Homem de 56 anos, hipertenso e diabético, assintomático, submetido à tomografia computadorizada (TC) do abdome com contraste endovenoso para acompanhamento de esteatose hepática. A TC demonstrou nódulo sólido hipervascularizado na cabeça pancreática (características de lesão neuroendócrina - figura 1) e formação ovalada anterior à bifurcação aortoilíaca (Figura 2).
Nódulo pancreático. Tomografia no plano coronal, fase arterial, demonstrando nódulo hipervascularizado com características de lesão neuroendócrina na cabeça pancreática (seta)
Formação ovalada pré-aórtica. Tomografia no plano axial, fase portal, demonstrando formação ovalada anterior à bifurcação aortoilíaca (seta)
Nesta situação, o corte axial da TC pode simular uma linfonodomegalia, especialmente no contexto clínico oncológico. Entretanto, a avaliação das diversas fases do exame e das reformatações coronais e sagitais auxiliam no correto diagnóstico de uma variação anatômica vascular: um trajeto anômalo da veia cava inferior (VCI) anterior à bifurcação aortoilíaca (Figuras 3 e 4).
Veia cava inferior anómala. Tomografia com MIP no plano coronal, fase portal, demonstrando que a estrutura anterior à bifurcação aortoilíaca representa trajeto anômalo da veia cava inferior (seta)
Veia cava marsupial. Reconstrução tridimensional da tomografia demonstrando a veia cava inferior (em azul) com trajeto anterior à bifurcação aortoilíaca (em vermelho)
A embriogênese da VCI é composta por regressões, anastomoses e substituições de precursores fetais, ao fim da qual a VCI é convertida em uma estrutura unilateral, destro-posicionada no abdome, composta por quatro segmentos: hepático, suprarrenal, renal e infrarrenal.(1,2) Eventos aberrantes nesse período determinam anomalias de desenvolvimento deste sistema, possibilitando 14 variações anatômicas diferentes.(2) As mais comuns são a duplicação da VCI e seu posicionamento à esquerda do abdome.(1,3) Outras são eventualmente identificadas, a exemplo da confluência ilíaca pré-aórtica, conhecida como veia cava marsupial.(4)
A veia cava marsupial é uma anomalia congênita na qual a VCI ou a veia ilíaca comum esquerda localizam-se anteriormente à bifurcação aórtica ou à artéria ilíaca comum direita.(1,5) Essa apresentação provavelmente representa a persistência do segmento ventral do anel venoso aórtico, associada à regressão do segmento dorsal desse anel - situação oposta ao desenvolvimento normal esperado.(5)
Embora complicações como trombose venosa profunda sejam possíveis, a maioria das anomalias da VCI é assintomática.(2) Entretanto, podem gerar erros de interpretação durantes exames de imagem ao serem confundidas com lesões retroperitoneais.(2) Seu reconhecimento é útil para planejamento de intervenções vasculares e cirúrgicas.(2)
Referências bibliográficas
- 1 Babu CS, Lalwani R, Kumar I. Right Double Inferior Vena Cava (IVC) with preaortic iliac confluence - case report and review of literature. J Clin Diagn Res. 2014;8(2):130-2.
- 2 Artico M, Lorenzini D, Mancini P, Gobbi P, Carloia S, David V. Radiological evidence of anatomical variation of the inferior vena cava: report of two cases. Surg Radiol Anat. 2004;26(2):153-6.
- 3 Bass JE, Redwine MD, Kramer LA, Huynh PT, Harris JH Jr. Spectrum of congenital anomalies of the inferior vena cava: cross-sectional imaging findings. Radiographics. 2000;20(3):639-52. Review.
- 4 Ruemenapf G, Rupprecht H, Schweiger H. Preaortic iliac confluence: a rare anomaly of the inferior vena cava. J Vasc Surg. 1998;27(4):767-71.
- 5 Rocha Mde S, Lourenço RB, Chang YS, Gebrim EM, Cerri GG. Preaortic iliac confluence (marsupial vena cava): report of 4 cases. J Comput Assist Tomogr. 2008;32(5):706-9.




