Open-access A língua do tradutor e os intraduzíveis de Benveniste: as Dernières leçons no Brasil

The translator’s language and Benveniste’s untranslatables: Dernières leçons in Brazil

Resumo

Este artigo busca refletir sobre a tradução brasileira da obra Dernières leçons [Últimas aulas], do linguista Émile Benveniste, a partir da noção de “intraduzíveis”, elaborada por Barbara Cassin, em articulação com a ideia proposta pelo próprio Benveniste, apresentada em um artigo de 1958, intitulado “Categorias de pensamento e categorias de língua”, de que a análise de uma língua – e incluímos aí a tradução dessa língua – não exclui que esse tipo de estudo (a tradução) leve em conta a língua de quem produz a análise (ou a tradução). Desse conjunto de ideias, propõe-se que o tradutor, entendido como falante de uma língua, tem papel constitutivo do processo de tradução. A ideia, também, é ver em que medida a transmissão operada pela tradução do texto de Benveniste para a língua portuguesa interfere no pensamento transmitido. Por fim, analisam-se algumas particularidades da tradução brasileira da obra de Benveniste à luz do referencial construído.

Palavras-chave
tradutor; intraduzíveis; Émile Benveniste; línguas; processo de tradução

Abstract

This article reflects on the Brazilian translation of the work Dernières leçons [Últimas aulas in Portuguese; Last lectures in English], by linguist Émile Benveniste, based on the notion of “untranslatables”, developed by Barbara Cassin, articulated with the idea proposed by Benveniste himself, included in the 1958 article titled “Categories of thought and language”, that the analysis of a language – and we include the translation of that language into that concept – does not factor out the fact that this type of study (translation) takes into account the language of those carrying out the analysis (or translation). Based on this set of ideas, we propose that the translator, conceived as a speaker of a language, plays a fundamental role in the translation process. The article also aims to understand to what extent the transmission produced by the translation of Benveniste’s work into Portuguese interferes with the transmitted thought. Finally, some particularities of the Brazilian translation of Benveniste’s work are analyzed in view of the theoretical framework herein.

Keywords
translator; untranslatables; Émile Benveniste; languages; translation process

1. Introdução

As Dernières leçons [Últimas aulas] de Benveniste, publicadas na França em 2012, foram traduzidas e publicadas no Brasil em 2014. Trata-se de um acontecimento importante para a linguística brasileira, e isso, ao menos, por dois motivos: de um lado, o fato de a tradução ter se dado apenas dois anos após seu aparecimento na França demonstra a vitalidade e a atualidade desse pensamento, além do interesse pelo autor no cenário brasileiro. Há, hoje em dia, sólida pesquisa no Brasil em torno de Benveniste. Nesse sentido, a tradução é bem-vinda e, diríamos mesmo, esperada. De outro lado, a tradução possibilita maior circulação das ideias benvenistianas em comunidades científicas que não são de língua francesa. No caso do Brasil, as Últimas aulas (Benveniste, 2014) vêm se juntar aos já traduzidos Problèmes de linguistique générale I1 e II2 e Vocabulaire des institutions indo-européennes I e II3, compondo um conjunto importante de obras de Benveniste em língua portuguesa.

Considerada essa situação, dedicamos, a seguir, atenção especificamente à tradução brasileira das Últimas aulas – trabalho esse que coordenamos, juntamente com uma equipe de experimentados tradutores4 –, enfatizando, inicialmente, um aspecto: busca-se saber em que medida a transmissão operada pela tradução do texto de Benveniste para a língua portuguesa interfere no pensamento transmitido. Em outras palavras, parte-se da ideia – uma espécie de primeira hipótese – de que a chamada “língua de chegada”, em função de sua configuração específica, influencia o pensamento que traduz, o que implica dizer que Benveniste em português não é absolutamente sinônimo de Benveniste em francês ou mesmo em qualquer outra língua.

Essa hipótese está, em primeiro lugar, fortemente ancorada na reflexão iniciada pela filósofa Barbara Cassin (2004), em seu Vocabulaire Européen des Philosophies: Dictionnaire des intradusibles [Dicionário dos intraduzíveis: um vocabulário das filosofias], cujo subtítulo, “Dictionnaire des intraduisibles”, introduz, de maneira absolutamente autoral, a noção de intraduzível como o que resiste à equivalência óbvia entre as línguas, mas que não deixa de se inscrever na ordem dos saberes na chamada “língua de chegada”. Cassin capitaneia a elaboração de uma ideia bastante importante para tratar da tradução, segundo a qual “a universalidade dos conceitos é inteiramente absorvida na singularidade linguística” (Cassin, 2018, p. 20); quer dizer, traduzir uma palavra, um termo teórico, uma formulação linguística, concebidos no interior do pensamento de um autor, exige de quem o faz o entendimento de que essas formulações receberão alguma particularidade da língua para qual são traduzidas.

Em segundo lugar, estamos ancorados na reflexão do próprio Benveniste que, embora não seja propriamente reconhecido como um “teórico” da tradução, nunca ignorou o que as diferenças entre as línguas formulam de especificidade à linguística5. Diz ele:

Que [...] seja possível grosso modo ‘dizer a mesma coisa’ tanto em uma como em outra categoria de idiomas é a prova, ao mesmo tempo, da independência relativa do pensamento e de sua estreita modelagem na estrutura linguística. Que se reflita de perto sobre esse fato notável parece-nos esclarecer a articulação teórica que nós nos esforçamos para destacar. Podemos transpor o semantismo de uma língua naquele de uma outra, ‘salva veritate’; é a possibilidade da tradução; mas não podemos transpor o semiotismo de uma língua no de uma outra, é a impossibilidade da tradução. Tocamos, aqui, a diferença do semiótico e do semântico6

(Benveniste, 1974, p. 228, tradução nossa).

Em outras palavras, a tradução permite a Benveniste “tocar” a diferença entre o semiótico – o sistema de signos de uma língua – e o semântico – o discurso. Não é pequeno, portanto, o papel da tradução na reflexão do autor, uma vez que a distinção semiótico/semântico, como se sabe, é estruturante da linguística benvenistiana.

Além disso, Benveniste diz algo que é de especial interesse para nosso trabalho aqui:

Que a tradução permaneça possível como um processo global também é uma constatação essencial. Esse fato revela a possibilidade que temos de nos elevarmos acima da língua, de nos abstrairmos dela, contemplá-la, ao mesmo tempo em que a utilizamos em nossos raciocínios e observações7

(Benveniste, 1974, p. 228−229, tradução nossa).

Bem entendido, Benveniste dá destaque ao fato de que traduzimos sem deixar de ser falantes, já que “utilizamos” a língua “em nossos raciocínios” sobre a língua, o que certamente inclui a tradução. Ou seja, o tradutor também é um falante8.

