Open-access DO LUGAR DAS CIÊNCIAS HUMANAS NA EDUCAÇÃO FÍSICA AOS LUGARES DO CORPO NO CONTEMPORÂNEO: ENTRE SER E TER1

DEL LUGAR DE LAS CIENCIAS HUMANAS EN LA EDUCACIÓN FISICA A LOS LUGARES DEL CUERPO EN EL MUNDO CONTEMPORÁNEO: ENTRE EL SER Y TENER

RESUMO:

Pretendo esboçar, nestas reflexões, uma relação entre o lugar das Ciências Humanas na formação de professores de Educação Física no Brasil e algumas impressões sobre corpos e subjetividades no contemporâneo. No primeiro momento, faço uma observação de caráter histórico e epistemológico, constituindo intepretações e sentidos entre situações do presente, ocorrências do passado e alguns elementos estruturais, para compreensão e localização das ciências na realidade social, especificamente, da Educação Física brasileira. No segundo, apresento algumas formulações a partir das minhas pesquisas e estudos nos últimos anos, sobretudo, detendo-me em um problema que indico como a questão entre ser e ter um corpo. Neste momento, recorro especialmente a psicanálise de orientação lacaniana. O aspecto ensaístico e, de certa maneira, provisório de algumas ideias e articulações do texto reflete uma filiação formal ou ao menos uma consideração por lições e noções importantes de Theodor W. Adorno, como a compreensão do que seja a filosofia e o pensamento.

Palavras-chave:
educação física; ciências humanas; corpo

ABSTRACT:

In these reflections, I intend to draw a relationship between the place of Human Science in the education of Physical Education teachers in Brazil and some impressions about the bodies and subjectivities in contemporary times. First, I outline historical and epistemological observations that establish interpretations and meanings among present situations, past events, and some structural elements to understand the place of sciences in social reality, particularly in Brazilian Physical Education. Secondly, I present some formulations based on my previous studies, focusing on the questions of being and having a body, drawing mostly on Lacanian psychoanalysis. The essayistic and, somewhat, provisional aspect of some ideas and articulations in the text reflects a formal affiliation or, at least, a regard for Theodor W. Adorno’s important lessons and notions, such as the understanding of what philosophy and thought are.

Keywords:
physical education; human sciences; body

RESUMEN:

Pretendo esbozar, en estas reflexiones, una relación entre el lugar de las Ciencias Humanas en la formación de profesores de Educación Física en Brasil y algunas impresiones sobre cuerpo y subjetividades en el contemporáneo. En un primer momento, hago una observación de carácter histórico y epistemológico, constituyendo interpretaciones y sentidos entre situaciones del presente, hechos pasados y algunos elementos estructurales, para comprensión y ubicación de las ciencias en la realidad social, específicamente, de la Educación Física brasileña. En el segundo, presento algunas formulaciones basadas en mis investigaciones y estudios de los últimos años, sobre todo, centrándome especialmente en un problema que señalo como la cuestión entre ser y tener un cuerpo. En este momento recurro especialmente al psicoanálisis de orientación lacaniana. El aspecto ensayístico y, en cierto modo, provisional de algunas ideas y articulaciones del texto, refleja una filiación formal o al menos una consideración por lecciones y nociones importantes de Theodor. W. Adorno, como la comprensión de lo que es la filosofía y el pensamiento.

Palabras clave:
educación física; ciencias humanas; cuerpo

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento pedagógico de viés crítico com toda a sua pluralidade de posições marcou uma nova era para a Educação Física - EF escolar brasileira a partir do final dos anos de 1980, confirmada pela proliferação de estudos, pela presença bibliográfica em concursos, pela reconfiguração de matrizes curriculares na formação inicial e progressivamente nos cursos de pós-graduação.

De fato, a EF brasileira, pensada como área complexa de formações, pesquisas, atuações e intervenções mais ou menos pedagógicas em torno do corpo e suas práticas, por meio de diferentes referenciais epistêmicos, técnicas e tecnologias, produziu para si uma ampliação acadêmica e científica extremamente rica e oportuna. Ocorreu, efetivamente, nessa ampliação, que as Ciências Humanas - CH na EF brasileira acabaram por ocupar um “espaço vazio” que, naturalmente, não poderia ser preenchido pelas ciências do treinamento ou pela fisiologia do exercício, ou mesmo por formulações filosóficas, históricas e pedagógicas anteriores, em função da natureza dos problemas e desafios que, cedo ou tarde, como questões propriamente humanas no âmbito da educação, apareceriam com seu recorte específico para o espaço da EF.

Assim, a EF brasileira pôde efetivamente lidar de forma crítica e talvez mais aprofundada com problemas pedagógicos e didáticos (KUNZ, 2004), históricos (SOARES, 2001; LINHALES, 2009), sociológicos (BETTI 1998; BRACHT 2005), antropológicos (DAOLIO 1995; 2004), dentre tantas produções dessa(es) autoras(es) e de outras(os).

A presença mais substancial das CH no espaço acadêmico e pedagógico da EF ampliou de maneira considerável as percepções e entendimentos sobre o corpo e suas práticas. De certa forma, tem convocado a EF e seus partícipes aos debates e ações mais atuais sobre as corporalidades de indivíduos e grupos sociais na condição de sujeitos políticos e seus corpos.

Neste artigo2, reflito, em um primeiro momento, acerca da presença das CH no campo da EF brasileira com observações predominantemente epistêmicas. Em um segundo momento, abordo questões relativas ao corpo na contemporaneidade, especialmente o que denominei outrora do problema entre ser e ter um corpo. Para tanto, recorro especialmente a algumas ideais do filósofo Theodor W. Adorno e, também, a teoria psicanalítica de orientação lacaniana.

EDUCAÇÃO FÍSICA E AS CIÊNCIAS (HUMANAS)

Dentro da realidade social efetiva da EF, encontramos disputas às vezes mais, às vezes menos institucionalizadas, pela hegemonia de narrativas, interpretações, produções e atuações. Embates produziram - e acredito que ainda produzem - em muitos casos, equívocos de compreensão no âmbito epistêmico/prático, como a desconsideração e ou desconhecimento de determinado problema, por se ter como referência e privilegiar na formação, de fato, apenas um campo teórico específico. Pense-se na dificuldade de reconhecimento de questões éticas, políticas ou sociais nas diversas práticas de professoras(es) de EF; em certa incapacidade de aprofundamento reflexivo e interpretações mais razoáveis justamente em função da ausência de estudos e referências que instrumentalizem melhor professoras(es) para esse reconhecimento, notadamente, referências do campo das CH, mesmo que haja para alguns temas, abordagens multidisciplinares que possam considerar, por exemplo, para reflexões sobre ética, pesquisas em biologia, neurociências ou genética.

