Resumo
Este estudo objetivou apresentar o comentário da tradução do conto “Baleia”, de Graciliano Ramos, para o inglês. Para tanto, o comentário de tradução se orienta pela descrição e discussão das escolhas realizadas para lidar com elementos do sertão nordestino descrito na obra que demarca o bioma Caatinga, exclusivo do território brasileiro. A fundamentação teórica se orienta pelas pesquisas de Torres (2017), sobre tradução comentada; Berman (2013), explorando a sistemática da deformação; Venuti (2019, 2021), sobre domesticação e estrangeirização; Daghoughi e Hashemian (2016) e Franco Aixelá (2013), em reflexões acerca de itens culturais-específicos e marcadores culturais; e Gambier (2010), sobre estratégias tradutórias, entre outros pesquisadores dos estudos da tradução. O processo tradutório descrito nos comentários recorre também aos estudos de outras áreas de conhecimento, denotando a interface multidisciplinar dos estudos da tradução, evidenciada neste estudo pelas pesquisas relacionadas ao campo da Biologia, especificamente a Botânica, Zoologia e a Sistemática filogenética para localizar gêneros e espécies citadas na narrativa e entender a distribuição e as possibilidades de tradução destes elementos através da relação entre nome vernacular e nome científico. A reflexão sobre as escolhas apresentada no comentário da tradução explicita e teoriza as decisões tomadas e a escolha deliberada por conservar, quando possível os elementos do bioma, para, por fim, apresentar o conto traduzido.
Palavras-chave
tradução literária; tradução comentada; Graciliano Ramos; caatinga
Abstract
The aim of this study was to present an annotated translation of the short story “Baleia”, by Graciliano Ramos, into English. To this end, the annotated translation is guided by the description and discussion of the choices made to deal with elements of the Northeastern hinterland described in the work, which demarcates the Caatinga biome, exclusive to Brazilian territory. The theoretical basis is built on research by Torres (2017), on annotated translation; Berman (2013), exploring the systematics of deformation; Venuti (2019, 2021), on domestication and foreignization; Daghoughi and Hashemian (2016) and Franco Aixelá (2013), in reflections on cultural-specific items and cultural markers; and Gambier (2010), on translation strategies, among other researchers in Translation studies. The translation process described in the comments also draws on studies from other areas of knowledge, denoting the multidisciplinary interface of Translation studies, evidenced in this study by research related to the field of Biology, specifically Botany, Zoology and Phylogenetic Systematics to locate genera and species mentioned in the narrative and understand the distribution and translation possibilities of these elements through the relationship between vernacular name and scientific name. The reflection on the choices presented in the translation commentary makes explicit and theorizes the decisions made and the deliberate choice to conserve, where possible, the elements of the biome in order to finally present the translated short story.
Keywords
literary translation; annotated translation; Graciliano Ramos; caatinga
1. Introdução
Este artigo objetiva apresentar o comentário da tradução do conto “Baleia” (1938), do escritor alagoano Graciliano Ramos, para o inglês. Originalmente escrito no português, o conto foi pensado pelo autor com o objetivo de descrever os possíveis pensamentos e sensações encaradas por uma cachorra – que viria a se tornar personagem do romance Vidas Secas (1938) – no momento de sua morte. Atrelado a isso, a narrativa explora aspectos do sertão e da cultura do Nordeste brasileiro, como elementos do bioma (fauna e flora), crenças, objetos e utensílios comuns a essa região. Essas características, associadas à reconhecida brevidade da escrita do autor, tornam o texto de Graciliano Ramos uma rede de significados complexa apesar da aparente simplicidade.
Entendendo que o processo tradutório se orienta por um conjunto de escolhas que implicam em uma série de possibilidades que variam de acordo com as decisões do tradutor, neste artigo são discutidas as preferências realizadas desde a definição do conto traduzido até os elementos encontrados ao longo do texto de partida que poderiam causar opacidade de sentidos no texto traduzido. Ao refletir acerca do processo tradutório e das escolhas realizadas para transpor o texto de Graciliano Ramos para a língua de chegada, serão realizados comentários de tradução de caráter autoral e discursivo-crítico (Torres, 2017), buscando entender e explicar as escolhas e estratégias realizadas para verter o texto para a língua de chegada.
Este artigo se organiza nas seguintes seções: inicialmente, discuto a razão para retraduzir o conto Baleia, seguido da caracterização do conto, descrevendo suas marcas em relação ao estilo do autor e ao contexto em que ele se origina. Posteriormente, analiso as especificidades culturais demarcadas no título e em elementos da fauna e da flora da Caatinga e suas implicações para a tradução, seguidas da descrição comentada da referida tradução. Por fim, apresento as considerações finais, nas quais mostro os principais resultados da pesquisa, e finalizo com a o apêndice, no qual transcrevo o texto de partida e o de chegada.