Além dessas ideias de Benveniste – que já seriam bastante produtivas –, o linguista é chamado a contribuir em nossa discussão principalmente com o artigo “Categorias de pensamento e categorias de língua” (doravante, “Categorias”), texto que, a despeito de sua pouca referência na atualidade, tem muito a contribuir para a discussão em torno da tradução. A partir desse texto, buscamos dar relevo a uma segunda hipótese, derivada da anterior: a de que a(s) língua(s) materna(s) do tradutor têm papel determinante no processo da tradução desde que reconheçamos que a tradução é a escrita de uma leitura-escrita, para usar uma expressão de Meschonnic (1973).

Meschonnic rechaça, por princípio, a distinção clássica entre texto original e texto traduzido para defender que “se a tradução de um texto é estruturalmente concebida como um texto, ela funciona como texto, ela é a escrita de uma leitura-escrita, aventura histórica de um sujeito. Ela não é transparente em relação ao original9” (Meschonnic, 1973, p. 307, tradução nossa). Isso o leva a recusar a distinção “pró-fonte”/“pró-alvo”10:

A tradução não é mais definida como transporte de um texto de partida para a literatura de chegada ou, inversamente, transporte do leitor de chegada para o texto de partida (movimento duplo, que repousa no dualismo do sentido e da forma, que caracteriza empiricamente a maior parte das traduções), mas como trabalho na língua, descentramento, relação interpoética entre valor e significação, estruturação de um sujeito e história (que postulados formais mantinham separados) e não mais sentido11

(Meschonnic, 1973, p. 313−314, grifo do autor, tradução nossa).

A ideia de Meschonnic da tradução como “escrita de uma leitura-escrita” nos permite introduzir um elemento na discussão já bastante desenvolvida no campo da tradução a respeito da distinção pró-fonte/pró-alvo. Nós o formulamos da seguinte maneira: a tradução pode ser vista como “escrita de uma leitura-escrita” exatamente porque, nesse processo, estão implicados o tradutor e sua(s) língua(s). Quer dizer, antes de haver uma língua (um texto, uma cultura etc.) de partida e uma língua (um texto, uma cultura etc.) de chegada, há a(s) língua(s) do tradutor a partir da(s) qual(is) ele lê.

Essa ideia de abordar o papel da(s) língua(s) materna(s) do tradutor no processo de tradução se nos apresentou a partir da leitura de “Categorias”, artigo seminal de Benveniste.

Gostaríamos, enfim, de avaliar os efeitos que teria para uma reflexão sobre tradução supor que o tradutor, para traduzir, lê a partir de sua(s) línguas(s) materna(s), o que levaria a considerar que o tradutor – antes de tomar uma língua/uma cultura/um texto/etc. como sendo o ponto a partir do qual dá início ao processo tradutório – parte de sua(s) língua(s) materna(s). Nessa direção, uma teoria da tradução não estaria desvinculada de uma discussão sobre língua materna, o que determinaria uma balizagem específica a respeito inclusive da, muitas vezes criticada, prática da versão, normalmente entendida como uma atividade de passagem de um texto escrito na língua materna do tradutor para uma língua estrangeira (Hoff & Flores, 2015, p. 181).

Em resumo, este artigo busca desenvolver as duas hipóteses acima formuladas e faz isso a partir da análise da tradução brasileira das Últimas aulas no Collège de France (1969 e 1969) (Benveniste, 2014). Em função disso, está assim organizado: inicialmente, apresentamos o quadro teórico mobilizado, que parte das ideias de Benveniste em “Categorias”, e vamos à noção de “intraduzível”, formulada por Barbara Cassin (2004, 2018); dessas duas discussões, passamos a tratar o papel da(s) língua(s) materna(s) do tradutor no processo de tradução; em seguida, procedemos ao estudo de aspectos sintáticos, lexicais e semânticos envolvidos na tradução das Últimas aulas em português, como forma de ilustrar o que foi trabalhado até então; finalmente, são feitas considerações conclusivas.

2. Formulando dois pontos de vista (por um caminho sinuoso)

Em 1958, Émile Benveniste publicou “Categorias”, texto que busca avaliar as relações entre a língua e o pensamento. Os termos pelos quais Benveniste formula seus argumentos mostram que se trata de um texto suficientemente complexo para não se deixar facilmente apreender em poucas palavras. Por isso, não pretendemos retomá-lo na íntegra aqui12. Nosso interesse é mais modesto e diz respeito a apenas um aspecto da recepção do artigo de Benveniste: a abertura para o campo da tradução.

Esse texto, desde sua divulgação13 até os dias atuais, tem sido objeto de intensos debates, discussões acaloradas e até mesmo mal-entendidos. Inicialmente publicado em uma revista voltada a filósofos e posteriormente republicado no primeiro volume dos Problèmes de linguistique générale, em 1966, provocou controvérsias, principalmente entre os filósofos. No entanto, foi reconhecido por intelectuais ligados ao campo da tradução.

Na filosofia, Jacques Derrida (1971) causou controvérsia ao publicar, na revista Langages, um artigo crítico ao texto de Benveniste, e isso numa edição da Langages que homenageia o linguista, coordenada por Julia Kristeva. Sua crítica severa às ideias de Benveniste parece derivar de uma incompreensão dos argumentos do linguista, focando mais no questionamento do uso da obra de Aristóteles no texto do que na avaliação precisa de seu raciocínio. A presença desse texto de Derrida em uma revista destinada a homenagear Benveniste é curiosa, já que o texto do filósofo não homenageia o linguista; ele apenas o critica. Além de Derrida, há outros: Pierre Aubenque (1965) e Jules Vuillemin (1967) também se opõem ao pensamento de Benveniste14.

Em contraste com a controvérsia entre os filósofos, destaca-se a constante referência ao trabalho de Benveniste nos chamados “estudos da tradução”. Georges Mounin (1975, p. 54−56, 203), George Steiner (2002, p. 135) e Oustinoff (2011, p. 20), entre outros, utilizam o texto para fundamentar suas pesquisas sobre a diversidade das línguas em interação com o pensamento e a realidade.

Ora, por que os estudos do campo da tradução são mais receptivos à problemática colocada por Benveniste do que os do campo da filosofia? Isso equivale a indagar: o que o olhar da tradução – naturalmente atento à diversidade das línguas – vê no artigo de Benveniste que não parece ser visível aos olhos da filosofia? Cremos que é possível arriscar respostas a tais questões desde que se preste atenção a um conjunto de afirmações que Benveniste faz para fundamentar seu raciocínio.

Como se sabe, Benveniste aborda a relação entre pensamento e língua valendo-se das Categorias aristotélicas – “um documento de grande valor” (Benveniste, 1988, p. 71) –, que são tratadas “sem preocupação de tecnicidade filosófica, simplesmente como o inventário das propriedades que um pensador grego julgava predicáveis a um objeto, e consequentemente como a lista dos conceitos a priori que, segundo ele, organizam a experiência” (Benveniste, 1988, p. 70−71, grifo do autor). Com base em sua análise, Benveniste conclui: “é o que se pode dizer que delimita e organiza o que se pode pensar. A língua fornece a configuração fundamental das propriedades reconhecidas nas coisas pelo espírito” (Benveniste, 1988, p. 76, grifo do autor).

