Resumo
A literatura juvenil, como legítimo objeto de estudo em vias de consolidação, tem sido alvo de múltiplo interesse e tem fomentado várias questões que dizem respeito não somente a discussão das obras literárias em si, aos estudos axiológicos, mas a relações mais amplas e complexas. Tal constatação indicia, na contemporaneidade, uma possível mudança na concepção desse gênero e nas formas de se pensá-lo, pois, segundo Ceccantini (1995), durante muito tempo, foi-lhe atribuído uma posição marginal. Diante do exposto, esta proposta realiza uma discussão ontoepistemológica sobre a literatura juvenil produzida no Brasil contemporâneo. Para tanto, apresenta, em primeiro lugar, uma discussão sobre adolescência sob a ótica de variados campos de estudo, por se tratar do leitor presumido desse tipo de obra. Em seguida, expõe brevemente o histórico da literatura juvenil, sua definição e especificidades, para, então, situá-la na contemporaneidade em seu espaço (político) no campo dos Estudos Literários.
Palavras-chave:
adolescência; estudos literários; literatura juvenil
Abstract
Young adult literature, as a legitimate object of study in the process of consolidation, has attracted multiple interests and has fostered various issues concerning not only the discussion of the literary works themselves and axiological studies but also broader and more complex relationships. Such a finding indicates, in contemporary times, a possible shift in the conception of this genre and the ways of thinking about it, since, according to Ceccantini (1995), it was attributed a marginal position for a long time. In light of the above, this proposal undertakes an ontoepistemological discussion about young adult literature produced in contemporary Brazil. To this end, it first presents a discussion on adolescence from the perspective of various fields of study, given that it is the presumed reader of this type of work. Then, it briefly outlines the history of young adult literature, its definition, and specificities, to finally situate it in contemporaneity within its (political) space in the field of Literary Studies.
Keywords:
adolescence; literary studies; young adult literature
Resumen
La literatura juvenil, como legítimo objeto de estudio en proceso de consolidación, ha sido objeto de un interés múltiple y ha suscitado diversas cuestiones que remiten no solo a la discusión de las obras literarias en sí mismas y a los estudios axiológicos, sino también a relaciones más amplias y complejas. Esta constatación evidencia, en la contemporaneidad, un posible cambio en la concepción de este género y en las formas de pensarlo, ya que, según Ceccantini (1995), durante mucho tiempo se le atribuyó una posición marginal. A partir de ello, la presente propuesta desarrolla una discusión ontoepistemológica acerca de la literatura juvenil producida en el Brasil contemporáneo. Para tal fin, en primer lugar, se presenta una reflexión sobre la adolescencia desde la perspectiva de diversos campos de estudio, dado que se trata del lector presumido de este tipo de obras. En segundo lugar, se expone brevemente la trayectoria histórica de la literatura juvenil, su definición y especificidades, para situarla finalmente en la contemporaneidad, dentro de su espacio (político) en el ámbito de los Estudios Literarios.
Palabras-clave:
adolescencia; estudios literarios; literatura juvenil
Introdução
Estudos historiográficos, críticos e teóricos dedicados à literatura juvenil (LJ) brasileira contemporânea têm interpelado e ajudado a delinear o objeto a que se dedicam (Ceccantini, 2000; Ceccantini; Cruvinel, 2009; Santos, 2011; Souza, 2001; Souza, 2015; Valente, 2014). Outros têm evidenciado a diversidade e a multidimensionalidade que lhe são inerentes, bem como as múltiplas possibilidades de abordagem teórico-metodológicas na área (Camargo; Turchi, 2015; Luft, 2010; Martha, 2008, 2011; Navas, 2015; Oliveira-Iguma, 2019; Ramos; Navas, 2016). Esse processo contribui para que essa literatura seja entendida como inovadora (Turchi, 2016) e, portanto, esteja em vias de constituir um “subsistema literário” (Dias; Carvalho, 2020). Parece, portanto, inequívoca a existência do objeto de estudos “literatura juvenil”: mas será que - do mesmo modo como causam hesitação e mal-estar subcategorias tais como literatura feminina, literatura periférica etc. no bojo da totalidade a qual se dedicam os Estudos Literários - essa categoria tem algo de particular a oferecer, que não possa ser obtido pensando-se apenas em uma literatura “sem adjetivos” (para aproveitar a produtiva categoria de Adruetto, 2012)?
Para além do objeto em sua diversidade, multidimensionalidade e inúmeras possibilidades de abordagem, Colomer (2003) pondera que a análise das narrativas infantis e juvenis1 atuais se transformam em função do ideário social acerca das noções de infância e de adolescência, de modo que não são apenas as questões internas ao campo e à área que atuam nessa movimentação. Uma compreensão mais acurada da questão exige considerar inúmeros fatores em relação: às transformações históricas do processo social, à transitoriedade das noções de adolescência e juventude, às movências da concepção de literatura (e, particularmente, de literatura juvenil) e de valor literário, às relações entre cultura e mercado, aos diálogos interartísticos, às premiações literárias, às movimentações político-ideológicas que podem produzir e têm produzido práticas de censura e de resistência, à educação escolar, às políticas públicas para o livro e a leitura, e às disputas em torno do projeto de formação humana em seus níveis macro e micro, às transformações do escritor em empreendedor de si e showman, dentre outros.
