Resumo
Durante a pandemia da COVID-19, o mundo foi desafiado a aprender a enfrentar um novo vírus e a grave doença que ele potencialmente causava. Graças aos esforços colaborativos de pesquisadores e pesquisadoras ao redor do planeta, em um curto período de tempo, muito se descobriu sobre a doença. No início, porém, enfrentamos incertezas, falta de informações confiáveis e muito receio. Nesse contexto inicial da pandemia, nós, docentes do curso de Letras da Universidade Federal da Bahia, criamos o projeto de extensão Tradução voluntária de materiais informativos relacionados à COVID-19. Este projeto teve como objetivo principal traduzir gratuitamente para o inglês pesquisas científicas sobre a COVID-19 que vinham sendo realizadas no Brasil, ajudando assim a disseminar conhecimento local para o mundo, e, ao mesmo tempo, desenvolver um projeto pedagógico de tradução que aproximasse os/as estudantes dos desafios reais enfrentados pela sociedade. Este artigo descreve o desenvolvimento do projeto, alguns dos resultados alcançados e os aprendizados obtidos. Discutimos a importância de uma pedagogia crítica de tradução que aborde as necessidades e desafios do contexto social local e que se baseie em um trabalho colaborativo, interativo e dialógico. O projeto envolveu estudantes voluntários que, sob orientação dos docentes, traduziram 35 textos acadêmicos e materiais informativos sobre a COVID-19. A experiência proporcionou uma oportunidade de aprendizado crítico, prático e socialmente engajado, destacando a importância da universidade para a produção e divulgação científica e demonstrando o papel vital da tradução na disseminação de informações científicas durante crises globais.
Palavras-chave
pandemia de covid-19; projeto voluntário de tradução; pedagogia crítica da tradução; contribuição social
Abstract
During the COVID-19 pandemic, we were challenged to learn how to face a new virus and the severe disease it potentially caused. Thanks to the collaborative efforts of researchers around the globe, much was discovered about the disease in a short period of time. Initially, however, we faced uncertainties, a lack of reliable information, and significant fear. In this early context of the pandemic, we, the faculty of the Letters course at the Federal University of Bahia, created the extension project Voluntary Translation of Informative Materials Related to COVID-19. The main objective of this project was to translate scientific research on COVID-19 conducted in Brazil into English for free, thereby helping to disseminate local knowledge to the world while developing a pedagogical translation project that connected students with the real challenges faced by society. This article describes the development of the project, some of the results achieved, and the lessons learned. We discuss the importance of a critical translation pedagogy that addresses the needs and challenges of the local social context and is based on collaborative, interactive, and dialogical work. The project involved volunteer students who, under the guidance of faculty members, translated 35 academic texts and informative materials about COVID-19. The experience provided an opportunity for critical, practical, and socially engaged learning, highlighting the importance of the university in scientific production and dissemination and demonstrating the vital role of translation in spreading scientific information during global crises.
Keywords
COVID-19 pandemic; voluntary translation project; critical translation pedagogy; social contribution
1. A conexão de saberes em tempos de incerteza
No dia cinco de maio de 2023, a Organização Mundial da Saúde declarou encerrada a Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) referente à COVID-19. Era o fim de mais de três longos anos de pandemia que levou, só no Brasil, a mais de 700 mil mortes (Coronavírus/Brasil, 2025). Nesse período, lamentavelmente, fomos confrontados em alguma medida com o luto provocado pelas complicações causadas pela doença e testemunhamos as consequências deixadas por ela na forma de diversas sequelas físicas (Rocha, 2022) e emocionais (Garcia & Campos, 2022). Quando a COVID-19 surgiu e começou a se espalhar na China, no final de 2019, parecia um evento distante, do outro lado do planeta, e que não chegaria com a mesma intensidade ao Brasil. Poucos meses depois, porém, no primeiro semestre do ano de 2020, a doença chegou em solo brasileiro, transformando, de forma abrupta, a vida de toda a população.
No primeiro ano da pandemia, havia poucas informações confiáveis sobre a doença. Não sabíamos qual era sua taxa de letalidade, como poderíamos nos infectar e nem a distância segura que deveríamos manter uns dos outros para evitar contágios. Passamos a evitar sair de nossas casas e as ruas de diferentes cidades do país ficaram vazias. Cinemas, academias, bares, restaurantes, shopping centers, escolas e universidades fecharam suas portas em meio às medidas de proteção impostas por autoridades municipais e estaduais contra a pandemia (Agência Brasil, 2020). Diante da inércia do governo federal (Castro et al., 2021), governadores/as e prefeitos/as adotaram políticas de abrangência local abrindo, por exemplo, leitos de UTI emergenciais para atender à crescente demanda por tratamento.
A falta de informações confiáveis e precisas sobre a doença produzia um clima generalizado de tensão e insegurança. Ao mesmo tempo em que profissionais da saúde buscavam os meios de comunicação pedindo para que ficássemos em casa, utilizávamos máscaras e mantínhamos o afastamento social, pois ainda não havia tratamento disponível para a doença, alguns empresários e políticos afirmavam que as máscaras não funcionavam e que alguns remédios antiparasitários ou indicados para combater a malária eram eficazes no tratamento da doença. Além disso, aparentemente mais preocupados com os impactos econômicos do que com a saúde da população, diminuíam a gravidade da COVID-19, chamando-a de “gripezinha” (BBC News Brasil, 2020), pedindo para que voltássemos ao trabalho e à rotina.
