Resumo
Objetivo analisar as potencialidades da formação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas para enfrentamento do racismo e promoção da equidade e igualdade racial.
Método estudo teórico-reflexivo, ancorado em epistemologias decoloniais e contracoloniais, articulado à experiência formativa das autoras e à literatura crítica sobre saúde, educação e populações quilombolas. A análise foi organizada com base em referenciais do Sul Global e em categorias que problematizam desigualdades, territorialidade e produção de saberes na formação em enfermagem. Foi realizado entre janeiro e outubro de 2025.
Resultados o texto está estruturado em três eixos principais: o aquilombamento como prática educativa e resistência epistêmica; a interculturalidade crítica na formação em enfermagem; e as potencialidades transformadoras da presença de enfermeiras e enfermeiros quilombolas na estrutura do Sistema Único de Saúde.
Considerações finais e implicações para a prática a inclusão de quilombolas em cursos superiores de graduação em enfermagem é oportunidade para a implementação da mudança epistemológica nos currículos. A inserção de conceitos de autores do Sul Global alinhados à resistência social, à política e à epistêmologia das populações quilombolas promove mecanismos estruturais para enfrentamento dos diferentes tipos de racismo.
Palavras-chave:
Diversidade, Equidade, Inclusão; Educação em Enfermagem; Enfermagem; Política Pública; Quilombolas
Abstract
Objective to analyze the potentialities of the education of quilombola nurses in confronting racism and promoting equity and racial equality.
Method a theoretical-reflective study grounded in decolonial and counter-colonial epistemologies, articulated with the authors’ educational experiences and critical literature on health, education, and quilombola populations. The analysis was organized based on references from the Global South and on categories that problematize inequalities, territoriality, and knowledge production in nursing education. The study was conducted between January and October 2025.
Results the text is structured around three main axes: aquilombamento as an educational practice and epistemic resistance; critical interculturality in nursing education; and the transformative potentialities of the presence of quilombola nurses within the structure of the Unified Health System.
Final considerations and implications for practice the inclusion of quilombola peoples in undergraduate nursing programs represents an opportunity for implementing epistemological change within curricula. The incorporation of concepts developed by authors from the Global South, aligned with social resistance, politics, and the epistemology of quilombola populations, promotes structural mechanisms for confronting different forms of racism.
Keywords:
Diversity, Equity, Inclusion; Education, Nursing; Nursing; Public Policy; Quilombola Communities
Resumen
Objetivo analizar las potencialidades de la formación de enfermeros y enfermeras quilombolas para enfrentar el racismo y promover la equidad e igualdad racial.
Método estudio teórico-reflexivo basado en epistemologías decoloniales y contracoloniales, articulado con la experiencia formativa de las autoras y con la literatura crítica sobre salud, educación y poblaciones quilombolas. El análisis se organizó con base en referentes del Sur Global y en categorías que problematizan desigualdades, territorialidad y producción de conocimientos en la formación en enfermería. Se llevó a cabo entre enero y octubre de 2025.
Resultados el texto está estructurado en tres ejes principales: el aquilombamento como práctica educativa y resistencia epistémica; la interculturalidad crítica en la formación en enfermería; y las potencialidades transformadoras de la presencia de enfermeros y enfermeras quilombolas en la estructura del Sistema Único de Salud.
Consideraciones finales e implicaciones para la práctica la inclusión de quilombolas en los cursos superiores de grado en enfermería representa una oportunidad para la implementación del cambio epistemológico en los currículos. La incorporación de conceptos de autores del Sur Global alineados con la resistencia social, la política y la epistemología de las poblaciones quilombolas fomenta mecanismos estructurales para enfrentar los diferentes tipos de racismo.
