APRESENTAÇÃO
Esta entrevista foi construída como um gesto de escuta e partilha com Glória Diógenes, professora, antropóloga e escritora, cujos caminhos se entrelaçam com os das juventudes que atravessam as ruas das cidades, os bailes, as festas, as arquibancadas, as redes sociais digitais. Glória é uma pesquisadora que investiga a cidade em movimento, em companhia de jovens em suas gangues e galeras, as/os artistas de rua, jovens sujeitos que territorializam os espaços urbanos com desejos, invenções e resistências. O diálogo prioriza as tessituras que ela constrói com diferentes interlocutoras/es, jovens, pesquisadoras e pesquisadores e também com as teorias que se dobram às experiências. Nesta conversa, ao revelar suas trilhas e seus encontros, comprometidos com a escuta e a partilha, caminhamos com Glória em paisagens das Ciências Humanas e Sociais, dos afetos e da literatura. O diálogo com nossa entrevistada desafia o olhar fixo e exige um pensamento em movimento, gesto que inspira quem pesquisa as juventudes em seus múltiplos territórios de existência e criação1.
Glória Diógenes possui licenciatura em Ciências Sociais, mestrado e doutorado em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Realizou pós-doutorado no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, em 2013. É professora titular da UFC e líder do Grupo de Pesquisa Laboratório das Artes e das Juventudes (LAJUS). Além de autora da reconhecida obra Cartografias da cultura e da violência: gangues, galeras e o movimento Hip-Hop, fruto de sua tese de doutorado, é escritora dos livros literários Sangue no Olho D’água (2025a), Mãe sem a outra (2025b), Avarias (2024a) e Fio que não parte (2024b).
ENTREVISTA
Entrevistadoras: Gostaríamos que você iniciasse nos contando como se deu o seu interesse pela pesquisa com jovens no espaço urbano. Como essa escolha marcou sua trajetória profissional e acadêmica?
Glória Diógenes: Partilho um pouco da minha trajetória de pesquisa ao longo de 30 anos, e a malha de encontros que teci com diversos outros pesquisadores e interlocutores no campo cruzado das pesquisas entre cidade e juventudes. Em 1993, antes de minha entrada no doutorado, estava a pesquisar a relação entre cidade e política. Isso está relatado no artigo “Uma antropologia dos lugares e dos afetos” (Diógenes, 2011), publicado pela revista Iluminuras. Em 1993, fui convidada pela Secretaria de Ação Social do governo do estado do Ceará, para realizar uma investigação que pretendia, inicialmente, efetuar um “censo” de meninos e meninas, em situação de rua, financiado pelo BID, Banco Interamericano de Desenvolvimento. Quando percebi o significativo aporte de recursos, decidi traspassar o objetivo inicial e incluir, na pesquisa, a investigação das narrativas das nomeações das turmas, dos grupos, qual seja, a história da construção dos apelidos e nomes usados pelos jovens. Investi também na proposta que os jovens fizessem desenhos, sentados nas calçadas, nos bancos de praça ou mesmo nos momentos de alguma calmaria, nas vias de automóveis. Em nosso pedido pelos desenhos para os meninos, o primeiro deveria ser uma representação da casa; o segundo, da família; o terceiro, da rua; e o quarto, uma projeção de futuro, “daquilo que você quer ser”. E qual foi a nossa surpresa quando fomos recebendo tantas e tantas folhas em branco do desenho relativo à quarta página. Essa pesquisa trouxe aspectos reveladores, que mudaram meu olhar sobre as políticas públicas e para as formas de vida de crianças, adolescentes e jovens: o futuro, na sua maior parte, era de páginas em branco. Outra revelação foram os apelidos e as novas filiações em turmas, gangues e galeras. Destaco também a resposta a uma questão que me parecia óbvia: “você é mais maltratado em casa ou na rua?”. Os jovens diziam: “em casa”. As situações de violência doméstica, maus tratos, negligência familiar ganharam lugar nas estatísticas. Outro ponto importante consistia na relação desses grupos com a cidade, com o que significava o trabalho. Fiquei bastante impactada com a leitura de uma produção de Arno Vogel e Marcos Antônio da Silva Mello (1991), “Da casa à rua: a cidade como fascínio e descaminho”, da FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais). Destaco a passagem: “conquistar a cidade, implica em repudiar a ética do trabalho para assumir a ética da aventura. Consiste, pois, em subverter a ordem que dá suporte ao estatuto cidadão” (Vogel; Mello, 1991, p. 145). As juventudes tomavam as cidades e eram focos de matérias de jornais. Assim, a ideia da juventude como ameaça, como risco, como ameaça ao patrimônio público, nesse momento, coincide com a formulação de políticas que tentavam manter os jovens em suas casas e entre os limites geográficos das periferias.
