Resumo
A primeira onda feminista curitibana surgiu na Primeira República e ganhou espaço na esfera pública da cidade, suscitando fortes debates e evidenciando as contradições de uma sociedade que se pretendia moderna e liberal, mas ainda estava calcada no machismo provinciano. Nesse contexto, este artigo pretende discutir as relações entre imprensa e feminismo na primeira metade do século XX em Curitiba por meio de uma investigação do estado da arte. Os resultados alcançados indicam que o fato de algumas mulheres terem rompido as barreiras da invisibilidade não impediu que fossem relegadas a um papel coadjuvante.
Palavras-chave:
Feminismo; História da imprensa; Curitiba
Abstract
The first feminist wave in Curitiba emerged during the First Republic and gained space in the city’s public sphere, sparking strong debates and highlighting the contradictions of a society that claimed to be modern and liberal, but was still based on provincial machismo. In this context, this article aims to discuss the relationship between the press and feminism in the first half of the 20th century in Curitiba through an investigation of the state of the art. The results achieved indicate that the fact that some women broke the barriers of invisibility did not prevent them from being relegated to a supporting role.
Keywords:
Feminism; Press history; Curitiba
Resumen
La primera ola feminista en Curitiba surgió durante la Primera República y ganó espacio en la esfera pública de la ciudad, promoviendo fuertes debates y resaltando las contradicciones de una sociedad que se consideraba moderna y liberal, pero que todavía se basaba en el machismo provinciano. En este contexto, este artículo tiene como objetivo discutir la relación entre prensa y feminismo en la primera mitad del siglo XX en Curitiba mediante una investigación del estado del arte. Los resultados obtenidos indican que el hecho de que algunas mujeres rompieran las barreras de la invisibilidad no impidió que quedaran relegadas a un papel secundario.
Palabras clave:
Feminismo; Historia de la prensa; Curitiba
Introdução
Pensar o apagamento das mulheres na história da imprensa pressupõe compreender os silêncios – das fontes e dos arquivos – acerca das ideias e experiências femininas ao longo do tempo. O pouco ou nenhum interesse no registro das memórias do mundo privado resultou num memoricídio (Duarte, 2022), um processo de invisibilização da produção intelectual e material de mulheres. No caso da história da imprensa, o entendimento de que a escolarização, juntamente com o acesso à literatura, proporcionou as condições para a formação de uma consciência feminista reforça a urgência em resgatar a vivência das mulheres que abriram espaço para o feminismo nos jornais.
Em Curitiba, essa história tem início com a emancipação política da província do Paraná, em 1853, e a criação do primeiro jornal, o Dezenove de Dezembro, em 1854. Desde a segunda metade do século XIX, o crescimento da burguesia ervateira alavancou a modernização da capital e a construção do mito da cidade próspera. Os ideais de civilidade e progresso ganharam força com o pensamento positivista e embalaram a urbanização da cidade, que se vestiu com ares cosmopolitas. A reforma arquitetônica, a iluminação pública, o telégrafo e os bondes proporcionam uma nova experiência de viver a cidade, que terá grande efeito na sociabilidade curitibana.
A chegada de imigrantes europeus, incluindo artistas e intelectuais, consolidou a utopia da modernidade que permitiu, de certa forma, a inserção das mulheres no espaço público. O ideário republicano passou a caminhar junto de pautas feministas de igualdade e cidadania. Ainda sem uma formação e um estilo jornalístico próprio, a imprensa curitibana foi gestada e alimentada pela classe literária e se tornou um lócus importante na luta pelos direitos das mulheres e o debate público acerca das demandas políticas e sociais femininas. Na Primeira República, a temática feminista na esfera pública curitibana suscitou enfrentamentos e evidenciou as contradições de uma sociedade que se pretendia moderna e liberal, mas ainda estava calcada no machismo provinciano.
A presença de escritoras como Mariana Coelho e Leonor Castellano nos jornais curitibanos colocou o feminismo na ordem do dia, marcada principalmente pela luta do direito ao voto. Dessa forma, esta pesquisa pretende discutir as relações entre imprensa e feminismo na primeira metade do século XX em Curitiba, por meio da realização de um estado da arte das pesquisas existentes que abordam a participação feminina e o debate feminista na imprensa curitibana.
A realização de uma “pesquisa da pesquisa”1 possibilitou investigar o arcabouço dos estudos existentes em relação ao tema. O estado da arte proposto permitiu analisar a produção acadêmica sobre o assunto e identificar como a presença feminista na imprensa curitibana tem sido abordada em teses, dissertações e artigos científicos. A partir dos resultados obtidos, é possível tensionar a produção acadêmica acerca das interseções entre Gênero e História da Imprensa, apontando suas potencialidades e limitações. Se a história da mulher ainda está para ser contada, é preciso um olhar cuidadoso para o fazer acadêmico, bem como para as próprias fontes históricas.
O estudo partiu da premissa de que a produção intelectual de mulheres tem sido deliberadamente apagada e minimizada ao longo da história e, para poder investigar esses processos de invisibilização, foi traçado um percurso de pesquisa que, na primeira etapa, delimitou o recorte temporal, o qual foi pensado a partir da obra de Osvaldo Pilotto (1976), Cem anos de imprensa no Paraná (1854-1954), que apresenta um mapeamento dos periódicos paranaenses criados após a emancipação política da província, em 1853. Entendendo que o período descrito na obra foi de profícua produção intelectual, principalmente com a criação do Movimento Paranista, essa etapa foi fundamental para o estabelecimento do recorte temporal proposto, ou seja, o período entre 1853-1953.
