Open-access Um estudo de caso sobre a tradução de falsos amigos semânticos de português para espanhol.

A case study on the translation of semantic false friends from Portuguese into Spanish

Resumo

Na Universidade de Granada, trabalhamos num projeto que busca descobrir o tipo de interferência que apresentam os falsos amigos (FA) num processo tradutório de português para espanhol. Neste artigo apresentamos os resultados obtidos neste projeto relativos aos FA semânticos do âmbito do vestuário e acessórios. O estudo foi realizado com a participação de 38 estudantes de português intermediário do terceiro ano da licenciatura de Traducción e Interpretación. A partir de uma seleção de 52 FA retirados do Referencial Camões (Direção de Serviços de Língua e Cultura, 2017), foi construído um corpus composto por 33 textos autênticos que continham esses termos para serem traduzidos pelos 38 estudantes. Depois da correção e avaliação em equipe dos textos, os erros de tradução foram registrados de forma sistemática em um formulário de análise, o que permitiu a sua posterior categorização e quantificação. Os resultados revelaram padrões recorrentes de erros, principalmente relacionados à interferência linguística e à dificuldade de interpretação contextual o que permitirá elaborar materiais didáticos mais eficazes e direcionados às necessidades dos estudantes.

Palavras-chave:
falsos amigos semânticos ; espanhol ; português como língua estrangeira ; erro de tradução

Abstract

At the University of Granada, we are working on a project to identify the different types of interference caused by false friends (FF) in the translation process from Portuguese into Spanish. The present article outlines the results of a study on semantic false friends related to clothing and accessories. The study involved 38 intermediate-level Portuguese students in the third year of the Bachelor Degrees in Translation and Interpretation. Drawing on a selection of 52 false friends from the Referencial Camões (Direção de Serviços de Língua e Cultura, 2017), a corpus comprising 33 authentic texts was assembled for translation by the 38 student participants. After the texts had been collaboratively corrected and evaluated, the translation errors were systematically recorded for analysis, enabling them to be categorized and quantified in a structured manner. The results revealed repeated error patterns, primarily linked to linguistic interference and challenges in contextual interpretation, thereby supporting the need for the development of more effective, learner-centered teaching materials tailored to specific student needs.

Keywords:
Semantic false friends ; Spanish ; Portuguese as a foreign language ; Translation error

1. Introdução

A análise das falsas semelhanças lexicais entre línguas é um dos assuntos mais estudados dentro da linguística contrastiva, principalmente entre línguas próximas. Não existe consenso sobre os termos usados para nomear este aspecto do léxico (Bugueño, 2002, 2008; Sabino, 2006; Costa, 2020). Na Espanha e em Portugal emprega-se habitualmente o termo falso amigo, e no Brasil, heterossemântico ou falso cognato. Neste artigo usaremos falso amigo (FA) para designar de forma geral as unidades lexicais semelhantes que encobrem alguma diferença (semântica, morfológica, pragmática...), e falso amigo semântico para denominar, de modo específico, as unidades lexicais que ocultam diferenças de significado.

Dentro da vasta produção científica sobre este assunto, destacam-se numerosos dicionários e inventários de falsos amigos (Feijóo Hoyos & Hoyos-Andrade, 1992, 1998; Mello & Bath, 1996; Bechara & Moure 1998; Carita, 1999; AA.VV. 1997, 2006; García Benito, 1997; Marzano 2001, 2006; Monte, 2003; Fornari, 2004; Volpi, 2005; Leal, 2006; Sanz Juez, 2007; Ferreira Montero, 1996, 2011; Díaz Ferrero, 2013, 2018; Masip, 2013; Bugueño, 2014; Durão, 2014). Estes, entre outros repertórios lexicográficos, contribuíram para o desenvolvimento e aprimoramento de diferentes aspectos contrastivos das línguas portuguesa e espanhola e evidenciam que o número de FA entre estas línguas é elevadíssimo. Consideramos, não obstante, que é necessário determinar quais são os FA que causam mais problemas na tradução, dado que em muitas ocasiões somente criam situações de surpresa ou gracejo em sala de aula, mas poucos ou nenhuns problemas reais de comunicação. Com esse propósito, na Universidade de Granada (UGR) trabalhamos num projeto para identificar e avaliar as interferências que provocam as falsas semelhanças entre as línguas portuguesa e espanhola no âmbito da formação de futuros tradutores e intérpretes.