Essa complexa conclusão é seguida, no artigo de Benveniste, por uma reflexão sobre a noção de “ser” em grego, a qual envolve tudo: “sem ser ele mesmo um predicado, o ‘ser’ é a condição de todos os predicados. Todas as modalidades do ‘ser-tal’, do ‘estado’, todas as ideias possíveis do ‘tempo’, etc. dependem da noção de ‘ser’” (Benveniste, 1988, p. 76). E, após inventariar uma série de empregos do “ser” em grego, Benveniste conclui:

Sublinhemo-lo, pois é numa situação linguística assim caracterizada que pôde nascer e desdobrar-se toda a metafísica grega do “ser”, as magníficas imagens do poema de Parmênides e a dialética do Sofista. A língua não orientou evidentemente a definição metafísica do “ser” – cada pensador grego tem a sua –, mas permitiu fazer do “ser” uma noção objetivável que a reflexão filosófica podia manejar, analisar, situar como qualquer outro conceito

(Benveniste, 1988, p. 77, grifo do autor).

A tese é forte e, para comprová-la, Benveniste contrapõe o valor do verbo “ser” em grego – e em boa parte das línguas indo-europeias – à distribuição que tem na língua ewe, falada no Togo. Trata-se de uma contraposição que serve para o linguista afirmar que o a noção de “ser” corresponde aproximadamente a cinco verbos em ewe15. O linguista assim procede, ressalvando que sua demonstração se dá a partir do exterior do ewe, quer dizer, a descrição das cinco possibilidades presentes em ewe é feita “pelo prisma da nossa língua e não, como deveria, nos quadros da própria língua” (Benveniste, 1988, p. 79, grifo do autor). Ora, “no interior da morfologia ou da sintaxe ewe, nada aproxima esses cinco verbos entre eles. É com relação aos nossos próprios usos linguísticos que lhes descobrimos qualquer coisa em comum” (Benveniste, 1988, p. 79, grifo do autor). Segundo Benveniste (1988, p. 79), trata-se de uma análise “egocentrista”, que esclarece melhor o próprio grego na medida em que coloca luzes sobre um fato que é próprio das línguas indo-europeias e não uma situação universal16. E conclui:

Tudo o que se quer mostrar aqui é que a estrutura linguística do grego predispunha a noção de “ser” a uma vocação filosófica. Ao contrário, a língua ewe oferece-nos apenas uma noção estreita dos empregos particularizados. Não saberíamos dizer que lugar ocupa o “ser” na metafísica ewe. Mas a priori a noção deve articular-se de maneira inteiramente diferente

(Benveniste, 1988, p. 79, grifos do autor).

Do longo comentário que esse raciocínio de Benveniste mereceria, detemo-nos apenas em dois pontos. O primeiro ponto: há a(s) língua(s) do tradutor.

Se Benveniste tem razão em sua análise “egocentrista”, se realmente os cinco verbos da língua ewe apenas são aproximados entre si a partir de um olhar “externo” à língua ewe, então poderíamos dizer, como consequência desse raciocínio, que sempre se faz uma “análise egocêntrica” na tradução, e isso graças à convocação de um elemento fundamental: o tradutor.

Ora, o artigo de Benveniste permite ver que o tradutor, em sua prática, traduz um texto que é formulado em uma língua que não coincide com a sua própria língua. Ou ainda, para usar os termos do campo da tradução: a “língua de partida” é sempre a língua do tradutor, que não coincide, necessariamente, com a “língua do texto de partida”. Em outros termos: a “língua de partida” (a do tradutor) é diferente da “língua do texto de partida”. E é sempre a “língua de partida do tradutor” que se encontra no “texto de chegada”.

Vale repetir: a “língua de partida” no processo de tradução é a “língua do tradutor” e não a “língua do texto de partida”. A distinção entre “língua de partida do tradutor” e “língua do texto de partida” é fundamental para o entendimento do que propomos.

Admitida essa derivação das ideias de Benveniste que fazemos, o falante (no caso, o tradutor) passa a ter importância central no processo, uma vez que a determinação de equivalências e diferenças está ligada à sua atividade (de falante, de tradutor). Sobre isso, questionamos: essa análise “egocêntrica” não seria a única facultada ao tradutor quando opera sua “escrita de uma leitura-escrita” no processo tradutório? Haveria outra possibilidade para o tradutor? Poderia ele “despir-se” de sua(s) língua(s) materna(s) para escrever a sua leitura de uma escrita quando traduz? Em suma, não podemos ignorar o lugar da(s) língua(s) materna(s) do tradutor no processo de tradução.

O segundo ponto: conceitos e noções recebem especificidade em função da língua na qual são formulados, o que, para nós, conduz a pensar na noção de “intraduzíveis”, de Cassin (2018).

Para Benveniste, a noção metafísica de “ser” articula-se de maneira específica em ewe, o que implica dizer, generalizando, que cada língua, de certa maneira, possibilita (ou não) uma determinada formulação de “ser”. Com isso, Benveniste não está defendendo que exista algum determinismo linguístico sobre a ontologia; seu argumento é estritamente linguístico. Para ele, a noção filosófica de “ser” – que pode tão bem ser expressa em grego –, quando expressa na língua ewe, receberia uma particularidade advinda das especificidades dessa língua. Não se trata nem de oposição entre línguas, nem de hierarquia; trata-se apenas de reconhecimento das diferenças e de seu valor. No final do artigo, essa tese se esclarece:

Sem dúvida, não é fortuito o fato de que a epistemologia moderna não tente constituir uma tábua das categorias. É mais produtivo conceber o espírito como virtualidade que como quadro, como dinamismo que como estrutura. É inegável que, submetido às exigências dos métodos científicos, o pensamento adota em toda parte os mesmos meios em qualquer língua que escolha para descrever a experiência. Nesse sentido, torna-se independente, não da língua, mas das estruturas linguísticas particulares. O pensamento chinês pode muito bem haver inventado categorias tão especificas como o tao, o yin e o yan: nem por isso é menos capaz de assimilar os conceitos da dialética materialista ou da mecânica quântica sem que a estrutura da língua chinesa a isso se oponha. Nenhum tipo de língua pode por si mesmo e por si só favorecer ou impedir a atividade do espírito. O voo do pensamento liga-se muito mais estreitamente às capacidades dos homens, às condições gerais da cultura, à organização da sociedade que à natureza particular da língua. A possibilidade do pensamento liga-se à faculdade de linguagem, pois a língua é uma estrutura enformada de significação e pensar é manejar os símbolos da língua

(Benveniste, 1988, p. 79−80, grifos do autor).

