Open-access O fenômeno gordofobia em plataformas digitais brasileiras de notícias: uma análise crítico-reflexiva e problematizadora

The phenomenon of fatphobia on Brazilian digital news platforms: a critical-reflexive and problematizing analysis

El fenómeno de la gordofobia en las plataformas digitales de noticias brasileñas: un análisis crítico, reflexivo y problematizador

Resumo

A tônica deste estudo refere-se às discursividades midiáticas sobre os corpos gordos as quais promovem gordofobia. Então, o objetivo foi problematizar os conteúdos e discursos midiáticos presentes em plataformas digitais brasileiras de notícias concernentes aos corpos gordos. Metodologicamente, caracteriza-se por sua abordagem qualitativa de cunho descritivo-exploratório do tipo documental. O locus para realização da pesquisa foram as plataformas digitais de notícias do UOL Vivabem, em sua seção Saúde, e o Portal G1. Os dados foram analisados a partir da análise de conteúdo (AC), de Laurence Bardin. Identificou-se um total de 16 matérias. Seguindo os pressupostos teórico-metodológicos da AC, emergiram-se 3 categorias de análise temática: (1) Discursividade biomédica como normatividade; (2) Emagrecer é a palavra de ordem; (3) Mídia e sua pedagogia corporal. A partir dos achados, é possível notar a tendência que a mídia tem em reportar o corpo gordo como sendo doente, predestinado ao sofrimento, justamente pelo fato de romper com os padrões estipulados pelos discursos hegemônicos. Percebe-se, assim, que as subjetividades das pessoas gordas são frequentemente deslegitimadas, a gordura é a tônica das representações sociais e não o sujeito e suas múltiplas dimensões.

Palavras-chave:
Obesidade; Processo saúde-doença; Meios de comunicação de massa; Exclusão social

Abstract

The central focus of this study concerns media discourses about fat bodies, which promote fatphobia. The objective, therefore, was to problematize the media content and discourses disseminated by Brazilian digital news platforms regarding fat bodies. Methodologically, the study is characterized by a qualitative descriptive-exploratory documentary investigation. The research locus comprised the digital news platforms UOL Vivabem-specifically its Health section-and the G1 Portal. The data was analyzed using Lawrence Bardin’s content analysis (CA). A total of 16 articles were identified. Following the theoretical-methodological assumptions of CA, three categories of thematic analysis emerged: (1) Biomedical discursivity as normativity; (2) Weight loss the watchword; (3) The media and its body pedagogy. From the findings, it is possible to see the tendency of the media to report the fat body as being sick, predestined to suffering, precisely because it breaks with the standards stipulated by hegemonic discourses. Consequently, the subjectivities of fat individuals are frequently delegitimized, as fatness becomes the central lens through which social representations are constructed-rather than the person and their multiple dimensions.

Key words:
Obesity; Health-illness process; Mass communication media; Social exclusion

Resumen

Este estudio se centra en los discursos mediáticos sobre los cuerpos gordos que promueven la gordofobia. Por lo tanto, el objetivo fue problematizar el contenido y los discursos presentes en las plataformas digitales de noticias brasileñas con respecto a los cuerpos gordos. Metodológicamente, se caracteriza por su enfoque cualitativo, descriptivo-exploratorio y documental. La investigación se realizó utilizando las plataformas digitales de noticias UOL Vivabem, en su sección de Salud, y el Portal G1. Los datos se analizaron mediante análisis de contenido (AC), según la metodología de Laurence Bardin. Se identificaron un total de 16 artículos. Siguiendo los supuestos teóricos y metodológicos del AC, surgieron tres categorías de análisis temático: (1) El discurso biomédico como normatividad; (2) La pérdida de peso como consigna; (3) Los medios de comunicación y su pedagogía corporal. A partir de los hallazgos, se observa la tendencia de los medios a presentar el cuerpo gordo como enfermo, predestinado al sufrimiento, precisamente porque rompe con los estándares estipulados por los discursos hegemónicos. Se percibe, por lo tanto, que las subjetividades de las personas gordas se deslegitiman con frecuencia; la gordura es el foco de las representaciones sociales y no el sujeto ni sus múltiples dimensiones.