Os caminhos de uma história intelectual das mulheres, segundo Constância Duarte (2003), passam por quatro momentos-onda: 1830 (escolarização); 1870 (sufrágio); 1920 (cidadania e trabalho); e 1970 (revolução sexual e literatura). No entanto, os marcos da história das mulheres curitibanas seguem outras temporalidades, pois os ciclos históricos oitocentistas da capital são marcados pela emancipação política do Paraná, em 1853. Dessa forma, foi estabelecido o recorte temporal do primeiro século de existência do estado do Paraná, bem como da cidade de Curitiba como capital e centro intelectual do estado.
A obra de Osvaldo Pilotto também possibilitou a identificação das formas de exposição da produção intelectual local, visto que há uma ampla descrição não apenas dos periódicos, mas da vanguarda responsável pela criação da imprensa curitibana. A presença feminina é praticamente nula, havendo apenas comentários pontuais sobre a situação das viúvas Gertrudes da Silva Lopes e Maria José Correia, que herdaram as tipografias de seus maridos, bem como sobre a participação de Mariana Coelho e Hellê Vellozo Fernandes em periódicos locais.
Com essa definição, foi iniciado o a mapeamento de “uma certa produção acadêmica em diferentes campos do conhecimento, tentando responder que aspectos e dimensões vêm sendo destacados e privilegiados em diferentes épocas e lugares” (Ferreira, 2002: 257). Foram estabelecidas temáticas principais e secundárias que conduziram o levantamento de artigos, dissertações e teses que abordam a história da cidade de Curitiba, da educação de mulheres, da literatura e da imprensa durante o período estabelecido.
Da mesma forma, foram identificados alguns fatos importantes que estão relacionados diretamente à história intelectual da cidade, sendo eles: a criação do primeiro jornal e da primeira tipografia, em 1854; a criação da Universidade Federal do Paraná e do Centro de Letras do Paraná, em 1912; a fundação do Centro Paranaense Feminino de Cultura, em 1933; e a criação da Academia Paranaense de Letras, em 1936.
Após a definição do recorte temporal, foram estabelecidos outros parâmetros de delimitação do objeto, começando pela identificação dos nomes das intelectuais reconhecidas no período, como Mariana Coelho, Leonor Castellano, Rosi Pinheiro Lima, Julia da Costa e Helena Kolody, buscando identificar caraterísticas de suas obras, em especial a abordagem feminista de primeira onda. Também foram diferenciadas as temáticas de produção intelectual em: literatura/imprensa, ciências/ensino, produção artística. O fato de que a produção intelectual de muitas mulheres transitava entre essas diferentes áreas resultou no fato de que muitas pesquisas falam das mesmas mulheres, privilegiando a atuação em uma área específica.
Por fim, foram identificadas as referências às mulheres que tiveram algum tipo de visibilidade na época, e são mencionadas em estudos e obras sobre o período ou sobre a produção intelectual masculina, incluindo esposas, filhas e irmãs. Esse levantamento evidenciou o apagamento da produção intelectual/profissional feminina, visto que a maior parte não foi, até então, objeto de pesquisa acadêmica ou sequer biográfica, havendo apenas citações pontuais que indicam que elas faziam parte da intelectualidade curitibana da época, frequentando os mesmos círculos, mas não obtiveram reconhecimento por sua produção intelectual. Esse é o caso das escritoras Escolástica de Morais Velozo, Elvira Faria Paraná, Rachel Prado e Alda Silva, cuja referência em pesquisas e documentos históricos aborda, em sua maioria, o parentesco com os homens das letras e não sua própria obra literária.
Cabe ressaltar, também, a dificuldade de se estabelecer um viés de raça e sexualidade, visto que as condições de classe ainda eram determinantes, no período, para que as mulheres participassem dos círculos sociais da intelectualidade. Apesar de haver estudos relevantes sobre a mulher trabalhadora em Curitiba, percebe-se a ausência de pesquisas a respeito da presença da mulher na imprensa ou na produção literária operária local. Da mesma forma, os estudos relacionados ao feminismo negro evidenciam que, além de Enedina Alves Marques, já devidamente reconhecida pelo seu pioneirismo de primeira mulher negra engenheira do país, apenas Laura Santos é citada em outros estudos como uma escritora negra, mas também não foi objeto de estudos acadêmicos ou biográficos. Nesse levantamento, não foi identificada nenhuma indicação sobre a sexualidade das intelectuais.
Curitiba, a república masculina das letras
Quando Curitiba se tornou a capital da recém-criada província do Paraná, em 1854, apresentava uma infraestrutura urbana precária de uma vila que tinha sido elevada à categoria de cidade há pouco mais de uma década. Instalações sanitárias, arruamento, calçamento, iluminação pública, até o comércio não eram suficientes para atender às demandas da capital. A transformação urbana ocorreu a partir da mudança de status e da chegada maciça de imigrantes, impulsionada pela indústria ervateira.
Burocratas, funcionários públicos e profissionais liberais dividiam as ocupações laborais com comerciantes, caixeiros, prestadores de serviços e criadagem doméstica. A cidade “contava, no final do século XIX, com 93 estabelecimentos comerciais e alguns serviços, como ourives, afinadores de pianos, dentistas, alfaiates, professores de línguas, entre outros” (Carneiro, 2013: 68).
