Open-access Ensino e aprendizagem de línguas: Orientações gramaticais e discursivas

Os dez artigos desta edição são o resultado do desenvolvimento e da reescrita de textos apresentados no simpósio Ensino e aprendizagem de línguas; orientações gramaticais e discursivas, organizado em novembro de 2022 como parte do 13º Congresso Brasileiro de Linguística Aplicada (CBLA).

O simpósio Ensino e aprendizagem de línguas; orientações gramaticais e discursivas teve como objetivo confrontar reflexões teóricas e dados empíricos relativos a três grandes questões no ensino línguas. A primeira questão abordada no simpósio foi a da natureza da relação entre os princípios, programas e práticas concretas de ensino de línguas e os dados disponíveis (teóricos ou práticos) sobre o comportamento e os processos implementados pelos alunos no seu desenvolvimento cognitivo e, portanto, em princípio, na sua aprendizagem escolar eficaz, envolvendo, por exemplo, os tipos de raciocínios (Bronckart, 2006) e as reflexões. A segunda questão abordada no simpósio estava ligada à relação entre, por um lado, as abordagens de ensino e os processos de aprendizagem relativos aos chamados conhecimentos "gramaticais" e, por outro, as abordagens e processos relativos às práticas verbais concretas ou "discursivas" (Gagnon & Bulea Bronckart, 2017). A terceira questão que abordamos no simpósio estava relacionada ao estatuto e ao papel atribuído à questão do sentido (sentido, semântica etc.) no ensino e aprendizagem das línguas (Bulea Bronckart & Bronckart, 2017). Até meados do século XX, os programas de ensino visavam o domínio de uma "gramática" combinando critérios semânticos e sintáticos. A maioria das gramáticas, programas e métodos desde então descartou ou reduziu questões de significado. No entanto, muitas análises das práticas de ensino mostram que os alunos, mas também muitos professores, envolvem muito frequentemente critérios ou raciocínios significativos nas interações didáticas.

O número em questão retoma as apresentações do simpósio incluindo as discussões que nele ocorreram e propõe um espaço de reflexão e confrontação entre diferentes perspectivas. Como mostram os títulos e o conteúdo dos artigos, duas questões relacionadas foram abordadas. A primeira diz respeito aos problemas apresentados nos programas e abordagens de ensino de idiomas pela relação entre esses dois tipos de objetos: de um lado, o conhecimento “gramatical” e, de outro, o domínio e o desenvolvimento de práticas verbais ou “discursivas” adaptadas a situações comunicativas. Duas indagações importantes foram colocadas nessa área: a dos objetivos - e dos métodos adotados - no ensino centrado em práticas verbais concretas; e a dos tipos de relação estabelecidos nos currículos entre os domínios “gramatical” e “discursivo”. A segunda questão foi a natureza da relação entre os princípios, os currículos e as práticas concretas de ensino de idiomas e os dados disponíveis (teóricos ou práticos) referentes aos comportamentos e processos usados pelos alunos em seu desenvolvimento cognitivo e, portanto, em princípio, em seu aprendizado escolar real.

No primeiro artigo, intitulado O conhecimento da “língua em ação”: interpelações teóricas e didáticas, Antónia Coutinho aborda a questão do estatuto atribuído no ensino ao texto, ao discurso e à gramática, bem como a questão das interações dos três termos numa abordagem didática centrada na língua em ação. Com base na obra de Saussure e no arcabouço teórico do interacionismo sociodiscursivo (ISD), a autora examina as possibilidades de estabelecer uma abordagem didática do texto que interaja positivamente com as dimensões gramaticais e de desenvolver uma abordagem didática que integre os níveis do texto, do discurso e da gramática. A fim de fornecer uma base para a implementação dessa abordagem, ela primeiro propõe um corpus de noções envolvidas que enriquece a perspectiva do ISD e de Saussure (2002), com propostas de Volochinov (1977) e Coseriu (1980) em particular. Segue-se uma análise das abordagens de ensino de línguas no nível secundário em Portugal, que mostra que o objetivo de vincular os objetos texto, discurso e gramática não é de fato alcançado, sendo os aspectos textuais e discursivos absorvidos pela abordagem gramatical. Em terceiro lugar, apresenta elementos de um programa de pesquisa (DiTo) destinado a estabelecer uma didática integral da língua, segundo o qual a didática do texto, para ser implementada, não pode prescindir de uma didática da gramática.

