Open-access Arco de Maguerez como guia para práticas extensionistas com pessoas idosas: relato de experiência

El Arco de Maguerez como guía para prácticas extensionistas con ancianos: un relato de experiencia

Resumo

Objetivo  descrever a experiência de alunos extensionistas na elaboração de um jornal construído junto a pessoas idosas.

Método  relato de experiência vinculado a um projeto de extensão universitária realizado com pessoas idosas usuárias de um Centro de Saúde Escola em acompanhamento em saúde mental que apresentavam dificuldades nas habilidades sociais. Utilizou-se o Arco de Maguerez como referencial metodológico, com quatro encontros entre julho e agosto de 2024, que culminaram na produção coletiva de um jornal.

Resultados  participaram dez pessoas idosas, que contribuíram com memórias e conteúdos afetivos. O processo incluiu uma sessão de autógrafos simbólica e a entrega de exemplares. A construção do jornal promoveu escuta ativa, expressão subjetiva, fortalecimento de vínculos e valorização da identidade.

Considerações finais e implicações para a prática  a experiência demonstrou potencial para promoção da saúde mental e formação crítica de estudantes. Essa atividade pode ser replicada em diferentes contextos, como estratégia de cuidado, inclusão e protagonismo social.

Palavras-chave:
Inclusão Social; Pessoa Idosa; Relações Comunidade-Instituição; Saúde Mental; Solidão

Abstract

Objective  to describe the experience of extension students in the development of a newspaper created together with older adults.

Method  this is an experience report linked to a university extension project conducted with older adults attending a Teaching Health Center who were undergoing mental health follow-up and presented difficulties in social skills. Maguerez’s Arch was used as the methodological framework, with four meetings held between July and August 2024, culminating in the collective production of a newspaper.

Results  ten older adults participated, contributing memories and affective content. The process included a symbolic autograph session and the delivery of printed copies. The construction of the newspaper promoted active listening, subjective expression, strengthening of bonds, and appreciation of identity.

Final considerations and implications for practice  the experience demonstrated potential for promoting mental health and the critical education of students. This activity may be replicated in different contexts as a strategy for care, inclusion, and social protagonism.

Keywords:
Aged; Community-Institutional Relations; Loneliness; Mental Health; Social Inclusion

Resumen

Objetivo  describir la experiencia de estudiantes extensionistas en la elaboración de un periódico construido conjuntamente con ancianos.

Método  relato de experiencia vinculado a un proyecto de extensión universitaria realizado con ancianos usuarios de un Centro de Salud Escuela en seguimiento de salud mental que presentaban dificultades en las habilidades sociales. Se utilizó el Arco de Maguerez como referencial metodológico, con cuatro encuentros entre julio y agosto de 2024, que culminaron en la producción colectiva de un periódico.

Resultados  participaron diez ancianos, que aportaron memorias, objetos afectivos, recetas, poemas y producciones artísticas. El proceso incluyó una sesión simbólica de autógrafos y la entrega de ejemplares. La construcción del periódico promovió la escucha activa, la expresión subjetiva, el fortalecimiento de vínculos y la valorización de la identidad.

Consideraciones finales e implicaciones para la práctica  la experiencia demostró potencial para la promoción de la salud mental y la formación crítica de los estudiantes. Esta actividad puede replicarse en diferentes contextos como estrategia de cuidado, inclusión y protagonismo social.

Palabras clave:
Anciano; Inclusión Social; Relaciones Comunidad-Institución; Salud Mental; Soledad

INTRODUÇÃO

A população mundial enfrenta um envelhecimento sem precedentes. Atualmente, mais de 1,4 bilhão de pessoas têm 60 anos ou mais, número que deve dobrar até 2050, atingindo cerca de 2,1 bilhões, com impacto especialmente acentuado nos países de renda baixa e média.1 No Brasil, entre 2010 e 2022, a população com 65 anos ou mais cresceu 57,4%. Já o contingente de pessoas com 60 anos ou mais atingiu 32,1 milhões, representando 15,8% da população brasileira.2

