Open-access Entre o corpo e a cidade: o feminismo cotidiano na literatura de Giovanna Madalosso

Between the body and the city: everyday feminism in the literature of Giovanna Madalosso

Entre el cuerpo y la ciudad: el feminismo cotidiano en la literatura de Giovanna Madalosso

Resumo

Este artigo analisa a contribuição da escritora Giovana Madalosso para a literatura feminista contemporânea brasileira, com foco nos romances Suíte Tóquio (2020) e Batida Só (2025). As duas obras iluminam tensões estruturais entre maternidade, corpo e cidade, revelando como as experiências femininas são atravessadas por relações de poder baseadas em classe, raça e gênero. Em Suíte Tóquio, o vínculo entre Fernanda e Maju evidencia a terceirização da maternidade, a desigualdade racial e a invisibilização do trabalho reprodutivo, dialogando com a crítica de Silvia Federici ao cuidado como fundamento do capitalismo. Já Batida Só constrói o corpo da protagonista Maria João como campo de batalha marcado por trauma, violência e reconfiguração subjetiva, aproximando-se das leituras de Federici, Susan Bordo e Judith Butler sobre o corpo como espaço político. A cidade, nesse contexto, aparece como um lugar ambíguo, simultaneamente opressor e libertador, conforme discutido por Rita Terezinha Schmidt. Madalosso articula esses elementos com densidade estética e crítica social, aproximando-se de autoras como Heloisa Buarque de Hollanda e Djamila Ribeiro ao propor narrativas feministas plurais. Assim, sua obra contribui para aprofundar o debate feminista na literatura brasileira contemporânea.

Palavras-chave:
corpo; cidade; feminismo; interseccionalidade; literatura brasileira

Abstract

This article analyzes the contribution of writer Giovana Madalosso to contemporary Brazilian feminist literature, focusing on the novels Suíte Tóquio (2020) and Batida Só (2025). Both works illuminate structural tensions between motherhood, the body, and the city, revealing how women’s experiences are shaped by power relations of class, race, and gender. In Suíte Tóquio, the relationship between Fernanda and Maju highlights the outsourcing of motherhood, racial inequality, and the invisibility of reproductive labor, engaging with Silvia Federici’s critique of care as the foundation of capitalism. Batida Só constructs the protagonist Maria João’s body as a battlefield marked by trauma, violence, and subjective reconfiguration, while resonating with the perspectives of Federici, Susan Bordo, and Judith Butler on the body as a political space. The city emerges as an ambiguous setting, simultaneously oppressive and liberating, as discussed by Rita Terezinha Schmidt. Madalosso articulates these elements with aesthetic depth and social critique, aligning with authors such as Heloisa Buarque de Hollanda and Djamila Ribeiro in proposing plural feminist narratives. Her work thus contributes to deepening the feminist debate in contemporary Brazilian literature.

Keywords:
contemporary literature; feminism; literary criticism; intersectionality

Resumen

Este artículo analiza la contribución de la escritora Giovana Madalosso a la literatura feminista brasileña contemporánea, particularmente en las novelas Suíte Tóquio (2020) y Batida Só (2025). Ambas obras iluminan tensiones estructurales entre la maternidad, el cuerpo y la ciudad, revelando cómo las experiencias de las mujeres están atravesadas por relaciones de poder basadas en clase, raza y género. En Suíte Tóquio, la relación entre Fernanda y Maju pone de relieve la externalización de la maternidad, la desigualdad racial y la invisibilidad del trabajo reproductivo, dialogando con la crítica de Silvia Federici sobre el cuidado como fundamento del capitalismo. Batida Só construye el cuerpo de la protagonista Maria João como un campo de batalla marcado por el trauma, la violencia y la reconfiguración subjetiva, en resonancia con las lecturas de Federici, Susan Bordo y Judith Butler sobre el cuerpo como espacio político. La ciudad, en este contexto, aparece como un espacio ambiguo, simultáneamente opresivo y liberador, tal como defiende RitaTerezinha Schmidt. Madalosso articula estos elementos con profundidad estética y crítica social, acercándose a autoras como Heloisa Buarque de Hollanda y Djamila Ribeiro en la propuesta de narrativas feministas plurales. De este modo, su obra contribuye a profundizar el debate feminista en la literatura brasileña contemporánea.

