Open-access Linguística e Gestos no Brasil: levantamento e discussão do estado-da-arte

Linguistics and gesture studies in Brazil: data collection and discussion on the state of the art

Resumo

O objetivo deste trabalho é traçar um panorama do estado da arte das pesquisas realizadas no Brasil na interface entre Linguística e Estudos de Gesto. Para tanto, realizamos primeiramente um levantamento da produção acadêmico-científica sobre gestos no país nos últimos 20 anos utilizando as plataformas Google Acadêmico e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Com base na análise dos títulos, resumos e referências bibliográficas dos trabalhos encontrados, foi possível determinar se eles se inserem no escopo das pesquisas sobre gestos na interface com estudos linguísticos. Dos 144 trabalhos encontrados, foram selecionados 76 artigos para análise e discussão. Os resultados mostram que, apesar de todos os artigos basearem suas análises e discussões no referencial teórico da área dos Estudos de Gesto, apenas 28 artigos discutem e aplicam métodos específicos para análise gestual, em grande parte o LASG e MIG-G. Além disso, o levantamento mostra uma tendência crescente de pesquisas sobre gestos no Brasil, tendo o número de publicações dobrado nos últimos 5 anos.

Palavras-chave:
estudos de gesto ; linguística ; levantamento do estado da arte

Abstract

The aim of this paper is to provide an overview of the state of the art of research carried out in Brazil on the interface between Linguistics and Gesture Studies. To this end, we first carried out a survey of academic-scientific production on gestures in the country over the past 20 years using the Google Scholar and Brazilian Digital Library of Theses and Dissertations (BDTD) platforms. Based on an analysis of the titles, abstracts and bibliographical references of the works found, it was possible to determine whether they fall within the scope of research on gestures in the interface with linguistic studies. Of the 144 papers found, 76 were selected for analysis and discussion. The results show that, although all the articles base their analysis and discussion on the theoretical framework of Gesture Studies, only 28 articles discuss and apply specific methods for gesture analysis, mostly LASG and MIG-G. In addition, the survey reveals a growing trend in gesture research in Brazil, with the number of publications having doubled in the last 5 years.

Keywords:
gesture studies ; linguistics ; state-of-the-art research

1. Introdução

Apesar dos gestos serem objeto de estudo desde a retórica clássica, o campo de pesquisa conhecido hoje como Estudos de Gesto (Gesture Studies) teve seus primeiros estudos elaborados na década de 70 e 80, sobretudo no campo da Linguística, sendo seu principal marco temporal a fundação da Associação Internacional para Estudos de Gesto (International Society for Gesture Studies - ISGS)4 em 2002. A área tem se tornado cada vez mais interdisciplinar, como definido pela própria ISGS:

Os estudos sobre gestos são um rico campo interdisciplinar, que se ocupa principalmente com a investigação do uso das mãos e de outras partes do corpo para fins comunicativos. Descobriu-se que o gesto é indispensável em muitas áreas da vida humana, incluindo pensamento, trabalho colaborativo, ciência, arte, música e dança. [...] Os pesquisadores de gestos trabalham em diversas disciplinas acadêmicas e criativas, incluindo antropologia, linguística, psicologia, história, neurociência, comunicação, história da arte, estudos de desempenho, ciência da computação, música, teatro e dança (ISGS, 2023, tradução nossa).5

Apesar de seu caráter interdisciplinar, grande parte das pesquisas na área de Estudos de Gesto ainda são dedicadas a investigar o que chamamos de relação entre gesto e fala. Tal relação pode ser abordada sob diferentes perspectivas, a depender do objetivo da pesquisa. As duas principais abordagens utilizadas hoje - a pragmático-discursiva e a cognitiva - derivam das pesquisas dos dois principais fundadores do campo dos Estudos de Gesto: Adam Kendon e David McNeill, ambos presidentes honorários da ISGS. Assim, podemos dizer que pesquisadores de gestos, hoje, ainda estão, geralmente, ligados à grande área da Linguística. Portanto, o objetivo principal deste trabalho é identificar e discutir o estado-da-arte da pesquisa sobre gestos no Brasil na interface com os estudos linguísticos, utilizando como critério principal a seleção de trabalhos cujos objetivos e quadro teóricos abordem os gestos a partir de seus aspectos e funções na linguagem humana.

