| 1. Meneghel et al. 16 (2022) |
Mulheres de diferentes nacionalidades nas fronteiras brasileiras |
Analisar os óbitos de mulheres por agressão nos 122 municípios da faixa de fronteira brasileira, mensurar e identificar fatores associados |
Quantitativa − dados do SIM. Variáveis independentes: migração, concentração de renda, raça/cor da pele, população, religião e violência sexual |
O estudo aprofundou pouco a discussão sobre saúde. Contudo, mostra que as mulheres indígenas, além de sofrerem com a violência (13% de 181 feminicídios), enfrentam graves problemas de saúde. Reitera que os processos migratórios influenciam a saúde das populações |
As regiões de fronteira podem ser afetadas pelo tráfico de drogas, armas e pessoas, levando ao trabalho escravo contemporâneo, exploração sexual, prostituição forçada, feminicídio e homicídio. Foram registrados 1.384 óbitos femininos de 2000 a 2015, com taxa média de 5,8/100.000. O padrão de distribuição desses óbitos concentrou-se predominantemente no Arco Central (Rondônia, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul), com os maiores contingentes de migrantes e relatos de violência sexual, especialmente em municípios maiores e mais populosos. Houve um aumento em municípios de pequeno porte. Há subnotificação de casos, especialmente entre mulheres indígenas |
| 2. Ministério da Saúde 34 (2013) |
Profissionais de saúde, assistentes sociais e de outros setores envolvidos com migração e violência contra as mulheres |
Compor o material didático para o curso “Migração e Tráfico de Mulheres para Exploração Sexual e Trabalho Degradante” para promover a capacitação de profissionais da saúde, assistência social e de outros setores governamentais e não governamentais |
Qualitativa − dados da literatura, do SIM e de outras bases de dados em saúde |
A saúde das mulheres migrantes é afetada por condições insalubres, falta de acesso aos serviços de saúde e exposição a riscos e doenças ocupacionais. Destaca-se a responsabilidade dos serviços de saúde na identificação e intervenção em situações de violência contra as mulheres |
O tráfico de pessoas afeta mulheres pobres, desempregadas e jovens, que são as mais vulneráveis ao trabalho forçado e à exploração econômica ou sexual. Estão mais expostas à migração entre estados brasileiros ou para outros países, tornando-se vulneráveis em situações de violência, exploração sexual comercial no caso de adolescentes ou crianças, e prostituição forçada quando adultas, com ou sem pagamento mínimo por seu trabalho |
| 3. Ministério da Saúde 35 (2013) |
Profissionais de saúde, assistentes sociais e de outros setores envolvidos com a migração e violência contra mulheres |
Compor o material didático para o curso “Migração e Tráfico de Mulheres para Exploração Sexual e Trabalho Degradante” para promover a formação de profissionais da saúde, assistência social e de outros setores governamentais e não governamentais. O livro contém 11 artigos sobre o tema e aborda brasileiras no exterior |
Qualitativa − dados da literatura e da experiência do projeto Suindara, para capacitação profissional no SUS |
Os impactos da violências na saúde incluem exploração sexual, trabalho degradante, dificuldades na atenção à saúde sexual e reprodutiva, sofrimento psicológico e transtornos mentais, dependência química, condições precárias de vida e saúde, maus-tratos, tráfico de pessoas em áreas rurais e urbanas, vulnerabilidade material e transferência de pessoas para lugares sem vínculos afetivos, comunitários e sociais. A ruptura das relações sociais, afetivas e simbólicas, as dificuldades de integração cultural, o isolamento, a solidão e as pressões e tensões do cotidiano, subjacentes ao processo migratório e à situação de irregularidade, podem levar a estados de fragilidade psicológica, ocasionando sofrimento psicológico e transtornos mentais |
As mulheres migrantes estão entre as mais vulnerábilizadas à violência sexual no local de trabalho, e as mulheres negras são as principais vítimas do tráfico de pessoas, especialmente na região de fronteira brasileira. As mulheres vivenciam violência institucional nos setores de saúde e assistência social e sofrem violência de gênero, sexual, física, psicológica, coletiva e xenofóbica |