Palabras clave:
Diversidad, Equidad e Inclusión; Educación en Enfermería; Enfermería; Política Pública; Quilombolas
INTRODUÇÃO
A saúde quilombola constitui um campo marcado por desigualdades históricas, profundas assimetrias territoriais e expressões persistentes do racismo estrutural no Brasil.1 Em meio a esses desafios, a presença de estudantes quilombolas na educação superior emerge como um movimento político-epistêmico que tensiona práticas institucionais e convoca novas configurações de ensino, pesquisa e cuidado.2 Esse acesso à educação superior3 é assegurado pela Lei nº 14.723/2023, que representa uma ampliação da Lei de Cotas e tem subsidiado a discussão sobre diversidade, equidade e inclusão.
Essa inclusão encontra uma série de desafios, entre os quais se destacam o racismo institucional,2,3 a ausência de políticas efetivas de permanência como a disponibilização de auxílios financeiros, a insuficiente representatividade de temáticas quilombolas nas estruturas curriculares,4 as dificuldades a uma nova rotina de vida marcada pelas diferenças culturais5 e a limitação na formação dos docentes quanto às especificidades culturais e sociais das comunidades quilombolas.6 Tais obstáculos dificultam não apenas o acesso, mas também a permanência e o pleno desenvolvimento acadêmico desses estudantes,3 evidenciando a necessidade de avanços estruturais e pedagógicos no ensino superior.
Na enfermagem, profissão intrinsecamente vinculada às dinâmicas comunitárias, esse tensionamento se torna especialmente relevante, pois desafia modelos pedagógicos que ainda reproduzem uma visão biomédica, eurocêntrica, distante dos territórios e das práticas antirracistas.7-9 Por outro lado, a formação de profissionais de enfermagem quilombolas emerge como uma oportunidade estratégica para incorporar saberes tradicionais e discutir as interfaces com a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da População Negra (PNAISPN).10 Nessa chave, a formação de profissionais de enfermagem quilombolas é um vetor formativo e político para promover a inclusão de grupos historicamente marginalizados, reconhecendo suas especificidades culturais e sociais.1,10
Nesse cenário, a formação em cursos de graduação em enfermagem se torna campo estratégico de disputa epistêmica. Diante disso, é essencial compreender que esses estudantes são, antes de tudo, sujeitos com experiências singulares, enraizadas nas vivências e nas resistências de suas comunidades. A reconstrução da ação pedagógica se torna, portanto, imprescindível para a superação de paradigmas tradicionais e para o avanço na produção de conhecimentos sobre os diversos territórios quilombolas.3,6 Essa transformação exige o reconhecimento das múltiplas realidades desses espaços e de suas singularidades, afastando-se de modelos positivistas e promovendo uma compreensão mais ampla e contextualizada de seus processos histórico-sociais.2
Apesar da ampliação das políticas de acesso e permanência,2-4 a literatura científica sobre formação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas permanece escassa, com predominância de análises focalizadas na saúde da população negra5,9,10 ou na atenção à saúde em territórios quilombolas,1 sem examinar de modo sistemático a formação7,9 em enfermagem. As potencialidades epistêmica, pedagógicas e políticas que estudantes quilombolas mobilizam ao ingressar na universidade são pouco exploradas e tampouco analisam como suas trajetórias podem repercutir na reorientação curricular e no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS).
Para tanto, é necessário adotar perspectivas epistêmicas oriundas do Sul Global.11,12 Essa abordagem possibilita o diálogo com a presença quilombola nos cursos da área da saúde nas universidades públicas, contribuindo para a superação de práticas excludentes e para a construção de modelos de cuidado mais equitativos.13-15 Isso contribui para o debate teórico-político sobre educação em enfermagem e para a consolidação de práticas formativas comprometidas com a justiça social, territorial e epistêmica.2
Para problematizar essa lacuna, este estudo adota um marco teórico fundamentado em três eixos articulados. O aquilombamento10 é compreendido como prática educativa, política e comunitária que opera tanto como estratégia de resistência11 quanto como matriz de produção de conhecimentos. A interculturalidade crítica, em contraposição às abordagens meramente celebratórias da diversidade, buscando ultrapassar abordagens restritas à valorização da diversidade e à interculturalidade funcional, orienta processos formativos que reconhecem os conflitos, as assimetrias e as disputas de poder13 que atravessam os espaços educacionais e os territórios. A contracolonização12 permite que os estudantes quilombolas questionem modelos hegemônicos e centralizem seus saberes e territórios na produção de conhecimento.