Já nos anos de 1880 e 1890, uma nova sociabilidade foi se desenvolvendo juntamente com os modelos de civilização e progresso tão caros ao fin de siècle. “A erva-mate tornara possível trazer a cidade todos os signos mais evidentes da condição moderna: o boulevard, a fábrica, a iluminação e o burburinho urbano das ruas” (Pereira, 1996: 116). Teatro, baile, tabernas, bilhares e fandangos atraíam as classes abastadas e populares, bem como largos, praças e avenidas. A vida na cidade transformou-se com a chegada de linhas de trem, água encanada, eletricidade, sistema de bondes e pavimentação das ruas.
Na Primeira República, a cidade já contava com um aparato cultural diversificado: fotógrafos e cinematógrafos, escolas de artes, música e pintura, clubes e sociedades literárias, teatros e o Museu Paranaense. O avanço foi suspenso durante a Primeira Guerra Mundial e retomado logo em seguida (Carneiro, 2013). A cidade se pretendia moderna, e o progresso foi conduzido pela intelligentsia local, representada pelos literatos que pensavam uma Curitiba cosmopolita e desenvolvida.
Inspirados por doutrinas que descendiam diretamente do pensamento europeu, os intelectuais que pensaram Curitiba e o estado do Paraná uniram nacionalismo, regionalismo, positivismo e teorias raciais, publicando suas ideias em livros, jornais e revistas locais. Uma das iniciativas foi a criação do grupo “O Cenáculo”, que atuou entre os anos de 1895 e 1897, voltado à literatura simbolista e a textos científicos, esotéricos e anticlericais (Beltrami, 2002). A paixão pela literatura, a influência dos movimentos abolicionista e republicano e a dedicação ao ensino marcam a produção intelectual da juventude curitibana, que tem em Dario Vellozo seu principal expoente.
A Proclamação da República e a Revolução Federalista tiveram forte impacto na produção intelectual curitibana. A busca de uma identidade formativa de um campo literário autônomo das demais esferas sociais fez com que seus integrantes se dedicassem “a tecer um léxico próprio, adotar certos hábitos e, muitos se envolveram com a crítica literária, o que indica a capacidade de reflexão do âmbito literário sobre ele mesmo” (Marach, 2013: 14).
O Movimento Simbolista e o Paranismo, que o sucedeu, se estabeleceram a partir de um devir, uma vontade coletiva de construção de identidade para os habitantes do estado e da capital (Maia, 2006). A modernidade, o imaginário europeu, o progresso advindo da ciência e das letras são elementos constitutivos dessa identidade, em maior ou menor grau. Mesmo não havendo um projeto organizado oficial, é possível perceber a presença desses elementos na produção intelectual da época.
Na última década do século XIX, a imprensa passa a ser o espaço essencial para informação e formação dos valores, comportamentos e gostos da sociedade paranaense, concentrada basicamente no território que vai de Curitiba ao litoral. É pelos jornais e revistas que a sociedade paranaense é orientada quanto aos acontecimentos políticos do país, aos cuidados sanitários, aos comportamentos éticos, quanto aos valores sociais, ideológicos e morais. E é em muitos jornais e revistas dessa época que tudo isso se agrega, como adereços, a outros textos mais substanciosos na vontade de elaboração estilística: os literários.
(Maia, 2006: 34).
Assim, a virada do século XIX para o XX marcou a formação de uma literatura paranaense e determinou, para os literatos, a vanguarda do processo civilizador (Elias, 1994). A imprensa curitibana assumiu a literatura como missão (Sevcenko, 1999), tornando-se o canal de propagação dos ideais republicanos, positivistas, científicos, filosóficos e estéticos da época.
A missão literária civilizadora veio a se concretizar plenamente, pelo menos aos olhos de seus idealizadores, no Movimento Paranista. Popularizada em 1927, com o Manifesto Paranista de Romário Martins, a proposta agregava as mais variadas expressões regionalistas de pertencimento e significação com referências ao estado do Paraná. O movimento organizou, em torno dos campos político e intelectual, uma “aliança civilizatória e modernizante expressa por meio do enaltecimento da cultural local, a valorização dos expoentes nativos e a busca pelos elementos singulares que integrariam o Paraná ao corpo da brasilidade” (Souza, 2020: 159).
A análise das pesquisas do período evidencia o forte caráter androcêntrico, visto que, em sua totalidade, compreendem a produção intelectual curitibana como uma produção feita por homens. Na grande maioria das análises, não há sequer menção da atuação de mulheres que pertenciam aos mesmos grupos e frequentavam os mesmos espaços, como o caso de Escolástica de Moraes Vellozo2. Apenas as pesquisas destinadas às mulheres, realizadas sob a perspectiva dos estudos de gênero e/ou feministas, apresentam informações sobre quem eram as mulheres que viviam essa Curitiba efervescente que pretendia deixar de ser província.
Da mesma forma, as investigações carecem de recortes de classe, raça ou sexualidade, privilegiam o sujeito universal “homem” e deixam de abordar a relevância do movimento abolicionista local, ou a evidente relação capitalista entre ervateiros e intelectuais, bem como o fato de que parte desse grupo ocupou funções em órgãos públicos ou cargos legislativos. Assim, as discussões carecem de uma maior complexificação da própria produção intelectual desses homens, tomada de forma monolítica como representante única das ideias de toda uma geração.