| 4. Oliveira 36 (2022) |
Mulheres bolivianas, haitianas, angolanas, congolesas e venezuelanas em São Paulo |
Discutir os processos migratórios e a saúde mental de mulheres migrantes e refugiadas em São Paulo |
Qualitativa − questionário e entrevistas com nove migrantes |
O sofrimento psicossocial, as situações de vulnerabilizadas e as opressões baseadas em gênero, raça e classe social apontam para os efeitos adversos na saúde mental das migrantes. As mulheres têm rotinas exaustivas, com poucos momentos de lazer. Os afazeres domésticos e o cuidado familiar estão associados a essa sobrecarga. Enfrentam discriminação nos serviços de saúde por serem migrantes; há sofrimento relacionado aos rompimentos familiares, com tristeza, medo e preocupações com a subsistência familiar deteriorada pela Covid-19. São relatadas crises de ansiedade, distúrbios do sono, cefaleias, ataques de pânico e uso de psicotrópicos |
Racismo, discriminação, inclusive nos serviços de saúde, xenofobia, assédio moral, fome e perseguição política no país de origem e abusos verbais afetam as mulheres |
| 5. Avellaneda Yajahuanca 37 (2015) |
Mulheres bolivianas em São Paulo |
Analisar as experiências de mulheres bolivianas durante a atenção à saúde, parto e pós-parto |
Qualitativa − observação participante e entrevistas individuais |
A assistência pré-natal e pós-parto é precária, aliada a graves barreiras linguísticas e culturais. Devido ao trabalho em oficinas, dormem mal, o ambiente de trabalho é o mesmo da casa, a alimentação é ruim, há pouca ventilação e a poeira dos tecidos afeta a saúde respiratória. Distúrbios musculoesqueléticos estão relacionados à costura e à fadiga. As oficinas são precárias, com problemas elétricos, vazamentos de água e mofo. Em relação ao parto, sentem-se mais seguras em casa. Há fragilidades no cuidado, que desconsideram dimensões culturais durante a gravidez e o puerpério |
Foram relatadas violência obstétrica (manobra de Kristeller, episiotomia, uso de fórceps; repetidos exames vaginais; dificuldades de interação com profissionais de saúde devido a barreiras culturais e linguísticas; violência institucional com expressões xenofóbicas por profissionais; racismo); violência doméstica; falta de licença-maternidade; violência financeira (roubos) nas oficinas; jornadas de trabalho exaustivas, falta de pagamento, casos de trabalho análogo à escravidão contemporânea e falta de direitos trabalhistas. Há ameaças de deportação por parte de seus empregadores. Seus filhos sofrem bullying e/ou xenofobia |
| 6. Balestro & Pereira 17 (2019) |
Mulher gambiana no Rio de Janeiro |
Discutir língua e cultura no contexto da migração feminizada |
Qualitativa − recursos audiovisuais disponíveis online (entrevistas) com uma refugiada, além do uso de dados oficiais sobre o status de refúgio |
A entrevistada descreve sua motivação para deixar seu país como resultado de seu desejo de estudar, ter uma profissão e ser independente. Há dificuldades com o idioma no Brasil e a necessidade de quebrar barreiras no acesso à educação, saúde e outros serviços públicos, especialmente nos pontos de entrada de migrantes |
A entrevistada aborda a cultura do casamento infantil em seu país, bem como as relações patriarcais que reverberam nas desigualdades de gênero, além da migração forçada e xenofobia |
| 7. Calderón Uribe et al. 18 (2021) |
Mulheres brasileiras no contexto de deslocamento interno (Porto Alegre, Rio Grande do Sul) |
Compreender as perspectivas de mulheres brasileiras deslocadas internamente, que são chefes de família, e as ações do Estado face a essa migração |
Qualitativa − estudo de caso com análise de discurso de três entrevistas com mulheres que vivenciaram o deslocamento em Porto Alegre |
O deslocamento forçado, as condições precárias de moradia, a violência estrutural e a falta de políticas públicas efetivas que atendam às necessidades de saúde das mulheres têm implicações diretas na sua saúde física e mental e na de suas famílias. A falta de um sistema de saúde integrado e acessível a essa população é uma das principais deficiências observadas no âmbito da assistência social em resposta ao deslocamento. Identificou-se um caso de mulher em situação de rua |