Diante desse contexto, questiona-se: como a formação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas no Brasil pode contribuir para a promoção da equidade no SUS, considerando os desafios estruturais, epistemológicos e institucionais enfrentados por esses estudantes nas universidades? Assim, este estudo teórico-reflexivo tem como objetivo analisar as potencialidades da formação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas para enfrentamento do racismo estrutural e promoção da equidade e igualdade racial.
MÉTODO
Este estudo teórico-reflexivo é fundamentado em uma abordagem crítica e dialógica, ancorada nas epistemologias decoloniais e contracoloniais.8,9 Tal perspectiva está alinhada à experiência e ao pensamento crítico das autoras, permitindo uma análise aprofundada das intersecções entre educação e saúde, com foco nas implicações socioculturais, políticas e epistêmicas envolvidas na formação de graduação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas. Foi realizado entre janeiro e outubro de 2025.
A investigação se concentra nos desafios e nas potencialidades de inclusão e formação no campo da enfermagem, estruturando-se em três eixos analíticos principais: (1) Aquilombamento como prática educativa e resistência epistêmica; (2) Interculturalidade crítica na formação em enfermagem; e (3) Potencialidades transformadoras da formação de enfermeiros quilombolas para o Sistema Único de Saúde.
A construção teórica deste estudo está fundamentada em referenciais essenciais para a compreensão das epistemologias do Sul Global, especialmente no pensamento de Beatriz Nascimento sobre quilombo, memória e resistência cultural, que servem de base para a compreensão do aquilombamento como prática político-epistêmica, e na noção de contracolonização formulada por Antônio Bispo dos Santos.8,9,12
Entende-se, portanto, que populações quilombolas são coletividades negras historicamente organizadas como formas de resistência ao racismo, baseadas em ancestralidade, pertencimento e modos próprios de vida. O quilombo não se reduz à “remanescência” do passado; é uma categoria viva de produção de liberdade e resistência cultural, que fundamenta território, memória e ação coletiva, bem como projetos de mundo que promovem a contracolonização.12 O aquilombamento é o processo de criar proteção e pertencimento como estratégia de reexistência diante do racismo estrutural.11
Assim, ao tratar das especificidades quilombolas, este estudo se refere a um conjunto articulado de territorialidade coletiva, ancestralidade e memória como tecnologia social, organização comunitária, formas próprias de autoridade, práticas de cuidado e cura não reduzíveis ao modelo biomédico e experiências recorrentes de racismo institucional que modulam o acesso, o vínculo, a comunicação e a adesão ao cuidado no SUS.11,12
A partir desses aportes, propõe-se uma reflexão crítica sobre a formação de futuros profissionais quilombolas em enfermagem, articulando práticas pedagógicas contemporâneas às demandas do SUS, especialmente no âmbito da PNAISPN e das Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação em Enfermagem (DCENFs), da resolução
CNE/CES no 01 de 15 de maio de 2026.
Durante a preparação deste artigo da pesquisa, os autores utilizaram o Chat GPT versão de 2025 para revisão gramatical e ortográfica do texto. Após o uso desta ferramenta/modelo/serviço, os autores revisaram e editaram o conteúdo em conformidade com o método científico e assumem total responsabilidade pelo conteúdo da publicação.
Adicionalmente, este estudo se alinha às vivências práticas dos autores, que são uma enfermeira quilombola e outra não quilombola, atuantes nos campos da educação, da saúde e da pesquisa, o que possibilita um diálogo entre teoria e prática, enriquecendo a análise com perspectivas situadas e comprometidas com a transformação social ancorada nos pressupostos sobre a “Colonialidade do poder” de Aníbal Quijano.13
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para sustentar a análise desenvolvida neste estudo, apresenta-se, inicialmente, um quadro integrado, que articula os conceitos teóricos fundamentais para compreender a formação de graduação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas. Esse quadro tem a função de operacionalizar os referenciais críticos, evidenciando como cada conceito opera como operador analítico, ilumina planos da formação, revela tensões estruturais e aponta caminhos possíveis para a construção de práticas formativas comprometidas com a justiça racial, a equidade e a transformação epistemológica.