A bibliografia acadêmico-científica brasileira tem se esforçado na análise de tais questões. Narrativas Juvenis: outros modos de ler (2008), organizado por João Luis Ceccantini e Rony Farto Pereira, propõe-se a apresentar outros modos de ler a LJ, afugentando-se de uma leitura de mero entretenimento e, ao mesmo tempo, de certas visões cerceadoras oriundas de determinadas práticas escolares. Por meio da análise de várias produções literárias, assinadas por pesquisadores distintos, é possível vislumbrar uma multiplicidade de autores, temáticas e perspectivas para o estudo do gênero. Já o livro Heróis Contra Parede: estudos de literatura infantil e juvenil (2010), organizado pelos professores Vera Teixeira de Aguiar, João Luis Ceccantini e Alice Áurea Penteado Martha, como o próprio título sugere, traz discussões sobre as produções juvenis mais recentes e seu foco em temas tais como morte, suicídio, violência, questões de gênero e relações étnico-raciais e como esses temas impactam na construção das narrativas. Por sua vez, a produção Literatura infantil e juvenil: olhares contemporâneos (2020), organizado por Diógenes Buenos Aires, Fabiane Verardi e João Luis Ceccantini, propõe uma reflexão crítica sobre as obras literárias atuais, abarcando assuntos tais como o diálogo da LJ com outras linguagens e a formação de leitores, particularmente em contexto escolar.
A LJ também tem sido objeto de interesse e de pauta política. Considerando tais aspectos e, com olhar atento a um contexto de fragilização democrática, recrudescimento de políticas neoliberais e, também, de um direcionamento sistematizado de políticas públicas educacionais (ultra)conservadoras, a obra Literatura Infantil e Juvenil na Fogueira (2024), organizada por João Luis Ceccantini, Eliane Galvão e Thiago Alves Valente, reúne um conjunto de textos que pensam o fenômeno da censura e do politicamente correto em obras dirigidas prioritariamente ao público infantil e juvenil.
Em pesquisas em nível de pós-graduação, especificamente em teses de doutorado, a LJ também está presente. Um levantamento na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD) e no Catálogo de teses e dissertações da Capes, com recorte temporal entre 2015 e 2024, atesta a afirmação: utilizando apenas o descritor “literatura juvenil”, com privilégio à área de Letras / Literatura, foram encontradas 39 teses, 15 delas na BDTD e 24 no Catálogo de Teses & Dissertações da Capes.2 Nessa esteira, destaca-se o Grupo de Trabalho “Leitura e Literatura Infantil e Juvenil” da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll), que, reunindo pesquisadores de várias instituições nacionais, têm se dedicado aos estudos sobre livros infantis e juvenis, e sua respectiva relação na formação de leitores.
Artigos dos mais diversos autores e de várias perspectivas teórico-metodológicas também têm sido reunidos em dossiês temáticos de periódicos científicos especializados, cujos exemplos escolhidos serão listados em ordem cronológica: “Livro, Leitura e Literatura Infantil e Juvenil”, da Revista Contexto (Ufes) e “Literatura Infanto-Juvenil e Ensino”, da Revista de Educação e Letras (Ulbra), foram publicados em 2015; em 2017, a Revista de Letras (UTFPR) publicou uma coletânea de estudos intitulada “Literatura contemporânea e multimeios - infância, juventude e livros”; o dossiê “A literatura infanto-juvenil digital: apps, leitores e educação literária” da Revista de Educação e Letras (Ulbra) foi publicado em 2018; em 2020, “Literaturas de língua portuguesa para crianças e jovens” foi divulgado pela Revista Crioula (USP); “Literatura Infantojuvenil: Perspectivas Contemporâneas”, da Pensares em Revista (Uerj), foi publicado em 2023; por fim, os dossiês “Literatura Infantil e Juvenil”, publicado em Revista Terceira Margem (UFRJ), e o “A literatura contemporânea para crianças e jovens: espaço(s) plural(is)”, da Bakhtiniana: Revista de Estudos do Discurso (PUC-SP), foram publicados em 2024.
Eventos na área, nacionais e internacionais, têm sido profícuos. Para tanto, convém destacar, também em ordem cronológica, o XX Congresso de Estudos Literários, com o tema “Literatura Infantil e Juvenil”, realizado pela Ufes em 2018. O “VII Congresso Internacional de Literatura Infantil e Juvenil” (VII Cilij), sediado na Ufop, e o “IV Congresso Internacional de Literatura para Crianças e Jovens”, na PUC-SP, ambos ocorridos em 2023. Por fim, o “II Congresso Internacional de Literatura Infantil/Juvenil e III Encontro Nacional de Literatura Infantil/Juvenil (II Cilij / III Enlij)”, na Uerj, em 2025.
É importante também mencionar o papel dos prêmios literários como instâncias legitimadoras e distintivas de obras. Reunindo diversos profissionais da área, tais como autores, tradutores, ilustradores, reconhece seus respectivos trabalhos e a qualidade estética de parte da produção editorial brasileira. Assim, podem ser citados o Prêmio Jabuti, concedido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), e o Prêmio Literário Biblioteca Nacional, vinculado à Fundação Biblioteca Nacional, ambos com categorias dedicas à literatura juvenil. De modo mais detido, destaca-se Prêmio Fnlij, vinculado à Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (Fnlij). Criado em 1975 e dedicado apenas às obras infantojuvenis distribuídas em quase 20 categorias, além de atribuir um selo, indica autores e obras brasileiros a prêmios internacionais - dentre eles, o Prêmio Hans Christian Andersen, o maior reconhecimento internacional na área.
