RESUMO
Este artigo defende que as eleições de 2026 no Brasil se desenrolam em uma maneira transformada de presidencialismo de coalizão, marcada por uma distribuição de poder mais fragmentada e policêntrica. Desde 2015, mudanças institucionais - especialmente a ampliação do controle congressual sobre o orçamento - fortaleceram o Congresso Nacional, reduziram a influência presidencial e aumentaram a relevância estratégica das eleições legislativas. O artigo examina três arenas interligadas: as disputas eleitorais para o Congresso, a disputa presidencial e as disputas em nível estadual no âmbito do sistema federal brasileiro. Ele defende que, para compreender as eleições de 2026, é necessário relacionar as dinâmicas eleitorais à governabilidade futura, uma vez que a autoridade presidencial depende agora, de forma mais acentuada, da negociação com o Congresso, das relações com o Supremo Tribunal Federal e da coordenação com os governadores. O artigo conclui que a política brasileira tornou-se cada vez mais “caleidoscópica”: a presidência continua central, mas não domina mais o sistema como antes, tornando a interação entre os atores federais, legislativos, judiciais e subnacionais decisiva para a estabilidade democrática.
PALAVRAS-CHAVE:
Presidencialismo de coalizão; Instituições políticas; Eleições presidenciais e congressuais; Federalismo; Democracia brasileira
ABSTRACT
This article argues that Brazil’s 2026 elections unfold in a transformed form of coalition presidentialism, marked by a more fragmented and polycentric distribution of power. Since 2015, institutional changes - especially the expansion of congressional control over the budget - have strengthened the National Congress, reduced presidential leverage, and increased the strategic relevance of legislative elections. The article examines three interconnected arenas: congressional races, the presidential contest, and state-level disputes within Brazil’s federal system. It contends that understanding the 2026 elections requires linking electoral dynamics to future governability, since presidential authority now depends more heavily on bargaining with Congress, relations with the Supreme Court, and coordination with governors. The article concludes that Brazilian politics has become increasingly “kaleidoscopic”: the presidency remains central, but it no longer dominates the system as it once did, making the interaction among federal, legislative, judicial, and subnational actors decisive for democratic stability.
KEYWORDS:
Coalition presidentialism; Political institution; Presidential and congressional elections; Federalism; Brazilian democracy
Introdução
Desde o início do processo de redemocratização, durante os anos 1980, as eleições presidenciais tiveram papel central na política brasileira. E não haveria como ser diferente, tendo em vista os significativos poderes da Presidência da República, ainda mais após duas décadas de regime autoritário, durante as quais o poder Executivo federal se fortaleceu significativamente, em detrimento do Congresso e dos governos subnacionais. Não à toa, um marco decisivo da transição democrática foi a campanha das Diretas Já, em 1984, quando diversos atores partidários e da sociedade civil foram capazes de mobilizar grandes multidões por todo o país, clamando pelo direito de eleger o presidente por voto popular direto. Com isso, votar para presidente se tornou algo indissociável da própria noção de democracia compartilhada pelos brasileiros.
A Constituição Federal de 1988 manteve o presidencialismo com um Executivo poderoso que a ditadura militar havia estabelecido, ainda que promovendo ajustes que impusessem limites ao arbítrio - como com a substituição dos decretos-lei pelas medidas provisórias. Tal força presidencial, calçada em prerrogativas institucionais e no poder de agenda, possibilitou a diferentes governantes levar adiante suas plataformas governamentais, mesmo sem dispor de um partido majoritário no Congresso que lhes permitisse ter de saída uma base legislativa capaz de sustentar suas políticas (Figueiredo; Limongi, 2008). Para tanto, diante do multipartidarismo fragmentado que caracterizou todas as legislaturas desde a promulgação da nova Carta, os chefes de governo precisavam construir alianças parlamentares que lhes permitissem contar com maiorias minimamente estáveis.
Esse era o fundamento básico do presidencialismo de coalizão (Abranches, 1988) instituído com a Nova República, mais vigoroso que sua versão anterior, da Quarta República (1946-1964), quando presidentes mais fracos, mesmo construindo coalizões, enfrentavam dificuldades bem maiores para coordená-las e alcançar sucesso legislativo (Figueiredo; Limongi, 1999). Apesar disso, a tradição presidencialista brasileira, forjada sobretudo durante o período autoritário do varguismo, fazia que também naquela quadra democrática as disputas pela chefia do Executivo tivessem centralidade, sendo o objeto principal de atenção do eleitorado, da imprensa e dos estudiosos. As disputas para o Congresso Nacional, embora fundamentais para definir como se desenrolaria o jogo político, eram merecedoras de menor atenção na conjuntura política, ainda que ocupando espaço em pesquisas sobre nossos sistemas partidário e eleitoral (Lavareda, 1991; Lima Júnior, 1983; Souza, 1990). Alguns estudos mostraram como no final daquele período um Legislativo fragmentado, polarizado e arredio foi um fator decisivo para a crise que culminou no golpe de Estado de 1964 (Santos, 2025).
Na atual experiência democrática, novamente as eleições legislativas recebem atenção secundária, senão tanto de jornalistas e estudiosos, sobretudo dos potencialmente maiores interessados: os eleitores. Na era de ouro do presidencialismo de coalizão, entre 1994 e 2014, com os chefes de governo gozando de grande capacidade para liderar e coordenar suas bases parlamentares, levando adiante suas agendas, novamente as disputas para o Congresso foram ofuscadas pela dominância presidencial. Contudo, esse período triunfante teve seu ocaso a partir de 2015, quando uma presidente enfraquecida e pouco afeita ao entendimento com os congressistas viu o Legislativo lhe açambarcar poder, capturando fatia significativa do orçamento discricionário por meio da impositividade constitucional da execução das emendas parlamentares individuais (Couto, 2025).
