Resumo:
A pandemia da covid-19 trouxe desafios para os processos de ensino aprendizagem prevalentemente presenciais e gerou grandes mudanças na metodologia de trabalho dos educadores devido ao dtanciamento social. Nesse contexto, como se deu a mediação da leitura através das bibliotecas escolares no Brasil? Quais foram suas estratégias e ações de mediação e incentivo à leitura colocadas em prática de maneira remota, bem como os recursos utilizados nesse processo? Esse cenário e essas perguntas são o fio condutor deste trabalho, no qual, o referencial teórico que norteia esta discussão contempla temas correlatos, como a importância da leitura, a cultura digital, os impactos da pandemia sobre a sala de aula e a contribuição da biblioteca escolar. Para a coleta de dados de uma pesquisa qualiquantitativa foi aplicado um questionário eletrônico semiestruturado para profissionais à frente de bibliotecas escolares do país. Posteriormente, foram convidados alguns respondentes desse questionário para uma entrevista semiestruturada. Os sujeitos da pesquisa relataram sucessos e dificuldades na promoção da leitura à distância com os usuários-leitores, e reafirmaram a importância da leitura, da biblioteca escolar e da mediação da leitura. Constatamos que os respondentes de bibliotecas escolares da região Sudeste desenvolveram mais ações de incentivo à leitura se comparados aos profissionais de outras regiões. Os resultados indicaram que os profissionais atuantes na biblioteca escolar conseguiram promover a interação entre a biblioteca escolar, a formação do leitor e o meio digital, e que com disponibilidade de tempo e planejamento foi possível lograr em mediar a leitura mesmo com o distanciamento social.
Palavras-chave:
biblioteca escolar; formação do leitor; mediação de leitura; ensino à distância na pandemia
Abstract:
The covid-19 pandemic brought challenges to teaching-learning processes that were predominantly face-to-face and generated major changes in educators' work methodology due to social distancing. In this context, how did reading mediate through school libraries in Brazil? What were your mediation and reading encouragement strategies and actions put into practice remotely, as well as the resources used in this process? This scenario and these questions are the guiding thread of this work, in which the theoretical framework that guides this discussion includes related themes, such as the importance of reading, digital culture, the impacts of the pandemic on the classroom and the contribution of the library school. To collect data for a qualitative and quantitative research, a semi-structured electronic questionnaire was applied to professionals in charge of school libraries in the country. Subsequently, some respondents to this questionnaire were invited to a semi-structured interview. The research subjects reported successes and difficulties in promoting distance reading with reader-users, and reaffirmed the importance of reading, the school library and reading mediation. We found that respondents from school libraries in the Southeast region developed more actions to encourage reading compared to professionals from other regions. The results indicated that professionals working in the school library were able to promote interaction between the school library, reader training and the digital environment, and that with the availability of time and planning it was possible to mediate reading even with social distancing.
Keywords:
school library; reader training; reading mediation; distance learning during the pandemic
1 Introdução
Em março de 2020, devido à pandemia do novo coronavírus, o Brasil implementou medidas restritivas de isolamento e distanciamento social que resultaram no fechamento das instituições de ensino e na suspensão das atividades escolares presenciais. Para dar continuidade ao processo educacional, essas instituições migraram para o formato on-line, adotando aulas virtuais síncronas e assíncronas, disponibilizadas por meio das plataformas das escolas e/ou utilizando recursos disponíveis nas redes sociais.
As aulas em formato on-line tentaram manter a regularidade das aulas presenciais do período anterior à pandemia no que se refere ao conteúdo disponibilizado por série e disciplina. Por vezes o processo de escolarização de um indivíduo é tido como sinônimo de aprendizagem de leitura e escrita, sobretudo entre a Educação Infantil e o término do Ensino Fundamental. No entanto, a leitura que se trabalha na escola não é apenas um instrumento de alfabetização, mas um recurso para que o indivíduo tenha um senso crítico mais aguçado, de modo a tornar-se mais sensível às questões do cotidiano. Grande parte do conteúdo abordado nas aulas on-line reforçou a importância da leitura e da escrita de forma integrada, uma vez que a formação do leitor é uma competência essencial que atravessa o ensino de todas as disciplinas.
A formação do leitor não é tarefa exclusiva dos professores em sala de aula, mas também da biblioteca e dos profissionais que lá trabalham. Muitos percebem esse espaço apenas como um local para realização de tarefas escolares obrigatórias e para a guarda de materiais. Torna-se, então, imprescindível reconhecer a biblioteca escolar como propícia a múltiplas e importantes ações de mediação para a formação do leitor, o que transcende o espaço físico, chegando remotamente às casas dos usuários, uma vez que a mediação de leitura pode ser feita no formato digital, audiovisual e oral. Nesse contexto as bibliotecas são vistas como mecanismos disseminadores e provedores de informação, e as instituições educacionais, como formadoras, ambas compelidas a reformular suas práticas e estratégias enquanto aguardavam o “novo normal”.
A biblioteca escolar destaca-se como um importante recurso para auxiliar e complementar as atividades de ensino aprendizagem, uma vez que ela pode contribuir para o fomento à leitura e colaborar na concretização do projeto pedagógico escolar. Em vista disso, e mesmo no cenário pandêmico, é essencial que a biblioteca escolar continue a exercer suas atividades na prestação do serviço de referência, na disseminação da informação, na formação do leitor, no suporte pedagógico, entre outros.