Palabras clave:
Obesidad; Proceso salud-enfermedad; Medios de comunicación; Exclusión social

Introdução

A mídia tem sido considerada uma importante ferramenta de mediação acerca do “ideal” de corpo a ser desejado, reconhecido e valorizado - magro/esguio/fitness -, a partir da premissa de que estaria atrelado à saúde, felicidade e beleza. E, ao corpo gordo, atribui-se um estigma1, marcando-o negativamente1. Sendo o acúmulo de gordura a marca mais evidente, perceptível a partir da configuração corporal volumosa, pensando nos ideais da ordem biomédica seria aquele/a em que o Índice de Massa Corpórea (IMC) estaria fora da classificação de normalidade (18,5-24,9 kg/m²), mas sim, atingindo valores considerados como indicadores de anormalidade (>30,0 kg/m²).

Compreende-se, nesse sentido, que o corpo é tratado como uma normalidade biopolítica. Para Esposito2 a biopolítica é um dispositivo que produz a singularidade como monstruosidade via estatística. É para isso que serve um dispositivo biopolítico médico: para impedir a “anormalidade” dos corpos. “[...] uma anomalia é, etimologicamente, uma desigualdade, uma diferença de nível. O anormal é simplesmente o diferente”2 (p.174).

O mencionado dispositivo, para Agamben3, “[...] é qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes”3 (p.40).

A mídia, neste caso, utiliza-se da ciência, de questões empíricas, de questões ligadas ao direito, de imagens e sons, e, ao seu modo, passa a influenciar as pessoas, inclusive referente ao consumo de mercadorias e produtos que, no caso do corpo gordo, tem a finalidade de “ajudar” no processo de emagrecimento, pois “[...] ter um corpo magro, esbelto e definido é a maior promessa de felicidade da contemporaneidade”4 (p.47).

Enquanto em pleno século XXI o corpo gordo tem sido demasiadamente associado à doença, ao desleixo, e até mesmo, ao insucesso pessoal e profissional, isto é, visto como fora da normalização social, sabe-se que há pouco mais de 5 séculos, precisamente na Idade Média, o corpo glutão foi percebido/qualificado como um sujeito opulente, empoderado e desejado5.

Porém, no atual contexto em que vivemos o corpo gordo ora é percebido como aquele que foge às normas do que seria referência a ser seguida, ora é o corpo gordo visto a partir da ordem biomédica como um corpo obeso/doente, e isto se configura como sendo a gordofobia - preconceito e discriminação deliberada e direcionada às pessoas gordas, compreendendo-as como inferiores, como seres humanos “anormais”, equiparando-as, por vezes, a uma “anomalia”6,7.

Surge, assim, o seguinte questionamento: De que maneira as plataformas digitais de notícias têm contribuído para promoção da problemática estigmatizadora da gordofobia?

Desta forma, o estudo em tela objetivou problematizar os conteúdos midiáticos presentes em duas plataformas digitais brasileiras de notícias que tendenciam compreensões de caráter gordofóbico. Enquanto aporte teórico, foram utilizados os estudos de Vigarello5, em “As metamorfoses do gordo”; de Jean-Pierre Poulain8, que contribui com a “Sociologia da Obesidade”; e, Georges Canguilhem9, com a obra “O normal e o patológico”.

Procedimentos metodológicos

A pesquisa caracterizou-se pela sua abordagem qualitativa10 e de cunho descritivo-exploratório11. Além disso, caracterizou-se como uma pesquisa documental, seguindo a lógica de “análise de produtos midiáticos”12, realizada para compreensão acerca dos discursos e sentidos proferidos acerca do corpo gordo nas plataformas digitais de notícias investigadas. O locus para realização da pesquisa foi o Portal Vivabem UOL, mais precisamente na seção saúde, e o Portal G1 com notícias relacionadas ao tema saúde.

A escolha dos referidos portais ocorreu pelo fato de ambos serem considerados os portais digitais brasileiros de informação com grande acesso e audiência no Brasil, e também, por serem veículos de transmissão de informações dirigidas a um público amplo e diversificado, justamente por veicular informações com embasamento em estudos científicos e por contemplarem discursos, conceitos, valores, representações e ações que perpassam o universo da construção do corpo tido como “ideal” e almejável e sua relação com a saúde na atualidade.

As coletas ocorreram durante o período compreendido entre agosto de 2022 a março de 2023. Na oportunidade, foi criado um grupo no aplicativo Whatsapp Messenger (somente com o primeiro autor deste estudo) nomeado “App diário - corpo gordo”, em que eram enviadas as matérias identificadas e que, na avaliação dos pesquisadores do presente estudo, poderiam compor o corpus da pesquisa (sendo 16 matérias coletadas, 7 do portal UOL e 9 do portal G1).

