Open-access EEG quantitativo nos estudos sobre linguagem verbal em distúrbios cognitivos: uma revisão sistemática

Quantitative EEG in studies on verbal language in cognitive disorders: a systematic review

RESUMO

O uso do eletroencefalograma - EEG, com abordagem quantitativa, tem servido ao propósito de compreender o funcionamento do cérebro durante tarefas linguísticas. Há estudos que discutem o papel das frequências sobre a atividade cerebral em casos de distúrbios cognitivos que resultam em prejuízo linguístico. O objetivo deste estudo é centralizar e consolidar as pesquisas que discutem e detalham a presença e função das frequências no funcionamento cerebral, com uso de EEG quantitativo, analisando-as durante tarefas aplicadas a pacientes que apresentam algum tipo de distúrbio cognitivo relacionado a prejuízos linguísticos. O método é de revisão sistemática, com a busca, classificação e análise de pesquisas publicadas, até agosto de 2023, realizada em duas bases de dados (PubMed e Scopus). Os resultados gerais, de 11 publicações selecionadas (2006 a 2020), descrevem a região frontal e parietal do hemisfério esquerdo como de maior relevância para a competência linguística, onde a ocorrência mais significativa de delta e theta ou significativamente menor de beta e gamma, comparados a grupos controle, estão correlacionadas a prejuízos no desempenho das tarefas e a sintomas característicos dos distúrbios estudados.

Palavras-chave:
EEG quantitativo; Cérebro; Linguística; Linguagem verbal; Distúrbios cognitivos

ABSTRACT

The use of quantitative electroencephalogram (EEG) has served the purpose of understanding the functioning of the brain during linguistic tasks. There are studies discussing the role of frequencies on brain activity in cases of cognitive disorders resulting in linguistic impairment. The aim of this study is to centralize and consolidate research discussing and detailing the presence and function of frequencies in brain functioning, using quantitative EEG, analyzing them during tasks applied to patients presenting some type of cognitive disorder related to linguistic impairments. The method is a systematic review, with the search, classification, and analysis of published research up to August 2023, conducted in two databases (PubMed and Scopus). The overall results, from 11 selected publications (2006 to 2020), describe the frontal and parietal regions of the left hemisphere as most relevant for linguistic competence, where the most significant occurrence of delta and theta or significantly lower occurrence of beta and gamma, compared to control groups, are correlated with impairments in task performance and characteristic symptoms of the disorders studied.

Keywords:
Quantitative EEG; Brain; Linguistics; Verbal language; Cognitive disorders

1. Introdução

A perspectiva cognitivista do estudo da linguagem verbal compreende o estudo da língua como um objeto real no mundo natural - o cérebro, seus estados e suas funções - para, assim, “conduzir o estudo da mente em direção a uma eventual integração com as ciências biológicas” (Chomsky, 2005, p.33). Apesar do aumento considerável de estudos fundamentados no cérebro sobre a linguagem, a descrição da base neural subjacente ao processamento linguístico permanece como um difícil desafio (Friederici, 2011). Nesse sentido, o uso de instrumentos tecnológicos mais propícios para o estudo dos processos mentais da cognição tem servido à investigação de fenômenos linguísticos (Lage, 2013) e contribuído para a teoria linguística (Gouveia, 2011). As técnicas eletromagnéticas com o uso do eletroencefalograma - EEG são de excelente resolução temporal e apropriadas para o estudo das funções cognitivas (Harmony, 2013; Gouveia, 2011), incluindo a linguagem, com o registro dos sinais eletromagnéticos de conectividade produzidos para traçar os caminhos ou padrões de frequência na produção da linguagem (Lage, 2013).