Situações desta natureza, por vezes, parecem advir de noções superficiais ou pouco refletidas acerca do que sejam as verdades que habitam a prática e o conhecimento científico em suas relações com as realidades sociais em vários níveis; pois as diferenças e ou dificuldades de compreensão científica não revelam somente problemas técnicos e didáticos específicos, mas também se articulam quase sempre com posicionamentos políticos e éticos. Separar rigidamente epistemologia e política parece tão suspeito quanto é ingênuo não conseguir demarcar com alguma precisão as diferenças e características próprias de cada domínio. O conhecimento não pode figurar no espaço social, na concretude das relações cotidianas, totalmente abstraído da esfera da normatividade, da moral e da política. Imaginemos, como exemplo, que uma série de teorizações e saberes sobre o ganho de massa muscular (por tanto, dentro de um domínio multidisciplinar que envolve a fisiologia, a nutrição, a biomecânica, etc.), desenvolvidos e aplicados ao longo do tempo consideraram, em diferentes circunstâncias, as concepções e determinações que regiam as corporalidades de mulheres, homens, crianças e idosos, ou seja, um universo normativo implícito ou explícito. Estamos diante, em termos mais esquemáticos, da viabilidade e aplicação de conhecimentos no campo das Ciências da Natureza - CN, na medida em que esses se conformam a um determinado status quo normativo em cada lugar e tempo histórico-cultural. Ao mesmo tempo, há um léxico específico, que, dentro deste exemplo, pode pertencer à História, à Psicologia, à Sociologia e que interpreta e, em alguma medida, explica as concepções e determinações das corporalidades mencionadas, formando um corpus teórico, que pode ou não sofrer influências do domínio multidisciplinar utilizado para transformar o organismo. Portanto, existem os conhecimentos das CN que “se submetem” a um determinado contexto normativo no momento de sua efetividade e, ao mesmo tempo, existem conceitos e teorizações que amparam, por assim dizer, a prevalência no tempo e espaço do referido contexto normativo e que não pertencem, nas suas filiações epistêmicas, às CN, mas sim às CH3. O que pretendo dizer, explorando ainda o exemplo escolhido, é que independente do percurso de descobertas e formulações sobre como o ganho de massa muscular poderia ser benéfico à saúde humana, houve sempre uma série de discussões que atrelavam os corpos aos gêneros, no plano ontológico (o que é ser homem ou mulher), no plano estético (o que é belo ou feio e qual a sensibilidade convém a cada gênero), e assim por diante. Entretanto, como sabemos, este percurso em paralelo das formulações em CN e CH quase sempre se entrecruzaram e se entrecruzam, com mais ou menos consciência, também no tempo presente.

Outra situação epistemológica na EF que merece atenção pode ser caracterizada em termos da relação entre teoria e prática (BRACHT, CAPARROZ, 2007). No caso, é bastante comum hoje em dia (e nisso a EF não está sozinha, pois não é exagero perceber o mesmo espírito na educação e formação em geral) uma forte inclinação à instrumentalização e uma crença na aplicabilidade total do conhecimento dentro da prática profissional. O problema da efetividade de uma teoria na realidade ou uma perspectiva em que a verdade de uma teoria ou orientação pedagógica se verificaria pela positividade da resposta obtida ou pelo alinhamento da resposta ao que se tenha proposto e esperado previamente - a verdade como sinônimo de utilidade, de correspondência entre teoria e realidade empírica, conceito e objeto, pode indicar algum desconhecimento de especificidades dos objetos didáticos ou de pesquisa com os quais lidamos, ou ainda, uma ignorância acerca do espaço de indeterminação entre teoria e prática, cuja impossibilidade de identidade completa entre ambas não inviabiliza o conhecimento daquilo que se pretende conhecer, mas, sim, exige a reconfiguração desidealizada e eticamente diferente da interpretação e da ação.

Com isso, não viso a um tipo de “purismo no pensamento”, relativo aos objetos pensados, mas às peculiaridades próprias aos objetos, suas diferenças determinantes para a invenção de áreas distintas como respostas às necessidades que se impõem ao desejo de conhecer e saber sobre algo. Se, por um lado, as diferenças entre as coisas no mundo resistem, até certo ponto, a movimentos unificadores, seja de pensamentos ou de métodos, por outro, não está sugerido uma separação total de identidades e princípios no que concerne às formas de intepretação e intervenção. Não se pode, ainda, desconsiderar o risco de construirmos imaginariamente, a partir de um mosaico de disciplinas distintas, uma visão totalizadora e idealizada para uma área como a EF, como se uma suposta harmonia das especialidades pudesse resolver o fluxo incessante de problemas concretos e, por vezes singulares, que desafiam cotidianamente a prática de professores e professoras. Penso que compreender e demarcar corretamente as diferenças e âmbitos epistemológicos na pesquisa em EF pode contribuir para modular possíveis excessos nas tensões entre posições ideológicas na atuação profissional.

Assim, aquele “espaço vazio” de significação e de normatividade, de que falava, atualizou a constante dinâmica de retroalimentação entre indivíduo e sociedade, ou seja, entre instituições e o todo social, entre uma dada prática e seus contextos. Lembremos que nos primórdios dos métodos ginásticos, a ciência que os fundamentava era socialmente incorporada em uma intricada relação entre o discurso moral-pedagógico e o médico-pedagógico (BRACHT 1999; SOARES 2001). Não se tratava apenas de uma idiossincrasia da EF, mas da condição histórica da relação entre o conhecimento científico e as realidades sociais. Por exemplo, o conteúdo científico da chamada scientia sexualis, nos termos de Michel Foucault, contemporânea da ginástica científica, também navegava por um discurso situado além de seus conhecimentos teóricos e práticos possíveis para o século XIX.