Pesquisas sobre gestos desenvolvidas dentro do campo da Linguística tendem a concordar que a análise gestual deve ser feita com base na descrição detalhada da forma do gesto e na sua relação (temporal) com a fala. Partindo da premissa estabelecida por Adam Kendon (1980, 2004), o gesto possui uma estrutura interna e linear que pode ser dividida em diferentes fases como preparação, stroke (núcleo ou ápice do gesto), retenção e retração. A essa estrutura Kendon deu o nome de sintagma (ou frase) gestual. O sintagma gestual e suas fases foram estudados e (re)adaptados por vários autores (Kita et al., 1998; McNeill, 2005; Seyfeddinipur, 2006; Bressem & Ladewig, 2011; Ladewig & Bressem, 2013), mas todos concordam que o stroke é a fase obrigatória e sem ele não há gesto (McNeill, 2016, p. 6), uma vez que é nessa fase da excursão gestual “que a dinâmica do movimento de ‘esforço’ e ‘forma’ se manifesta com maior clareza” (Kendon, 2004, p. 112)6.

Além disso, a relação temporal do stroke com um determinado segmento de fala é uma etapa essencial da anotação/codificação do gesto e, consequentemente, ponto de partida para a análise e interpretação de seu significado e função comunicativa. Existem hoje diferentes sistemas para a descrição e codificação da forma gestual, além de técnicas para determinar e anotar sua relação com a fala. Muitos autores utilizam imagens que ilustram a realização dos gestos, acompanhadas de setas e outras marcações que simulam o movimento das mãos, braços ou outras partes do corpo, como direção da cabeça e do olhar. Além disso, é comum o uso de símbolos gráficos, como colchetes, sublinhados, negritos e caracteres especiais, para marcar o início e o fim do gesto na transcrição da fala (ver Kendon, 2004; Streeck 2009, Harrison, 2018, McNeill, 2016). Podemos destacar aqui as convenções para anotação da forma de gestos propostas por Jana Bressem (2013) e elaboradas com base nas pesquisas sobre línguas de sinais. Essas convenções preveem parâmetros para a descrição detalhada do formato das mãos e dedos, assim como da direção e sentido dos movimentos das mãos, pulsos e braços. Com base no espaço gestual proposto por McNeill (1992), a autora também incorpora parâmetros de localização dos gestos com relação ao corpo do falante que o produziu. Sendo assim, essas convenções têm por objetivo auxiliar pesquisadores na classificação e categorização de gestos com respeito a parâmetros de forma de mão, orientação da palma, tipo de movimento e localização no espaço gestual.

Vale lembrar também que as convenções de Bressem (2013) são parte integrante do Sistema Linguístico de Anotação Gestual (Linguistic Annotation System for Gestures - LASG), método de análise que permite a identificação e descrição da forma gestual, bem como a determinação de sua função sintática, semântica e/ou pragmático-discursiva no contexto local de uso (Bressem et al., 2013). A principal característica do LASG é a separação entre análise de forma e função em uma sequência de três etapas, em que se parte da forma para determinar a função (Cienki, 2022). Dentro de uma linha semelhante, Alan Cienki (2017) também propôs um método de análise para metáforas verbo-gestuais (Cienki, 2017) que denominou de Diretrizes para Identificação de Metáforas nos Gestos (MIG-G).

Independentemente da perspectiva teórica e dos objetivos da pesquisa com gestos, é essencial que os investigadores adotem um sistema claro de anotação/codificação de gestos, pois tal sistematização auxilia não apenas a análise de um conjunto de dados específicos, mas permite a replicabilidade desse método para um outro conjunto de dados, possibilitando não só a validação de dados em pesquisa futuras, mas também a construção de repertórios de gestos recorrentes e famílias gestuais de uma determinada língua. Sendo assim, outro objetivo deste trabalho é identificar o grau de desenvolvimento das pesquisas no Brasil no que diz respeito à aplicação e ao aprimoramento de metodologias de análise gestual.