Palabras-clave:
crítica literaria; feminismo; literatura contemporánea; interseccionalidad

Introdução

A literatura brasileira contemporânea tem se afirmado como um espaço privilegiado para discutir as estruturas sociais que moldam a vida das mulheres. Nesse cenário, a escritora Giovana Madalosso destaca-se pela capacidade de transformar experiências cotidianas em dispositivos críticos que tensionam maternidade, corpo, cuidado e vulnerabilidade urbana. Com uma prosa marcada por ironia, sensibilidade e observação afiada do cotidiano, Madalosso aproxima a literatura de debates estruturantes do feminismo contemporâneo.

Ao analisar Suíte Tóquio (2020) e Batida Só (2025), este artigo busca evidenciar como a autora articula, de forma ficcional, discussões presentes em teóricas como Silvia Federici (2019), Djamila Ribeiro (2017), Rita Terezinha Schmidt (2001), Susan Bordo (1993) e Judith Butler (2019). Seu projeto literário alinha-se à proposta de Heloisa Buarque de Hollanda (2004), ao produzir narrativas que desestabilizam representações normativas do feminino e incorporam uma pluralidade de vozes e experiências.

Em Suíte Tóquio (2020), a escritora constrói uma trama que envolve as vidas de uma mulher branca de classe alta e sua babá negra e periférica. O livro apresenta a história do sequestro da menina Cora pela babá, Maju, que planeja tudo para que os pais da criança não percebam. A narrativa de Madalosso alterna entre duas perspectivas que se entrelaçam a cada capítulo. Cada uma é narrada por uma personagem em primeira pessoa, oferecendo sua própria visão do mundo. Uma delas é conduzida por Fernanda, executiva de sucesso que enfrenta dificuldades para exercer a maternidade e resiste à ideia de se sacrificar integralmente pelos cuidados da filha, Cora.

A outra é contada por Maju, a empregada doméstica, que deseja ser mãe biológica, mas tem esse projeto limitado por sua condição socioeconômica. Ao permanecer na casa de Fernanda, Maju desenvolve um vínculo crescente com a pequena Cora, construindo um “amor materno” profundo que passa a dar sentido à sua vida. O desaparecimento de Maju e Cora desencadeia uma jornada de busca que obriga Fernanda a confrontar os próprios privilégios e a estrutura desigual que sustenta sua maternidade.

A maternidade, aqui, não é um dom natural, mas uma construção social também marcada por culpa. Em um dado momento, Fernanda reconhece: “Eu terceirizei a maternidade. E agora estou pagando o preço” (Madalosso, 2020, p. 112). A escritora não poupa sua protagonista: ela a expõe, obriga-a a ver o que sempre esteve diante de seus olhos, mas que ela escolheu não enxergar, como o descuido com a família. “Fico pensando o que aconteceu comigo para eu me tornar uma turista na minha própria casa” (Madalosso, 2020, p. 19). Na obra, o ideal romântico da mãe abnegada cai por terra, revelando como o trabalho de cuidado é frequentemente terceirizado a outras mulheres, geralmente negras e pobres, em um ciclo de opressão silenciosa.

Nesse sentido, Madalosso transforma matéria literária em crítica feminista, alinhando-se a Silvia Federici (2019) ao mostrar que o trabalho reprodutivo - invisível, desvalorizado e racializado - é o alicerce silencioso que sustenta a maternidade idealizada, revelando como o cotidiano feminino é marcado por estruturas que perpetuam desigualdades. A maternidade, em Suíte Tóquio, não é um lugar de plenitude, mas de fratura, onde o cuidado é moeda, e o afeto, um campo de disputa.

Em Batida Só (2025), a protagonista Maria João, jornalista que sofre uma tentativa de agressão na rua, desenvolve uma arritmia cardíaca que a obriga a evitar emoções intensas, alterando sua rotina, seus relacionamentos e a forma como enfrenta o mundo. “Depois do que aconteceu, meu coração começou a bater fora do compasso. Como se meu corpo tivesse decidido que não dava mais para seguir fingindo normalidade” (Madalosso, 2025, p. 47). Entre limites físicos e medos emocionais, Maria João precisa reconstruir a própria vida enquanto lida com o trauma e busca recuperar o controle sobre si mesma.

