Open-access Desculpa, não! Desculpe! Um caso de conflito na interação entre brasileiros e portugueses em Portugal

Desculpa, não! Desculpe! A case of conflict in the interaction between Brazilian and Portuguese speakers in Portugal

Resumo

O ponto de partida deste artigo é o estudo proposto por Oliveira & Batoréo (2014) no âmbito da Linguística Funcional com foco nas construções VLoc e LocV em duas variedades nacionais do português: o português brasileiro (PB) e o português europeu (PE). Nossa proposta, inspirada no artigo original, discute apenas a construção VLoc e explora a hipótese incidental de que, no PB, desculpa não seja uma forma verbal, e sim nominal. A discussão aqui apresentada parece explicar conflitos observados em Portugal em alguns casos de interação verbal entre brasileiros e portugueses. A análise proposta se enquadra na Gramática Cognitiva, um modelo da Linguística Cognitiva. Articula, por um lado, diferentes normas do imperativo em seu status sociocognitivo e, por outro, a nominalização de verbos. O status sociocognitivo aqui discutido consiste em gradiente rotinização e gradiente convencionalidade. Nossa proposta reforça a hipótese original, mas dissocia a distribuição de desculpa (V) e desculpa (S) da construção VLoc.

Palavras-chave:
imperativo, nominalização ; variação português europeu / português brasileiro ; gramática cognitiva ; linguística cognitiva

Abstract

The starting point of this paper is a study proposed by Oliveira & Batoréo (2014) with a focus on VLoc and LocV constructions in two national varieties of Portuguese: Brazilian Portuguese (BP) and European Portuguese (EP). Our proposal, inspired by Oliveira & Batoréo (2014), discusses only VLoc construction instantiated by the verb desculpar (‘to forgive’) and explores the incidental hypothesis that the form desculpa is not a verbal form, but a nominal one (‘sorry’). The discussion presented here seems to explain conflicts observed in Portugal in some cases of verbal interaction between Brazilian and Portuguese speakers. The analysis proposed here is based on Cognitive Grammar, a model of Cognitive Linguistics. It articulates different norms of the imperative in their socio-cognitive status, on the one hand, and the nominalization of verbs, on the other. The socio-cognitive status discussed here consists of gradient entrenchment and gradient conventionality. Our study endorses the original hypothesis but dissociates the distribution of desculpa (V) and desculpa (N) from the VLoc construction.

Keywords:
imperative ; nominalization ; European Portuguese / Brazilian Portuguese variation ; cognitive grammar ; cognitive linguistics

1. Considerações iniciais

O ponto de partida do presente artigo encontra-se em Oliveira & Batoréo (2014), dedicado à análise das construções VLoc (verbo + locativo, ex.: desculpa aí) e LocV (locativo + verbo, ex.: lá vai) no português brasileiro (PB) e no português europeu (PE). A análise alternativa consiste em explorar a hipótese de se considerar desculpa como substantivo deverbal, e não como verbo, conforme aventado incidentalmente quanto ao PB. Para tanto, optamos pela Gramática Cognitiva (GC), modelo da Linguística Cognitiva (LC), em vez da Gramática de Construções, em sua recepção pela Linguística Funcional (LF), principalmente porque a GC permite considerar V na construção [V + Loc]3, não estritamente como classe de palavras, mas sobretudo como variável disponível para qualquer forma que reflita processamento dinâmico, especialmente porque a definição semântica das classes não necessariamente coincide com as classes de palavras tradicionais.

Segundo Oliveira & Batoréo (2014, p. 199):

No tocante à seleção verbal no âmbito da VLocmd, a pesquisa do PE apresenta como traço mais específico e distinto do PB a instanciação da microconstrução desculpa/-e/-em, com 4,5% de ocorrências. Trata-se de uso motivado por contextos marcados por injunção e grande interatividade. Hipotetizamos que a motivação para essa convencionalização seja a grande frequência de uma estratégia retórica, característica do PE, ligada à expressão de polidez e à preservação de face, em que pedir desculpa(s) e desculpar são muito recorrentes, enquanto, no PB, é mais utilizada para tal fim somente a forma nominal desculpa [...].

Ao reconhecerem que desculpa é uma forma nominal, poderíamos concluir que já não se trata da construção [V + Loc]. No entanto, acompanhamos Oliveira & Batoréo (2014) na identificação da referida construção. Nossa análise diverge quanto (i) ao quadro teórico adotado para descrever a construção e (ii) ao que se entende por V no modelo como baseado no uso empregado (Langacker, 1987, 1988, 2000).

A motivação para a análise ora proposta é seu potencial explicativo de um tipo de conflito observado em alguns casos de interação verbal entre brasileiros e portugueses em Portugal. Trata-se de um conflito entre padrões sociolinguísticos de uso do imperativo em cada variedade nacional do português, refletindo diferentes construals na interação.

2. Enquadramento teórico

A GC se caracteriza como um modelo baseado no uso desde sua formação:

Para o bem ou para o mal, admito ter cunhado o termo modelo baseado no uso. Em Fundamentos da Gramática Cognitiva, descrevi tal modelo assim: “Importância substancial é dada ao uso real do sistema linguístico e ao conhecimento desse uso pelo falante; a gramática é considerada responsável pelo conhecimento do pleno espectro de convenções linguísticas pelo falante, a despeito de se essas convenções podem ser subsumidas a asserções mais gerais. [Essa é uma] abordagem não redutiva à estrutura linguística que emprega redes esquemáticas plenamente articuladas e enfatiza a importância de esquemas de nível mais baixo” (Langacker 1987a: 494). (Langacker, 2000, p. 1)4

Nesses termos, expressões como sei lá e lá vai podem ser consideradas expressões a partir das quais falantes do PB ou do PE adquirem os esquemas [V + Loc] e [Loc + V], razão pela qual o processo envolvido se chama esquematização, ou expressões resultantes do uso criativo desses esquemas, em que o processo envolvido seria a instanciação. O fato de que ambas as possibilidades se verificam empiricamente permite à GC integrar a aquisição e o uso de uma língua natural, com falantes da mesma variedade ou de diferentes variedades podendo conhecer as mesmas expressões pela via da esquematização ou da instanciação. A disponibilidade cognitiva de um esquema para ser instanciado caracteriza o que a GC entende por produtividade5.