Propomos, então, uma discussão do estado da arte dos Estudos de Gesto no Brasil a partir de trabalhos realizados dentro da área da Linguística, focando sobretudo nas abordagens teórico-metodológicas adotadas. Primeiramente, apresentamos os critérios de busca de trabalhos. Na sequência, apresentamos um levantamento quantitativo da produção acadêmico-científica em Linguística e Estudos de Gesto no Brasil, levando em consideração a publicação de artigos, livros, teses e dissertações. Posteriormente, fizemos uma breve revisão dos principais artigos produzidos. Em seguida, destacamos três grupos de pesquisa que apresentam o maior número de publicações - trabalhos sobre gestos e multimodalidade na interação - até o momento. Por fim, discutimos, brevemente, o estado-da-arte da pesquisa em gestos no Brasil, de maneira a vislumbrarmos tendências e diretrizes para futuras pesquisas nesse campo, no país.

2. Levantamento dos dados

Critérios de busca, inclusão e exclusão de trabalhos

Para o levantamento de dados, elegemos como base de dados as plataformas Google Acadêmico e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações. A partir de então, utilizamos as palavras-chave “gesto” e “multimodalidade” combinadas nos mecanismos de pesquisa dessas plataformas. A escolha por essa combinação se deu pelo fato de o uso isolado da palavra “gesto” ter retornado um número elevadíssimo de trabalhos que empregam “gesto” de forma mais genérica e cujas pesquisas não podem ser inseridas dentro do campo de Estudo de Gesto, como descrito anteriormente. A combinação com a palavra “multimodalidade” permitiu ao algoritmo de busca retornar pesquisas que entendem o gesto como uma modalidade de comunicação (assim como a modalidade verbal ou textual, por exemplo) e, assim, restringir os resultados a trabalhos dentro do campo da Linguística.

Na sequência, procedemos à leitura dos resumos/abstracts e da seção de referências dos trabalhos, a fim de identificarmos quais desses trabalhos utilizaram quadro teóricos que tematizam o gesto a partir de suas características linguísticas, ou seja, trabalhos que podem ser inseridos dentro do escopo de pesquisas realizadas na interface entre Estudos de Gesto e Linguística. Assim, foi possível excluir publicações que utilizam, por exemplo, expressões já cristalizadas por outras (sub)áreas da Linguística, tais como: “gesto do autor no texto”, “gestos prosódicos” e “gestos de leitura”. No final dessa primeira fase, chegamos a um número de 144 trabalhos. Em suma, o passo-a-passo adotado para a seleção de trabalhos pode ser visualizado na Figura 1:

Figura 1:
Etapas do levantamento de trabalhos

Levantamento dos tipos de publicação

Os critérios relativos à busca por tipo de trabalho incluíram, primeiramente, a busca na plataforma Google Acadêmico. Complementarmente, fizemos uma busca na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). Quando os resultados da segunda busca coincidiam com os resultados retornados na primeira, optamos por manter os resultados encontrados no Google Acadêmico. A distribuição de trabalhos por tipo de pesquisa pode ser visualizada no Gráfico 1. Dentre o total de 144 trabalhos, contabilizamos 76 artigos publicados em periódicos, 24 capítulos de livros, 20 artigos publicados em anais de evento, 14 dissertações e 10 teses de doutorado.

Gráfico 1:
Tipologia dos trabalhos encontrados a partir do levantamento feito no Google Acadêmico e BTD.

Dentre os trabalhos selecionados, consideraremos para discussão somente os artigos publicados em periódicos com arbitragem por pares, procedimento considerado como “padrão ouro” para as publicações científicas (Mulligan et al., 2013), e de acesso aberto, pois isso facilita a avaliação de seu conteúdo, diferentemente de trabalhos como capítulos de livros ou livros completos, aos quais o acesso é limitado ou mesmo indisponível online nas páginas das editoras. Da mesma forma, foram desconsideradas as dissertações e teses, por considerarmos que muitos artigos são desdobramentos desses trabalhos.