O surgimento da covid-19 “forçou” as bibliotecas a aprimorarem (e em alguns casos a criarem) seus canais virtuais para estender os seus ofícios e atividades na prestação de serviços e, por conseguinte, tornou-se imprescindível investigar as práticas de mediação, principalmente no que se refere à promoção do livro e da leitura durante a pandemia do novo coronavírus. Tais ações e atividades poderão contribuir futuramente para o estabelecimento de mais um passo na evolução da biblioteca escolar no Brasil.
Nessa reinvenção é válido apropriar-se dos processos tecnológicos e das redes, ou seja, acompanhar as mudanças temporais. Não se deve pensar a tecnologia apenas como uma ferramenta, mas sim como um canal educativo e formativo. À vista disso, Sousa e Maçaneiro (2018) afirmam que a midiatização da leitura e da escrita requer da escola um redimensionamento de seu papel, para que assuma com competência renovada o ofício da lição. Neste contexto almejou-se investigar as experiências de mediação e incentivo à leitura, visando a formação de leitores mesmo à distância, filtrando as ações divulgadas por profissionais atuantes em bibliotecas escolares de distintas regiões do país nas mídias, como Instagram, Facebook e Whatsapp, durante a pandemia da covid-19.
Durante a pandemia da covid-19, foi produzido muito material sobre os desafios do ensino remoto no Brasil, sobretudo na Educação Básica. No entanto, ainda há uma grande lacuna em relação ao papel da biblioteca escolar na mediação de leitura nesse período. Este artigo, portanto, aborda a mediação de leitura realizada no ambiente da biblioteca escolar durante a pandemia, com o objetivo de contribuir para a formação do sujeito leitor.
Este artigo intenciona contribuir para elucidar questões como: de que estratégias as bibliotecas escolares lançaram mão no que concerne à formação do leitor durante a pandemia? Como os profissionais que atuam nesse espaço continuaram seu trabalho de mediação da leitura e da informação no formato remoto? Quais foram as práticas de mediação de leitura empreendidas em um momento tão peculiar? Em quais regiões do Brasil ocorreram mais ações de mediação de leitura tendo a biblioteca escolar como protagonista e como isso foi manejado?
É importante ressaltar que este estudo tem como objetivo revelar os caminhos pelos quais os profissionais atuantes na biblioteca escolar se reinventaram durante um período tão difícil e delicado de nossa história recente, esforçando-se para dar continuidade às práticas de leitura. Com isso, busca-se compreender o impacto dessas ações na formação do leitor, fornecer subsídios e reflexões para futuras pesquisas sobre a mediação da leitura à distância, e contribuir para o avanço e o debate nos estudos sobre a biblioteca escolar.
2 Contribuições teóricas
Para fundamentar a pesquisa de campo, foi adotado um referencial teórico que abrange diversas áreas do conhecimento, como Educação, Ciência da Informação e Letras, as quais dialogam e interagem com este estudo. Com base nesse referencial, apresentamos algumas reflexões que contribuem para a discussão em questão.
2.1 O ato de ler e a irrupção do sujeito
A leitura pode ser uma competência de elevado significado para o sujeito, acrescentando-lhe novas experiências, criando e reformulando ideias já existentes, relacionando a informação apreendida com suas vivências, pois cada sujeito leitor tem sua forma de ler. A leitura quando se torna reveladora da palavra e do mundo se constitui em mais um instrumento de domínio da argumentação, além de promover o combate à ignorância e alienação. Vale frisar que se trata de uma prática social e histórica, sofrendo, assim, transformações com o passar dos tempos.
Freire (2009) descreve que o ato de ler precisa ser uma prática consciente. A leitura de mundo por parte do leitor sempre foi fundamental para a compreensão da importância do ato de ler, de escrever ou de reescrevê-lo, e transformá-lo através de uma prática consciente. O leitor deve aplicar uma significação de sua experiência existencial e não da experiência do educador.
Para Francisquete (2014) a leitura auxilia no domínio da escrita, pois quem lê bem e assiduamente consegue ter mais desenvoltura na hora de escrever, porque incorpora modelos de estruturação de ideias e amplia o seu repertório de palavras. Para a autora a escola tem um papel muito importante na formação de bons leitores, pois é o lugar ideal para conscientizar os alunos da importância da leitura e de colocá-los em contato com diversos tipos de textos.
Butlen (2016) explica que saberes cognitivos e metacognitivos em relação à interpretação de texto fazem a diferença na qualidade das leituras. Quanto mais um leitor tiver o domínio das estratégias de leitura, mais terá o domínio do letramento de forma eficaz. Letramento que, segundo Soares (2001), tem no seu núcleo as práticas sociais de leitura e de escrita, e está para além da aquisição do sistema de escrita, ou seja, para além da alfabetização. A autora ainda disserta que a leitura explora as dimensões sociais, cognitivas e culturais. Em suma, as práticas de leitura alimentam as outras práticas culturais, com elas dialogam e se combinam permanentemente com a literatura, a poesia, o teatro, a música, a pintura, as artes visuais, a fotografia e o cinema.
2.2 Mediação da leitura
De acordo com Vygotsky (1993), as interações sociais são essenciais para a constituição dos indivíduos, e o conhecimento acumulado ao longo da trajetória humana ocorre por meio de um processo de mediação entre os sujeitos. No contexto escolar, especialmente na biblioteca, essa perspectiva redimensiona a relação entre os envolvidos na mediação, promovendo um diálogo que possibilita o compartilhamento de ações durante o processo de construção do conhecimento. Isso favorece a troca de ideias e o desenvolvimento do capital intelectual humano.