Quando se comparam tais discursos sobre a sexualidade humana com o nível, na mesma época, da fisiologia da reprodução animal ou vegetal, a defasagem é surpreendente. Seu fraco teor, e nem mesmo falo de cientificidade, mas de racionalidade elementar, coloca-nos à parte na história dos conhecimentos. (FOUCAULT, 1988, p.54)

Foi o destino até aqui de algumas áreas das ciências modernas no Ocidente funcionar socialmente, às vezes mais como discurso normativo do que propriamente como prática fundamentada. Igualmente parte desse destino foi o desenvolvimento assimétrico na comparação entre as áreas, mesmo aquelas posteriormente agrupadas, seja como CN ou CH e sociais e, ainda, mesmo dentro de um segmento específico, como a Medicina. Vejamos o que o Psiquiatra e Psicanalista Sérgio de Campos comenta a respeito:

No início do século XX, porém, enquanto a medicina concluía seu ingresso na era científica em sólidas bases biológicas, o mesmo não ocorria com a psiquiatria (BERCHERIE, 1989). Sua inserção no método anatomoclínico era discreta. E, dada à natureza de seu objeto, a medicina (sic) se constituiu como disciplina híbrida (ALONSO-FERNÁNDEZ, 1979, P.12) reunindo, de um lado, subsídios da medicina e, de outro, conforme a escola, contribuições da fenomenologia husserliana, do existencialismo heideggeriano ou da psicanálise freudiana, contribuições destinadas ao estudo da subjetividade dos pacientes. (CAMPOS, 2013, p.76)

Esta assimetria entre o desenvolvimento acadêmico-científico das ciências e mesmo entre subáreas dentro de um campo maior tem seguramente relação com a natureza dos objetos de cada disciplina científica. Os objetos e suas especificidades materiais, históricas e sociais determinam, em tese, o percurso igualmente histórico e também cultural de seus conceitos, métodos e teorias correlacionadas em suas inserções sociais. Pensando com Adorno, os objetos devem ter primazia no processo de produção de conhecimento, já que, por princípio, constituem o telos da atividade científica. Busca-se, ao final de cada investigação, estudo, pesquisa, um saber novo sobre o objeto em questão. Sobretudo para a Sociologia, mas não somente, “O decisivo é não dispor o método de modo absoluto em oposição ao seu assunto, mas sim situá-lo em relação viva com esse objeto e desenvolvê-lo tanto quanto possível a partir desse objeto”. (ADORNO, 2008, p.184). De alguma maneira, há aqui um resquício de saber aristotélico, se pensarmos a diferença entre meios e fins no contexto prático das ciências. Diferença que, na condição da universalidade destes conceitos (meios e fins), exigiria irrevogavelmente, em cada situação particular de pesquisa, uma simbiose em que a preponderância ética dos fins não autoriza para cada fim determinado qualquer meio, mas, ao contrário, um procedimento de intimidade entre eles, tornando-os mimeticamente próximos. Assim, pode-se dizer que a posição ética e gnosiológica específica dos fins desautoriza inversões de lugar irrefletidas e excessos na relativização e comparação de importâncias atribuídas aos meios e aos fins. (HORKHEIMER, 2004).

A ampliação e a diversificação crescentes das ciências impõem ao pensamento, além da observação crítica e eticamente engajada, a necessidade de uma atenção detalhista no nível das estruturas de funcionamento, para que também se possa apreender as especificidades, internas e externas de seus saberes e práticas, quando avaliados em suas inserções sociais.

No caso de uma parte da história epistemológica da EF, a proliferação de novos objetos, questões e problemas colocou limites às visões naturalistas e moralistas na área. Isso não quer dizer que os limites a que me refiro sejam amplamente reconhecidos e compreendidos. Ao contrário, disputas no campo ético-moral e ideológico, incluindo evidentemente questões de mercado, são decisivas na conformação dos discursos científicos.

A reconsideração crítica das bases biológicas fez-se necessária e só poderia acontecer através de disciplinas que constituíram suas especificidades justamente em outra esfera de interpretação. Essa reconsideração passou, e ainda passa, por reconfigurações de objetos, problemas e teorias e, não obstante, faz parte, ou ao menos deveria fazer, de toda área de conhecimento que se esforça em produzir um debate contínuo e reflexivo com a realidade e o espírito do tempo em que se encontra. Ao mesmo tempo, tendo como referência o conhecimento científico e sua produção, no que concerne às relações entre EF e sociedade, encontramos na área a contínua reatualização dos discursos, conforme tendências sociais maiores ou externas e talvez isso fique mais evidente no registro das ciências duras ou laboratoriais, como o interesse crescente nas neurociências. Do ponto de vista da formação inicial, creio que essa tendência se expressou também com a divisão de entradas na graduação e com o aumento da procura pelo bacharelado, sem desconsiderar, evidentemente, os problemas inerentes ao campo das licenciaturas em geral e que neste espaço não é possível aprofundar. Assim, em parte, o crescimento dos bacharelados remete tanto à histórica vinculação da EF ao discurso médico-pedagógico quanto, mais recentemente, à força do avanço científico sobre o organismo e suas funções. Sabe-se, por vivência acadêmica de muitas(os), que há, em boa parte do campo da EF e dos esportes, um desprezo reatualizado do conhecimento vinculado às CH, talvez maior do que um esforço de reconhecimento epistemológico do lugar na realidade social desse conhecimento e dos saberes a ele relacionados.

Considerando, portanto, as condições (de tensão) das CH no campo da EF brasileira, tratarei, a partir de agora, de refletir um pouco sobre o corpo e suas vicissitudes contemporâneas.