Este projeto está sendo realizado com estudantes de português de nível de proficiência intermediário da Licenciatura de Traducción e Interpretación da UGR e começou a ser implementado no ano letivo 2021-2022. O objetivo do projeto é descobrir os erros de caráter semântico que os FA provocam no processo tradutório e identificar as suas causas. Para isso trabalha-se com um corpus de textos que contêm 498 FA retirados do Referencial Camões PLE (Direção de Serviços de Língua e Cultura, 2017). Devido à extensão da pesquisa, neste artigo optou-se por apresentar apenas o resultado do estudo referente aos FA semânticos do âmbito do vestuário e acessórios. Indicamos em primeiro lugar a descrição do objeto de estudo e do contexto acadêmico onde o estudo é implementado, incluindo o perfil dos estudantes; descreve-se, a seguir, o corpus de textos traduzidos pelos estudantes, o estudo dos erros seguindo a teoria de análise de erros de tradução de Delisle; Lee-Jahnke e Cormier (1999), Nord, (1996; 2009) e Hurtado Albir (1996; 2001) e por fim, apresentam-se os resultados alcançados: os tipos de erros que causaram as unidades lexicais estudadas, as que foram traduzidas de forma adequada e aquelas que causaram erros de sentido e interferências.

2. Metodologia

Objeto de estudo: Falsos amigos analisados

Seguindo a definição apresentada em outros estudos, consideramos que os falsos amigos são:

unidades da língua estrangeira com a mesma forma ou uma forma semelhante à língua materna, e alguma divergência que pode passar despercebida e levar a um erro ou inadequação na compreensão ou expressão escrita ou oral. (Díaz Ferrero, 2019, p. 486, tradução nossa).

Segundo a natureza do erro ou imprecisão que pode provocar, diferenciamos cinco categorias de FA (Díaz Ferrero, 2019): prosódicos; morfológicos e sintáticos; ortográficos e ortotipográficos; pragmáticos e semânticos. Os FA prosódicos são aqueles que podem levar a erros de pronúncia, principalmente de alteração da sílaba tônica (arquétipo//arquetipo; clitóris//clítoris; canguru//canguro); FA morfológicos são aqueles que podem causar alterações de gênero (a fraude//el fraude; o massacre//la masacre), de número (os fins justificam os meios//el fin justifica los medios) ou de derivação (tanzaniano//tanzano; inestético//antiestético); os FA ortográficos e ortotipográficos podem causar erros de ortografía (sorver//sorber; algibe//aljibe; vice-presidente//vicepresidente) ou de signos tipográficos, como o uso indevido do espaço antes e depois do travessão; FA pragmáticos são unidades lexicais iguais ou semelhantes em português e espanhol que não são usados com a mesma frequência nas duas línguas, pertencem a registros linguísticos diferentes ou demonstram convenções socioculturais de uso distintas em cada idioma. É o caso de pescoço//pescuezo; barriga de aluguer//barriga de alquiler, globo terrestre//globo terrestre ou esclarecer//esclarecer y, por último, os falsos amigos semânticos são unidades lexicais iguais ou semelhantes com um significado total ou parcialmente diferente em cada língua e podem, portanto, ser interpretadas de forma errada e alterar a significação da comunicação. É o caso de palavras como assinatura//asignatura; ninho//niño; propina//propina ou trampa//trampa, bem como de unidades fraseológicas como botar ou pôr (alguém) no bolso (enganar, burlar ou ser superior a alguém) em português, e meterse a alguien en el bolsillo (cativar ou seduzir), em espanhol. Estas unidades representam uma parte importante do léxico e o desconhecimento delas pode provocar graves erros na tradução, como os casos de textos jornalísticos citados em Díaz Ferrero (2019), onde observamos, por exemplo, erros originados por interpretações errôneas de palavras como “balneário”, “despiste” ou “bilhão”.