Posterior às coletas, as matérias foram “transportadas” para um computador e organizadas em pastas nomeadas de “análise de conteúdo UOL” e “análise de conteúdo G1”, para que pudessem ser analisadas e selecionadas, conforme os critérios de inclusão (a matéria veiculada teria que discorrer sobre corpos gordos, que neste caso é demasiadamente reportado pela mídia como corpo obeso, obesidade, sobrepeso, excesso de peso, emagrecimento, e se a discursividade midiática inclinava para o processo de patologização do gordo, impondo-se assim, de certa maneira, culpabilidade e estigmatização) e exclusão (as matérias em que seus conteúdos não tinham relação com o objeto deste estudo), ou seja, conteúdos (textuais e imagéticos) os quais não discorriam sobre corpo gordo com teor gordofóbico.

Foi utilizada a técnica de análise de conteúdo, proposta por Bardin13, na qual foi realizada através da pré-análise, exploração do material - Quadro 1 - e o tratamento dos achados. O conteúdo textual das matérias analisadas foi transportado para o processador de texto Microsoft Word e os fragmentos (Quadro 1) que se repetiam em relação à patologização do corpo gordo, como por exemplo, a palavra doença e suas associações com doenças crônicas não transmissíveis, foram marcados em realce na cor amarela. Já referente aos fragmentos (Quadro 1) que, demasiadamente, repetiam-se fazendo referência ao emagrecimento e sua suposta relação com à saúde, como o fragamento perda de peso, por exemplo, foram marcados em realce na cor turquesa.

Quadro 1
Fragmentos identificados.

E, os fragmentos (Quadro 1) referente à discursividade que inclinava para a ideia de que a mídia estava exercendo uma pedagógica corporal, foram marcados em realce na cor verde, como por exemplo, melhoras no estilo de vida, conforme o contexto da matéria veiculada.

Nesta etapa realizaram-se inferências e interpretações, correlacionando os achados ao levantamento e mapeamento bibliográfico realizado inicialmente referente ao objeto deste estudo, mas também abrindo espaço para novas dimensões teóricas e interpretativas a partir do material empírico selecionado. Destaca-se, neste caso, que as categorias de análise temática são resultantes desse material empírico (Quadro 1), sendo elas: (1) Discursividade biomédica como normatividade; (2) Emagrecer é a palavra de ordem; (3) Mídia e sua pedagogia corporal.

Resultados e discussão

Foram selecionadas 16 matérias (7 portal UOL e 9 portal G1), o Quadro 2, apresenta sistematicamente as matérias veiculadas nas plataformas investigadas.

Quadro 2
Organização das matérias veiculadas no portal UOL e G1.

A matérias selecionadas (Quadro 2) abordam a questão do sobrepeso e da obesidade (principalmente), como sendo uma eminente problemática e que requer iniciativas que visem o seu controle, prevenção e tratamento. Elucida-se que a matéria (Figura 1), foi escolhida dentre as demais selecionadas e apresentadas (Quadro 2), para ser analisada e tratada com mais detalhes com vistas à problematização de conteúdos tendenciosos à gordofobia.

Figura 1
Fábio com 160 kg e 79 kg.

Na sequência, apresentam-se as 3 categorias oriundas do material empírico coletado e selecionado dos dois portais investigados (Quadro 2).

Discursividade biomédica como normatividade

É possível se verificar nas reportagens selecionadas que há uma normatividade que se confirma em relação aos corpos gordos como sendo corpos patologizados, a partir daquilo que os saberes e práticas biomédicas sugerem (recomendações médicas, uso de remédios, intervenções médicas, aspectos nutricionais e prática de atividade física).

A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO)14, consideram a obesidade como uma doença crônica e que, devido a isso, reduz a expectativa de vida. Nas matérias analisadas, em sua ampla maioria, identificamos verbos os quais reforçam esse processo de patologização, geralmente antes da palavra obesidade, tais como: combater, controlar, enfrentar, tratar, superar e prevenir.