As mulheres entrevistadas e suas famílias enfrentaram diversas formas de violência durante seu deslocamento, além da migração forçada devido a questões ambientais. Essa violência pode se manifestar de forma física, direta, indireta e simbólica. Suas experiências e narrativas são desvalorizadas e tornam-se uma forma de violência perpetuada pela negligência e falta de reconhecimento por parte do Estado. A insegurança persistente, a urbanização excludente e as condições precárias de moradia são vistas como consequências da violência estrutural que perpetua a pobreza e exacerba a vulnerabilidade a novos deslocamentos. Há relatos de violência doméstica e morte de filhos e companheiros em decorrência do narcotráfico |
| 8. Arruda-Barbosa et al. 19 (2024) |
Mulheres venezuelanas no Estado de Roraima |
Analisar as violências perpetrada contra mulheres venezuelanas imigrantes profissionais do sexo a partir de uma análise interseccional |
Qualitativa − entrevistas com profissionais do sexo venezuelanas e reportagens da mídia online sobre o tema |
As condições precárias de saúde decorrem da vulnerabilidade social e econômica. A violência e a exploração sexual também causam sofrimento psicológico e adoecimento mental, desencadeando depressão e ansiedade. Oferecer pagamento adicional por sexo sem uso de preservativo aumenta a exposição a Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) e outros problemas de saúde. A saúde da mulher reflete diretamente a condição de migração associada às desigualdades de gênero e raciais, evidenciando a necessidade de atenção à saúde e as interfaces com essas opressões |
Violência estrutural em que o desemprego, a pobreza, a fome e a necessidade de subsistência são uma realidade para as mulheres venezuelanas, sendo a violência física a mais temida, pois são agredidas, inclusive com o uso de armas brancas por clientes, parceiros e até terceiros. Há violências de gênero e sexual (estupro), violência psicológica, violência verbal e exploração sexual, todas agravadas pela migração forçada, pobreza e opressões relacionadas a raça/etnia; violência patrimonial (roubo de dinheiro) e discriminação com baixos salários pelo fato de serem venezuelanas |
| 9. Fernandes & Onuma 20 (2024) |
Mulheres de diferentes nacionalidades no Brasil |
Identificar as violências para a implementação de políticas públicas |
Qualitativa − levantamento bibliográfico, análise documental e dados oficiais do Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) sobre pedidos de refúgio no Brasil |
Situações de estresse pós-traumático decorrentes da migração forçada e adaptação ao novo país, agravadas pela vulnerabilização socioeconômica, são desafios e impactos na saúde mental das refugiadas. As barreiras de acesso à saúde são uma realidade para muitas mulheres em situação de refúgio, refletindo a negligência dos dados estatísticos brasileiros, nos quais essas mulheres são frequentemente tratadas como um grupo homogêneo, negando a necessidade de atenção às suas especificidades e realidades plurais, bem como às diferentes intersecções possíveis de opressão |
Há relatos de discriminação, migração forçada e violência sexual, cultural e psicológica; violência relacionada à maternidade, discriminação e falta de acesso aos serviços de saúde, afetando a saúde física e emocional; separação de familiares pela falta de infraestrutura nos países de destino, além de dificuldades com a maternidade (gravidez, puerpério e cuidado com os filhos/familiares); discriminação interseccional baseada em classe social, gênero (identidade de gênero e orientação sexual), raça/etnia, capacitismo, intolerância religiosa e etarismo (contra mulheres migrantes idosas), e falta de garantias de direitos básicos, acentuando as vulnerabilizações econômicas, sociais, políticas e culturais destas mulheres |
| 10. Ferreira et al. 21 (2022) |
Mulheres migrantes colombianas, haitianas, venezuelanas e uruguaias em Foz do Iguaçu |
Compreender os impactos psicológicos da migração na vida de universitárias migrantes |
Qualitativa − descritiva e exploratória. Entrevistas com roteiros semiestruturados e formulário sociodemográfico intercultural e análise de conteúdo |