O estudo que aqui apresentamos foi realizado com falsos amigos semânticos relacionados com o vestuário e os acessórios. Como foi referido anteriormente existem muitos dicionários de falsos amigos entre as línguas portuguesa e espanhola. Por exemplo, a segunda edição do primeiro dicionário publicado de falsos amigos do espanhol e do português (Feijóo Hoyos & Hoyos Andrade, 1998) inclui mais de 2000 verbetes. Considerando esta grande quantidade de FA entre estas línguas, torna-se inviável testar o risco de interferência de todas as palavras presentes em um dicionário. Por isso, optou-se por concentrar a análise nas unidades lexicais da linguagem geral ou comum, uma vez que estas têm maior probabilidade de ocorrência em contextos reais de uso e representam, portanto, um ponto de partida mais eficaz para investigar as dificuldades enfrentadas pelos aprendentes. A seleção dos FA objeto de análise (Quadro 1) foi realizada a partir de uma triagem dos inventários do Referencial Camões PLE (Direção de Serviços de Língua e Cultura, 2017). Foram extraídos FA relativos à roupa e acessórios como meias (calcetines) ou bolso (bolsillo), mais outros FA, retirados de outras seções, cuja forma poderia provocar erros de compreensão por serem semelhantes a termos da língua espanhola relacionados com o vestuário. Por exemplo, abrigo (refugio, amparo, cobijo). O Referencial Camões PLE propõe uma divisão dos conteúdos seguindo um tratamento sequencial ao longo de seis níveis de referência (A1, A2, B1, B2, C1 e C2) do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (QECR) (Conselho da Europa, 2001, 2021). Desta maneira, a maioria dos FA selecionados para a nossa pesquisa enquadram-se dentro dos níveis A1-C1 do QECR. São unidades lexicais de uso comum, embora também haja alguns termos que podem ser inventariados em níveis superiores ou contextos de linguagem de especialidade como albornoz (chilaba) ou jérsei (punto), um tipo de tecido de malha. Incluem-se estes termos no estudo porque podem ser associadas a outras palavras pertencentes à linguagem comum e constantes na lista como roupão (albornoz) e camisola (jersey ou camiseta), em Portugal ou blusa (jersey), no Brasil.

No que diz respeito às variações diatópicas, os FA retirados do Referencial Camões (Direção de Serviços de Língua e Cultura, 2017) foram analisados para verificar se são usados no português do Brasil ou se apresentam outras formas alternativas. Algumas unidades lexicais, como abrigo, brinco, colar, casaco ou farda, são usadas nas duas variedades da língua portuguesa, mas outras são usadas apenas - ou essencialmente - em Portugal, como ganga, e outras são próprias do português do Brasil, como paletó. Desta maneira foram criados três grupos de unidades lexicais: aquelas que são usadas tanto em Portugal quanto no Brasil, as que se usam apenas ou principalmente no português europeu (PE), e as que pertencem apenas ou principalmente ao português do Brasil (PB). A lista a seguir apresenta por ordem alfabética os 52 FA selecionados para a pesquisa.

Quadro 1:
Falsos amigos selecionados para o estudo

Contexto de ensino onde foi realizado o estudo

A nossa pesquisa foi realizada com estudantes de português, de língua materna espanhola (ou com um domínio pleno do espanhol) da licenciatura de Traducción e Interpretación da UGR. São estudantes do terceiro ano desta licenciatura que começam a desenvolver a competência tradutora (Beeby et al., 2001, 2003, 2005; EMT, 2022) em língua portuguesa pois é neste ano que realizam as primeiras disciplinas de tradução português-espanhol e recebem os princípios básicos da tradução neste par linguístico. Convém assinalar neste ponto que os estudantes desta licenciatura são treinados como tradutores e intérpretes generalistas em três línguas, a língua materna ou língua A, mais uma primeira língua estrangeira, denominada língua B, na qual é essencial que tenham no início da licenciatura um nível B1 de competência linguística, de acordo com o Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas (QECR) (Conselho da Europa, 2001, 2021), e uma segunda língua, denominada língua C ─ como é o caso da língua portuguesa ─, cujo estudo começa normalmente no primeiro ano da licenciatura.

Dado que o número de estudantes por ano é reduzido, o projeto tem sido implementado durante três anos letivos, pelo que participaram ─ como se pode observar no Quadro 2 ─ 38 estudantes (12 estudantes no ano 2021-22; 13, no ano letivo 2022-23 e 13 no ano letivo 2023-24). Desta maneira, depois de analisar os dados do questionário do perfil linguístico (língua materna, tempo de estudo da língua portuguesa, língua B da licenciatura de Traducción e Interpretación, experiências de imersão e autoavaliação das competências linguísticas), a caraterização linguística dos integrantes do projeto é a seguinte: são maioritariamente de língua materna espanhola de Espanha (71,05 %) ou de outra língua materna, mas com um elevado conhecimento de espanhol (28,9 %) e todos têm o português como segunda língua estrangeira ou língua C, com 5 ou 6 semestres de estudo e um nível aproximado de proficiência linguística que varia entre B1 (31,5 %) e B2 (57,8 %), mais uma pequena porcentagem (7,8 %) de estudantes que têm nível C1 e uma estudante de intercâmbio procedente de uma universidade brasileira com nível C2. Segundo o QECR, o nível intermediário (B1) permite a compreensão e produção de textos que tratam de assuntos habituais ou familiares, revelando um conhecimento fundamental das estruturas e vocabulário da língua. No entanto, esse nível é muitas vezes insuficiente para a realização de tarefas de tradução ou interpretação mais complexas. O nível intermediário avançado (B2) possibilita ao estudante interpretar com maior precisão a terminologia presente em textos mais elaborados, mas essa competência pode ser ainda insuficiente para captar matizes semânticos, conotações culturais ou usos figurados da linguagem, exigindo, por vezes, apoio contextual ou recursos complementares para uma compreensão plena e adequada à tarefa tradutória. Desta forma, este estudo pretende identificar os erros de tradução que cometem estudantes de nível intermediário de português em atividades de tradução de português para espanhol que contêm FA retirados do Referencial Camões PLE e inventariados entre os níveis A1 e C1.