Foi nesse contexto, em meio às incertezas e a diversas informações contraditórias durante um período de isolamento sem previsão de término, que nós, professores/as da área de língua inglesa da Universidade Federal da Bahia, decidimos tentar ajudar a combater a desinformação e, concomitantemente, oferecer uma oportunidade de aprendizado para nossos/as alunos/as durante a suspensão formal das aulas. Idealizamos, então, um projeto que tinha como objetivo imediato ajudar a levar os resultados de pesquisas científicas que vinham sendo realizadas sobre a COVID-19 no Brasil a um maior número de pessoas através da tradução gratuita desses trabalhos para o inglês. Também nos propusemos a traduzir para o português pesquisas realizadas sobre a COVID-19 em outros países. Nascia, assim, o projeto Tradução voluntária de materiais informativos relacionados à COVID-19, desenvolvido durante dois semestres letivos, em dois projetos de extensão sequenciais.
Durante o ano de 2020, o projeto traduziu 35 textos acadêmicos (majoritariamente pesquisas de diferentes áreas do conhecimento como saúde, direito, ciências humanas etc.) e materiais informativos de diferentes fontes sobre a COVID-19. Essa diversidade reflete a compreensão que, embora a saúde seja o enfoque principal em uma pandemia, todas as áreas do conhecimento desempenham papeis fundamentais na resposta a uma crise de saúde global. Onze das traduções que realizamos foram posteriormente publicadas e são rastreáveis na forma de e-books, folhetos informativos e artigos científicos, ampliando assim o alcance e o impacto desses estudos. Algumas das traduções que não são rastreáveis na internet foram solicitadas pela Secretaria de Saúde do Estado da Bahia e pelo Ministério da Saúde do Brasil, possivelmente para uso interno.
No cerne desse desafio, identificamos uma oportunidade de integrar o aprendizado acadêmico a uma resposta prática à crise pela qual passávamos. Percebemos a importância da tradução para difundir informações científicas e diretrizes de saúde produzidas em diferentes países e, consequentemente, em diferentes línguas. No cenário de uma pandemia causada por uma doença ainda em grande medida desconhecida, especialmente no seu primeiro ano, a tradução tanto de pesquisas quanto de orientações sanitárias baseadas em evidências científicas tornou-se um serviço à comunidade científica e um ato de serviço público essencial para garantir que informações confiáveis fossem disseminadas e compreendidas de forma célere.
Naquele contexto, vimos a possibilidade de trabalhar com os/as estudantes do curso de Letras - Língua Inglesa, colocando-os/as na posição de agentes ativos/as em um momento de crise. Oferecemos-lhes a oportunidade de entender a tradução não apenas como uma habilidade linguístico-cultural necessária para o exercício de uma profissão, mas também como uma ferramenta de engajamento, conscientização e responsabilidade social.
Hoje, passada a crise, analisando em retrospecto o rápido avanço das ciências no combate à COVID-19, identificamos com mais nitidez o importante papel que a tradução e o/a tradutor/a desempenham na sociedade, especialmente em situações de crise global. Observamos também, como a tradução pode ser utilizada como instrumento de combate às desigualdades epistêmicas (Liu & André, 2018), levando conhecimentos produzidos em países fora do eixo hegemônico para o restante do mundo.
Todo o projeto pode ser definido como uma intervenção educacional contextualizada e multifacetada, voltada a contribuir para o enfrentamento de uma crise de saúde global, principalmente através da difusão de conhecimento local por meio da tradução. Enquanto grupo de docentes e discentes, a dinâmica do projeto permitiu-nos: construir e praticar habilidades acadêmicas, desenvolvendo conhecimentos dentro de uma abordagem interacionista; refletir criticamente sobre a relação entre valores sociais e educação; e trabalhar com tradução colaborativa baseada em um diálogo horizontal e minimamente hierarquizado entre discentes e docentes.
A experiência da tradução colaborativa em meio a uma crise sanitária global proporcionou a todas as pessoas envolvidas no projeto uma experiência em que a educação e o trabalho de natureza prática se conectaram às necessidades emergenciais da sociedade, principalmente às de populações em situação de vulnerabilidade. Os/As tradutores/as que se voluntariaram tiveram a oportunidade de entender e de aprimorar suas competências tradutórias, e, concomitantemente, desenvolver empatia e senso de responsabilidade social, contribuindo para a mitigação da pandemia. Segundo Freire (2014b, p. 67), a educação autêntica implica em “transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a”, impulso que nasce a partir de um processo crítico e dialógico de conscientização. Nesse sentido, a inclusão de vivências reais e relevantes no programa acadêmico, principalmente durante períodos de turbulência, consolida o papel da educação como instrumento de conscientização e de transformação.