3. Discussão dos artigos: a discussão do estado-da-arte do campo dos Estudos de Gesto no Brasil em sua interface com a Linguística

Para a discussão do estado-da-arte dos Estudos de Gesto no Brasil, decidimos dividir os 76 artigos selecionados em dois subgrupos. Conforme mostra o Gráfico 2, em todos os artigos analisados, os gestos são tematizados tanto na apresentação do referencial teórico quanto na análise e discussão dos dados. Entretanto, somente 28 artigos tratam de questões metodológicas especificas da análise gestual em suas seções de metodologia. Assim, com base nessa constatação, levamos em consideração dois tipos de agrupamentos:

Grupo 1: artigos que focam exclusivamente na análise linguística do gesto, como suas funções semânticas e pragmático-discursivas, a partir do emprego de metodologias especificas para análise gestual.

Grupo 2: artigos que utilizam análises gestuais como parte de análises linguísticas mais amplas, como análise conversacional/interacional, comunicação intercultural, estudos sobre aquisição e/ou distúrbios da fala etc. e que adotam métodos de análise diversos.

Gráfico 2:
Resultado da análise das seções internas dos artigos selecionados para discussão

O grupo 1 engloba trabalhos cujo tema central é a indissociabilidade entre fala e gesto - ainda que os títulos dos artigos não contenham, especificamente, palavras como “gesto”, “gestual” ou “gestualidade” - e essa relação é estabelecida a partir de metodologias específicas para a análise linguística do gesto. Nesse grupo, é possível constatar que, de maneira geral, o conceito de stroke, proposto por Kendon (1980, 2004), é amplamente utilizado. Assim, as metodologias implementadas por esses artigos se concentram em identificar e descrever os gestos a partir de uma divisão hierárquica de fases que formam a estrutura interna e linear do sintagma gestual, bem como a descrição dos parâmetros de forma e movimento das mãos. Essa abordagem metodológica possibilita a identificação e análise do que é percebido e tratado como gesto, a partir do conceito de “expressividade deliberada” (Kendon, 2004, p. 13), ou seja, parâmetros de descrição e análise que possibilitam diferenciar os gestos de outros movimentos corporais sintomáticos ou aleatórios.

Desse modo, dentre os métodos desenvolvidos especificamente para análise de gestos e citados nos artigos analisados, identificamos, sobretudo, o Sistema Linguístico de Anotação Gestual (Bressem et al., 2013) que, a partir de uma base linguístico-semiótica, assume uma separação heurística entre forma, sentido e função gestual no processo analítico. Esse método se diferencia de outros, pois: “(i) concentra-se [em um primeiro momento] unicamente na descrição da forma dos gestos; (ii) propõe uma descrição de forma independente da fala; (iii) evita descrições de forma que incluem paráfrases de sentido” (Bressem et al., 2013, p.1080). Esse método é divido em três blocos, sendo o primeiro iniciado pela identificação da unidade gestual (sintagma gestual e suas fases), seguido pela descrição da forma - com base nas convenções para notação da forma de gestos de Bressem (2013) - e da identificação da motivação cognitiva da forma, com base nos modos de representação gestual (Müller, 2014). Nessa etapa, o som do vídeo deve ser desligado, de modo que o conteúdo verbal não influencie a descrição a ser realizada pelo analista/codificador. No segundo bloco, é prevista a transcrição e a anotação da fala com respeito a aspectos verbais e prosódicos, como turno de fala ou unidade entonacional, para que, na sequência, possa se estabelecer uma relação temporal entra as fases gestuais e os segmentos de fala. Em outras palavras, essa etapa ajuda a determinar a simultaneidade (ou não) da realização do gesto com a produção da fala. Por fim, no terceiro bloco, pode-se então identificar, a depender dos objetivos da pesquisa, as funções sintáticas, semânticas e/ou pragmáticas dos gestos.

Observamos que, nos artigos que utilizam o LASG, há duas maneiras de implementação: (a) a utilização somente dos parâmetros de anotação da forma gestual e dos modos de representação gestual, ambos previstos no primeiro bloco; (b) a utilização desses parâmetros combinados aos parâmetros previstos no terceiro bloco, principalmente os que dizem respeito a aspectos semânticos e pragmáticos das funções gestuais. Dessa maneira, esses artigos apresentam um uso do LASG adaptado aos objetivos dos trabalhos, conforme sinalizado nas respectivas seções metodológicas. Nas análises, também é possível verificar as adaptações do LASG aplicadas a cada caso. Vale ressaltar que apenas um artigo apresenta uma análise baseada em todos os blocos previstos no LASG. No entanto, também não são utilizados todos os parâmetros, uma vez que questões como, por exemplo, “turno de fala” e “prosódia” não fazem parte do escopo da pesquisa em questão.