EDUCAÇÃO FÍSICA, CORPO, SER E TER

O corpo e suas práticas como temas centrais para EF impuseram à história epistemológica dessa área, juntamente com seu caráter pedagógico constitutivo, que ela se desenvolvesse em um progressivo tensionamento multidisciplinar entre CN e CH e sociais, a despeito da atual complexidade, força tecnológica e política do campo da CN e laboratoriais. Isso relaciona-se ao fato de que o conceito de corpo e as experiências às quais ele se refere pertencem mais ao campo das CH do que propriamente das CN/laboratoriais. Se o corpo humano das aulas de biologia é o organismo dividido em anatomia e fisiologia, foi com a noção de cultura corporal de movimento, bem como com a de práticas corporais, que avançamos na EF brasileira para além da lida quase que exclusiva com o organismo na atividade física.

cultura corporal, cultura de movimento ou cultura corporal de movimento? Em princípio qualquer um, desde que cultura, ou seja, desde que coloque o peso maior nesse conceito. Com isso, quero, na verdade, dizer que o conceito o qual no meu entendimento indica uma construção nova de nosso “objeto”, é o de cultura. É ele que melhor expressa a ressignificação mais importante e a necessária desnaturalização do nosso objeto e que melhor reflete a sua contextualização sócio-histórica. (BRACHT, 2006, p.97)

Neste reposicionamento crítico frente a preponderância do olhar para o organismo e sua fisiologia, ou nesta “desnaturalização” do objeto da EF, para dizer como Valter Bracht, encontramos um espaço privilegiado e decisivo para investigar e refletir sobre nossas relações com nosso corpo, tema multidisciplinar e atual, cuja importância para a EF não reside somente naquilo que poderíamos circunscrever ao seu universo de atuação isoladamente, mas como suas especificidades interagem irremediavelmente com determinações sociais que envolvem outras áreas, instituições e produções.

Se as professoras e professores de EF querem estar à altura das questões e problemas do nosso tempo em relação ao corpo e suas práticas, precisam estar atentas(os), não somente às atualizações científicas em genética, neurociências e fisiologia. Escutar o que as CH têm dito sobre o corpo é crucial para uma compreensão alargada das realidades efetivamente vividas com esse corpo; realidades estas que serão sempre históricas e sociais, ou seja, políticas, éticas, estéticas e psicológicas, configuradas, portanto, em cenários simbólico-culturais específicos, que, por sua vez, não podem ser abstraídos, haja vista serem constituídos e constitutivos simultaneamente das referidas realidades. Se observarmos a questão pelo viés de históricas dualidades, como alma/espírito e corpo, cultura e natureza, podemos acompanhar Ana Márcia Silva,

considerando que o corpo se mostra situado na interconexão entre cultura e natureza, entre o biológico e o social, segundo algumas dualidades modernas, sendo integralmente de ambos os domínios. Essa condição de híbrido não é apenas do corpo e, talvez, sequer seja possível achar algo que não seja, inclusive em função do contexto de várias ordens de globalização e mundialização que vivemos. (SILVA, 2006, p.75)

Mas, se ainda insistirmos em compreender o corpo unicamente pelo espectro das ciências laboratoriais, o que é a tendência atual enquanto “senso comum”, e quisermos, desta maneira, atuar socialmente sempre e somente nesta perspectiva, poderemos surpreendermo-nos com consequências e problemas ético-morais, frutos do determinismo de visões excessivamente “naturalizadas” capazes de instrumentalizar e empobrecer o caráter social ou cultural dos corpos e suas práticas. De fato, a própria tentativa de separação/hierarquização, sobrepondo o biológico ao social, deveria ser compreendida como uma ação política e ética e não somente técnica ou epistêmica. “Ou seja, não há nada, mas nada mesmo, sob o sol que, por ser mediado pela inteligência humana e pelo pensamento humano, não seja ao mesmo tempo também mediado socialmente (...) isso vale também para as ciências naturais e a técnica.” (ADORNO, 2008, p.72).

Proponho, a partir de então, que pensemos um pouco em uma questão que tem me acompanhado nos últimos anos. Trata-se de um problema que está presente em outras discussões importantes que envolvem o corpo, seja em uma reflexão sobre pedagogia e práticas corporais na EF, seja pensando em questões relativas à cultura e identidades, para ficarmos em dois exemplos importantes. Refiro-me ao que chamarei aqui de dialética entre ser e ter um corpo. Consideremos, assim, que

a complexidade temática do corpo implica, também, o reconhecimento de sua dupla proximidade conosco, dado que somos corpo e não podemos falar de fora do corpo, tal como não se pode falar de fora da história; e dado que trabalhamos com o corpo, não só produzindo conhecimentos sobre ele, como organizando intervenções sociais a partir das práticas corporais. (SILVA, 2006, p.75 - Grifos meus)

Para a acompanhar a autora, por um lado, posso radicalizar a questão do ser na constatação elementar diante da morte. Deixamos de existir materialmente quando as funções vitais do corpo/organismo cessam. Por outro lado, radicalizo a questão do ter ao notar como na nossa comunicação ordinária usamos, com muita frequência, pronomes possessivos para fazermos referência ao corpo e suas partes em diversas situações. No trecho acima, o “trabalhar com o corpo” é justamente o modo como a autora escolheu para se referir ao fato de que não somente somos, mas também temos o nosso corpo; marca de uma separação, uma diferença que acontece entre aquele que é alguém e que se difere daquilo com o que trabalha. Paramos, então, por aqui? Por exemplo, na afirmação de que somos e temos um corpo ao mesmo tempo? A questão é justamente, nesta consideração, identificar, analisar, correlacionar, avaliar e talvez transformar os efeitos individuais e coletivos, subjetivos e sociais, das ocorrências e experiências históricas dessa condição propriamente humana. Ao observar dentro e também fora da EF, tenho a impressão de que todas as vezes que imaginamos e atuamos, ora demasiadamente na crença de que somos nosso corpo, ora, ao contrário, de que temos o corpo, incorremos em problemas, às vezes mais, às vezes menos graves. Não parece ser o caso, por nenhum vértice de análise, ser possível tomar partido como se fosse uma questão relativamente simples; em que poder-se-ia, por exemplo, separar por completo, na reflexão, momentos objetivos em que se é ou se tem um corpo, das impressões subjetivas, das ideias e da imaginação a respeito. Assim como também parece difícil que as consequências práticas e concretas sobre o corpo, a partir de ações que se pautam em noções mais ou menos conscientes sobre ser ou tê-lo, acompanhem simetricamente essas possíveis oscilações de percepção. Advertido disso, posso, assim, tentar demarcar tanto individualmente quanto coletivamente, no sentido de uma perspectiva moral, pedagógica etc., nos planos das representações e dos sentidos que orientam determinadas escolhas, os momentos de ter e ser e, então, refletir e avaliá-los criticamente.