A citação, embora longa, é essencial para evidenciar um argumento subjacente. Benveniste destaca que os meios do pensamento, especialmente quando sujeitos a métodos científicos, se repetem (são os mesmos), independentemente das estruturas linguísticas específicas. Isso leva Benveniste a sugerir que, em certo sentido, o pensamento é independente das línguas, embora não seja independente da língua. A relação línguas/língua tem valor teórico.

Ora, Benveniste, na passagem acima, dá relevo aos “mesmos meios”, presentes em “qualquer língua”, que possibilitam a descrição da experiência. E que meios são esses? A resposta parece ser: “a possibilidade do pensamento liga-se à faculdade de linguagem”, definida como “a mais alta forma de uma faculdade que é inerente à condição humana, a faculdade de simbolizar” (Benveniste, 1988, p. 27, grifo do autor). Assim, pode-se entender que os meios pelos quais o pensamento descreve a experiência, independentemente do idioma, são os meios simbólicos.

Dessa maneira, embora as operações do pensamento recebam “expressão na língua”, a língua não limita essa expressão. O mesmo chinês que concebeu o tao pode compreender a dialética materialista e, igualmente, estar familiarizado com a metafísica do “ser”. Isso implica que o ser humano, como um animal simbólico, está constantemente influenciado pelas línguas, visto que nas línguas opera a função simbólica da linguagem. De acordo com Benveniste, é possível expressar a dialética materialista – ou qualquer outra ideia – em qualquer língua, mas é crucial considerar como isso deve ser feito em uma língua específica e até mesmo em cada uma delas.

Agora parece mais fácil entender por que os estudos do campo da tradução prestam atenção nesse trabalho de Benveniste. O fato é que seu raciocínio dá voz à experiência que todo o tradutor tem, quando no exercício de sua atividade, aqui enfocados os casos de tradução de textos teóricos. A tradução evidencia que algo de uma suposta universalidade dos conceitos encontra resistência na diversidade das línguas. A tradução opera transformações nos conceitos, em função das diferenças entre as línguas. Isso está muito claro no raciocínio de Benveniste em “Categorias”.

Ora, foi preciso esperar quase 50 anos para ver a tradução e a filosofia juntas sob a égide de Benveniste. Estamos falando de 2004, ano em que é publicada, sob a direção da filósofa Barbara Cassin, aquela que viria a ser uma das obras mais instigantes do início do século XXI, no âmbito das ciências humanas: o Vocabulaire européen des philosophies: Dictionnaire des intraduisibles (doravante Vocabulaire). Tudo nessa obra convida à reflexão: seu título, seu vanguardismo, seu respeito à diversidade e às diferenças são apenas as maiores evidências.

Barbara Cassin promove uma verdadeira rediscussão em torno da problemática do universal e da tradução e de suas implicações. Trata-se de uma obra que, para além do alcance filosófico, tem forte alcance ético-político. Há, no Vocabulaire, o reconhecimento da incontornável diversidade das línguas, uma em relação à outra e mesmo no interior de cada língua.

Na “Apresentação”17 que faz ao Vocabulaire, Barbara Cassin deixa muito clara sua posição em torno da tradução e do papel que tem na contemporaneidade, na promoção do diálogo entre as culturas. É preciso escolher entre duas opções: ou “escolher uma língua dominante, na qual serão feitas a partir de então as trocas – um anglo-americano globalizado” ou então “apostar na manutenção da pluralidade, tornando manifestos a cada vez o sentido e o interesse das diferenças, única maneira de facilitar realmente a comunicação entre as línguas e as culturas” (Cassin, 2018, p. 16). Segundo Cassin (2018, p. 16), o Vocabulaire, ao assumir a segunda ótica, olha em direção ao futuro – para uma Europa “em atividade” (uma energeia) e não vista como um produto (érgon), nos termos de Humboldt. Quanto a isso, observe-se a palavra “européen”, no título da obra, que traz à luz a diversidade da Europa – não raras vezes marcada pelo eurocentrismo –, o que já explicita a pluralidade cultural que a constitui.

A filósofa lembra ainda que, na “Introdução” feita por Humboldt à tradução do Agamêmnon18 de Ésquilo – considerada pelo próprio Humboldt como uma obra “intraduzível” –, há a sugestão de elaboração de uma obra que estude a “sinonímia das línguas” e leve em conta o fato de que “cada língua expressa o conceito com alguma diferença” (Cassin, 2018, p. 20).

Para a autora, quando falamos em “intraduzível” não queremos dizer, com isso, que

Os termos em questão, os expedientes sintáticos e gramaticais, não sejam traduzidos e não possam sê-lo – o intraduzível é antes o que se não cessa de (não) traduzir. Mas isso assinala que a sua tradução, em uma língua ou em outra, causa problema, a ponto de suscitar às vezes um neologismo ou a imposição de um novo sentido para uma velha palavra: é um indício da maneira como, de uma língua à outra, tanto as palavras quanto as redes conceituais não podem ser sobrepostas – com “mind”, acaso compreende-se a mesma coisa que com “Geist” ou com “esprit”? Com “pravda”, trata-se de “justiça” ou “verdade”? E o que se passa quando vertemos “mímesis” por “representação” em vez de “imitação”?

(Cassin, 2018, p. 17, grifos da autora).

Como se pode ver, longe de formular uma metafisica da impossibilidade, o conceito de intraduzível dá lugar ao plural, ou, como Cassin dirá em outro livro, Elogio da tradução: “os intraduzíveis são sintomas, semânticos e/ou sintáticos, da diferença das línguas” (Cassin, 2022, p. 24).

Na apresentação à edição brasileira do primeiro volume do Vocabulaire, Santoro e Buarque (2018, p. 5) explicam: “o intraduzível é precisamente aquilo que se traduz de muitas maneiras distintas, revelando em cada tradução a diferença entre as línguas e operando, assim, uma transformação no próprio conceito filosófico”. Ou seja, o intraduzível convoca a tradução, o que é feito de várias maneiras e mostra o quanto a diferença entre as línguas opera na formulação/reformulação de um conceito. Trata-se, portanto, de uma noção que permite rever não apenas o lugar da tradução em filosofia, mas a própria ideia de tradução e de sua prática. Enfim, explicam os autores brasileiros sobre o intraduzível:

É uma noção que recusa tanto a sinonímia e a transparência quanto a surdez entre as línguas; uma definição que desobedece ao princípio de não contradição, deliberadamente construída de forma paradoxal, em acordo com o caráter atópico do próprio intraduzível. Assim, procura-se evidenciar a aliança indissociável entre a língua e pensamento a partir da diversidade de línguas e de filosofias

(Santoro & Buarque, 2018, p. 5).