Nas próximas seções, discutimos algumas questões teórico-metodológicas sobre o projeto. Apresentamos, primeiramente, a implementação do projeto, incluindo divulgação e organização da equipe de trabalho. Em seguida, falamos sobre a dinâmica do projeto e suas rotinas internas desenvolvidas com base nos princípios de uma pedagogia de natureza crítica (Freire, 2014a, 2014b, 2014c, 2014d), interacionista (Vygotsky, 1989, 1991), colaborativa (Kiraly, 2012) e funcionalista (Nord, 2006; Nord, 2016; Reiss et al., 2014). Apresentamos também os resultados pedagógicos e sociais do projeto e demonstramos como os aprendizados foram construídos por meio de uma experiência descentralizada, crítica e transdisciplinar. Finalmente, destacamos a necessidade de desenvolvermos projetos acadêmicos que considerem: i) a importância de uma perspectiva pedagógica crítica de tradução, que se adapte às necessidades do contexto social e ii) a essencialidade do trabalho colaborativo na universidade pública para a construção de conhecimento socialmente relevante, dialógico e interativo.
2. A construção de um projeto voluntário de tradução
“[...] para combater esse vírus, temos de ter primeiro cuidado e depois coragem”
(Krenak, 2020, p. 6)
Iniciar o projeto Tradução voluntária de materiais informativos relacionados à COVID-19 em meio à pandemia apresentou desafios técnicos, logísticos e de natureza pessoal. Em meio a uma realidade de tensão e de afastamento social, definimos, de forma remota, as linhas gerais do projeto para apresentá-lo a estudantes interessados/as em participar como tradutores/as voluntários/as e depois a pesquisadores/as interessados/as em terem seus trabalhos traduzidos.
Após a divulgação em redes sociais e por e-mail, o projeto formou uma equipe de aproximadamente 30 estudantes que se voluntariaram, a maioria sem experiência com tradução. Dentre eles/elas, um era estudante do curso de Bacharelado Internacional e os/as demais estudantes de Letras Estrangeiras ou Letras Estrangeiras e Vernáculas (alguns/algumas na segunda graduação). Todos/as tinham proficiência linguística em inglês e português. Em sua maioria, eram discentes de licenciatura, sendo uma boa parte professores/as de inglês em formação do Núcleo Permanente de Extensão em Letras da Universidade Federal da Bahia (NUPEL-UFBA)1. Contamos também com as duas tradutoras em formação que à época atuavam no NUPEL, assim como uma tradutora que já havia atuado no programa na mesma função alguns anos antes. Por fim, também contamos com estudantes participantes de grupos de pesquisa que trabalham com tradução no Instituto de Letras. Para grande parte dos/das tradutores/as voluntários/as, porém, a tradução se apresentou como uma novidade ou uma prática incipiente dentro de seus estudos de Letras estrangeiras. Essa realidade diagnosticada se tornou um desafio pedagógico para o nosso projeto, como explicamos em seção posterior.
O passo seguinte foi elaborar e divulgar materiais que explicavam a natureza e os objetivos da iniciativa. A divulgação ocorreu principalmente através das redes sociais e dos canais de comunicação institucionais da UFBA, mas também através do envio de e-mails e de mensagens nas redes sociais de diferentes programas de pós-graduação do país.
Logo após o início da divulgação, começamos a receber textos acadêmicos de diferentes áreas, tais como direito, enfermagem, filosofia, psicologia e antropologia. Também recebemos materiais informativos produzidos em inglês sobre o vírus, SARS-CoV-2, e sobre a doença, COVID-19, que foram traduzidos para o português a pedido da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (SESAB) e do Ministério da Saúde do Governo Federal.
O projeto foi inicialmente planejado para terminar no primeiro semestre de 2020, período em que as aulas foram suspensas até a universidade se organizar para o ensino remoto no segundo semestre. Entretanto, sentimos a necessidade de estendê-lo e ampliá-lo devido à continuidade e agravamento da crise sanitária, e também em virtude da alta demanda por traduções. Para refletir melhor a natureza contínua da iniciativa, o enfoque na difusão de informação, a gratuidade dos serviços, assim como sua natureza prática e seus objetivos pedagógicos, o título do projeto foi então atualizado para Formação de tradutores/as na tradução voluntária de materiais informativos relacionados à COVID-19.
3. A dinâmica de trabalho
O processo de tradução dos textos foi organizado em três etapas. A primeira versão da tradução era realizada por um par de estudantes, que discutiam e negociavam os melhores caminhos para aquele material. Ao final, o/a professor/a orientador/a que acompanhava aquele trabalho fazia a primeira revisão e discutia os ajustes com os/as tradutores/as. Por fim, mais um par de docentes proponentes do projeto realizava uma segunda revisão do material. Após todo esse processo, o texto traduzido era enviado aos/às solicitantes.
Em prefácio a uma das obras de Paulo Freire, Silva (2015, p. 21) afirma que “[n]a educação, assim como no ensino em todos os seus passos, é indispensável o diálogo entre todos os participantes do processo educativo-docente”. Alinhados à essa perspectiva freireana, o projeto se caracterizou pela interação ativa entre todos/todas os/as envolvidos/as, seja na busca por soluções terminológicas, seja na tentativa de encontrar a estrutura e o estilo mais adequado para o texto considerando o gênero textual do material enviado2. Desde o início, todo o processo pedagógico foi marcado pela dialogicidade, onde os papeis de professor e estudante, muitas vezes se misturavam, resultando em aprendizados constantes para todos/todas os/as envolvidos/as.