Outro método específico para identificação e análise de gestos empregados nos artigos do grupo 1 são as Diretrizes para Identificação de Metáforas nos Gestos (MIG-G) propostas por Alan Cienki (2017). Esse método prevê as seguintes etapas: (i) identificar os núcleos gestuais; (ii) descrever as formas características de cada núcleo; (iii) identificar se o gesto atende a alguma função referencial. Em caso afirmativo: (iv) identificar o(s) modo(s) de representação; (v) identificar o(s) referente(s) físico(s) retratados no(s) gesto(s) (o domínio-fonte potencial); (vi) identificar o tópico contextual que está sendo referenciado (o potencial domínio-alvo); (vii) analisar se o tópico foi identificado por semelhança na experiência ao referente retratado por meio do gesto; Se sim, (viii) avaliar se o gesto pode ser considerado como metafórico por meio de um mapeamento no qual o tópico (domínio-alvo) está sendo conectado ao referente retratado (domínio-fonte) (Cienki, 2017, p.136).

Os artigos que apresentam o MIG-G como principal método de análise tendem a explicitar, na metodologia, todas as etapas de análise previstas pelas Diretrizes. Entretanto, há ainda aqueles artigos que utilizam somente os passos 1 e 2 do MIG-G, ou seja, etapas que coincidem com as convenções para notação da forma de gestos propostas por Bressem (2013). Por essa razão, nesses artigos, é possível observar uma menção ao LASG, pois essas mesmas convenções são parte do primeiro bloco de análise do Sistema. Além disso, alguns desses artigos também apresentam uma adaptação das Diretrizes do MIG-G, no que diz respeito à última orientação: em vez de determinarem a presença ou ausência de metáfora, esses artigos apresentam uma categorização das ocorrências em termos de grau de metaforicidade, a saber alto, intermediário ou baixo.

Já no grupo 2, os artigos utilizam as análises gestuais como insumo para discussões linguísticas mais amplas. Assim, as metodologias aplicadas são variadas. Entretanto, dentre os trabalhos desse grupo, foi identificado um subgrupo de artigos nos quais não se pode identificar uma metodologia para a análise do gesto, apesar das discussões girarem em torno de classificações e categorizações de gestos com base em tipologias já estabelecidas na literatura da área. Nesses artigos, não houve qualquer menção a métodos, parâmetros ou convenções para identificação e descrição de gestos na seção de metodologia, apesar da predominância de referências como McNeill (1985, 1992, 1993, 1997, 2005) e Kendon (1983, 1988, 2000, 2004) na discussão teórica e na análise de dados. Esses autores são mobilizados para referenciar conceitos relativos à definição teórica de gesto, bem como às tipologias gestuais (McNeill, 1992, 2000) e ao Continuum de Kendon (c.f. Kendon, 1983), no qual gestos são classificados, de acordo com critérios de convencionalização e gramaticalização de sua forma e função, a partir das seguintes categorias: Gesticulação, Gestos Preenchedores, Emblemas, Pantomimas e Sinais7.

O quadro teórico nesse subgrupo de artigos é predominantemente composto por referências a McNeill (2005), geralmente agrupadas também com referências a Kendon (2004). Esses artigos basicamente fazem referência à ideia de que os gestos compartilham com a fala um estágio computacional, e fazem parte de uma mesma estrutura cognitiva, a “matriz gesto-fala”. Gestos e fala cooperam, então, nessa perspectiva, para apresentar uma única representação cognitiva, ou seja, fala e gestos encontram-se integrados em uma única matriz de significação. Além disso, uma parcela menor dos trabalhos que tomam como referência a tipologia gestual proposta por McNeill (1992, 1997), divide os gestos em quatro grupos: gestos icônicos, dêiticos, metafóricos e beats - estes últimos também nomeados como: rítmicos, ritmados e batidas.