E como Benveniste comparece nessa discussão em torno dos intraduzíveis? Embora Barbara Cassin não refira, na “Apresentação” do Vocabulaire19, diretamente, “Categorias” – texto base para nosso raciocínio aqui – ela se confessa devedora da herança de Benveniste e dos seus estudos sobre as línguas europeias, com relação, em especial, à enunciação de variantes lexicais nas línguas. Diz ela, ainda na “Apresentação” do Vocabulaire:

O Vocabulário das instituições indo-europeias, de Émile Benveniste, é a obra, pluralista e comparatista, que nos serviu de modelo: para encontrar o sentido de uma palavra em uma língua, ele atualiza as redes nas quais ela se insere e procura compreender como uma rede funciona em uma língua relacionando-a às redes de outras línguas

(Cassin, 2018, p. 16, grifo da autora).

Nesse ponto, vemos um contato importante de nosso raciocínio com a perspectiva de Barbara Cassin, uma vez que a centralidade do falante (o tradutor), nessa proposta que fazemos, dá relevo aos aspectos éticos e políticos implicados nas equivalências e diferenças das línguas dos quais a tradução se faz porta-voz. Cremos que Benveniste, a partir do que está exposto em “Categorias”, possibilita dizer que há intraduzíveis porque, entre outros motivos, a língua de partida, além de ser uma língua diferente daquela em que o texto a ser traduzido está formulado, é a língua do tradutor.

O exemplo de nosso raciocínio vem, novamente, de Benveniste. Em um artigo de 1956, “As relações de tempo no verbo francês” – no qual busca apresentar dois planos de enunciação, o plano histórico e o plano de discurso –, Benveniste busca apoio nos textos traduzidos, que ele considera “testemunhos [...] que nos informam sobre as equivalências espontâneas que um autor encontra para fazer passar uma narrativa escrita numa outra língua para o sistema temporal que convém ao francês” (Benveniste, 1988, p. 269). E, em nota de rodapé, explica detalhadamente:

Para citar dois exemplos de traduções recentes, o tradutor da novela de Ernest Hemingway intitulada La grande rivière au coeur double (na coletânea The Fifth Column and the forty-nine first stories, em francês Paradis perdu, Paris, 1949) empregou continuamente o aoristo ao longo de quarenta páginas (com o imperfeito e o mais-que-perfeito). Salvo por duas ou três frases de monólogo interior, a narrativa toda, em francês, está disposta nessa relação temporal, porque nenhuma outra era possível. Igualmente, a versão francesa de Heyerdahl, L’expédition du Kon-Tiki, apresenta exclusivamente no aoristo, em capítulos inteiros, a maioria da narrativa

(Benveniste, 1988, p. 269, grifos do autor).

Ora, o aoristo é o que “convém ao francês” na tradução da narrativa. Alguém duvida de que o tradutor partiu de sua língua para traduzir Hemingway? Ainda mais: alguém duvida de que o tradutor está aí na sua condição de falante?

Isso posto, consideramos reunidos os argumentos que permitirão, a seguir, abordar a tradução das Dernières leçons de Benveniste no Brasil. Nesse sentido, gostaríamos de, a seguir, investigar como a tradução das Dernières leçons permite falar de “um Benveniste em português”, ideia que sintetiza o desenvolvimento de nossas duas hipóteses antes apresentadas.

Ou, em termos de pergunta: como os conceitos que tornaram Benveniste célebre são acolhidos no português? Há equivalência de termos? Como o tradutor operou nesse processo? O modo de dizer a teoria de Benveniste em português equivale ao modo como ela se apresenta em sua língua de origem (o francês)?

Nosso interesse é ver onde e como a tradução das Dernières leçons – no caso, a feita no Brasil – evidencia que algo da universalidade do pensamento teórico de Benveniste encontra resistência na língua – no caso, a portuguesa.

Evidentemente, não se trata de buscar “corrigir” o já feito, ou mesmo normatizar sobre como deveria ser feito, mas ver como, na transmissão constitutiva de toda a operação de tradução, se produzem novas possibilidade conceituais para os conceitos. Em última instância, buscamos lançar alguma luz sobre a teoria de Benveniste de um ponto de vista que busca ver a influência que a língua portuguesa e o tradutor falante de português têm na compreensão de seu pensamento. Em forma de indagação: que fatos novos sobre Benveniste decorrem da sua tradução para o português?

3. A tradução das Últimas aulas no Brasil

Partimos do que diz Barbara Cassin a respeito da tradução em filosofia: “o ponto de partida é uma reflexão sobre a dificuldade de traduzir em filosofia. Nós quisemos pensar a filosofia em línguas, tratar as filosofias como elas se dizem, e ver o que isso muda em nossas maneiras de filosofar” (Cassin, 2018, p. 16). Nesse sentido, também queremos pensar a linguística, no caso a de Benveniste, em línguas, como ela se diz, para, então, observar mudanças operadas pela tradução de sua obra.

Para tanto, o estudo, a seguir, divide-se em dois momentos: em primeiro lugar, abordamos a tradução brasileira das Dernières leçons, a partir de uma característica definidora da língua portuguesa, qual seja, a diferença ser/estar, marca do português e de outras línguas ibéricas, como o espanhol. Com base nessa diferença – também tratada no Vocabulaire –, pretendemos dar atenção ao que Cassin reputa como da ordem dos “intraduzíveis”. Nesse primeiro momento, a ideia é ver em que termos Benveniste se apresenta em português, tendo em vista um dos traços mais específicos dessa língua. Ou ainda, nas palavras de Cassin: a ideia é ver “o que pode um pensamento dentro do que pode uma língua” (Cassin, 2018, p. 17).

Em segundo lugar, estuda-se um recurso sintático-lexical, objeto de reflexão de todos os que se interessam por Benveniste: trata-se da expressão “informée” na frase “Elle [la langue] est informée de signifiance” [com variação para signification] (Benveniste, 2012, p. 60), traduzida em português como “Ela [a língua] é informada de significância” [com variação para significação] (Benveniste, 2014, p. 90). Esse uso de “informée” é bastante conhecido dos estudiosos de Benveniste e é tema de reflexão de Claudine Normand (2009) – uma das grandes leitoras de Benveniste na França – exatamente em um contexto em que a tradução se impõe. Diz a autora a respeito da mesma expressão, em uma frase de Benveniste bastante semelhante à encontrada nas Últimas aulas, “seu [dos linguistas] objeto, a língua, é informado de significação20” (Benveniste, 1966, p 12):

À primeira leitura, essa frase parece (parecera-me, em todo caso) luminosa: ela resume perfeitamente a tese saussuriana da ligação significante/significado, ao mesmo tempo que se impõe descrever essa ligação. Porém, tendo de traduzir essa frase para o inglês, detive-me nesse emprego de ‘informado’. É possível glosar informado de significação remetendo à ligação saussuriana, mas se perde o efeito de evidência produzido pela formulação de Benveniste. Esse efeito deve-se ao emprego de informar, que aqui passa do registro banal da comunicação a outro registro bem diferente

(Normand, 2009, p. 104, grifos da autora).