No artigo Dos conhecimentos gramaticais à sua mobilização no discurso: representações de professores sobre práticas de ensino da gramática em francês como língua estrangeira (FLE), Eliane Lousada, Emily Da Silva e Naiara Duarte analisam as representações construídas por professores sobre o ensino da gramática em transcrições de reuniões de formação filmadas. Usando o ISD como base teórica, as autoras examinam como os professores estabelecem um caminho para o ensino do FLE com base na relação entre o conhecimento gramatical e o conhecimento discursivo. Os dados são provenientes de um programa de formação para professores brasileiros de FLE (Lousada, 2017), do qual participaram quinze professores e quatro instrutoras. O sistema foi concebido com base em uma articulação entre as orientações da Didática de Línguas e duas ciências do trabalho, a Ergonomia da Atividade dos Profissionais da Educação (Faïta, 2004) e a Clínica da Atividade (Clot, 1999). Os resultados mostram uma diferença entre os percursos didáticos elaborados por professores novatos e experientes: enquanto os novatos veem os fatos linguísticos como algo desconectado dos elementos discursivos, os professores experientes reconhecem uma relação de interdependência entre os dois.

Matilde Gonçalves, em seu artigo Relações entre texto e gramática: compreensão do sentido textual e percurso didático, examina as relações que podem ser estabelecidas entre as dimensões gramatical e textual na análise de textos literários. A autora inicia com uma análise dos documentos portugueses que regem a prática docente, enfocando as formas como a relação entre gramática e texto é definida e apresentada. Em seguida, examina um texto do livro didático do Ensino Fundamental sobre a construção do sentido e mostra que a abordagem adotada nesse documento continua focada em frases ou enunciados, sem realmente abordar o problema da textualidade. Nos capítulos seguintes, a autora baseia-se na abordagem de J.-M. Adam (1992) das sequências textuais e no esquema da infraestrutura textual de J.-P. Bronckart (1999) para mostrar que as sequências desempenham um papel central na construção, organização e compreensão do conteúdo textual. Com base nisso, Matilde Gonçalves apresenta, a título de exemplo, a análise de um texto de um livro didático de língua portuguesa, bem como os exercícios que acompanham esse texto, cujo objetivo é desenvolver o conhecimento sobre textos descritivos e adjetivos. O exame desses exercícios mostra que eles se preocupam essencialmente com a detecção de marcas/unidades descritivas e não levam em conta os textos e as maneiras pelas quais eles constroem o significado. Para remediar essa deficiência, a autora, com base no trabalho de Adam, desenvolveu e testou uma grade de análise de observação para segmentos textuais que combina formas (linguísticas) e conteúdo (temático), como parte de uma abordagem geral centrada na inter-relação entre o conhecimento do idioma e os textos.

Em Entre syntaxe et sémantique : les raisonnements des élèves et des enseignants lors d'une activité grammaticale portant sur le complément de nom, Sandy Stoudmann & Ecaterina Bulea Bronckart apresentam e comentam parte dos resultados de um programa apoiado pelo Fonds national suisse de la recherche scientifique (FNRS), com foco nas dimensões sintáticas e semânticas das atividades gramaticais realizadas em turmas do ensino fundamental na Suíça francófona; uma parte relacionada ao ensino do objeto complemento do substantivo. Sob o subtítulo Éléments de cadrage théorique, as autoras analisam, em primeiro lugar, as concepções e definições da função de complemento do substantivo, tal como são apresentadas e definidas em um conjunto de livros didáticos e documentos da Suíça francófona e do mundo francófono; uma análise que revela que as definições propostas conferem propriedades a essa função que não podem diferenciá-las de outras estruturas e funções gramaticais. Em seguida, as autoras apresentam a orientação e as propriedades da metodologia de pesquisa adotada, que pede aos alunos (de 11 a 12 anos) que produzam um raciocínio que lhes permita decidir sobre a presença ou ausência dessa função gramatical em pares de frases e justificar suas respostas. Ao tratar esses dados, as autoras examinaram o papel desempenhado pelos argumentos de ordem sintática e semântica e seus respectivos efeitos sobre a compreensão dessa noção, e destacaram as armadilhas de uma abordagem sintática mecânica, bem como de uma abordagem puramente semântica, e o perigo de confundir essas duas dimensões.