A perspectiva aqui adotada reconhece que a formação de graduação em enfermagem por quilombolas não pode ser analisada de maneira dissociada dos movimentos históricos de resistência, das epistêmis negras e quilombolas e das disputas por legitimidade de conhecimentos no interior da universidade. Nesse sentido, são mobilizados conceitos-chave desenvolvidos por intelectuais negras(os) e quilombolas que criticam a colonialidade do poder, denunciam o epistemicídio e propõem modos de reorganização curricular baseados na ancestralidade, no território e na agência comunitária. Assim, o Quadro 1 sintetiza esses operadores e explicita suas contribuições para a construção dos eixos analíticos apresentados na sequência.
Quadro reflexivo interconectado a partir da análise teórica da formação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas.
Aquilombamento como prática educativa e resistência epistêmica
O aquilombamento,10 enquanto prática educativa, constitui um marco conceitual que ultrapassa a noção histórica8,9 e passa a operar como categoria política da formação em saúde. Nos contextos formativos, é um mecanismo no qual estudantes quilombolas mobilizam ancestralidade, pertencimento comunitário9 e estratégias de resistência para se reposicionar como sujeitos epistêmicos ativos.14 Nessa perspectiva, o aquilombamento não é apenas uma presença física na universidade, mas uma afirmação de autoridade epistêmica10,11 dos estudantes, na qual experiências e memórias quilombolas tensionam currículos e deslocam racionalidades pedagógicas eurocentradas.
Trata-se de uma pedagogia que emerge dos próprios sujeitos quilombolas e que se expressa em práticas coletivas, como rodas de conversa, redes de apoio e narrativas ancestrais.10,11 Esses processos instauram uma epistemologia do aquilombamento10 como eixo articulador, como observado na Figura 1, na qual o cuidado envolve relações ético-afetivas a partir do território. Ao ingressarem no curso de graduação em enfermagem, estudantes quilombolas não somente se adaptam ao currículo, mas o reconfiguram, uma vez que sua presença expõe lacunas,7 silenciamentos e ausências históricas em relação às populações negras e quilombolas.
Mandala conceitual do aquilombamento como eixo articulador da formação em graduação em enfermagem.
A “Mandala do Aquilombamento” é proposta como dispositivo pedagógico-reflexivo para reorganizar a formação a partir de uma lógica territorializada e antirracista, na qual memória, cosmovisão, território, epistemologias ancestrais, autonomia e contracolonização deixam de ser temas periféricos e passam a operar como mediações curriculares.10-13 Nessa perspectiva, o aquilombamento funciona como chave de leitura e de ação que orienta a seleção de referências, o modo de problematizar situações de cuidado e as formas de construir critérios de aprendizagem que reconheçam desigualdades históricas e disputas de conhecimentos que atravessam a formação em saúde.7-9
Como estratégia formativa, depende de condições concretas de implementação. Primeiro, requer co-governança pedagógica, como pactuação de objetivos, atividades e critérios avaliativos, com participação discente e, quando pertinente, diálogo com atores comunitários, evitando que a mandala opere apenas como enunciado normativo.2,4 Segundo, exige mediação docente qualificada para sustentar a reflexão crítica, explicitar conflitos epistemológicos e garantir a coerência entre discurso e prática.15,16 Terceiro, demanda avaliação formativa com evidências de aprendizagem por meio de portfólios, diários reflexivos e produtos territorilizados.