Ao mesmo tempo em que oferece liberdade e anonimato, a cidade também representa o risco constante da violência de gênero, caracterizando uma representação ambígua. Maria João caminha por ruas que antes lhe pareciam neutras, mas que agora carregam a memória do medo. Essa ambivalência encontra ressonância em Rita Terezinha Schmidt (2001), que analisa como o ambiente urbano na literatura escrita por mulheres pode ser tanto um lugar de opressão quanto de reinvenção subjetiva.

As narrativas tensionam os limites entre o corpo e a cidade, o cuidado e a autonomia, propondo uma literatura que não apenas representa mulheres, mas que as interroga em suas contradições e potências. Dessa forma, ao entrelaçar experiências femininas configuradas por diferentes marcadores sociais, Giovana Madalosso (2020, 2025) constrói uma literatura que complexifica os discursos sobre o que é ser mulher na contemporaneidade. Suas protagonistas, ao habitarem corpos vulneráveis e cidades hostis, revelam como o cotidiano é caracterizado por estruturas de poder que operam de maneira sutil, porém devastadora. Não são heroínas idealizadas, mas mulheres comuns, com suas contradições, medos e desejos.

Isso posto, portanto, pretende-se refletir sobre os modos como a literatura pode operar como instrumento de crítica social e de reconfiguração das subjetividades femininas. A seguir, analisaremos como os romances Suíte Tóquio e Batida Só articulam três eixos centrais - maternidade, corpo e cidade - como dispositivos narrativos e políticos que tensionam os limites da experiência da mulher e ampliam o escopo do feminismo na literatura brasileira contemporânea.

Além disso, este artigo adota, como recorte crítico, a perspectiva da representação literária como prática social, seguindo Regina Dalcastagnè (2012), que demonstra como a literatura brasileira contemporânea reproduz desigualdades estruturais ligadas à raça, ao gênero e à classe. Para a autora, a ficção constitui “um espaço político que evidencia relações de poder e silenciamentos” (Dalcastagnè, 2012, p. 17).

Ao aplicar esse enquadramento aos romances de Giovana Madalosso, busca-se compreender como suas personagens femininas se constroem dentro de um campo de forças que articula corpo, cuidado e cidade, evidenciando processos de opressão e resistência, aproximando-se ainda mais das discussões de Butler (2019), Federici (2017, 2019) e Ribeiro (2017).

Suíte Tóquio e a maternidade como campo de tensão social

Em Suíte Tóquio (2020), a maternidade de Fernanda passa pela necessidade de performar em um ambiente corporativo competitivo, ao mesmo tempo em que carrega a culpa de não corresponder ao ideal de dedicação integral à filha. Em diversos momentos da narrativa, ela reconhece que vive numa rotina que a impede de acompanhar minimamente o cotidiano da filha. “A questão era a dificuldade que eu estava tendo para acomodar a Cora na minha vida” (Madalosso, 2020, p. 79).

Do lado oposto, Maju deseja ser mãe biológica, mas seu projeto de maternidade é constantemente adiado pelas longas jornadas e deslocamentos cansativos pela cidade e pela demanda emocional que o trabalho exige. Em um dos momentos do romance, Maju observa Cora dormindo e percebe, com uma mistura de ternura e dor, que conhece cada detalhe da rotina da menina, enquanto ninguém parece saber dos seus sonhos ou vulnerabilidades. Essa percepção sintetiza a assimetria afetiva e social que sustenta a relação entre patroa e empregada. “Pensei que aquele amor proibido de bebê e babá era culpa de dona Fernanda. Ela tinha deixado a filha no cantinho da vida, e lá no cantinho da vida tinha eu” (Madalosso, 2020, p. 141).

A dinâmica revela o que Silvia Federici (2019) identifica como o cerne da opressão do trabalho reprodutivo: o fato de que o cuidado afetivo, físico e emocional, é historicamente delegado a mulheres racializadas e de classes populares, para quem “a desvalorização do trabalho doméstico e de cuidado está no centro da opressão das mulheres” (2019, p. 41).