Isto, de certa maneira, coaduna com os escritos de Poulain8, que ao realizar uma análise sociológica sobre o surgimento da “obesidade” e de como a patologização do corpo gordo foi instrumentalizada no âmbito do modus operandi da medicina hegemônica, passa a afirmar o seguinte:

O papel dos cientistas, dos especialistas, do aparelho de legitimação do mundo científico - por meio das revistas, dos congressos, das conferências de consenso - é essencial nesse momento. O que está em jogo é que está ligado à necessidade de tornar o problema visível e digno de crédito. As mudanças de vocabulário e as modificações de estatuto epistemológico para noções como “fator de risco”, “doença”, “doença mortal”, “epidemia” podem facilitar a visibilidade da questão da obesidade8 (p.149).

As consequências dessa maneira de entender o corpo gordo acabaram por reforçar a sua estigmatização. Somado a isso, a mídia passa a veicular saberes de que a obesidade é um grande problema, e sendo assim, os corpos gordos são vistos como “inimigos”, já que afrontam esse processo de normalização e poder sobre os corpos.

Citamos como exemplo, a matéria veiculada, pelo portal G1, no dia 22 de novembro de 2022, a respeito de uma pesquisa desenvolvida na Universidade Estadual de Campinas, São Paulo, Brasil, na qual foi identificada a proteína interleucina-6 (IL-6) que queima gordura após a realização de exercício físico. Para o pesquisador que coordenou o estudo, Eduardo Ropelle: “[...] a descoberta traz a possibilidade de avanços para a saúde, como no controle da obesidade”15.

Não diferentemente, a matéria intitulada “Dia Nacional de Prevenção da Obesidade: mais de 55% da população do DF apresenta excesso de peso”, veiculada pelo portal G1, mais precisamente na seção “tratamento para obesidade do Distrito Federal”, informa que: “[...] para enfrentar a obesidade, os postos de saúde do Distrito Federal fazem um trabalho multidisciplinar que envolve nutricionistas, psicólogos, endocrinologistas e cardiologistas”16. A matéria também informa que os pacientes que muitas vezes procuram a assistência médica, por queixas diversas, recebem o primeiro acompanhamento para tratar a obesidade.

No portal UOL, a matéria (Figura 1), publicizada em 06 de outubro de 2022, também tendencia compreensões de caráter gordofóbico, principalmente acerca do processo de patologização. Inicia-se a análise desta reportagem a partir de uma breve enunciação referente ao sujeito Fábio Andrade Teixeira17, um homem branco com 40 anos de idade, o qual chegou a pesar 160 kg. Sendo que o discurso midiático refere, ainda, que quando Fábio esteve com 82 kg e com uma rotina de treino, em um certo dia, ouviu que não seria capaz de participar de uma corrida de 10 km devido ao seu histórico de obesidade.

Entretanto, Mezzaroba18 alerta que: “[...] defender o discurso de que exercício é saúde em determinado contexto sociocultural pode ser um grande equívoco por parte de professores de Educação Física” (p.235). “[...] este discurso que liga a causa (fazer atividade física) a um efeito (gerar saúde), o conhecido discurso da causalidade, é algo reducionista e problemático”18 (p.235).

Além disso, percebe-se um notório pavor/medo em relação à gordura tanto no discurso proferido por Fábio, quanto em tantos outros que também são veiculados no portal UOL, por exemplo. Isto, inclusive, corrobora para promoção da gordofobia, pois: “[...] a visão que se tem de qualquer pessoa gorda, não importando sua subjetividade, história, cultura e hábitos, já é um pré-diagnóstico, um enquadramento do corpo gordo como um corpo doente”19 (p.29).

O conteúdo veiculado no portal UOL, no dia 4 de março de 2023, com título “Dia Mundial da Obesidade: doença tem várias causas e não só maus hábitos”20, teve o objetivo de chamar a atenção para o fato da obesidade ser considerada uma doença crônica, multifatorial, que tem aspectos múltiplos e não somente uma questão ocasionada por maus hábitos de vida.

Depreende-se, diante ao exposto, que embora a matéria tenha uma relativa perspectiva não culpabilizante, já que não reduz o fenômeno da obesidade a questões comportamentais, a matéria tem viés patologizante, contribuindo desta forma para o processo de estigmatização do corpo gordo. Steffen e Queiroz21 afirmam que “[...] a estigmatização do corpo gordo como doente impõe necessariamente a sugestão de cura de um mal - patológico e social - que deve ser suprimido da sociedade”21 (p.230).