O desenvolvimento tecnológico do EEG digital resultou em uma quantificação mais precisa das frequências. As medidas são normalmente classificadas por cinco bandas de frequência fundamentais, com suas características funcionais, definidas principalmente por seus limites espectrais: delta (<4 Hz), teta (4-7 Hz), alfa (8-12 Hz), beta (13-30 Hz) e gama (>30 Hz) (Gaudet et al, 2020). Um grande conjunto de evidências sugere que a oscilação de atividade em todas as faixas de frequência está ligada a uma ampla variedade de operações perceptivas, sensório-motoras e cognitivas (Harmony, 2013), incluindo o processamento de linguagem (Mai et al, 2016). De acordo com Spironelli e Angrilli, (2010), com exceção do ritmo delta, considerado um ritmo mais característico de inibição para atividades cognitivas, todas as outras bandas marcam diferentes níveis de integração cortical. Desse modo, é possível descrever o EEG em termos de seus componentes de frequência - variando de 1 a 100 Hz - em duas faixas funcionais principais: as bandas de baixa frequência (delta: 0,5-4 Hz; teta: 4-8 Hz; alfa: 8 -13 Hz), atribuindo amplo papel funcional de inibição cortical a ritmos lentos, e as bandas de alta frequência (beta: 13-30 Hz; gama: 30-100 Hz), associadas à ativação cortical e integração de redes neurais (Spironelli & Angrilli, 2010).

Com base nessas faixas funcionais, a ocorrência da linguagem verbal implica em ativações e integrações correspondentes à sua complexidade cognitiva, pois a linguagem representa o processo humano que requer o maior nível de integração entre e dentro dos hemisférios e está associada à lateralização hemisférica específica (Crow, 2004). Na verdade, a lateralização funcional do cérebro humano parece necessária para a plena realização do potencial linguístico (Spironelli & Angrilli, 2010). Assim, as bandas de alta frequência, beta e gama, podem representar, na dinâmica elétrica cerebral, aspectos característicos das funções linguísticas e com predominância de lateralização no hemisfério esquerdo. Reiterer et al (2011) identificaram alguns estudos que apontam relações entre a sincronização da banda gama e o processamento da língua nativa, e em sua própria pesquisa com falantes bilíngues, encontraram um padrão de ativação gama de interconectividade frontoparietal esquerda.

Por outro lado, a sincronização entre os neurônios em ritmos mais lentos no hemisfério esquerdo aponta para um resultado oposto, a exemplo da frequência delta (Spironelli & Angrilli, 2010). A banda delta, com maior ocorrência em adultos nas fases mais profundas do sono e fortemente reduzida durante os estados de vigília, “é considerada um marcador de lesão cerebral ou de condições patológicas decorrentes de dano neurológico ou doença psiquiátrica” (Spironelli & Angrilli, 2010, p. 259) quando tipicamente observada nos estados de vigília de pessoas adultas.

Estudos que investigam a correlação entre a presença de faixas funcionais de frequência em condições patológicas durante tarefas de desempenho linguístico são cruciais para a compreensão da relação entre o cérebro e a linguagem verbal. Nesse campo da neurociência da linguagem, contribuem para identificar caminhos ou padrões de frequência na produção da linguagem com o registro dos sinais eletromagnéticos de conectividade produzidos, bem como a ativação de regiões e estruturas do cérebro. Ademais, esses estudos também representam uma oportunidade valiosa para identificar indicadores de inibição cortical em casos de distúrbios cognitivos resultantes de dano neurológico ou condições psiquiátricas.

Dada a relevância deste tema e a dispersão dos trabalhos experimentais na literatura, este estudo tem como objetivo centralizar e consolidar as pesquisas que discutem e detalham a presença e a função das frequências no funcionamento cerebral, utilizando EEG quantitativo. Especificamente, busca-se a sua análise durante tarefas de natureza fonológica, semântica e/ou sintática de pacientes que apresentam algum tipo de distúrbio cognitivo relacionado a prejuízos no desempenho linguístico.

2. Método

Considerando o objetivo, o procedimento adotado foi o de uma revisão sistemática, com a busca de artigos publicados em inglês em duas bases de dados: Scopus e PubMed. A escolha das referidas bases de dados se deve ao fato de ser a Scopus a maior base de dados de resumos e citações de literatura revisado por pares, abrangendo diferentes áreas do conhecimento, enquanto a PubMed inclui citações e resumos de publicações na área biomédica e também registros de artigos ainda em fase de indexação, artigos de periódicos fora do escopo do MEDLINE. Já a definição do descritor de busca seguiu o critério de abarcar o mais amplo resultado de publicações, relacionando linguagem a EEG e linguística a EEG, uma vez que que essas palavras (linguagem e linguística) podem ser utilizadas para identificar estudos sobre a língua em sua expressão oral ou escrita. Acresce que o uso separado de uma dessas palavras compondo o descritor, resultou em resultados diferentes. Dessarte, o termo de busca adotado por fornecer resultados mais completos ou abrangentes foi: Language and linguistic and EEG.