2. O estilo e as características do conto “Baleia”
O conto “Baleia” foi escrito por Graciliano Ramos em 1937 enquanto o autor estava em uma pensão no Rio de Janeiro, período este em que o autor residia na cidade e escrevia para diferentes revistas e enviava cartas e alguns rendimentos para a família em Maceió (Moraes, 2012). O cerne do conto encontra-se na descrição do que se passaria na alma de uma cachorra em seus momentos finais, como exposto pelo autor em carta datada de 7 de maio de 1937 para a sua esposa, Heloísa Ramos:
Escrevi um conto sobre a morte duma cachorra, um troço difícil como você vê: procurei adivinhar o que se passa na alma duma cachorra. Será que há mesmo alma em cachorro? Não me importo. O meu bicho morre desejando acordar num mundo cheio de preás. Exatamente o que todos nós desejamos. A diferença é que eu quero que eles apareçam antes do sono, e padre Zé Leite pretende que eles nos venham em sonhos, mas no fundo todos somos como a minha cachorra Baleia e esperamos preás. É a quarta história feita aqui na pensão. Nenhuma delas tem movimento, há indivíduos parados. Tento saber o que eles têm por dentro. Quando se trata de bípedes, nem por isso, embora certos bípedes sejam ocos; mas estudar o interior duma cachorra é realmente uma dificuldade quase tão grande como sondar o espírito dum literato alagoano. Referindo-me a animais de dois pés, jogo com as mãos deles, com os ouvidos, com os olhos. Agora é diferente. O mundo exterior revela-se a minha Baleia por intermédio do olfato, e eu sou um bicho de péssimo faro. Enfim parece que o conto está bom, você há de vê-lo qualquer dia no jornal. Baleia é como esse poeta que gostava de cheirar roupa de mulher
(Ramos, 2013, p. 36-37).
A descrição da ideia que originou o conto e da dificuldade de estudar o interior de um animal através dos seus últimos momentos de vida explicita o quão era incomum ao próprio autor a ideia explorada. Ao narrar do ponto de vista de um animal, da hipótese da existência de uma alma que inteligisse o mundo em seu entorno como um humano o faz, Cândido (2012, p. 147) aponta que “[...] o resultado é uma criação em sentido pleno, como se o narrador fosse, não um intérprete mimético, mas alguém que institui a humanidade de seres que a sociedade põe à margem, empurrando-os para as fronteiras da animalidade”. A humanidade instituída em Baleia e descrita pelo narrador onisciente, ao mesmo tempo em que descreve o monologo interior presente no universo reservado da cachorra enquanto vive seus últimos momentos, também explora os sentimentos encarados pelas personagens humanas que participam da narrativa sob a “[...] face angulosa da opressão e da dor” (Bosi, 2017, p. 429).
A exploração dessa face coloca a narrativa em um espaço de realismo crítico, em que o protagonista encara a insatisfação com “[...] o mundo, os outros e a si mesmo” (Bosi, 2017, p. 429). O conto possui uma estrutura de 1533 palavras e apresenta como personagens a cachorra Baleia, o vaqueiro Fabiano e sua família composta por Sinhá Vitória, a esposa, e o Menino mais velho e Menino mais novo, os filhos do casal. A linguagem utilizada é objetiva e característica do autor, enfatizando a brevidade para explorar os momentos narrados no conto, desde a constatação de que Baleia estava para morrer, passando pelas personagens da família lidando com a morte iminente da cachorra que era como um membro da família, até os momentos finais que antecedem perda de consciência do animal que morre.
A insatisfação com a própria situação, a angústia e a contemplação deste realismo crítico se constroem na descrição cortante dos acontecimentos que perduram de quando Baleia vê Fabiano com a espingarda já que a cachorra “[...] não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis” (Ramos, 2009, p. 98)1, até a ira que a preenche com vontade de morder Fabiano e que logo some quando se lembra que “[...] não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas” (Ramos, 2009, p. 98), evidenciando a natureza complexa das emoções e pensamentos da cachorra. A brevidade do texto, por sua vez, é uma característica própria do estilo do autor, que capta a “marginalidade linguística” (Brayner, 2023, p. 412) das personagens. Os personagens humanos do conto pouco dominam a língua e não conseguem se comunicar direito, motivo pelo qual há poucos diálogos no texto. Dentro dessa marginalidade expressa nas poucas palavras das personagens e do monólogo interior encontra-se a marca característica de Graciliano Ramos, o Silêncio, que segundo Cândido (2012, p. 142):
Esse medo de encher linguiça é um dos motivos da sua eminência, de escritor que só dizia o essencial e, quanto ao resto preferia o silêncio. O silêncio devia ser para ele uma espécie de obsessão, tanto assim que, quando corrigia ou retocava os seus textos, nunca aumentava, só cortava, cortava sempre, numa espécie de fascinação abissal pelo nada – o nada do qual extraíra a sua matéria, isto é, as palavras que inventam as coisas, e ao qual parecia querer voltar nessa correção-destruição de quem nunca estava satisfeito
(Cândido, 2012, p. 142).
A busca pelo silêncio enquanto corrigia e retocava os textos é citado pelo próprio autor em correspondência para Heloísa, no livro Cartas. Entretanto, a brevidade que caracteriza a narrativa carrega, ainda assim, a complexidade da língua em explicitar as diferentes possibilidades da literatura. No texto Baleia é possível observar diversas características que constituem os significados presentes na narrativa e se vinculam ao contexto em que narrativa foi criada, tais quais o nome da personagem-título do conto, elementos da fauna e da flora que localizam a narrativa na Caatinga, além de elementos que caracterizam crendices e marcas culturais que podem difíceises constituir um desafio no processo tradutório, tendo em vista as redes de significação que as compõem.