Em diálogo com Regina Dalcastagnè (2021, p. 110), é possível compreender que a relação entre Fernanda e Maju se inscreve em um cenário literário marcado pela desigualdade de representação. Dalcastagnè demonstra que personagens negras e de classes populares costumam ocupar posições subalternas ou silenciosas na ficção brasileira contemporânea. E Madalosso (2020) utiliza do o recurso do deslocamento da marginalidade para o centro narrativo ao conceder voz, agência e complexidade à personagem de Maju, que ganha centralidade em toda a narrativa. Essa escolha desloca o eixo tradicional de representação e evidencia a disputa simbólica que permeia a constituição das subjetividades femininas no romance.

Madalosso traduz tal estrutura em cenas que escancaram o silêncio das desigualdades no interior da casa: a maternidade biológica de Fernanda só pode existir porque a maternidade laboral de Maju é interrompida diariamente.

Não tenho família, não tenho viço pra dar padrasto pra Cora, não tenho mais óvulo pra dar irmão. Se eu abotoo o paletó, ela vai parar num orfanato ou acabar sendo sirigaita ou doméstica de alguém (Madalosso, 2020, p. 138).

Mais ainda: demonstra a persistência de uma lógica colonial que estrutura a divisão racial do cuidado no Brasil. Como afirma Djamila Ribeiro (2017, p. 22), “não basta falar de gênero sem considerar raça e classe”. O desequilíbrio afetivo e social estrutura a divisão racial do cuidado, evidenciando como a maternidade de mulheres negras é sistematicamente invisibilizada em prol da manutenção da maternidade branca e burguesa. Uma dinâmica que encontra respaldo quando “a mulher negra é colocada em um lugar de subalternidade, sendo constantemente desumanizada e reduzida à função de servir” (Ribeiro, 2017, p. 35).

O enredo evidencia ainda que Fernanda, imersa nas consequências do fracasso conjugal e na paixão por Yara, apresenta uma demora significativa em reconhecer o desaparecimento de Maju e, posteriormente, da própria filha. Tal lacuna narrativa não se restringe a um simples descuido, mas revela um processo de despersonalização da figura da babá, percebida não como sujeito autônomo, mas como parte indistinta do “exército branco”, expressão mobilizada por Fernanda para designar o contingente de trabalhadoras domésticas (Madalosso, 2020, p. 9). Essa formulação enfatiza a crítica estrutural ao modo como relações de classe e gênero atravessam a percepção da protagonista.

Ao dramatizar essa relação assimétrica, Madalosso não apenas denuncia a desigualdade, mas também convida à reflexão sobre os privilégios que sustentam o cotidiano das mulheres brancas de classe média. O desaparecimento de Maju e Cora funciona como catalisador narrativo. É somente diante do colapso do cotidiano e do casamento, e da necessidade de assumir o cuidado, que Fernanda enxerga o apagamento afetivo em que vivia, ao admitir que “não sabia o que minha filha comia, o que ela gostava, o que a fazia dormir” (Madalosso, 2020, p. 89).

A obra revela que o amor materno não é instinto natural, mas construção social, produzida em hierarquias de cuidado que se apoiam no trabalho invisível de outras mulheres. Historicamente atribuído às mulheres, o trabalho doméstico é explorado como base do capitalismo moderno. “É o pilar invisível que sustenta a produção capitalista. Sem ele, nenhuma outra forma de trabalho seria possível” (Federici, 2019, p. 25).

Federici (2019) argumenta que o trabalho reprodutivo constitui um dos fundamentos invisíveis da acumulação capitalista, na medida em que garante a reprodução da força de trabalho sem ser reconhecido como trabalho produtivo. Nesse sentido, mais do que uma exploração direta, trata-se de um processo histórico e social que naturaliza determinadas funções como femininas, deslocando-as para o campo do afeto, do dever e da moral. “O trabalho doméstico não é um serviço pessoal, mas aquilo que produz e reproduz a força de trabalho” (Federici, 2019, p. 42).