Com base nesses critérios, a revisão seguiu as seguintes etapas: 1 - busca, nas referidas bases de dados, apenas de artigos e sem filtro aplicado para período de publicação; 2 - aplicação dos critérios de exclusão e inclusão dos artigos encontrados, após leitura dos resumos e, nos casos de informações insuficientes, do texto completo; 3 - definição das categorias de análise.

O resultado geral da busca foi de 351 artigos na Scopus e 92 na PubMed, somando o total de 443 artigos. Formado o banco de dados dos artigos encontrados, iniciou-se a segunda etapa com a aplicação dos seguintes critérios de exclusão e inclusão:

Critérios de exclusão:

  • Artigos repetidos e de revisão;

  • Pesquisas que não usam EEG;

  • Pesquisas que apenas fazem referência de outros estudos com uso do EEG para discussão teórica ou comparação de resultados com o uso de outras técnicas ou métodos;

  • Pesquisas que não apresentam dados coletados de EEG durante tarefas linguísticas;

  • Pesquisas que tem foco no estudo de outras linguagens e não da verbal;

  • Pesquisas que apenas relacionam os processos linguísticos a outros processos cognitivos (memória, competência musical etc) que sejam o objeto de estudo;

  • Pesquisas que utilizam técnica de extração de Potenciais Relacionados a Eventos (ERP).

Critério de inclusão: Artigos que utilizem EEG quantitativo para estudo da atividade cerebral durante tarefas linguísticas em participantes com distúrbios cognitivos decorrentes de dano neurológico ou doença psiquiátrica que resultem em prejuízo para o desempenho linguístico.

Feita a aplicação desses critérios, todos os artigos encontrados foram identificados e classificados (Tabela 1).

Tabela 1
Classificação dos dados da Etapa 2

Desse modo, foram 11 artigos selecionados, que atenderam ao critério de inclusão. A etapa seguinte foi proceder à definição das categorias de análise para classificação e consolidação dos resultados. Processo que seguiu o objetivo delineado para este trabalho de revisão, desdobrado por meio das seguintes perguntas: 1 - Quais os tipos de distúrbios estudados?; 2 - As tarefas seguem características em comum para registro de EEG?; 3 - O EEG e estatísticas utilizados têm os mesmos parâmetros?; 4 - Quais as frequências consolidadas nos resultados e que são mais pertinentes para o estudo do funcionamento cerebral durante a produção da linguagem verbal?; 5 - As evidências encontradas nos resultados indicam regiões ou áreas e estruturas do cérebro mais implicadas nas atividades linguísticas e em correlação com quais frequências?

Então, as categorias de análise foram assim definidas e sistematizadas: 1 - tipos de distúrbio, tarefas, EEG e estatística adotados (Perguntas 1, 2 e 3); 2 - frequências estudadas em correlação funcional com o desempenho das tarefas linguísticas e os tipos de distúrbios cognitivos que tiveram relevância enquanto resultado (Pergunta 4); 3 - áreas ou regiões do cérebro identificadas como relevantes para o desempenho linguístico nas diferentes tarefas linguísticas, conforme resultados significativos de cada estudo (Pergunta 5).

3. Resultados

Com o procedimento de busca e aplicação dos critérios de exclusão e inclusão, a classificação dos estudos evidenciou que a maior parte das pesquisas feitas com EEG para o estudo da atividade cerebral durante tarefas de linguagem verbal (fonologia, sintaxe e semântica), utilizou um método que representa a atividade do cérebro em resposta a um evento de estímulo específico, o potencial relacionado a eventos - ERP, correspondendo a 42% do total. Além disso, os poucos artigos de revisão encontrados (7,2%) delimitam seus objetivos apenas aos trabalhos que adotam o método ERP.