Acreditamos que o projeto resultou em valiosos aprendizados para estudantes e professores e, ao mesmo tempo, contribuiu em alguma medida com os esforços de combate à pandemia. Inspirados por Freire (2014b, p. 96), que afirma que a educação “é uma forma de intervenção no mundo”, buscamos, portanto, desenvolver uma postura ativa tanto no aprendizado individual, quanto na conscientização sobre a necessidade de usar nossos aprendizados e conhecimentos para contribuir socialmente.
Vygotsky (1991) afirma que o processo de aprendizagem acontece na interação com outras pessoas e com o ambiente, o que significa que, para aprender, experimentamos relações mediadas pelo mundo e a elas atribuímos símbolos e significados, consolidando uma compreensão mais efetiva do nosso meio social e, ao mesmo tempo, evoluindo cognitivamente. Em outros termos, a interação com o outro tem um papel fundamental na aprendizagem: quando colocamos em prática nosso aprendizado – já consolidado – interagimos com o outro, desestabilizamos nossos processos mentais e os reorganizamos baseados na nossa realidade social.
Durante o projeto, todo o processo prático-pedagógico aconteceu em formato remoto, uma vez que estávamos em meio a um contexto de afastamento social. Optamos por utilizar um aplicativo de mensagens instantâneas para compartilhar e solucionar dúvidas imediatas e decidimos utilizar documentos compartilhados em nuvem para trabalharmos coletivamente nos textos e em tempo real. Promovemos também encontros virtuais de formação para discutir aspectos teóricos da tradução com exemplos tirados de nossas próprias experiências no projeto.
Os encontros foram essenciais para a união daquele grupo de indivíduos até então isolados em suas casas. Durante essas formações, trocamos experiências práticas e teóricas sobre terminologia, língua, discurso, cultura e outras questões com as quais nos deparávamos na prática tradutória. Nos encontros, discutimos o papel e o potencial da tecnologia no auxílio à solução de problemas de terminologia, léxico e sintaxe; conversamos sobre o estilo do texto acadêmico nos artigos científicos, gênero textual predominante no projeto, discussões essas que nos permitiram aprofundar questões de semelhanças e diferenças sobre o estilo acadêmico das línguas fontes e alvo, baseado em discussões sobre o gênero acadêmico (Swales & Feak, 1994; Swaeles, 2015). Tentamos, também, encorajar os/as tradutores/as a fazer alterações nos níveis sintático, semântico e pragmático com base nas estratégias tradutórias propostas por Chesterman (2022), grifando o conceito de que traduzir é, de alguma forma, mudar alguma coisa. Por fim, oferecemos um encontro de formação baseado em discussões éticas sobre a divulgação da verdade e da responsabilidade do/a tradutor/a na tradução de ciências seguindo as reflexões de Baker e Maier (2011) sobre a responsabilidade que tradutores/as e intérpretes têm com a sociedade, e que está acima da responsabilidade com solicitantes e autoras/es do texto.
O compromisso social sempre foi uma das prioridades do projeto. Desde o início, concordamos que não traduziríamos informações duvidosas sobre a condução da doença como sugestões de tratamentos não corroborados por evidências científicas. Trabalhamos, por exemplo, em dois textos de estudos de revisão de literatura sobre tratamentos farmacológicos que utilizavam a cloroquina, uma das grandes fontes de polêmicas e de embates ideológicos durante a pandemia. Os estudos, porém, apresentavam evidente rigor acadêmico e afirmaram não terem sido observados resultados positivos relevantes do fármaco no tratamento da doença.
4. As iniciativas de formação
Nesta seção, propomos discutir as escolhas teórico-metodológicas para a condução do projeto de formação a partir do contexto situacional em que ele ocorreu. Primeiramente, cabe destacarmos que nos baseamos nos preceitos de uma pedagogia crítica (Freire, 2014a, 2014b, 2014c, 2014d). Isso significa, dentre outros aspectos, que nossa participação como docentes e coordenadores/as do projeto foi, além de facilitadores do processo de aprendizagem (Vygotsky, 1991), de aprendizes em uma troca colaborativa de conhecimento.
Freire (2014b, p. 25) defende que o/a professor/a deve aprender com os/as alunos/as e criar um ambiente pedagógico aberto e democrático. Nas suas palavras, “Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro [...] quem ensina, aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”. Através das trocas dialógicas, tentamos criar em nosso projeto um ambiente de construção mútua, contínua e descentralizada de conhecimento. Ao ajudarmos os/as participantes a refletirem sobre conhecimentos tradutórios de forma contextualizada e inserida em suas realidades e na realidade daquele momento, também aprendemos com suas experiências e visões, enriquecendo nosso próprio entendimento e práticas pedagógicas, numa abordagem interacionista (Vygotsky, 1991).