Distribuídas nesses dois momentos, as considerações adiante coadunam, de certa forma, com a maneira como o Vocabulaire estaria organizado, desta vez na versão em português do Brasil: dois volumes, em que o primeiro é dedicado às “línguas” e suas particularidades e o segundo dedicado às “palavras”.

3.1 Ser/estar nas Últimas aulas

A versão brasileira do Vocabulaire, o Dicionário dos intraduzíveis, no verbete “Línguas Ibéricas”, considera que é possível ver ao menos dois usos distintos dos verbos ser/estar: um uso “absoluto” (em que há uma predicação independente) e um uso “copulativo” (em que há ligação entre o sujeito e o predicado) (Motta & Santoro, 2018, p. 217−232).

A pesquisa em outras fontes, como, por exemplo, o Dicionário gramatical de verbos do português contemporâneo do Brasil (Borba, 1991), permite compreender que, para estar, no uso absoluto, há o valor locativo temporal (“o hospital está em final de construção”) e o valor espacial (“a cidade está situada atrás do rio”). Para o verbo ser, também no uso absoluto, mais raro em português, há o valor de “existir” (“Deus é”). O uso absoluto, segundo o Dicionário dos intraduzíveis, não apresenta grandes dificuldades em casos de tradução.

O mesmo, porém, não ocorre com os usos copulativos: “a economia e a precisão inerentes a esse uso não são facilmente transferíveis para línguas que não têm o par” (Motta & Santoro, 2018, p. 218). Quanto a isso, o Dicionário dos intraduzíveis chama a atenção para o fato de que, geralmente, se explica a diferença entre ser e estar, no copulativo, em português, a partir da oposição essencial/ acidental. É assim que procede também Borba (1991), em seu Dicionário gramatical de verbos do português contemporâneo do Brasil: “SER - compõe predicado estativo de inerência, ou seja, o predicativo se refere ao sujeito como um dos seus traços essenciais” (Borba, 1991, p. 1231). Ou ainda: “ESTAR - compõe predicado estativo de transitoriedade, ou seja, o predicativo se refere ao sujeito como algo não essencial e passageiro” (Borba, 1991, p. 702).

Em linhas gerais, portanto, o par ser/estar, no uso copulativo, coloca em relação o sujeito com o predicado, reservando, para o primeiro (ser), o essencial, o habitual, o classificatório, o regular e, para o segundo (estar), o acidental, o casual, o pontual, o esporádico. Dizemos “a fruta é (ser) verde” para indicar uma característica permanente da fruta, no entanto, dizemos “a fruta está (estar) verde” para indicar um estado transitório da fruta.

No entanto, a diferença ser/estar, colocada em termos tão dicotômicos, oculta o fato de ser/estar, em uso copulativo, não raras vezes, empregarem-se relativamente ao mesmo predicativo. Por exemplo: “o homem é (ser) pálido” e o “homem está (estar) pálido”; no primeiro, marca-se o inerente; no segundo, o acidental. É essa característica que leva Mateus et al. (1987, p. 99−100), em sua Gramática da língua portuguesa, a considerar que a diferença entre ser e estar diz respeito, nesses casos, à atribuição de “propriedade de um individual” (ser) ou “propriedade de uma manifestação temporalmente limitada de um individual” (estar). Para Mateus et al. (1987), essa característica de ser/estar é suficiente para rejeitar a mera consideração de que esses verbos são “copulativos”; eles são verdadeiramente “predicativos”.

Independentemente da posição adotada, cabe destacar que o Dicionário dos intraduzíveis assume uma interessante perspectiva, que considera o sujeito falante, o que vai ao encontro de um dos pilares da teoria benvenistiana:

Na realidade, mais do que estabelecer uma classificação qualquer de atributos ou de propriedades, o uso corrente do par requer a distinção de duas perspectivas de locução diferentes. Ao empregar-se “ser”, o falante busca enunciar um fato que ele encontra, ou que supõe poder encontrar habitualmente; com “estar”, ao contrário, ele acentua o caráter singular ou transitório desse mesmo fato

(Motta & Santoro, 2018, p. 219).

Isso posto, vale indagar: como as Últimas aulas de Benveniste se apresentam em português, considerado o par ser/estar? Quanto a isso, vou me deter apenas em dois casos, a partir dos quais, creio, é possível ilustrar a complexidade das discussões aqui apresentadas.

A primeira ocorrência vem do Prefácio de Julia Kristeva à obra. Diz ela:

Qu’est-ce q’un grand linguiste? Les grands linguistes se distingent en ceci que, connaissant et analysant les langues, ils découvrent des propriétés du langage au travers desquelles ils interprètent et innovent l’“être au monde” des sujets parlants

(Kristeva, 2012, p. 13, itálicos da autora, grifo nosso).

Nas Últimas aulas, essa passagem é assim traduzida:

O que é um grande linguista? Os grandes linguistas se distinguem pelo fato de que, conhecendo e analisando as línguas, descobrem propriedades da linguagem por meio das quais interpretam e inovam o “estar no mundo” dos sujeitos falantes

(Kristeva, 2014, p. 29, itálicos da autora, grifo nosso).

Ora, a existência do par ser/estar tem consequências importantes para o entendimento da teoria de Benveniste no Brasil. Na passagem acima, observa-se que a opção foi por estar em detrimento de ser. A opção é justificável, na medida em que o conjunto do pensamento que se apresenta na passagem indica tratar-se da “existência em um determinado lugar”. Kristeva, ao propor uma resposta à indagação (“O que é um grande linguista?”), fazendo uma distinção entre línguas e propriedades da linguagem, encaminha a escolha pelo estar em português exatamente em função do aspecto situacional destacado. Quer dizer, as propriedades da linguagem permitem falar dos sujeitos falantes, dos homens, na condição de “ser no mundo” (estar) e não na condição de “ser em si” (ser).

Essa perspectiva encontra eco na reflexão de Benveniste – horizonte da discussão proposta por Kristeva –, já que, reiteradas vezes, se percebe, em sua teoria da linguagem, que é um homem situado no mundo que encontramos, ou, nas suas palavras:

Não atingimos nunca o homem separado da linguagem e não o vemos nunca inventando-a. Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procurando conceber a existência do outro. É um homem falando que encontramos no mundo, um homem falando com outro homem, e a linguagem ensina a própria definição do homem

(Benveniste, 1988, p. 285).

Observe-se, agora, uma passagem da “Aula 7” das Últimas aulas, quando é tratada a especificidade da língua em ser constituída pelos dois modos de significância (que, como se sabe, serão nomeados semiótico e semântico por Benveniste):

Il y a deux modes de signifiance, caractéristique qui semble n’être nulle part ailleurs. [...].

1) Chaque signe est constitué par une relation de signifiant et signifié. Dans les unités de base, la signifiance est déjà incluse: elle est constitutive de ces unités;

2) Ces unités sont assemblées: elles ne fonctionnent qu’ensemble. Le principe de ce fonctionnement est le second mode de signifiance.