A saúde psicológica das mulheres que migram para estudar é diretamente impactada, desde o processo migratório até sua passagem pela universidade: sofrimento psicológico, estados depressivos e ansiosos, somatização, tristeza, baixa autoestima e ganho de peso. A maternidade transnacional também exacerba o sofrimento psicológico (medo, ansiedade, solidão). As universidades precisam se comprometer com políticas de equidade de gênero, acolhimento e permanência, baseadas em uma análise interseccional. O estudo também destaca a resiliência e a autonomia das mulheres que migram |
Relatos de discriminação relacionada ao espaço masculinizado de alguns cursos universitários; situações de violências de gênero e sexual desde o processo migratório até a sua permanência dentro e fora da universidade; violência estrutural, abusos e microabusos relacionados a raça, gênero, etnia, nacionalidade, cultura, idioma, entre outros; migração forçada entre mulheres venezuelanas, exploração no trabalho com baixos salários e intensas jornadas (14 horas/dia) e moradias precárias, e racismo contra uma mulher haitiana que se descobre negra no Brasil, relatando muito sofrimento, e contra uma mulher colombiana que possui ascendência indígena |
| 11. Makuch et al. 22 (2021) |
Mulheres venezuelanas no Estado de Roraima |
Analisar experiências de violências contra mulheres venezuelanas em abrigos no Estado de Roraima |
Qualitativa com grupo focal |
Face às violências sofridas, as mulheres relataram medo de seus parceiros e de serem abandonadas por eles, bem como sentimentos de culpa. Expressaram também medo de outros homens que viviam nos abrigos, particularmente em relação ao uso dos banheiros |
Relatos de violência doméstica (agressão física e verbal e ameaças psicológicas), machismo e xenofobia fora dos abrigos; violência perpetrada contra crianças pelos parceiros, cometida por mulheres que agrediram seus parceiros e outras mulheres que mantinham relacionamentos afetivos com eles; e violência patrimonial, física e verbal perpetrada por venezuelanos nos abrigos. Algumas conhecem a Lei Maria da Penha e a utilizam como estratégia de autoproteção |
| 12. Santos 38 (2019) |
Mulheres congolesas no Rio de Janeiro |
Refletir sobre o processo de refúgio e a saúde mental de mulheres congolesas |
Qualitativa − observação participante e entrevistas com refugiadas congolesas |
As mulheres vivenciam sofrimento social e más condições de vida, depressão, ansiedade, solidão e tristeza. Há uma estreita relação entre suas experiências como refugiadas e desemprego, dificuldades linguísticas e solidão, com casos de esgotamento emocional, sofrimento, cefaleias, insônia, estresse, taquicardia, fadiga, luto, sintomas depressivos e psicossomáticos agravados pela violência armada nas favelas onde vivem. A migração forçada e a perseguição política podem causar traumas, medo, sofrimento, separação familiar, desânimo, angústia e estresse. Há relatos de lentidão no atendimento à saúde. A fé e a espiritualidade são recursos utilizados para apoiá-las frente aos desafios que enfrentam |
Os relatos incluem violência doméstica; violência armada/urbana com sentimentos de medo, angústia e choro diante de assaltos e pessoas armadas; migração forçada; confrontos armados na terra natal; perseguição política; xenofobia e divisão racial no trabalho; violência sexual em confrontos armados na terra natal; racismo, inclusive nos serviços públicos de saúde, e xenofobia sofrida pelos filhos em escolas brasileiras |
| 13. Pinto & Amaral 23 (2016) |
Mulheres cubanas |
Analisar textos e reportagens sobre a mobilidade de médicas cubanas no Brasil |
Qualitativa − análise documental em sites governamentais, mídias comerciais e não comerciais sobre migração (de 2003 a 2013) |
Embora o artigo não aborde a saúde das médicas cubanas, trata indiretamente do trabalho dessas profissionais de saúde |
Relatos de racismo por parte de brasileiros ao questionarem se as médicas eram realmente médicas, expressos na mídia: “Essas médicas cubanas parecem empregadas domésticas”, ou “Elas são mesmo médicas?” |
| 14. Santos et al. 24 (2015) |
Mulheres bolivianas em São Paulo |