Outro aspecto relevante da análise é a percepção de que o apagamento da produção intelectual feminina nos estudos sobre as diversas correntes de pensamento presentes nos movimentos da época esconde também o fato de que positivistas, republicanos, maçons, anticlericalistas, liberais, anarquistas, simbolistas ou paranistas, todos defendiam um tipo de nacionalismo centrado na família e no papel doméstico da mulher. A educação e emancipação feminina eram discutidas a partir da premissa de que o lar, a maternidade e a criação dos filhos são intocáveis.
Educar a mulher, assim, não significava fornecer-lhe chance em ingressar no mundo público do trabalho, equiparando- a ao sexo oposto, mesmo porque livre-pensadores, positivistas e anticlericais compartilhavam da crença, então generalizada, da natureza imatura da “companheira do homem”. Educar a mulher era garantir a perfectibilidade de seu trabalho extremamente responsável e nobre de conduzir o lar, através da bondade, ternura, justiça e altruísmo.
(Marchette, 1996: 85)3.
É importante ressaltar que não foi identificado um debate acerca da existência de uma imprensa feminina curitibana, mesmo havendo uma considerável publicação de impressos direcionados para mulheres com ampla participação de escritoras e jornalistas, como é o caso da Revista Senhorita. As principais exceções são as pesquisas de Rossana Rossigali (2017), que investiga a revista A Sempre-Viva; e de Jasmine Santos e Nincia Teixeira (2016), que aborda o conteúdo publicado na revista Gran-Fina.
O feminismo triumphante4: intelectuais curitibanas na primeira república
Infelizmente, como era de se esperar, a produção intelectual de mulheres em Curitiba só recebe destaque ou é objeto de análise em pesquisas realizadas dentro do viés dos estudos de gênero e feministas. Longe de depor contra a produção exclusiva dos estudos de gênero, essa constatação apenas reforça os desafios que a inserção da mulher como sujeito histórico e objeto de pesquisa ainda demanda.
Demarcado esse limite, é importante registrar que há um esforço considerável para resgatar e contar a história dessas mulheres nos campos da Educação, da História, das Letras, das Artes, das Ciências e do Jornalismo. Em maior ou menor grau, a temática da produção intelectual de mulheres tem sido abordada em dissertações, teses e projetos institucionais de pesquisa, como é o caso do Centro de Documentação de Literatura de Autoria Feminina Paranaense, projeto sediado na Universidade Estadual de Maringá e coordenado por Lúcia Osana Zolin5.
A história intelectual da mulher curitibana é contada, então, a partir de uma arqueologia do saber (Foucault, 1987), rastreando vestígios de sua presença na grande história da cidade. Esse resgate dos saberes femininos começa por lançar luz e tornar relevantes temas e fontes até então descartados dos processos de pesquisa. É preciso, então, revirar o lixo da história.
Há obras que nos mostram a sala de visitas da História, com os retratos emoldurados na parede, os móveis de estilo e um belo arranjo para ser visto. Mas há pesquisas que vão aos fundos da casa, às cozinhas e oficinas, que esgaravatam os terrenos baldios onde se lançam detritos, àqueles lugares onde se movem as figuras menores e furtivas. Ali, nesses telheiros e porões, nessas brenhas domésticas, estas sombras se escondem, tapam o rosto com as mãos e fogem.
(Bosi, 1995: 7).
Nesse sentido, os primeiros vestígios dessa história são encontrados no universo das letras. Cadernos, diários, livros e textos evidenciam a importância que os processos de alfabetização e escolarização tiveram para a emancipação da mulher. Entende-se que a consciência da condição feminina – expressa na hierarquização, desigualdade e exclusão – começa a se desenvolver a partir dos processos de escolarização, pois é o acesso à leitura e à escrita que permite às mulheres uma primeira linha de escape à exclusividade das funções domésticas. Literatura, imprensa e consciência feminista, mesmo que em pequeno número, nascem ao mesmo tempo (Duarte, 2018), numa época em que a mulher se encontrava excluída da participação na esfera pública, restrita ao universo doméstico e ao papel de rainha do lar.
Aquelas que ousaram exibir o brilho de seu intelecto e romperam os limites impostos pelo poder patriarcal, publicando livros e fundando jornais, tornaram-se alijadas da memória e do arquivo oficial. Foram – em outras palavras – vítimas de memoricídio, conceito que designa o assassinato da memória e de uma cultura. No caso das mulheres, memoricídio pode também designar o processo de opressão e negação da sua participação ao longo da história, pois, ao eliminar a memória de luta e resistência ao patriarcado, a História impôs o silêncio e a invisibilidade às pioneiras, registrando apenas a timidez e o confinamento das jovens oitocentistas ao lar […].
(Duarte, 2022: 16).
Se o modelo cultural hegemônico é patriarcal, a escrita feminina acaba criando uma cultura própria, que deve ser compreendida a partir de uma perspectiva feminista que promova a complexificação historicamente fundamentada das relações culturais (Showalter, 1994). Nesse sentido, mapear os caminhos da produção intelectual permite desvelar as táticas e estratégias6 encontradas por mulheres em sua produção intelectual, bem como discutir a importância dos veículos impressos para a publicação e leitura de textos escritos por mulheres.
E independente de serem poetisas, ficcionistas, jornalistas ou professoras, a leitura lhes deu consciência do estatuto de exceção que ocupavam no universo de mulheres analfabetas, da condição subalterna a que o sexo estava submetido, e propiciou o surgimento de escritos reflexivos e engajados, tal a denúncia e o tom reivindicatório que muitos deles ainda hoje contêm. Mais do que os livros, foram os jornais e revistas os primeiros e principais veículos da produção letrada feminina, que desde o início se configuraram em espaços de aglutinação, divulgação e resistência.