Mais precisamente, não apenas a presidente Dilma Rousseff teve seu poder orçamentário sequestrado pelo Congresso; todos os chefes de governo a partir de então perderam controle sobre parte significativa do gasto público federal, pois a emenda constitucional tornando obrigatória a efetivação das emendas orçamentárias de deputados e senadores passou a ser a regra para o poder Executivo a partir de então. Não se tratava de uma situação circunstancial, mas de uma transformação estrutural do presidencialismo de coalizão brasileiro (Couto, 2025). E a ela se seguiram outras, pois durante o governo de Jair Bolsonaro, diante da fragilidade de um presidente que abdicou da construção de uma coalizão legislativa e passou a sofrer repetidas derrotas no legislativo, o Congresso teve uma nova oportunidade de avançar sobre o orçamento federal, aprovando novas emendas constitucionais, tornando impositivas também as emendas orçamentárias de bancadas estaduais, elevando o percentual do orçamento comprometido com as emendas impositivas individuais e criando as transferências especiais que possibilitaram destinar recursos a estados e municípios sem definir no que exatamente o dinheiro seria usado - as chamadas “emendas Pix” (Couto; Arantes; Abrucio, 2025).
Essas mudanças orçamentárias, somadas ao fortalecimento financeiro dos partidos e à maior ideologização dos partidos de adesão que compõem o chamado “Centrão” (tornando-os, assim, menos adesistas), mudou radicalmente a dinâmica das relações entre Executivo e Legislativo, transformando o presidencialismo brasileiro com o ganho de protagonismo do Congresso Nacional. Diante de tal cenário, qualquer consideração de conjunto sobre o significado das eleições brasileiras precisa conferir maior relevo às disputas para o Legislativo, pois se elas já importavam antes, passaram a importar muito mais.
Com isso em vista, este artigo analisa o contexto das eleições de 2026, conferindo especial atenção às disputas para o Legislativo nacional, considerando não apenas suas consequências para a governabilidade, mas também para a própria qualidade da democracia e sua preservação. Porém, o cenário eleitoral de 2026 não se esgota nisso. Primeiro, porque, a despeito do fortalecimento do Congresso com a consequente alteração das relações entre Executivo e Legislativo, a Presidência da República segue tendo importância cardeal. O presidente segue como o ator central na constelação política do país, aquele que atrai as maiores atenções, direciona as relações do país com o restante do mundo, controla a máquina administrativa federal e pauta o debate sobre os grandes temas nacionais - mesmo que já sem a mesma capacidade de antes para efetivar sua agenda governamental.
Ademais, a depender de quem ocupa a chefia de governo, alteram-se não apenas as relações entre a Presidência e o Congresso, mas também entre ela, o Judiciário e os governos subnacionais. O acentuado contraste na forma de interação da Presidência com o Supremo Tribunal Federal (STF) e os governadores durante os governos de Jair Bolsonaro e Lula evidencia o quanto importa quem está à frente do Executivo nacional (Couto; Abrucio, 2026). Noutras palavras, o resultado da eleição presidencial segue tendo efeitos de monta para o funcionamento e a preservação do Estado de Direito e do federalismo.
Além de analisar as eleições para o Executivo e o Legislativo nacionais, este artigo também considera, portanto, o arranjo federativo e, consequentemente, as articulações e disputas travadas no âmbito estadual. Além de sua importância intrínseca, as eleições subnacionais são estratégicas para a disputa federal - especialmente, mas não só, nos maiores colégios eleitorais. Um elemento central na conformação das estratégias eleitorais dos presidenciáveis é a construção de “palanques estaduais” que lhes deem suporte na disputa nacional. Ter como aliados candidatos a governador competitivos é um fator que conta para o bom desempenho dos que disputam a Presidência da República. Ademais, a corrida pelos executivos estaduais é indissociável das disputas para a Câmara dos Deputados e, especialmente, o Senado - já que essa também é um pleito majoritário. O desempenho das candidaturas ao governo não determina a corrida pelas cadeiras no Congresso, mas a influencia.
Do ponto de vista conceitual, o artigo se baseia em dois argumentos. O primeiro é que o sistema político brasileiro se tornou mais policêntrico e complexo, tanto por mudanças institucionais como em razão da transformação das preferências políticas e sociais do país, como a troca do bipartidarismo PSDB versus PT pela polarização assimétrica do bolsonarismo com o lulismo, o que tornou mais renhida e ideológica a disputa política. Esse processo não levou ao ocaso do presidencialismo de coalizão - coalizões e negociações são cada vez mais necessárias e custosas -, mas mudou o poder relativo dos atores e o equilíbrio entre eles. Assim, não é uma alteração de natureza, mas de grau da lógica sistêmica, com forte impacto sobre como exercer o poder presidencial. Trata-se de uma perspectiva analítica que foge da visão dicotômica sobre os destinos do presidencialismo de coalizão, cada vez mais caleidoscópico, porém numa linha ainda bem longe da ingovernabilidade ao estilo peruano, para citar um exemplo latino-americano.
O segundo argumento conceitual se refere à necessidade de se ter um duplo olhar sobre as eleições de 2026. De um lado, observá-la naquilo que diz respeito à disputa eleitoral, mostrando as variáveis que lhe afetam nas dinâmicas que definem o presidente, as cadeiras congressuais e as governadorias. De outro, apontar os seus possíveis efeitos sobre a governabilidade futura. Desse modo, procura-se articular as frentes eleitoral e governativa, tentando entender seu funcionamento em conjunto e suas prováveis consequências para a democracia brasileira.
O artigo se organiza em cinco seções. Após esta, introdutória, as três próximas tratam respectivamente das disputas para o Congresso Nacional, a Presidência da República e os governos estaduais - neste último caso, considerando também articulações em âmbito estadual visando as disputas nacionais. Por fim, na última seção são feitas as considerações finais, discutindo-se como as disputas nacionais nessas três dimensões se influenciam reciprocamente.