Assim, o corpo feminino passa a ser progressivamente administrado como espaço de disponibilidade permanente, onde as fronteiras entre trabalho, cuidado e vida íntima tornam-se difusas. É nesse ponto que a literatura de Madalosso oferece uma imagem concreta dessa lógica quando Maju é colocada por Fernanda em uma situação que tensiona os limites entre emprego doméstico e controle sobre a vida reprodutiva. Ao ser condicionada a engravidar como parte de um acordo de trabalho, sua vida íntima passa a ser organizada segundo uma racionalidade externa, na qual o tempo do corpo e o tempo do trabalho se confundem. Madalosso ilustra quando Maju é posta por Fernanda em uma situação de trabalho análogo à escravidão. Ela foi condicionada a renunciar a sua vida pessoal para se dedicar à família de sua patroa:

Mas pra isso eu preciso engravidar, dona Fernanda, e daí ela perguntou se o meu ciclo era regular. Eu disse que era um relógio, e ela falou que podíamos fazer o seguinte, eu folgaria um domingo por quinzena e no dia em que estivesse ovulando, era só fazer a tabelinha, eu também podia dormir na minha casa. Teria direito a uma noite de visita íntima por mês. Na hora aquelas palavras me incomodaram, visita íntima, parecia coisa de presidiária, mas logo a dona Fernanda desatou a falar do dinheiro, que aquele valor seria com carteira assinada [...] eu disse que precisava falar com meu marido. Fui lá no casulo e liguei pra ele (Madalosso, 2020, p. 36-37).

Essa captura manifesta-se na forma como as personagens transitam entre o público e privado, revelando que o lar, longe de ser um refúgio, é também um campo de batalha marcado por desigualdades de gênero. O livro expõe que o capitalismo moderno não apenas explora o trabalho assalariado, mas depende estruturalmente daquilo que não é pago, invisível e considerado “natural”: o cuidado e a reprodução da vida.

Madalosso dramatiza essa contradição ao mostrar que Fernanda demora a perceber o desaparecimento de Maju e Cora e, quando confrontada com a ausência da babá, percebe que não conhece a rotina da própria filha, revelando que o cuidado, embora invisível, sustenta o funcionamento da vida cotidiana (Madalosso, 2020, p. 95). Assim, a relação entre ambas encarna a crítica feminista: Maju é indispensável, mas sua presença é apagada, reforçando a captura do corpo feminino pelo capital e pela lógica da naturalização do trabalho doméstico.

A relação entre Fernanda e Maju não é apenas um retrato da desigualdade social brasileira, mas também uma crítica à romantização da maternidade e à invisibilização das mulheres que sustentam o cuidado alheio às custas do abandono de seus próprios filhos. Como afirma Federici, “a desvalorização do trabalho doméstico e de cuidado está no centro da opressão das mulheres” (2019, p. 41), e é justamente essa desvalorização que Madalosso expõe ao colocar em cena o cotidiano de duas mães transversas por mundos distintos, mas interdependentes.

Batida Só e o corpo como campo de batalha

Se Suíte Tóquio (2020) estrutura sua crítica na maternidade e no cuidado, Batida Só (2025) avança para uma crítica centrada no corpo e nas marcas que a violência patriarcal inscreve na subjetividade feminina. A partir da descoberta da arritmia de Maria João, inicia-se uma jornada não apenas clínica, mas existencial.

Em busca de paz, Maria João refugia-se na casa dos avós, na provinciana cidade de Moenda (Madalosso, 2025, p. 145). Entre antidepressivos e tentativas de silenciar o corpo e a alma, é surpreendida por Nico, um garoto que entra na casa com um oratório e altera radicalmente o ritmo de sua trajetória (Madalosso, 2025, p. 150-155). A jornada dos três personagens, Maria João, o pequeno Nico, e a sua mãe Sara, é uma travessia emocional marcada por urgências corporais, espirituais e afetivas. Cada um carrega sua própria ferida, em busca de cura. No percurso, descobrem um novo ritmo de vida, capaz de acolher o sentimento, mesmo quando ele assusta.