Ao que parece, tratar o corpo como algo que se possui, “coisa morta”, corpus, como disseram Horkheimer e Adorno, nos anos de 1940, foi um traço decisivo da cultura ocidental em sentido amplo, e isso continua significando tanto as benesses incontestáveis do progresso da ciência, como igualmente, de forma inconteste, a barbárie e a violência coletiva e individual. É importante, por um lado, notar, portanto, que, na hipóstase do corpo como coisa que se possui e os problemas advindos disso, tem-se uma situação mais bem descrita em termos sociais: não é somente meu corpo como instrumento que está em questão, mas também o corpo do outro que está sob meu jugo, meu domínio, mesmo que momentaneamente. Esse objeto-corpo, mais ou menos forçosamente alienado do indivíduo, assumiu, em momentos importantes da história ocidental, o lugar reificado da força de trabalho, do objeto de prazer, do organismo treinável e disciplinado.

Por outro lado, a mania de ser o corpo próprio, não menos presente na história, levada às últimas consequências nos dias atuais, nos fez reconhecer, por exemplo, a partir daquilo que um conceito como o de narcisismo pôde nos ensinar, em um nível mais problemático, que imaginar que se é o corpo que sem tem, identificar-se rigidamente com a imagem desse corpo, por vezes resulta em problemas para o indivíduo. Para Sigmund Freud (2010; 2011a; 2011b), há um aspecto do conceito de narcisismo e de sua experiência intimamente ligados à condição psicótica4. Logo no início de “Introdução ao narcisismo”, encontramos uma relação entre o conceito de narcisismo e as reflexões sobre a libido nas neuroses e nas psicoses. Trata-se ali, no caso psicótico, de uma questão de grau, ou seja, do montante de libido retirada da realidade objetiva e dirigida ao Eu, mas, segundo Freud, sem um correlato subjetivo como nas neuroses, em que o sujeito mantém com a realidade externa, certos laços mediados imaginariamente. O excesso e a hipóstase de libido dirigida ao Eu então seriam característicos do narcisismo na parafrenia. É a situação de um eu-imagem-corpo condensador de libido.

Assim, se por um lado, há problemas no corpo-objeto-coisificado, e podemos recordar a esse respeito das observações sobre treinamento esportivo feitas por Alexandre F. Vaz (1999) a partir da teoria crítica de Horkheimer e Adorno, naquilo em que o treinamento corporal reproduz a violência da dominação imemorial da natureza pela racionalidade de espírito esclarecido, por outro, encontramos situações que deflagram uma necessidade sentida pelo sujeito de intervenção no Real do corpo; como se a intervenção direta no corpo fosse fundamental para se “corrigir a existência” do sujeito diante de si mesmo, por exemplo, nos diversos casos de mulheres que perderam a vida em procedimentos estéticos arriscados, muitas vezes sem o devido preparo5, nas ocorrências em saúde mental de quadros de bulimia e anorexia por vezes fatais, ou ainda, em quadros de adoecimento orgânico grave por abuso de esteroides anabólicos.

O fato radical de que nossa existência está atrelada ao corpo, de onde se tem um flanco aberto para as discussões sobre finitude, não significa de imediato que a produção de uma identidade total com o corpo que se tem já esteja dada de antemão: ela é, ao contrário, uma produção do sujeito, no nível de suas formações subjetivas mais íntimas. Portanto, talvez seja um erro repetido com frequência confundir nossa existência orgânica, física, com nossa “existência ontológica”, com as subjetivações fundamentais de toda a vida humana. Ocorre que, tampouco, as duas coisas estejam, contudo, totalmente separadas. Se sustentarmos a intepretação de certa incongruência conceitual entre corpo e organismo, (mas resguardando o protagonismo derradeiro do orgânico no corpo no momento da morte ou em um adoecimento grave ou terminal), ver-se-á que as identificações contemporâneas ao organismo próprio, franqueadas pelos “discursos científicos” popularizados e pelos produtos, técnicas e tecnologias de intervenção disponíveis no mercado, são dependentes de um trabalho simbólico-conceitual de sobreposição da imagem de sua “unidade corporal” ao funcionamento do organismo vivo. Ao mesmo tempo, notar-se-á, pelo prisma psicanalítico lacaniano, que uma sobreposição de sentido como esta, por vezes rígida e totalizante em muitos casos na atualidade, será, não obstante, uma das possibilidades de produção imaginária sobre o corpo próprio, uma vez que estará articulada ao autorreconhecimento do sujeito pela e na imagem corporal. Esta operação psíquica fundamental, de ordem imaginária, indica que a relação do sujeito como seu corpo não se estabelece em uma linha direta com o “real de seu funcionamento fisiológico”. Se pudermos pensar, como exemplo, a questão do sofrimento humano enquanto experiência corporal, Mário Fleig (2004) observará, a partir da perspectiva psicanalítica, que todo sofrimento é, essencialmente, psíquico. É que todo sofrimento mental carrega algo de corporal e, por sua vez, o corporal aqui não é reduzido à localização de problemas neurofisiológicos, mas remete aos pontos de interseção entre a imagem do corpo e sua materialidade percebida e sentida na presença inalienável da linguagem. Mesmo em patologias neurofisiológicas, pode-se advogar que estamos em uma condição corpórea que encarna o sofrimento com as marcas de um imaginário e de uma significação.

Em um outro contexto argumentativo, Adorno (2009), ao pensar o sofrimento humano, o fará, no que concerne à dinâmica entre ter e ser um corpo, orientado pela histórica dualidade com o conceito de espírito. Na perspectiva do filósofo, ter um corpo, como coisa que se possui, apartada e submetida moralmente pela natureza de suas paixões a um suposto espírito totalmente esclarecido e superior, seria um engano não somente ético e epistêmico, mas também ontológico, comum à história da racionalidade no Ocidente. Trata-se de um problema importante para Adorno que o aborda diretamente algumas vezes ao longo de sua extensa obra. Assim, para o pensador de Frankfurt, o sofrimento e a dor possuem caráter essencialmente físico6. Argumenta em direção a uma correção dialética sobre as identidades de corpo e espírito e, com isso, nos ajuda a refletir sobre nossas identificações com um ou outro conceito. O corporal e o espiritual, para Adorno, são diferentes, mas não separados; aparentados, mas não se confundem. A história da separação do espiritual em relação ao corporal será progressivamente também a história do domínio e do excesso do primeiro em relação ao último.