2.1. Por que (re)traduzir e comentar “Baleia”?
O conto escrito por Graciliano Ramos apresenta a passagem que narra a morte da cachorrinha que dá título ao conto, que posteriormente serviu de base para a construção da obra Vidas Secas (1938), a mais reconhecida do autor alagoano e que ocupa um espaço representativo na literatura brasileira, especialmente a nordestina. O reconhecimento do romance no sistema da literatura brasileira colocou a obra em evidência, o que tornou Baleia a figura central do imaginário da obra, sendo a imagem imediata que muitas vezes é utilizada como ilustração em capas de edições da obra e em diferentes mídias. O romance, por sua vez, recebeu diversas traduções para outros idiomas, como as traduções para a língua francesa em Sécheresse (Ramos, 1964) por Marie-Claude Roussel; e Vies Arides (Ramos, 2014) por Mathieu Dosse; e para a língua inglesa, em Barren Lives (Ramos, 1999) por Ralph Edward Dimmick2. Também é válido mencionar as traduções de S. Bernardo (1934) para a língua inglesa por R. L. Scott-Buccleuch (Ramos, 1974) e Padma Viswanathan (Ramos, 2019).
A tradução realizada por Dimmick apaga o nome de Baleia, o que possibilitou refletir sobre a possibilidade de uma nova tradução que considere a presença do nome da cachorra como um nome carregado (Franco Aixelá, 2013), tendo em vista que o apagamento do nome na tradução anterior apaga na narrativa a importância do nome, elemento que na família só Fabiano e Sinha Vitória possuem, além de poucos personagens da narrativa, nem mesmo na introdução escrita pelo tradutor é mencionada a importância da personagem, havendo apenas uma breve menção à importância dela no texto apresentada como “[...] Ramos pode, portanto, tratar o cão no mesmo nível que seus donos, como membro da família” (Ramos, 1999, p. 25, tradução nossa)3. O apagamento do nome elimina os aspectos importantes sobre o nome, como a superstição, a diferença em relação aos outros animais e em relação ao próprio bioma (Bomfim, 2014; Marcelino, 2021, 2022).
A existência de traduções anteriores possibilita refletir sobre a retradução de um texto que já foi traduzido, uma vez que, segundo Torres (2017, p. 26), “[...] todo tradutor procura saber se existem outras traduções do texto que vai traduzir, seja na mesma língua na qual traduz, seja em outras línguas que ele domina”. Estar consciente da existência de outras traduções possibilita estabelecer melhores estratégias durante o processo tradutório. Neste sentido, é possível notar que, no caso do romance Vidas secas traduzido para os idiomas acima citados, a tradução do capítulo “Baleia” é realizada considerando como uma parte ou um episódio que compõe um todo — a obra — e não o caso de um conto como um todo. Traduzir um segmento como “Baleia” que, por si, possui o grau de completude de um conto, tenciona a tradução a considerar esta totalidade como o espaço para a realização da tradução, portanto despido dos outros capítulos da obra, que na data de origem do conto, não existiam.
O entendimento de que o conto é um todo gerou a ideia de traduzi-lo para o inglês e refletir acerca desse processo, possibilitado pela entrada da obra em domínio público em 2024, o que permite a publicação tanto da tradução na íntegra, quanto dos comentários de tradução. Nesse sentido, a construção de uma tradução comentada do texto do conto permite que as reflexões sobre o processo tradutório e sobre as escolhas realizadas sejam discutidas, uma vez que a construção dos comentários “[...] explica e teoriza de forma clara e explícita o processo de tradução, os modelos de tradução e as escolhas e decisões feitas pelos tradutores” (Torres, 2017, p. 15). Essa explicação, pode ocorrer na forma dos comentários do tradutor no texto em notas de tradução, nos paratextos ou em outros formatos que possibilitam a discussão teórico-reflexiva da tradução. Ainda, descrever a tradução através do comentário possibilita observar que as escolhas realizadas implicam em um papel social do tradutor (Detmering & Alves, 2016) que pode apagar traços e particularidades de uma cultura para inseri-la em outro contexto linguístico e cultural.
Ainda, Berman (2017) expõe a importância da retradução, considerando que esta ação é necessária tendo em vista que as traduções estão submetidas ao tempo e envelhecem em relação ao momento em que são publicadas. Além disso, o autor evidencia que nenhuma tradução é a definitiva, portanto é possível e natural realizar novas traduções de um texto. Nesse sentido, realizar uma retradução do texto visa a apresentar uma nova leitura do conto Baleia, agora em domínio público, para o público anglófono.
A realização dessa tradução se dá, também, em um contexto de pesquisa no campo dos Estudos da Tradução. Buscando transpor o texto de Graciliano Ramos, circunscrito com elementos particulares ao Sertão Nordestino, desde elementos do bioma até elementos da cultura para a língua estrangeira, reflito sobre o processo tradutório na posição de tradutor que está entre o jogo de forças entre a tradução domesticadora ou estrangeirizante (Venuti, 2019, 2021), ou na relação entre a tradução e as tendências deformadoras (Berman, 2013), para levar o texto ao estrangeiro. Explorar esse jogo de forças na tradução, enquanto se comenta esse processo, possibilita descrever um dos vários caminhos possíveis que o tradutor pode seguir para transpor o texto da língua de partida para a língua de chegada.
3. Tradução e especificidades culturais
Traduzir o texto literário propõe lidar com desafios para verter o texto da língua de partida para a língua de chegada, dada a natureza complexa desse tipo de texto que combina objetividade e subjetividade em sua composição, além de elementos particulares à cultura, à nacionalidade e ao próprio período histórico em que a narrativa é construída ou narrada. Ainda, como observa Britto (2016), o texto literário não é um texto estático, tendo seu sentido aberto à interpretação a partir do olhar do leitor; portanto, ao traduzir, o tradutor percorre o caminho proposto por uma interpretação.