Para Jimenez et al. 19 a gordofobia passa a limitar “[...] as experiências que podem ser vividas nos encontros ao efetuar a captura dos olhares e dos agires para o regime de verdade binário da doença, em detrimento da multiplicidade do existir de cada corpo gordo, e que vem acompanhado de culpabilização”19 (p.30), desvalorização e exclusão.

Compreende-se, desse modo, que a sociedade tem estabelecido formas de categorizar os sujeitos em seus atributos comuns e naturalizantes por meio de paradigmas negativos. Para Goffman1, quando esses paradigmas não são alcançados de alguma forma, atributos que são significativamente depreciativos, são postulados a esses sujeitos por grupos sociais que os discriminam.

Emagrecer é a palavra de ordem

As reportagens relacionadas a esta categoria temática evidenciam que emagrecer seria a atividade-fim de quem possui corpo gordo. Para tal, outras formas de se aderir ao emagrecimento são também exploradas nos discursos midiáticos, como por exemplo, a partir de procedimentos medicamentosos, “Semaglutida: o que se sabe sobre injeção para tratar obesidade aprovada pela ANVISA”22.

Observa-se, desta forma, que o processo de patologização do corpo gordo está intimamente relacionado à medicalização dos corpos em busca de “curá-los”, “corrigi-los”, sendo os holofotes direcionados à perspectiva da magreza. Para Farhat23, “[...] dentro deste contexto do ‘corpo perfeito’, além da mídia, a indústria farmacêutica também exerce forte influência sobre as pessoas. São inúmeros medicamentos que prometem grande perda de peso, num curto espaço de tempo”23 (p.8), e que, por vezes, acarreta diversos problemas à saúde do sujeito.

Poulain8 nos informa que já houve uma “[...] vasta literatura de regimes para engordar, como existe, na contemporaneidade, uma vasta literatura de regimes para emagrecer”8 (p.125). Aqui, torna-se premente recuperar a antiga campanha industrial farmacêutica dos comprimidos Vikelp: “Vikelp transforma as magras de nascença em criaturas fortes e cheias de vida”.

Esta campanha é de 1940, e expressa os padrões estéticos após a Segunda Guerra Mundial, um momento de escassez de alimentos, exemplificando como a beleza é sempre inatingível para a maioria da população24. Heine e Marinho24 alerta para o fato da “[...] formação ideológica que relaciona saúde com ganho de peso, e coloca a magreza como algo tão negativo que pode até gerar um complexo, afetando a vida das pessoas, sendo apontada inclusive, como um “fardo” insuportável”24 (p.11).

Atualmente, o corpo magro tem sido visto como a tônica do “ideal” de corpo, por sua vez, a gordura passa a ser considerada um símbolo de falência moral5, e o indivíduo gordo, além de apresentar um peso e formas que não têm uma aceitação social em sua plenitude1, passa a ser visualizado como um sujeito menos desejável e desqualificado25.

Ainda dando ênfase ao discurso proferido, Fábio continua com a informação de que aos seus 15 anos de idade já pesava 121 kg, sendo assim, desde cedo já vivenciava o bullying na escola devido a sua configuração corporal. Tal relato, converge com o resultado de um estudo da OMS veiculado pelo portal G1, no dia 27 de setembro de 2022, com título “Obesidade: entenda o que é e como você pode ajudar quem sofre dessa doença crônica”26, o qual demonstra que os grupos que mais sofrem com preconceito contra a obesidade são: crianças em idade escolar - 63% têm mais chances de sofrer bullying -, pessoas que sofrem descrédito dentro do ambiente de trabalho - 53% dos participantes da pesquisa relataram casos assim - e pacientes - 69% dos adultos respondentes passaram por algum tipo de constrangimento ao procurar ajuda médica.

Além disso, a partir da afirmação de Fábio de que solicitou aos seus pais para o “levarem a um médico, para mudar hábitos e emagrecer (sic)”17, torna-se notório que o processo de exclusão das pessoas gordas está engendrado até mesmo na percepção destas, de que seu próprio corpo não merece ser vivido, estando sempre em busca de alternativas de fugir dele na contínua possibilidade, ou obrigação de emagrecer a qualquer preço, afinal, ser gordo é um problema considerado cabível de reversão, já que não corresponde à normalidade27.