O corpo feminino aqui é literal e metaforicamente marcado pela violência. Essa leitura dialoga com Judith Butler (2019), para quem o corpo é sempre construído e vulnerável, atravessado por normas sociais que regulam sua existência e delimitam suas possibilidades de atuação: “O corpo é sempre em alguma medida normativamente construído e, portanto, vulnerável às normas que o constituem” (Butler, 2019, p. 49). Os corpos não existem fora das normas sociais que os moldam; são constituídos por elas, e essa constituição os torna expostos à violência, à precariedade e à exclusão.

Madalosso escreve sobre mulheres que não cabem nos moldes, mas que também não os rompem com heroísmo, apenas com a força silenciosa de quem insiste em existir. São mulheres que cuidam, que adoecem, que se perdem e se reinventam diante da vulnerabilidade do corpo feminino. A arritmia de Maria João, nesse sentido, funciona como metáfora narrativa para os abalos estruturais que atingem esses corpos, reiterando a literatura como lugar de denúncia e visibilidade. “Estamos dentro do corpo o tempo todo, desde o primeiro dia de vida e, mesmo assim, não há nada mais estrangeiro a nós do que o nosso corpo” (Madalosso, 2025, p. 11-12).

No caso de Batida Só, a leitura dalcastagniana permite observar como Maria João é construída dentro de um regime de vulnerabilidade que não é apenas individual, mas socialmente distribuído. Conforme aponta Dalcastagnè (2012, p. 37), a literatura expõe mecanismos de silenciamento e violência simbólica que incidem sobre corpos femininos. A protagonista corporifica, por meio da arritmia, os efeitos da violência patriarcal que ultrapassa o episódio isolado e revela sistemas de dominação que produzem corpos femininos vulneráveis. “O meu corpo se retrai, tentando entender o que está acontecendo, pressentindo o perigo. [...] aposto que a vadia tem pelo no sovaco, o do coturnos disse” (Madalosso, 2025, p. 11). Seu cotidiano passa a se estruturar em torno da vigilância, do medo e da necessidade de reinventar a própria subjetividade.

Esse processo explicita o conceito “corpo como campo de batalha” cunhado por Barbara Kruger, em 1989, a partir da criação de fotomontagem da artista para a Marcha das Mulheres, nos Estados Unidos, e explorado por Silvia Federici (2017), que mostra como as violências simbólicas e materiais estruturam o destino das mulheres: “a luta sobre o corpo das mulheres foi a primeira forma de acumulação capitalista” (Federici, 2017, p. 103). Tal dimensão se aprofunda quando a feminista afirma que “o corpo feminino foi o primeiro território colonizado; nele se experimentaram as formas de controle que depois seriam aplicadas ao conjunto da população” (Federici, 2019, p. 115). O coração de Maria João, ameaçado e monitorado, torna-se a materialização interna desse processo de colonização.

A narrativa de Madalosso sugere que a violência não se limita ao ato físico, mas se prolonga no corpo, inscrevendo-se na fisiologia e no afeto. Após o atropelamento e o diagnóstico cardíaco, Maria João passa a organizar sua vida pela contenção emocional, controlando gestos, emoções e o próprio ritmo de vida para evitar o descontrole do corpo (Madalosso, 2025, p. 40-41).

Antes local de circulação, a cidade torna-se um território hostil, um mapa de riscos. Esse campo de batalha é construído com sensibilidade e precisão. Em uma das cenas iniciais, Maria João afirma:

O ônibus estava vazio. Me sentei junto a uma janela, ainda surpresa com tudo que estava acontecendo... A cidade era bonita àquela hora, quando a sujeira era ofuscada pelas luzes. Tentei prestar atenção no que estava lá fora mas, mesmo tentando esquecer um pouco de mim, era com meus olhos que eu via o mundo. Era a partir do corpo, desse lugar do qual jamais conseguiremos escapar, que eu via o mundo! (Madalosso, 2025, p. 27).

A violência funda uma nova geografia corporal: Maria João não teme apenas o agressor, mas o que seu corpo pode fazer, ou deixar de fazer, quando submetido a emoções intensas que desencadeiam arritmias. Sua vulnerabilidade é duplicada: externa e interna. “Foram sete ou oito batidas. Ainda bem que eu estava tomando o antidepressivo ou teria surtado. [...] ainda assim o desespero apareceu no meu rosto” (Madalosso, 2025, p. 120-121). O coração, símbolo do afeto, torna-se índice de ameaça, e deixa o trauma literalizado, ou seja, converte a violência simbólica em ritmo biológico.