A interpretação do texto literário, portanto, não é o único aspecto que influencia o processo tradutório, pois, ao levar o texto para a língua estrangeira, o tradutor percorre um caminho não linear podendo se direcionar mais à estrangeirização ou à domesticação, estratégias que, respectivamente, levam o leitor para a cultura estrangeira, respeitando suas marcas e particularidades; ou trazem o estrangeiro à cultura de chegada, apagando tais particularidades (Venuti, 2019, 2021). Entender essas estratégias denota o reconhecimento de que a existência de estratégias tradutórias pode ser justificada pela determinação de fatores culturais e ideológicos existentes que influenciam a percepção e o tratamento para com o estrangeiro e, consequentemente, a tradução (Zare-Behtash & Firoozkohi, 2009). Referindo aqui as denominações de domesticação e estrangeirização na tradução que tem sido abordada nos estudos da tradução desde Schleiermacher (2010).
É importante observar que, ao traduzir, é o tradutor transita entre a domesticação e a estrangeirização para lidar com os desafios encontrados na tradução, possibilitando um percurso híbrido. Estas estratégias se desenham de acordo com as decisões tomadas pelo tradutor, como quando observamos em um texto como o de Graciliano Ramos a presença de elementos da caatinga, um bioma exclusivamente brasileiro, que, ao ser traduzido, pode ser desafiadores por representarem elementos particulares ao bioma, à cultura articulada a partir da relação do humano com a natureza. Para lidar com essas questões, as estratégias adotadas são variadas, como observa Gambier (2010, p. 413, tradução nossa):
O número, os tipos e os nomes das estratégias são diferentes. Quanto aos tipos de problemas - geralmente definidos implicitamente como uma questão de (in)traduzibilidade em vez de tradução propriamente dita - temos trabalhos sobre como traduzir metáforas, colocações, provérbios, trocadilhos, humor, formas de polidez, nomes próprios, topônimos, referências culturais, alusões, palavrões, dialetos etc.4
A impossibilidade de se traduzir elementos presentes em um texto, como apontado pelo autor, possibilita que as estratégias elaboradas sejam variadas e direcionadas para lidar com cada tipo de ocorrência. É interessante observar, ainda, que as características do estilo da escrita também podem ser desafiadoras para a tradução, como se observa em Graciliano Ramos, cuja narrativa tende ao texto breve e polido, uma espécie de modus operandi para evitar o que o autor julgava excessivo, já que para ele “A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso. A palavra foi feita para dizer”5. Essa objetividade torna a tradução um trabalho delicado de cuidado para que o texto traduzido não seja floreado por elementos que não estão presentes no texto de partida.
Diante da presença das particularidades denotadas, as especificidades culturais presentes no texto literário permitem observá-las enquanto itens culturais-específicos, uma vez que no processo de tradução misturam-se duas ou mais línguas na reescrita do texto de chegada (Franco Aixelá, 2013). Essa combinação ocorre enquanto o tradutor opera em redes de significado complexas que constituem sentido na língua e contexto de partida, buscando torná-las inteligíveis na língua e contexto de chegada. No entanto, nem todas as redes de significados são transferidas de maneira completa, uma vez que há elementos que podem não ser transferidos no processo de tradução entre as línguas envolvidas por não ter equivalências ou referências similares, bem como há estratégias para possibilitar essa transferência que podem facilitar a compreensão do texto e seu sentido.
Por este motivo, observam-se aqui os itens culturais-específicos como marcadores da presença desses elementos que constituem as redes de sentido, e que na tradução causam algum grau de opacidade tendo em vista a redução nas possibilidades de escolhas para traduzi-los. Como observado por Daghoughi e Hashemian (2016), para lidar com lacunas causadas por ocorrências como as dos itens culturais específicos, estudiosos da tradução têm elaborado e descrito diferentes estratégias. A reflexão sobre como essas estratégias são definidas e como elas constituem o texto traduzido observa a operação de estratégias tradutórias para lidar com marcações culturais que demarcam elementos localizadores da cultura e ambiente do texto de partida, pensando na transferência de significados para a língua de chegada.
As estratégias tradutórias observadas podem levar em consideração os efeitos deformadores descritos nas tendências exploradas por Berman (2013). A concepção das tendências deformadoras possibilita compreender que as redes de sentido construídas no texto de partida são elaboradas a partir de diversos fatores, sendo estes unificados na língua e cultura. A ideia de um jogo de forças entre opções dicotômicas na tradução não indica, entretanto, que o texto traduzido não comporta estratégias que as permeiem, uma vez que o processo de escolhas na tradução cria um percurso não linear.
Considerando as observações apresentadas nesta seção, apresento a seguir os comentários sobre o processo tradutório do conto Baleia6, explorando os itens que podem causar opacidade na tradução e discutindo as escolhas realizadas e recursos utilizados para traduzir o texto para a língua de chegada.
4. Questões tradutórias comentadas
Ao realizar a tradução do conto “Baleia” do português para o inglês, enquanto tradutor, me deparei com um texto que apresenta particularidades constituintes de sentido desde a denominação do nome da cachorra que nomeia o conto. Aqui é importante observar a carga simbólica que um nome possui culturalmente, tendo em vista que é algo que está além da mera identificação, constituindo-se em uma dimensão do indivíduo (Chevalier & Gheerbrant, 2022), revelada ao observarmos que Baleia tem um nome, diferente dos próprios filhos de Fabiano e Sinha Vitória, que possuem denominações de caráter mais generalista.
