem sempre foi possível determinar com precisão quais nomes eram masculinos e quais eram femininos. Isso porque o documento mescla trechos em sueco, norueguês e francês, sendo que termos dos dois primeiros idiomas nem sempre foram traduzidos de forma precisa, como é o caso, por exemplo, do termo Gymnastiklærerinde, traduzido livremente por nós como “professora de ginástica”.
  • 9
    Em termos numéricos, 673 mulheres formaram-se entre os anos de 1865 e 1912. Em 1905, 35 delas atuavam na Inglaterra, 20 na Alemanha, 20 na França e 17 na Finlândia.
  • 10
    Além de Anni Collan, outras mulheres também se apresentaram fora do grupo dedicado especificamente às mulheres; foram elas: H. Kuczalska, que apresentou a comunicação “O sistema de Ling na Polônia”, junto com K. Wyrzykowski; Henriette Meyer, com a comunicação “A educação física considerada como parte integrante da vida”; e Michele Pietravalle, com a comunicação “A preparação física dos jovens e a redução do serviço militar”. Com exceção da última, apresentada na seção militar, todas as outras foram apresentadas na seção pedagógica do Congresso.
  • 11
    No original: “les sports de plein air ne peuvent pas sans danger remplacer la gymnastique, mais qu’on peut les regarder comme un complément précieux à la gymnastique, à laquelle on doit souhaiter la plus grande diffusion”.
  • 12
    A “guerra dos métodos” ou “batalha de sistemas” foi um embate que buscava argumentar e definir qual era a melhor forma de exercitar e educar o corpo, e que ocorreu no período entre o fim do século XIX e ao longo do século XX. Entre os sistemas em disputa, destacam-se, em linhas gerais, a ginástica sueca e a ginástica alemã (Turnen). No entanto, a depender do país, essas disputas envolviam outros métodos ginásticos. Nos congressos foi possível identificar disputas entre a ginástica sueca, ginástica de Amoros, método Dalcroze, método natural de Georges Hébert, ginástica de Guillaume Docx, entre outros. Mais informações, consultar Bonifácio (2024).
  • 13
    No original: “Une des originalités de ce Congrès était de posséder, pour la première fois, une section féminine très importante”.
  • 14
    No original: “La gymnastique devrait devenir obligatoire dans toutes les écoles féminines pour produire un développement complet du corps, pour raffermir et garder la santé, pour habituer les enfants aux mouvements harmonieux, pour augmenter la force physique et l’adresse, la promptitude de la perception, la vivacité de l’esprit, la fraîcheur du corps, le courage et l’endurance, le sens de l’ordre et de la communauté et pour créer un intérêt aux exercices physiques dans l’avenir. Les temps où toutes ces qualités étaient considérées comme non féminines sont heureusement passés. La femme qui est physiquement inférieure à l’homme doit, entre sa 13e et 18e année, faire tout son possible pour augmenter sa résistance, surtout à un âge où commencent très souvent l’anémie, la myopie, la perle des cheveux et la scoliose”.
  • 15
    No original: “La gymnastique pour filles doit être identique à celle des garçons avec une légère diminution de l’effort demandé” ; “la danse rythmique est très à recommandé”; “Il faut éviter à la jeune fille une trop grande fatigue, mais il ne faut pas trop la ménager” ; “Il est absolument faux de recommander un repos absolu pendant la menstruation . . . Des exercices physiques modérés sont à recommander à cette époque”.
  • 16
    No original: “La gymnastique des jeunes filles doit avant tout ne pas employer les exercices violents; elle doit être lente, rythmée, souple et élégante. Elle doit agir sur les grandes fonctions physiologiques, surtout la respiration et la circulation, donner de la force et de la souplesse aux muscles abdominaux dont le rôle est si important”.
  • 17
    No original: “Parmi les jeux auxquels la petite fille se livre communément, la danse tient la première place. L’enfant est à peine sûre de sa démarche que déjà elle s’essaye à la danse; la moindre manifestation de gaieté provoque chez elle comme un pas de danse. Elle danse comme le petit garçon court et saute”.
  • 18
    No original: “L’après-midi se termina par une visite aux Magasins du Printemps, où les dames congressistes et les jeunes filles étrangères s’étonnèrent plus d’une fois devant la prodigieuse organisation d’un grand établissement commercial”.
  • 19
    No original: “car si la jeune fille romantique, délicate et languissante a été longtemps à la mode, non seulement chez nous, mais dans toute l’Europe, on s’est enfin aperçu . . . que cette pâleur poétique n’est que de l’anémie, qu’elle engendre des neurasthénies, des tuberculoses et que cela est fatal à la race; - on s’est aperçu que le rôle de la femme, de la mère réclame non, seulement de la force morale, mais de la force physique, et que sa santé est source de santé pour toute la famille”.
  • 20
    No original: “Que partout la lutte contre la mortalité infantile commence par une meilleure éducation physique des jeunes filles de la classe ouvrière” (p. 557); “Des cours pratiques, accompagnés de travaux d’enseignement ménager, seront institués dans tous les établissements secondaires” (p. 554); “Création d’une école normale d’éducation physique, avec section d’éducation ménagère, pour la préparation des professeurs spéciaux” (p. 555).

Agradecimentos

Esta pesquisa foi financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) sob o código de financiamento de n. APQ-01905-22.

Disponibilidade de dados

Os dados subjacentes à pesquisa estão informados no artigo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Out 2025
  • Aceito
    26 Jan 2026
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