Quadro 2:
Perfil linguístico dos participantes da pesquisa

Material de análise: Corpus de traduções analisadas

O material de estudo é constituído por um corpus composto por 33 microtextos que contêm os 52 FA selecionados relativos ao vestuário e aos acessórios. De acordo com os preceitos fundamentais para a didática da tradução estabelecidos por Nord (1996), os textos foram selecionados seguindo o princípio de autenticidade, isto é, são textos reais que não foram criados artificialmente para trabalhar este aspecto. São textos de diferentes gêneros e tipologias (notícias jornalísticas, brochuras, folhetos, mensagens, lendas, resumos de trabalhos científicos, anúncios...) para serem traduzidos de português (de Portugal e do Brasil) para espanhol europeu, seguindo a tarefa encomendada. Por exemplo: Traduza para espanhol o seguinte resumo e palavras-chave do artigo de Luisa de A. M. Simão intitulado A influência do corpo masculino na construção do terno contemporâneo:

Resumo A partir de uma breve análise sobre a evolução do terno moderno, bem como de suas características formais relacionadas à ressemantização e reconstrução do corpo masculino, este artigo investiga os possíveis novos diálogos e interseções que se estabelecem entre o corpo e o terno do homem contemporâneo, afim de compreender as mudanças estéticas corporais que se evidenciam no século XXI, sob o ponto de vista morfológico do traje e em suas constantes adaptações.

Palavras-Chave: Terno, Corpo, Reconstrução, Produção de Sentido

A maioria dos textos inclui vários falsos amigos semânticos e possui unidade de sentido independente, pelo que podem ser compreendidos sem a necessidade de referência a outros elementos do contexto. Deste modo, é possível analisar os erros que provocam um elevado número de unidades lexicais e obter uma alta rentabilidade no estudo. É o caso dos seguintes textos, o primeiro retirado da seção de pessoas desaparecidas da página da Polícia Judiciária de Portugal onde aparecem os termos blusão e ganga na descrição da pessoa desaparecida e o segundo de uma notícia publicada na revista brasileira de negócios Isto É Dinheiro que contém os FA paletó e grife:

Pessoas Desaparecidas

Outras Informações: Desapareceu no dia 28/01/1990, na zona da praia de São Torpes, Sines. Praticava surf. Vestia calças e blusão de ganga azul e transportava uma mochila azul com riscas amarelas e encarnadas. (Difusão nº 40/2007) https://www.policiajudiciaria.pt/helder-alexandre-ferro-pagarim-cavaco/

Grife canadense lança campanha para o home office: paletó, gravata e cuecas

A pandemia da covid-19 e o home office impuseram uma nova forma de pensar o trabalho no século 21. Pensando nisso, uma marca de roupas canadense, a Henri Vézina, lançou uma campanha intitulada “Work From Home” incentivando as pessoas a vestirem paletó e gravata normalmente, mas apostarem apenas nas roupas de baixo, como as cuecas, enquanto trabalham em casa. (Isto É Dinheiro, 21/10/2020).

Procedimentos de coleta e análise dos dados

A coleta de dados é realizada mediante análise das traduções dos estudantes e posterior registro dos erros cometidos. Cada um dos 38 estudantes traduziu ─ de forma individual e sem consultar quaisquer fontes lexicográficas ─ 33 textos ao longo de duas sessões. Primeiro foram traduzidos os textos com FA usados tanto na variante do português europeu quanto na variante do português do Brasil, seguidamente os textos oriundos de Portugal e, a seguir, os textos específicos do Brasil. Desta maneira, obteve-se um corpus de 1254 traduções.