A presença do nome, nesse contexto, possui carga cultural e identitária do indivíduo que se identifica com ele, portanto, caracteriza-se como um nome próprio que é ‘carregado’, como definido por Franco Aixelá (2013) através da motivação resultante do contexto histórico ou cultural dos quais são oriundos. Assim, é preciso compreender o contexto em que os nomes ocorrem para produzir estratégias de tradução que os tornem menos opacos na tradução. A opacidade causada pelo nome de Baleia pode ser observada em três perspectivas:
Na leitura do conto nos deparamos com o nome Baleia para identificar uma cachorra que não possui raça definida, e que no início da trama está subnutrida ao ponto de os ossos lhe marcarem a pele. Nesse primeiro contato, a perspectiva encontrada é a da estranheza da oposição do nome ao animal, pois baleias são mamíferos marinhos da ordem dos cetáceos que podem atingir, a depender da espécie, entre 4 e 150 toneladas, o que evidencia ainda mais a oposição entre o nome e o animal. A segunda perspectiva observada refere-se à oposição entre o nome e o ambiente: Baleia é uma cachorra subnutrida, com nome de animal marinho que está no meio da caatinga, bioma exclusivamente brasileiro, semiárido, com longos períodos de estiagem.
A terceira perspectiva parte, segundo Bomfim (2014, p. 5), da ligação com o “[...] folclore brasileiro e a crença de que ao se colocar em cães nomes relacionados à água tende-se a evitar que os mesmos contraiam hidrofobia, já que por conta destes nomes peculiares eles estariam habituados a água”. A crença no entorno do nome remete a uma particularidade do contexto histórico e cultural sertanejo que pode tornar desafiador o processo de lidar com a presença desse nome no texto. O nome ainda é um fator de observação, tendo em vista que o núcleo familiar que protagoniza a narrativa é composto por dois humanos que possuem nome, Fabiano e Sinha Vitória, dois que não possuem nome, Menino mais velho e Menino mais novo, e a cachorra que possui nome, Baleia.
Nesse sentido, a presença do nome, carregado ou não, revela uma rede de significados subjacentes como o descrito por Berman (2013), cuja manipulação na tradução pode causar perdas na transferência de sentidos. Aqui compreendo que o sentido oriundo da superstição acerca do nome de animal marinho dado a um cão requer um conhecimento aprofundado da cultura da caatinga, o que pode não ser o caso do leitor que encontrará o texto de Graciliano Ramos. Entretanto, os sentidos em relação às oposições entre o animal e o nome, e o animal e o ambiente podem ser compreendidas a partir da leitura e compreensão do texto, portanto a escolha pela tradução linguística (Franco Aixelá, 2013) de Baleia para Whale (Marcelino, 2024) possibilita manter os sentidos primários do nome para intitular a obra e nomear a personagem como apresentado no quadro 1:
Paralelamente ao título traduzido, e para contextualizar o leitor diante da escolha realizada, a opção para tornar inteligível de que o texto trata de uma cachorra deu-se para reforçar a explicação intratextual (Franco Aixelá, 2013); essa estratégia permite que através de elementos presentes no texto características relevantes sejam marcadas para o leitor. A descrição de que se trata de uma cachorra com o nome de Baleia inicia o texto posicionando esta informação e, ao longo do texto, as marcações para indicar o gênero da cachorra foram reforçadas pelo uso da terceira pessoa do singular no feminino (she), deixando claro ao leitor através da breve explicação intratextual que a protagonista do conto é a cachorra Baleia.
Ao longo do texto, por tratar-se de uma narrativa que ocorre no contexto da Caatinga, nos deparamos com a presença de menções a elementos da flora e fauna desse Bioma que, como descrito anteriormente, é exclusivo do território brasileiro. No quadro 2, encontramos a presença da menção à Baraúna:
A Baraúna (Melanoxylon brauna) é uma espécie de árvore que ocorre em diferentes biomas brasileiros, da Mata Atlântica ao Cerrado, adaptando-se também à Caatinga em razão da preferência por solos drenados, arenosos e de baixa fertilidade; a madeira da baraúna está presente no dia a dia da sociedade na Caatinga, uma vez que sua resistência e durabilidade permite sua utilização em construções pesadas ou expostas às intempéries do clima (Carvalho, 2010). O entendimento acerca de elementos da flora que compõem o bioma explicitado na narrativa posiciona as escolhas realizadas para traduzir nomes vernaculares no texto para a língua de chegada quando possível a conservação por repetição aliada à explicação intratextual (Franco Aixelá, 2013); ainda que constituindo um grau de estrangeirização (Venuti, 2019, 2021), essa estratégia permite que as espécies do bioma sejam respeitadas e evita possíveis apagamentos que podem descaracterizar o ambiente ou criar um híbrido que deixa de ser a Caatinga.
A presença de onomatopeias no texto ocorre pontualmente quando Fabiano precisa chamar atenção dos animais, denotando também a marginalidade linguística expressa por essas personagens observada por Brayner (2023). Tendo em vista que, segundo Luyten (2002, p. 180), a onomatopeia corresponde a “[...] um código sintético e reproduz alguns sons de forma precisa. Assim, algumas onomatopeias têm a mesma tradução linguística que o som que elas expressam”, enquanto estratégia para lidar com a presença da onomatopeia utilizada por Fabiano para chamar atenção de Baleia “ecô” a opção foi pela conservação linguística da onomatopeia (Franco Aixelá, 2013). Essas escolhas visam evitar uma homogeneização excessiva do texto traduzido (Berman, 2013), entendendo que o processo tradutório não é linear e que a depender da situação encontrada, o tradutor pode optar por utilizá-las como recurso.