Nesse sentido, gostaríamos de fazer algumas ressalvas ao agrupamento que esse subgrupo de artigos tende a fazer dos trabalhos iniciais de McNeill e Kendon, pois esses trabalhos divergem em relação a algumas questões conceituais. Kendon (2004, p. 1-2) propõe o conceito de “gesto” como “enunciados de ações visíveis” e afirma que tais enunciados gestuais e verbais constituem duas formas integradas de expressão, produzidos conjuntamente a partir de uma orientação a um único objetivo.

Diferentemente de Kendon (2004), McNeill (1992) enfatiza a dimensão psicológico-cognitiva do funcionamento dos gestos como janelas para o pensamento. Posteriormente, a partir da exploração da Teoria dos Pontos de Crescimento (TPC), McNeill (2005) defende a ideia de que “gestos, linguagem e pensamento são vistos como diferentes lados de um único processo mental/do cérebro/de ação”8 (McNeill, 2005, p. 3). A TPC considera os gestos como sendo participantes ativos da fala e do pensamento, enfatizando a dimensão dinâmica da linguagem. Nesse sentido, os gestos funcionam como “participantes ativos no falar e no pensar”9, desempenhando um papel crucial “numa dialética imagem-linguagem que alimenta a fala e o pensamento”10 (McNeill 2005, p. 3). Essa dialética é materializada no gesto e na fala, constituindo, então, uma interação cognitiva entre duas modalidades distintas, que fazem parte de um todo. Assim, apesar de ambos os autores considerarem gestos e fala como uma unidade, há aspectos relevantes que diferenciam afiliações contemporâneas atribuídas aos estudos de gesto: uma afiliação interacional e uma afiliação psicológica.

Ainda em relação a esse subgrupo do grupo 2, a ausência de detalhamento sobre as ferramentas e métodos para identificação e análise de gestos gera um problema relacionado à replicabilidade das pesquisas: não é possível identificar com clareza a descrição gestual, tampouco as etapas de análise do gesto em relação ao contexto local de fala. Portanto, a não especificação dos métodos de análise gestual nas seções de metodologia desses artigos impede a sua verificação11 e posterior replicação por outros pesquisadores. Além disso, não é possível compreender com clareza como é realizada a distinção operacional do que está sendo considerado como um gesto naquele contexto, uma vez que a maior parte dos artigos não apresenta sequer imagens que ilustram a forma gestual, nem tampouco convenções gráficas que mostrem na transcrição a sua a relação temporal com a fala. Mesmo naqueles que apresentam imagens dos gestos, não fica claro ao leitor quais passos foram seguidos para determinar que tal movimento se trata de uma unidade gestual e, caso seja um gesto, quais foram os parâmetros utilizados para classificá-lo de acordo com alguma tipologia gestual estabelecida. É importante ressaltar que a mera apresentação da imagem do gesto associada a uma classificação não pode ser considerada como análise gestual, pois a imagem não é autoexplicativa.

Dessa forma, consideramos que esse subgrupo de artigos apresenta uma lacuna no que diz respeito às etapas metodológicas de identificação e análise de gesto. Em alguns casos, a ausência de uma metodologia replicável é justificada pelo caráter qualitativo das pesquisas ou são substituídas pelo emprego de softwares de transcrição de áudio e vídeo. Entretanto, é preciso ressaltar que softwares de transcrição e anotação de fala e gesto, como o ELAN, apesar de serem parte importante da análise gestual, não constituem um método de análise propriamente dito, mas sim, uma ferramenta de análise.

Já o restante dos artigos do grupo 2, apesar de não empregarem métodos específicos para análise gestual, apresentam percursos metodológicos que são possíveis de serem identificados e replicados. Nesse sentido, foi possível verificar um bom número de trabalhos que aborda, tanto no referencial teórico quanto nas análises, estudos multimodais relacionados à produção online de gestos metafóricos. Dentre os teóricos utilizados como referência, destacam-se Alan Cienki (1998, 2008) e Cornelia Müller (2008), que são utilizados não somente como base teórica no que se refere aos conceitos-chave sobre metáforas verbo-gestuais, mas também são citados como referências metodológicas para as análises desse tipo de gesto. Esses artigos apresentam uma análise centrada em ocorrências verbo-gestuais, na quais os gestos são utilizados para fundamentar a identificação e análise de metáforas multimodais.