As eleições congressuais
As eleições para as duas casas do Congresso Nacional, Câmara dos Deputados e Senado Federal, dão-se segundo regras bastante distintas. Deputados são escolhidos com base num sistema eleitoral proporcional de lista aberta, ao passo que senadores são eleitos por um sistema majoritário simples, ou de pluralidade. Formalmente, a disputa por ambos os cargos ocorre em amplas circunscrições, correspondentes a todo o território dos estados, mas seguindo dinâmicas muito distintas na prática. Enquanto candidatos ao Senado de fato são concorrentes de amplitude estadual, disputando o apoio de eleitores espalhados por todo o território da unidade federativa, os postulantes à Câmara, salvo raras exceções, adotam estratégias territorialmente mais focalizadas, normalmente optando por construir suas bases em áreas específicas do estado, embora raramente num único município - ao menos no caso dos bem-sucedidos (Avelino; Biderman; Silva, 2011; Silva, 2013).
Tal dinâmica torna especialmente importante para os que disputam uma cadeira na Câmara dos Deputados atender a demandas territorialmente localizadas, como aquelas relacionadas à provisão de políticas circunscritas aos habitantes de uma determinada região e seus respectivos municípios. Eis a relevância eleitoral que tem para os parlamentares incumbentes a efetivação de emendas orçamentárias individuais, capazes de prover benefícios bastante palpáveis e relevantes para as localidades. A política distributiva (Lowi, 1964; 1972), comumente chamada de pork barrel na literatura acadêmica em língua inglesa, ganha corpo de diversas formas, seja por obras localmente relevantes (como unidades básicas de saúde, pavimentação, ginásios de esportes etc.), seja pela provisão de serviços (como eventos culturais, shows, festas, feiras etc.). As exceções ficam para aqueles cujas campanhas se assentam sobre pautas mais genéricas, ideológicas ou temáticas, ou que se valem de sua notoriedade e influência para além do âmbito local - como pastores, radialistas, artistas, influenciadores digitais e celebridades em geral. Esses, contudo, ainda que possam ser campeões de votos, são uma minoria dentro do conjunto de parlamentares eleitos.
Eis porque a articulação entre congressistas e prefeitos é crucial, já que a provisão desses benefícios localmente focalizados frequentemente se dá em articulação com os governos locais. Assim, uma mão lava a outra: prefeitos ganham com o recebimento de verbas proporcionadas por emendas parlamentares, e congressistas aparecem como padrinhos dessas benesses; ambos recebem os créditos, podem ser recompensados eleitoralmente por isso e atuam conjuntamente nas disputas eleitorais locais e para o legislativo federal (ou mesmo estadual, no caso dos deputados estaduais). Não à toa, estudos têm mostrado o efeito do coattail reverso, ou seja o político ocupante do cargo mais baixo no nível federativo (no caso, o prefeito) auxilia na eleição dos que pretendem conquistar postos nos níveis superiores (deputados estaduais e federais) (Avelino, 2017; Avelino; Biderman; Barone, 2012; Eduardo; Russo, 2022; Ventura, 2021).
A a accountability eleitoral dos legisladores, portanto, se alicerça sobretudo em sua capacidade de entregar benefícios específicos a eleitorados localizados - especialmente, mas não só, em termos territoriais (Melo; Iasulaitis, 2024). É necessária tal ressalva, pois um outro tipo de parlamentar de eleitorado específico, e também provedor de benefícios concentrados, amealhando dividendos eleitorais por isso, é o representante de segmentos particulares da sociedade, como categorias profissionais: ao patrocinar causas legislativas do interesse desses setores, conta com sua fidelidade. Assim como no caso das celebridades, contudo, comparados aos que provisionam ganhos territorialmente localizados, tais postulantes são minoritários. Um exemplo notável desse tipo foi, durante duas décadas, o então deputado federal fluminense Jair Bolsonaro, que se elegeu e reelegeu seguidamente se apresentando como representante dos interesses corporativos de policiais e militares, com o que aumentou paulatina, mas lentamente, seu cabedal de votos - de 67.041 votos em 1990, para 120 mil em 2010. Contudo, na sétima vitória, em 2014, antevéspera de sua candidatura presidencial, ampliou o discurso, apelando também ao eleitorado religioso e moralmente conservador. Com isso, quase quadruplicou sua votação: 464.572 votos, tornando-se o deputado mais votado do Rio de Janeiro e o quinto do Brasil (Silva; Rodrigues, 2025; Silva; Santos; Silva, 2022; apud Alexandre, 2026).
Essa accountability eleitoral localizada dos deputados federais molda não apenas sua estratégia na busca de votos, mas seu comportamento parlamentar. Na ausência de fortes mecanismos de disciplinamento das bancadas partidárias a cargo das lideranças e/ou do governo, são grandes os incentivos a uma conduta dos legisladores descomprometida de políticas públicas de caráter amplo relevantes para os interesses nacionais - preocupação precípua do poder Executivo. A questão é que a literatura evidenciou que desde a redemocratização tais mecanismos não estavam ausentes, pois líderes partidários e governo dispunham de fortes instrumentos institucionais para disciplinar suas bases (Figueiredo; Limongi, 1999; 2008). A mobilização desses meios inibia assim comportamentos individualistas, assegurando elevadas taxas de disciplina, tanto entre os membros das diversas bancadas partidárias (de governo ou oposição), como, especialmente, entre os legisladores de partidos situacionistas. Seria então fora de propósito tratar dessa accountability eleitoral descompromissada? Entendemos que, atualmente, não. Razão pela qual o fortalecimento institucional do Congresso torna ainda mais relevante uma lógica eleitoral baseada em emendas, bases locais e redes municipais.