Em A dimensão linguístico-discursiva na abordagem didática dos gêneros acadêmicos, Regina Celi faz um balanço do desenvolvimento dos estudos de gêneros textuais na educação brasileira. A autora examinou e comentou as várias direções tomadas, bem como os avanços e retrocessos dessas inovações nos últimos vinte anos e, para isso, analisou as experiências didáticas propostas em artigos científicos, resenhas críticas e documentos destinados ao ensino superior e à educação básica. Em particular, ela se concentrou nas iniciativas empreendidas pelo Atelier de Textos Acadêmicos (ATA), que se desenvolveram em duas direções: por um lado, a organização e a implementação de atividades de ensino de redação acadêmica voltadas para a comunidade universitária em geral; por outro lado, a análise das propriedades da arquitetura textual e a análise do conteúdo de artigos científicos relacionados a esse campo. A autora também relatou aspectos da história dos projetos didáticos brasileiros centrados em gêneros textuais, particularmente no âmbito do Simpósio Internacional de Gêneros Textuais/Discursivos (SIGET), e destacou o papel criativo desempenhado pelo livro Gêneros orais e escritos na escola, de Schneuwly & Dolz (2004). No âmbito das atividades do ATA, em particular, a autora realizou uma análise das práticas de letramento acadêmico e científico na educação básica, com foco na produção de três gêneros acadêmico-científicos: o artigo científico, o periódico e o artigo de divulgação científica (ADC). Os resultados indicam que, além dos aspectos sociofuncionais dos gêneros, a integração de elementos linguístico-discursivos ensináveis e interativos é fundamental para o desenvolvimento da competência escrita.

Matthieu Merhan e Anouk Darme-Xu apresentam um artigo intitulado Conceptualiser les valeurs des temps du passé : analyse de séquences d’enseignement sur l’opposition entre passé simple et passé-composé, que mostra as propriedades e alguns dos resultados da pesquisa incluída no programa da unidade Grafe'maire em Genebra sobre a relação entre gramática e textualidade, concentrando-se mais especificamente no problema teórico e didático do “valor dos tempos verbais do passado”. Os autores apresentam, primeiramente, um conjunto de propostas e conceitualizações do valor dos tempos verbais no passado na língua francesa, com base nas contribuições de vários linguistas e na conceitualização e distribuição dos tempos verbais em mundos discursivos propostos dentro da estrutura do ISD e, com base nisso, propõem um “mapa conceitual” do valor desses tempos. Em seguida, na pesquisa empírica realizada, os autores descrevem a sequência de interação estruturante (SIS) e a sequência de alternância próxima (SAR) propostas aos alunos, e analisam o raciocínio dos alunos em relação ao status e às propriedades dos dois sistemas temporais da língua francesa, ou seja, os pares passé simple/imparfait e passé composé/imparfait. Dando continuidade, eles indicam em detalhes o quadro metodológico de sua pesquisa, que distingue cinco posições enunciativas envolvidas na distribuição e no valor dos tempos verbais. Por fim, coletaram várias formas de conceitualização desses valores dos alunos, bem como hipóteses sobre os valores e possíveis formas de articular os tempos verbais, o que lhes permitiu destacar as respectivas contribuições dos dois tipos de sequência propostos.

Em O espaço da análise linguística/semiótica em documentos orientadores para a educação linguística na língua portuguesa, Eulalia Leurquin analisa as orientações para o ensino de português em dois documentos oficiais, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), publicados em 1998, e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), publicada em 2017. Essa análise enfoca o contexto histórico e sociopolítico em que esses documentos foram elaborados, os conceitos e as orientações para o ensino de gramática e de textos neles formulados, as condições de implementação dessas orientações e seus efeitos didáticos. A autora analisou detalhadamente a forma como os dois documentos oficiais apresentam as orientações para o ensino de texto, por um lado, e de gramática, por outro. De acordo com essa análise, os PCN, ao se basear nas teorias e análises linguísticas disponíveis na época, distanciou-se claramente das práticas tradicionais de ensino de gramática; a BNCC, por sua vez, reorientou parcialmente essa abordagem ao introduzir uma forma de análise linguístico-semiótica que confere à noção de texto um status multimodal mais complexo e que dá mais espaço ao trabalho contemporâneo sobre textos e discursos. A autora também realizou uma análise de aspectos da formação de futuros professores, examinando o conteúdo de seus relatórios de estágio, o que destaca as dificuldades que esses professores encontram para entender e usar as diretrizes da análise linguística/semiótica.

Em Práticas de leitura e de escrita no Ensino Fundamental I: Pibid como espaço de formação inicial, Ermelinda Barricelli aborda a questão da alfabetização, concebida como um processo de iniciação à escrita, à leitura e à consciência da relação entre grafemas e fonemas. A autora começou por se debruçar sobre o PIBID (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência), estudando, por um lado, como os alunos participantes desse programa promoveram o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita dos alunos do 5º ano do ensino fundamental e, por outro, examinando como o PIBID teve impacto na formação dos graduandos de pedagogia participantes. Para atingir esses objetivos, a autora analisou os relatórios finais dos Pibidianos e entrevistas com três professores da escola pública onde os Pibidianos atuavam. Os dados obtidos foram analisados por meio da estrutura do ISD, que fornece uma base para a compreensão das representações construídas nos e pelos textos. Essas análises mostraram que os licenciandos utilizaram os conceitos teóricos discutidos nos encontros de formação e os mobilizaram para promover a aprendizagem dos jovens alunos, que, aos poucos, foram se apropriando do sistema de escrita alfabética. De modo geral, a autora conclui que esse programa teve um efeito eficaz na formação dos graduados, que conseguiram desenvolver suas habilidades de ensino e se tornaram capazes de trabalhar em uma parceria teoria-prática.