Os aspectos listados acima atestam a LJ como legítimo objeto de estudo em vias de consolidação, reforçam múltiplo interesse direcionado a ela e fomentam diversas questões que dizem respeito não somente à discussão das obras literárias em si, aos estudos axiológicos, mas a relações mais amplas e complexas. Essa constatação indicia uma possível mudança na concepção da LJ na contemporaneidade e nas formas de se pensá-la epistemologicamente, pois, segundo Ceccantini (1995), durante muito tempo, ela teve uma posição marginal.
Diante do exposto, esta proposta realiza uma discussão ontoepistemológica sobre a literatura juvenil produzida no Brasil contemporâneo. Para tanto, apresenta, em primeiro lugar, uma discussão sobre adolescência, por se tratar do leitor presumido desse tipo de obra. Em seguida, discute brevemente o histórico da LJ, sua definição e especificidades, para, então, situá-la na contemporaneidade em seu espaço (político) no campo dos Estudos Literários.
Adolescência em movimento
Em 2025, graças ao sucesso da minissérie britânica de drama criminal e psicológico chamada Adolescence (traduzida para o português brasileiro como Adolescência), criada por Jack Thorne e Stephen Graham, com direção de Philip Barantini, e veiculada pela plataforma de streaming Netflix, têm acontecido discussões inerentes a esse ciclo da vida em todo o Brasil. Isso porque a trama acompanha Jamie Miller (Owen Cooper), um garoto de 13 anos, acusado de assassinar sua colega de classe; ante o modo ímpar de construção da trama, da atmosfera narrativa, das atuações cênicas, da direção e da cinematografia, com a filmagem de cada episódio em um único plano-sequência - que catapultaram a obra a um estatuto que transcende o entretenimento -, as discussões fomentadas trouxeram luz à necessidade de se pensar o papel de toda uma sociedade na formação dos sujeitos, em especial na adolescência, em contexto de exposição ampla à internet e, particularmente, às redes sociais.
Muito antes disso, em solo brasileiro, a canção “Não Vou Me Adaptar”, composta por Arnaldo Antunes na década de 1980, guardadas as devidas proporções, também constituiu um material significativo para a análise desse período. Ao abordar o estranhamento, o desconforto quanto à passagem do tempo, a letra sintetiza poeticamente um processo de transformação que é central à experiência juvenil. O primeiro verso, “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia”, ao articular o verbo “caber” em diferentes tempos, evidencia o processo, a transformação: evoca não apenas a mudança corporal tão visível e característica da puberdade, mas, sobretudo, o sentimento de desamparo e inadequação. A frase “Não vou me adaptar”, repetida tantas vezes, expressa não apenas uma negação, o desconforto, como também uma afirmação das dificuldades inerentes à fase supracitada e, de igual modo, um desejo de autonomia. Ainda abre margens para se pensar numa possível rejeição em relação à normalização exigida do ser humano ao longo de seu processo de amadurecimento. Na visão sociológica de Saneh (2011), a adaptação é uma das cobranças mais recorrentes do processo formativo das gerações mais novas:
Ajustar-se aos mecanismos que regem o convívio social é, via de regra, sinal de equilíbrio, apontando para um comportamento saudável e desejável. Por outro lado, examinando a história humana como uma sucessão de atos de intolerância, violência, proliferação das condições que resultam em miséria, desigualdade e destruição - um cenário nada incomum - a adaptação significa também a rendição aos mecanismos que ontem produziram e hoje reproduzem tal cenário sombrio. [...] A adaptação assume assim duas formas distintas: entre os jovens das classes dominantes constitui um ritual de legitimação de superioridade de classe, enquanto entre os mais pobres funciona como uma ferramenta de sobrevivência (Saneh, 2011, p. 251-252).
“Não Vou Me Adaptar” pode ser compreendida como um objeto artístico que elabora simbolicamente parte do processo de constituição da subjetividade do sujeito adolescente. Em síntese, essa recusa à adaptação, mais que um ato reativo, transgressor, de revolta ou mesmo de rebeldia, ou de um período repleto de conflitos psíquicos e comportamentais, trata-se de, pela negação, de uma afirmação (subjetiva e/mas política), crítica aos dispositivos de encaixe, normalização e padronização. Aspectos como esses foram objeto de análise por inúmeros estudos em diferentes áreas do saber; a seguir, sem o interesse de esgotar o assunto, apresentam-se alguns deles, significativos para estruturar as análises posteriores.
Gregorin Filho (2011), ao traçar um breve percurso histórico sobre o tema, assegura que, em sociedades mais antigas, a entrada na vida adulta era balizada por rituais de passagem, muitas vezes violentos. Ou seja: bastava-se alcançar determinada idade, condição física e/ou certos hábitos e competências para o convívio social para que fossem atribuídas tarefas típicas de adultos. O autor ainda ressalva que, em sociedades tribais espalhadas pelo mundo, o período da adolescência não é considerado um nicho de mercado a ser explorado, nem valorizado a ponto de obter certos destaques, como nas sociedades industrializadas. Avançando um pouco mais no tempo, Gregorin Filho (2011) pondera que, no início do século XX, houve uma mudança no olhar direcionado aos jovens, muito em função de necessidades históricas. De modo mais específico, era importante um redimensionamento das vestimentas, da imagem desse jovem, de modo a aparentá-lo disciplinado, saudável, inteligente e capaz de levar a cabo, com sucesso, as demandas de uma guerra que mudaria o percurso de muitos países. No período posterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), essa mesma característica se mantém, acrescida da aproximação desse período às necessidades de consumo. Na década de 1960, comungam dois comportamentos diferentes: a juventude ligada aos padrões e, ao mesmo tempo, uma juventude mais próxima de ideais de liberdade tal como apregoados pelo movimento hippie. De modo particular, no Brasil, Gregorin Filho (2011) salienta os movimentos populares juvenis contrários à ditadura, na década de 1970, época que coincide com o “boom” da literatura infantojuvenil no país (Machado, 2011). Adiante, outro marco histórico importante é a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990). Esse documento, além de agrupar um rol de direitos desses indivíduos, delimita o período da adolescência como uma faixa etária restrita entre os 12 e os 18 anos.