Isso porque, a partir de 2015, como apontado na introdução deste artigo, uma série de mudanças institucionais de monta, sobretudo no atinente à política orçamentária, alterou a dinâmica do presidencialismo no Brasil. Não se trata de mudanças conjunturais, mas de uma alteração estrutural do sistema de governo, com fortes implicações para as relações entre os poderes - especialmente Presidência e Congresso, porém afetando até mesmo a relação desses dois com a cúpula do Judiciário, isto é, com o Supremo Tribunal Federal. Afinal, a transformação do equilíbrio executivo-legislativo aumentou a relevância do STF como árbitro dos comportamentos desses dois poderes e de seus conflitos (Couto; Abrucio, 2026; Couto, 2025; Couto; Arantes; Abrucio, 2025). Além do ganho de controle dos legisladores sobre o orçamento, que reduziu a capacidade de barganha do poder Executivo e, por conseguinte, sua capacidade de disciplinar uma base congressual, houve também o fortalecimento financeiro dos partidos mediante significativo aumento dos fundos eleitoral e partidário.
Esse conjunto de mudanças, ancorado em diferentes tipos de empoderamento financeiro, tanto de agremiações como de parlamentares individuais, reduziu a dependência de ambos com relação ao governo de turno, elevando sobremaneira os custos de governar. E, embora importe bastante a capacidade dos presidentes para gerir suas coalizões e liderar as tratativas com o Congresso (Bertholini; Pereira, 2017; Pereira, 2026), não se trata mais de apenas um problema da maior ou menor competência da liderança presidencial, mas de condições institucionais diversas das existentes até 2015.
A inapetência de Dilma Rousseff para interagir com o Congresso e a abdicação da construção de uma coalizão por parte de Jair Bolsonaro produziram conjunturas críticas que possibilitaram ao Legislativo avançar sobre os poderes orçamentários do Executivo, aproveitando uma fragilidade circunstancial daqueles dois presidentes para produzir transformações estruturais no sistema de governo. Os presidentes posteriores a esses dois, contudo, terão maiores dificuldades para se relacionar com o Legislativo, independentemente de suas eventuais virtudes negociadoras, de liderança e coordenação; afinal, as regras são outras. E tais adversidades serão ainda maiores para presidentes não alinhados ideologicamente à maioria legislativa. Eis porque as eleições congressuais ganharam ainda maior relevância do que tiveram no passado.
Não bastasse esse aspecto, há também a questão da relevância específica do Senado Federal (em 2026 se renovarão dois terços da casa) para as relações do Legislativo com o STF. Os reiterados conflitos entre a corte suprema e o bolsonarismo desde 2018 a tornaram um alvo preferencial da ultradireita brasileira. E, como compete ao Supremo não apenas a aprovação de indicações de juízes para as cortes superiores,1 mas também seu eventual impeachment, a eleição de uma bancada de senadores dispostos a cassar o mandato de ministros do Supremo se tornou tema de campanha - contando com o apoio de segmentos significativos do eleitorado, como mostraram levantamentos de opinião. Enquete do instituto Meio/Ideia de março de 2026 mostrava que 44% dos eleitores afirmavam ser mais propensos a votar em candidatos que defendessem o impeachment de ministros do STF (CNN Brasil, 2026). Uma pesquisa em abril, da Quaest, mostrava que 72% do eleitorado acreditava ter o Supremo poder demais; e 66% consideravam importante votar em candidatos ao Senado comprometidos com votar o impeachment de ministros da Corte (Poder360, 2026).
Enfim, as disputas para o Legislativo nacional se revestem de importância maior do que anteriormente a 2015, quando importantes transformações institucionais começaram a ocorrer. As eleições de 2018 foram as primeiras a se dar sob um cenário transformado no atinente à política orçamentária. As de 2022 transcorreram com mudanças institucionais ainda maiores e um Congresso mais empoderado do que nunca. As de 2026 seguem nessa mesma toada, porém com uma novidade importante no que se refere à competição pelas cadeiras do Senado Federal: a corrida por elas se tornou um elemento central tanto do enfrentamento entre os poderes Legislativo e Judiciário, como dos ataques do populismo de ultradireita ao Supremo Tribunal Federal desde a ascensão do bolsonarismo. Daí sua importância crucial para a própria estabilidade democrática do país.
A eleição presidencial
O ano 2026 marca a décima disputa presidencial desde a redemocratização; em sete delas Lula foi o candidato do PT, ficando em segundo lugar três vezes e vencendo outras três; o resultado de 2026 ainda está em aberto quando escrevemos este artigo, mas as pesquisas realizadas até junho indicavam que novamente o petista figuraria entre os dois principais contendores.
A primeira eleição presidencial democrática desse ciclo foi a de 1989, quando 22 postulantes se apresentaram ao eleitorado. A disputa ocorreu um ano após a promulgação da nova Constituição, que trazia como nova regra a exigência de que o vencedor obtivesse ao menos 50% mais um dos votos válidos (dos quais são excluídos os nulos e em branco), o que, não ocorrendo, exigiria a realização de um segundo turno entre os dois primeiros colocados. Esse pleito teve a singularidade de ser a única corrida presidencial “solteira” desde então - ou seja, na qual a competição pela chefia do governo federal ocorreu isolada e não concomitante às eleições estaduais (para governador e assembleia legislativa) e para o Congresso Nacional. O grande número de candidaturas se deveu ao fato de ser aquela uma oportunidade ímpar para os muitos partidos políticos então existentes - ainda se afirmando num sistema partidário instituído há menos de uma década - se mostrarem à sociedade, aproveitando-se da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão, além da campanha nas ruas.
Ecos dessa primeira eleição se fizeram sentir nas subsequentes, mas nada de forma tão perene quanto sempre haver um candidato petista entre os dois principais concorrentes, vencendo ou não. Esse aspecto importa, pois a contínua presença do PT deu forma às contendas nacionais, configurando a principal clivagem ideológica de nossas eleições presidenciais: petismo versus antipetismo. Tal fato é destacado com robustas evidências empíricas nos trabalhos de David Samuels e César Zucco (Samuels; Mello; Zucco, 2024; Samuels; Zucco, 2014; 2018) e esmiuçado analiticamente por Jairo Nicolau (2026), reconstruindo com base em demografia, estatísticas eleitorais e pesquisas de opinião a trajetória das disputas presidenciais e da polarização política no país desde 2002.