Não é absurdo considerar o estado patológico como normal, na medida em que exprime uma relação com a normatividade da vida. Seria absurdo, porém, considerar esse normal idêntico ao normal fisiológico, pois trata-se de normas diferentes. Não é a ausência de normalidade que constitui o anormal. Não existe absolutamente vida sem normas de vida, e o estado mórbido é sempre uma certa maneira de viver9 (p.92).

Tais percepções permitem compreender o fenômeno da obesidade para além de disfunções físico-químicas, conforme destacado pela área biomédica, ou seja, relaciona-se à capacidade de se adaptar às normas previamente apresentadas pelo meio. Nesse sentido, a ideia de patologia e anormalidade, ou doença e normalidade, não pode estar dissociada do organismo e do ambiente em que se encontra, pois a investigação analítica desse conceito não pode deixar de levar em conta os valores e construções sociais9.

Outra matéria veiculada pelo portal G1, no dia 04 de março de 2022, apresenta dados do Atlas da Obesidade no Mundo, os quais apontam que o Brasil pode ter um terço de crianças e adolescentes com obesidade até 2035. Ainda nesta matéria, é disponibilizado o relato de uma dona de casa que afirma o seguinte: “[...] a gente tem que estar sempre presente mostrando que não é apenas desleixo. É uma doença. Obesidade é uma doença e precisa ser tratada”28.

O relato utilizado pelo portal G1, é tendencioso à gordofobia, pois além de colocar a culpa no sujeito pela sua configuração corpórea/volumosa, ou seja, aparentemente desleixado e sem disciplina, passa a patologizar o sujeito, pois este, encontra-se distante do “protótipo” a ser seguido, o corpo cujo resulta do processo de emagrecimento.

Tal afirmação dialoga com uma outra matéria veiculada no portal G1, no dia 24 de agosto de 2022, que também faz referência ao emagrecimento como “sinônimo de saúde”, pois a matéria logo no primeiro parágrafo disponibiliza a informação de que: “[...] perder peso, mesmo que seja só um pouquinho, já traz benefícios à saúde. Estudos mostram que com apenas 3% a menos de peso pode haver redução nos níveis de glicose. Se perder 5%, a pessoa consegue notar o aumento do colesterol bom, o HDL, e sentir menos dor nas articulações”29.

Aqui, percebe-se que estes valores “fechados”, de 5, 10%, relacionam-se também à primeira categoria, da discursividade biomédica como normatividade, é como se os corpos fossem iguais e os números ajudam nesse processo de normatividade.

Há, portanto, uma notória elaboração e disseminação de conteúdos os quais apresentam, como eixo central, enaltecer o emagrecimento, isto é observável no portal do UOL, pois mesmo a matéria veiculada não tendo como ênfase esta temática, frequentemente são “disparados” anúncios os quais visam estimular os leitores a adquirirem seus planos com dicas de emagrecimento (Figura 2).

Figura 2
Anúncio publicizado no portal UOL.

É inegável, portanto, que a mídia influencia e, sobremaneira, estimula as pessoas em relação a aspectos de consumo e mercadológicos, inclusive tendo em vista que os meios de comunicação e informação, de maneira frequente, exibem propagandas e programas, em que, Segundo Oliveira et al.30 os corpos tidos como “perfeitos” são a tônica da midiatização, ou seja, “[...] há um processo de apagamento do corpo gordo em uma esfera não apenas simbólica, mas também concreta”7 (p.91).

Mídia e sua pedagogia corporal

Observando os discursos uníssonos das duas principais plataformas digitais brasileiras de informação, observa-se que os discursos textuais apresentam a questão/tema, estimulam práticas, expõem saberes (principalmente biomédicos e comportamentais), procuram motivar quem acessa esse tipo de conteúdo a atingir a atividade-fim (emagrecer, deixar a condição de corpo gordo), e também se pautam na pedagogia do medo, ou seja, amedrontando, com certos discursos, quem possui ou se dirige a ter uma maior corpulência.

Como por exemplo, pode ser citada a matéria veiculada no portal UOL, no dia 15 de março de 2023, intitulada “Sem açúcar, fritura e refri: Joice Hasselmann mudou hábitos e perdeu 22 kg”31. Na continuidade, enuncia-se o seguinte: “[...] a jornalista e ex-deputada federal Joice Hasselmann faz sucesso nas redes sociais com o seu novo estilo de vida. No perfil do Instagram ‘Bem-Estar com Joice’, ela compartilha a rotina de treinos e de alimentação saudável”31, aqui é a mídia passando a ideia de que é preciso ímpeto de mudança, só assim, será possível emagrecer e obter saúde e melhora na qualidade de vida - o foco, portanto, é no aspecto individual e comportamental.