Em seu artigo, O ensino da gramática: possibilidades didático-metodológicas diversificadas em projeto de formação continuada de professores de língua materna, Ana Maria Guimarães oferece um conjunto de reflexões sobre a possibilidade de diversificar o ensino da gramática por meio de três abordagens distintas: o gênero de texto; o próprio texto como produção verbal sem propriedades genéricas específicas; e o conhecimento relativo ao sistema da língua. A autora apresenta primeiramente um conjunto de observações sobre as práticas escolares, que revelam um tipo mecânico de ensino de gramática, essencialmente centrado na rotulação nocional. Ela também apresenta os resultados de uma pesquisa com professores, mostrando que a maioria deles parece não ter conhecimento do que constitui a análise linguística. Em seguida, concentra-se no exame da carreira de uma professora participante do projeto, que lecionava português em uma escola municipal; exame que revela como ela internalizou (ou não) as propostas de formação e como suas concepções a respeito do ensino de gramática se desenvolveram, ou não, durante essa formação. Os resultados dessa pesquisa mostram que a diversificação das opções metodológicas para o ensino da gramática - seja pela introdução de dimensões discursivas e enunciativas, seja pela implementação de uma abordagem morfossintática - pode enriquecer as concepções e o trabalho pedagógico dos professores.

Sob o título Texto, discurso e gramática no ensino de português como língua estrangeira: um caminho didático para uma abordagem articulada, Florencia Miranda relata o trabalho realizado com um grupo de pesquisa no contexto do ensino de português como língua estrangeira para alunos de língua espanhola. Para esse trabalho, a autora se baseou em propostas do interacionismo sociodiscursivo, em especial a concepção igualitária e interativa dos objetivos do ensino de línguas, e a implementação de abordagens didáticas destinadas a articular os domínios textual e gramatical. Com base nisso, ela desenvolveu uma abordagem didática capaz de articular esses assuntos e identificar os efeitos que essa abordagem pode ter no desenvolvimento das habilidades linguísticas dos alunos adultos. Para isso, elaborou e conduziu uma pesquisa com o objetivo de identificar e analisar a relação que pode ser estabelecida entre texto, discurso e gramática nas aulas de português. A pesquisa concentrou-se no ensino de biodatas e e-mails e envolveu uma análise das biodatas disponíveis, seguida da elaboração de biodatas com base em dados acadêmicos e da preparação de um e-mail de contato acadêmico. A análise das produções dos alunos revelou dificuldades que envolviam interferência entre as línguas portuguesa e espanhola, erros no domínio do português e erros relacionados ao status e às propriedades dos gêneros e tipos de discurso. Com base nessas reflexões e pesquisas, a autora elaborou intervenções de formação inspiradas especialmente no conceito genebrino das sequências didáticas, bem como uma metodologia didática que foi recebida positivamente pelos alunos em formação.

Ao propor uma reflexão atual sobre as orientações gramaticais e discursivas no ensino de línguas, este número contribui para a discussão sobre as intersecções e as dicotomias entre o conhecimento das estruturas linguísticas, de um lado e, de outro, o desenvolvimento de práticas discursivas adaptadas às situações de uso da língua. Ele também coloca em foco os objetivos e métodos de ensino, tanto gramatical quanto discursivo, e as relações entre as práticas educativas concretas e os currículos e documentos orientadores do ensino de línguas. Nessa perspectiva, o número traz contribuições importantes para essa reflexão que está sempre em debate no ensino-aprendizagem de línguas.

Referências bibliográficas

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    » https://doi.org/10.24933/horizontes.v35i3.559
  • Saussure, F. de (2002). Ecrits de Linguistique Générale PUF
  • Schneuwly, B., & Dolz, J. (2004). Gêneros orais e escritos na escola Mercado de Letras.
  • Disponibilidade de dados
    Não há dados empíricos na Apresentação deste número da revista.

Disponibilidade de dados

Não há dados empíricos na Apresentação deste número da revista.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Mar 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2025

Histórico

  • Recebido
    18 Nov 2024
  • Aceito
    15 Dez 2024
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