Ao mesmo tempo, a estratégia implica ponderações ético-políticas. Há risco de apropriação sem devolutiva, sobretudo quando estudantes quilombolas são colocados na posição de representantes permanentes, ou quando o território é mobilizado como recurso pedagógico sem reciprocidade e sem tensionamento institucional.12,13 Para mitigar esses efeitos, a mandala se compromete a explicitar limites do que pode ser extraído do território, distribuir responsabilidades e reconhecer que contracolonizar12 envolve também tensionar a própria instituição.2,14
O aquilombamento fortalece práticas pedagógicas contracoloniais e amplia a representatividade quilombola nos espaços acadêmicos.1,2 Essa abordagem contribui para a formação de profissionais comprometidos com a equidade racial e a justiça social, capazes de reconhecer e atender às especificidades das populações quilombolas em seus diversos territórios.2,14,15
Trata-se de uma ética da liberdade, que tensiona a lógica colonial ainda presente e fortalece o protagonismo quilombola.14 Ressignifica a presença quilombola na universidade, deslocando-a de uma lógica de inclusão meramente quantitativa para uma inserção qualitativa,16,17 na qual estudantes quilombolas se tornam- protagonistas de debates curriculares.
Essa emergência pode ocorrer em espaços físicos de resistência, reestruturação social, política e epistêmica das populações quilombolas,4 por exemplo, por meio de associações estudantis, criação de núcleos de estudos voltados para as epistemologias quilombolas, presença de lideranças quilombolas4 e adoção de metodologias participativas.
Essas ações tensionam e permeiam os currículos nas pesquisas e na extensão,11 orientadas à coconstrução de metodologias e ao redirecionamento de linhas de pesquisa, assegurando a continuidade da resistência histórica apontada por diversos autores.8,9,11 Isso consolida uma forma de resistência epistêmica, pois confronta o epistemicídio que, historicamente, deslegitimou os quilombolas como fontes legítimas de conhecimento em saúde, colaborando para uma mudança epistêmica e epistemológica. Configura-se, assim, um movimento de resistência contra a colonialidade do saber, contestando a hegemonia do conhecimento.
Interculturalidade na formação em enfermagem
A discussão da formação em enfermagem por meio da interculturalidade crítica, diferentemente de abordagens meramente celebratórias da diversidade, possibilita o debate de diferentes conhecimentos e de dimensões constitutivas do cuidado e do processo formativo.1,4 Possibilita o reconhecimento e a valorização das diversas práticas de saúde em territórios multiculturais, como os das comunidades quilombolas. Essa é uma condição fundamental para enfrentar o racismo institucional, que impacta a adesão aos cuidados e à atenção em saúde.1,2
Na enfermagem, esse deslocamento não se esgota na inserção de conteúdos7,9 sobre saúde quilombola nos currículos, requerendo a participação ativa das comunidades na definição de diretrizes formativas e no fortalecimento da identidade e do protagonismo estudantil.2,4,5 Quando suas experiências territoriais são reconhecidas como parte legítima do processo educativo, futuros enfermeiros quilombolas passam a atuar como protagonistas e mediadores entre conhecimentos biomédicos e práticas tradicionais, ampliando a capacidade da enfermagem de produzir cuidado culturalmente seguro.10 Esse movimento tensiona e reorienta a institucionalidade formativa, contribuindo para enfrentar o racismo estrutural e consolidar espaços institucionais de resistência.6,10
A integração entre conhecimentos biomédicos e tradicionais, central à interculturalidade crítica, dá subsídio para a ruptura com o racismo científico que historicamente marginalizou populações negras na produção de conhecimento e nas práticas de saúde.10 Traz visibilidade para práticas tradicionais, como benzeduras, redes comunitárias de cuidado e tecnologias sociais quilombolas, não como complementos, mas com epistemologias próprias.
Desse modo, a Figura 2 ilustra que o processo de ruptura entre os diferentes saberes não ocorre de forma simples ou por mera justaposição, mas por meio de tensões, de negociações e pelo reconhecimento das assimetrias presentes. Além disso, é fundamental incorporar à análise contemporânea o impacto do racismo algorítmico,17 que perpetua discriminações por meio das tecnologias digitais, ampliando os desafios enfrentados na construção de uma formação intercultural crítica.