Por sua vez, classes de palavras são esquemas que os falantes adquirem a partir de expressões, num modelo em que a gramática consiste numa rede de esquemas e o léxico numa rede de expressões, sendo o léxico e a gramática integrados pelos dois processos cognitivos supracitados, a esquematização e a instanciação.

Verbos e substantivos segundo a Gramática Cognitiva

A caracterização semântica das classes de palavras enfrenta objeção a sua exequibilidade (cf. Jackendoff, 1983, 1996). A proposta de caracterizar as classes de palavras semanticamente repousa em dois princípios: (i) a capacidade cognitiva de construir a mesma situação de diferentes maneiras (construal6 na interação); e (ii) a não coincidência com as classes de palavras tradicionais. O significado das construções, por sua vez, se divide entre um substrato conceitual e um construal (na gramática, correspondente a significado construcional). Porque os falantes constroem a experiência de múltiplos pontos de vista, o significado de uma construção é a estabilização de uma dentre as possíveis maneiras de conceber e retratar uma situação (Langacker, 2008a, p. 4).

Como significado construcional, o construal é constituído por especificidade, foco, proeminência e perspectiva. O destaque (profiling) é um elemento da proeminência. É o destaque que distingue entre as classes de palavras: o substantivo destaca uma coisa, enquanto o verbo destaca uma relação processual e o adjetivo, a preposição e o advérbio destacam uma relação não processual. Nesses termos, a nominalização de verbos consiste na conversão do destaque de relação no destaque de coisa:

Um verbo como explodir e um substantivo como explosão podem ambos referir-se ao mesmo evento. De acordo com a doutrina padrão, isso prova que as classes verbo e substantivo não são semanticamente definíveis: se fossem, explodir e explosão pertenceriam à mesma categoria, já que têm o mesmo significado. Esse raciocínio esbarra na assunção falaciosa de que referir-se ao mesmo evento torna duas expressões semanticamente equivalentes. Elas não são. Enquanto invocam o mesmo conteúdo conceitual, elas diferem no significado em razão de como o constroem: diferentemente de explodir, que reflete diretamente a natureza processual do evento, explosão constrói o evento como uma coisa abstrata derivada por reificação conceitual. É precisamente por causa desse contraste conceitual que as expressões pertencem a diferentes categorias gramaticais. (Langacker, 2008a, p. 95)7

Para garantir o entendimento do desdobramento do significado entre conteúdo/substrato conceitual e construal, propomos o seguinte mapa dos conceitos (não exaustivo) com que esses se relacionam na GC:

Figura 1: Mapa
conceitual - Gramática Cognitiva

O mapa conceitual apresentado na Figura 1 nos permite reler a citação acima (Langacker, 2008a, p. 95) como uma comparação entre o destaque (elemento da proeminência) e os modos de processamento (elemento da perspectiva). Nos termos da GC, os modos de processamento podem ser o dinâmico (sequential scanning) ou o estático (summary scanning). Na definição semântica das classes de palavras, o verbo refletiria o processamento dinâmico, enquanto o substantivo refletiria o processamento estático. Langacker (1987, 2008b) compara fall (V) e fall (S) para ilustrar essa distinção, mas é aí que nasce uma controvérsia porque tanto cair quanto queda exibem interpretação verbal (processamento dinâmico).8 Langacker (2008a, 2009) deixa, então, de distinguir entre verbos e substantivos deverbais pelos modos de processamento (perspectiva) e passa a fazê-lo pelo destaque (proeminência), chegando à configuração do construal que procuramos apresentar por meio do mapa conceitual acima.

Entretanto, essa nova maneira de distinguir entre verbos e substantivos deverbais também não está livre de controvérsia. O que Langacker (2008a, p. 95) indica, como já mencionado, é que (i) explode é um verbo e explosion é um substantivo apesar de compartilharem o conteúdo conceitual; (ii) explode é um verbo por destacar uma relação processual, enquanto explosion é um substantivo por destacar uma coisa; (iii) explosion está sendo considerado em sua interpretação verbal; e (iv) a interpretação verbal de explosion não impede sua distinção em relação a explode.

A adesão crítica a essa proposta (Lemos de Souza, 2010, 2012, 2020a) endossa o compartilhamento do mesmo conteúdo conceitual entre verbos e substantivos deverbais e a distinção pelo destaque. A objeção é a de que verbos e substantivos deverbais em sua interpretação verbal compartilham o processamento dinâmico também. Isso amplia a semelhança entre verbos e substantivos deverbais do conteúdo conceitual aos modos de processamento.

Com base nas mesmas conclusões, Broccias & Hollmann (2007) optam por desconsiderar os modos de processamento na caracterização de substantivos:

Finalmente, poder-se-ia afirmar que o processamento estático também é necessário para distinguir entre nominalizações e verbos, como p. ex. Alguma coisa explodiu vs. Houve uma explosão (Langacker 2002: 98). O evento explosivo na última sentença é considerado como processado estaticamente. Concordamos com Langacker em que “[n]ominalizar um verbo necessariamente lhe confere propriedades conceituais características de substantivos” (2002: 98) mas dissociaríamos a reificação de eventos da questão do processamento. Isso também é feito, por exemplo, por Croft (2001: 88), que analisa nominais de ação como palavras de ação usadas no ato discursivo de referência, isto é, sem invocar o processamento estático como definido por Langacker. (p. 497)9

A análise ora proposta mantém a adesão crítica à GC, considerando a interpretação nominal, que por vezes é a única (ex.: acabamento, estacionamento) e, quando não é, exige incluir a polissemia na discussão. Tanto a abordagem gerativa (Basilio, 1980) quanto a abordagem cognitiva (Basilio, 2004) já o fazem. Na abordagem gerativa, a interpretação verbal remete à categoria da base, enquanto a interpretação nominal remete à categoria do produto da nominalização, já que a representação semântica dos substantivos é formalmente restrita à representação semântica de V ou de S, as únicas categorias lexicais envolvidas. Na abordagem cognitiva, a interpretação verbal corresponde ao processamento dinâmico, a interpretação nominal corresponde ao processamento estático e a associação dessas interpretações ao processo de formação de substantivos a partir de verbos caracteriza a polissemia sistemática, organizada pela metonímia.