A controvérsia sobre a prioridade do espírito ou do corpo procede de maneira pré-dialética (...). Os dois, corpo e espírito, são abstrações de sua experiência; sua diferença radical é algo posto. Essa diferença reflete a “autoconsciência” historicamente conquistada do espírito e o seu desprendimento daquilo que ele nega por causa de sua própria identidade. Todo espiritual é impulso corporal modificado e uma tal modificação, a transformação qualitativa naquilo que não é meramente (ADORNO, 2009, p.172)

Contra isto, portanto, argumentou o filósofo: contra a ideia das identidades puras e cristalizadas; também contra a vontade de unidade ou da redução de um domínio ao outro. Em cada um desses casos, habitou, e talvez ainda habite, um signo de violência.

Ainda, sobre ser e ter...

Ao considerar a obra de Adorno e, especialmente, as reflexões sobre o corpo, propus recentemente, no contexto de uma “dialética ontológica negativa” com o espírito, que, por seu turno, rememora outra relação complexa, qual seja, aquela entre história e natureza, a hipótese de que poderíamos nos beneficiar em termos de leitura crítica e compreensiva da realidade sobre o corpo, trazendo à conversa dois outros conceitos importantes para o frankfurtiano: sujeito e objeto7.

O que tenho sugerido, ao observar o modo como Adorno pensou a relação entre esses conceitos, é que o corpo pode ocupar melhor o lugar de objeto, porém, dentro de uma correção dialética, que implica, neste caso, um fundo ético-moral importante: não o lugar historicamente reconhecido em muitos momentos do corpo escarnecido, violentado, mas do objeto em sua dignidade, em sua prioridade material em relação ao espírito; não como anterioridade ontológica exata, mas com certa autonomia, ao não se configurar como um correlato preciso do espírito. É uma aposta para o corpo, a partir de caraterísticas que originalmente Adorno pensou para o conceito de objeto, culminando na sua tese do primado do objeto8. Portanto, um primado ou primazia do corpo indicaria um corpo-objeto corrigido dialeticamente em sua relação histórica com o espírito e, por sua vez, dentro do assunto em questão neste texto, esta alteridade assumida para o corpo, sua diferença-semelhança mimética como o espírito, poderia reposicionar o indivíduo no lugar de sujeito, mas um sujeito menos aprisionado no imaginário de sua identificação ao seu corpo/organismo, identificação esta que normalmente reverbera dialeticamente na tomada do corpo como coisa, que se deve dominar racionalmente em todas as suas manifestações e qualidades; de maneira diferente, portanto, um sujeito que se encontra mais no lugar de ter o seu corpo como alteridade, inspirada na dignidade do objeto que nos é ao mesmo tempo íntimo e estranho, cuja relação poderá ser pautada menos pelo excesso e controle e mais pelo saber, respeito e consideração das diferenças.

Nos tempos atuais, há um empuxo especial para ideia de que se é o corpo que se tem; sobretudo em função dos avanços insondáveis de áreas e especialidades, como a genética, as neurociências, a fisiologia e as tecnologias de produção de imagens, sejam estas últimas aplicadas aos diagnósticos médicos ou a serviço do entretenimento virtual narcísico das redes sociais. É como observa o psicanalista Éric Laurent (2016), a respeito da medicina diagnóstica por imagem, e isso integra um contexto social mais amplo, que poderíamos indicar com sendo o “império das imagens”9. Não que, em outras épocas, as imagens e o próprio sentido da visão não mostrassem seus lugares decisivos na cultura europeia e ocidentalizada, mas, nas últimas décadas, temos em cada recôndito do cotidiano, nas grandes cidades, a marca da visão e das imagens: das câmeras de segurança por toda a parte aos drones que nos sobrevoam com a uma frequência cada vez maior, passando pela atualização tecnológica de outdoors e anúncios, dentre outros exemplos.

Trata-se, desde o século XIX, de uma sobreposição complexa que envolveu, até aqui, valores, crenças, técnicas e tecnologias. Da constatação benjaminiana da velocidade, dos “choques” e da fugacidade na vida das metrópoles, atualizada nas análises da “filosofia da sensação” de Christoph Türcke (2010), às imagens técnicas flusserianas; percebe-se, como uma das consequências da ascensão ao zênite social da profusão ilimitada da produção de imagens, uma espécie de “ontologização” do corporal. A lembrança e a observação crítica de Türcke sobre certa atualização da máxima “ser é ser percebido”10 acompanham a colocação do corpo (e sua imagem) no centro dos debates e das possibilidades de compreensão das configurações da vida contemporânea. O sucesso do Instagram não é casual, se comparado ao Facebook, ele é muito menos textual, em sentido restrito centra-se nas imagens. A perda de espaço recente do texto convencional, escrito, como uma parte da história da comunicação e produção de conhecimento humano, evidente na prevalência do Twitter, na febre dos Podcasts ou no sucesso do Tik Tok, articula-se ao centramento da imagem corporal. Não se trata somente de uma ampliação em novos media e maneiras de acesso à informação e à comunicação, o que é claro, possui suas vantagens11, mas de uma agitação dos corpos, que, além de demandar a produção de suas evidências a todo momento, marca a recusa à quietude e a certo “esquecimento” de um corpo que nos acompanha. Os corpos excessivamente tatuados, perfurados, lipoaspirados e preenchidos pululam nas redes até o paroxismo de um “Ken humano” ou de alguns casos do que se chama Body art.

O tempo em que vivemos, dos corpos agitados e ontologizados, é, também, o de novos mal-estares, condizentes em muitos casos, com as formas atuais de identificação ao corpo/organismo. É o corpo prevalecendo, talvez como nunca antes, no território do adoecimento mental, com os casos de Transtorno Obsessivo Compulsivo - TOC; Transtorno de Déficit de Atenção com ou sem Hiperatividade - TDAH, para ficarmos em dois exemplos. O terreno da subjetividade, com a psiquiatria atual, é emparelhado aos campos da imagem social do corpo, da imagem médica do adoecimento, da identidade genética, forense ou não, todos testemunhando a marcha contemporânea à “unidade do Ser” no corpóreo. Curiosa circunstância essa da “unidade”, pois, para se unificar algo, é preciso que existam previamente partes a serem unificadas. Identificar A com B, o psiquismo com uma parte e funcionamento cerebral, o prazer com determinada descarga hormonal, o amor por uma pessoa com determinadas conexões neuronais, tudo isso pressupõe o alinhamento completo de registros discursivos e experienciais por vezes distintos na história. Talvez as novas formas de mal-estar que acometem o corpo indiquem algo dessa pretensão à unidade que não pode realizar-se em sua totalidade.