(Duarte, 2018: 12).
O acesso ao mundo das Letras e suas diferentes formas de expressão possibilitou a ampliação das visões de mundo de mulheres, a expansão de seus horizontes pela leitura e escrita, permitindo que se expressassem por sua própria voz, produzindo sentidos para sua experiência pessoal e coletiva. No que lhe foi possível, a mulher curitibana se valeu da escrita e da ocupação dos espaços públicos para poder estabelecer o seu lugar. Cabe demarcar que “a mulher de Curitiba é, antes de tudo, uma mulher urbana. […] Sua história é, em essência, a história da cidade” (Trindade, 1996: 17).
Num período em que “o modelo burguês desejável era a mulher frágil, ingênua, elegante, devotada aos filhos e aos cuidados domésticos, que deveria prevalecer sobre a figura da prostituta, rebelde e desvinculada dos compromissos familiares e maternos” (Benvenutti, 2002: 65), a curitibana se apresenta como uma mulher citadina. Insere-se no espaço social e se vale do discurso da modernidade democrática republicana para alargar as possibilidades de participação da esfera política.
De forma enviesada, e quase sempre difícil, diante dos argumentos masculinos que hesitavam em dividir com as mulheres certos privilégios – a inserção no espaço público e o direito à cidadania -, propagou-se na “pacata” Curitiba o movimento feminino e feminista que então se disseminava em várias partes do mundo, exigindo não apenas o direito à liberdade de movimentos, mas também igualdade de oportunidades.
(Roncaglio, 1994: 6).
Durante a Primeira República, a mulher curitibana se beneficiou do crescimento da cidade e seu consequente progresso urbanizador, ocupando diferentes espaços que até então lhes eram restritos. O primeiro movimento se fez pela educação, com a expansão das escolas primárias e secundárias, a criação da Escola Normal e da Escola Profissional Feminina. (Trindade, 1996). A escolarização foi fundamental para o desenvolvimento da autonomia feminina e possibilitou que muitas mulheres se destacassem na atividade docente, como foi o caso de Julia Wanderley.
Outro movimento possibilitado pelo crescimento urbano foi a ocupação de postos de trabalho nos novos espaços de comércio e indústria, possibilitando que as mulheres atuassem como balconistas, datilógrafas, auxiliares de escritório, telegrafistas, escriturárias, operárias etc. É importante ressaltar que essa mudança não ocorreu sem resistência, visto que o Código Civil de 1916 “consolidou as relações patriarcais na família, ao legitimar a posição do homem como seu chefe. Foi somente a partir de 1943 que a mulher ganhou o direito de poder trabalhar fora de casa sem a autorização expressa do marido” (Boschilia, 1996: 27).
Assim, seja caminhando sorrateiramente pelas brechas do sistema ou enfrentando abertamente as forças patriarcais, as mulheres foram conquistando espaços na sociedade curitibana. Esse avanço representava disputa no próprio campo feminino, pois a resistência “às feministas” sempre se fez presente.
Aliada à educação e ao trabalho, a participação no mundo das ideias compõe a tríade da emancipação feminina no período. A valorização de atividades culturais, artísticas e sociais integra o letramento feminista das curitibanas. Formaram-se associações artísticas, culturais e beneficentes, como “Livres Pensadoras” e “Filhas de Acácia”.
[…] para as mulheres que se viam restritas ao lar, que não participavam da vida das fábricas, das repartições ou de qualquer outra forma de atividade pública, o movimento associativo, ainda que de atuação limitada, representava uma oportunidade de transpor as atividades estritamente familiares e estabelecer novos vínculos sociais.
(Roncaglio, 1994: 71).
Se as mulheres trabalhadoras encontravam algum tipo de autonomia proporcionada pela ocupação laboral e o acesso ao salário, a dominação masculina ainda se fazia presente nos códigos e no imaginário social. O modelo de mulher oriundo dos padrões de vida burgueses afetava a todas, fosse pela via do comportamento ou da moda. Foram as primeiras feministas curitibanas que passaram a ocupar os espaços da imprensa e da literatura para questionar esses padrões. Mariana Coelho, Leonor Castellano, Rachel Prado e Elvira Faria Paraná foram as principais vozes públicas que se expressaram abertamente a favor da emancipação feminina. Destas, apenas as duas primeiras foram objeto de estudos acadêmicos, principalmente nos campos da educação e da literatura.
Apesar de não haver uma pesquisa consolidada sobre a “imprensa feminina” curitibana, é certo que as mulheres das letras ocupavam todos os espaços disponíveis, principalmente em jornais e revistas, para divulgar ensaios, poemas, biografias, críticas e crônicas. A maioria das escritoras curitibanas exercia suas atividades literárias em paralelo à atividade profissional7.
As feministas: Mariana Coelho e Leonor Castellano
Mariana Teixeira Coelho (1857-1954)8 atuou como escritora, colunista e educadora em Curitiba. Apensar de ser uma das intelectuais paranaenses com maior destaque nacional no período e mesmo tendo sido objeto de uma produção acadêmica considerável, poucos são os estudos que priorizam sua participação na imprensa local e a atuação como colunista9.