Entrevistadoras: Neste cenário, você alcança o fenômeno das gangues e galeras?
Glória: Exato. Mudo o objeto de doutorado completamente e faço o projeto acerca das relações entre galeras, gangues e o movimento Hip Hop em Fortaleza-CE. Ou seja, em 1994, adentro o campo das práticas juvenis na cidade. Daí surge a feitura da tese, depois o livro Cartografias da cultura e da violência: gangues, galeras e o movimento Hip Hop. Foi o caminho para uma rica interlocução com vários pesquisadores do campo das juventudes. Lembro da descoberta de um artigo de Marilia Sposito, “Sociabilidade juvenil e a rua: novos conflitos e ação coletiva na cidade”, publicado na revista Tempo Social, em 1993. A leitura me trouxe a primeira interlocução com uma pesquisadora da juventude brasileira. Nas palavras de Marilia:
Ruas e praças da cidade são ocupadas pela presença de incontáveis agrupamentos coletivos juvenis, estruturados a partir de galeras, bandos, gangues, grupos de orientação étnica, racista, musical, religiosa ou as agressivas torcidas de futebol. Muitas vezes a violência sem significação aparente surge como parceira inseparável dessas manifestações, que ora se exprimem nos bairros periféricos, ora se deslocam para o centro da cidade. Percebe-se uma nova apropriação do espaço urbano, que desafia o entendimento e exige uma aproximação mais sistemática para sua compreensão (Sposito, 1993, p. 162).
Eu nem acreditava no que lia, porque, naquele momento, eram poucos, ou quase nenhum pesquisador brasileiro, afora a tradição da Escola de Chicago, por exemplo, com Howard Becker e seu livro Outsiders: estudos de sociologia do desvio, que se voltavam para o tema das práticas juvenis e a cidade. Percebi que sempre fui mobilizada pela vontade de pesquisar os que não têm vez e voz no cenário iluminado das cidades. Fui bastante influenciada por Becker. Depois, descobri uma conferência dele, realizada em 24 de abril de 1990, durante a sua última visita ao Brasil, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social no Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Foi uma conferência sobre a história da Escola de Chicago e ele descreve o que chama de linhagem de pesquisa. Provavelmente, é isto que estou a fazer hoje. Além do tema dos outsiders, desviantes, me chamava atenção a questão do método. Nós éramos muito mais ecléticos em relação a métodos de pesquisa científica do que as pessoas que conhecíamos e que estavam em outras instituições. E a sinceridade de Becker em dizer que os métodos assumiam uma maior consistência, depois das pesquisas realizadas, como relatos de caminhos foi surpreendente. Isso é fundamental nas pesquisas no âmbito das juventudes, pela presença do inesperado, pelas mudanças de rota, pelo deslocamento, pelas múltiplas filiações.
Entrevistadoras: Pode nos contar alguns desses encontros que lhe possibilitaram deslocamentos e mudanças no olhar sobre as juventudes?
Glória: Um encontro que me trouxe uma lufada de possibilidade de diálogos aconteceu na reunião da ANPOCS (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais) de 1993. Vi Helena Abramo receber o prêmio no IX Concurso de Obras Científicas e Teses Universitárias em Ciências Sociais por Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. Sua produção nos indica que, apesar da noção de juventude estar referenciada a uma faixa etária, um período da vida, com mudanças psicológicas e sociais, a noção de juventude é socialmente variável. Citando a própria Helena, “a definição do tempo de duração, dos conteúdos e significados sociais desses processos modificam-se de sociedade para sociedade e, na mesma sociedade, ao longo do tempo e através das suas divisões internas” (Abramo, 1994, p. 1). Isso me trouxe a importância de olhar a condição juvenil, levando em conta suas diversidades e desigualdades. Helena enfatizava a necessidade de que os atributos socioculturais desse período geracional fossem ressaltados e, assim, termos atenção com os ritos da participação juvenil. Aqui, havia encontrado a via, a lupa, as lentes para olhar para as juventudes e suas condições juvenis.