La signification est, dans la langue, organisée à deux niveaux

(Benveniste, 2012, p. 87, grifos nossos).

Em português:

Há dois modos de significância, característica que parece não estar em nenhuma outra parte. [...].

1) cada signo é constituído por uma relação de significante com significado. Nas unidades de base, a significância já está incluída: ela é constitutiva dessas unidades;

2) essas unidades são agrupadas; só funcionam em conjunto. O princípio desse funcionamento é o segundo modo de significância.

A significação é, na língua, organizada em dois níveis

(Benveniste, 2014, p. 122, grifos nossos).

Vários comentários poderiam ser feitos a propósito dessa passagem: a primeira ocorrência de “être” é traduzida por estar, o que se justifica, uma vez que se trata de uma característica que existe em um determinado lugar. Esse uso de “être” não levanta maiores problemas para a tradução em português. O mesmo, porém, não se dá com “est constitué”, “est déjà incluse” e “est constitutive”, traduzidas, respectivamente, por “é” (ser), “está” (estar) e “é” (ser). Nesses casos, a tradução circunscreve um valor bastante específico. A escolha se deve, certamente, à presença de “constituído” e “constitutiva”.

Considerado o sentido posto pela tradução acima, deve-se entender que, para Benveniste: a) se há constituição do signo “por uma relação de significante com significado”, então a significância já lhe é inerente, logo, justifica-se a tradução “é” (ser); b) se a significância faz parte dessa relação, então ela se localiza, se inclui, “está” nessa relação; c) se ela se localiza, se inclui nessa relação, então ela “é” (ser) inerente a essa relação, portanto, constitutiva.

Observe-se que as nuances de sentido não são nada sutis.

3.2 La langue est informée de signifiance

Passamos, agora, a fazer alguns comentários sobre a formulação que serve de título a esta parte. Ela é recorrente em Benveniste. Não podemos deixar de fazer referência, mesmo en passant, que essa frase recebe tradução diferente na versão brasileira de Problemas de linguística geral, oscilando entre “informada”, relativo à “informação”, e “enformada”, relativo a colocar em uma “fôrma”; esta última opção não deixa de causar estranheza, considerado o contexto da teoria da linguagem de Benveniste.

A formulação não é menos comum em Últimas aulas. Observe-se, a título de exemplo: “Elle [la langue] est informée de signifiance” (Kristeva, 2012, p. 60, grifo nosso) ; “[...] la langue entière est informée et articulée par la signification” (Benveniste, 2012, p. 141, grifo nosso) ; “Toute la langue, à tous les niveaux, est informée, articulée par la signification” (Benveniste, 2012, p. 142, grifo nosso).

Em todas as passagens, a versão brasileira traduz “informée” por “informada”, o que se justifica plenamente, uma vez que se deve reconhecer o estatuto metalinguístico dessa formulação. Sobre isso, observe-se os comentários a seguir, feitos diretamente sob a influência da análise de Normand (2009).

Em português, “informado” tem, em geral, valor de qualificador de nome humano e significa “aquele que foi/é esclarecido”, “aquele que foi/é instruído”. Por exemplo: “Pedro foi informado da vinda de Paulo”. Nesse uso, supõe-se que a informação é algo que vem do exterior do indivíduo (“alguém informa alguém” ou “algo informa alguém”). No uso que Benveniste faz da palavra, o sentido é outro: de um lado, há um sujeito sem o traço [+humano] (“a língua”); de outro lado, a preposição “de” deixa de ter valor de “sobre”, “acerca de”, “a respeito”, para ter valor de “por”, com o sentido de causa ou agente. Por exemplo: “Ele é culpado por um crime que não cometeu”.

Assim a tradução brasileira das Últimas aulas, ao propor “A língua é informada de significação”, dá estatuto terminológico especial à palavra, no contexto da teoria de Benveniste, o que é muito bem resumido nas palavras de Normand (2009):

Assim, ao preço de uma construção ousada (o que Barthes chamava de “trapacear a língua”), Benveniste consegue um efeito de condensação particularmente significativo; em sua brevidade, a frase resume (metalinguisticamente) e aplica (empiricamente) a tese saussuriana da forma e do sentido; mais do que expô-la, essa frase a atualiza através do próprio enunciado; o que se manifesta como metalíngua joga com os efeitos permitidos pela língua; a distinção língua/metalíngua fica embaralhada

(Normand, 2009, p. 105).

Ou seja, a língua, para Benveniste, é constituída pela significação, é algo que faz parte de sua natureza interna, logo a opção por “informada” (em detrimento de “enformada”, por exemplo) vai ao encontro de um dos princípios mais elementares da teoria do linguista: “que a língua significa quer dizer que a significação não é algo que lhe seja dada por acréscimo ou, numa medida mais ampla, por uma outra atividade; é de sua própria natureza; se ela não fosse assim, não seria nada”21 (Benveniste, 1974, p. 219, tradução nossa).

4. Considerações finais

Para concluir, gostaríamos de voltar a um ponto. Acima, ao lembrar as críticas que recebeu, no campo da filosofia, a tese de Benveniste, apresentada em “Categorias”, argumentamos que reavaliar as ideias de Benveniste pelo viés dos estudos da tradução pode lançar novas luzes sobre sua obra. Isso parece se dar tanto quando se olha essa teoria como um suporte para refletir sobre a tradução quanto quando se toma o próprio texto de Benveniste como objeto de reflexão no âmbito da tradução. De certa maneira, ambas as possibilidades foram aventadas aqui.

De um lado, buscamos articular um pensamento teórico acerca da tradução que toma as diferenças entre as línguas e o papel da língua do tradutor em sua condição de falante como elementos constitutivos da discussão. Nesse sentido, tentamos mostrar que “Categorias” pode ser visto como condição de possibilidade de um ponto de vista que evidencia que os “intraduzíveis” podem ser pensados como índices da presença do tradutor – na sua condição de falante de uma língua – no processo de tradução.

De outro lado, ao examinar dois aspectos da língua portuguesa (ser/estar e a palavra “informada”) que podem direcionar um entendimento da teoria benvenistiana, foi possível ver que a conceitualização linguística, longe de ser universal, a todo momento lembra que o conceito apenas é possível no interior de uma dada língua cuja singularidade que inclui o tradutor como falante é refratária à equivalência absoluta.

Ora, o estudo de Benveniste da língua ewe e os intraduzíveis de Barbara Cassin, juntos, mostram que, longe de sacralizar uma impossibilidade de traduzir, trata-se sempre de um elogio à tradução, para retomar o lindo título do livro de Barbara Cassin. Assim, textos em diferentes línguas, quando colocados em relação de tradução, impõem a consideração do outro, de sua singularidade. É nessa relação que se pode delinear o enfrentamento à diversidade. Traduzir é, portanto, algo que se deve elogiar, pois é um acontecimento de incontestável respeito à diferença.