Nascida em Portugal, chegou na capital paranaense em 1892, onde residiu até falecer. No ano seguinte há o primeiro registro de uma publicação da escritora na imprensa local, a poesia “Madrigal” foi publicada na revista Azul, de Júlio Pernetta. Ainda na mesma década, Mariana Coelho colabora com os jornais A República e A Penna, bem como com as revistas Galáxia e o Almanach Paranaense. Em 1899, lança o jornal literário O Beijo, apontado como o primeiro impresso local dirigido por uma mulher (Wanderley, 2021).
No ano de 1900, a escritora passa a assinar a coluna “Chronica da Moda” no jornal Diário da Tarde, e inova inserindo temáticas de cunho político e social em um espaço comumente reservado para frivolidades. No mesmo ano, acompanha o lançamento da Revista de Arte Breviário, publicando o artigo “Emancipação da Mulher”.
Em conclusão, permittir, hoje, que a mulher permaneça amarrada ao deplorável poste da ignorancia eqüivale a arriscal-a criminosamente á probabihdade de receber em compensação do seu mais nobre e espontâneo affecto, o completo anniquillamento da alma, – o que quer dizer a sua principal ruína. Teem, pois, os chefes de família e os dirigentes da instrucção, sobre quem pesa toda a responsabilidade, o dever imperioso e inadiável de preparar solicita e convenientemente o espirito feminino de forma a collocalo na altura de comprehender nitidamente, e conforme a epocha actual exige a phase de adeantamento a que nos conduziu uma precisa e natural evolução.
(Coelho, 1900).
Em 1901, publicou no Diário da Tarde a coluna dedicada à aprovação do voto feminino na França e a defesa da “marcha triunfante e assustadora do progresso social e intelectual feminino” (Coelho, 1901), iniciando um amplo debate público sobre a temática que envolveu a escritora Georgina Mongruel e o jornalista Nestor de Castro. Em 1902, inaugurou o Colégio Santos Dummont, atuando como diretora e professora de francês, mas conciliou suas atividades docentes com a carreira de escritora e colunista. No mesmo ano, fez parte da redação da revista de arte Vitrix, dirigida por Emiliano Pernetta.(Wanderley, 2021).
O livro Paraná Mental foi lançado em 1908, encomendado pelo governo do estado para representar o Paraná na Exposição Nacional de 1908, ganhando medalha de prata. A obra de Mariana Coelho foi prefaciada por Rocha Pombo e aborda a produção literária paranaense. Apensar de haver um trecho que defende a emancipação da mulher10, apenas a escritora Julia da Costa é mencionada no livro.
Em 1918, Coelho começou a lecionar na Escola Profissional Feminina e participou de diversas associações sociais e filantrópicas, A pauta feminista foi prioritária para Mariana Coelho, rendendo-lhe a posterior alcunha de “Beauvoir Tupiniquim” (Muzart, 2003), e se fez presente em sua atuação profissional, bem como em seus textos.
Há alguns pontos de sua biografia que permitem compreender como o feminismo foi um fio condutor de sua atuação pública e privada. Um exemplo é o pedido de naturalização, no qual pede urgência na concessão da documentação, visto seu desejo de exercer o direito ao voto nas eleições de 1934 (Cunha; Santiago, 2023)11. A defesa do direito ao voto feminino esteve presente em diversos momentos de suas publicações jornalísticas, bem como nos embates com outras pessoas proeminentes no debate intelectual da época. Apesar de haver uma visão de que a educação e emancipação jurídica trariam benefícios para toda a sociedade, ao capacitar a mulher para o seu dever cívico familiar, havia também uma desconfiança de que essa autonomia poderia prejudicar a missão materna e doméstica. (Trindade, 1996).
A obra mais importante de Mariana Coelho é o livro A evolução do feminismo: subsídios para uma história, publicado em 1933. Os originais já haviam sido apresentados na Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, em 1927, em encontro da escritora com Bertha Lutz e Maria e Maria Amalia Bastos de Miranda Jordão. A escritora defendia fervorosamente a ideia de emancipação feminina, mantendo-se em contato com as principais vozes intelectuais do período, não apenas em âmbito local. Também criou um arcabouço filosófico que unia diversas correntes de pensamento presentes nos círculos curitibanos.
Em 1937, publicou o artigo “O feminismo no Brasil”, no jornal Correio da Manhã, e, mesmo continuando com sua participação em diferentes associações locais, se aposentou em 1941, por problemas de saúde, vindo a falecer em 1954.
Contemporânea de Mariana Coelho, a escritora Leonor Castellano (1899-1969) foi aluna de Júlia Wanderley e figura proeminente nos círculos intelectuais curitibanos do início do século XX. Concluiu os estudos intermediários na Escola Americana de Curitiba e atuou como jornalista e professora, fazendo carreira no funcionalismo público durante os anos de 1924 a 1960, trabalhando na Secretaria e na Procuradoria da Fazenda. Em suas atividades administrou o Arquivo Público e organizou a seção de documentos da Biblioteca Pública do Paraná e da Biblioteca da Associação dos Funcionários Públicos do Paraná12.
Em homenagens após seu falecimento, é descrita como uma pessoa que costumava dirigir seu carro, que viajava todos os anos sozinha de férias para Minas Gerais e participava de diversos clubes literários em Curitiba e de outros distribuídos pelo Brasil. Dentre esses grupos, os mais importantes para sua atuação em Curitiba foram o Centro Paranaense Feminino de Cultura e o Centro de Letras do Paraná, locais onde Leonor Castellano escreveu e publicou sobre Mariana Coelho, Rachel Prado e Maria Falce de Macedo.