Os encontros movem novas modulações do olhar. Então, na reunião da ANPOCS de 1994, alguém me apresentou Márcia Regina da Costa, autora do livro Os carecas do subúrbio. Deparei-me com a primeira interlocutora que me fez olhar para a dimensão da subjetividade entre as práticas juvenis. A epígrafe do livro dela tem uma afirmação de Félix Guattari: “o nomadismo selvagem da desterritorialização contemporânea demanda uma apreensão transversalista da subjetividade”. E eu já percebia, com a minha pesquisa de doutorado, ao investigar as dinâmicas culturais e de violência das gangues e galeras, que a violência e o sentimento de exclusão presentes nesses grupos são também de natureza político-subjetiva. Muitos daqueles jovens se percebiam como fora da cidade, fora da família, fora do trabalho, fora da escola. E não era uma exclusão meramente material e objetiva. Havia, entre as juventudes urbanas, um sentimento de não fazer parte, de sentir-se fora da “cidade oficial”, de sentirem-se entre os proscritos da cidade. Márcia assinala, no início de seu livro, que sua proposta inicial consistia em descobrir como jovens pobres, de origem operária, assumem-se e/ou são acusados de violentos, chauvinistas, nacionalistas. Então, percebe-se a importância da mudança de chave analítica, escapa-se da análise centrada apenas na ideia do que os que jovens são ou do que devem ser. Aponta-se para a importância de se levar em conta suas narrativas, seus sentimentos, as construções imaginárias das juventudes.
Também em uma outra reunião da ANPOCS, que não me lembro o ano, encontrei Suely Rolnik e me atentei para sua proposta de cartografia que é diferente do mapa. Trata-se de um desenho que acompanha e se faz, ao mesmo tempo que os movimentos de transformação da paisagem. Nesse sentido, as paisagens psicossociais também são cartografáveis. Suely indica que a tarefa do cartógrafo consiste em dar língua para os afetos que pedem passagem. Espera-se que quem faça cartografias esteja mergulhado nas intensidades de seu tempo e que, atento às linguagens que encontra, devore as que lhe parecerem elementos possíveis para a composição das cartografias que se fazem necessárias.
Nesse mesmo período, impulsionada pelas pesquisas sobre juventude e marcada pelas ideias de nomadismo, cidade, cultura, subjetividade, imaginário, encontrei o precioso livro de Janice Caiafa, Movimento punk na cidade - a invasão dos bandos sub, cuja primeira edição foi de 1985. Já no primeiro parágrafo, eu tinha um prato cheio para uma antropóloga. Janice escreve: “sua potência é de surgir do nada, ou de um breu tão profundo que a escuridão os dissimula pelos contornos dos becos. Na penumbra, à distância das negociações mais óbvias seu aparecimento resplende, por isso de uma luz bem mais intensa” (Caiafa, 1985, p. 9). Sua análise apontava como a gangue é uma experiência coletiva, conspirar quer dizer respirar juntos. Ela ainda argumentava que “o punk aparecia na ausência, num grupo que passava, num risco impressionista” (Caiafa, 1985, p. 17). Na obra de Janice, o diálogo com Foucault, me abriu novas fendas de reflexão e análise. Ou seja, não há um símbolo primeiro, primário, passivo, à espera de elucidação. O movimento de interpretação não é a captação de uma docilidade, mas o apoderar-se de uma resistência. Assim sendo, as juventudes não se colocam como sujeitos-alvo de interpretações de modo passivo. Conceituar ocorre em uma relação.
Em outro momento, tive a sorte de ser convidada por Maria Virgínia Freitas e Fernanda Papa para participar do livro Juventude em pauta: políticas públicas no Brasil, publicado em 2011. Aqui estavam meus principais interlocutores: você, Carla Corrochano, com o artigo “Trabalho e educação no tempo da juventude: entre dados e ações públicas no Brasil”, que tanto integrou minhas disciplinas. Nesta obra há também textos do estimado Paulo Carrano, da Regina Novaes, de Marilia Sposito. E, nestes caminhos, eu conheço Ana Karina Brenner, Wivian Weller, Juarez Dayrell.