Já Groppo (2004) defende uma concepção dialética das juventudes calcada na explicitação de seu caráter social e histórico, a partir de uma análise que transcenda a “adolescência” segundo a psicologia, a “puberdade” segundo a medicina e, por fim, a concepção funcionalista da juventude, circunscrita majoritariamente nas reflexões sociológicas sobre as juventudes. Em uma obra anterior, o mesmo autor pondera que a juventude compreende a faixa etária dos 13 aos 20 anos, aproximadamente, uma vez que fatores sociais e históricos tendem a influenciar no alargamento ou no estreitamento desse período, não existindo, assim, uma categorização enrijecida para a faixa etária da juventude, pois ela é “é uma concepção, representação ou criação simbólica, fabricada pelos grupos sociais ou pelos próprios indivíduos tidos como jovens”, à qual são atribuídas “uma série de comportamentos e atitudes”, e, “Ao mesmo tempo, é uma situação vivida em comum por certos indivíduos” (Groppo, 2000, p. 7). Na visão desse pensador, é um equívoco considerar a adolescência como categoria puramente biológica, derivada apenas de transformações advindas da puberdade. Para ele, a juventude tende a ser uma categoria social, proveniente da interpretação sociocultural dos significados da puberdade, esta, sim, um fenômeno aparentemente natural e universal que, todavia, tem sua importância relativizada, a depender da sociedade em que ocorre.
Para Groppo (2017), há dois tipos de problemas: quando se negligencia a relevância da juventude; ou quando se derivam da juventude categorias que passam a ser analisadas em si mesmas, tal como ocorre com delinquência juvenil, dentre outros (e a observação, aqui, talvez pudesse ser estendida também para “literatura juvenil”). Para o autor, “A juventude é, na sociologia, uma categoria social. Social pelo fato de fazer parte da estrutura social, de formar um grupo, uma coletividade de sujeitos, assemelhados pelo status etário intermediário” (Groppo, 2017, p. 13).
Por sua vez, Contardo Calligaris afirma: “Entre a criança que se foi o adulto que ainda não chega o espelho do adolescente é frequentemente vazio” (Calligaris, 2000, p. 25). Na obra Adolescência, o psicanalista discute as complexidades dessa fase da vida, afastando-se, como é de praxe à sensibilidade clínica, de um manual de boa conduta, de bom comportamento. Em posição semelhante à perspectiva de Groppo (2000, 2004, 2017), o autor pondera que o adolescente é um indivíduo que ainda está em busca de sua singularidade em meio a tantas exigências, sendo também a adolescência um período que não se restringe às transformações biológicas, mas é fruto de um período histórico-cultural. O estudo de Calligaris (2000) erige-se por meio da discussão sobre a definição da adolescência, sobre as expectativas e cobranças direcionadas a esse grupo, sobre a necessidade de reconhecimento dessa fase, bem como a visão adulta direcionada à adolescência como um ideal cultural. O autor pondera que o adolescente, em geral, é o indivíduo que, apesar de certo desenvolvimento físico, não é, ainda, reconhecido como adulto. O autor revela que se trata de uma questão bastante complexa: como ser feliz sendo privado de reconhecimento e independência? A adolescência é um período regido pela insegurança, por determinadas frustrações e contradições, mas, ao mesmo tempo, é tida como um ideal de felicidade. Exige-se a alegria, a felicidade própria de uma ausência de compromissos, todavia, simultaneamente, negam-se fatores tão relevantes para se viver em sociedade.
Mascagna (2009), por sua vez, ancorada na perspectiva teórica histórico-cultural, compreende o processo de formação da consciência individual como algo ligado às condições objetivas que são determinadas por condições histórico-sociais concretas. A autora defende que a adolescência “não se faz naturalmente e/ou biologicamente, pelo contrário, está intrinsecamente inserida na vida material e social. A puberdade, sim, está relacionada diretamente com o desenvolvimento biológico, acontece naturalmente, apesar de também estar correlacionada ao social” (Mascagna, 2009, p. 27). Após uma pesquisa de campo, cuja análise foi mediada por referenciais teóricos vincados ao materialismo histórico-dialético, a pesquisa de Mascagna (2009) mostrou que os discursos dos sujeitos sobre a adolescência têm como um de seus determinantes as concepções hegemônicas. Ou seja: para justificar certas práticas, muitas vezes vistas como simples rebeldia, recorre-se às teorias biologicistas, que explicam o comportamento como decorrente de mudanças hormonais. Ao expor os estudos realizados por Vigotski sobre a adolescência, a autora salienta que, nessa fase da vida, há um significativo desenvolvimento dos conceitos e das funções psicológicas superiores, tornando o adolescente, em geral, mais crítico e mais ativo. Para a autora, nessa fase, os jovens apresentam potencialidades que precisam ser exploradas, especialmente pela escola. Afinal, é por meio da apropriação dos conhecimentos científicos que os adolescentes podem desenvolver-se psicologicamente, expandindo a compreensão da realidade e, por conseguinte e coletivamente, ter condições de propor formas de transformação da sociedade (Mascagna, 2009).