(Zomer, 2011: 184).
Seus escritos feministas ganharam destaque em 1924, com a publicação de uma réplica a Flavio Suplicy de Lacerda, que contestava ações feministas, indicando que as mulheres abandonavam suas obrigações domésticas e buscando ocupar o lugar masculino. Publicado no jornal Gazeta do Povo, o artigo defendia um feminismo patriota, entendendo que a formação escolar e superior feminina não iria nunca se sobrepor à sua função materna, ao contrário, viria a somar com a formação de jovens patriotas (Zomer, 2011).
A mulher, em qualquer fase da vida, deve se aprimorar em qualquer trabalho útil à sua subsistência, e assim, em ocasião oportuna demonstrar o seu alto descortino moral, e não será a crítica despeitada dos antifeministas que a fará retrogradar no grande caminho já percorrido. Felizmente a mulher vai compreendendo, com lentidão embora, o quanto ela tem sido espezinhada em seus justos direitos. Sim a mulher, num esforço grandioso e belo, procura a sua emancipação intelectual e pecuniária, aí vem a grita dos rubros antifeministas, a chamá-la de ousada. Por quê? Dizem duas palavras, escrevem e se sustentam, eis o grande crime!
(Castellano, 1924: 75).
Segundo Trindade (1996), Leonor Castellano participou da imprensa curitibana usando o pseudônimo “Flor d’Alisa”, escrevendo artigos feministas nos quais defendia o direito ao voto, o direito a casar ou não se casar com quem escolhessem e o direito a uma profissão. Além da participação nos jornais da cidade, a escritora atuou em diversas instituições associativas, como o Centro Paranaense de Letras, ao qual se associou em 1935 e presidiu entre os anos de 1950 e 1952. Também presidiu o Centro Paranaense Feminino de Cultura no período de 1961 a 1969. Castellano foi a primeira mulher no cargo de Procuradora Geral do Paraná, em 1940, e conquistou o reconhecimento de seus pares, mesmo quando escrevia em defesa dos direitos das mulheres. A escritora
demonstrou em seus artigos que as diferenças biológicas encontradas nos homens e mulheres não diferenciavam a capacidade de aprendizagem ou de desenvoltura para qualquer ação, pois na verdade eram explicações que homens davam para solapar lugares que poderiam ser de mulheres.
(Zomer, 2011: 56).
É possível afirmar, observando os debates feministas da época a partir de vestígios e referências presentes nas pesquisas, que a presença do debate feminista de primeira onda em Curitiba teve importante liderança de Mariana Coelho e Leonor Castellano. As duas escritoras não casaram e não tiveram filhos, mas defenderam o casamento e a maternidade como as mais nobres missões femininas, em consonância com o pensamento da época. Sem questionar os estereótipos de feminilidade e os papeis sociais de gênero, ambas as colunistas usaram sua voz para defender a emancipação feminina, principalmente por meio da educação e do voto.
Nesse sentido, o acesso aos lugares de produção intelectual e o reconhecimento dos pares contemporâneos foi fundamental para que levassem adiante o debate feminista, obtendo reconhecimento e interlocução, junto com outras mulheres que atuaram como jornalistas, editoras, tipógrafas e escritoras na época.
Conclusão
Apesar do avanço e consolidação dos Estudos de Gênero, ainda há um longo percurso a ser trilhado no que se refere a produzir saberes e conhecimentos sob outras que premissas que não as androcêntricas. Isso significa fugir de perspectivas biologicizantes que reformam hierarquizações por meio das diferenças sexuais e partir de uma perspectiva que compreenda as construções sociais dos estereótipos e papéis de gênero, repensando padrões identitários e criando categorias outras, que levem em consideração pressupostos estabelecidos sobre outros critérios, como os da epistemologia feminista.
Como aponta Scott (2019), gênero continua sendo usado como sinônimo de mulheres e se aplica em pesquisas exclusivamente femininas/feministas. Pensar uma história da imprensa a partir de uma perspectiva de gênero pressupõe compreender essa nuance e propor uma nova forma de uso da categoria, tensionando a história que já foi contada, não apenas para inserir a mulher em lacunas previamente traçadas, mas para recontar essa história a partir de outra premissa.
Pesquisar a história e a produção intelectual – literária e jornalística – de mulheres exige a criação de outras categorias, que entendam como relevantes experiências “femininas”, visto que estas sempre foram consideradas como pouco ou nada importantes, principalmente a partir do pressuposto de que o universo da racionalidade e da ciência é, por natureza e essência, masculino. Da mesma forma, como reforça Harding (2019: 97),
As teorias patriarcais que procuramos estender e reinterpretar não foram criadas para explicar a experiência dos homens em geral, mas tão somente a experiência de homens heterossexuais, brancos, burgueses e ocidentais. As feministas teóricas também procedem dessas mesmas camadas sociais – não por conspiração, mas em virtude do padrão histórico que leva apenas indivíduos a elas pertencentes disporem de tempo e recursos para fazerem teoria e unicamente mulheres dessa origem social fazerem-se ouvir.
Portanto, além de criar um léxico acadêmico de viés feminista, é preciso também fugir da armadilha de reproduzir estruturas hegemônicas que reforcem hierarquizações e universalismos, tão presentes na visão androcêntrica. Isso vale para a necessidade de interpretar a experiência de mulheres que viveram a primeira onda feminista e as demandas de tornar-se um sujeito de direitos na nascente república, num período pós-abolição e de reforço da função social reprodutiva feminina, por meio da figura da “rainha do lar”.