A análise e correção das traduções foi realizada com base nas principais teorias de análise de erros de tradução. Existem diferentes definições de erro de tradução, que variam conforme a perspectiva teórica e os objetivos da análise. Uma das categorizações mais usadas é a de Delisle, Lee-Jahnke e Cormier (1999) que distingue entre erros de língua, associados à língua alvo (por exemplo erros ortográficos ou gramaticais) e erros de tradução (falso sentido, contra-senso ou sem sentido, por exemplo) causados por uma interpretação errônea de algum segmento do texto fonte ou a um erro de metodologia. Essa tipologia de erros é complementada pela abordagem funcionalista de Nord (1996, 2009), que enfatiza que um erro deve ser avaliado pelo seu grau de adequação à função comunicativa e à encomenda da tradução (Skopos), o que permite uma avaliação mais contextualizada e orientada para a função na língua de chegada. Portanto, de acordo com as teorias funcionalistas, um erro de tradução acontece quando não se cumprem as instruções dadas pelo cliente e consequentemente não se consegue a função comunicativa pretendida (Nord, 1996, 2009). Esta autora distingue entre erros pragmáticos, culturais e linguísticos. Os erros pragmáticos, por via de regra os mais graves, desrespeitam as instruções dadas para cumprir com o objetivo ou função do texto fonte e, por conseguinte, prejudica a função informativa do texto; os erros culturais descumprem as normas, hábitos ou convenções da cultura, e os erros linguísticos são falhas gramaticais, lexicais, ortográficas ou de pontuação. Numa concepção da tradução como processo interpretativo e comunicativo, destaca-se a perspectiva de Hurtado Albir (2001). Segundo esta autora o erro de tradução é uma equivalência inadequada para a tarefa tradutória encomendada e cuja gravidade do erro dependerá do contexto e da finalidade da tradução. Hurtado Albir, (1996) determina três tipos de erros ou inadequações: as que afetam a função textual, as que afetam a expressão na língua alvo, e inadequações que afetam a compreensão do texto original. São estas últimas, nomeadamente as produzidas por falsas semelhanças, que pretendemos analisar neste artigo: os erros de tradução provocados por uma interpretação errônea de algum FA semântico da língua portuguesa. O principal problema que podem causar os FA semânticos num processo tradutório é criar interferências com outros elementos da língua materna ou de uma terceira língua, ou seja, considerar errôneamente que determinados elementos do texto base ─ pela sua semelhança ─ têm um significado similar na língua alvo e consequentemente oferecer uma equivalência inadequada.

Partindo deste conceito de erro, depois de os estudantes traduzirem os textos, foi realizado um debate para analisar os textos traduzidos e refletir sobre os motivos que originaram interpretações errôneas ou acertadas. As escolhas dos estudantes foram registradas num formulário do Google Forms que inclui as seguintes opções para a tradução de cada termo: tradução adequada porque conhecia a palavra; tradução adequada com ajuda do contexto; tradução adequada por associação com outra língua estrangeira; interferência com o espanhol por falta de atenção (atribuir errôneamente ao termo em português o mesmo sentido que em espanhol); interferência com o espanhol devido a um equívoco provocado pelo contexto; falso sentido ou tradução inexata sem interferência; omissão por desconhecimento do termo em português ou em espanhol (não traduzir um termo do texto fonte), e generalização por desconhecimento do termo preciso (empregar um termo geral ou neutro). O estudo concentra-se na análise de itens lexicais, mas partindo de uma perspectiva funcionalista da tradução. Evidentemente, as omissões e as generalizações podem ser técnicas de tradução certas em muitas situações e podem ter como resultado uma tradução adequada. Contudo, no nosso estudo consideramos a omissão e a generalização como erros, quando o estudante não compreendeu o significado do termo no texto base ou não soube encontrar a correspondência na língua alvo, mas não são considerados como erro, se foi uma escolha fundamentada pela função comunicativa pretendida.