A eleição de 1989 deflagrou o processo que tornou o PT (e Lula, sua principal liderança) o elemento balizador das corridas presidenciais desde então. Contudo, embora naquele primeiro momento o Partido dos Trabalhadores tenha iniciado sua consolidação como agremiação hegemônica na esquerda, superando de vez o trabalhismo brizolista do PDT,2 não havia até então um antagonista claro. Isso ocorreria a partir do pleito seguinte, em 1994, quando na esteira da popularidade amealhada por arquitetar o bem-sucedido Plano Real, que pôs fim a anos de hiperinflação renitente, o pessedebista Fernando Henrique Cardoso se sagrou presidente ainda no primeiro turno, com Lula (inicialmente favorito de acordo com levantamentos de intenção de voto feitos à época) no segundo lugar. Ao longo de sete levantamentos entre abril e julho daquele ano, o Instituto Datafolha mostrava Lula à frente de FHC (no início de maio com 26 pontos percentuais de vantagem), mas a partir de agosto o candidato do PSDB ganhou a dianteira (Datafolha, 1994), elegendo-se em outubro sem a necessidade de um segundo turno.
Essa polarização PT-PSDB se consolidou, repetindo-se nas cinco disputas subsequentes, com uma nova vitória de FHC no primeiro turno em 1998, seguida por duas de Lula em 2002 (contra José Serra) e 2006 (contra Geraldo Alckmin), e depois duas de Dilma Rousseff em 2010 (contra José Serra) e 2014 (contra Aécio Neves) - todas resolvidas apenas em segundo escrutínio. Contudo, o cenário se transformaria drasticamente a partir de 2018, quando o PSDB, novamente com Alckmin, teve desempenho pífio, ficando num modesto quarto lugar, sem alcançar sequer 5% dos votos válidos. A disputa daquele ano configurou um novo antagonismo, que embora mantivesse o PT no polo esquerdo, guindou à condição de principal contendora do petismo a ultradireita liderada por Jair Bolsonaro. Ao final, esse se sagrou vencedor, batendo no segundo turno a Fernando Haddad, substituto de Lula - que em razão de sua condenação no âmbito da Lava Jato, ficou inelegível e, portanto, impedido de competir.
Se durante seis eleições presidenciais o PSDB ocupou o lugar do antipetismo, ainda que sem corresponder plenamente às preferências de um eleitorado órfão de candidaturas fortes autenticamente direitistas, a partir de 2018 esse papel foi tomado não por uma direita tradicional (no passado personificada por lideranças como Carlos Lacerda, Jânio Quadros, Paulo Maluf ou mesmo Fernando Collor), mas por sua versão mais radical e virulenta - gerando uma polarização assimétrica entre esquerda moderada e ultradireita. A rejeição ao PT foi intensificada por seguidos escândalos de corrupção (iniciado com o mensalão e tendo na Lava Jato seu ponto culminante), pelo ressentimento de setores das classes mais altas com as políticas sociais de redução da desigualdade, que acarretaram perda de distinção social pelos estratos mais elevados, bem como pelo colapso econômico do governo Rousseff. Isso abriu espaço para o antipetismo em sua forma mais extremada, que Bolsonaro era capaz de expressar sobejamente.
Mas não era só isso. O antipetismo robustecido se fez acompanhar de um rechaço generalizado ao próprio sistema político, no contexto do que Leonardo Avritzer (2020) definiu como antipolítica, ocasionando assim também a débâcle do PSDB. Afinal, para um eleitorado farto da política tradicional, PSDB e PT eram igualmente percebidos como parte do establishment. Contudo, tal desfecho não era algo óbvio no início do ano eleitoral de 2018. Tanto que sequer os mais astutos atores políticos foram capazes de o antever, motivo pelo qual Alckmin, candidato tucano, amealhou o apoio dos principais partidos da direita tradicional (o Centrão) para sua candidatura. Naquela disputa, ao PSDB se coligaram oito agremiações: DEM, PP, PR, PRB, PSD, PTB, Solidariedade e PPS. Numa eleição crítica, marcada pelo sentimento antiestablishment, tal aliança, em vez de ajudar, pode até mesmo ter atrapalhado.
No papel de antipetista, um ultradireitista como Bolsonaro era muito mais convincente do que os tucanos, nascidos como dissidência de centro-esquerda do PMDB, embora se movendo paulatinamente para a direita, em boa medida devido justamente ao antagonismo com o PT (Couto, 2015; Rodrigues, 2014). Como um político antissistema, credenciavam-lhe sua trajetória de político marginal, useiro e vezeiro de declarações ultrajantes, características que lhe fizeram se passar por um outsider, embora fosse mais propriamente um maverick - político cuja carreira se dá à margem da linha dominante dos partidos políticos que integra, logrando a partir daí construir seu próprio partido ou movimento (Barr, 2009). É incorreto classificar como outsider um deputado de sete mandatos seguidos, com todos os filhos adultos atuando como políticos profissionais e ocupando cargos eletivos no legislativo nos três níveis de governo.3 O bolsonarismo se construiu como um empreendimento político familiar, algo determinante para a indicação, pelo próprio patriarca (preso e inelegível), do filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro, como seu substituto na eleição presidencial de 2026, sem abrir espaço para qualquer outro postulante. Desse modo, a família logrou manter a hegemonia no campo da ultradireita - ao menos até a eleição.
A disputa de 2018 foi o momento perfeito para um candidato como Bolsonaro. Se, como afirmou Victor Hugo, “não há nada mais poderoso do que uma ideia cuja hora chegou”, aquela era a hora propícia para ideias como as de Bolsonaro. Dois anos antes, nas eleições municipais de 2016, diversos outsiders autênticos venceram em municípios importantes do Brasil, como Belo Horizonte, São Paulo, Contagem e Anápolis, numa demonstração de que o eleitorado buscava alternativas fora da política convencional. Ademais, o PT sofreu naquelas disputas sua maior derrota eleitoral desde a fundação do partido, perdendo 60% das prefeituras e vereanças que ocupava (Couto, 2026).