Tal afirmativa, dialoga com o produto midiático disponibilizado no portal G1, mais precisamente no dia 31 de dezembro de 2022, em que colocou em destaque o seguinte título: “Em 2023 eu vou emagrecer: veja dicas para perder peso e levar uma vida mais saudável”32. E o produto midiático faz sua pedagogia corporal: “[...] considerada a campeã entre as resoluções de ano novo, a promessa de perder peso e levar um estilo de vida mais saudável é, além de uma questão estética, uma questão de saúde”32.

Segundo Poulain8, pelo fato de a obesidade ser vista como uma questão de saúde, acaba se tornando um preconceito mais aceito devido ao discurso médico-hegemônico que o legitima.

Quanto à pedagogia corporal, recorreu-se aos escritos de Ribeiro et al.33 os quais destacam que a mídia tem a capacidade de investir no discurso do aperfeiçoamento do corpo, justamente por ser percebida “[...] como um veículo de discursos considerados verdadeiros”33 (p.72). A pedagogia midiática opera, portanto, nos “trilhos” que irão direcionar a produção de sentidos e sujeitos sociais, particularmente dada pela forma como são estruturados os textos midiáticos33.

Essa pedagogia corporal, relaciona-se à pedagogia do medo, ao disseminar conteúdos que, de certa forma, causa pavor nas pessoas, como por exemplo, a matéria veiculada no portal G1, no dia 2 de fevereiro de 2023, com título “Por que o sobrepeso na meia-idade afeta seu futuro”34, a reportagem coloca em destaque os resultados de um estudo desenvolvido por cientistas noruegueses em que evidenciam a obesidade como fator significativo para o surgimento da Doença de Alzheimer.

Além deste tipo de discursividade ser considerada como patologizante, também generaliza todos os corpos gordos, como se para não ter esta doença (Alzheimer), a tônica inclina para ideia da perda de peso associada à promoção da saúde. É como se o fato do sujeito ser magro garantisse a ele “proteção”. Ou seja, esta pedagogia corporal tem consagrado o corpo como matéria moldável, um objeto manipulável para alcançar aquilo que se deseja35.

Torna-se oportuno trazer para este debate os determinantes sociais da saúde, justamente tendo em vista a sua íntima relação acerca do processo saúde-doença, e levando-se em conta a discursividade proferida por Fábio a respeito de sua correria com demandas de trabalho, faculdade etc.: “[...] mantive o novo peso por seis anos, mesmo com a correria entre trabalho e faculdade, rotina que me permitia treinar apenas três vezes na semana. Ganhei autoestima e comecei a namorar”17.

Os mencionados determinantes36 englobam os fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais, os quais influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população, isto, inclusive, dialoga com a afirmação subsequente de Fábio, quando afirma que um conjunto de situações problemáticas, como por exemplo, ter perdido entes queridos, interferiram de tal maneira em sua vida que voltou a pesar 160 kg.

Diante ao exposto, Oliveira et al.30 afirmam o seguinte:

O discurso é claro: as pessoas não se cuidam! A ideologia da saúde associa equivocamente a ação de se cuidar com “ser magro” ou “praticar atividade física”. Quem não se cuida ou não se vigia faz parte do novo grupo de desviantes, os “descuidados obesos”. Qualquer outro sentido para a palavra cuidado é silenciado30 (p.105).

Nesse sentido, ocorre aquilo que a saúde coletiva denomina como sendo o processo de culpabilização da vítima. Mezzaroba18 alerta que isso acontece a partir do momento em que é atribuída a culpa (única e exclusiva) ao próprio sujeito, sem mesmo levar em consideração a sua possível exposição aos vários agravos, que vão desde a questões e condições de trabalho e acesso à alimentação, por exemplo, às questões relacionadas ao “bombardeio de informações” dos cotidianos, por vezes, quanto a atitudes preventivas visando à saúde.

Nesta discussão, também é oportuno destacar a pesquisa realizada por Ulian et al.37, na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, Brasil, a qual objetivou examinar se a perda de peso após intervenções baseadas em Health at Every Size está associada a mudanças nos fatores de risco cardiometabólicos e na qualidade de vida de mulheres com obesidade.