Para criar um ambiente de formação nas condições acima propostas, precisamos também nos apoiar em teorias e metodologias próprias do campo disciplinar dos Estudos da Tradução. Sabemos que a formação de tradutores/as pode ter várias abordagens que variam conforme o contexto situacional do ensino e da aprendizagem. Os cursos superiores técnicos de Tradução oferecem uma formação aprofundada e contínua, permitindo que os/as estudantes participem de diversas discussões teóricas e atividades práticas tradutórias. Já em cursos de Letras, as disciplinas de tradução ofertadas costumam ser mais generalizadas para dar conta de uma visão panorâmica de teoria e prática. Nossa universidade não oferece um curso de graduação em tradução e os cursos em línguas estrangeiras apresentam poucas disciplinas (majoritariamente optativas) sobre a temática. Ainda assim, os/as estudantes de Letras (e áreas afins) podem se engajar em estudos e pesquisas na área de tradução através de grupos de pesquisa, iniciação científica e programas ou cursos de extensão. Foi também pensando nessa demanda não atendida de estudantes que desejam aprender mais sobre tradução que criamos esse projeto como uma atividade de extensão.
De acordo com Freire (2014c), uma pedagogia que se diga crítica, além de outras coisas, deve buscar uma educação que fomente a conscientização e a transformação da realidade, ela também deve incentivar os educandos a se tornarem agentes ativos de mudança. De forma semelhante, porém no contexto da pedagogia da tradução, Kiraly (2012) aponta para o lado positivo da noção de responsabilidade e ética na pedagogia da tradução através de uma abordagem baseada em projetos reais. Segundo o autor, trabalhar com questões reais e projetos de tradução para uso fora da sala de aula pode aumentar o senso de responsabilidade dos/das estudantes. Com a nossa realidade naquele momento, portanto, logo foi possível entender a urgência real em entregar textos traduzidos em pouco tempo para que as pesquisas pudessem ser acessadas em um contexto pandêmico. Por outro lado, como observado na seção anterior, sabíamos que muitos/as dos/as estudantes voluntários/as tinham pouca ou nenhuma experiência com tradução, necessitando assim de instruções pedagógicas mais constantes, além do monitoramento do/a orientador/a.
A teoria de tradução funcionalista alemã (Nord, 2016) foi escolhida como base direcionadora para o projeto. O funcionalismo aparece como uma teoria prática nesse sentido, especialmente por conta da Skopostheorie de Vermeer (Reiss et al., 2014) que vê todo o ato tradutório motivado pelo propósito da tradução. Nesse sentido, o nosso propósito era bastante nítido: a divulgação científica ou institucional de material informativo relacionado à COVID-19. Além disso, seguimos a teoria funcionalista proposta por Nord (2016) levando em conta a análise dos fatores extra e intratextuais dos textos-fonte para projetar o texto-alvo. Os fatores extratextuais se resumem a emissor/a, intenção, público, meio, lugar, tempo, motivo e função textual enquanto os fatores intratextuais são elencados pelo assunto, conteúdo, pressuposições, estruturação, elementos não-verbais (se houver), léxico, sintaxe e características suprassegmentais. Além disso, se observa o efeito causado, na análise do texto-fonte, e desejado, na projeção do texto-alvo (Nord, 2016). Com isso em mente, foi possível conhecer melhor nosso material e direcionar algumas prioridades de tradução aos/às estudantes. Essa metodologia nos permitiu compreender nosso corpus com mais detalhes e estabelecer prioridades de tradução, destacando as áreas de maior importância ou urgência. Por exemplo, ao longo do projeto, discutimos questões gramaticais, discursivas, de gênero e função textual pensando especificamente no público-alvo dos textos (dependendo do texto, poderia ser tanto o público em geral quanto um público mais específico, como pesquisadores/as de diferentes áreas de conhecimento, comunidade carcerária, médicos/as, famílias etc.).
Em uma situação ideal, a teoria funcionalista (ou qualquer outra teoria) seria discutida com mais profundidade a partir de leituras e análises textuais minuciosas antes de ser aplicada. Porém, o contexto de urgência não nos deu tempo suficiente para tal aprofundamento. Ainda assim, o projeto contou com encontros introdutórios com os/as estudantes para apresentar a proposta e definir de forma sucinta os seus fundamentos, enquanto as discussões mais aprofundadas foram realizadas ao longo de sua execução, de acordo com as necessidades que surgiam.
Os textos a serem traduzidos começaram a chegar logo após a divulgação do projeto nas redes sociais, justamente no momento em que a pandemia já se espalhava de forma intensa no Brasil. Procuramos aplicar os conceitos gerais do funcionalismo no projeto de formação, com enfoque em análises linguísticas, discursivas e contextuais dos textos que estavam sendo traduzidos.
Devido à urgência e à falta de tempo para aprofundarmos a teoria, elaboramos um texto instrucional para guiar algumas decisões tradutórias. Nord (2001) dedica parte de sua obra discutindo o papel da instrução fornecida pelo/a solicitante da tradução (brief). Essa instrução deve funcionar como um guia direcionador da tarefa tradutória de forma a descrever, implícita ou explicitamente, a situação pela qual a tradução é solicitada. Na esfera profissional, segundo a autora, o/a solicitante pode ter demandas específicas para a tradução que, se não comunicadas previamente ao/à tradutor/a, podem levar a um acordo frustrado entre as partes (por exemplo, limite de caracteres excedido, terminologia muito geral/muito específica para um determinado público etc.).