Ser o corpo que se tem não passa somente pelo viés da identificação conceitual do corpo ao organismo, mas também pela construção imagética de significações para a imagem corporal, mais ou menos articuladas com intervenções no próprio corpo12. Intervenções essas que usufruem, em menor ou maior grau, conforme a intenção e as possibilidades, de recursos tecnológicos das ciências do organismo.

Considero, a partir de uma leitura psicanalítica do tempo em que vivemos, que duas vozes poderosas concorrem, mas também se articulam na sedução cotidiana dos sujeitos com seus corpos: (I) a do casamento entre o discurso do capitalista e o discurso da ciência, onde escutamos os apelos à padronização, mesmo que às vezes travestidos de apostas na diversidade; (II) a o discurso político (num sentido especial aqui) do “direito ao gozo” - direito a viver com o corpo de maneiras absolutamente singulares - trata-se de um discurso político, porque, mesmo que o tenha apresentado sob um conceito psicanalítico (gozo)13, ele incide de maneira prática em atos, manifestações, projetos que tensionam a vida social na luta por reconhecimentos, novos espaços e direitos. Posições individuais se mesclam a discursos padronizados e institucionalizados, nas conformações dos modos de ser, de sentir e de agir em cada momento da história, em cada espaço social.

Se se atualiza de fato a euforia do final do século XIX e passando pelo século XX, sobre o organismo a partir do ritmo das neurociências, da genética etc., carreando a ideia de um sistema complexo expresso na imagem da unidade corporal, isso se dá em parceira com a fragmentação epistêmica e discursiva sobre o corpo orgânico de uma maneira impressionante. Busca-se, com frequência, hoje, uma realização, enquanto intenção, do prognóstico freudiano de que “a anatomia é o destino”14. Entretanto, pode-se dizer, acompanhando Jacques-Alain Miller na recapitulação da questão freudiana por Lacan, que se trata menos de um destino do que talvez de um momento corpóreo quando o sujeito e sua produção psíquica não se encontram estagnados. Algo resiste e escapa à determinação do Ser na anatomia, à derradeira identificação ao organismo, como índice do humano, ou ainda, como disse Marcus André Vieira (2020, p.1), “a anatomia é decisiva, mas nada essencial, natural”. Miller dirá então que,

Não é ao corpo anatômico que Freud remete para tentar explicar a diferença subjetiva da sexuação. Aliás, a anatomia não determina nem mesmo a histeria, pois como Lacan observa em “Televisão”, a conversão histérica não obedece à partilha anatômica [...]. Ao lado do corpo anatômico, seria possível colocar em questão o corpo vivo, distingui-lo dele. Sobre o corpo vivo, na medida em que ele fala e que a palavra condiciona seu gozo, talvez fosse possível dizer que ele faz o destino. (MILLER, 2011, p.4)

Portanto, ao menos para a psicanálise, existem condições de resistência ao empuxo de padronização e controle, na medida em que ainda há a possibilidade do corpo vivo, marcado pela contingência da experiência singular de cada sujeito.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em alguma medida, a dinâmica representacional e discursiva na história da EF acompanhou aquela ambivalência entre ser e ter um corpo, que, avaliada de um ponto de vista crítico, guardou até aqui, mesmo que por vezes sem a consciência disso, certo potencial preventivo, reflexivo, contra identificações mais rígidas e potencialmente mais abrangentes, que sempre estiveram à espreita e parecem mais em curso nos últimos anos. Os problemas extrapolam o campo pedagógico e aparecem também nas esferas da saúde e da política, o que deveria ampliar nossa preocupação e atenção aos fenômenos contemporâneos.

Ao mesmo tempo, penso que essa mesma ambivalência entre ser e ter não se alinhou por completo à divisão política e epistêmica do campo da EF no Brasil, posto que ela (a questão do ser ou do ter) se localiza no fundo daquela divisão instaurada nos tempos de redemocratização entre os apologetas do esporte abstrato (positivo em si) e do corpo funcional e fisiológico por um lado e, por outro, os adeptos das pedagogias críticas a partir das CH. Assim, tanto um grupo quanto o outro sustentou, por seus próprios meios e narrativas, significações próprias para ser e ter um corpo. Considerando o momento de concluir, se chamei a atenção especialmente para o empuxo à identificação ao organismo e sua fisiologia, é preciso atenção aos sinais, como disse, especialmente para a saúde e a experiência política.

Nesse sentido, frente a ode contemporânea de ser um corpo/anatomia, parece importante conseguir perceber e interpretar, noutra direção - pois ser, em alguma medida, é antecipar perigosamente o momento derradeiro, o limiar da finitude em cada situação em que a morte do organismo atualiza a preponderância do Real sobre os delírios de identidade e completude. Como afirmou a psicanalista Sandra Espinha (2013), o corpo é posterior em relação ao organismo. Consiste de uma observação que indica, basicamente, e sem poder me aprofundar, que sempre se faz um corpo e dele se toma posse. Ser “segundo”, posterior, não significa uma cronologia pré-dialética, mas, sobretudo, diz respeito às implicações inevitáveis para o sujeito, a partir do contato e entrelaçamento também inevitáveis entre corpo e linguagem, que, por seu turno, fazem-se em cada experiência social com um núcleo de singularidade irredutível. Se não é prudente operar uma transposição direta entre a teoria e os marcadores clínicos para uma análise sociológica, é possível e, quem sabe, frutífero, averiguar em que medida uma determinada teorização clínica contribui na abertura de novos pontos de consideração para a reflexão e análise em outros campos, tendo em vista, por exemplo, a própria caracterização básica da Sociologia no par, “indivíduo e sociedade”.

Refletir criticamente a dominação técnica da natureza enquanto posição que garantiu não somente as benesses do progresso nas sociedades, mas também, em parte, suas barbáries e regressões, significa, atualmente, dentro do tema aqui discutido, problematizar as relações com os corpos, e, dentre elas, o empuxo à identificação ao organismo (mediado pelos discursos da ciência e do capital). O território das CH mais diretamente aplicadas ao campo da EF, ou não, mostra-se necessário e decisivo para esta empresa.