Anjos e Duarte (2020), em confluência aos estudos de Mascagna (2009), concentram esforços em discutir a questão da adolescência, a partir da importância da formação de conceitos, como condição para o desenvolvimento psicológico. Para os autores, a adolescência não pode ser adstrita a um processo de mudanças biológicas, hormonais. Nessa perspectiva, embora não se ignore essas mudanças durante o desenvolvimento humano e não se neguem as influências da materialidade orgânica do corpo, considera-se a adolescência como fase, simultânea, de desenvolvimento biopsicológico e como um fenômeno cultural, cujo lastro histórico remonta às transformações dos modos de produção (Anjos; Duarte, 2020). A partir de estudos pautados na psicologia histórico-cultural, Anjos e Duarte (2020) consideram os pilares a seguir como atividade-guia da adolescência: a) a comunicação íntima pessoal, que, em linhas gerais, caracteriza pela reprodução dos adolescentes, das relações existentes entre os adultos; b) a atividade de estudo, que recai no interesse do adolescente pelos interesses cognoscitivos científicos e variam conforme as aspirações laborais futuras; c) formação de conceitos, cuja premissa permite ao pensamento uma compreensão mais acurada da realidade.
Leal e Mascagna (2020) analisam essa fase do desenvolvimento humano sob a ótica do mundo do trabalho. Reconhecem as transformações biológicas como importantes, mas, por outro lado, atentam para o fato de que a análise desse período apenas dessa perspectiva abre margem para a naturalização de certos comportamentos que são situados social e historicamente. Lembram, portanto, que a adolescência é uma construção histórica, que nem sempre existiu como período destacado do desenvolvimento humano. Logo, não pode ser considerada como um fenômeno universal e natural, mas como expressão da sociedade (Leal; Mascagna, 2020). As autoras tecem uma crítica ao processo de alienação, recuperam o conceito de trabalho, destacam a importância deste para o desenvolvimento humano e reforçam que, atualmente, a inserção no mercado de trabalho é um marco para a inserção na vida adulta. Esse processo pode se dar de maneira distinta, a depender da classe social, das situações concretas de existência. Em outras palavras, geralmente, os adolescentes da classe trabalhadora, sobretudo das camadas populares, são impulsionados a entrar no mercado de trabalho mais cedo.
As reflexões mencionadas são significativas para pensar que compreender a adolescência implica também compreender a realidade atual, a sociedade, com seus avanços e recuos, possibilidades e limites e não como forma enrijecida com características universais e naturais - o que atinge o debate sobre a literatura juvenil, entendida como aquela literatura que tem como leitor presumido o adolescente. Considerando o que foi discutido, pode-se elaborar a seguinte síntese: a) um período de transformações, estranhamento e inadaptação (Antunes, 1988); b) uma fase em que há um direcionamento de cobranças (Saneh, 2011); c) uma construção histórica repleta de transformações (Gregorin Filho, 2011); d) um fenômeno novo, que não se restringe às transformações biológicas, mas é resultado de um período histórico-cultural (Groppo, 2000, 2004, 2017); e) uma fase de transformações e descobertas, mas, também, caracterizada pelo olhar vigilante do adulto, inclusive fruto de desejos reprimidos desse mesmo olhar (Calligaris, 2000); f) um período complexo, que muitas vezes é explicado em convergência com o pensamento hegemônico, tributário da lógica capitalista e pós-moderna (Mascagna, 2009); g) uma fase de desenvolvimento biopsicológico e um fenômeno cultural, diretamente vinculado às transformações dos modos de produção (Anjos; Duarte, 2020); e, por fim, h) um período que precisa ser analisado sob múltiplos aspectos e que chega de modo diferente para os indivíduos, a depender da classe social; um período que desautoriza conclusões peremptórias e reducionistas; afinal, a adolescência não pode ser avaliada como um fenômeno universal e natural, vivida por todos, mas como expressão da sociedade (Leal; Mascagna, 2020).
A complexidade da fase da vida denominada adolescência estende-se por sobre a literatura produzida que tem como leitor presumido o adolescente: nem é criança, nem é adulto - categorias mais bem assentes no campo teórico ou prático. A LJ, durante muito tempo, esteve atrelada à literatura infantil (LI), ou à denominada literatura infantojuvenil (LIJ). O termo pode ser localizado, em linhas gerais, em um espaço fronteiriço, ou seja, entre a “literatura infantil” e a “literatura adulta”. A dificuldade de uma definição mais robusta justifica-se também sobre o fato de o adolescente ser percebido como aquele que não pode ser tratado como uma criança e, de igual modo, não é um adulto, ficando, portanto, em uma espécie de limiar (Patrocinio, 2020).
No tópico a seguir, serão dedicados esforços para algumas reflexões sobre a LJ. Ressaltamos que: “A arte - a literatura é a arte da palavra - nasce do e no pleno espanto de viver; interpela continuamente a condição humana - suas emoções e desejos; e faz assim, não somente em sua forma imediata, mas em todas as formas possíveis” (Britto, 2015, p. 56).