Assim, podemos concluir que:

(i) verbos e substantivos deverbais diferem apenas quanto ao destaque;

(ii) verbos e substantivos deverbais em sua interpretação verbal compartilham o conteúdo conceitual e o processamento dinâmico (desculpa como ‘ato de desculpar’);

(iii) verbos e substantivos deverbais em sua interpretação nominal compartilham apenas o conteúdo conceitual porque a interpretação nominal corresponde ao processamento estático (desculpa como ‘justificativa ruim’ ou ‘pretexto’);

(iv) substantivos deverbais que exibem interpretações verbal e nominal apresentam polissemia sistemática; e

(v) a polissemia dos substantivos difere da polissemia dos verbos que instanciam as construções de que resultam e é a polissemia dos verbos que, dentre outros fatores alheios aos objetivos deste artigo, pode motivar a formação de mais de um substantivo deverbal (ex.: perda, perdição e perdimento10 no PB e no PE).

O fato de que tanto verbos quanto substantivos deverbais com interpretação verbal refletem processamento dinâmico permite a instanciação da construção [V + Loc] pelo verbo ou pelo substantivo deverbal, na medida em que a instanciação é semanticamente motivada. Permite até a instanciação por expressões que não correspondam a uma classe de palavras tradicional, como bora11. Observem-se os Exemplos 1 a 3.

(1) 45 G PT jonasnuts.com

Decidi então refutar o vosso documento, e às mesmas perguntas, responder com factos, ou questionar os dados que apresentam. Bora lá.

(2) 101 G PT absurdo.wordpress.com

Ou então, pomos o conceito de toda a economia em questão: por mim, 'bora aí... Depois, podemos entrar na discussão bem mais infinita sobre a questão da ‘boa literatura'.

(3) 117 G BR fotografia-dg.com

Recebi o aviso no meu email sobre o teu comentário e vim rapidinho tentar elucidar cada item das tuas questões, diga-se de passagem, extremamente inteligentes e com toda a certeza acabaremos por ajudar muita gente interessada como vc, ok? Então bora lá!

Nesta análise alternativa à proposta por Oliveira & Batoréo (2014), o processamento dinâmico satisfaz à condição de ser V, com ou sem o pertencimento à categoria V, condição a que bora atende. Além disso, dois outros fatores devem ser considerados: (i) o relativismo linguístico e (ii) o status sociocognitivo da norma. Passamos a abordar cada um desses fatores nas próximas subseções.

Relativismo linguístico

A LC se caracteriza como uma teoria relativista (cf. Lakoff, 1987, cap. 8, Langacker, 1994, Batoréo, 2000, cap. 2, Pederson, 2007).

A hipótese do relativismo linguístico, independentemente da matização mais forte ou mais fraca que se lhes queira eventualmente conceder, é convictamente contestada pela corrente universalista, que defende a existência de operações mentais idênticas de raiz biológica subjacentes às diferenças superficiais. (Batoréo, 2000, p. 118)12

Langacker (2000) entende que o caráter baseado no uso da GC guarda relação direta com o compromisso relativista da LC, na medida em que inverte a prioridade estabelecida pela Linguística Gerativa (LG):

O espírito “de cima para baixo” da gramática gerativa é evidente em sua ênfase em regras gerais e princípios universais, bem como em sua negligência histórica ao léxico e a subpadrões de nível mais baixo e na paciente enumeração de idiossincrasias. [...] Outra faceta da orientação de baixo para cima da Gramática Cognitiva é a afirmação de que “regras” só podem emergir como esquematizações de expressões amplamente ocorrentes. Por mais longe que essa abstração possa chegar, os esquemas que emergem brotam do solo do uso real. (p. 2-3)13

Portanto, o compromisso filosófico com o relativismo comparece às análises empreendidas com base na GC. De outro modo, toda teoria linguística que analise dados do uso seria baseada no uso. As abordagens baseadas em corpora que subsidiam análises gerativas, funcionais e cognitivas são, portanto, incomensuráveis.

A ligação entre a autoconsciência da Linguística Cognitiva como uma forma de investigação linguística baseada no uso e o emprego de métodos empíricos é direta: não se pode ter uma linguística baseada no uso a menos que se estude o uso real - tal como aparece em corpora na forma de dados linguísticos espontâneos, não provocados, ou em ambientes experimentais de forma automática e provocada.

[...] a própria ênfase que a Linguística Cognitiva coloca no fato de que nosso conhecimento do mundo é uma construção ativa, em vez de um reflexo passivo de um mundo objetivamente dado, favorece ao interesse em diferenças de construal entre culturas, grupos sociais ou mesmo indivíduos. Mas tal perspectiva variacional não pode, por definição, ser percebida individualmente. Se assumimos que a linguagem não é tão restrita geneticamente a ponto de ser uniforme em todo o globo e que comunidades linguísticas não são homogêneas (dois pressupostos que pareceriam agradáveis à postura não objetivista da Linguística Cognitiva), então uma base empírica mais ampla que o próprio uso da língua é necessária para estudar a variação.14 (Grondelaers, Geeraerts & Speelman, 2006, p. 149-150)

É precisamente no enquadramento teórico acima indicado que pretendemos formular nossa análise alternativa, apresentada na seção 3. Em tal enquadramento, de um lado, o grau da variação deve ser relativizado aos diferentes construals social e culturalmente impostos e, de outro, a GC como um modelo baseado no uso guarda relação direta com a LC como uma teoria relativista.

Status sociocognitivo da norma

A literatura acumula vasto conhecimento acerca do modo imperativo na descrição do PB (v. Scherre et al., 2007, Rumer, 2016, Silva, 2017) e do PE (v. Barbosa, Santos & Veloso, 2020). Scherre et al. (2007) acompanham a distinção gerativa entre “[...] IMPERATIVO VERDADEIRO (em português: olha, abre, faz), denominação assumida neste texto, ao lado de IMPERATIVO SUPLETIVO (em português: olhe, abra, faça), para fins de reflexões a respeito do estatuto do imperativo gramatical no português brasileiro” (p. 194) e concluem:

Assim, diferentemente do que se observa no português europeu, e também no espanhol castelhano (Rivero 1994), a alternância olha/olhe; abre/abra; faz/faça, no português brasileiro, não tem relação clara com o traço [+distanciamento], que rege a distribuição deixe/você/seu vs. deixa/tu/teu nessas outras duas línguas. Ao invés de um divisor de interação discursiva, a alternância entre o imperativo verdadeiro e o imperativo supletivo no português brasileiro falado evidencia-se como um marcador geográfico. (p. 195)

Sem pretendermos aqui entrar no debate sobre a melhor descrição do imperativo em cada variedade do português, remetemos à literatura variacionista cujas posições acompanhamos. A principal é a de que, por um lado, há, no PE, a expectativa do uso de olhe, abra, faça e desculpe como evidência de formalidade motivada pelo distanciamento entre os interlocutores e do uso de olha, abre, faz e desculpa como evidência de informalidade motivada pela intimidade entre os interlocutores.