Sua presidência iniciou um processo de construção e consolidação da ultradireita como campo poderoso do espectro político brasileiro, tanto eleitoral como organizacionalmente (com o ingresso do bolsonarismo oficial no PL). A eleição de Bolsonaro e de muitos de seus aliados nas disputas legislativas de 2018 mostrou a força com que esse campo emergia. Já seu desempenho em 2022, não só com a derrota apertada do então presidente na disputa pela reeleição, mas também com o crescimento das bancadas bolsonaristas na Câmara e no Senado, foi mais um estágio nesse processo de consolidação.4 E, logo depois, nas disputas municipais de 2024, candidatos da ultradireita mostraram força em capitais importantes do país, como São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Cuiabá, Goiânia e Fortaleza. Além disso, partidos claramente de ultradireita, PL e Novo, elegeram 10% dos prefeitos naquele ano.
É nessas condições que a esse campo ideológico emergente chegou à eleição presidencial de 2026, tendo como postulante principal o filho de Jair, Flávio, candidato do Partido Liberal, mas contando também com um desafiante dentro de sua seara, Renan Santos, o postulante do recém-criado partido Missão, agremiação formada pelo Movimento Brasil Livre (MBL). Levantamentos de intenção de voto realizados até junho mostravam que a bipolarização vista em 2018 e 2022 tenderia a se repetir, com petismo e bolsonarismo protagonizando a disputa, pois os levantamentos de intenção de voto feitos até junho mostravam que Flávio logrou herdar o cabedal de votos do pai, aparecendo empatado com Lula ou pouco atrás dele após a eclosão do escândalo dos pedidos de dinheiro de Flávio ao controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, preso por fraude financeira (Editorial Folha, 2026). Além disso, pesquisa da Quaest de junho de 2026 indicava que 12% dos eleitores se identificavam como bolsonaristas e 19% como lulistas. Outros 21% se definiam como de direita não bolsonarista e 14% como esquerda não lulista. Agregados, cada um dos dois polos ideológicos contava com exatamente um terço dos eleitores; outro terço foi classificado como de eleitores independentes (Quaest, 2026).
Tal cenário deixava pouco espaço para candidaturas alternativas à polarização. Um terceiro postulante, Ronaldo Caiado (PSD), tinha longa trajetória como liderança de uma direita dura, embora institucional - diferenciando-se assim de seus concorrentes da ultradireita, apesar de ter se alinhado ao bolsonarismo em questões-chave, como fez boa parte da direita tradicional desde o governo de Jair, inclusive defendendo a anistia aos golpistas condenados pelo STF - fossem peixes graúdos ou a arraia miúda do 8 de janeiro de 2023. Ainda segundo a Quaest de junho, no conjunto dos eleitores de esquerda/lulistas, 92% rejeitavam Flávio Bolsonaro e ao menos 82% se diziam dispostos a votar em Lula; entre os direitistas/bolsonaristas, ao menos 90% rejeitavam Lula e 85% poderiam votar em Flávio. No que se refere à possibilidade de voto, no campo esquerdo nenhuma candidatura superava os 13% (Aécio Neves, PSDB) e no direito Romeu Zema (Novo) e Caiado (PSD) superavam por pouco os 40%. Esses números deixam claro o quanto a polarização estava estruturada, embora com alguma abertura à direita - mesmo porque não havia candidaturas à esquerda competindo com Lula.
A disputa subnacional e a arena federativa
Desde 1994, o Brasil realiza um conjunto amplo de eleições num mesmo pleito, uma das transformações institucionais mais relevantes da redemocratização (Abrucio, 1998). São processos eleitorais casados de presidente, governador, senador, deputados federais e estaduais. Em todas essas disputas, a lógica política dos estados é uma variável estratégica, por três razões: há uma dinâmica própria de cada estado no processo eleitoral, os palanques estaduais são importantes para a disputa presidencial e as redes políticas subnacionais são peça-chave para a competição pelas vagas no Congresso Nacional.
Foi a obra de Olavo Brasil de Lima Júnior (1983; 1997) a primeira a ressaltar a existência de uma dinâmica própria da política estadual, com várias heterogeneidades e diversidades entre as unidades federadas. A literatura mostra que há impacto da eleição presidencial e de políticas nacionais no pleito estadual (Cortez, 2009; Fenwick, 2009), porém, as variáveis federais não determinam e nem são o principal fator explicativo da engrenagem das disputas nos estados, seja em relação às governadorias, seja no que tange às Assembleias Legislativas.
Esse ponto é importante porque o entendimento das eleições de 2026 não pode ficar apenas numa visão homogênea de que a atual polarização política assimétrica nacional se espraia e determina todos os demais pleitos. Como o Brasil é uma Federação e os estados têm um lugar central no sistema político, seja operando como checks and balances do poder federal, seja produzindo políticas relevantes para os cidadãos - como segurança pública, saúde ou educação -, é preciso analisar as eleições estaduais em si mesmas para analisar e antever qual país pode emergir das urnas ao final do ano.
A dinâmica política especificamente estadual será determinante na seleção da maioria dos governadores. Como exemplo, nos três maiores colégios eleitorais do país - São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro -, os determinantes da disputa regional serão mais decisivos do que a influência das candidaturas nacionais. Isso se repete noutros casos, inclusive com concorrência de candidatos mais à direita entre si mesmos - como no Paraná e em Goiás. No Nordeste, onde o lulismo é a força predominante, alguns candidatos prometem optar pela neutralidade, para que a lógica estadual prevaleça - isso vale para Maranhão e Pernambuco
Em suma, a competição entre as elites regionais pode ser modulada pelo cenário federal, mas é a dinâmica política intraestadual propriamente dita a variá- vel mais relevante na definição da disputa pelas governadorias. Contudo, para os presidenciáveis é um grande problema ficar sem palanques estaduais fortes, não só porque na busca por votos importa ter parceiros estaduais fortes, mas também porque é preciso ter espaço para falar aos eleitores de cada parte do território nacional.