Isso vale também para os artigos cujo gesto complementa análises conversacionais e/ou interacionais e que focalizam diferentes fenômenos da linguística. Embora não tomem como base métodos desenvolvidos especificamente para análise gestual, a organização das análises nesses artigos prioriza uma apresentação detalhada tanto dos dados de fala quanto dos dados gestuais, com a utilização de recursos gráficos, como, por exemplo, o uso do negrito para marcar as fases gestuais na transcrição de fala, bem como recursos visuais, como o uso de símbolos e setas indicativas nas imagens dos gestos para ilustrar parâmetros de forma e movimento, além das transcrições detalhadas das ocorrências gestuais e de legendas que esclarecem as convenções utilizadas nessas transcrições.

4. Síntese dos resultados

Levando em consideração a distinção entre artigos que tematizam e discutem gestos versus artigos sobre outra temática, mas que utilizam análises gestuais, será realizada uma discussão sobre a organização específica desses materiais. Para tanto, adotamos como ponto de partida o cruzamento de dados efetuado entre os artigos selecionados e os autores de referência mais utilizados nesses trabalhos:

Gráfico 3:
Autores de referência citados nos artigos

Por meio do Gráfico 3, é possível sintetizar as discussões a respeito dos autores de referência mencionados e discutidos ao longo deste texto. Os autores mais citados são:

David McNeill, citado em 53 artigos, principalmente nas discussões sobre o conceito de gesto e as dimensões do “continnum de Kendon”;

Adam Kendon, citado em 52 artigos, principalmente para fundamentar as discussões sobre os conceitos de gesto e fases gestuais;

Cornelia Müller, citada em 28 artigos e frequentemente mencionada juntamente com Alan Cienki, citado em 27 artigos, para tratar dos conceitos de gestos metafóricos e metaforicidade.

Os demais autores, embora relevantes, não foram citados em mais do que 12 artigos e, na grande maioria dos casos, foram citados como autores secundários em relação aos demais autores de referência.

Entretanto, vale mencionar que há um grupo específico de artigos que utiliza apenas os autores menos citados do levantamento em questão: neste grupo - correspondente a 6 artigos - o quadro teórico empregado se baseia nos trabalhos de Lorenza Mondada (2007, 2013, 2014, 2018) e Jürgen Streeck (2009, 2011, 2017), os quais abordam os gestos a partir da perspectiva conversacional e interacional. Isso demonstra que há uma tendência crescente de utilização desses teóricos como autores de referência nas pesquisas brasileiras envolvendo Linguística e Estudos de Gesto.

Em relação à metodologia, ficou demonstrado acima, no Gráfico 2, que 28 artigos (37,4%) discutem e utilizam métodos específicos voltados para a análise de gestos. Dessas publicações - que correspondem ao grupo 1 de artigos - a maior parte utiliza adaptações de métodos como o Sistema Linguístico de Anotação Gestual e as Diretrizes para Identificação de Metáforas nos Gestos. Nos artigos pertencentes ao grupo 2, constatou-se dois subgrupos, sendo que o primeiro deles apresenta uma contradição: apesar da discussão sobre gestos nortear os trabalhos desde o título, na prática, não é possível realizar um rastreamento das etapas metodológicas seguidas para a identificação e a análise dos gestos. Além disso, não se demonstra, nas análises, a justificativa para a interpretação dos dados e dos resultados. Já nos outros artigos do grupo 2, embora não haja uma discussão metodológica específica sobre análise gestual, é possível observar um passo-a-passo replicável, discutido na metodologia e aplicado nas análises.

5. Mapeamentos e tendências das pesquisas sobre Linguística e Estudos de Gesto no Brasil

O Gráfico 4 mostra a distribuição geográfica da produção das pesquisas sobre gestos pelo Brasil. Ao cruzarmos os dados das instituições com uma busca realizada no Diretório de Grupos de Pesquisa no Brasil, disponibilizado online pelo CNPq, foi possível associar as pesquisas coletadas neste levantamento a três principais núcleos de pesquisa: o Núcleo de Estudos Linguísticos Interacionais (NELIN), da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o Laboratório de Linguística Cognitiva e Estudos de Gestos (LabGest), da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) e o centro de pesquisa Intercultural Communication in Multimodal Interactions (ICMI) sediado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Gráfico 4:
Distribuição geográfica das pesquisas brasileiras realizadas na interface entre Estudos de Gesto e Linguística