Isso porque, no PE, o uso do imperativo VERDADEIRO é consistente com o tratamento por tu, enquanto o uso do imperativo SUPLETIVO é consistente com o tratamento por você (informalidade) ou o/a senhor(a) (formalidade):

[...] o paradigma flexional do modo imperativo (exemplificado agora com o verbo cantar) é o seguinte:

imperativo afirmativo / imperativo negativo

Canta tu. / Não cantes tu.

Cante (você / o senhor). / Não cante (você / o senhor).

Cantemos nós. / Não cantemos nós.

Cantai vós. / Não canteis vós.

Cantem (vocês / os senhores). / Não cantem (vocês / os senhores).

Cante-se. / Não se cante.

Por outro lado, no PB, a distribuição entre os imperativos VERDADEIRO e SUPLETIVO pode ser geográfica ou circunscrita ao:

[...] contexto discursivo do pronome você, como ilustrado, respectivamente, em (22) e (23) [...] (Scherre et al., 2007, p. 206).

(22) Ah! É? Então faz o que você quiser (Imperativo verdadeiro - Fala de Brasília)

(23) Faça aquilo que você achar melhor! (Imperativo supletivo - Fala de Brasília)

Tais normas são rotinizadas nos falantes e convencionais nas variedades europeia e brasileira do português.15 A influência colonial, no entanto, faz com que o ensino formal no Brasil seja, ainda hoje, o da norma europeia como correta. O que se deve ter em conta é (i) a diferença entre uma norma convencional no PE e outras normas convencionais no PB e (ii) o papel da colonialidade (cf. Muniz, 2022) na prescrição da norma portuguesa no ensino formal brasileiro. Assim, crianças portuguesas aprendem na escola a norma que já corresponde à oralidade, no que o letramento reforça a aquisição, enquanto crianças brasileiras aprendem na escola uma norma imposta a partir de outra variedade da língua, que nada tem a ver com a oralidade, no que o letramento nega a aquisição, como se se tratasse de uma língua estrangeira.

A interação entre um falante do PE que espere o uso do IMPERATIVO SUPLETIVO e um falante do PB que use o IMPERATIVO VERDADEIRO tem o potencial de gerar conflitos, especialmente quando se dá em Portugal. Os conflitos incluem juízos de valor negativos por parte dos portugueses em relação aos brasileiros, porque os portugueses se sentem desrespeitados quando desconhecidos os abordam com intimidade e coloquialidade, socialmente não aceitas em Portugal. Essa discrepância entre construals é particularmente flagrante na interação institucional, envolvendo o tratamento de documentos, quando a utilização das formas de tratamento e o emprego dos verbos na 2ª pessoa são totalmente inaceitáveis e podem gerar a estigmatização dos brasileiros.

Aqui estamos falando da interação sem os rigores de um modelo de análise, como a Análise da Conversa16, que permitiria a formação de um corpus de imagens de interações entre brasileiros e portugueses em que ocorre este tipo de conflito, de modo a registrar as dimensões verbal e multimodal (cf. Mondada, 2016), seja fala-em-interação social, seja na fala-em-interação institucional. Entendemos que a “[...] crescente tendência na Linguística Cognitiva a enfatizar sua natureza essencial como uma linguística baseada no uso [...]” (Grondelaers, Geeraerts & Speelman, 2006, p. 149)17 e o interesse em “[...] caracterizar as crenças que os usuários da língua têm sobre a língua e variedades da língua” (Geeraerts, 2006, p. 30)18 apontam para esse grau de refinamento no levantamento dos dados, com base sociocognitiva, especialmente para fins de análise com base na GC.

Mais razoável é a alternativa interativa, que realmente leva as pessoas em consideração, mas defende que uma mente individual não é o lugar certo para procurar por significados. Em vez disso, significados são vistos como emergindo dinamicamente no discurso e na interação social. Ao invés de serem fixos e predeterminados, eles são ativamente negociados na base do contexto físico, linguístico, social e cultural. O significado não é localizado, mas distribuído, com aspectos inerentes à comunidade de fala, às circunstâncias pragmáticas do evento de fala e ao mundo circundante. (Langacker, 2008a, p. 28)19

Barbosa, Santos & Veloso (2020, p. 2578) chamam a atenção para a continuidade entre a interação e a gramática, embora não seja essa a convicção teórica dos autores: “[a] orientação para o interlocutor típica das frases de tipo imperativo leva a que o sujeito da frase esteja frequentemente omisso ou então tenham características particulares [...]”. Embora os autores integrem uma Gramática do Português, a descrição da norma do imperativo nos leva entender que se trata de uma gramática do PE.

3. Proposta de análise alternativa

A migração de brasileiros para Portugal é um fato da história contemporânea, frequentemente coberto pela imprensa.20 A dificuldade em contabilizar os imigrantes tem a ver com a dupla nacionalidade de alguns, a ilegalidade de outros e o próprio fluxo migratório. O fenômeno tem relevância linguística porque (i) aumenta a exposição dos portugueses ao PB para além das novelas brasileiras, há muito exibidas em Portugal, situação assimétrica em relação à exposição dos brasileiros ao PE, (ii) promove o contato entre diferentes construals culturais e sociais e (iii) acirra tensões cujas raízes podem remeter à colonialidade. Essa situação explica por que Langacker (1994) fala da sobreposição entre cultura, linguagem e cognição a propósito do contato linguístico, por que Lemos de Souza (2020b) defende que o contato se dá entre cognições, e não entre línguas, e por que Batoréo (2022) enfoca as conceitualizações do mundo efetuadas por falantes de variedades de uma mesma língua em contextos culturais, sociais e políticos descontínuos e mesmo afastados geograficamente.