A disputa por palanques estaduais fortes pode ser um elemento diferenciador numa eleição presidencial que tende a ser muito apertada. Por isso, o PT optou por ter menos candidatos próprios às governadorias (como, aliás, já faz há várias eleições): no dia 15 de junho, o partido decidiu encabeçar a chapa para o executivo em apenas 10 estados (Aguiar, 2026). Desse modo, essa preferência por alianças e compartilhamento de poder favorece a candidatura presidencial de Lula, como pela primeira vez no Rio Grande do Sul, bem como em estados do Nordeste, como Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Sergipe, nos quais o PT apoiará candidatos ao governo de outros partidos (Carvalho, 2026; G1 SE, 2026).
A candidatura de Flávio Bolsonaro também tem buscado melhorar seus palanques estaduais. Sua dificuldade é que, no geral, conseguiu montar boas parcerias apenas onde já contava com maior apoio eleitoral. E, ademais, sua situação é bastante precária em todo o Nordeste, que concentra cerca de 30% dos votos nacionais e onde o lulismo é muito forte, chegando a ter, nos últimos pleitos, sempre mais de 70% da votação total.
O fato é que a eleição nacional pode ser decidida pela efetividade dos palanques estaduais, não apenas nos casos de vitória dos parceiros, mas também onde se conseguem derrotas menores. Nesse sentido, Lula tentou ampliar sua vantagem no Nordeste, igualar a situação em Minas Gerais e Rio de Janeiro - nesse último caso, dada a crise do bolsonarismo fluminense, almejando até mesmo um resultado melhor -, e diminuir a diferença em relação ao bolsonarismo em São Paulo e no Sul do país. Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa ganhar vantagem maior especialmente no eleitorado fluminense, paulista e mineiro para compensar as prováveis derrotas por larga margem que tende a sofrer nos estados nordestinos.
O impacto do federalismo para a eleição presidencial passa, ainda, pela influência do pleito estadual na disputa congressual. Como dito anteriormente, a literatura já mostrou haver forte ligação entre as políticas paroquiais dos congressistas com a construção de redes políticas locais, essenciais para se ter uma votação em bases territoriais - o supramencionado efeito coattail reverso. Com o aumento do poder orçamentário mediante emendas, essa aliança se transformou, com o fortalecimento de deputados e senadores frente a prefeitos, devido à maior quantidade de pork barrel distribuída. No entanto, ficar contra o governador de plantão e/ou ser oposição ao favorito à corrida pela governadoria pode atrapalhar os planos de quem joga pela lógica localista.
Se congressistas de base localista optarem por se confrontar com governadores incumbentes, terão de concorrer contra adversários munidos de recursos e políticas públicas na luta por votos. E, se a esse cenário se somar a disputa contra um favorito à governadoria com acesso às obras e programas governamentais, o impacto se torna ainda maior. Ademais, outros importantes brokers subnacionais são os candidatos a deputado estadual, peça estratégica na engrenagem eleitoral junto aos municípios. Se os mais fortes concorrentes às Assembleias Legislativas atuarem contra os deputados federais incumbentes - ainda mais se apoiados pelas governadorias -, os parlamentares federais em busca da reeleição terão uma dificuldade adicional.
A importância do quadro político estadual vai além do impacto sobre as eleições presidenciais e congressuais. Os governadores eleitos terão um triplo papel, essencial à democracia brasileira. Primeiro, são os principais responsáveis por políticas públicas muito relevantes para o bem-estar dos brasileiros, como segurança pública, boa parte da educação básica e a maioria dos serviços públicos de saúde de alta complexidade. Embora o eleitorado em geral tenha uma percepção mais clara dos papéis da União e dos municípios, pesquisas recentes mostram como os eleitores são capazes de diferenciar o desempenho das governadorias em questões cruciais, como no caso da pandemia da Covid-19, quando a população premiou mais quem teve políticas sanitárias corretas vis-à-vis o fracasso da ação federal durante o Governo Bolsonaro (Falcão; Rodrigues; Abrucio, 2026).
Os governos estaduais também são importantes porque suas ações são cruciais na coordenação e apoio à ação das prefeituras. Por conta de um amplo conjunto de municípios com baixas capacidades estatais (Grin; Demarco; Abrucio, 2021), os estados são fundamentais no impulsionamento de políticas municipais das quais os próprios governos locais não dariam conta sozinhos. São questões estratégicas para o futuro do país, como as áreas da primeira infância e da mudança climática. A literatura sobre federalismo cooperativo ressalta como a governança colaborativa entre governadores e prefeitos tem sido fator decisivo para o sucesso de vários setores, como a educação (Abrucio; Viegas; Corrêa, 2025).
Em suma, o federalismo impacta na governabilidade federal. Por um lado, a experiência recente do governo Bolsonaro revelou como os estados são essenciais como instrumentos de freios e contrapesos ao poder presidencial, contrabalançando tanto políticas públicas equivocadas como ações centralizadoras autocráticas (Abrucio et al., 2020). Por outro, para implementar de forma mais efetiva políticas nacionais, o Executivo federal precisa montar parcerias com as governadorias, pois há responsabilidades compartilhadas e necessidade de conjugar esforços das burocracias. Quem quer que seja o eleito para o Palácio do Planalto, terá nos estados ou um escudo contra suas políticas, ou um aliado em seus projetos.