3. Análise de erros: Resultados

A partir da análise da categorização dos erros cometidos pelos estudantes, foi possível identificar as unidades lexicais que causaram mais interferências. Em primeiro lugar, comprovamos que nem todas as unidades lexicais apresentam o mesmo risco de causar erros ou interferências, pois a área temática a que pertencem ou o contexto de uso muitas vezes auxilia na dedução do significado. Isto acontece principalmente com palavras que não pertencem ao âmbito do vestuário ou acessórios, embora sejam parecidas com palavras em espanhol relativas a este âmbito. Por exemplo, com palavras como abrigo (cobijo, refugio, amparo), tela (PB) (pantalla, malla metálica ou lienzo) ou encaixe (encaje, ajuste) o número de interferências foi baixa. Assim, no seguinte texto 24 estudantes (63,1%) conseguiram inferir com ajuda do contexto o significado da palavra abrigo, que foi traduzida, entre outras opções, por albergue, casa de acogida ou refugio.

Abrigo para moradores em situação de rua continuará durante o inverno em Cajamar

Alojamento Provisório foi instalado com a finalidade de assegurar as pessoas em situação de rua um espaço adequado para acolhimento no período da pandemia, possibilitando o isolamento social. (Prefeitura de Cajamar, 14/07/2020). Brasil.

O contexto também ajudou para inferir o significado de palavras que pertencem ao âmbito do vestuário, mas a forma é parecida com outras palavras do espanhol de áreas temáticas diferentes. É o caso das palavras colar (collar) ou grife (marca de lujo, exclusiva). Por exemplo, no texto a seguir é evidente pelo contexto que a palavra grife não pode ser traduzida por grifo (torneira) em espanhol. Deste modo, 30 estudantes (78,9 %) deduziram o significado e fizeram uma tradução adequada.

Grife canadense lança campanha para o home office: paletó, gravata e cuecas

A pandemia da covid-19 e o home office impuseram uma nova forma de pensar o trabalho no século 21. Pensando nisso, uma marca de roupas canadense, a Henri Vézina, lançou uma campanha intitulada “Work From Home” incentivando as pessoas a vestirem paletó e gravata normalmente, mas apostarem apenas nas roupas de baixo, como as cuecas, enquanto trabalham em casa. (Isto É Dinheiro, 21/10/2020). Brasil.

Existe outro grupo de FA que ocasionaram generalizações ou omissões desnecessárias porque os estudantes tiveram dificuldades para encontrar a correspondência em espanhol, mas não provocaram interferências. É o caso de malha (punto), beca (toga) ou renda (encaje). Por exemplo, no texto a seguir, 17 estudantes (44,7 %) omitiram a tradução de renda, 6 estudantes (15,7 %) optaram por um termo genérico como tejido, 9 estudantes (23,6 %) fizeram uma tradução errada como riendas, redes ou haciendas, e 6 estudantes (15,7 %) fizeram uma tradução adequada (2 conheciam a palavra e 4 inferiram o significado pelo contexto).

Museus da Madeira. Rendas de croché

Origem/Historial: Malha ou espécie de renda, confecionadas com uma agulha de bico terminada em gancho e que utiliza um fio contínuo, normalmente fio de lã, fio de algodão de seda ou de linho. A palavra croché deriva do francês antigo crochet, um diminutivo de croché que significa “gancho”. Foi usado nas rendas francesas no século XVII, como ponto, para unir peças separadas de renda. (Ficha de inventário retirado da página Museus da Madeira) https://museus.madeira.gov.pt/DetalhesObra?id=165&tipo=IMA

Um exemplo de generalização oberva-se no seguinte texto onde 16 estudantes (42,1 %) empregaram um termo geral como adorno ou ornamento para traduzir franja, 8 estudantes (21,05 %) omitiram o termo, 6 estudantes (15,7 %) optaram por um falso sentido como abalorio ou cinta, 3 estudantes (7,8 %) traduziram franja por franja, e 5 estudantes (13,1 %) fizeram uma tradução adequada (3 estudantes porque conheciam a palavra e 2 por associação com a língua italiana).

Saída de praia 2020: as 10 melhores tendências do verão

Na tendência de valorizar o que é feito à mão, as saídas de praia artesanais ganham cada vez mais espaço na moda. De beleza única e detalhes ricos, as peças são confeccionadas em crochê, tricô, linha, renda, com bordados, aplicações e franjas. https://www.digitaletextil.com.br/blog/saida-de-praia/ (20/11/2019)