Para Bortolin (2010) a mediação de leitura pode ser definida como um meio, geralmente realizada por um indivíduo, que facilita a relação entre o leitor e o texto. Essa mediação pode acontecer em vários locais, mas na escola prevalece o ambiente da sala de aula. No entanto, é imprescindível afirmar e reconhecer a biblioteca escolar como propícia para múltiplas e importantes ações de mediação para a formação do leitor, ou seja, para eventos de letramento, como contação de história, empréstimo de livros, roda de leitura, pesquisa bibliográfica, colagens poéticas, incentivo à redação e escrita, saraus literários, propostas de leitura dos mais diversos gêneros literários, elaboração de clipping, debates literários, incentivo à pesquisa científica, encontro com o escritor e muitas outras. Todas essas atividades de mediação podem ser feitas no espaço da biblioteca por bibliotecários com a parceria de professores e educadores em geral.
Existe uma relação entre biblioteca, livro (em diversos formatos e suportes) e a leitura. O desafio consiste em estabelecer uma conexão entre esses três elementos e a formação de leitores competentes, incluindo a biblioteca escolar e a equipe que nela atua como ponte para estabelecer essa conexão. É importante pensar nos projetos de práticas de leitura como forma de valorizar a biblioteca escolar e fazer com que os alunos também a valorizem. É essencial incentivar o uso de diferentes tipos de fontes de informação, através do planejamento de atividades que busquem despertar nos alunos o interesse pela leitura. Nos estudos da informação e comunicação, a noção de mediação veio se transformando nos últimos anos, passando da ideia de transmissão unilinear, concebida nas teorias clássicas e alicerçada na figura de um mediador ou de uma mídia, para um processo em que intervêm diferentes agentes técnicos, sociais e culturais (Marteleto; Couzinet, 2013).
Pires e Accorsi (2018), profissionais da área de Letras, defendem a importância da formação do leitor literário na biblioteca escolar. Segundo as autoras, essa formação vai além do simples incentivo ao hábito de leitura; é necessário preparar o leitor para vivenciar a experiência literária. Elas aconselham que o bibliotecário, em colaboração com o professor, reconheça a natureza conotativa do texto literário, compreenda as características dos gêneros textuais e literários, e contextualize o texto adequadamente. Um bom aproveitamento de uma obra literária, conduzido pelo mediador, pode levar o leitor a novas compreensões. Uma obra literária significativa é aquela que transforma os horizontes do leitor, permitindo que ele se sinta produtivo e enriquecido pela leitura.
Já Souza, Hernandes e Balsan (2015) destacam a importância de se dinamizar o processo de leitura, tanto na sala de aula quanto na biblioteca escolar, pois constituem espaços nos quais os alunos desenvolvem suas capacidades leitoras, com o uso competente das estratégias de leitura, e o comportamento leitor, tornando-se capaz de socializar critérios de escolha e de apreciação estética de leituras. No contexto da pandemia, em que a sala de aula e a biblioteca ultrapassaram os limites físicos da escola e se expandiram para o campo digital, esses conceitos tornam-se ainda mais essenciais.
O distanciamento social forçou a todos a trabalharem com inovação e exigiu do mediador criatividade para tornar um livro um texto acessível a todos, que é o ponto de partida de uma ação cultural renovadora, além de garantir a participação atuante na sociedade letrada. “Quem aprende a ler e a escrever e passa usar a leitura e a escrita, a envolver-se em práticas de leitura e de escrita, torna-se uma pessoa diferente, adquire um outro estado, uma outra condição” (Soares, 2001, p. 36).
2.3 A biblioteca escolar e a formação do leitor
A biblioteca escolar tem sua atuação intimamente ligada à educação e percorreu um grande caminho no cenário brasileiro. Assim como a educação no Brasil ela apresenta muitas lacunas em sua história. Segundo Silva (2011), a biblioteca escolar no Brasil tem seu início com os religiosos jesuítas no estado da Bahia, com o objetivo de instruir colonos e catequizar os índios. Pode-se afirmar que a relação inicial entre biblioteca e o contexto escolar e educativo estava diretamente relacionada à igreja. Várias bibliotecas religiosas se instalaram pelo país, mas poucos tinham acesso a elas: somente religiosos e membros da elite. Ademais, seu acervo era limitado a obras religiosas.
Ao longo do século XX a biblioteca escolar se expandiu, chegando às escolas consideradas mais carentes, especialmente públicas. As reformas educacionais propostas pelo educador Anísio Teixeira ajudaram a legitimá-la no sistema de ensino. Nas décadas de 1940/50, houve a aproximação da biblioteca escolar com outros instrumentos escolares, como exigências políticas para sua instalação, a necessidade de se pensar o seu acervo (criando diretrizes para este) e a participação da comunidade escolar, ou seja, somente a partir desse momento é sinalizada a importância de adequar a criação das bibliotecas às necessidades educacionais.
Todavia, ainda faltava uma política nacional para bibliotecas que pudesse compor um conjunto de ações integradas, pois existiam apenas ações locais isoladas, que foram perdendo força durante o transcurso histórico em virtude da falta de incentivo. Nas décadas de 1990 e na primeira década do século XXI, observaram-se, em nível nacional, algumas políticas para o desenvolvimento da biblioteca escolar brasileira, como o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) (Silva, 2011).