A LC nos permite considerar tal fenômeno exatamente porque enfatiza a continuidade entre a experiência e a linguagem, razão pela qual a GC modela a gramática e o léxico a partir da interação, de modo que alguns construals, entendidos como construções cognitivas da experiência, se gramaticizam, isto é, convertem-se em significados construcionais. Na dimensão interacional, a análise que o presente artigo oferece como alternativa à de Oliveira & Batoréo (2014) assume o construal português - que, num contexto de interação formal, rejeita a forma desculpa por entender ser uma forma verbal pragmaticamente inadequada e espera desculpe - e coteja com o construal brasileiro - que usa desculpa (V) sem necessariamente o relacionar com tu ou, mais frequentemente, desculpa (S). Na dimensão gramatical, a análise que o presente artigo oferece como alternativa à de Oliveira & Batoréo (2014) aborda a nominalização quanto à proeminência (destaque) e à perspectiva (modos de processamento) a partir de uma observação incidental em Oliveira & Batoréo (2014): “[...] no PB, é mais utilizada para tal fim somente a forma nominal desculpa [...]”.

Tal observação é consensual entre as análises: numa, faz total sentido que Oliveira & Batoréo (2014) tenham privilegiado a instanciação de [V + Loc] pelo verbo desculpar no IMPERATIVO VERDADEIRO (desculpa); noutra, defendemos que a instanciação de [V + Loc] dispensa V como classe, à luz de um modelo que, de um lado, define semanticamente as classes de palavras e, de outro, prevê que o processamento dinâmico não é exclusivo da classe V.

Dado que o fator interativo, ligado à polidez, se restringe ao PE e que, no PB, é indispensável não somente identificar a variável geográfica, como também considerar a convencionalidade de você em sua distribuição com os imperativos VERDADEIRO e SUPLETIVO na mesma variedade geográfica, o predomínio da forma nominal desculpa nos leva a acrescentar que se trata da instanciação de [V + Loc] pelo substantivo deverbal em sua interpretação verbal. Para isso, estamos considerando duas evidências: uma aponta para a classe substantivo (o que remete ao destaque como elemento da proeminência); outra aponta para a interpretação verbal (o que remete aos modos de processamento como elemento da perspectiva).

Evidência quanto à classe substantivo

A evidência relativa ao destaque é positiva. Se “[...] pedir desculpa(s) e desculpar são muito recorrentes [...]” (Oliveira & Batoréo, 2014, p. 199), desculpa(s) satura a grade argumental de pedir, o que é possível somente ao substantivo. A variante pedir perdão reforça que a construção exige um substantivo. Apenas se inverte a direção da formação: perdão é um substantivo que instancia o esquema [S + ar], enquanto desculpa é um substantivo que resulta da instanciação do esquema [V + a].

A descrição do PB e do PE segundo a LG caracteriza verbos como perdoar como denominais. No Brasil, Basilio & Martins (1996) entendem que se trata de derivação. Em Portugal, Pereira (2013) entende que se trata de conversão.

Já a descrição do PB segundo a LC mantém a caracterização de verbos como perdoar como denominais, mas submete esse processo de formação de palavras à motivação metonímica. Assim, “[...] o verbo denota um ato ou evento evocado pelo substantivo” (Basilio, 2011, p. 110).

Evidência quanto à interpretação verbal

A evidência relativa à perspectiva é negativa. Em pedir desculpa(s), o substantivo desculpa21 tem de exibir interpretação verbal, pois a interpretação nominal equivaleria a ‘pretexto’, conforme se pode observar nos Exemplos 4 a 7.

(4) 3 G BR 180graus.com

Vide o que está acontecendo com a Copa Piauí, a Federação está refém, esperando uma ação do River, tramitando no STJD, que serve apenas de desculpa para a falta de profissionalismo dos clubes.

(5) 4 G BR 2001video.empresarial.ws

Isso tudo porque estamos falando de dois personagens principais, o escritor Sal Paradise (Sam Riley), que estava ávido por uma aventura, e Dean (Garrett Hedlund), que com a desculpa de aprender a ser escritor, chama Sal para viver com ele uma jornada desmedida e desvairada, cruzando os Estados Unidos na direção oeste.

(6) 9 G PT 365coisasquepossofazer.blogspot.com

E eu tenho, à distância de um telefonema, a minha mãe, que se dedica, há já alguns anos, à agricultura biológica (para consumo familiar). Assim desta vez já não tinha desculpa para não fazer tudo direitinho.

(7) 22 G PT aba-da-causa.blogspot.com

António José Seguro (AJS) apresentou alternativas quantificadas e realistas para investir na economia, e para criar aquilo que ele defende como prioridade: emprego, emprego, emprego! Contra a habitual desculpa do Governo que diz que não há dinheiro, o líder do PS explicou que há dinheiro e onde o iria buscar para financiar o reactivamento da economia e do emprego.

Com interpretação nominal, pedir desculpa(s) seria parafraseável como ‘pedir pretexto(s)’. A implausibilidade dessa paráfrase remete à interpretação verbal, daí a não ocorrência de determinante (nominal grounding), ratificando tratar-se (i) do substantivo deverbal, (ii) da interpretação verbal e (iii) da restrição de [V + Loc] ao processamento dinâmico.

A combinação das duas evidências nos leva de volta aos dados de uso de bora. A posição que pretendemos marcar é que a construção [V + Loc] seleciona como V qualquer forma que reflita processamento dinâmico, o que equivale a afirmar que a perspectiva constitutiva do construal de [V + Loc] (v. mapa conceitual, Figura 1) é compatível com substantivos deverbais e com formas não correspondentes a nenhuma classe de palavras tradicional contanto que reflitam esse modo de processamento. O expediente de classificação de formas, predominante na teorização linguística, se revela completamente dispensável, conforme programaticamente previsto pela caracterização semântica das classes de palavras segundo a GC.

Resta-nos considerar a identidade fonológica entre desculpa (V) e desculpa (S) como fator que faz ambos remeter à construção [V + Loc] no PB.22 O conceito que nos parece explicar tal identidade é o de heterossemia (Lichtenberk, 1991). Formulado pela LF e recebido pela LC (Velozo & Bernardo, 2014, Almeida & Lemos de Souza, 2016), o conceito se aplica a relações diacrônicas como a que se dá entre mente (substantivo) e mente (sufixo) e a relações sincrônicas como a que se dá precisamente entre desculpa (V) e desculpa (S).