O modelo ilustra a articulação dinâmica entre três forças epistêmicas — conhecimentos biomédicos, conhecimentos quilombolas ancestrais e território/experiência comunitária — que se encontram em processos de tensão, disputa e mediação no âmbito da formação e do cuidado ofertado no SUS.1,11-13,15,16 A área central representa a formação intercultural crítica como dispositivo que pode incidir sobre o trabalho em saúde, sobretudo na Atenção Primária à Saúde (APS), ao qualificar as práticas de acolhimento, comunicação, vínculo e ações coletivas em territórios quilombolas.1,15,16 Nesse processo, estudantes quilombolas assumem papel de protagonistas e mediadores, promovendo práticas de saúde antirracistas e valorizando saberes tradicionais no SUS.1,2,4,7,14-16
A mediação se evidencia quando protocolos e rotinas institucionais entram em tensão com racionalidades territoriais de cuidado quilombolas, exigindo que a formação explicite disputas de legitimidade e efeitos de exclusão produzidos pela instituição.1,11-13,16 Nesses contextos, a incorporação do triângulo se concretiza por dispositivos de formação intercultural crítica a partir de rodas de conversa mediadas, análise de casos territorializados, cartografias do cuidado e pactuação avaliativa com registros reflexivos que tornam auditáveis os processos de tradução, negociação e responsabilização ética orientados por antirracismo e segurança cultural.7,9,15,16
Por outro lado, para enfrentar esses desafios, a formação docente em enfermagem demanda contemplar capacitação específica e sensibilidade cultural diante da presença de estudantes negros, especialmente quilombolas,8 ao enfrentamento de barreiras institucionais que dificultam sua permanência e desenvolvimento acadêmico, à ausência de representatividade docente, ao preconceito e ao déficit de dispositivos para permanência.17,18 Isso evidencia a urgência de discutir a implementação das ações afirmativas e mudanças estruturais no ensino superior que incluam o corpo administrativo e o acesso de docentes negros, inclusive com apontamentos para pós-graudação.17
A formação de docentes precisa ir além do domínio técnico, incorporando uma perspectiva que reconheça a pluralidade de conhecimentos e contribua para uma educação antirracista e socialmente justa.8 Essa abordagem transforma o ambiente universitário em um espaço de valorização das identidades quilombolas e potencializa o desenvolvimento acadêmico desses estudantes, uma vez que reconhece suas trajetórias como portadoras de conhecimentos ancestrai e legitima suas experiências como fontes de conhecimento. Ao dialogar com territórios, memórias e práticas de resistência, currículos tornam-se mais coerentes com a realidade da população quilombola e com as necessidades do SUS.8,13
Para a concretização de ações formativas, o aquilombamento pode ser inserido em projetos de extensão, rodas de conversa e oficinas culturais. Nessas iniciativas, ao serem incoporadas às práticas de cuidado, posicionam o quilombo como território epistêmico legítimo.8,9,13 Isso evidencia que os quilombos não são apenas espaços físicos, mas também lugares de elaboração intelectual, memória coletiva e produção de conhecimento,8 reafirmando a centralidade da experiência quilombola na construção de uma educação emancipadora e antirracista.
A implementação de estratégias pedagógicas inclusivas, como espaços de acolhimento, grupos de estudos e núcleos de pesquisa, fortalece a conexão entre universidade e comunidades quilombolas.13 Essa aproximação favorece o diálogo entre diferentes epistemologias, combate a hegemonia do conhecimento eurocêntrico e assegura currículos culturalmente pertinentes.