Em um levantamento bibliográfico com vistas a identificar as publicações a respeito da biblioteca escolar no Brasil, Granados (2020) constata que ainda permanece a ausência e a precariedade dessa instância nas escolas. Uma expectativa de melhoria surge em 24 de maio de 2010 com a promulgação da Lei 12.244/10 que dispõe sobre a universalização das bibliotecas. No teor da Lei:
Art. 1º As instituições de ensino públicas e privadas de todos os sistemas de ensino do País contarão com bibliotecas, nos termos desta Lei. Art. 2º Para os fins desta Lei, considera-se biblioteca escolar a coleção de livros, materiais videográficos e documentos registrados em qualquer suporte destinados a consulta, pesquisa, estudo ou leitura. Parágrafo único. Será obrigatório um acervo de livros na biblioteca de, no mínimo, um título para cada aluno matriculado, cabendo ao respectivo sistema de ensino determinar a ampliação deste acervo conforme sua realidade, bem como divulgar orientações de guarda, preservação, organização e funcionamento das bibliotecas escolares. Art. 3º Os sistemas de ensino do País deverão desenvolver esforços progressivos para que a universalização das bibliotecas escolares, nos termos previstos nesta Lei, seja efetivada num prazo máximo de dez anos, respeitada a profissão de Bibliotecário, disciplinada pelas Leis nos 4.084, de 30 de junho de 1962, e 9.674, de 25 de junho de 1998. Art. 4º Esta Lei entra em igor na data de sua publicação (Brasil, 2010).
Se antes exigiam-se bibliotecas para as Universidades, agora tal premissa se estende também às escolas da Educação Básica. Além da educação de qualidade, o acesso a uma biblioteca escolar bem estruturada tornou-se direito de todos. Porém, o Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, de 2019, revelou que anos após a promulgação da Lei ainda há certa “negligência” em relação a sua execução. Os dados apontam que o percentual de escolas de Educação Infantil com biblioteca é de 95,5% na rede federal, 64,9% na rede privada, 54,8% na rede estadual e 31,6% na rede municipal (INEP, 2021).
Silva, Santos e Furtado (2019) enxergam a biblioteca escolar como um complemento à sala de aula. Para os autores a leitura pode estimular na criança o interesse pelos livros e despertar a sua imaginação e criticidade. Essas são atividades que o bibliotecário e o professor podem desenvolver juntos, de diferentes maneiras, sendo uma delas a parceria no desenvolvimento de projetos educativos. Portanto, a sala de aula e a biblioteca podem e devem ser ambientes complementares de aprendizagem. Entretanto, é preciso enfatizar que a biblioteca não se limita a apoiar o programa pedagógico do professor. Ela também pode ser protagonista no processo de ensino aprendizagem por meio da pesquisa escolar e demais serviços. Faz-se necessário desconstruir a concepção utilitarista de biblioteca de que ela só serve para fornecer livros a qualquer hora, sem uma troca de ideias sobre as ações educativas que estão acontecendo na sala de aula, principalmente no que diz respeito às ações de leitura.
2.4 A biblioteca e a pandemia da covid-19
A pandemia do novo coronavírus gerou grandes mudanças nos métodos de trabalho, estudo e lazer a nível mundial, devido à exigência da quarentena, a fim de evitar a propagação da covid-19. Isso afetou diretamente a prestação de serviço das bibliotecas e outras instituições de cunho cultural. Nesse marco em nossa história os processos educativos optaram, em grande escala, em se apropriar dos elementos tecnológicos, das redes, ou seja, foram demandados a realizar suas práticas de forma virtual, acompanhando a população e a amparando no momento de isolamento social, garantindo sua continuidade. Nesse cenário pandêmico a biblioteca teve que aprimorar e até mesmo criar canais virtuais para estender seus serviços.
Segundo a International Federation of Library Association (IFLA) (IFLA; 2020) as bibliotecas, em todo mundo, foram impactadas pela pandemia da covid-19. Quase todas as bibliotecas tiveram que fechar suas portas e suspender seus serviços presenciais, ofertando seus “produtos” remotamente, de modo que não houvesse prejuízo para o seu usuário. Ainda de acordo com a IFLA (2020), grande parte das bibliotecas pelo mundo passou a oferecer os seus serviços de forma on-line, ampliaram datas de empréstimo e suspenderam as multas. Muitas bibliotecas ofertaram assinaturas digitais gratuitas e a liberação de serviços integrados.
Seguindo por este viés, Frota et al. (2020) apresentam o Projeto COVID 19/Carro Biblioteca, da Universidade Federal de Minas Gerais, que levou informação às comunidades periféricas, de forma remota, através das redes sociais, e de um programa de rádio que abordava assuntos sobre a pandemia, além da literatura por meio de contação de histórias. Os autores acreditam que “[...] acesso à informação e a educação científica é um direito difuso e coletivo e, portanto, é dever das instituições públicas contribuírem para a efetivação desse direito, sobretudo para comunidades com acesso precário às políticas públicas” (Frota, et al., 2020, p. 242).
Fonseca (2021) investigou as ações realizadas pela biblioteca universitária no período da pandemia. O autor observou que praticamente todas as bibliotecas pesquisadas passaram por dois processos desde o início do distanciamento social: adaptabilidade dos seus serviços informacionais, e imersão tecnológica no uso de ferramentas e plataformas de streaming. As bibliotecas, independente da sua tipologia, foram diretamente impactadas pelas mudanças no planejamento anual, o que interferiu na gestão e no calendário de programação das atividades, exigindo que elas criassem estratégias de inovação e uma gama de ideias para modificar a abordagem na mediação da informação com os usuários. Foram promovidas lives, bate-papos com especialistas, eventos científicos on-line, clubes de leitura, atendimento virtual etc.