Identificar as características de mulheres bolivianas com gestação decorrente de estupro |
Qualitativa − estudo retrospectivo, e quantitativa − estudo documental com 38 mulheres bolivianas vítimas de violência sexual em um serviço público de aborto legal |
O desconhecimento dos serviços de saúde pública, os vínculos empregatícios informais e a migração irregular acabam impedindo o acesso das mulheres aos serviços de saúde. Os autores apontam para subnotificações de casos de violência sexual, bem como dificuldades na busca pelo aborto legal. A maioria das mulheres chegou ao hospital após encaminhamento da polícia e de outras unidades de saúde |
Ocorrência de violência sexual (estupro; 63,2% por desconhecidos), violência física e ameaças |
| 15. Serrano & Martin 25 (2022) |
Mulheres bolivianas em São Paulo |
Analisar a violência doméstica contra trabalhadoras bolivianas em oficinas domiciliares de costura |
Qualitativa - etnografia, entrevistas, observação participante e grupo focal |
As mulheres são impedidas por seus empregadores de procurar os serviços de saúde; têm pouco acesso a alimentação adequada e lhes é negada a licença-maternidade. Com relação ao acesso aos serviços, enfrentam obstáculos linguísticos e culturais, como representações do processo de saúde e cuidado que diferem daquelas da sociedade brasileira. Diante da violência doméstica, relataram sofrer de depressão, dores de estômago, vergonha, medo, estresse e hipertensão arterial |
As mulheres bolivianas vivenciam condições de trabalho precárias: jornadas superiores a 12 horas, pouco descanso e salários extremamente baixos, beirando a escravidão e a insalubridade, e sofrem racismo, classismo, machismo e xenofobia. Em relação à violência doméstica, por serem indocumentadas, sofrem com barreiras linguísticas, e o distanciamento do país de origem e a ausência de rede de apoio dificultam a busca por serviços de saúde. Algumas relatam ameaças de morte e violência financeira por parte dos parceiros |
| 16. Supimpa et al. 26 (2023) |
Mulheres venezuelanas, haitianas e tunisianas na cidade de Curitiba (Paraná) |
Descrever as experiências de migrantes durante o trabalho de parto e o nascimento em duas maternidades públicas de Curitiba |
Qualitativa − história oral temática híbrida e entrevistas semiestruturadas |
Durante o processo de trabalho de parto e nascimento, as migrantes relataram dor, medo, solidão, tristeza, medo da cesariana e desconfiança da equipe de saúde. Houve também relatos de confiança nas equipes, felicidade e sensação de terem sido bem cuidadas pela equipe de enfermagem (cuidados com o recém-nascido, amamentação, higiene, etc.). Dificuldades de comunicação entre profissionais de saúde e migrantes também foram destacadas, revelando a necessidade de um cuidado intercultural sensível |
Toques vaginais indesejados durante o parto e violência obstétrica |
| 17. Silva & Justo 27 (2020) |
Migrantes internas brasileiras (estados de São Paulo e Paraná) |
Investigar a mobilidade de mulheres que transitam de cidade em cidade no interior do estado de Mato Grosso do Sul |
Qualitativa − cartografia com entrevistas com duas mulheres |
Pessoas em situação de rua são muitas vezes vistas socialmente como doentes, longe do ideal de família nuclear. Há relatos de ansiedade e choro infantil ao relembrar situações de violências, e relatos de uso de drogas lícitas e ilícitas e medicamentos |
Mulheres migram para escapar da violência doméstica de gênero e buscar melhores condições de vida e trabalho. Uma entrevistada relatou ter sofrido violências física e emocional na infância devido à sua homossexualidade |
| 18. Souza et al. 28 (2020) |
Mulheres haitianas em diversas cidades brasileiras |
Compreender as repercussões da COVID-19 e os determinantes sociais da saúde |
Qualitativa − pesquisa-ação participativa com haitianas. Amostragem bola de neve (snowball) |
Foram relatados medo da COVID-19, escassos recursos financeiros, impacto do racismo e do preconceito na saúde mental, dificuldades e sobrecarga em conciliar o trabalho e o cuidado da família durante a pandemia, uma vez que creches e escolas fecharam, desemprego, ansiedade, preocupação, estresse, choro e falta de sono. Os serviços de saúde e o apoio social fortalecem as estratégias de enfrentamento da pandemia |