Assim, a enfermagem amplia sua capacidade de promover saúde e valorizar práticas de cuidado quilombolas.16,19,20 Trata-se de um movimento essencial para superar o eurocentrismo na formação em enfermagem e a persistência da colonialidade do poder na academia.8,9 Essa aproximação favorece o diálogo entre diferentes epistemologias e o enfrentamento da hegemonia do conhecimento eurocêntrico que marginaliza os conhecimentos produzidos no Sul Global.8,9
Além disso, a valorização dos saberes ancestrais está associada a um compromisso com a educação continuada e a atualização profissional, como a oferta de cursos de formação continuada com enfoque na saúde da população negra e de oficinas sobre práticas integrativas e complementares em saúde. Isso exige que os profissionais estejam preparados para analisar contextos específicos e contribui para formar profissionais atuar em contextos diversos, complexos e racialmente marcados.13
Potencialidades transformadoras na estrutura do Sistema Único de Saúde
A formação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas para atuação no SUS tem potencial transformador, pois aproxima as práticas de cuidado das realidades sociais, culturais e territoriais das comunidades negras rurais. Essa inserção tensiona modelos tradicionais de atenção e evidencia que o SUS só se concretiza como política pública equitativa quando reconhece as especificidades da saúde e dos territórios quilombolas, enfrenta barreiras históricas de acesso e combate o racismo institucional que estrutura o sistema.
Valorizar e alinhar a formação para práticas de saúde quilombolas é reconhecer ritos, saberes e redes comunitárias como componentes legítimos da promoção da saúde. Para isso, é imprescindível integrar o conhecimento e a participação ativa dos indivíduos das comunidades quilombolas nos processos da universidade, superando os desafios da permanência.4,5 Possibilita alinhamento com a semiótica dos territórios e com seus signos e a significação das diferentes formas de interpretação.
A inclusão sistemática disso nos currículos acadêmicos aproxima a universidade do serviço e cria sinergias entre formação e prática, contribuindo para a implementação da PNAISPN.6 Essa articulação curricular e institucional desloca o olhar do modelo biomédico hegemônico e reafirma o compromisso do SUS com a equidade racial e com a valorização dos conhecimentos ancestrais.
O reconhecimento de enfermeiras e enfermeiros quilombolas como sujeitos epistêmicos13 é igualmente estratégico. Esses profissionais atuam como mediadores culturais, fortalecendo vínculos entre serviços de saúde e comunidade, promovendo práticas de cuidado contextualizadas e coerentes com os modos de vida quilombolas, capazes de reorientar práticas assistenciais, elaborar planos de cuidado contextualizados e disputar sentidos atribuídos ao cuidado no interior das equipes de saúde. No SUS, contribuem para ampliar o pertencimento comunitário, fortalecer políticas públicas e consolidar práticas interculturais que legitimam múltiplas epistêmis no cuidado.
Para que essas transformações se consolidem, é necessário investir em políticas de valorização e educação permanente. A implementação de estratégias de suporte institucional e de carreira amplia o acesso equitativo aos serviços e ressignifica o cuidado, tornando-o sensível às dimensões territoriais, culturais e sociais que estruturam as comunidades quilombolas.10 Essa ação reconhece a centralidade do cuidado ancestral dos quilombolas enquanto orientador do cuidado.
Isso fortalece a implementação de um cuidado sensível às especificidades culturais das comunidades quilombolas15 e aponta que práticas transformadoras no SUS dependem de processos formativos igualmente transformadores. Essa transformação está alinhada às discussões recentes das DCENFs, à justiça social e à equidade em saúde.
Desse modo, a participação ativa se torna elemento central para consolidar um SUS verdadeiramente comprometido com a equidade e a valorização dos saberes ancestrais.18 A incorporação de suas vozes na elaboração de protocolos, programas e ações de APS permite ao sistema reconhecer práticas locais de cuidado, ampliar a adesão aos serviços e fortalecer os vínculos entre profissionais de saúde e comunidade. Esse processo, ao ser articulado com a valorização dos saberes ancestrais e a formação permanente de profissionais, contribui para uma atenção culturalmente alinhada ao aquilombamento,10 evitando intervenções distantes das realidades territoriais e promovendo maior efetividade nas ações de saúde.