A saúde mental na terceira idade também exige atenção urgente. Globalmente, estudo recente aponta que aproximadamente 26,0% das pessoas idosas experienciam solidão, com variações regionais que podem alcançar 32,0% na América do Norte, 34,0% na África e 34,0% na América do Sul.3 Outro levantamento estima que 31,6% das pessoas idosas em domicílios comunitários relatam solidão significativa.4 A solidão crônica, que ocorre em cerca de 20,8% das pessoas idosas, foi associada a desfechos negativos, como depressão e maior risco de mortalidade.5

Diante desse cenário, ações de promoção da saúde mental e extensão universitária ganham relevância como estratégias eficazes. Iniciativas que aproximam pessoas idosas e comunidades acadêmicas, estimulando protagonismo, troca afetiva e escuta ativa, podem fortalecer vínculos sociais, ressignificar identidades e reduzir sentimentos de isolamento.6,7

Nesse contexto, o presente relato de experiência apresenta o projeto TECER, que mobiliza estudantes e pessoas idosas na produção de um jornal coletivo guiado pelo Arco de Maguerez. Este relato pretende descrever como essa intervenção extensionista pode promover saúde mental, emancipação, autoestima, pertencimento social e protagonismo, articulando ensino e cuidado comunitário em um processo transformador que fortalece as relações entre comunidade e instituição. Com isso, o objetivo do presente estudo é descrever a experiência na elaboração de um jornal construído junto a pessoas idosas.

MÉTODO

Trata-se de relato de experiência vinculado a projetos de extensão universitária intitulados “Grupo Cotidiano: Produzindo Vida Através da Atividade Humana” e “TECER: Cuidando da saúde mental de pessoas com 60 + a partir do território”, desenvolvidos desde junho de 2023 em uma universidade pública do interior do estado de São Paulo. Esses projetos estão alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, em especial aos ODS 3 (Saúde e Bem-Estar), ODS 4 (Educação de Qualidade) e ODS 10 (Redução das Desigualdades),8 ao promover saúde equitativa, educação em saúde e inclusão de populações vulneráveis nos processos de cuidado.

As atividades foram realizadas em um Centro de Saúde Escola (CSE) vinculado à instituição, com participação de pessoas idosas atendidas nos serviços de saúde mental.

O projeto, denominado TECER (acrônimo de Terapêutico, Emancipação, Cuidado, Escuta, Reconstrução e Reabilitação), propôs a construção coletiva de um jornal como estratégia para o fortalecimento dos vínculos sociais, a expressão de saberes e a valorização da identidade das pessoas idosas. O nome também remete ao ato de “tecer” afetos, histórias e experiências.

A equipe foi composta por dois docentes (graduação e pós-graduação em enfermagem), uma doutoranda, quatro residentes multiprofissionais em saúde mental e oito discentes bolsistas dos cursos de enfermagem e medicina. Os participantes do grupo TECER são compostos majoritariamente por pessoas idosas (≥60 anos), que foram selecionados a partir dos atendimentos realizados pela equipe de residentes em saúde mental no CSE. Durante esses acompanhamentos, foram identificadas dificuldades nas habilidades sociais de algumas pessoas idosas que, então, foram convidadas a integrar o grupo TECER. Excepcionalmente, incluiu-se um participante de 55 anos por atender aos critérios clínicos e psicossociais do grupo, especialmente no que se refere à baixa habilidade social e à proximidade com a faixa etária proposta. Todos os integrantes do grupo TECER, em andamento desde 2023, foram convidados a participar das atividades de elaboração do jornal. Foram excluídos aqueles que não estiveram presentes nos encontros referentes às etapas apresentadas ou que não autorizaram o uso científico dos materiais por meio do Registro de Consentimento Livre e Esclarecido (RCLE).

As informações produzidas ao longo dos encontros foram registradas por meio do que denominamos de “memórias”, com descrições das atividades realizadas ao final de cada encontro por um discente bolsista previamente designado para essa função.

As produções textuais e artísticas desenvolvidas pelos participantes foram digitalizadas e arquivadas em ambiente institucional seguro (drive restrito ao grupo do projeto), garantindo organização e preservação do material. Os registros fotográficos foram realizados exclusivamente para fins de documentação e divulgação institucional e científica, mediante autorização expressa prevista no RCLE.

Para preservação do anonimato, houve a realização de cortes, edições ou desfocagem nas imagens utilizadas, de modo a impedir qualquer forma de identificação do participante. Nos casos em que houve autorização para uso de imagem com identificação, esta foi previamente acordada e registrada formalmente.