Há preconceito, racismo e discriminação no mercado de trabalho pelo fato de serem mulheres, recebendo salários inferiores aos dos homens |
| 19. Gehlen et al. 29 (2023) |
Mulheres venezuelanas no Rio Grande do Sul |
Analisar as vulnerabilidades de mulheres venezuelanas e suas experiências de violência na condição de refugiadas |
Qualitativa − entrevistas com venezuelanas residentes em um município do Rio Grande do Sul |
A saúde mental se deteriorou (síndrome do pânico, depressão, sentimentos de tristeza, vergonha, humilhação e inferioridade) e doenças se agravaram com a migração; as relações familiares (com parentes e/ou parceiros) foram rompidas, com pouca ou nenhuma rede de apoio (familiar ou governamental). Relataram satisfação com os serviços do SUS; porém, sentiram que os profissionais de saúde tinham dificuldades em atendê-las |
Xenofobia, fome, violência doméstica, racismo, machismo, violência sexual, estigmatização, classismo |
| 20. Hora 39) (2023) |
Mulheres congolesas no Rio de Janeiro |
Analisar o acesso de mulheres congolesas à atenção à saúde no Rio de Janeiro |
Qualitativa − entrevistas com gestores e profissionais da ESF e mulheres congolesas |
As congolesas afirmam que o atendimento nas clínicas da família é bom, mas identificam falta de suporte dentro do SUS (precarização do trabalho em saúde e subfinanciamento das políticas públicas no SUS). Há falta de mediação intercultural, atrasos no atendimento, assistência médica precária e demandas por planejamento familiar e pré-natal. Não há produção de dados sistematizados sobre a saúde das migrantes e há necessidade de formação profissional (educação permanente em saúde) no SUS, além da produção de materiais educativos sobre saúde para migrantes |
A violência contra mulheres migrantes é um desafio, como no caso da violência sexual, e requer acompanhamento pelos serviços de saúde mental. Há violência obstétrica, racismo institucional, violência urbana e armada no Rio de Janeiro (tiroteios e operações policiais nos territórios onde vivem) e experiências de migração forçada |
| MULHERES BRASILEIRAS NO EXTERIOR |
| 21. Barata 11 (2022) |
Mulheres brasileiras em Portugal |
Discutir experiências de racismo e violência obstétrica contra mulheres brasileiras em Portugal |
Qualitativa − entrevistas com três mulheres afro-brasileiras em Portugal, observação participante, grupos focais e criação artística participativa sobre o atendimento obstétrico |
O fato de as mulheres relatarem sofrer violência obstétrica, violências xenofóbica e racial tem implicações para a saúde sexual e reprodutiva, autoestima e qualidade de vida, especialmente durante a gravidez e o parto. Uma mulher relatou depressão pós-parto associada à violência obstétrica. Barreiras de acesso aos serviços de saúde também são relatadas |
Violência de gênero/obstétrica, manobra de Kristeller, abusos físicos e verbais, maus-tratos, objetificação do corpo, intervenções médicas não consensuais, episiotomias, procedimentos inadequados, xenofobia e racismo, hipersexualização das mulheres brasileiras e abusos verbais durante a amamentação em público foram constatados, entre outros incidentes. Além disso, era comum ouvir que as mulheres têm “úteros ruins” e são miscigenadas, o que reforça a xenofobia e o racismo |
| 22. Chedid & Hemais 30 (2022) |
Mulheres brasileiras no Norte Global |
Analisar, por meio da teoria pós-colonial de Spivak, como mulheres brasileiras no contexto do turismo no Norte Global são subjugadas por estrangeiros |
Qualitativa − estudo de caso através de 14 entrevistas com mulheres brasileiras que viajaram a turismo para o Norte Global |
O artigo não aborda diretamente os resultados específicos em saúde. Entretanto, a subordinação aliada a experiências de violências física e psicológica podem ter impactos diretos na saúde das mulheres. A discriminação e a objetificação no contexto do turismo também podem causar sofrimento emocional significativo. Em relação à violência sexual, quando assediadas por homens, sentem-se amedrontadas, chateadas, ameaçadas, culpadas e incapazes de reagir imediatamente. A autonomia e o autocuidado reduzidos podem impactar sua capacidade de buscar assistência médica em ambientes estrangeiros |