Como pode ser observado no quadro 3, nos deparamos com duas espécies presentes na flora da Caatinga descrita no texto do conto, o Pé de Turco e a Catingueira:
O Pé de turco mencionado refere-se à uma espécie invasora da Caatinga, como indicado por Bezerra et al. (2013); a presença de uma espécie que não é nativa do ambiente torna necessário reconhecer sua denominação científica dentro do sistema de classificação binominal de Lineu8 para compreender sua origem e nomenclatura vernacular, identificando nessa segunda possibilidades de tradução para a língua de chegada. Podemos observar a distribuição dessa espécie, após a busca pelo nome científico da planta Parkinsonia aculeata (Bezerra et al., 2013) no mapa apresentado pelo Royal Botanic Gardens na base de dados botânicos Plants of the World Online (2024), replicado a seguir:
Como identificado no mapa, as regiões marcadas em verde correspondem à natividade da espécie mencionada e as em roxo, aos locais em que a Parkinsonia aculeata é uma espécie invasora. No Brasil, a espécie é originária da região sul, adaptando-se tanto ao Pampa quanto à Mata Atlântica que recobrem essas regiões, mas espalhou-se por todos os outros biomas do território nacional (Caatinga, Cerrado, Pantanal e Amazônia). Com a identificação científica e de origem da espécie, é possível, portanto, que tradutores recorram a bases de dados como a Plants of the World Online para identificarem e serem auxiliados na tradução dessas espécies sem realizar apagamentos, podendo recorrer às traduções pré-estabelecidas (Franco Aixelá, 2013), evitando assim a eliminação e o empobrecimento qualitativo (Franco Aixelá, 2013; Berman, 2013). Para a tradução aqui realizada a escolha foi pelo nome vernacular utilizado na língua inglesa “Jerusalem Thorn”9 (Plants of the World Online, 2024).
No caso da Catingueira, através do próprio nome da árvore é possível perceber a relação entre o nome vernacular e o ambiente de ocorrência, o prefixo Cating- denota a derivação do nome do bioma de ocorrência, a Caatinga. Na figura 3 é apresentada a ocorrência da Catingueira segundo dados do Plants of the World Online (2024):
A Catingueira, nome vernacular da espécie Poincianella pyramidalis [Tul.] (L. P. Queiroz, sinonímia Caesalpinia pyramidalis [Tul.]), é uma planta de ocorrência exclusiva no território do nordeste brasileiro, endêmica da Caatinga, que é caracterizada pelo forte odor (Matias et al., 2017). Sua ocorrência restrita limita as opções de tradução, uma vez que seus nomes vernaculares são originados no português e sua origem pode denotar a presença de uma rede de significantes subjacentes, cujo tratamento na tradução pode apagar as correspondências entre os termos e os significados (Berman, 2013). O nome da espécie pode se originar na expressão ‘catinga’ utilizada para denotar mau odor ou no próprio nome do bioma, que se origina no Tupi Guarani sob a estrutura de ka’a [mata] e tinga [branca] (SISBIOTA, 2010). Ainda que não exista no conto Baleia a menção ao bioma Caatinga, essa rede de significações está indiretamente manifesta através da presença da Catingueira, portanto, para manter a relação com o bioma, a escolha para a tradução recorre à explicação intratextual para justificar a conservação do texto (Franco Aixelá, 2013).
Observando no texto a presença de uma espécie da vegetação da Caatinga cujo gênero possui espécies em diferentes biomas, as escolhas pela tradução do nome vernacular da árvore de Juazeiro apresentam duas possibilidades. A primeira é pela estratégia anteriormente citada de utilizar a combinação de conservação e explicação intratextual para justificar a repetição do nome vernacular da espécie e a segunda é pela naturalização (Franco Aixelá, 2013) recorrendo à tradução através do nome vernacular de uma espécie do gênero do Juazeiro que esteja presente no contexto da língua de chegada.
O Juazeiro, nome vernacular da espécie Ziziphus joazeiro Martius, é uma espécie de árvore presente no nordeste brasileiro e tem seu uso associado à produção de forragem para alimentação animal, alimentação humana através dos frutos, a madeira utilizada em ferramentas, e as folhas e cascas na medicina tradicional (Carvalho, 2007). A espécie também é reconhecida pela sinonímia Sarcomphalus joazeiro, e sua distribuição ocorre no brasil e em partes da América do sul e central, como pode ser visto na figura 4:
Diante da ocorrência do Juazeiro no espaço específico da América do Sul e Central, e pensando a possibilidade de naturalização na tradução através da observação dos gêneros em que a espécie pode ser taxonomicamente localizada, observa-se na figura 5 a distribuição dos gêneros Sarcomphalus e Ziziphus:
O gênero de denominação Sarcomphalus corresponde a uma espécie de menor ocorrência sem inserção em biomas distintos, portanto, suas espécies encontram seus nomes vernaculares em sua maioria em ambientes lusófonos e hispanófonos. Por outro lado, a inserção do gênero Ziziphus em outros biomas possibilita encontrar denominações vernaculares na língua inglesa, que possibilitam realizar uma tradução que tende a normalização, por exemplo utilizando o nome vernacular da espécie Ziziphus jujube ou Ziziphus mauritiana, que podem ser reconhecidas como Jujube (Hussain et al., 2021).