Considerando esses aspectos, o texto instrucional padrão construído poderia ser ajustado a cada situação, conforme a demanda e a nossa realidade. As instruções levaram em conta a condição pedagógica do projeto e níveis iniciantes de competência tradutória. Além disso, conforme a nossa nova rotina e realidade se estabelecia, também aprofundávamos as nossas instruções. Ao final do projeto, nosso brief levou em consideração os seguintes fatores:
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Comportamento tradutório: Implementamos alguns comportamentos básicos para a tarefa de tradução como, por exemplo, uma leitura completa do texto-fonte antes de iniciar a tradução e uma leitura final do texto-alvo antes de enviá-lo para revisão. Essa é uma forma mais profunda de conhecer os contextos fonte e alvo de forma a perceber quais são as prioridades tradutórias do texto (Nord, 2006). Também os/as encorajamos a deixar as dúvidas e comentários na sua tradução para melhor estabelecer um diálogo com os pares e com o/a orientador/a. Nesse sentido, compartilhamos as ideias de Arcego e Costa (2020) em que a colaboração entre aprendizes, entre aprendiz e professor/a etc. é um conceito-chave na pedagogia da tradução;
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Ações tradutórias intra-texto: Considerando majoritariamente o gênero acadêmico (mas não somente), levamos em consideração instruções relacionadas às normas de estilo (Swales & Feak, 1994; Swaeles, 2015), relembrando das especificidades de cada gênero textual recebido no contexto tradutório (James, 1989). Fornecemos, por exemplo, sugestões de pesquisa para lidar com nomes e siglas de instituições nacionais e internacionais em contexto, formas para trabalhar com citações diretas de tradução (evitando, por exemplo, a retrotradução) e reflexões sobre as diferenças do estilo acadêmico nas línguas fonte e alvo – por exemplo, o uso do impessoal, da voz passiva, da primeira pessoa, orações relativas, prolixidade, efeito de uma tradução hiper-literal etc. Esse conhecimento foi construído na prática a partir da observação de como os/as tradutores/as tomavam suas decisões e como negociávamos dialogicamente as soluções;
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Organização do processo: Considerando um trabalho colaborativo, também deixamos nas instruções a sequência geral de ações: recepção do texto (organização das duplas, fragmentação do texto, prazo de entrega para a primeira versão), consistência da dupla (estilo, léxico e terminologia), entrega da primeira versão, tradução-revisão, limpeza do texto, formatação e entrega. Nesse ponto, seguimos uma abordagem interativa (Vygotsky, 1991) na construção dos conhecimentos. No processo de construção da aprendizagem, vários processos internos de desenvolvimento mental tomam corpo quando o sujeito aprendiz interage com objetos – nesse caso os textos a serem traduzidos – e com os demais sujeitos em cooperação. É nessa relação que a aprendizagem é internalizada e é, de fato, considerada uma aprendizagem adquirida. Em outros termos, os processos interpessoais são transformados em processos intrapessoais. Durante o projeto, conseguimos observar esse processo acontecendo de forma constante ao notar que os participantes ganhavam mais autonomia na tradução de um trabalho para o outro. Foi possível identificar melhoria na pesquisa por terminologia para as traduções, mudanças nos usos de estruturas sintáticas da língua materna para a língua alvo e adaptações linguísticas necessárias para uma maior adequação textual.
5. O impacto do projeto
A última fase do projeto se dedicou a acompanhar os resultados das traduções realizadas. Ao encaminhar o material aos/às solicitantes, pedimos que publicassem uma nota com os créditos indicando os nomes dos/das tradutores/as e do projeto bem como nos informassem sobre sua publicação. A proposta era dar visibilidade ao projeto e principalmente ao trabalho dos/das estudantes. Compartilhamos a postura de Venuti (1995) quando afirma que tradutores/as são coautores/as, pois exercem seu poder criativo e de decisão em um processo de reescrita e, portanto, merecem o seu devido reconhecimento.
Em um artigo anterior (Pfau et al., 2021), construímos uma análise sobre os processos de tradução do projeto discutindo as negociações entre estudantes e docentes a partir de alguns recortes dos textos em edição (com comentários e marcações) mostrando discussões e ajustes léxicos, sintáticos, textuais e discursivos. Esse artigo foi escrito ainda durante o andamento do projeto, o que fez com que outras perspectivas, agora mais abrangentes, fossem observadas apenas após seu término.
Com o encerramento do projeto, no final do ano de 2020, a contribuição social ficou mais perceptível. Durante todo o ano de 2021, vimos a materialização de nossas atividades em publicações. Esses ecos se estenderam até 2022, ano em que o último artigo que traduzimos foi publicado. O legado duradouro do projeto serve como um lembrete da importância da colaboração acadêmica em resposta às necessidades sociais prementes, provando a importância da iniciativa durante a crise global de saúde.