Nesse sentido, a formação acadêmica se torna um instrumento de equidade,4 preparando enfermeiros para atuar com criticidade e compromisso ético-político. A implementação de ações estratégicas para dignidade, respeito19 e políticas institucionais que garantam permanência estudantil, acolhimento e reconhecimento identitário reduz barreiras impostas pelo racismo estrutural20-22 e fortalece a trajetória acadêmica dos estudantes quilombolas. Tais políticas ampliam a sustentabilidade de ações transformadoras no SUS e consolidam um ensino superior comprometido com a justiça social,23 a equidade e a formação de profissionais preparados para enfrentar as desigualdades em saúde observadas e as interseccionlidades que atravessam os corpos negros.24,25
CONSIDERAÇÕES FINAIS E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA
A formação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas desponta como estratégia fundamental para o enfrentamento do racismo estrutural e a promoção da equidade e igualdade racial no SUS. Ao garantir a presença desses profissionais nos serviços de saúde, não apenas se amplia a representatividade da população quilombola, mas também se fortalece o diálogo intercultural crítico, promovendo a valorização dos saberes ancestrais e das práticas de cuidado oriundas das comunidades quilombolas. Essa inserção contribui para a superação de barreiras históricas de acesso e para o combate ao racismo institucional, uma vez que legitimiza diferentes formas de cuidado e reconhece as especificidades culturais das populações negras rurais.
Nesse sentido, a incorporação desses como sujeitos epistêmicos na educação superior e de epistemologias decoloniais e contracoloniais na formação acadêmica se torna imprescindível. A reconfiguração dos currículos de enfermagem, com a inclusão de conteúdos que valorizem práticas de saúde quilombolas e promovam o respeito à ancestralidade, é um passo essencial para romper com estruturas coloniais que historicamente marginalizaram esses saberes.
O conceito de “aquilombamento” emerge, portanto, como eixo central, possibilitando a construção de espaços de resistência epistêmica e o fortalecimento da identidade quilombola dentro da academia. Desse modo, a formação de enfermeiras e enfermeiros quilombolas não apenas prepara profissionais mais sensíveis e comprometidos com a justiça social, mas também consolida uma enfermagem alinhada à promoção da equidade e à efetiva redução das desigualdades raciais na saúde. A contracolonização é o movimento que colabora para romper com os processos engessados e historicamente excludentes na educação em enfermagem que não representam os diferentes signos e significados que emergem dos territórios.
À luz das DCNEFs, argumentamos que, embora o documento normativo de 2026 avance no plano principiológico, ele ainda apresenta limites ao enunciar a diversidade e a equidade em termos gerais, com baixa operacionalização curricular, ou seja, com a ausência de dispositivos antirracistas, pedagógicos territorializados, indicadores/critérios de avaliação e mecanismos institucionais de responsabilização. Nesse sentido, a “Mandala do Aquilombamento” contribui ao detalhar essas demandas, indo além da inclusão retórica e em direção a uma formação comprometida com a justiça social e o enfrentamento do racismo institucional.
O estudo se limita a refletir a partir de conceitos específicos, não podendo representar diferentes contextos acadêmicos. Recomenda-se que pesquisas futuras aprofundem a análise do impacto da formação de enfermeiros e enfermeiras quilombolas na transformação dos serviços de saúde, bem como estudem as experiências desses profissionais em diferentes contextos regionais e investiguem o papel das epistemologias quilombolas na construção de currículos de enfermagem mais inclusivos. Além disso, é necessário avaliar a efetividade de políticas públicas voltadas à valorização e à permanência de estudantes quilombolas no ensino superior.
AGRADECIMENTOS
Associação de Estudantes Quilombolas da Universidade Federal do Pará.
DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no artigo.
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FINANCIAMENTO
Não há.
REFERÊNCIAS
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Editado por
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EDITOR ASSOCIADO
Gerson Luiz Marinho https://orcid.org/0000-0002-2430-3896
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EDITOR CIENTÍFICO
Marcelle Miranda da Silva https://orcid.org/0000-0003-4872-7252