A possibilidade da naturalização permite que o termo seja traduzido na língua de chegada com uma espécie possível nesse contexto. Nesse sentido, a opção pela explicação intratextual na tradução apresentada a seguir alinha de maneira mais adequada a lógica pré-estabelecida anteriormente na tradução de elementos da flora:
Observando o caso do Juazeiro entendo que é preciso explorar as possibilidades de tradução, ainda que uma delas não seja utilizada, para entender qual estratégia para lidar com especificidades do texto se alinha melhor à lógica tradutória empregada pelo tradutor. A opção da tradução pode normalizar a vegetação do bioma sem considerar suas particularidades ou explorar a estranheza da conservação aliada à explicação intratextual, para trazer o leitor a esse ambiente que lhe é estranho. Também é possível alinhar essa estratégia a utilização de paratextos para explicar os termos conservados, ou em contexto de produção multimodal, a utilização de hiperlinks que direcionem a explicações complementares.
A presença de outros animais no conto ajuda a demarcar a diferença entre os animais comuns e a cachorra Baleia, protagonista do conto, portanto para traduzir esses animais, a estratégia escolhida foi similar à estratégia adotada para a tradução do Juazeiro, observada anteriormente:
Para lidar com as ocorrências de animais como os preás e a suçuarana, recorre-se a identificação de qual espécie se trata para a posterior aproximação da nomenclatura vernacular na língua de chegada. Os preás que são apresentados na narrativa correspondem a roedores do gênero cavia, da espécie Cavia Aperea, o gênero compreende desde os preás até algumas espécies de porquinhos-da-índia e possuem ampla distribuição na américa do sul (Furnari, 2011) e possuem como uma denominação generalista no inglês o nome vernacular cavies (Bays, 2006). A opção por utilizar uma denominação mais geral para traduzir o nome da espécie se dá para enfatizar a diferença existente entre Baleia e outros animais através da universalização limitada (Franco Aixelá, 2013) para substituir o termo por um mais comum.
O tratamento dado à tradução do nome vernacular Suçuarana, a Onça parda, felino de grande porte da espécie Puma concolor, que ocorre no Continente Americano, tanto em países da América do Sul, Central e do Norte, nos países anglófonos a espécie é reconhecida como Puma, Cougar e Mountain Lion (Nielsen et al., 2015). Seguindo novamente a estratégia de universalização limitada (Franco Aixelá, 2013), opto pelo nome vernacular Puma, que especifica a qual gênero e animal o termo se refere.
É importante destacar que a objetividade é uma característica de Graciliano Ramos, na percepção do autor de que a palavra foi feita para dizer; nesse sentido, no processo tradutório do texto é necessário estar atento à forma como o texto é construído para evitar que elementos desnecessários e ou descaracterizantes do estilo do autor sejam criados no texto de chegada. Ainda que o texto apresente um caráter poético em explorar os sentimentos da cachorra Baleia nos momentos que antecedem sua morte, a linguagem é utilizada de maneira bastante objetiva para demonstrar que Baleia era um animal diferente dos outros.
A diferença manifesta é observada nos aspectos construídos nas relações de significados, como a posição da cachorra na narrativa do conto em que só três personagens possuem nome (Fabiano, Sinha Vitória e Baleia) diferente das crianças que fazem parte da família; a exploração da mente, das emoções e do pensamento da cachorra; a consciência da personagem em relação ao dever enquanto parte da família e o próprio desaparecimento de sensações ao lentamente falecer. Desde o primeiro momento da narrativa, o leitor está ciente de que a cachorra Baleia estava para morrer, sem eufemismos, e atravessa a narrativa consciente do que é dito.
5. Considerações finais
Com os procedimentos discutidos anteriormente na tradução do conto Baleia do português para a língua inglesa é possível ter uma ideia geral do processo de tradução de um texto que apresenta marcações culturais e ambientais que, além da narrativa apresentada, revelam elementos que são oriundos e nativos de uma determinada região. Ao lidar com particularidades regionais como as apresentadas no bioma Caatinga, que possui sua distribuição somente no território brasileiro, mais especificamente na região Nordeste, o leitor e o tradutor se deparam com elementos que podem ser exclusivos dessa origem o que pode causar na tradução uma hibridização que pode descaracterizá-la.
Traduzir e comentar o conto que deu origem à uma obra10 denota um desafio ao processo tradutório, uma vez que por não estar vinculado ao todo que é a obra Vidas Secas, é preciso que a tradução compreenda que o conto é um espaço completo para o leitor e nem sempre vai referenciar elementos que são marcadores para a narrativa, como as menções ao bioma presentes no romance e outros elementos culturais presentes na narrativa. A importância de realizar uma tradução comentada se consolida na discussão do exercício tradutório, promovendo a autoanálise do processo de comentar a tradução para refletir e discutir as estratégias adotadas, pensando criticamente as escolhas realizadas.