O grupo de FA que causaram maior número de interferências pode ser dividido em duas categorias. Por um lado, unidades lexicais que pertencem ao mesmo campo semântico em português e espanhol e por outro unidades lexicais com diferenças diatópicas de significado. O primeiro grupo inclui palavras como albornoz (chilaba), pendente (PE) (colgante), ou farda (uniforme). Nestes casos a maioria dos estudantes que tiveram interferências com o espanhol apontaram no questionário como principais motivos o desconhecimento do significado na língua portuguesa e o engano pelo contexto. Ou seja, além da falta de competência linguística, o contexto contribuiu para interpretar errôneamente o significado do termo em português. Por exemplo, albornoz é uma peça de roupa em português, mas não corresponde em espanhol a albornoz (roupão), mas sim a chilaba. Deste modo, 31 estudantes (81,5 %) tiveram interferências com o espanhol e traduziram a palavra albornoz por albornoz neste texto retirado da lenda intitulada “As Mouras de Paderna” publicado no livro As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve de F. Oliveira:

Em um dia de manhã da mais poética primavera tomavam as belas mouras o seu banho na ribeira que corre no sopé do monte do castelo, quando umas crianças que brincavam próximo das margens vieram a correr dizendo:

- Veja minha mãe. Que bonito é...!

- O quê, filho?

- As mouras a correr para o castelo.

Saiu a mãe do banho, cobriu o corpo nu com o albornoz do marido e correu a verificar o facto.

Então teve a compreensão nítida da sua desgraça.

Os cristãos serviam-se de uma estratégia para se aproximar do castelo. Tinham arrancado a distância grande porção de mato e encobertos com este tentavam entrar no forte castelo. (Oliveira, 1996 [1998], p. 143)

Uma situação semelhante ocorreu com o termo farda (uniforme), que apareceu numa notícia publicada no jornal Diário de Notícias de Portugal sobre as primeiras mulheres da Guarda Nacional Republicana. Neste caso, 25 estudantes traduziram errôneamente farda por falda. Um número muito elevado de estudantes, tendo em conta que a maioria (44,7 %) declarou que foi por falta de atenção, pois sabiam, como afirmaram na revisão dos textos, que falda em espanhol é saia em português.

Ivone foi uma das primeiras mulheres na GNR da Régua e vai ser homenageada

Ivone Borges foi, há 15 anos, uma das primeiras mulheres na Régua a vestir a farda da Guarda Nacional República e este ano será uma das homenageadas pela autarquia local para assinalar o Dia Internacional da Mulher. (Diário de Notícias, 07/03/2012)

O segundo grupo dos falsos amigos semânticos que causaram mais interferências é formado por termos que têm significados diferentes no Brasil e em Portugal. É o caso de blusão, que pode ser traduzido por sudadera, se for no português do Brasil, e por chaqueta ou cazadora, se for de Portugal. Causou também muitas dificuldades o termo jaleco, que significa bata no Brasil, e chaqueta ou chaquetilla em Portugal, embora também seja às vezes usado em Portugal com o significado de bata. Os falsos amigos que têm variações diatópicas, além de provocar erros na tradução, originam uma espécie de confusão mental que retarda a aquisição desta parte do vocabulário. Prova disso é que no texto que segue, somente 10 estudantes fizeram uma tradução adequada. 28 estudantes traduziram de forma errada a palavra blusão da seguinte notícia publicada na página da Prefeitura de Jundiaí (21 estudantes tiveram interferências com a língua espanhola, 3 fizeram uma tradução inexata como cazadora, chaqueta e chupa, 1 omitiu o termo em espanhol e 3 usaram um termo geral como prenda de abrigo).

Uniforme: começa a distribuição para as escolas

A Secretaria de Educação informa que mais de 26,5 mil pares de tênis e meias, que compõem o kit de uniforme escolar, já foram entregues nas escolas. A empresa fornecedora das vestimentas, após solicitar à Prefeitura de Jundiaí um prazo de entrega mais longo, iniciou nesta quarta-feira (30) a distribuição das camisetas, dos shorts e dos shorts-saia.

Neste ano será a primeira vez que todos os estudantes da Pré-Escola e do Ensino Fundamental da rede municipal de educação receberão gratuitamente um kit completo de uniforme composto por 11 peças: um blusão, duas calças, duas bermudas para os meninos ou dois shorts-saia para as meninas, duas camisetas com manga, uma camiseta pólo, dois pares de meia e um par de tênis. (Prefeitura de Jundiaí, 30/04/2014) https://jundiai.sp.gov.br/noticias/2014/04/30/uniforme-comeca-a-distribuicao-para-as-escolas/

Um caso similar aconteceu com o termo blusão do português europeu do seguinte texto publicado no jornal Diário de Notícias onde 23 estudantes fizeram uma tradução errada do termo blusão (3 estudantes deram uma tradução inexata de blusão por sudadera ou jersey, 11 estudantes traduziram blusão por blusón e 9 traduziram por blusa). Nesta ocasião, é de referir que 7 estudantes, que tinham o francês como língua B, afirmaram no questionário que conseguiram fazer uma boa tradução graças ao conhecimento da língua francesa.