Algumas considerações sobre a literatura juvenil
Um estudo sobre LJ, de acordo com Gregorin Filho (2011), exige a percepção do vínculo desse gênero ao contexto histórico-social, que altera as concepções de juventude e o próprio processo de deformação dos adolescentes. Para o autor, as mudanças na sociedade trouxeram para a LJ uma diversidade de valores do mundo contemporâneo, as representações da população em diversos contextos histórico-sociais e, além disso, as vozes e os sentimentos dos próprios adolescentes, manifestados, inclusive do diálogo com outras produções artísticas (Gregorin Filho, 2011).
Obras literárias e autores têm se atentado a essas questões. Como exemplos, podem ser elencados: Luna Clara e Apolo Onze, de Adriana Falcão; Bisa Bia, Bisa Bel, de Ana Maria Machado; O Karaíba, uma história do pré-Brasil, de Daniel Munduruku; De volta a 1984, de Gustavo Bernardo; Uma ilha chamada livro, de Heloisa Seixas; Catálogo de Perdas, de João Anzanello Carrascoza; Lis no peito: um livro que pede perdão, de Jorge Miguel Marinho; Decifrando Ângelo, de Luis Dill; Intramuros, de Lygia Bojunga Nunes; Desequilibristas, de Manu Maltez; No corredor dos cobogós, de Paula Fábrio; O Fazedor de Velhos, de Rodrigo Lacerda; Enreduana, de Roger Melo; Iluminuras, de Rosana Rios; e, por fim, O demônio do rio, de Stella Maris Rezende.
Na análise de Perrotti (1990), se, no que diz respeito à literatura para não-adultos, o Brasil vivia substancialmente de fórmulas moralizantes, herdadas da tradição europeia do XVIII, a partir dos anos 1970, as produções literárias com novas características começam a ganhar terreno, indicando não só um redimensionamento da produção, mas, de igual modo, um aumento do interesse social pela questão. Além disso:
Os estudos realizados especialmente a partir da década de 70, do século XX, foram fundamentais para a o reconhecimento do estatuto artístico da literatura infantil e influíram de forma decisiva para a compreensão do vazio que se abria em relação ao estabelecimento de um “específico juvenil”, traços que se apresentam em obras que ocupam espaços entre aquelas voltadas às crianças e a literatura destinada a adultos (Martha, 2011, p. 1).
É a partir desse momento que as mudanças começam a ser mais significativas, uma vez que as obras procuram tanto discutir os problemas do Brasil, ainda em contexto de ditadura militar, tanto trazer à baila as especificidades, os conflitos do jovem e seu respectivo papel na sociedade. Souza (2015) compreende que a peculiaridade da literatura para jovens reside em seu destinatário privilegiado. A pesquisadora também sinaliza a década de 1970 como um marco. Assegura que a LJ adquire maior autonomia em relação à LI a partir desse momento, quando passa a constituir um “subgrupo à parte, com selos editoriais, coleções, séries e autores especializados no público jovem” (Souza, 2015, p. 16).
A autora ainda comenta a respeito dos “[a]gentes da formação e legitimação do campo literário juvenil” (Souza, 2015, p. 42), que são a escola, universidade, eventos e prêmios literários, bem como o mercado. Em linhas gerais, tais agentes podem ter seus aspectos assim delineados: a) o primeiro, a instituição escolar, deve ser analisada em sua correlação com as políticas públicas educacionais, uma vez que estas balizam programas de governo que, por exemplo, visam melhorar a qualidade da educação, também por meio de ações de fomento à leitura ou à escrita; b) as universidades, na esfera da LJ, realizam uma espécie de escolha, com fundamentação teórica e com base nos saberes que acumula em teoria e crítica literária, a fim de publicizar a diferenciação entre os polos artísticos e da indústria cultural hegemônica; c) o terceiro agente, os eventos/prêmios literários, são importantes à medida que concedem reconhecimento e marcas de distinção, a partir de certos critérios que, não raro, são alvos de disputas no campo literário; d) por fim, o mercado editorial é uma instância a ser considerada à medida que se beneficia de mudanças sociais, do avanço da tecnologia, dos delineamentos da indústria cultural hegemônica. Esta, assim como a universidade, cria significados e agencia a valoração de certas obras3, a partir, também, de aspectos paratextuais (diagramação, ilustração, fonte, cores, recursos gráficos, tamanho, tipo de papel) (Souza, 2015). Importante considerar, por outro lado, que as questões mercadológicas não são desconectadas do modo de produção capitalista. Isso significa meditar sobre a hegemonia de certas obras, autores, assuntos e conglomerados editoriais, que tendem a padronizar/moldar o gosto do público e contribuir com processo semiformativo (Silva, 2023).
A LJ é resultado de múltiplas relações. Atualmente, afastando-se de uma perspectiva moralizante intrínseca ao seu nascedouro, a LJ pode ser arte. Mas nem sempre essa possibilidade esteve assentada. Ceccantini (1995) alerta que a literatura infantil ou juvenil não foi considerada um gênero ou subgênero digno de importância, justamente por ter seu início irmanado à doutrinação, às práticas moralizantes, didatizantes, utilitaristas. Esclarece, ainda, um desprezo acadêmico da área de Letras ao campo da LIJ, que se repousa(va) justamente em questões relativas ao mercado e ao histórico que privilegia a doutrina ao invés da arte. O autor também lembra, assim como nos estudos de Zilberman e Magalhães (1982), a assimetria em relação ao gênero, uma vez que é o adulto que escreve para a criança e para o adolescente.