Como referencial metodológico, utilizou-se o Arco de Maguerez9 por sua abordagem dialógica e emancipatória. O processo seguiu as cinco etapas propostas: 1) Observação da realidade: mapeamento do cotidiano, desafios, relações e interesses das pessoas idosas; 2) Pontos-chave: a solidão foi identificada como problemática central; 3) Teorização: aprofundamento do conceito de solidão no envelhecimento, com suporte teórico e interlocução com profissionais de saúde; 4) Hipóteses de solução: proposição de ação concreta para promoção de vínculos e criação de um jornal coletivo; 5) Aplicação à realidade: elaboração e publicação do jornal com a participação ativa das pessoas idosas.

As quatro primeiras etapas foram realizadas anteriormente, sendo a etapa 1 (Observação da realidade) detalhada em artigo específico.10 No presente relato, apresentamos a etapa 5, que correspondeu à aplicação prática da proposta. Essa fase se concretizou em quatro encontros realizados às sextas-feiras à tarde, entre julho e agosto de 2024, organizados em uma programação previamente estruturada.

No primeiro encontro, as pessoas idosas foram recepcionadas e acomodadas em cadeiras. Em seguida, houve a apresentação do projeto de construção coletiva de um jornal. Em roda de conversa, os alunos explicaram os objetivos da atividade e acolheram as ideias iniciais dos participantes. As pessoas idosas, então, apresentaram a ideia de trazer materiais e histórias que gostariam de ver publicados.

No segundo encontro, as pessoas idosas trouxeram os itens que gostariam de ver publicados no jornal, como fotografias antigas da cidade, poemas autorais, pinturas, receitas de família, brinquedos de infância e artesanatos feitos com palha e tecido. Eles também participaram de oficinas de pintura, desenho e colagem, com o apoio da equipe para transformar suas ideias em material gráfico. Além disso, foram realizadas transcrições de receitas e relatos orais compartilhados pelos participantes.

O terceiro encontro foi dedicado à organização dos conteúdos, à revisão textual e à finalização das atividades artísticas que integrariam o jornal. Nesse dia, também foi realizada uma sessão de fotos, destinada à composição de uma página com as biografias dos autores participantes.

O quarto e último encontro foi marcado pelo lançamento oficial do jornal. A celebração contou com uma sessão simbólica de autógrafos, a entrega dos exemplares impressos e um café coletivo.

O presente relato foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu e aprovado (Parecer nº 8.181.554). Todos os participantes assinaram o RCLE, que incluía autorização para uso de imagem e para divulgação de produções autorais desenvolvidas durante as atividades. As atividades foram conduzidas conforme os princípios éticos da extensão universitária, assegurando a autonomia, a privacidade, a confidencialidade e a dignidade dos participantes, conforme a Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.

RESULTADOS

Participaram da construção do jornal um total de dez participantes, com idades entre 55 e 76 anos, frequentadores do CSE. A elaboração do jornal ocorreu ao longo de quatro encontros semanais, com duração aproximada de duas horas cada. A seguir, segue a descrição de cada encontro, acompanhada de registros fotográficos.

Encontro 1 – Apresentação da proposta

O primeiro encontro foi dedicado à apresentação do projeto de construção coletiva de um jornal — iniciativa que despertou entusiasmo imediato entre os participantes. Desde a chegada, foram acolhidos com música, uma tradição que se repete em todos os encontros, com repertório escolhido por eles próprios e, em alguns casos, acompanhado por instrumentos trazidos de casa. Esse momento musical, mais do que uma recepção afetuosa, cumpriu um papel importante na criação de um ambiente de escuta, pertencimento e expressão individual.

Organizadas em roda de conversa, as pessoas idosas foram convidadas a conhecer os objetivos da proposta, apresentada pelos alunos com ênfase no caráter participativo da atividade. O jornal seria não apenas um produto, mas uma construção afetiva ancorada nas memórias, nas vivências e nos talentos de cada um.