Essa necessidade de adaptabilidade desencadeou uma nova imersão no uso de plataformas digitais. As bibliotecas precisaram imergir no uso do streaming para captar usuários potenciais e atender aos usuários reais, de modo que o planejamento das atividades não fosse totalmente prejudicado. Quispe-Farfán (2020) relata exemplos de bibliotecas ao redor do mundo, principalmente as europeias, que aumentaram o número de empréstimos de livros e revistas eletrônicas, audiolivros, filmes e demais recursos digitais. Muitas bibliotecas instalaram o serviço de drive-thru, levando o livro até os usuários, respeitando normas sanitárias. Também aconteceram promoções de muitas conferências virtuais, chats com o bibliotecário, recitais, clube de livros virtuais etc. Naple Forum (2020)1apudQuispe-Farfán (2020) demonstrou a importância da biblioteca no período da pandemia exemplificando com simples atitudes: a situação da covid-19 levou bibliotecas a ressurgirem com o uso de um dispositivo praticamente obsoleto: o telefone fixo. Esse foi um aparato essencial na época da quarentena, especialmente para pessoas que não dominavam as tecnologias digitais. Algumas bibliotecas brindaram seus usuários com a leitura de livros por meio de ligações.
Todavia, as ações rápidas para implementar seus serviços foram transferidas para o mundo digital. O uso de redes sociais como Facebook, Instagram e Twitter, ou em plataformas como Youtube e Spotify, tem sido extenso, e essas redes se tornaram as melhores formas de se comunicar com seus usuários. Essas foram as melhores ferramentas para que as bibliotecas enfrentassem os desafios do século XXI. A apropriação das plataformas virtuais e digitais durante a pandemia de covid-19 foi fundamental para que as bibliotecas oferecessem seus serviços, tendo-se em vista a necessidade de manter o distanciamento social e seguir com os protocolos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
No entanto, nem tudo é perfeito. Muitas bibliotecas enfrentaram problemas, como desligamento de pessoal e internet de má qualidade, sem falar naquelas que sequer têm acesso a um serviço de internet. Quispe-Farfán (2020) evidencia que na América Latina há pouco investimento em bibliotecas e em serviços de informação. Ao passo que muitas bibliotecas puderam prestar serviços de forma remota, outras tantas estiveram com suas portas fechadas na crise pandêmica. Ao longo dos anos, grande parte dos gestores de bibliotecas concentraram-se no acervo físico, quando as bibliotecas também podem funcionar on line, pois também são “cultura, educação e informação digital”. Não dá mais para continuar com essa visão reduzida. A pandemia só evidenciou que é necessário que as bibliotecas manejem os meios tecnológicos, bem como projetem serviços virtuais e semipresenciais.
A investigação das ações voltadas para a formação de leitores, promovidas pelas bibliotecas escolares durante a pandemia do novo coronavírus, pode oferecer insights valiosos para problematizar a prestação de serviços no ambiente digital. Durante este período, em que as mediações de leitura precisaram ser adaptadas para o formato remoto, surgiram novas experiências que podem apontar alternativas, caminhos inovadores e possibilidades de transformação. Essas experiências, ao serem compartilhadas, contribuem para a construção de novos sentidos e conhecimentos sobre a formação do leitor e a disseminação da informação. Além disso, elas trazem à tona novas percepções sobre o papel que a biblioteca pode ocupar nos espaços escolares, especialmente no contexto do ensino remoto.
Para isso, as redes sociais têm se mostrado uma importante fonte de comunicação com os usuários, como o Instagram, o Facebook e o WhatsApp, que poderão ser utilizados pelas bibliotecas. Dentre as diversas ideias implementadas em algumas bibliotecas durante a pandemia está o drive-thru de livros. O usuário que desejasse utilizar esse sistema deveria enviar um e-mail ou mensagem pelo WhatsApp da biblioteca que, em seguida, um funcionário verificava o pedido no acervo e deixava a obra disponível e higienizada para ser retirada na portaria. A comunicação com o usuário era mantida de forma efetiva, comunicando quando a obra estivesse a sua disposição.
Algumas das ações realizadas pelas bibliotecas escolares durante a pandemia foram destacadas por Curti e Wellichan (2021): (i) investimento em serviços técnicos tradicionais realizados à distância, como capacitações e orientações, além da criação de clubes da leitura, páginas de contação de história e oficinas com orientações sobre a pesquisa; (ii) criação de canais específicos em redes sociais e plataformas de livre acesso, com conteúdo variado (resenhas de livros, palestras, entrevistas, clube do leitor, eventos ...), além da exploração desses meios ao divulgar serviços e orientações diversas; (iii) recomendação de livros em formato digital, seguida da recomendação de encaminhar um vídeo contando sobre a obra; (iv) separação de livros impressos e higienizados disponibilizados para empréstimos domiciliares; (v) participação de escritores em videochamadas.
A pandemia, portanto, foi uma oportunidade para as bibliotecas aumentarem e aprimorarem suas atividades. Serviços digitais devem caminhar junto aos tradicionais, e produtos e serviços devem surgir dessa nova realidade. As bibliotecas podem criar um sistema consciente e participativo dos processos que envolvem a mediação da leitura, mantendo-se em sintonia com o momento vivido.
Parceira na formação de leitores e na prática da leitura, alguns serviços da biblioteca foram incluídos como parte do ensino remoto. Especialmente nas bibliotecas escolares, com trabalhos colaborativos com professores, os bibliotecários estão buscando novas formas para continuar apresentando a leitura para seus usuários. Cada setor que trabalha com a promoção da leitura ou oferece serviços a ela relacionados possui especificidades, e durante a pandemia tiveram que se ressignificar para continuar a oferecer condições de atuação.