Tanto o critério sincrônico quanto o critério diacrônico para a distinção entre a homonímia e a polissemia (cf. Soares da Silva, 2006) afastam qualquer desses dois fenômenos, sob pena de afirmar-se que há uma única expressão que pertence a mais de uma classe ou que há duas formas sem nenhuma relação semântica ou que há duas formas com diferentes origens. Aqui, consideramos necessário mencionar a heterossemia como um fator que pode favorecer a que se tome desculpa (V) por desculpa (S) e vice-versa.

A heterossemia em questão remete à formação de verbos a partir de substantivos por meio do processo que a tradição designou como derivação regressiva. “A designação de ‘derivação regressiva’ apoia-se numa visão concatenativa e superficial da morfologia” (Rodrigues, 2013, p. 106). A análise do processo com base na GC nos leva a postular os esquemas [V + a], [V + e] e [V + o] para descrever a formação de substantivos como desculpa, alcance e abraço, respectivamente. A heterossemia entre desculpa (V) e desculpa (S), alcance (V) e alcance (S), abraço (S) e abraço (V) se deve à instanciação desses esquemas, conforme ilustrado pelos Exemplos 8 a 1123.

(8) 1 G BR 102fmnatal.com.br

Este ano teve a questão das passagens de ônibus que foi um dos motores das manifestações nas ruas. O senhor chegou a reduzir por duas vezes a tarifa e encaminhou a licitação à CMN. São as medidas que estão ao seu alcance?

(9) 3 G BR 180graus.com

A meta do Ministério da Pesca e Aquicultura é incentivar a produção nacional para que, em 2030, o Brasil alcance a expectativa da FAO: se torne um dos maiores produtores do mundo, com 20 milhões de toneladas de pescado por ano.

(10) 17 G BR 17maisumavez.blogspot.com

Pessoas vão embora de todas as formas: vão embora da nossa vida, do nosso coração, do nosso abraço, da nossa amizade, da nossa admiração, do nosso país.

(11) 16 G BR 17maisumavez.blogspot.com

É em essa hora que eu confesso que sou fraco. É em esse momento que me tranco no quarto, abraço o travesseiro e deixo as minhas lágrimas falarem o que estou sentindo.

No âmbito das expectativas impostas pela situacionalidade dos falantes de cada variedade, falantes do PE não vislumbram que, em Desculpa lá, possa haver um substantivo, reconhecendo apenas um verbo mal conjugado pragmaticamente num contexto formal, pois não há intimidade a justificar o tratamento por tu. Neste caso, o paradigma ativado é [V + Loc], que faz prever uma forma verbal. Por sua vez, falantes do PB, além de não estabelecerem relação unívoca entre o imperativo desculpa e tu, instanciam a construção [V + Loc] com o substantivo deverbal desculpa em razão de sua interpretação verbal, o que só faz sentido se V for entendido como variável disponível para qualquer forma que reflita processamento dinâmico, como bora. Cada falante vê o que sua variedade linguística lhe permite ver, o que Jackendoff (1983) explica por meio da distinção entre restrições linguísticas e restrições cognitivas com base na LG; Langacker (1994) explica por meio da sobreposição entre cultura, linguagem e cognição; e Batoréo (2022) explica como perspectivação linguístico-cultural.

Nos termos apresentados, estamos considerando como normas os padrões sociolinguísticos majoritários no PE e no PB, padrões cujo status cognitivo resulta da rotinização no falante e da convencionalidade na variedade. Também estamos considerando, de um lado, a maior distância entre o padrão sociolinguístico de variação verbal com o pronome você no PB e a norma prescrita no PB e, de outro, a identidade entre o padrão sociolinguístico majoritário e a norma prescrita no PE. O tipo de conflito interacional que isolamos a partir da situacionalidade entre falantes do PE e do PB atesta o papel da norma na intersubjetividade (Itkonen, 2008).

Por fim, apresentamos uma breve nota sobre aspectos quantitativos. Além do Corpus do Português, que vimos usando ao longo do artigo, usamos o Linguateca e encontramos a distribuição24 que apresentamos nas tabelas 1, 2, 3 e 4:

Tabela 1:
do PE no Linguateca - CETEMPúblico

Os dados na Tabela 1, relativos ao PE, revelam que as ocorrências de desculpa lá correspondem a apenas 1,739% das 460 ocorrências de desculpa (V).25 Por sua vez, as ocorrências de desculpe lá correspondem a 10,526% das 171 ocorrências de desculpe. Destacada a não ocorrência nem de desculpa aí nem de desculpe aí, fornecem evidência da baixa produtividade da instanciação de [V+Loc], seja pelo verbo, seja pela nominalização, no PE.

Tabela 2:
do PB no Linguateca - corpus brasileiro

Os dados na Tabela 2 , relativos ao PB, revelam a não ocorrência de desculpa lá e apenas três ocorrências de desculpa aí. Por sua vez, as ocorrências de desculpe lá e desculpe aí também são estatisticamente irrelevantes. Assim, fornecem evidência da baixa produtividade da instanciação de [V+Loc], seja pelo verbo, seja pela nominalização, no PB.

Tabela 3:
do PE no Corpus do Português

Os dados na Tabela 3 , relativos ao PE, revelam que as ocorrências de desculpa lá correspondem a 11,843% das 4.450 ocorrências de desculpa (V), enquanto as ocorrências de desculpa aí correspondem a apenas 0,202% das 4.450 ocorrências de desculpa (V). Por sua vez, as ocorrências de desculpe lá correspondem a 7,069% das 3.494 ocorrências de desculpe, enquanto as ocorrências de desculpe aí correspondem a apenas 0,029% das 3.494 ocorrências de desculpe.

Tabela 4:
do PB no Corpus do Português

Os dados na Tabela 4 , relativos ao PB, não permitem comparação percentual entre as ocorrências de desculpa lá e de desculpa aí e as ocorrências de desculpa (V), dada a hipótese de instanciação da construção [V + Loc] por desculpa (S). Por sua vez, as ocorrências de desculpe lá correspondem a apenas 0,048% das 12.557 ocorrências de desculpe, enquanto as ocorrências de desculpe aí correspondem a apenas 0,199% das 12.557 ocorrências de desculpe.

Guardadas as proporções entre os corpora, a distribuição verificada no Corpus do Português converge com a verificada no Linguateca. A frequência de desculpa lá e a de desculpa aí são muito menores que a de desculpa (V) ou a de desculpa (S) tanto no PE quanto no PB nos dois corpora. A frequência de desculpe lá e a de desculpe aí são muito menores que a de desculpe tanto no PE quanto no PB nos dois corpora.