Durante a conversa, os participantes compartilharam ideias iniciais e demonstraram grande interesse na possibilidade de “deixar algo registrado” — uma fala recorrente que traduzia o desejo de se verem representados e de eternizar fragmentos de suas histórias, saberes e sentimentos em um material palpável. Esse movimento inaugural foi fundamental para fortalecer os laços do grupo e alinhar expectativas em torno de um projeto coletivo que valorizava a memória, a autoria e o protagonismo das pessoas idosas.

Encontro 2 – Compartilhamento de memórias e objetos afetivos

O segundo encontro foi marcado por um momento de valorização das histórias de vida dos participantes. As pessoas idosas trouxeram objetos, materiais e relatos que gostariam de ver publicados no jornal, e responderam com entusiasmo, contribuindo com uma rica diversidade de conteúdo. Entre os itens compartilhados, estavam fotografias antigas da cidade, poemas autorais, pinturas, receitas de família, brinquedos da infância e delicados trabalhos artesanais feitos com palha e tecido — cada um carregado de memórias, significados e afetos. Em paralelo, as pessoas idosas participaram de oficinas de pintura, desenho e colagem, com o apoio dos estudantes, que os apoiaram na transposição das ideias para o formato gráfico que comporia o jornal. Além disso, foram realizadas transcrições de receitas e de histórias contadas oralmente pelos próprios participantes, preservando o modo particular com que cada um expressava suas lembranças. Ao transformar memórias em linguagem visual e textual, o grupo iniciou a materialização do jornal como um registro afetivo coletivo (Figura 1).

Figura 1
Brinquedos afetivos da infância, oficina de pintura e receita escrita pela participante. Botucatu, São Paulo, Brasil, 2024.

Encontro 3 – Oficinas de arte e construção coletiva

O terceiro encontro marcou uma etapa essencial na construção do jornal: a organização dos conteúdos, a revisão textual e a finalização das produções artísticas. Nesse momento, as contribuições dos encontros anteriores começaram a ganhar forma no layout do jornal, reforçando o caráter coletivo e autoral da iniciativa.

Com apoio dos estudantes, as pessoas idosas revisaram os textos, as receitas, os poemas e os relatos, respeitando suas formas originais de expressão, mas também ajustando pequenos detalhes para a publicação final. Da mesma forma, os materiais gráficos oriundos das oficinas de pintura, desenho e colagem passaram pelos últimos ajustes para compor as páginas de forma harmônica.

Um dos momentos mais significativos do encontro foi a realização de uma sessão de fotos especialmente dedicada à construção de uma página com as biografias dos autores. Cada participante foi fotografado individualmente em um clima descontraído e respeitoso, reforçando o reconhecimento de sua identidade como sujeito criador. Essa valorização da imagem e da história pessoal contribuiu para o fortalecimento do vínculo com o projeto, ampliando o sentimento de pertencimento e orgulho em ver sua trajetória representada no jornal.

Encontro 4 – Lançamento do jornal

O quarto e último encontro foi dedicado ao tão esperado lançamento do jornal, momento de celebração do percurso vivido, das memórias compartilhadas e das criações construídas ao longo do projeto. A ocasião foi cuidadosamente organizada para valorizar os participantes e dar visibilidade ao protagonismo das pessoas idosas na construção do material.

A festividade contou com a tradicional roda de música, em um clima de alegria e pertencimento. Um dos participantes levou seu acordeão, e juntos entoaram canções que marcaram suas infâncias, reacendendo lembranças e promovendo uma vivência coletiva repleta de afeto e emoção. A sessão simbólica de autógrafos trouxe um toque de solenidade e orgulho: com seus jornais em mãos, as pessoas idosas puderam assinar os exemplares e levá-los como lembrança.

A entrega dos exemplares impressos foi um momento especialmente emocionante, pois representou a materialização do esforço, das histórias e da criatividade de cada um. A equipe de imprensa da instituição foi convidada e acompanhou o evento, registrando os depoimentos e as imagens que compuseram a cobertura oficial. Amigos e familiares convidados pelos próprios participantes também estiveram presentes, fortalecendo os laços e reconhecendo publicamente o valor do trabalho realizado.

Ao final, todos se reuniram para um coffee break coletivo, encerrando o ciclo com confraternização, trocas afetuosas e o sentimento de missão cumprida. O jornal, mais do que um produto gráfico, tornou-se um símbolo de expressão, emancipação, identidade e memória, construído de forma coletiva, com escuta, criatividade e cuidado (Figura 2).