3 Itinerário metodológico
A primeira etapa consistiu em uma revisão bibliográfica exploratória baseada em especialistas de diversas áreas, utilizando fontes como os Anais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), o catálogo de periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), o banco de teses e dissertações do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e a Base de Dados Referencial de Artigos de Periódicos em Ciência da Informação (BRAPCI), cobrindo o período de 2015 a 2021.O objetivo foi contextualizar as questões orientadoras da investigação com pesquisas contemporâneas sobre bibliotecas escolares e uso de tecnologias.
Após a aprovação do Comitê de Ética da Universidade do Estado de Minas Gerais, a pesquisa de campo foi conduzida por meio das redes sociais. Para identificar profissionais atuantes em bibliotecas escolares no Brasil, foi realizada uma triagem sistemática no Instagram e Facebook, utilizando hashtags relevantes. O contato inicial ocorreu por meio de mensagens diretas e publicações em grupos do Facebook. Uma participante sugeriu um grupo de WhatsApp com bibliotecários, o que ampliou significativamente o alcance da pesquisa. Apesar do interesse demonstrado pelos profissionais, a taxa de resposta ao questionário foi baixa, levando a pesquisadora a realizar contatos diretos com possíveis participantes. Além disso, a pesquisa incluiu bibliotecas escolares que divulgaram suas atividades durante a pandemia.
Entre julho e setembro de 2021, foi aplicado um questionário semiestruturado, composto por perguntas abertas e fechadas, via Google Forms. O formulário foi enviado a 248 pessoas por meio das redes sociais, WhatsApp e e-mail, resultando em 77 respostas - um retorno de aproximadamente 31,7%. Com base na análise inicial, quatro profissionais foram selecionados para entrevistas aprofundadas: dois por relatarem experiências bem-sucedidas em mediação de leitura e dois por considerarem ineficazes as ações realizadas durante a pandemia. As entrevistas foram analisadas à luz de referenciais teóricos sobre mediação de leitura, formação do leitor e uso de tecnologias e mídias sociais, permitindo uma compreensão mais ampla das estratégias remotas adotadas e dos desafios enfrentados.
4 Análise dos dados
A compilação dos dados do questionário eletrônico foi realizada juntamente com os resultados das quatro entrevistas, em geral convergentes, daí não haver necessidade de distinguir em seções distintas seu conteúdo. Respostas pontuais, pouco expressivas ou inespecíficas não foram consideradas aqui.
Pesquisas apontam que a proporção de bibliotecas escolares que possuem o profissional bibliotecário é ínfima. Segundo Paiva (2018), muitos consideram a função de bibliotecário como uma designação genérica para quem trabalha na biblioteca, podendo ser professor, aluno ou funcionário remanejado de outra área da escola que, independentemente do nível de formação, é chamado erroneamente de bibliotecário. (Paiva, 2018). Entretanto, a maior parte dos participantes desta pesquisa (80,3%) era formada em Biblioteconomia. Isto se explica porque a pesquisadora é bibliotecária e através de sua rede contatou mais escolas que possuem um bibliotecário. A diferença entre a porcentagem de profissionais que atuam na rede privada (60,5%) para as demais instâncias foi grande: 17,1% na rede municipal; 11,8% na rede federal; e 10,5% na rede estadual.
Estes dados corroboram com o estudo de Campello et al. (2016) que investigou as reações à Lei 12.244/10, que dispõe sobre a universalização das bibliotecas, constatando que o seu déficit foi o tema em maior evidência. Os autores do referido estudo mostraram que a falta de bibliotecas atinge principalmente as escolas de Ensino Fundamental e que a rede privada está em melhor situação do que a pública. Ainda neste viés há o trabalho de Travassos (2019) que analisou as práticas de leitura em escolas públicas. O que parece ser tendência é a substituição das bibliotecas escolares pelas salas de leitura, local cujo acervo é composto exclusivamente por livros disponíveis para empréstimo.
Sobre o quantitativo de bibliotecas escolares que efetuaram ações de mediação de leitura, separadas por regiões brasileiras, o resultado foi de 16,5% para o Sudeste, 13,2% para o Nordeste, 9,24% para o Sul, 2,64% para o Norte, e 1,98% para o Centro-Oeste. Vale destacar o desempenho da região Nordeste no que concerne à quantidade de bibliotecas, ficando pouco atrás do Sudeste. Tal fato parece coadunar com o que foi apontado na 5ª Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (Instituto Pró-Livro, 2021). O estudo realizado a cada quatro anos pelo Instituto Pró-Livro revelou que a região Nordeste é a que mais lê. A pesquisa expôs que a região tem cinco entre as dez capitais brasileiras com maior percentual de leitores.
Vale ressaltar que este estudo não teve como objetivo reunir, durante o processo de coleta, todas as bibliotecas escolares brasileiras que desenvolveram e promoveram ações de mediação de leitura no formato remoto durante a pandemia da covid-19. As limitações de tempo, recursos financeiros e humanos destinados à pesquisa impediram que a triagem abrangesse todos os profissionais atuantes em bibliotecas escolares em um país de dimensões continentais como o Brasil.
A pesquisa demonstrou que houve grande diversificação no uso de mídias sociais e demais plataformas digitais, sendo possível indicar mais de um meio utilizado para a realização de mediação de leitura. De acordo com os dados colhidos no questionário eletrônico a plataforma mais utilizada foi o Whatsapp, seguida do Instagram, Facebook e YouTube, e e-mail. Outros meios citados foram: Twitter; Google Meet; Teams; bibliotecas virtuais; aplicativo Conexão Escola; Zoom; site da própria escola; Google Classroom; RPN (Rede Nacional de Ensino e Pesquisa) e Moodle. Um dos participantes informou que fazia a mediação com material impresso para os estudantes, mas não especificou como isso foi realizado. Somente quatro respondentes disseram que não realizaram ações durante a pandemia, aguardando o retorno do modo presencial.