Oliveira & Batoréo (2014) consolidam as ocorrências de desculpa/ -e/ -em lá no PE no total de 20 (p. 195) e não apresentam nenhuma ocorrência no PB. No entanto, as evidências quantitativas na análise original e na que ora propomos com base nas tabelas acima mantêm válida a discussão sobre a maior frequência de desculpa (S) que a de desculpa (V) no PB e no PE, à luz das diferentes normas do imperativo e do mesmo processo de formação de substantivos a partir de verbos. No entanto, a análise aqui proposta nos permite dissociar tal discussão da análise da construção [V + Loc].

4. Considerações finais

O ponto de partida para a análise proposta no presente artigo é outra análise de acordo com um modelo baseado no uso, proposta por Oliveira & Batoréo (2014). Assim, a análise alternativa permite o cotejo entre abordagens compatíveis, ressalvadas as diferentes filiações teóricas.

O centro da análise alternativa é a articulação entre a rotinização e a convencionalidade de normas de uso do imperativo no PE e no PB. A formulação técnica da proposta exigiu o subsídio de estudos sobre a nominalização de verbos baseados na GC e de estudos sobre o imperativo nessas duas variedades do português, bem como o concerto entre o relativismo, o status sociocognitivo de cada norma de uso envolvida (considerando a distância vs. a proximidade em relação à norma prescrita) e a modelagem da gramática e do léxico a partir do uso.

De um lado, o fundamento na GC permite à análise alternativa ampliar a disponibilidade da construção [V + Loc] para além da classe V. De outro, permite-lhe agregar o potencial de explicar um tipo de conflito interacional que exige uma abordagem integrada como a formulada pela GC. Na integração pretendida, um dos fatores a considerar nas descrições do PE e do PB é a colonialidade.26

O fato de que, em ambas as variedades, existem desculpa (V) e desculpa (S) exige da análise aqui proposta restringir-se ao contexto da interação entre brasileiros e portugueses em Portugal para entender o conflito a partir das normas rotinizadas e convencionalizadas. A análise aqui proposta demonstra que:

(i) usam-se apenas desculpa (V) e desculpe no PE;

(ii) portugueses que usam desculpe esperam desculpe de brasileiros em interações formais;

(iii) usa-se mais desculpa (S) que desculpa (V) no PB;

(iv) brasileiros que usam desculpa (S) esperam desculpa (S) de portugueses e não vislumbram a expectativa por desculpe em interações formais;

(v) brasileiros que usam desculpa (V) não necessariamente o associam a tu, mas sim a você;

(vi) brasileiros que usam desculpa (V) e o associam a tu não pressupõem intimidade, o que é incompreensível para os portugueses, que têm outra expectativa e interpretam a forma como inadequada; e

(vii) brasileiros que usam desculpe por esse ser o padrão predominante na sua variedade geográfica do PB ou por associação na exclusiva com você ficam livres do conflito em questão.

Por fim, em seus aspectos quantitativos, a análise ora proposta apresenta maior adequação descritiva que a original, na medida em que a distribuição entre desculpa (V) e desculpa (S) se revela dissociada da produtividade da construção [V + Loc].

Agradecimentos

A contribuição do primeiro autor deste artigo resulta de pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP (processo 2023/04653-0).