Grupo de crianças e jovens contam a sua história: assim se constrói o futuro

A provar que as práticas artísticas podem servir de motor da cidadania e combate à exclusão, o programa Isto é PARTIS faz a festa na Fundação Calouste Gulbenkian. O projeto Ibiskode é um exemplo de intervenção pela arte.

"Como é que se constrói uma casa? Eu sei o que é que são paredes, telhado, porta. Nós tínhamos essas casas, mas não nos sentíamos seguros." Sentada à boca de cena com o seu blusão cor-de-rosa e os seus 10 anos, Isabel lembra, pergunta, inventa. "Eu tenho cabeça de criança mas eu sei que podemos arranjar essa casa, o bairro, o mundo, o futuro. Mas como é que se constrói uma casa?" A questão é lançada tanto para a plateia como para dentro do palco, onde outras crianças e adolescentes põem a cabeça e o coração a trabalharem para construir esses "sítios para guardar as pessoas de quem gostamos", acreditando que "todos temos lugares bonitos, eles só têm de caber no lugar da casa". (Diário de Notícias, 12/01/2017)

Com base na quantificação e classificação dos erros (Quadro 3), os FA que causaram interferências numa porcentagem igual ou superior a 52,6 % (20 estudantes), são os seguintes: albornoz, bata (PB), batina, bolsa (PB), bolso, blusa (PB), blusão (PB), blusão (PE) camisola (PB), camisola (PE), cinta, farda, ganga (PE), jaleco (PB), jaqueta, meias, pantalonas, pendente (PE) e roupão.

Quadro 3:
Resultado da tradução dos FA semânticos relativos ao vestuário e acessórios

Considerações finais

A análise de erros de tradução constitui uma ferramenta fundamental para compreender as dificuldades enfrentadas pelos aprendentes no processo de tradução. Neste estudo trabalhamos com 33 microtextos reais para poder submeter a teste 52 falsos amigos semânticos relacionados com o vestuário e acessórios. A análise das traduções desses microtextos possibilitou descobrir quais são os termos que provocam mais interferências de sentido na tradução de português para espanhol europeu, bem como os motivos que ocasionam essas interferências.

O estudo evidencia, por um lado, que a competência lexical é um dos pilares fundamentais para a realização de traduções adequadas. Evidentemente, o desconhecimento do vocabulário, tanto na língua fonte quanto na língua alvo, surge como o principal fator gerador de erros, mas existem outros fatores como o contexto, que podem tanto auxiliar na inferência do significado, quanto no surgimento de equívocos. Por outro lado, observa-se que nem todos os FA provocam interferências com o espanhol. Os FA que são semelhantes a palavras da língua espanhola pertencentes a áreas temáticas diferentes ─ como tela (PB)//tela ou soquete//zoquete ─ provocam normalmente omissões ou generalizações desnecessárias, bem como traduções inexatas, mas não provocam interferências ou equívocos com o espanhol. Contudo, os FA que pertencem ao mesmo âmbito temático em português e em espanhol ─ como pantalonas//pantalones ou bata (PB)//bata ─ são aqueles que provocam mais equívocos e interferências pois são peças de vestuário em português e em espanhol, mas peças diferentes em cada língua. Nestes casos, é necessário redobrar a atenção, já que, se o contexto contribui para encobrir o significado real do FA, as chances de cometer um erro aumentam.

Em suma, os dados obtidos neste estudo proporcionaram informações valiosas para identificar as unidades lexicais que provocam mais interferências no âmbito do vestuário e acessórios no par linguístico português-espanhol, e para descobrir os fatores que contribuem para o aparecimento desses erros. Os resultados obtidos vão permitir abordar de forma clara e contrastiva os pontos mais problemáticos dos FA e elaborar materiais didáticos mais eficazes direcionados às necessidades e dificuldades dos estudantes.

Agradecimentos

Aos/Às estudantes participantes do projeto, pela valiosa colaboração e compromisso com as atividades realizadas. A dedicação e empenho contribuíram de forma significativa para o seu desenvolvimento.

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  • Disponibilidade de Dados
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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    31 Out 2025
  • Data do Fascículo
    Jul-Sep 2025

Histórico

  • Recebido
    30 Ago 2024
  • Aceito
    19 Ago 2025
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