Assim, e para terminar, gostaria de pensar, nestes tempos de empuxo ao ser, a possibilidade de se ter um corpo, mas como alteridade que persiste. Como circunstância inarredável que exige um “saber fazer” além ou aquém da fórmula da dominação e do controle constante. É uma opção que vislumbra um freio sobre a marcha de dominação e violência e, ao mesmo tempo, um avançar no espaço da colaboração e da solidariedade; solidariedade na companhia das ciências e esclarecida de nossos limites e equívocos com relação aos nossos corpos e aos das(os) outras(os) pois o corpo, tendo a vê-lo como um outro que não se reduz por completo às diversas determinações apreensíveis de nosso conhecimento, mas deixa em aberto um quantum de indeterminação irredutível. Neste terreno, os sujeitos são convocados a sustentar algo de sua singularidade na relação com seus corpos em sentido rigoroso. Em vez de um compulsivo dominar e controlar, dosar ou elevar numericamente, um “saber fazer com”; com aquilo que também não se apreende, em que cada um tem que se implicar, insisto, de modo singular. Poderia uma consideração como essa ajudar professoras e professores de EF em seus cotidianos de trabalho?

Deixo, então, para fomentar a contínua reflexão crítica, uma formulação lacaniana de Laurent, diante dessa torrente contemporânea em direção a uma ontologização do corpo, seja o ponto decisivo o organismo biológico e suas funções, seja a imagem cultural de uma identidade coletiva e individual; em tempos de turbulências biológicas e políticas assustadoras: ter um corpo, sempre, e nunca ser esse corpo, em parte alguma.

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  • VIEIRA, Marcus, A. A anatomia e seus destinos Disponível em: https://www.ebp.org.br/a-anatomia-e-seus-destinos/acesso em 29/10/2021.
    » https://www.ebp.org.br/a-anatomia-e-seus-destinos/acesso
  • 1
    Artigo publicado com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES/Brasil para os serviços de edição, diagramação e conversão de XML.
  • 2
    Este artigo foi desenvolvido a partir de uma palestra ministrada no IX Seminário do PROEFE e XI Seminário do CEMEF, “A formação docente em educação física: o lugar das humanidades”, 25 e 26 de junho, 2 e 3 de julho de 2021.
  • 3
    O objetivo deste exemplo é apenas tornar um pouco didático a interrelação, na experiência, de diferentes ciências e seus conhecimentos e que, evidentemente, não esgota as possibilidades de relação.
  • 4
    Com todo o cuidado que a menção a Freud e ao lugar do narcisismo em sua teoria requerem, quero destacar apenas um tipo de “excesso” que pode circunscrever a relação com o corpo e sua imagem, ou seja, sem nenhum objetivo de rotular com as categorias psicanalíticas os exemplos e situações que evoco na sequência do texto.
  • 5
    Advertidos que devemos estar acerca das condições histórico-sociais de coisificação dos corpos das mulheres.
  • 6
    “Toda dor e negatividade, motor do pensamento dialético, se mostram como figura multiplamente mediatizada e, por vezes, irreconhecível, do elemento físico” (ADORNO, 2009, p.173). Ver, também, a nota de trabalho de Horkheimer e Adorno, “Interesse pelo corpo”, na Dialética do Esclarecimento.
  • 7
    Cf. BORGES, Thiago, F, de. O primado do corpo a partir da filosofia de T. W. Adorno. Belo Horizonte: Editora Dialética, 2020.
  • 8
    Cf. ADORNO, Theodor. W. Sobre sujeito e objeto. In: ADORNO, Theodor. W. Palavras e sinais: modelos críticos 2. Tradução de Maria Helena Ruschel. Petrópolis: Vozes, 1995.
  • 9
    Este foi, aliás, o tema do VII ENAPOL - Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana, simultâneo ao XIX Encontro Internacional do Campo Freudiano, ocorridos em setembro de 2015 na cidade de São Paulo.
  • 10
    Esse est percipi, do teólogo anglicano do século XVIII, George Berkeley.
  • 11
    Também não se trata de restringir a crítica à dimensão isolada dos conteúdos nas redes e na internet como um todo, isso seria compreender mal a natureza do fenômeno na esfera social. As formas e estruturas não podem ser alijadas da reflexão, pois elas são determinantes ao funcionamento do aparato da vida virtual.
  • 12
    Há ainda outra questão que considero central às reflexões e compreensões possíveis sobre as dinâmicas entre ser e ter um corpo: a questão sobre unidade e fragmentação corporal. Tema que não posso desenvolver aqui, mas que recentemente abordei em um artigo na revista Analytica. Cf. BORGES, Thiago. F. de. ROSA, Márcia. Ter e ser um corpo a partir do estádio do espelho: entre a unidade e a fragmentação. In. Analytica: revista de psicanálise. São João del-Rei, v.13, n.24, janeiro/junho de 2024.
  • 13
    Lembro que, em psicanálise, gozo e prazer são conceitos distintos. O gozo diz respeito fundamentalmente ao corpo, embora não seja compreendido somente pelo viés do registro corporal. Isso implica que não se vive sem o gozo (posto que não se vive sem um corpo), dele não podemos abrir mão por completo, embora possamos colocar em questão uma determinada experiência de gozo. Ver. LACAN, Jacques. O seminário: livro 20 mais, ainda. Texto estabelecido por J-A Miller. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Zahar, 2008 e, MILLER, Jacques-Alain. Elementos de Biologia Lacaniana. Tradução de Yolanda Vilela. Belo Horizonte: EBP-MG, 1999.
  • 14
    Cf. FREUD, Sigmund. Sobre a tendência universal à depreciação na esfera do amor. In: FREUD, Sigmund. Obras completas volume. XI. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1970. FREUD, Sigmund. A dissolução do Complexo de Édipo. In: FREUD, Sigmund. Obras completas volume. XIX. Tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1976. Trata-se de uma apropriação que faço, por conta e risco, da famosa frase fora de seu contexto psicanalítico, para ilustrar uma situação mais geral.
  • DECLARAÇÃO SOBRE DISPONIBILIDADE DE DADOS
    Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

Editado por

  • Editor de seção:
    Admir Soares de Almeida Junior

Disponibilidade de dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Ago 2023
  • Preprint postado em
    24 Jul 2023
  • Aceito
    30 Mar 2026
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