Cada leitura de um trabalho resultante de uma pesquisa com juventudes abria, para mim, uma nova estrada. Vou percebendo que, entre as juventudes, o corpo tem um lugar fundamental, o corpo-cidade, o corpo-experiência. O corpo é suporte das trocas, sejam simbólicas, imaginárias, sejam estéticas, gestuais. O corpo é um território de existência, de escrita de si e de inserção social. Na minha pesquisa com as galeras, todo discurso da violência veio a partir das marcas corporais. Então, começo a ver que o corpo é um território ambulante de signos.
Entrevistadoras: Como as leituras no campo da Antropologia transformaram sua forma de compreender as experiências e os modos de territorialização juvenis nas cidades?
Glória: Fiquei muito feliz quando encontrei o Pierre Clastres, que também nunca me viu, como eu também não o vi. Mas, quando eu li A sociedade contra o Estado, eu não acreditava que aquele texto existia, com reflexões tão primorosas sobre o corpo como uma superfície de escrita. Ele diz: “a marca é um obstáculo ao esquecimento, o próprio corpo traz impresso em si os sulcos da lembrança - o corpo é uma memória” (Clastres, 2003, p. 201). Eu fui salva por isso, porque eu comecei a olhar para os corpos, para onde eles passavam, fui compreendendo que eles moviam na cidade, territorializando certos espaços e desterritorializando outros, em grupo. A cidade é um festival ambulante de signos, às vezes, a simples presença de jovens se configura como um enxame, um alardear de presenças, pelo simples fato de estarem onde não deveriam estar.
Eu fui me aproximando da ideia de nomadismo, e a minha noção de nomadismo é uma noção que, embora eu tenha lido, eu fui adaptando ao que entendia sobre as gangues e galeras, como sendo o movimento da intensidade dessas juventudes que não precisavam necessariamente ir de um lugar ao outro para criar a ideia de nomadismo, mas, pela inquietação, pelo desassossego, pelo ir e vir. Eu comecei a perceber que, nos bailes funk, por exemplo, era tudo territorializado. Isso me criou a necessidade de exercer um olhar descentralizado, um olhar em movimento. Quem pretende estudar juventude ficando parado, imóvel, vai ficar para trás. A marca da juventude é o deslocamento, o movimento, a metamorfose, a multiplicidade. É preciso se movimentar enquanto o campo se movimenta.
Entrevistadoras: De que maneira sua presença nas redes sociais digitais transformou sua forma de investigar as juventudes e quais os principais dilemas metodológicos que surgem ao considerar a copresença entre o digital e o presencial nos estudos etnográficos?
Glória: Eu atuava muito nas redes, eu sempre gostei das redes sociais. E aí, quando eu retomei meus trabalhos de pesquisa na universidade, depois de um período na gestão pública, eu decidi entender os fenômenos que sempre me interessaram, as torcidas organizadas de futebol, os bailes funk, nas redes digitais, no Orkut e no Facebook, e só depois que veio o Instagram. Eu estava retomando meu lugar nas pesquisas de juventude. Eu comecei a pesquisar os usos da internet e aí eu percebi algo bem importante, novos dilemas etnográficos e dilemas de pesquisa. A primeira questão que percebi é que, entre o mundo presencial e o mundo digital, que não pode ser chamado de virtual, há uma copresença, há uma dobra, esses mundos escoam-se entre si, há uma ligadura, há uma sintonia. Não há como pensar em nenhum objeto de pesquisa, na minha visão, que ele não seja entendido também no ciberespaço. E a comunicação já não é mais textual, emojis, configurações gráficas, áudios, links, podcasts, imagens. A imagem passa a integrar intensamente a comunicação.