A internet e a tecnologia estão integradas ao cotidiano, e a biblioteca escolar não deve ignorar esse avanço. Paiva (2018) ressalta que a introdução da tecnologia, especialmente com a web 2.0, exige que a biblioteca escolar repense sua atuação. Sua tese mostra que, embora os alunos (nativos digitais) utilizem smartphones para diversas atividades, preferem ler livros impressos. Questionados sobre a resistência em não poder acessar materiais impressos, 57,3% dos usuários demonstraram resistência, 28% não sentiram resistência, 14,7% não souberam responder.
Questionou-se aos respondentes o que entendiam por mediação e incentivo à leitura. A maioria definiu a mediação e o mediador como uma “ponte” entre o livro e o leitor, destacando a importância do acervo nesse processo. Outras respostas foram mais pragmáticas, associando a mediação ao ensino de técnicas de leitura ou a estudos dirigidos. Também houve quem visse a mediação como uma contribuição para formar leitores críticos, incentivar a leitura por prazer e promover reações cognitivas, emocionais e socioculturais.
A mediação é um ato que pode favorecer a comunicação entre os sujeitos. De acordo com Bortolin (2010), é necessário abrir espaços (lacunas de tempo) de maneira a contribuir para trocas, sejam elas científicas, culturais, afetivas, informacionais. O que se almeja é que o leitor em formação esteja rodeado de bons mediadores de leitura, dentre os quais familiares, amigos, professores, bibliotecários, editores, jornalistas, artistas e livreiros, ou seja, aqueles que saibam usufruir, incentivar e partilhar o gosto pela leitura.
Os participantes da pesquisa reconheceram a importância da leitura, compreendendo que vai além da simples decodificação de palavras. Muitos associaram a leitura ao prazer, à estética e ao aprendizado, além de destacarem seu poder de engajamento e autoconhecimento. A leitura, como prática social, exige um esforço coletivo, pois, como afirma Perrotti (1990, p. 63), “[...] a leitura não é um ato natural, mas cultural e historicamente demarcado”. Esse intercâmbio de experiências permite ao leitor apropriar-se do texto e das ideias, ampliando horizontes e promovendo uma visão plural da vida.
Sobre a possibilidade de contribuírem na formação de leitores críticos apesar do distanciamento social as respostas foram as seguintes: a grande maioria, 70 respondentes, se mostrou otimista, atribuindo essa possibilidade à força de vontade, trabalho árduo, cooperação de outros atores da escola e da família, fazendo bom uso das plataformas digitais disponíveis. Demonstraram ainda que esta tarefa não podia parar, pois além de ser um processo que contribui para a educação ainda proporcionou algum conforto num momento tão singular, além de ajudar a manter o cidadão bem-informado.
Para verificar quais projetos a equipe da biblioteca desenvolveu remotamente durante a pandemia da covid-19, as respostas indicaram que muitos desses trabalhos terão benefícios duradouros e não foram apenas soluções temporárias. Todos os participantes da pesquisa responderam a essa pergunta, destacando que as atividades realizadas foram diversas e nenhuma se destacou como a mais mencionada. Realizaram-se clubes de leitura; uso de bibliotecas virtuais e plataforma de livros digitais; leitura e concurso de poesias de forma remota; momentos de contação de história; postagem de vídeos; dicas de leituras e postagem de cartazes informativos em grupos de mensagens instantâneas; saraus; lista de divulgação de obras; divulgação das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT); explicação sobre variados gêneros literários; drive-thru com empréstimo de livros para os estudantes; hora do conto; encontro com autores e contadores de histórias por meio de plataformas digitais; empréstimo agendado; utilização de e-books; divulgação de sites de FANFIC ou mangás; e promoção de lives.
Apenas seis respondentes relataram não ter realizado nenhuma ação, seja devido ao fechamento da biblioteca por ordem da diretoria, à falta de suporte necessário, ou por terem optado por melhorar o acervo físico, comprando livros, catalogando e organizando as estantes, em preparação para o retorno das atividades presenciais.
Todos os participantes mostraram interesse em discutir sua relação pessoal com a leitura, o que é crucial para entender como isso afeta seu trabalho na formação de leitores. Quase todos responderam que se consideravam leitores, e apenas quatro indicaram que não se consideram leitores, por diversas razões. Os demais mencionaram motivos como a relação com a profissão, o hábito frequente de leitura, o prazer e amor pela leitura, os estudos, o ato de mediar e as ressignificações obtidas através da leitura.
Almeida Junior e Bortolin (2009) compreendem que o mediador de leitura tem que ser leitor, pois ao defender algo como essencial é necessário que se tenha propriedade e experiência na área dos gêneros textuais, conhecimento a respeito de autores e obras, ler muito e sempre compartilhar com os usuários-leitores o que está lendo, o que possibilita efetividade na ação de mediar a leitura. A criança ou o jovem que se identifique com uma pessoa que goste de ler será influenciado favoravelmente, possibilitando o desenvolvimento de sua leitura.
Sobre os desafios em mediar a leitura durante a pandemia os participantes demonstraram diversos percalços: não saber manejar bem aparatos tecnológicos; editar vídeos; manter a atenção dos usuário-leitor; aspectos psicológicos e emocionais; higienização constante de livros e demais materiais; a falta de contato humano (presencial); conseguir atender a todos os públicos da escola; falta de apoio da direção e coordenação da escola; falhas sistêmicas; e dificuldade dos alunos em acessar os conteúdos e materiais.