Onze dos trinta e cinco textos traduzidos por meio deste projeto estão publicados na internet, a maioria em periódicos. Como o escopo do projeto não se limitou a artigos científicos, também traduzimos outros materiais informativos como e-books, diretrizes e cartilhas. O projeto traduziu, por exemplo, materiais sobre a COVID-19 destinados a serem compartilhados em hospitais, escolas e autarquias, os quais abrangiam tópicos variados, desde pesquisas sobre o uso de máscaras e diretrizes sobre equipamentos de descontaminação, até conselhos para como uma família pode tentar viver em segurança durante a pandemia.
Em dois marcos significativos para o projeto, a Secretaria da Saúde do Estado da Bahia nos solicitou a tradução para o português de alguns materiais escritos em inglês. O objetivo principal dessas solicitações era disponibilizar informações científicas sobre a COVID-19 produzidas em outros países às autoridades brasileiras que estavam responsáveis por tomar decisões de ordem pública, nos níveis estadual e federal, no enfrentamento da pandemia.
Para proporcionar uma visão mais ampla da variedade e alcance deste projeto, o quadro I a seguir apresenta os títulos dos onze textos que foram publicados e são rastreáveis em periódicos nacionais, internacionais ou na forma de artigos, e-books e cartilhas. Embora tenhamos traduzido muitos outros textos, optamos por exibir aqui apenas aqueles que foram publicados, pois refletem de maneira mais concreta o impacto social alcançado pelo projeto. Cada item apresenta também o assunto do texto para melhor compreender a abrangência do trabalho e da diversidade de campos de conhecimento que se voltaram para entender, combater e refletir sobre a COVID-19.
Os textos tratam desde a resposta da atenção primária à COVID-19 em diferentes países, passando pela legislação brasileira em tempos de pandemia, até o impacto da COVID-19 nas populações marginalizadas, como a comunidade negra e carcerária. Essas publicações também exploram a reorganização do trabalho de agentes comunitários de saúde, discutem estratégias farmacológicas para o manejo da doença, analisam os desafios enfrentados pelas famílias durante a pandemia e outros impactos sociais e psicológicos marcados no período.
Ressaltamos também que a maioria dos textos traduzidos são resultado direto dos esforços de pesquisadores/as que trabalharam em cooperação durante a pandemia para construir conhecimento sobre a COVID-19. O quadro acima revela que a maioria dos textos é coautoral (dez textos em um total de onze), o que sugere que a comunidade acadêmica, nas mais diversas áreas de conhecimento, estava unida no objetivo de entender a doença e descobrir formas de se enfrentar a pandemia. A diversidade de campos do conhecimento abordando a crise a partir de suas respectivas especialidades e perspectivas reforça também a importância da colaboração interdisciplinar. Divulgar esses materiais a um maior número de leitores/as a partir de uma língua de alto alcance como o inglês fez com que o projeto também tornasse visível o trabalho cooperativo realizado nas universidades brasileiras durante a pandemia, instituições que desempenharam um papel crucial na produção e disseminação de conhecimento científico. Além disso, todos os textos foram publicados em acesso aberto, o que faz com que esses trabalhos possam alcançar um número ainda maior de leitores.
6. Os aprendizados
De todos os impactos, o mais significativo foi a experiência extensionista de poder proporcionar aos/às estudantes de nossa universidade uma formação crítica, interacional, real e prática, construindo conhecimento a partir de necessidades reais e com resultados concretos para a sociedade em um momento de grave crise. Em um momento tão difícil, foi muito positivo poder encontrar tantas pessoas dispostas a participar do projeto e, principalmente, a ajudar a combater a pandemia em seu momento mais crítico.
Em sintonia com os ensinamentos de Paulo Freire, oferecemos uma experiência pedagógica de natureza eminentemente prática, que foi além da exposição de conhecimentos técnicos e descontextualizados, e obtivemos resultados positivos, tais como: a) a consciência sobre o processo tradutório dos/as estudantes que relataram, em diferentes momentos, a importância de conhecer o texto-fonte a partir dos seus objetivos, gênero textual e discurso para produzir uma tradução com enfoque nessas prioridades; b) A recepção do projeto, destacada pelos/as solicitantes, informando o atendimento de suas necessidades e a repercussão de seus artigos científicos; c) a sensação de colaboração social que os/as estudantes compartilharam durante e após a conclusão do projeto; d) as trocas de experiências entre discentes e docentes, que levaram a um aprendizado contínuo e efetivo; e) a continuidade no interesse em tradução de alguns/mas estudantes que, posteriormente, defenderam seu TCC e/ou dissertação de mestrado no campo da tradução, entraram em grupos de pesquisa de tradução na UFBA e foram bolsistas no eixo de tradução do NUPEL. Freire (2014b) ressalta a relevância de uma educação que não só ensine habilidades técnicas, mas também promova uma mentalidade crítica nos estudantes, possibilitando que questionem e modifiquem a realidade social em que estão inseridos. “Transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador” (Freire, 2014b, p. 34).