Quando eu me situo no ciberespaço, percebi que sempre gostei dos ilegais, sempre gostei de escutar quem não é escutado, pessoas em situação de rua, meninas em situação de abuso, gangues, galeras e, em Portugal, eu escolhi os ilegais que fazem murais. E eu não sabia como começar. O Machado Pais me sugeriu fazer um blog como parte do trabalho de campo. Ele dizia: “você os pesquisa na internet, marca eles no Facebook e eles perceberão que você os marcou, que você escreveu sobre eles”. O blog é antropologizzzando.blogspot.com, os três “z” marcam o barulho do spray. O blog tomou conta da minha pesquisa, eu pensava que não daria certo, é um caderno de campo aberto e digital. E eu também fiz um documentário que se chama Rastros da arte urbana em Lisboa (disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=dq5exvh2Gg8).
Eu vi muitas teses e dissertações no período da pandemia de covid-19 feitas em meio digital. Nós não podemos mais ignorar o ciberespaço: ele é um lugar antropológico, um lugar existente, um lugar de sujeitos, de construção de sujeitos. E muitos de nós, às vezes, não queremos usar o ciberespaço com a justificativa que somos da velha geração, enquanto as juventudes estão usando. Em 2020, no período da pandemia, a revista Estudos Avançados (USP) publicou um dossiê “Retrato da Juventude”. Nele, eu publiquei um texto intitulado “Cidade, arte e criação social: novos diagramas de culturas juvenis da periferia”, com reflexões sobre a experiência do seriado La casa d’uz vetin. Vetin é o diminutivo de pivete, pivetinho da periferia. Eles fazem um seriado, eles mesmos criam suas produções audiovisuais que estão nas redes digitais. E eu destaco, nesta análise, o improviso, o brincar, o rascunho, o malfeito como categorias sociológicas e antropológicas. A nossa presença como pesquisadoras no ciberespaço precisa estar atenta às invenções juvenis. Eu compreendo que é interessante que assumamos, em nossas análises, essas linguagens juvenis que gaguejam, ou seja, que se esquivam da linguagem oficial, que se colocam a brincar, é uma tarefa perceber novos diagramas de criatividade das juventudes brasileiras. Os jovens trazem, para as mídias sociais, a vida, a linguagem, os “corres”, as “tretas”, as festas, as poesias e os afetos que povoam e dinamizam suas vidas nas grandes periferias das metrópoles. E, tantas vezes na internet, eles têm em comum a construção de uma linguagem que se estabelece na periferia para as periferias. Não seria esse nosso intento como pesquisadoras, capturar essas linhas tortas de uma linguagem que gagueja, essa artesania de narrativas que nos trazem novas falas, novas categorias que são também analíticas?
Entrevistadoras: Gostaríamos de finalizar te escutando sobre os caminhos da literatura em sua vida e na sua maneira de interpretar os fenômenos coletivos.
Glória: Em parceria com a minha orientadora (da vida toda!), Irlys Barreira, estamos ministrando oficinas de escrita e criação nas Ciências Sociais e a disciplina “Cidade e Literatura: trânsito de sentimentos”. Nessa disciplina, a gente lê literatura, não a sociologia para a literatura, mas investimos nas leituras, desde o século XIX ao século XXI. Lemos Natalia Ginzburg, Carolina de Jesus, Conceição Evaristo. De algum modo, ao longo da minha trajetória como pesquisadora, fui acusada de fazer literatura, ao invés de fazer ciência. Então pensei: por que não fazer literatura? E aí eu decidi: vou escrever literatura. A pandemia me ajudou a entrar na Literatura, pois a Literatura era um plano B da vida inteira. Eu tinha páginas e páginas escritas e eu achava que aquilo nunca ia dar certo. E percebi que um dos problemas que a gente tem dificuldade com a Literatura é que a gente, sociólogos, antropólogos, explica muito. Por exemplo, eu escrevia assim numa frase: “costuma-se dizer…”, e meu editor me disse: “Glória, não se costuma dizer, na Literatura só se diz”. Então, eu fui entendendo essa mudança cerebral na composição literária e científica. E, por isso, eu compartilho um pedacinho do meu livro Avarias, “Maria e o homem que ninguém viu”. Começo com uma epígrafe, uma frase de Maurice Blanchot, no livro A parte do fogo. Ele diz: “a linguagem só começa com o vazio”.