Por outro lado, os estudos que utilizam EEG quantitativo para investigação acerca da atividade cerebral durante tarefas linguísticas têm um quantitativo menor, correspondendo a 15% do total. Como resultado final dessa etapa, foram selecionados 11 artigos. A leitura e análise dessas pesquisas evidenciaram que a maior parte das publicações (09 artigos) é proveniente do trabalho de pesquisa de autores que compõem um mesmo grupo vinculado ao Instituto de Neurociência da Universidade de Padova - Itália. De um modo geral, todas as pesquisas selecionadas estão situadas no campo interdisciplinar da neurociência e envolvem as áreas de psicologia e psiquiatria. Essas publicações estão delimitadas entre os anos de 2006 e 2020.

Aplicada a primeira categoria de análise (1 - tipos de distúrbio, tarefas, EEG e estatística adotados), foram identificados 5 tipos de distúrbios estudados em suas correlações com a linguagem verbal, sendo 2 deles exatamente caracterizados por déficits fonológicos e de leitura na compreensão e expressão de palavras: Dislexia do Desenvolvimento - DD em 5 artigos (Spironelli et al, 2006; Penolazzi et al, 2008; Spironelli et al, 2008; Penolazzi et al, 2010; Power et al, 2016) e Afasia em 2 artigos (Spironelli & Angrilli, 2009; Spironelli et al, 2013). No entanto, os demais distúrbios pesquisados não se caracterizam por déficits linguísticos no conjunto de seus sintomas: Esquizofrenia em 2 artigos (Spironelli et al, 2011; Spironelli & Angrilli, 2015), Transtorno Depressivo Maior - TDM em 1 artigo (Spironelli et al, 2020) e o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade - TDAH em 1 artigo (Hale et al, 2010). Para esses transtornos, os estudos feitos estabeleceram como parâmetro fazer correlações entre os sintomas positivos característicos, com suas possíveis implicações no domínio linguístico, e as faixas de frequência correspondentes a regiões do cérebro ativadas durante as tarefas de linguagem verbal.

Quanto às tarefas, foram identificadas, de modo geral, 2 áreas da linguística: Fonologia e Semântica. As tarefas fonológicas estão presentes em todos os artigos e costumam ser de escuta e/ou apresentação de sílabas, palavras e frases curtas durante gravação do EEG. Com exceção do artigo sobre TDAH (Hale et al, 2010), as tarefas semânticas resumem-se a dois tipos: apresentação de pares de palavras que tenham ou não a mesma relação de sentido (exemplo de par correspondente: lã - linho), ou a apresentação de sentenças gramaticalmente corretas, mas com incongruência de sentido (exemplo: ontem nós comemos sapato no jantar). Embora sete estudos (Spironelli & Angrilli, 2009; Spironelli et al, 2013; Penolazzi et al, 2008; Spironelli et al, 2008; Penolazzi et al, 2010; Spironelli et al, 2011; Spironelli & Angrilli, 2015) apresentem tarefas identificadas como ortográficas, tratam-se de tarefas visual-perceptivas, pois solicitam a diferenciação de pares de palavras escritas em letras maiúsculas ou minúsculas. A maioria desses estudos prioriza a escolha de tarefas que reforçam a tendência ao reducionismo experimental focado em palavras (Oliveira, 2013).

Já os resultados obtidos para os parâmetros de EEG (número de eletrodos, amplitude, largura de banda, taxa amostral, impedância), pode-se dizer que são basicamente os mesmos, pois ou coincidem nesses parâmetros ou estão muito próximos, considerando que boa parte das pesquisas (09 do total de 11) é de um mesmo grupo. Sendo assim, a maioria (08 estudos) utilizou 38 eletrodos, definindo a resolução da amplitude em 0,1µV, a impedância abaixo de 5KΩ e a largura de banda variou de DC a 100 Hz (6dB/oitava). Só a taxa amostral apresentou variação maior, mas restrita a 500, 250 e 100 Hz. Do mesmo modo, há um conjunto de técnicas em comum para o método estatístico em todos os artigos, prevalecendo a ANOVA com o emprego das correções Greenhouse-Geisser ou Huynh-Feldt, e os testes de Newman-Keuls ou Kolmogorov-Smirnov e Bonferroni.