Nesse contexto, a adjetivação (juvenil) serve como uma espécie de filtro, como elemento, ao mesmo tempo, censor e regulador, que baliza o que, dentro do campo da Literatura, é ou não adequado aos leitores desse período. Trata-se de um ponto a ser analisado, tendo em vista a idealização do olhar adulto direcionado à infância, à juventude, o que pode interferir na esfera da produção. Além disso, é preciso compreender que a ideia de infância e juventude são noções socialmente construídas ao longo do tempo e que a LIJ já nasce sob a égide do mercado, o que, em maior ou menor grau, pode também interferir na elaboração das obras (Ceccantini, 1995).
O texto “Por uma literatura sem adjetivos”, circunscrito no livro homônimo, de Maria Teresa Andruetto, apresenta, de certo modo, outro ponto de inflexão que também faz jus à nossa atenção. Primeiramente, a autora indaga-se a respeito da serventia da ficção: “Nós, os leitores, vamos à ficção para tentar compreender, para conhecer algo mais acerca de nossas contradições, nossas misérias e nossas grandezas, ou seja, acerca do mais profundamente humano” (Andruetto, 2012, p. 54). Reflete também sobre questões atinentes à escrita, cuja crítica recai ao modelo predatório editorial, de escrita sob demanda, por exemplo.
Acerca do que interessa mais propriamente a este estudo, a autora defende a experiência estética, mas, por outro lado, avisa que, em função de estratégias mercadológicas de grandes grupos editoriais, os leitores infantojuvenis, muitas vezes, são alvos de aspectos extraliterários, como imperativo de rentabilidade. Na sua análise, certas expressões, que deveriam ser apenas informativas, acabam virando categorias estéticas:
É o que ocorre com a expressão “literatura infantil” e também, ou mais ainda, com a expressão “literatura juvenil”. Essas expressões, muito comuns nesses meios, mas, sobretudo na publicidade editorial - e especialmente nas estratégias de venda destinadas aos docentes e às escolas -, estão carregadas de intenções e são portadoras de valores (e, diga-se de passagem, a questão dos “valores” se converteu, assim, num fértil recurso de venda de livros infantis, nem sempre de qualidade, orientados para adoção escolar). O emprego desses rótulos literatura infantil/ literatura juvenil e, nesse marco, literatura de valores, literatura para educação sexual, literatura com temática ecológica, literatura sobre bons costumes e urbanidade, literatura para os direitos humanos/ literatura para aprender a viver em novas estruturas familiares (e tantas outras classificações que poderíamos preencher) pressupõem temas, estilos, estratégias e, sobretudo, as metas e o planejamento antecipado de um livro em relação a determinada função que se acredita que ele deve cumprir final [...]. E já se sabe que correto não é um adjetivo que cai bem na literatura, pois a literatura é uma arte na qual a linguagem resiste e manifesta sua vontade de desvio da norma (Andruetto, 2012, p. 58-60, grifo no original).
A autora delineia o perigo quanto ao adjetivo. Em sua análise, considerar a literatura infantil e/ou juvenil por aquilo que, supostamente, ela tem de infantil e/ou juvenil auxilia a formar um gueto de autores reconhecidos, mas, por outro lado, incorre-se no risco da desvalorização, uma vez que delimitar demais o campo pode contribuir para o desinteresse de outros leitores que não pertencentes a esse público. E acrescenta:
O grande perigo que espreita a literatura infantil e a literatura juvenil no que diz respeito a sua categorização como literatura é justamente de se apresentar, a priori, como infantil ou como juvenil. O que pode haver de “para crianças” ou “para jovens” numa obra deve ser secundário e vir como acréscimo porque a dificuldade de um texto capaz de agradar a leitores crianças ou jovens não provém tanto de sua adaptabilidade a um destinatário, mas, sobretudo, de sua qualidade, e porque quando falamos de escrita de qualquer tema ou gênero o substantivo é sempre mais importante que o adjetivo (Andruetto, 2012, p. 61).
Diante dessas observações e ciente da especificidade do objeto em pauta, quanto à ausência ou não de adjetivação, talvez seja interessante pensar uma série de fatores, tais como: a) a formação de “guetos” pode ocorrer, também, fora do campo da LJ, uma vez que, a partir da égide da indústria cultural, determinados assuntos, autores, livros e conglomerados editoriais tendem a ter maior popularidade, influência, que outros (literatura negra; literatura indígena; literatura contracultural; literatura de mulheres etc.); b) o fato de certas produções não terem a adjetivação não é atestado de qualidade; um texto literário bom ou ruim depende de inúmeros fatores, inclusive não literários; c) as adjetivações, “infantil”, “juvenil”, “infantojuvenil” não implicam, necessária e fundamentalmente, em superficialidade no tratamento de temas, uma simplificação da linguagem, isto é: a ignorância da premissa polissêmica, plurissignificativa ou metafórica do literário; d) essas mesmas adjetivações podem sim serem alvo de um mercado predatório, mas, simultaneamente, podem ser produto e produtor de outros modos de se pensar os sujeitos criança e adolescente, artística e academicamente, seus temas, medos, sua influência social, enfim, seu universo; e) conforme já delineado no tópico anterior, ainda que não haja uma definição peremptória dos termos infância, juventude, é importante pensar em seus traços distintivos; f) as literaturas infantil, juvenil ou infantojuvenil, tanto pelo seu percurso histórico, tanto pelo seu endereçamento prioritário, permitem pensar, com maior cautela e singularidade, questões inerentes ao campo das fronteiras entre Literatura e Educação e isso corresponde a aspectos tais como educação literária, leitura literária, formação de professores, políticas educacionais, fomento à leitura, congressos acadêmicos, organizações da sociedade civil, prêmios literários etc..; g) permite também reconhecer com mais distinção um mercado editorial voltado a esse público, além de ações, programas, projetos, interesses de instituições públicas ou privadas, com ou sem fins lucrativos, que propõem, balizam, sugerem, cooperam para as atividades de apoio à leitura entre crianças e adolescentes e jovens; h) ao longo do tempo, a adjetivação pode permitir que sejam traçados estudos importantes sobre questões próprias do universo infantil e juvenil com maior especificidade. Num país tão desigual como o Brasil, voltar-se com mais atenção à infância e à adolescência pode ser bastante significativo.