Figura 2
Lançamento do jornal. Botucatu, São Paulo, Brasil, 2024.

Esse momento reforçou o sentimento de pertencimento, reconhecimento e autoestima dos participantes, como evidenciado pelas expressões de orgulho e gratidão registradas em imagens.

DISCUSSÃO

A experiência evidenciou o potencial de projetos extensionistas, fundamentados na metodologia do Arco de Maguerez, como estratégia participativa para a promoção da saúde mental de pessoas idosas através da elaboração de um jornal. A construção coletiva do jornal possibilitou o fortalecimento de vínculos afetivos e a valorização das histórias de vida, cumprindo metas relacionadas à autoestima, ao pertencimento social e ao enfrentando da solidão.

A solidão entre as pessoas idosas é um fenômeno reconhecido na literatura como fator de risco para depressão, declínio cognitivo e maior mortalidade. Estudos evidenciam que pessoas idosas que relataram solidão tiveram probabilidade significativamente maior de apresentar sintomas depressivos e baixa qualidade de vida.11,12 No Brasil, dados do ELSI‑Brazil apontam prevalência elevada de solidão, associada a fatores como viver sozinho, baixa escolaridade, pior percepção da saúde e sintomas depressivos.13,14 O contexto da pandemia intensificou esse quadro, revelando que a depressão foi o principal preditor de solidão em pessoas idosas.14

No âmbito das políticas públicas, a Lei Federal n° 10.741/2003, que trata do Estatuto da Pessoa Idosa15 e da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa,16 assegura à pessoa idosa o direito à saúde, à participação na comunidade e à dignidade. A Política Nacional de Saúde Mental (Lei nº 10.216/2001)17 institui a Rede de Atenção Psicossocial,18 com o objetivo de promover o respeito aos direitos humanos e a inclusão social de pessoas com transtornos mentais. A extensão universitária se insere como estratégia capaz de reforçar essas políticas ao gerar espaços de escuta, criatividade, afetividade e protagonismo, ampliando as relações entre comunidade e instituição e promovendo impactos sociais duradouros.19

Além de dialogar com as políticas públicas, a experiência também se insere na tradição da educação popular ao valorizar o protagonismo das pessoas idosas na construção de saberes e práticas coletivas. A Educação Popular em Saúde (EPS), inspirada nos princípios da educação popular desenvolvidos por Paulo Freire a partir da década de 1960, consolidou-se como uma abordagem pedagógica voltada para atuar junto à população, e não apenas para ela.20,21 Essa perspectiva busca ampliar a autonomia dos sujeitos por meio de processos participativos, reconhecendo e legitimando seus saberes cotidianos e experiências de vida. A EPS enfatiza a horizontalidade nas relações entre profissionais de saúde e comunidade, favorecendo práticas dialógicas que fortalecem movimentos sociais e promovem transformação coletiva. Trata-se, portanto, de um processo político-pedagógico que contribui para a emancipação individual e comunitária.20-22

Nesse sentido, a metodologia do Arco de Maguerez se aproxima da perspectiva freireana de problematização da realidade, fortalecendo os vínculos comunitários e ampliando a consciência crítica.22,23. Além disso, ao se inscrever no campo da extensão universitária, o projeto reafirma a função social da universidade como espaço de transformação, articulando ensino, pesquisa e prática social.24 Essa articulação é particularmente relevante no contexto do envelhecimento, entendido não apenas como processo biológico, mas como experiência social que demanda reconhecimento, participação e valorização das histórias de vida. Assim, iniciativas como esta contribuem para o envelhecimento ativo e para a promoção da saúde mental, ao mesmo tempo em que formam estudantes em uma perspectiva crítica e cidadã.25

O uso do Arco de Maguerez como metodologia ativa neste projeto se alinha às experiências educacionais anteriores com pessoas idosas e profissionais que trabalham no cuidado a esse público.26,27 Em nosso estudo, o Arco de Maguerez como metodologia se mostrou eficaz para estimular participação ativa, resgatar memórias e estimular o protagonismo nas pessoas idosas. Além disso, o ritual do lançamento do jornal e a produção editorial atuaram como momentos simbólicos de visibilidade e reconhecimento comunitário. Estender essas práticas em outros contextos pode intensificar os efeitos positivos observados.