No que diz respeito à segunda categoria de análise (frequências estudadas em correlação funcional com o desempenho das tarefas linguísticas e os tipos de distúrbios cognitivos que tiveram relevância enquanto resultado), os resultados corroboram, de modo geral, a descrição do EEG em duas faixas funcionais principais: as de alta e as de baixa frequência. É atribuído às bandas de baixa frequência o amplo papel funcional de inibição cortical, enquanto as bandas de alta frequência estão associadas à ativação cortical e integração de redes neurais. Uma ressalva quanto a esse resultado refere-se apenas à frequência alfa, analisada em 2 pesquisas (depressão e dislexia), pois não apresentou qualquer índice ou resultado significativo nesses estudos. Em resumo, as faixas de frequência analisadas e com resultados significativos foram:

Delta: parâmetro para 3 pesquisas, em pacientes com afasia, dislexia e esquizofrenia. Frequência considerada como típico marcador eletrofisiológico de prejuízo, disfunção ou inibição de regiões corticais.

Theta: parâmetro para 2 pesquisas, em pacientes com dislexia. Identificada como um marcador da memória de trabalho verbal para elaboração fonológica.

Beta: parâmetro para 6 pesquisas, em pacientes com afasia (1), depressão (1), dislexia (3) e TDAH (1). Sub-dividido em beta baixo (13-20 Hz), identificado como um ritmo que possivelmente representa a transição de ritmos lentos para rápidos no domínio linguístico, e em beta alto (21-28 Hz), considerado, nessas pesquisas, como um ritmo que representa um marcador confiável de dominância hemisférica da linguagem.

Gamma: parâmetro para uma pesquisa, em pacientes com esquizofrenia. Reconhecido, nesses estudos, como um marcador de excitação cognitiva e necessário ao processamento linguístico.

A terceira categoria de análise (áreas ou regiões do cérebro identificadas como relevantes para o desempenho linguístico nas diferentes tarefas linguísticas, conforme resultados significativos de cada estudo) retoma e dialoga com as demais, em especial, com a segunda, pois a identificação de áreas do cérebro foi correlacionada à ocorrência de cada frequência estabelecida como parâmetro de estudo para cada tipo de distúrbio (Ver as Tabelas 2 e 3 em Material suplementar). De modo geral, há uma prevalência da região anterior do hemisfério esquerdo do cérebro, especialmente nos lobos frontal e parietal, onde a menor ocorrência de frequências altas (beta e gamma) ou a maior ocorrência de frequências baixas (delta e theta), em comparação com os grupos controle, indicaram resultados significativos de lateralidade e hipoativação, em correlação com o baixo desempenho e consequente prejuízo nas tarefas linguísticas. Quando a ênfase recai sobre regiões posteriores é para verificar a possibilidade de reorganização ou plasticidade neural diante de lesões em regiões anteriores, bem como outros aspectos como memória, visão e motricidade. Tomando, então, como referência as faixas de frequência, esses resultados podem ser resumidos do seguinte modo:

Delta: Ocorrência de delta significativamente maior na região anterior do hemisfério esquerdo em pacientes com afasia (Spironelli & Angrilli, 2009), dislexia (Penolazzi et al, 2008) e esquizofrenia (Spironelli et al, 2011), comparados aos grupos controle, indicando inibição cortical correlacionada com pior desempenho em tarefas linguísticas. No caso dos esquizofrênicos, único distúrbio com sintomas que não são específicos de prejuízos na linguagem verbal, esse resultado foi positivamente correlacionado com os sintomas de Delírios e Alucinações.

Theta: à semelhança de delta, foi interpretada funcionalmente como um índice de lateralização evidenciada no hemisfério direito. Logo, com menor ocorrência na região anterior do hemisfério esquerdo em pacientes com dislexia durante a realização das tarefas linguísticas, em comparação com os grupos controle (Spironelli et al, 2006; Spironelli et al, 2008).