Considerações finais
Feitas as observações, é relevante pontuar que, assim como os demais textos literários, a LJ “traz um discurso que dialoga com outras manifestações textuais no conflito de vozes dessa sociedade, ou seja, ela não é um veículo à parte na sociedade, também está carregada de valores ideológicos e de conflitos sociais” (Gregorin Filho, 2011, p. 31). Do mesmo modo como qualquer tentativa de traçar identidades fixas e determinadas mostra-se, em primeiro lugar, idealista e, por isso mesmo, incompatível com uma realidade histórica em constante transformação, revela-se, de igual modo, impertinente uma defesa apaixonada da noção de literatura juvenil.
Mas, contraditoriamente, do mesmo modo como é necessário tentar minimamente conceituar o que seja uma mulher, um negro, uma pessoa LGBTQIAP+ etc. para estabelecer mecanismos sociais de proteção aos sujeitos identificados com essa categorias, parece-nos fundamental, nesta quadratura histórica e nas condições em que pesquisamos as obras dadas a público tendo como leitor presumido o adolescente, circunscrever, sim, o que seja literatura juvenil, sem perder de vista os problemas e limites ontoepistemológicos dessa escolha.
Um estudo como esse também pretende demonstrar que as pesquisas que enunciam como objeto a LJ se mantêm como um espaço político necessário, já que, em um passado muito recente, as obras literárias que tinham o adolescente como leitor presumido não encontravam guarida sequer como um legítimo objeto de investigação e reflexão no âmbito dos Estudos Literários.
Ceccantini (2000), a respeito dos estudos de LJ, alerta que:
Desse modo, num país em que sequer a produção contemporânea de “outra literatura” consegue ser razoavelmente assimilada e deglutida pelo meio acadêmico, o que tem sido feito em termos da pesquisa voltada para os enormes números, dígitos, cifras que envolvem o universo da literatura infanto-juvenil contemporânea deixa ainda muito a desejar. Faltam: obras de referência de toda sorte - biografias, dicionários, antologias, entre outros; estudos monográficos sobre um determinado autor ou uma determinada obra, dos mais simples, aos mais complexos, que procurem integrar ambos os aspectos na análise; pesquisas mais generalistas, que deem conta de questões teóricas representativas para a literatura infanto-juvenil brasileira; estudos panorâmicos, considerando conjuntos de autores e obras, empenhados em apontar tendências estéticas, ideológicas etc.; estudos voltados para a recepção da literatura infanto-juvenil em contexto escolar; isto, para citar de modo genérico algumas entre outras lacunas (Ceccantini, 2000, p. 20-21).
Até que tenhamos superado essas lacunas de pesquisa e estabelecido a dignidade não apenas do objeto literário que tem como leitor presumido o adolescente, mas dos próprios adolescentes como legítimos sujeitos-de-cultura historicamente situados (como temos advogado ao longo dessa reflexão), parece-nos oportuno advogar o estatuto ontoepistemológico da literatura juvenil no âmbito dos Estudos Literários no Brasil contemporâneo.
Declaração de Disponibilidade de Dados
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1
Nesta proposta, as questões atinentes à literatura juvenil serão o objeto central de estudo.
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2
Há, evidentemente, nesses repositórios, pesquisas sobre literatura infantil, leitura literária, educação literária, ensino de literatura, formação de leitores, estudos sobre a infância no decorrer desse tempo, temas que se relacionam à empreitada, contudo, para esta proposta, as pesquisas que aqui foram privilegiadas, em nível de doutorado, dizem respeito a um objeto de estudo em específico: a literatura juvenil. Além disso, sabe-se que num país de grande extensão territorial como o Brasil, há centenas de universidades e programas de pós-graduação, na área de Letras. Por isso, sabe-se que, eventualmente, algumas teses de doutorado podem estar armazenadas apenas nos sites desses programas e não necessariamente nos dois repositórios privilegiados nesta pesquisa.
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3
Na dissertação intitulada Semiformação socializada entre as telas e as páginas: uma análise de livros infantojuvenis mais vendidos no Brasil (2011-2021), Silva (2023), a partir de uma análise dos livros que tiveram maior destaque no mercado editorial brasileiro, discorre acerca dessa valoração, ou seja, do papel do mercado editorial na formação do gosto do público infantojuvenil.