Em relação a eventuais dificuldades enfrentadas pelo público-alvo da biblioteca, para usufruir dos serviços prestados durante a pandemia, 94% dos respondentes disseram que seus usuários não apresentaram dificuldades. Aos que identificaram dificuldades por parte de seus usuários explanaram que foram limitações de caráter tecnológico, como falta de acesso à internet ou aparelho adequado; desinteresse dos alunos; demora na adaptação ao formato remoto; aspectos psicológicos e emocionais; falta de supervisão de um adulto.
Os participantes da pesquisa foram questionados sobre a importância atribuída à biblioteca escolar durante a pandemia. A grande maioria, 73 respondentes, atribuiu notabilidade e valor às bibliotecas escolares no período da pandemia no ano de 2021 (ano da aplicação do formulário eletrônico), reconhecendo também a importância do seu labor enquanto profissional atuante na instituição. Curti e Wellichan (2021) dissertam que para aproveitar o espaço aberto pelas ferramentas tecnológicas na pandemia, bibliotecários de várias localidades aderiram às conversas on-line, com sugestões de leituras, resenhas de livros, dicas de pesquisa etc.
As autoras acreditam que tais ações desenvolvidas no período pandêmico com uso da tecnologia também deverá ser uma prática a ser adotada no período pós-pandemia devido à praticidade de troca e compartilhamento de informações. Se os profissionais atuantes na biblioteca escolar se empenharem e agirem com criatividade será sim possível valer-se dos recursos que foram utilizados durante a pandemia, fazendo do espaço da biblioteca um local tecnológico, possibilitando o alcance a mais usuários e facilitando diferentes maneiras de efetuar a mediação de leitura.
Fontelles (2021) argumenta que propor atividades na biblioteca escolar de forma remota ou híbrida pode ser um facilitador para que toda a comunidade possa se envolver, já que facilita o acesso de muitos em atividades de leitura. A capacidade das bibliotecas de promover a leitura depende diretamente da diversidade de serviços que ela dispõe. Seu uso será cada vez mais intenso quanto melhor for a qualidade dos serviços prestados para viabilizar a leitura.
5 Considerações finais
A pesquisa confirmou que a tecnologia é uma aliada crucial, oferecendo novas estratégias e recursos para a difusão da leitura e a formação de leitores nas bibliotecas escolares brasileiras. O estudo revelou a determinação dos mediadores em manter a biblioteca ativa e investir na formação de leitores críticos e autônomos, apesar das dificuldades e dos protocolos da pandemia. Os entrevistados acreditam no potencial da biblioteca escolar e na importância da promoção da leitura, corroborada por especialistas que destacam o poder da leitura em expandir a compreensão do leitor sobre a vida, o contexto em que vive e sobre si mesmo.
Os resultados dos questionários e entrevistas, analisados com base no Referencial Teórico, destacam a importância das práticas de leitura nas bibliotecas escolares para além do espaço físico. Para afirmar a biblioteca escolar como um local relevante na promoção da leitura, é essencial o planejamento, a colaboração com professores e a coordenação escolar, além do uso eficaz de ferramentas digitais. As adaptações realizadas durante a pandemia foram fundamentais para atender às novas demandas tecnológicas e responder às mudanças rápidas da sociedade global, que exige adaptabilidade, criatividade e inovação (Sabino, 2008).
A biblioteca escolar tem se mostrado um instrumento dinâmico e interativo, facilitando o acesso dos alunos a livros mesmo durante o distanciamento social. Através das ações de mediação de leitura, os usuários exploram o mundo do saber, das descobertas e da imaginação, além de desenvolver e aprimorar habilidades como vocabulário, comunicação e consciência crítica.
Durante a pandemia, muitas atividades foram adaptadas para o ambiente digital. Bibliotecários e profissionais da biblioteca realizaram mediação de leitura de forma não presencial, utilizando contação de histórias, bate-papos on-line com escritores, teatro de fantoches virtual, narrativas orais, saraus de poesias, clubes de leitura, debates, produção de textos para blogs, e outros formatos digitais. Assim, a mediação de leitura na biblioteca escolar pode ocorrer tanto em formatos tradicionais, quanto digitais, audiovisuais e orais.
Os estudos e os achados dessa pesquisa revelaram diversas possibilidades a serem exploradas na relação entre práticas de leitura, atuação dos profissionais de biblioteca escolar, o espaço, a formação do leitor e o meio digital. Isso destaca a relevância de pesquisas como esta. O campo ainda possui muitas lacunas, o que convoca estudiosos a investigar as práticas de leitura durante a pandemia e suas possíveis contribuições para a educação. Além disso, é importante analisar se as bibliotecas, após a reabertura, continuam operando de forma presencial ou se adotam modelos híbridos, semipresenciais ou remotos, mantendo as práticas desenvolvidas durante o distanciamento social.
A biblioteca escolar no Brasil mudou significativamente após 2020, quando a covid-19 se espalhou. A pandemia destacou a necessidade de investir em tecnologia para a prestação de serviços, forçando os profissionais do setor a se reinventarem e aprimorarem suas práticas. Esse momento marca uma etapa na reconstrução e evolução das bibliotecas escolares brasileiras. Com a evolução tecnológica e a mudança na busca por informações, as bibliotecas têm adaptado seus serviços. Essa inovação é urgente e necessária, não apenas na disponibilização do acervo, mas também na postura da equipe. Assim, na era da internet e da informação, é essencial redefinir as políticas de leitura e reformular os projetos das bibliotecas.
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