Ao lidar com elementos particulares da cultura, como o nome da cachorra Baleia, é preciso observar significados e efeitos de sentido que podem ser compreendidos ou não pelo leitor, sendo a escolha pela forma como esse nome é traduzido uma forma de posicionar o percurso tradutório a ser escolhido. A escolha por conservar o nome, por sua vez, explora os sentidos que podem ser mantidos, como as oposições entre o animal e o nome; o animal e o ambiente e a relação entre o indivíduo que possui nome e os que não o possuem, marcados na narrativa. Essa escolha leva em consideração, ainda, a perda que ocorre no sentido da construção da superstição sobre o nome que é particular do contexto de partida e recorrente no estilo do autor, evidenciando que perdas e ganhos são parte do processo tradutório.
Ao explorar a tradução de elementos marcadores da vida silvestre que fazem parte do bioma, é possível observar o caráter interdisciplinar dos Estudos da Tradução, uma vez que, para lidar com tais elementos, o tradutor precisa lidar recursos pertinentes a outras áreas. Aqui, a escolha por conservar os elementos do bioma requereu que houvesse um cuidado na exploração das denominações taxonômicas das espécies citadas para justificar a conservação dos nomes vernaculares e as estratégias aplicadas para mantê-los, bem como no processo de observação da presença de espécies invasoras ou que ocorrem em biomas de países anglófonos para encontrar nomes vernaculares que possibilitam a tradução. Além disso, a exploração de documentos e bases de dados que descrevem a biota vegetal e animal possibilita entender a importância de certas espécies para o contexto de partida, compreendendo que a presença dos nomes não só demarca a espécie como também sua importância.
A estratégia de universalização limitada utilizada para lidar com elementos da vida animal denota que há diferentes possibilidades para apresentar essa biota presente no conto e que podem carregar sentido mesmo quando correspondem à gêneros taxonômicos ao invés de espécies. O processo tradutório também evidencia o delicado trabalho de lidar com o texto de Graciliano Ramos, marcado pela objetividade e brevidade do autor, e pela ausência de eufemismos e metáforas utilizando-se de uma linguagem direta e cortante, que o processo tradutório procurou considerar para que essa caraterística fosse conservada.
No texto do autor, o tradutor navega por um território árido como o que os retirantes enfrentam em Vidas Secas, precisando compreender que, assim como a Caatinga é um ambiente cuja vida está adaptada ao clima semiárido. O texto de Graciliano Ramos é árido e, nessa aridez, traz ao leitor os momentos finais da vida de um animal que sofre e sonha, sente e observa tudo ao seu redor. Por fim, não se espera prescrever formas de traduzir o texto de Graciliano Ramos, mas propor uma reflexão sobre as possibilidades de se traduzir o texto literário voltando o olhar para aspectos que denotam a interdisciplinaridade do processo tradutório, bem como as particularidades presentes em um determinado contexto.
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Conjunto de dados de pesquisa
Os dados da pesquisa fazem parte da tese de doutorado em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGET-UFSC).
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Financiamento
Não se aplica.
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Consentimento de uso de imagem
As imagens e mapas apresentadas neste artigo foram extraídas da base de dados Plants of the World e estão referenciadas no corpo do texto.
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Aprovação de comitê de ética em pesquisa
Não se aplica.
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Publisher
Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
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1
Apesar de o conto ter sido publicado em 1937, neste trabalho utilizo como texto de partida a publicação do conto na obra Os cem melhores contos brasileiros do século, de Ítalo Moriconi, publicada em 2009.
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2
O autor deste artigo realiza pesquisa em nível de doutorado acerca da tradução para a língua inglesa da obra, realizada por Dimmick. A pesquisa é desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina.
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No texto fonte: “Ramos can therefore treat the dog on very much the same level as her masters, as a member of the family” (Ramos, 1999, p. 25).
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4
“The number, types and names of strategies differ. As to the types of problems – often implicitly defined as a matter of (un)translatability rather than actual translation – we have works on how to translate metaphors, collocations, proverbs, puns, humour, forms of politeness, proper names, toponyms, culture-bound references, allusions, swear words, dialects, etc.” (Gambier, 2010, p. 413).
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5
Em entrevista no ano de 1948, trecho apresentado na contracapa da 31ª edição do livro Caetés (Ramos, 2006), da Editora Record, e utilizada para ilustrar o website do autor.
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6
O conto traduzido foi publicado na seção “Traduções literárias” da Revista Belas Infiéis (v. 13, n. 1) no ano de 2024, sob o título “‘Ela era como uma pessoa da família’: uma tradução do conto Baleia (1937), de Graciliano Ramos, do português brasileiro para a língua inglesa” (Marcelino, 2024).
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7
Nesta seção estão apresentados fragmentos da tradução realizada (Marcelino, 2024).
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8
O sistema de Lineu descreve em dois nomes, o primeiro correspondendo o gênero e o segundo à espécie, elementos da vida em geral, auxiliando a localização e identificação de animais, vegetais, fungos etc. (Prestes et al., 2009).
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9
A base de dados d Plants of the world online apresenta, ainda, as nomenclaturas no espanhol para a espécie: Retamo, yabo, yaba, yayo, sauce, retama, sauce guajiro, mapuja, palo de rayo, palo verde mexicano, espinillo, turco, retaima (Plants of the World Online, 2024).
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10
Dito pelo próprio Graciliano Ramos em carta para o jornalista João Condé no ano de 1944, a carta faz parte do acervo da USP e a descrição do conteúdo está disponível para acesso online: http://200.144.255.59/catalogo_eletronico/fichaDocumento.asp?Documento_Codigo=229447.
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Editado por
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Editores de seção
Andréia Guerini – Willian Moura






Fonte: Autor (2025)
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