Benveniste em língua portuguesa é o mesmo Benveniste que há em francês, mas é também diferente. E essa diferença decorre do próprio da língua portuguesa, de seus universos – e não dos universais –, de sua capacidade de dizer o conceito de uma outra maneira e do tradutor como falante que é. Enfim, neste trabalho, não fizemos mais que iniciar uma reflexão nessa direção; outras virão para ampliá-la, reformulá-la e mesmo contestá-la.

  • 1
    Publicado pela primeira vez, no Brasil, em 1976, com o título Problemas de linguística geral I (Benveniste, 1988), traduzido por Maria da Glória Novak e Maria Luisa Neri.
  • 2
    Publicado, no Brasil, em 1989, com o título Problemas de linguística geral II (Benveniste, 1989), com tradução de Eduardo Guimarães et al.
  • 3
    Publicado, no Brasil, em 1995, com o título O vocabulário das instituições indo-europeias: vol. I - Economia, parentesco, sociedade (Benveniste, 1995a), com tradução de Denise Bottmann, e com o título O vocabulário das instituições indo-europeias: vol. II – Poder, direito, religião (Benveniste, 1995b), traduzido por Denise Bottmann e Eleonora Bottman.
  • 4
    A tradução das Dernières leçons é feita por Daniel Costa da Silva, Heloisa Monteiro Rosário, Patrícia Chittonni Ramos Reuillard e Verónica Galíndez-Jorge e tem revisão de Valdir do Nascimento Flores.
  • 5
    Sobre Benveniste e a tradução, ver Hoff (2019).
  • 6
    No original: “Que néanmoins il soit possible en gros de ‘dire la même chose’ dans l’une comme dans l’autre catégorie d’idiomes est la preuve, à la fois, de l’indépendance relative de la pensée et en même temps de son modelage étroit dans la structure linguistique. Qu’on réfléchisse de près à ce fait notable, qui nous paraît mettre en lumière l’articulation théorique que nous nous efforçons de dégager. On peut transposer le sémantisme d’une langue dans celui d’une autre, ‘salva veritate’; c’est la possibilité de la traduction; mais on ne peut pas transposer le sémiotisme d’une langue dans celui d’une autre, c’est l ’impossibilité de la traduction”.
  • 7
    No original: “que la traduction demeure possible comme procès global est aussi une constatation essentielle. Ce fait révèle la possibilité que nous avons de nous élever au-dessus de la langue, de nous en abstraire, de la contempler, tout en l’utilisant dans nos raisonnements et nos observations”.
  • 8
    A ideia do tradutor como um falante é discutida em Flores (2019).
  • 9
    No original: “Si la traduction d’un texte est structurée-reçue comme un texte, elle fonctionne comme texte, elle est l’écriture d’une lecture-écriture, aventure historique d’un sujet. Elle n’est pas transparence par rapport à l’original”
  • 10
    Utilizamos aqui a tradução dos termos “sourcistes” e “ciblistes”, feita por Marcos Marcionilo, na tradução de Tradução: História, teorias e métodos, de Michaël Oustinoff (2011).
  • 11
    No original: “La traduction n’est plus définie comme transport du texte de départ dans la littérature d’arrivée ou inversement transport du lecteur d’arrivée dans le texte de départ (double mouvement, qui repose sur le dualisme du sens et de la forme, qui caractérise empiriquement la plupart des traductions) mais comme travail dans la langue, décentrement, rapport interpoétique entre valeur et signification, structuration d’un sujet et histoire (que des postulats formels avaient disjoints), et non plus sens. Cette proposition postule que le texte travaille la langue comme une épistémologie.
  • 12
    Sobre esse artigo, ver Flores et al. (2022).
  • 13
    Publicado em 1958, no número 4 do periódico Les études philosophiques.
  • 14
    Para uma discussão aprofundada dessa controvérsia, ver Flores (2019).
  • 15
    a) Nyé – marca a identidade entre o sujeito e o predicado (“ser quem”, “ser o que”); b) Le – exprime a existência (Mawu le, “Deus existe”); tem também emprego predicativo de situação, de localização (“estar num lugar, num estado, num tempo, numa qualidade”): e-le nyuie (“ele está bem”), e-le a fi (“ele está aqui”), e-le ho me (“ele está em casa”); c) Wo – significa “fazer, cumprir, produzir um efeito”, em combinação com um termo indicador de matéria, permite predicação (wo com ke “areia” = “estar/ser arenoso”; com tsi “água” = “estar úmido”). O que se apresenta como um “ser” de natureza em francês, Il “fait” du vent, “está ventando”, é um “fazer” em ewe; d) Du – indica predicação relativa a um termo de função, de dignidade: du fia = “ser rei”; e) Di – empregado com certos predicados de qualidade física, de estado, di ku = “estar magro”; di fo = “ser devedor”.
  • 16
    Nesse ponto é que os filósofos, em especial Derrida, reagiram contrariamente: Benveniste chega a sugerir certa relativização da metafísica ocidental, na medida em que considera que a estrutura do grego predispõe a noção de “ser” a uma vocação filosófica. Sobre isso, ver Laplantine (2011, p. 69–92).
  • 17
    A “Apresentação” do Vocabulaire aqui utilizada é a presente na versão brasileira da obra (Cassin, 2018).
  • 18
    Discutimos a introdução de Humboldt à tradução do Agamêmnon em sua relação com Ferdinand de Saussure em Flores (2021).
  • 19
    Em Elogio da tradução, no entanto, o artigo de Benveniste é retomado por Barbara Cassin (2002, p. 69−70).
  • 20
    No original: “leur objet, la langue, est informé de signification”.
  • 21
    No original: “que la langue signifie, cela veut dire que la signification n’est pas quelque chose qui lui est donné par surcroît, ou dans une mesure plus large qu’à une autre activité ; c’est son être même ; si elle n’était pas cela, elle ne serait rien”.
  • Financiamento
    Este trabalho obteve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), sob forma de Bolsa de Produtividade em Pesquisa (1C). Processo 306757/2023-0.
  • Consentimento de uso de imagem
    Não se aplica.
  • Aprovação de comitê de ética em pesquisa
    Não se aplica.
  • Publisher
    Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
  • Revisão de Normas Técnicas
    Alice S. Rezende – Ingrid Bignardi – João G. P. Silveira – Kamila Oliveira

Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa

Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelo autor mediante solicitação.

Referências

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Editado por

  • Editores de seção
    Andréia Guerini – Willian Moura

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2024
  • Revisado
    13 Set 2024
  • Aceito
    12 Ago 2024
  • Publicado
    Set 2024
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Universidade Federal de Santa Catarina Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, Centro de Comunicação e Expressão, Bloco B, Sala 301, Telefone: +55 48 3721-6649 - Florianópolis - SC - Brazil
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