O projeto também mostrou a importância dos esforços colaborativos, não apenas em tempos de crises globais de saúde, mas também como práticas frequentes no combate aos mais diversos problemas sociais e humanos, e como a educação pode e deve fazer parte desses esforços. É fundamental, portanto, aproximar as práticas pedagógicas dos problemas que enfrentamos como sociedade, promovendo uma educação que não apenas informe, mas que também inspire ação para a transformação.
Através do mergulho em diversos textos e pesquisas em diferentes áreas do conhecimento, pudemos aprender e refletir sobre inclusão, acessibilidade, desigualdades de gênero e raça e o impacto do ensino remoto na pandemia. A tradução de estudos abordando grupos minoritários, por exemplo, nos permitiu uma maior compreensão a respeito das violências a que essas pessoas são submetidas, especialmente em tempos de crise, e pode contribuir para o sucesso de ações efetivas que combatam comportamentos e políticas de exclusão e de violência.
Outro destaque importante foi o fato de que mesmo durante o isolamento social, os/as participantes tiveram a oportunidade de desenvolver competências relevantes nas áreas de tradução, leitura, escrita e comunicação intercultural. O projeto foi, portanto, uma maneira de mitigar as consequências do isolamento, transformando um período que para muitos foi de ócio e solidão em uma experiência pedagógica produtiva, colaborativa e assistencial. Dessa forma, os/as participantes não apenas aprimoraram suas habilidades, mas também contribuíram para a comunidade, tornando o tempo de isolamento um período de crescimento pessoal e de impacto positivo na sociedade
Em termos de aprendizado instrumental, foi preciso uma diversidade de recursos digitais para investigar aspectos linguísticos e culturais relevantes, incluindo corpus paralelo, dicionários bilíngues e monolíngues, enciclopédias e notícias sobre o tema nas duas línguas. Esse processo realçou a importância da flexibilidade e adaptabilidade no ambiente de aprendizagem, principalmente quando se enfrentam desafios reais e urgentes como os apresentados pela pandemia.
Com base nos preceitos de uma pedagogia de orientação freireana, ou seja, uma prática educativa que não se limita apenas à transferência de conhecimento técnico, nosso enfoque foi a conscientização crítica, o diálogo, o questionamento e a educação como um meio de liberdade, visando a humanização dos estudantes e sua habilidade de agir na realidade, baseada na ética e justiça social (Freire, 2014a, 2014b, 2014c, 2014d).
Finalmente, destacamos a importância da universidade como um corpo coletivo na divulgação de informações científicas e a continuidade da atividade acadêmica durante a pandemia. Através dela, pudemos realçar a tríade ensino, pesquisa e extensão, demonstrando a construção coletiva de conhecimento em constante diálogo com a sociedade. Reconhecemos, também, que embora nossa contribuição tenha sido relevante, ela foi apenas uma pequena parte de um vasto conjunto de esforços necessários durante a pandemia. A atuação incansável dos profissionais de saúde e os trabalhos dos/as pesquisadores/as foram essenciais para enfrentar a crise.
Em suma, ao mesmo tempo desafiador e recompensador, o projeto reforça a importância de esforços conjuntos, não apenas em tempos de crises globais de saúde, mas também como práticas frequentes no combate aos mais diversos problemas sociais e humanos. Além disso, este projeto enfatiza a relevância pedagógica e social de uma proposta de ensino que enfrenta problemas reais, ancorada na realidade dos/das alunos/as e promovida através de um diálogo colaborativo.
Agradecimentos
Agradecemos ao Núcleo de Pesquisa e Extensão em Letras (NUPEL) pelo suporte fornecido, incluindo a disponibilização das plataformas necessárias para a criação e manutenção do projeto, bem como à UFBA pelo apoio institucional.
Declaração de disponibilidade dos dados da pesquisa
Os dados desta pesquisa, que não estão expressos neste trabalho, poderão ser disponibilizados pelos autores mediante solicitação.
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Conjunto de dados de pesquisa
Os dados fazem parte do projeto de extensão Tradução voluntária de materiais informativos relacionados à COVID-19. Todo o material publicado e não publicado utilizado para o projeto foi organizado em uma pasta compartilhada no Google Drive.
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Financiamento
Não se aplica.
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Consentimento de uso de imagem
Não se aplica.
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Aprovação de comitê de ética em pesquisa
Não se aplica.
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Publisher
Cadernos de Tradução é uma publicação do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, da Universidade Federal de Santa Catarina. A revista Cadernos de Tradução é hospedada pelo Portal de Periódicos UFSC. As ideias expressadas neste artigo são de responsabilidade de seus autores, não representando, necessariamente, a opinião dos editores ou da universidade.
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Núcleo extensionista do Instituto de Letras que oferece aulas de línguas, escrita e tradução para a comunidade externa à UFBA. Para mais informações, consulte: http://www.nupel.ufba.br/.
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Ressaltamos que, em tempos de pandemia, muitos termos eram novos e a aplicação deles em texto e contexto também geraram variações linguísticas (Clempi & Balestero, 2021) demandando, assim, bastante pesquisa e discussões entre a equipe.
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Editores de seção
Andréia Guerini – Willian Moura