O envolvimento de estudantes de graduação e pós-graduação em todas as etapas do projeto, desde o planejamento até a produção final do jornal, fortaleceu a formação crítica e cidadã, aproximando ensino, pesquisa e prática social. Esse protagonismo discente é coerente com os princípios da extensão universitária como dimensão formativa, conforme reconhecido pelo Plano Nacional de Educação e pela Política Nacional de Extensão.28

Portanto, o relato aqui apresentado mostra que projetos de extensão com pessoas idosas, quando fundamentados em metodologias participativas, podem promover saúde mental, reconstruir vínculos comunitários e formar estudantes comprometidos com o cuidado integral. Tais iniciativas respondem, de maneira concreta, às diretrizes das políticas públicas voltadas ao envelhecimento, destacando a universidade como espaço privilegiado de transformação social.

Os resultados obtidos evidenciam que a construção coletiva de um jornal junto a pessoas idosas, mediada por extensionistas, favorece o fortalecimento de vínculos, a valorização da memória e o protagonismo social. Essa experiência reforça o potencial das ações extensionistas como estratégias de cuidado em saúde mental, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Ainda que o relato não tenha utilizado instrumentos avaliativos padronizados, os indicadores subjetivos observados, como expressão afetiva e continuidade espontânea das atividades, apontam para impactos positivos que merecem ser explorados em estudos futuros com metodologias mais robustas.

CONCLUSÃO E IMPLICAÇÕES PARA A PRÁTICA

A experiência demonstrou que um projeto de extensão universitária com pessoas idosas, organizado sob a metodologia do Arco de Maguerez e centrado na produção de um jornal coletivo, é uma intervenção promissora para promoção da saúde mental, fortalecimento de vínculos sociais, pertencimento e valorização da identidade pessoal de pessoas idosas.

Como limitação, por tratar-se de relato de experiência, a proposta não utilizou métodos sistemáticos de avaliação, o que limita a generalização dos resultados. Além disso, a intervenção foi localizada em dois serviços específicos. Quanto à operacionalização dos encontros (tempo, ritmo e mediação), destaca-se que a condução participativa, orientada pelo ritmo do grupo, não se configurou como limitação, mas como elemento estruturante da proposta. Porém, tal característica pode demandar maior flexibilidade na replicação em contextos com diferentes condições institucionais. No entanto, sua estrutura participativa e adaptável permite replicação em diferentes contextos, especialmente onde se identifiquem indicadores de solidão e sofrimento psíquico entre pessoas idosas.

Portanto, a continuidade e a expansão de projetos similares são recomendadas, como dispositivos de cuidado em saúde mental e formação crítica em saúde. Atualmente, estão em andamento estudos avaliativos que utilizam escalas psicométricas e entrevistas semiestruturadas com os participantes para mensurar de forma mais sistemática os impactos do projeto TECER.

Este relato possibilita levantar reflexões sobre a solidão em pessoas idosas e aponta caminhos sensíveis e criativos para promover o pertencimento social por meio de práticas participativas na comunidade, além de contribuir para a formação de estudantes em uma perspectiva crítica, afetiva e transformadora.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos às pessoas idosas participantes, aos estudantes e às instituições parceiras do projeto TECER, cuja confiança e colaboração tornaram esta experiência possível.

DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA

Os dados da pesquisa, incluindo o acesso ao jornal em sua versão completa, estão disponíveis no seguinte endereço eletrônico: https://www.fmb.unesp.br/#!/noticias/v/id::3477/jornal-do-projeto-tecer-lanca-seu-primeiro-exemplar/

  • FINANCIAMENTO
    O presente relato recebeu auxílio financeiro por meio do Edital PROEC 01/2023 - Vamos Transformar o Mundo e Edital PROEC 04/2024 - Vamos transformar o mundo - 2ª edição, da Pró-Reitoria de Extensão Universitária e Cultura – PROEC – Botucatu, São Paulo, Brasil.
    O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001 (Fabiana Tomé Ramos é financiada pela CAPES, Portaria nº 206, de 4 de setembro de 2018, com bolsa de doutorado).

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    04 Mar 2026
  • Aceito
    11 Maio 2026
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