Conclusões
As eleições de 2026 ocorrem num contexto político profundamente distinto daquele que caracterizou a fase áurea do presidencialismo de coalizão brasileiro. Embora a disputa pela Presidência da República siga sendo o principal foco da atenção pública e midiática, ela já não é suficiente para explicar, isoladamente, os rumos da política nacional. As transformações institucionais ocorridas desde meados da década passada alteraram o equilíbrio entre os poderes, ampliaram o protagonismo do Congresso Nacional, reforçaram a centralidade do Supremo Tribunal Federal em conflitos políticos relevantes, evidenciando ainda a importância estratégica dos governos estaduais para a governabilidade e para a implementação de políticas públicas.
A analogia a um caleidoscópio é útil precisamente porque permite captar essa multiplicidade de centros de poder e a constante recomposição de suas relações. Tal como as imagens formadas pelo brinquedo mudam a cada movimento, preservando alguns elementos e reorganizando outros, a política brasileira contemporânea combina permanências e mudanças. A Presidência da República continua a ser o ator institucional central do sistema político, seja pela visibilidade do cargo, seja por suas responsabilidades e capacidade de pautar o debate público. Contudo, já não dispõe da mesma predominância que marcou o período anterior. Sua capacidade de governar depende cada vez mais da interação com um Congresso fortalecido, de sua relação com o Judiciário e de sua articulação com governadores e demais atores federativos.
Nesse novo arranjo, as eleições legislativas assumem importância ainda maior. O fortalecimento institucional e financeiro do Congresso elevou o peso político dos parlamentares, ampliando sua influência sobre a agenda governamental, a distribuição de recursos públicos e os processos de controle e responsabilização. Particularmente no Senado Federal, as disputas eleitorais passaram a ter consequências que extrapolam a dinâmica legislativa tradicional, incidindo diretamente sobre as relações entre os poderes e sobre os embates em torno do papel do Supremo Tribunal Federal na democracia brasileira.
A dimensão federativa constitui outro componente indispensável para compreender o pleito de 2026. Os estados permanecem espaços dotados de dinâmica política própria, influenciando simultaneamente as disputas presidenciais e congressuais. Além disso, os governadores exercem funções decisivas tanto na coordenação de políticas públicas quanto na construção de mecanismos de cooperação e controle recíproco dentro da Federação. A experiência recente demonstrou que os entes subnacionais atuam tanto como parceiros fundamentais da ação federal quanto como importantes contrapesos às iniciativas presidenciais.
Por isso, interpretar as eleições brasileiras exclusivamente a partir da lógica da competição presidencial significaria ignorar aspectos centrais do funcionamento contemporâneo do sistema político. O Brasil deixou para trás o contexto em que a Presidência concentrava de forma quase exclusiva a capacidade de coordenação política e definição dos rumos governamentais. O quadro atual é marcado por uma distribuição mais complexa de recursos de poder, na qual Presidência, Congresso, Judiciário e governos estaduais interagem de maneira permanente, produzindo equilíbrios instáveis e frequentemente tensionados.
Vale retomar o sentido original do conceito de presidencialismo de coalizão, tal qual definido por Sérgio Abranches (1988). Para o autor, tratava-se de uma visão socioinstitucional do sistema político, de maneira que incorporava a necessidade de um arranjo institucional policêntrico para dar conta de um país bastante heterogêneo e plural. Figueiredo e Limongi (1999) mostraram como a criação de mecanismos institucionais favoráveis ao Executivo federal deram preponderância ao presidente, mas isso nunca significou um presidencialismo imperial, pois negociações interpoderes sempre foram necessárias. As transformações institucionais ocorridas principalmente desde 2015, somadas às transformações na sociedade (Nicolau, 2026), na competição partidária orientada por uma polarização radicalizada e do surgimento de um vetor antidemocrático representado pelo bolsonarismo, alteraram a conformação socioinstitucional do sistema político, seguindo a original e precisa definição de Abranches. O resultado é um quadro político mais complexo e caleidoscópico, tanto na eleição como no momento governativo, sem que o próprio modelo coalizacional deixe de existir - embora sua sobrevivência seja cada vez mais dificultada pelo custo de se governar e pela ameaça autocrática.
Daí ser importante ter uma visão mais sistêmica e atualizada pelos novos padrões históricos das instituições e da sociedade. Com base nesta perspectiva, as eleições de 2026 são, portanto, um teste não apenas para as candidaturas presidenciais, mas para a configuração mais ampla do sistema político brasileiro. Seus resultados, além de definir quem ocupará os principais postos de poder, também indicarão como se organizarão as relações entre instituições cuja interdependência se tornou mais intensa do que em qualquer outro momento da Nova República. Compreender tal processo exige abandonar a imagem de um presidencialismo dominante e adotar a perspectiva de um caleidoscópio institucional, no qual múltiplos atores disputam influência e poder, e cuja configuração final dependerá dos resultados presidenciais, legislativos e estaduais combinadamente.
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Disponibilidade de dados de pesquisa
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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1
Importante observar o inusitado da derrubada de uma indicação presidencial para o STF, como ocorreu com o advogado geral da União, Jorge Messias, rejeitado por 42 votos a 34 em 29 de abril de 2026 (Agência Senado, 2026).
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2
Até então o desempenho eleitoral do Partido Democrático Trabalhista (PDT) de Leonel Brizola superava o do PT. Isso começou a mudar após 1989.
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3
Quando disputou a presidência da República, os três filhos adultos de Bolsonaro eram vereador na cidade do Rio de Janeiro (Carlos), deputado estadual no estado do Rio de Janeiro (Flávio) e deputado federal por São Paulo (Eduardo). Posteriormente, também seu filho mais novo, Jair Renan, elegeu-se vereador no município catarinense de Balneário Camboriú.
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4
Em 2022, apenas o PL, agremiação de Bolsonaro, elegeu 99 deputados federais (19,3% da Câmara) e 8 senadores (9,9% do Senado). Considerando que há bolsonaristas em outros partidos, esses números são ainda maiores. Diferentes veículos de imprensa costumam falar em ao menos 130 deputados (25%) e 25 senadores (31%).
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