Sim, Raimundo, a dor te deixou imerso em ti mesmo. Pude te ouvir sem sequer teres aberto a porta. Nesses dias de pensar-como-quem-vê, na casa povoada de ausência, me assentei ao teu lado. Farto banquete dos descaminhados. Senti o acre da tua recusa. E te digo. O lado de cá, o da cidade que corre em busca de si mesma, que se esquiva no vaivém das sirenes, no horror de gente morrida e matada todos os dias, talvez seja a selva em que cada um se esconde. Assim como você, tento sobreviver. Acertar na direção de qualquer coisa do que chamam vida. Tal qual a mira de lampião no escuro da mata (Diógenes, 2024a, p. 69).
E, assim, eu concluo desejando que sigamos em caminhos daquilo que nos falta, que permeiam também a imaginação, os mundos imaginados, como diz Appadurai, a vontade partilhada da construção do olhar de quem pesquisa e cria novas narrativas das paisagens juvenis.
REFERÊNCIAS
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- BECKER, Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Tradução Maria Luiza Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2008. 232 p.
- BECKER, Howard. A escola de Chicago. Mana, v. 2, n. 2, p. 177-188, out. 1996.
- CAIAFA, Janice. Movimento punk na cidade: a invasão dos bandos sub. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. 148 p.
- CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado: pesquisas de Antropologia Política. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. 280 p.
- CORROCHANO, Maria Carla. Trabalho e educação no tempo da juventude: entre dados e ações públicas no Brasil. In: PAPA, Fernanda; FREITAS, Maria Virgínia de (orgs.). Juventude em pauta: políticas públicas no Brasil. São Paulo: Peirópolis, 2011, p. 45-72.
- COSTA, Márcia Regina da. Os “carecas do subúrbio”: caminhos de um nomadismo moderno. Petrópolis: Vozes, 1993. 232 p.
- DIÓGENES, Glória. Cartografias da cultura e da violência: gangues, galeras e o movimento Hip Hop. 1. ed.São Paulo: Annablume, 1998.
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DIÓGENES, Glória. Uma antropologia dos lugares e afetos. Iluminuras, Porto Alegre, v. 12, n. 28, p. 15-33, 2011. Disponível em: Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/view/24879 Acesso em: 7 ago. 2025.
» https://seer.ufrgs.br/index.php/iluminuras/article/view/24879 -
DIÓGENES, Glória. Cidade, arte e criação social: novos diagramas de culturas juvenis da periferia. Estudos Avançados, São Paulo, v. 34, n. 99, p. 373-389, ago. 2020. >https://doi.org/10.1590/S0103-4014.2020.3499.022
» https://doi.org/10.1590/S0103-4014.2020.3499.022 - DIÓGENES, Glória. Avarias São Paulo: Urutau, 2024a. 100 p.
- DIÓGENES, Glória. Fio que não parte Fortaleza: Substância, 2024b. 134 p.
- DIÓGENES, Glória. Sangue no Olhos D’água São Paulo: Urutau, 2025a. 130 p.
- DIÓGENES, Glória. Mãe sem a outra São Paulo: Urutau, 2025b. 104 p.
- FREITAS, Maria Virgínia de; PAPA, Fernanda(orgs.). Juventude em pauta: políticas públicas no Brasil. São Paulo: Peirópolis, 2011. 368 p.
- SPOSITO, Marilia. A sociabilidade juvenil e a rua: novos conflitos e ação coletiva na cidade. Tempo Social, São Paulo, v. 5, n. 1-2, p. 161-178, jan. 1993.
- VOGEL, Arno; MELLO, Marcos Antônio da Silva. Da casa à rua: a cidade como fascínio e descaminho. In: PILOTTI, Francisco; RIZZINI, Irma (orgs.). O trabalho e a rua: crianças e adolescentes no Brasil urbano dos anos 80. Brasília: FLACSO, 1991, p. 41-60.
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Esta entrevista foi desenvolvida a partir da participação de Glória Diógenes como conferencista no IV Simpósio de Pesquisa em Juventude no Brasil/1o Encontro da Rede de Pesquisa em Juventude no Brasil (REDEJUVE), realizado entre os dias 9 e 11 de abril de 2024, no campus Sorocaba da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O evento contou com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)/Edital Programa de Apoio a Eventos no País (PAEP-2024).