Beta: sua menor ativação em grupos de pacientes em comparação com grupos controle foi correlacionada ao déficit de desempenho linguístico em diferentes tarefas, envolvendo especialmente o hemisfério esquerdo (lobos frontal, temporal e parietal) (Spironelli et al, 2008; Penolazzi et al, 2010; Spironelli et al, 2013; Power et al, 2016; Spironelli et al, 2020). Em um dos estudos, o aumento de beta em pacientes disléxos na região posterior, após um período de treinamento para melhorar desempenho de linguagem verbal, foi considerado como um índice válido de reorganização funcional do cérebro (neuroplasticidade) no domínio linguístico (Penolazzi et al, 2010). No estudo sobre TDAH (Hale et al, 2010), a pronunciada assimetria beta à direita não foi atribuída à tarefa fonológica de habilidade linguística, mas a sintomas positivos de défict de atenção e hiperatividade. As demais pesquisas com pacientes afásicos (Spironelli et al, 2013), disléxicos (Spironelli et al, 2008; Power et al, 2016; Penolazzi et al, 2010) e depressivos (Spironelli et al, 2020), tiveram como resultado em comum a lateralidade invertida comparada aos grupos controle. Ou seja, menor ativação de beta em regiões do hemisfério esquerdo. Em pacientes afásicos, essa redução foi mais evidente em áreas onde estruturas foram lesionadas. Em pacientes deprimidos, o afeto positivo foi negativamente correlacionado com níveis de depressão e correlacionados positivamente com a amplitude beta do EEG frontal esquerdo.

Gamma: a redução significativa na região frontal do hemisfério esquerdo (hipofrontalidade esquerda) durante a realização de tarefas linguísticas de pacientes esquizofrênicos, em comparação com o grupo controle, foi positivamente correlacionada com os sintomas de Delírios e Alucinações. Resultado sugere que a diminuição significativa de gama em condições normais tem um papel fundamental e de causa da assimetria linguística frontal afetada no princípio dos sintomas chave da esquizofrenia (Spironelli et al, 2015).

4. Discussão

Ainda na primeira etapa desta pesquisa, os resultados evidenciaram a prevalência e preferência por estudos com uso de ERP, abrangendo 42% do total geral de artigos encontrados. Logo, os dados eletrofisiológicos têm sido tradicionalmente examinados para potencial relacionado a eventos (ERP), um método de sincronização temporal que reflete a atividade cerebral em resposta a um evento de estímulo específico, a exemplo de tarefas linguísticas relacionadas à fonologia, semântica e sintaxe (Gaudet et al, 2020; França et al, 2017).

O EEG quantitativo e o ERP são técnicas que utilizam o EEG e se diferenciam por apresentar propósitos e métodos distintos, cuja base está no tipo de análise e objetivo do registro da atividade cerebral. O EEG quantitativo permite analisar de forma mais detalhada e quantitativa a atividade elétrica do cérebro como um todo, extraindo informações como a potência das diferentes frequências (ondas delta, theta, alfa, beta e gama) ao fornecer uma análise estatística e topográfica da atividade cerebral. Já o ERP permite examinar como o cérebro responde a estímulos e eventos específicos, medindo o tempo (latência) e a amplitude de diferentes componentes que refletem processos cognitivos associados a esses estímulos. Para tanto, um estímulo é apresentado repetidamente enquanto o EEG registra a atividade elétrica e, ao promediar várias respostas a esse estímulo, obtém-se o ERP. No que diz respeito ao uso dessas técnicas para os estudos linguísticos, o ERP restringe a análise a estímulos que precisam ter pouca duração, a exemplo de apresentação visual de frases curtas ou de escuta de palavras, considerando a latência do sinal (na ordem de milissegundos). Embora o EEG quantitativo não forneça informações tão específicas quanto o ERP, permite analisar tarefas linguísticas mais complexas no fluxo do tempo de uma produção discursiva.

Os resultados também evidenciaram que pesquisas feitas com uso da técnica do EEG quantitativo em sua metodologia, correspondem apenas a 15%. Esse percentual menor indica que o EEG quantitativo ainda é pouco utilizado e representa uma técnica com potencial para ser mais explorada, pois, em relação ao processamento de linguagem, pouco se sabe sobre a associação entre faixas de frequência e redes linguísticas (Gaudet et al, 2020). É o que se pode inferir do pequeno conjunto formado, equivalendo a 3% do total geral, de trabalhos de pesquisa sobre a atividade cerebral durante a produção de linguagem verbal em casos de pacientes com algum tipo de distúrbio cognitivo. De um modo geral, esse é um campo recente de estudos, considerando o período de publicação entre 2006 e 2020 e o fato de estar mais concentrado em um mesmo grupo de pesquisadores.