Ainda assim, Madalosso não reduz sua protagonista à fragilidade. Há movimento, agência e reinvenção. Em Moenda, Maria João tenta reorganizar sua vida por meio de práticas de autocuidado, espiritualidade e reconexão afetiva, num esforço de reapropriação do próprio corpo e de reconstrução de sua existência após a ruptura biográfica provocada pelo acidente (Madalosso, 2025, p. 112). O esforço de reapropriação corporal dialoga com Federici (2019), para quem a resistência feminina se constrói na retomada da autonomia corporal. “O corpo feminino constitui um campo político central, e as formas de resistência das mulheres passam pela retomada do controle sobre o próprio corpo, a sexualidade e a reprodução (Federici, 2019, p. 67).

Isso fica evidente quando a personagem viaja para Luziana, em Goiás, em busca de um curandeiro: “Era um lugar feio, um lugar pobre, um destino que eu nunca visitaria em outras circunstâncias” (Madalosso, 2025, p. 133). A deslocação geográfica simboliza também uma deslocação subjetiva. O corpo, antes capturado pelo trauma, abre caminho para modos alternativos de cuidado.

Assim, Batida Só (2025) transforma o corpo feminino em ponto de convergência entre violência e resistência. Ao inscrever o trauma no ritmo cardíaco da protagonista, Madalosso demonstra que o patriarcado opera não apenas em estruturas abstratas, mas na carne e no cotidiano. O corpo de Maria João torna-se, assim, um território politicamente ocupado, mas também lugar de luta, reinvenção e possibilidade (Madalosso, 2025, p. 43). Nele, o descompasso não é apenas patológico; é aquilo que anuncia um novo começo.

A cidade como espaço ambíguo

A cidade desempenha papel central nas duas obras. Em Suíte Tóquio (2020), Fernanda vai até regiões periféricas em busca de Maju e percebe a segregação urbana, um ambiente hostil e território desconhecido: “Eu nunca tinha pisado na Brasilândia. Era como se eu tivesse atravessado uma fronteira invisível” (Madalosso, 2020, p. 89).

Nesse caso, a cidade não é apenas cenário, mas agente de revelação das desigualdades sociais e raciais que sustentam a vida urbana. A travessia de Fernanda por espaços periféricos desestabiliza sua percepção de segurança e pertencimento, revelando como o urbano é segregado e carregado de tensões de classe. Ao circular por áreas da cidade que até então lhe eram desconhecidas, a personagem experimenta o medo e o deslocamento social, percebendo uma cidade que existia, mas que não fazia parte de sua vida cotidiana (Madalosso, 2020, p. 102). Aqui, a cidade opera como dispositivo que expõe o privilégio de mobilidade das classes médias e altas, ao mesmo tempo em que evidencia a desigual distribuição de riscos e violências.

Do ponto de vista espacial, as reflexões de Dalcastagnè (2012, 2021) também se articulam à representação da cidade nas obras de Madalosso. A autora destaca que as cidades brasileiras, quando aparecem na ficção, tendem a ser divididas entre territórios de privilégio e locais de risco, reforçando fronteiras simbólicas que estruturam a desigualdade.

Por mais solidário que seja às mulheres, um homem não vai vivenciar o temor permanente da agressão sexual, assim como um branco não tem acesso à experiência da discriminação racial ou apenas um cadeirante sente cotidianamente as barreiras físicas que dificultam ou impedem seu trânsito pelas cidades (Dalcastagnè, 2021, p. 112).

A passagem de Fernanda pela periferia e o deslocamento temeroso de Maria João pela cidade materializam tais fronteiras literárias, revelando como o espaço urbano funciona como operador político e afetivo das narrativas. A experiência das protagonistas dialoga com que Federici (2019) discute ao abordar como os corpos femininos e racializados são repetidamente demarcados por processos de controle, que se tornam ainda mais evidentes em cidades hierarquizadas do ponto de vista territorial.