Os principais tipos de violência relatados são a psicológica e a física. A violência psicológica se expressa através de insultos e comentários sexistas e xenofóbicos, que produzem sentimentos de inferioridade. São tratadas como objetos de desejo e reforçam representações fetichizadas da nacionalidade brasileira. A violência física envolve abordagens agressivas, empurrões, toques indesejados e violência sexual, causando danos imediatos, além de medo e insegurança. Ademais, estão sujeitas ao machismo e à xenofobia |
| 23. França & Oliveira 12 (2021) |
Mulheres brasileiras em Portugal |
Analisar as resistências expressas nas redes sociais por mulheres brasileiras em Portugal contra a discriminação e o preconceito |
Qualitativa − entrevista com a coordenadora da rede social no Instagram “Brasileiras não se calam”, e análise do discurso das postagens e netnografia, sob perspectivas decoloniais e interseccionais |
A partir das postagens feitas por mulheres brasileiras na rede social analisada, os sentimentos foram de frustração, tristeza e humilhação |
Preconceito, discriminação, hipersexualização, machismo e racismo reiteram a colonialidade, ainda hoje, e seus impactos na vida das mulheres brasileiras no Norte Global, com relatos de violência simbólica, psicológica e moral, abusos verbais, assédio, e violência sexual. As mulheres brasileiras usam as redes sociais para denunciar as violências sofridas, destacando suas agências e ativismos |
| 24. Gomes 31 (2013) |
Mulheres brasileiras em Portugal |
Analisar discursos preconceituosos e discriminatórios sobre mulheres brasileiras em Portugal |
Qualitativa − observação participante, análise de discursos midiáticos e turísticos, uso de questionários e entrevistas |
O artigo não se aprofunda muito em questões de saúde. No entanto, aponta que as mulheres brasileiras são estigmatizadas como aquelas que “trazem doenças” aos portugueses, especialmente as sexuais |
Temos a hipersexualização e os discursos sobre o “corpo colonial”, que se ligam a estigmatizações como estarem sexualmente disponíveis e serem amantes de homens portugueses, assédio moral e sexual, violência física e sexual, e xenofobia. As trabalhadoras domésticas brasileiras sofrem assédio, especialmente sexual, racismo e machismo, além de atuarem em empregos precários |
| 25. Mcllwaine & Evans 32 (2023) |
Mulheres brasileiras em Londres (Inglaterra) |
Analisar as violências de gênero contra mulheres brasileiras em Londres |
Quantitativa/qualitativa - questionário, grupo focal e entrevistas com mulheres brasileiras e gestores de serviços de atendimento a migrantes |
Sentimentos de vergonha, humilhação, medo (inclusive de deportação, se indocumentadas) e isolamento. As mulheres em situação de migração irregular tiveram mais dificuldade em acessar serviços públicos, como assistência social, segurança e saúde, bem como direitos trabalhistas. Uma migrante relatou depressão devido à violência por parceiro íntimo |
Violência de gênero por parceiro íntimo, xenofobia, racismo, discriminação psicológica, física e sexual, e assédio sexual no local de trabalho. Casos de violência infraestrutural, ou seja, violência perpetrada por serviços que prestam atendimento a mulheres em situação de violência. A exploração das mulheres pela sociedade, o fato de estarem fora de seu país de origem e a violência estrutural são fatores que influenciam a decisão de manter relacionamentos com parceiros íntimos |
| 26. Pelúcio 33 (2023) |
Mulheres brasileiras no Japão, França, Irlanda, Itália, Canadá, Estados Unidos, Senegal, Inglaterra, Dinamarca, Noruega e Alemanha |
Analisar as narrativas de mulheres brasileiras no exterior por meio do podcast Femigrantes BR |
Qualitativa - análise de mídia social (podcast) sob a perspectiva dos feminismos negros |
Um dos podcasts foi sobre saúde e interseccionalidade; no entanto, o artigo mal aborda esse tópico |
Racismo, colonialidades do saber e do poder, machismo, sexismo, misoginia e mulheres brasileiras hipersexualizadas foram relatados. As mulheres negras veem sua trajetória educacional como uma das estratégias de enfrentamento às opressões do racismo |