Quando estabelecemos um olhar feminista para a história intelectual, precisamos ter em mente que o fato de algumas mulheres terem rompido as barreiras da invisibilidade não impediu que fossem vistas como espécimes únicos ou relegadas a um papel coadjuvante à produção masculina. A longa jornada de ilegitimidade de mulheres na esfera pública levou a sua expulsão da história, pois as próprias categorias de referência dificultam alargar a compreensão teórica para caber um corpus feminino. Da mesma forma, a discussão da vida intelectual de mulheres é limitada pelo fato de que esse corpus é restrito, pela própria configuração social, a mulheres de elite.
Assim, reafirmando as contradições e complexidades de se estabelecer uma pesquisa de cunho feminista, defende-se a importância de mapear como essas mulheres disputaram os espaços públicos de poder e conhecimento e quais conhecimentos trouxeram para o debate com seus pares contemporâneos na imprensa.
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“A pesquisa da pesquisa é literalmente o revisitar, interessado e reflexivo, das pesquisas já realizadas sobre o tema/problema a ser investigado ou próximas a ele – falo de um revisitar interessado porque esse movimento é focalizado e trabalhado pela ótica do que essas pesquisas podem oferecer para a construção do projeto em que o pesquisador labora. O procedimento implica debruçar- se sobre o reservatório das pesquisas existentes em relação ao tema, trabalhar em processos de desconstrução, de reflexão/tensionamento e de apropriação” (Bonin, 2011: 19).
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Esposa de Dario Vellozo, Escolástica de Moraes Veloso (1874-1961) foi uma poetisa, pianista e conferencista que publicou nas revistas Clube Curitibano, Mirto e Acácia, Luz de Krotona e A Lâmpada. Também trabalhou na editoração e revisão tipográfica das revistas Esfinge e Clube Curitibano (CEDOC-LAFEP, 2023 ). Atuou como escritora e revisora dos textos do marido e é brevemente mencionada em algumas obras do período, como Um século de poesia, do Centro Paranaense Feminino de Cultura ( 1959 ); e obras atuais como Escritoras brasileiras do século XIX, de Zahidé Muzart ( 2004 ), em texto escrito por Rosana Kamita ( 2004a ), e Dicionário de mulheres de Hilda Flores ( 2011 ).
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A pesquisa de Tatiana Marchette, que investiga o pensamento anticlerical da virada do século XIX para o XX em Curitiba, é um dos poucos trabalhos que insere alguma abordagem referente às mulheres. No caso, ao analisar o pensamento anticlerical, apresenta a discussão sobre os discursos de época acerca da “mulher republicana como a alma da nação”.
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Título de um texto de Rachel Prado publicado na revista A Semana, em 1933.
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Site do centro disponível em: http://sites.uem.br/cedoc-lafep/ .
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Michel de Certeau ( 2013 ) entende tática como a ação calculada na esfera de ausência de poder, uma “arte do fraco” acionada à medida em que se abrem espaços de ação ou brechas que permitem articular a oposição de forças; e estratégia como a manipulação das relações de força empreendida por sujeitos de querer e poder.
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7
A criação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) possibilitou um novo campo de formação profissional para as mulheres, que passaram a ocupar, com algum grau de igualdade, postos até então exclusivos para o universo masculino. Médicas, engenheiras e advogadas dividem com professoras, artistas, musicistas e escritoras o espaço de produção intelectual feminina em Curitiba.
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Não há uma documentação definitiva que comprove a data de nascimento de Mariana Coelho. Rosana Kamita ( 2004b ) e Dyeinne Tomé ( 2020 ) indicam o ano de 1857, Alexandra Bueno ( 2014 ) adota o ano de 1872 e Ana Cunha e Júlia Santiago ( 2023 ) apontam o ano de 1879. Essa dificuldade se deve ao fato de que não há documentação de registro do seu nascimento em Portugal, apenas documentos referentes ao seu processo de naturalização.
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Mariana Coelho colaborou em vários periódicos, em seu país natal e no Brasil. O Comércio de Vila Real, Jornal da Manhã e A Voz Pública, em Portugal. No Brasil: Diário do Comércio, A República, O Cenáculo, Almanaque Paranaense, Gazeta do Povo, Almanaque do Paraná, A Pena, O Sapo, O Beijo, Breviário, Diário da Tarde, Folha Rósea, Olho da Rua, Fanal, A Bomba, Comércio do Paraná, Senhorita, Prata da Casa, A Sempreviva, O Estado do Paraná, entre outros (Kamita, 2004b ).
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“A despeito das muitas e várias opiniões retrógradas, em todos os grandes centros do mundo civilizado, a par dos graves problemas sociais que têm convulsionado a nossa época, há muito que ventila franca e entusiasticamente a questão da emancipação da mulher, a que o grande movimento feminista, que abrange o novo e velho mundos, tem dado impulso e determinada importância, alimentando com denodo e convicção este desideratum” (Wanderlei, 2021 ).
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A naturalização ocorreu apenas em 1939.
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As principais pesquisas sobre Leonor Castellano foram produzidas por Lorena Zomer. Há referências à produção intelectual e feminista da escritora na obra Dicionário mulheres do Brasil, organizado por Schuma Schumaher e Érico Vital Brazil ( 2000 ).
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Fonte de financiamento:
Nada a declarar.