Esses grupos de pesquisa são responsáveis pela maior produção de trabalhos: 53 trabalhos foram produzidos pelos membros do LabGest (UESB), 42 trabalhos, pelos membros do NELIN (UFPB) e 38 trabalhos foram produzidos pelos membros do ICMI (UFMG). Cabe ressaltar que, nesse gráfico, não foi feita distinção dos tipos de publicação realizadas por cada grupo, mas apenas o levantamento geral dos trabalhos encontrados na base de dados do Google Acadêmico - que apresentou os mesmos trabalhos e outros, mais recentes, que aqueles encontrados na BDTD.

Já o Gráfico 5, que leva em consideração todas as publicações brasileiras, incluindo artigos, anais, capítulos de livro, teses e dissertações, que propõem uma interface entre os Estudos de Gesto e a Linguística, revela uma curva de crescimento na produção acadêmico-científica:

Gráfico 5:
Produção de pesquisa na interface entre Estudos de Gestos e Linguística no Brasil nos últimos 20 anos

Ao se analisar o gráfico, é possível observar que, na primeira década de produção acadêmica, de 2004 e 2014, o crescimento do número de pesquisas brasileiras se deu de modo mais modesto, contando com a produção de 26 trabalhos ou 18,2% da produção. Foi a partir de 2015 que houve um crescimento mais expressivo dessas pesquisas no Brasil: de 2015 a 2019, foram produzidos 45 trabalhos, ou seja, 31,5% da produção total. O ano de 2020 foi aquele em que houve o maior pico de crescimento do número de trabalhos por ano, com 28 publicações. Entre 2020 e 2022, foram produzidos 66 trabalhos, ou seja, 46% da produção total. Isso demonstra que a interface entre a Linguística e os Estudos de Gesto é um campo fértil de pesquisas, que tende a continuar crescendo nos próximos anos.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES/Código 001), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq/ MCTI 10/2023 - Chamada pública, Brasil) e da Russian Science Foundation (financiamento n°. 24-18-00587 concedido à Moscow State Linguistic University).

Referências

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  • Streeck, J., Goodwin, C., & LeBaron, C. (Eds.). (2011). Embodied interaction: Language and body in the material world Cambridge University Press.
  • 4
    Sobre a ISGS: desde sua fundação em 2002, a Associação tem realizado congressos bianuais, assim como publicações do periódico Gesture e de livros chancelados pela editora John Benjamins, na coleção Gesture Studies.
  • 5
    Gesture studies is a rich interdisciplinary field, broadly concerned with examining the use of the hands and other parts of the body for communicative purposes. Gesture has been found to be indispensable from many arenas of human life, including thought, collaborative work, science, art, music and dance. [...] Gesture researchers work in diverse academic and creative disciplines including anthropology, linguistics, psychology, history, neuroscience, communication, art history, performance studies, computer science, music, theater, and dance.
  • 6
    which the movement dynamics of ‘effort’ and ‘shape’ are manifested with greatest clarity.
  • 7
    As categorias gestuais do Continuum já foram revisitadas recentemente por David McNeill (2016) e por Cornelia Müller (2018).
  • 8
    Gestures, language, and thought are seen as different sides of a single mental/brain/action process.
  • 9
    (…) gestures as active participants in speaking and thinking.
  • 10
    (…) in an imagery-language dialectic that fuels speech and thought.
  • 11
    Mesmo que tenha havido algum método aplicado, partimos do princípio de que a falta de descrição e especificação dos métodos de análise gestual não estão de acordo com os princípios da científico-acadêmicos atuais.
  • Disponibilidade de Dados
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo. (Muito embora não tenhamos salvado os dados que deram origem ao artigo em um banco de dados disponível publicamente, os dados utilizados foram coletados de plataformas de domínio público, já citadas no artigo).

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Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo. (Muito embora não tenhamos salvado os dados que deram origem ao artigo em um banco de dados disponível publicamente, os dados utilizados foram coletados de plataformas de domínio público, já citadas no artigo).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    14 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    Apr-Jun 2025

Histórico

  • Recebido
    08 Set 2023
  • Aceito
    11 Abr 2025
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