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  • 3
    Notação segundo a GC.
  • 4
    Tradução nossa de: “For better or for worse, I admit to having coined the term usage-based model. In Foundations of Cognitive Grammar, I described such a model as follows: ‘Substantial importance is given to the actual use of the linguistic system and a speaker’s knowledge of this use; the grammar is held responsible for a speaker’s knowledge of the full range of linguistic conventions, regardless of whether these conventions can be subsumed under more general statements. [It is a] nonreductive approach to linguistic structure that employs fully articulated schematic networks and emphasizes the importance of low-level schemas’ (Langacker 1987a: 494).” Langacker (2000) reconhece que, na morfologia, Joan Bybee pratica uma abordagem baseada no uso desde muito antes de o termo ser criado. O próprio texto aqui referido como Langacker (2000) apresenta um agradecimento do autor a ela pela leitura e comentários a versões anteriores à publicada.
  • 5
    O conceito foi criado pela Gramática Gerativa, modelo da Linguística Gerativa, como propriedade formal de uma regra. A recepção do conceito pela GC torna a produtividade uma propriedade gradual de uma construção. Ambos os modelos reconhecem a relação entre produtividade e generalidade. A GC acresce a composicionalidade como fenômeno articulado com a produtividade e a generalidade.
  • 6
    Seria possível traduzir construal como construção, porém preferimos reservar construção para a unidade da gramática e do léxico e manter como construal o que a GC concebe como construção cognitiva da experiência na interação, por um lado, e como significado construcional, por outro, de modo a minimizar os riscos de mal-entendido.
  • 7
    Tradução nossa de: “A verb like explode and a noun like explosion can both refer to the same event. According to standard doctrine, this proves that the verb and noun classes are not semantically definable: if they were, explode and explosion would belong to the same category, since they have the same meaning. This reasoning hinges on the fallacious assumption that referring to the same event makes the two expressions semantically equivalent. They are not. While invoking the same conceptual content, they differ in meaning because of how they construe it: unlike explode, which directly reflects the event’s processual nature, explosion construes it as an abstract thing derived by conceptual reification. It is precisely by virtue of this conceptual contrast that the expressions belong to different grammatical categories.”
  • 8
    Outra questão relevante é a não mudança de forma neste par V/S, por não ser de origem latina, como work (V) / work (S) e travel (V) / travel (S) (v. Resende; Ilari, 2020). Fosse um par de origem latina, como replace / replacement e examine / examination, já se colocaria a questão morfológica, sempre presente em português.
  • 9
    Tradução nossa de: “Finally, it could be claimed that summary scanning is also needed to distinguish nominalisations of verbs, see e.g., Something exploded vs. There was an explosion (Langacker 2002: 98). The exploding event in the latter sentence is said to be scanned summarily. We agree with Langacker that ‘[n]ominalizing a verb necessarily endows it with the conceptual properties characteristic of nouns’ (2002: 98) but we would dissociate reification of events from the question of scanning. This is also done, for example, by Croft (2001: 88), who analyses action nominals as action words used in the discourse prepositional act of reference, i.e., without invoking summary scanning as defined by Langacker.”
  • 10
    Em ambas as variedades nacionais do português, perdimento tem seu uso restrito ao enquadre jurídico. “Não tendo sido declarado na sentença o perdimento a favor do Estado de determinado bem apreendido nos autos, será possível fazê-lo em momento posterior, em despacho autónomo?” (Processo n.º837/15.6GBAGD-B.P1, grifo nosso). “A Lei nº 14.651/2023 foi publicada no Diário Oficial da União desta quinta-feira (24/08), aprimorando a legislação brasileira quanto à aplicação e o julgamento da pena de perdimento de mercadoria, veículo e moeda” (https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202308/brasil-aprimora-regras-sobre-pena-de-perdimento-de-mercadoria-veiculo-e-moeda, grifo nosso).
  • 11
    Busca por bora no Corpus do Português (https://www.corpusdoportugues.org/web-dial/) em 15/4/2024. Constam o número da ocorrência, a variedade nacional do português, a fonte e o dado.
  • 12
    Batoréo (2022) retoma a crítica à concepção da linguagem como instinto.
  • 13
    Tradução nossa de: “The ‘top-down’ spirit of generative grammar is evident in its emphasis on general rules and universal principles, as well as its historic neglect of lexicon, low-level subpatterns, and the patient enumeration of idiosyncrasies. […] Another facet of Cognitive Grammar’s bottom-up orientation is the claim that “rules” can only arise as schematizations of overtly occurring expressions. However far this abstraction may proceed, the schemas that emerge spring from the soil of actual use.”
  • 14
    Tradução nossa de: “The link between the self-awareness of Cognitive Linguistics as a usage-based form of linguistic investigation and the deployment of empirical methods is straightforward: you cannot have a usage-based linguistics unless you study actual usage - as it appears in corpora in the form of spontaneous, non-elicited language data, or as it appears in an on-line and elicited form in experimental settings. Second, the very emphasis that Cognitive Linguistics places on the fact that our knowledge of the world is an active construal rather than a passive reflection of an objectively given world, favours an interest in differences of construal between cultures, social groups, or even individuals. But such a variational perspective cannot, by definition, be realized individually. If we assume that language is not genetically so constrained as to be uniform all over the globe, and that linguistic communities are not homogeneous (two assumptions that would seem to be congenial to the non-objectivist stance of Cognitive Linguistics), then a broader empirical basis than one’s own language use is necessary to study the variation.”
  • 15
    Original: “For ease of discussion, I am conflating two parameters that eventually have to be distinguished: entrenchment or unit status (pertaining to a particular speaker) and conventionality (pertaining to a speech community)” (Langacker, 2008a, nota 13, p. 21). Tradução nossa: Para facilitar a discussão, estou combinando dois parâmetros que, no final, têm de ser distintos: rotinização ou status de unidade (relativo a um falante particular) e convencionalidade (relativa a uma comunidade de fala).
  • 16
    Aqui acompanhamos Garcez (2008) quanto à denominação do modelo por entender que Análise da Conversação corresponde à recepção brasileira à Análise da Conversa pela lente da Linguística Textual com foco no texto falado. Entre os fundamentos da Análise da Conversa está “[...] o interesse etnometodológico em estudar a racionalidade prática cotidiana, o raciocínio sociológico dos agentes sociais enquanto agem [...] e o registro audiovisual fidedigno da fala-em-interação social [...]” (Garcez, 2008, p. 22).
  • 17
    Tradução nossa de: “[...] there is a growing tendency in Cognitive Linguistics to stress its essential nature as a usage-based linguistics [...]”
  • 18
    Tradução nossa de: “[...] characterize the beliefs that language users entertain regarding language and language varieties.”
  • 19
    Tradução nossa de: “More reasonable is the interactive alternative, which does take people into account but claims that an individual mind is not the right place to look for meanings. Instead, meanings are seen as emerging dynamically in discourse and social interaction. Rather than being fixed and predetermined, they are actively negotiated by interlocutors on the basis of the physical, linguistic, social, and cultural context. Meaning is not localized but distributed, aspects of it inhering in the speech community, in the pragmatic circumstances of the speech event, and in the surrounding world.”
  • 20
    O Globo, 12/9/2023: https://oglobo.globo.com/blogs/portugal-giro/post/2023/09/populacao-brasileira-em-portugal-dispara-e-aumenta-64percent.ghtml. Observador, 15/10/2023: https://observador.pt/2023/10/15/novos-imigrantes-brasileiros-em-portugal-sao-de-grandes-cidades-e-tem-entre-20-e-40-anos/.
  • 21
    Busca por desculpa no Corpus do Português (https://www.corpusdoportugues.org/web-dial/) em 15/4/2024. Constam o número da ocorrência, a variedade nacional do português, a fonte e o dado.
  • 22
    Afora a heterossemia entre desculpa (V) e desculpa (S) com identidade fonológica no PE e no PB, há que considerar a divergência fonética, em que desculpe termina em [ɨ] e desculpa termina em [ɐ] no PE, enquanto desculpe termina em [i] e desculpa termina em [ɐ] no PB, a dificultar a percepção, pelos brasileiros, da distinção entre desculpe e desculpa.
  • 23
    Busca por alcance e abraço no Corpus do Português (https://www.corpusdoportugues.org/web-dial/) em 18/4/2024. Constam o número da ocorrência, a variedade nacional do português, a fonte e o dado. A busca traz o verbo e o substantivo deverbal entre os resultados como efeito da heterossemia.
  • 24
    Buscas concluídas e revisadas em 26/4/2024.
  • 25
    Nas quatro tabelas, as ocorrências de desculpa (V) e desculpe (V) devem ser relativizadas ao fato de que essas formas não se restringem ao imperativo.
  • 26
    Durante a redação deste artigo, o Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, fez a seguinte declaração: “Não é apenas pedir desculpa — devida, sem dúvida — por aquilo que fizemos, porque pedir desculpa é às vezes o que há de mais fácil, pede-se desculpa, vira-se as costas, e está cumprida a função. Não, é o assumir a responsabilidade para o futuro daquilo que de bom e de mau fizemos no passado.” Tal declaração atesta que a questão colonial está viva na memória de portugueses e brasileiros. Na história social do PE e do PB, o fato de a norma portuguesa ser a única prescrita no Brasil é uma forte evidência da permanência da assimetria colonial.
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    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2025

Histórico

  • Recebido
    27 Mar 2025
  • Aceito
    28 Mar 2025
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