A mencionada abordagem significa “saúde em todos os tamanhos”, formulada nos Estados Unidos, e prioriza a saúde e o bem-estar físico e psicológico, independentemente do peso, incentivando pessoas com diferentes configurações corporais a se envolverem em comportamentos mais saudáveis, sem a ênfase está direcionada à ideia de emagrecimento37.

Os achados sugerem que intervenções de modificação do estilo de vida e de peso neutro podem melhorar o bem-estar e os resultados relacionados à saúde, mesmo na ausência de perda de peso, isto é, a perda de peso não é determinante para obter melhoras na capacidade física, na proteção cardiovascular e na qualidade de vida37.

Segundo estes autores: “[...] o achado mais surpreendente foi que alguns participantes que mantiveram o peso ou mesmo ganharam peso também melhoraram a circunferência da cintura, o risco metabólico agrupado e a qualidade de vida”37 (p.4-5). Tais evidências são relevantes, inclusive, tendo em vista a perspectiva positivista embasada no modus operandi da área biomédica e que também concerne muitas pesquisas na área da Educação Física.

Além, é claro, de corroborar com as pesquisas desenvolvidas nas áreas das Ciências Humanas e Sociais, que têm advogado acerca de um olhar mais crítico-analítico com vistas a levar em consideração as individualidades e subjetividades dos corpos/pessoas/humanos a partir, inclusive, de uma perspectiva holística e não reduzido ao processo de emagrecimento enquanto à tônica monolítica com vistas à suposta garantia de saúde.

Essa didatização corporal (exercida pela mídia) com vistas à busca de um corpo “ideal” é operacionalizada através de variados discursos que são elaborados de maneira a produzir “verdades”, como por exemplo, o discurso hegemônico, médico-centrado, o qual aponta de maneira positivista e universalizante o corpo gordo como sendo doente, veiculado em muitas discursividades midiáticas como propenso à morte.

Considerações finais

Tendo em vista a análise de conteúdo realizada, bem como, a discussão e problematização empreendidas com embasamento na literatura científica, torna-se perceptível a elaboração e veiculação de produtos (conteúdos textuais e imagéticos) por parte da mídia, os quais propagam informações e saberes gordofóbicos, podendo acarretar as mais variadas formas de violência, opressão e ridicularização das pessoas gordas.

Percebe-se, assim, que as subjetividades das pessoas gordas são frequentemente deslegitimadas, a gordura é a tônica das representações sociais e não o sujeito e suas múltiplas dimensões.

Reafirma-se, aqui, que é para tal propósito que uma pesquisa como esta existe e se coloca a pensar essa problemática contemporânea sob a perspectiva pedagógica e educacional justamente tendo em vista o processo de humanização e criticidade a ser desenvolvido nos/as alunos/as, momento em que há uma forte imersão de crianças e jovens no mundo da cultura digital, seja por meio do computador, ou por dispositivos móveis, tais como celulares e tablets, em plataformas como e-mail, redes sociais na web, dentre outras, tendo em vista o uso da internet.

Compreende-se, nesse sentido, que um trabalho pedagógico envolvendo uma educação para, com e através das mídias38, isto é, levando-se em consideração os pressupostos teórico-metodológicos da mídia-educação38, pode ser uma das possibilidades diante ao processo de conscientização e desenvolvimento do senso de criticidade em relação à influência, e aos impactos advindos dos produtos midiáticos frente a um “ideal” de corpo, e que, de maneira frequente, é associado à saúde - magro e/ou musculoso/fitness -, tanto ao que diz respeito a formação (inicial e continuada) de professores(as) quanto aos estudantes da educação básica, pois os estudantes “[...] aprendem com suas interações com as mídias, seus usos e costumes, seus conhecimentos e suas formas de aprendizagem”38, contribuindo, desta forma, para a formação de sujeitos que não pratiquem gordofobia, mas que reconheçam a diversidade existente e marcada no corpo de cada cidadão.

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  • Declaração de disponibilidade de dados
    As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.
  • Editores-chefes:
    Maria Cecília de Souza Minayo, Romeu Gomes, Antônio Augusto Moura da Silva, Vania de Matos Fonseca

Disponibilidade de dados

As fontes de dados utilizados na pesquisa estão indicadas no corpo do artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    Fev 2026

Histórico

  • Recebido
    07 Maio 2024
  • Aceito
    29 Out 2024
  • Publicado
    31 Out 2024
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