O deslocamento de Fernanda não é neutro: ele materializa as fraturas estruturais que moldam a reprodução social na cidade contemporânea. Enquanto o corpo negro de Maju atravessa a cidade diariamente para trabalhar na casa da patroa, integrando o que a narrativa chama de um “exército branco” que se desloca para os bairros ricos, a cidade revela sua geografia desigual, organizada pela divisão entre quem cuida e quem é cuidado (Madalosso, 2020, p. 23).

Por outro lado, Maria João vive em constante alerta, mesmo em locais que deveriam ser familiares. Após a tentativa de agressão, ela descreve a cidade como um campo minado: “Andar sozinha virou um exercício de cálculo. Luz, gente, saída. Tudo precisa estar no campo de visão” (Madalosso, 2025, p. 53).

A cidade, que antes oferecia liberdade e mobilidade, transforma-se em um ambiente de ameaça, onde o corpo feminino precisa ser constantemente vigiado e protegido. No entanto, é também onde Maria João busca reconstruir sua autonomia, seja por meio da espiritualidade, seja pela reconfiguração de seus afetos (Madalosso, 2025, p. 112). A cidade, portanto, é simultaneamente lugar de trauma e de reinvenção.

Ao explorar essas ambivalências, Madalosso insere suas personagens em trajetórias que revelam como a localidade é caracterizada por relações de poder, medo e desejo. A cidade não é neutra; ela molda e é moldada pelas vivências femininas, funcionando como espelho das estruturas sociais que a autora se propõe a criticar. Tais experiências dialogam com Rita Terezinha Schmidt quando ela afirma que a cidade é simultaneamente representada como:

espaço ambíguo, como um lugar de opressão e de liberdade, de violência e de prazer, de anonimato e de visibilidade, onde o corpo feminino é constantemente interpelado por discursos normativos, mas também pode se reinventar (2001, p. 484).

O espaço urbano, ao mesmo tempo em que impõe limites e vigilância, abre fendas para práticas de resistência e para a construção de novas subjetividades (Schmidt, 2001). Nesse sentido, o corpo feminino transforma-se em território de disputa, pois é nele que se inscrevem tanto os mecanismos de controle quanto as possibilidades de transgressão.

A leitura das obras de Madalosso confirma essa perspectiva. Fernanda, Maju e Maria João revelam como o espaço urbano é palco de experiências contraditórias, onde o medo convive com o desejo de liberdade, e a violência, com a reinvenção de si, sobretudo quando as personagens encontram brechas para ressignificar seus percursos.

Conclusão

À luz desse percurso analítico, observa-se que Giovana Madalosso constrói uma ficção capaz de revelar, com precisão e sensibilidade, o modo como corpo, cidade e maternidade são transversais às estruturas de poder que moldam a vida das mulheres. Dialogando com Regina Dalcastagnè (2012, p. 23), que entende a literatura como campo político e de disputa representacional, evidencia-se que as narrativas de Madalosso não apenas refletem a desigualdade, mas produzem crítica social ao expor o silenciamento, a violência e a complexidade das experiências femininas contemporâneas.

É justamente na vulnerabilidade distribuída de forma desigual (Butler, 2019, p. 37) que a obra de Madalosso amplia o debate feminista na literatura brasileira ao mostrar os limites entre cuidado, autonomia e violência, reafirmando a potência da ficção como instrumento crítico e político, além de evidenciar que as mulheres vivem em corpos e cidades que as interpelam continuamente.

Em diálogo com autoras como Federici, Ribeiro, Schmidt e Butler, Madalosso constrói narrativas que ampliam o escopo da crítica feminista na literatura brasileira. Seus romances desestabilizam estereótipos, iluminam desigualdades e abrem espaço para novas formas de pensar o corpo, o cuidado e a autonomia das mulheres.

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Referências

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  • Editora
    Cristiane da Silva Alves

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Ago 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Dez 2025
  • Aceito
    20 Maio 2026
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Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade de Brasília (UnB) Programa de Pós-Graduação em Literatura, Departamento de Teoria Literária e Literaturas, Universidade de Brasília , ICC Sul, Ala B, Sobreloja, sala B1-8, Campus Universitário Darcy Ribeiro , CEP 70910-900 – Brasília/DF – Brasil, Tel.: 55 61 3107-7213 - Brasília - DF - Brazil
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