Os resultados, no conjunto desses 11 estudos selecionados, contribuem para identificar a lateralização como característica comum na produção de linguagem verbal, uma vez que indicam a importância das regiões frontal e parietal do hemisfério esquerdo, compreendendo as áreas de Broca e Wernick, de modo a reforçar a literatura quanto a essa prevalência de redes de ativação cortical fortemente lateralizadas (Friederici, 2011). Sem, contudo, apresentarem uma abordagem localizacionista das funções cognitivas da linguagem, mapeadas por região no cérebro, essas áreas apresentam maior ativação durante as tarefas linguísticas, quando comparado o desempenho de pacientes com grupos controle. Nesse sentido, a ocorrência de frequências altas ou baixas, conforme cada parâmetro de pesquisa dos estudos analisados, corrobora a hipótese da lateralidade invertida (Spironelli et al, 2006; Penolazzi et al, 2008; Spironelli et al, 2008; Spironelli & Angrilli, 2009; Spironelli et al, 2011; Spironelli et al, 2013; Spironelli & Angrilli, 2015; Spironelli et al, 2020) com a hipoativação fronto-parietal esquerda em pacientes com distúrbios que causem prejuízos diretos (dislexia e afasia) ou indiretos (depressão e esquizofrenia) no desempenho linguístico. Sendo assim, a faixa de frequência beta alta e gamma são identificadas como marcadores confiáveis de dominância hemisférica da linguagem, enquanto delta é identificada como típico marcador eletrofisiológico de prejuízo, disfunção ou inibição de regiões corticais.

Desse modo, as pesquisas existentes detalham a função dessas frequências como marcadores da atividade cerebral relacionada à competência e desempenho linguísticos, em específico nos casos de distúrbios cognitivos resultantes de dano neurológico ou condições psiquiátricas e que implicam em prejuízo para a produção de linguagem verbal. Tanto a identificação de frequências a serem analisadas, tendo em vista seus possíveis papeis funcionais, quanto a relevância da lateralidade hemisférica, com ênfase na região frontal esquerda do cérebro, podem servir de parâmetros para outras pesquisas. De fato, a ocorrência dos distúrbios pesquisados, excetuando apenas o TDAH em um dos estudos, indica uma forma de prejuízo linguístico quanto à ativação das regiões frontal e parietal do hemisfério esquerdo. Logo, essa é uma região de interesse para a continuidade de pesquisas sobre os padrões de frequência na produção cognitiva da língua, de modo a fornecer informações, inclusive para a discussão sobre a relação cérebro e linguagem.

Por outro lado, se o parâmetro em comum encontrado quanto às tarefas, EEG e estatística pode colaborar para testagem das hipóteses e resultados, também pode ser um fator limitante, ao menos em duas perspectivas. Primeira, as tarefas realizadas são insuficientes para analisar e avaliar mais aspectos textuais, seja quanto à fonologia e semântica, ou outras não identificadas nesses estudos, como a morfologia e sintaxe. Depois, o uso de EEG com um número de canais que variou de 26 a 40, exceto em uma das pesquisas que utilizou EEG com 129 canais (Power et al, 2016), limita um maior detalhamento da presença e função das frequências no funcionamento cerebral, considerando suas regiões e estruturas, durante as tarefas linguísticas.

Ainda nessa perspectiva, a inclusão de outros distúrbios, sejam os específicos de linguagem, ou estados alterados de consciência correlacionados à produção linguística também podem contribuir para aprofundar essa discussão em novos estudos. Por fim, a inclusão de outras bases de dados deve ser considerada em estudos futuros, tendo em vista a possibilidade de ampliar a amostra de estudos existentes e de relevância. Assim, o escopo metodológico que permita maior detalhamento tende a trazer ainda mais contribuições, com novas compreensões, reflexões e questionamentos à investigação de fenômenos linguísticos nos processos mentais da cognição.

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  • Dados disponíveis mediante solicitação
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Material suplementar

Tabela 2
Resumo das categorias de análise
Tabela 3
Grupo de autores por artigo

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente Kleber Monteiro Pinto. O conjunto de dados não está publicamente disponível por se tratar de uma revisão sistemática.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Jan 2025
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    08 Abr 2024
  • Aceito
    09 Out 2024
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