Open-access Impactos da mobilidade acadêmica na produção científica: evidências da Plataforma Lattes

Impacts of academic mobility on scientific production: evidence from the Lattes Platform

Resumo

A mobilidade acadêmica tem sido um fenômeno relevante no Brasil, influenciando a trajetória e a produtividade científica dos pesquisadores. Este estudo analisa a relação entre mobilidade acadêmica e produção científica de doutores brasileiros, utilizando dados da Plataforma Lattes processados pelo framework LattesDataXplorer. A metodologia envolveu a extração e análise de 381.462 currículos de doutores, considerando três grupos: aqueles que não migraram, os que migraram nacionalmente e os que tiveram mobilidade internacional. Foram examinadas publicações em anais de eventos e periódicos classificados pelo Qualis CAPES - 2017-2020. Os resultados indicam que a migração acadêmica impacta positivamente a produtividade científica. A mediana de publicações em anais de eventos aumentou após a migração, com maior volume entre os que migraram dentro do Brasil. Em periódicos, a maioria das publicações se concentra em estratos superiores do Qualis - A1 e A2 -, sendo mais expressiva entre os doutores com experiência internacional. Conclui-se que a mobilidade acadêmica favorece a colaboração e o impacto da pesquisa, mas não é o único fator determinante da produtividade. Incentivos à mobilidade, especialmente em nível nacional, podem fortalecer redes científicas e contribuir para a excelência da pesquisa no Brasil.

Palavras-chave:
mobilidade acadêmica; produção científica; Plataforma Lattes; Qualis CAPES; doutores brasileiros

Abstract

Academic mobility has been a relevant phenomenon in Brazil, influencing the trajectory and scientific productivity of researchers. This study analyzes the relationship between academic mobility and scientific production of Brazilian PhDs, using data from the Lattes Platform processed by the LattesDataXplorer framework. The methodology involved the extraction and analysis of 381,462 doctoral researchers’ curricula, considering three groups: those who did not migrate, those who migrated nationally, and those who had international mobility. Publications in conference proceedings and journals classified by Qualis CAPES - 2017-2020 - were examined. The results indicate that academic migration positively impacts scientific productivity. The median number of publications in conference proceedings increased after migration, with a higher volume among those who migrated within Brazil. In journals, most publications are concentrated in higher strata of Qualis A1 and A2 -, being more expressive among PhDs with international experience. It is concluded that academic mobility favors collaboration and research impact, but it is not the only determining factor of productivity. Mobility incentives, especially at the national level, can strengthen scientific networks and contribute to research excellence in Brazil.

Keywords:
academic mobility; scientific production; Lattes Platform; Qualis CAPES; Brazilian doctors

1 Introdução

A mobilidade geográfica no Brasil tem se consolidado, ao longo das últimas décadas, como um fenômeno de grande relevância no contexto das transformações sociais, econômicas e educacionais do país. Particularmente, a migração interna emerge como um dos elementos centrais dessa dinâmica, sendo motivada por múltiplos fatores, entre os quais se destacam as desigualdades regionais, a concentração de recursos institucionais e a busca por melhores condições de vida. Dados de estudos recentes indicam que, em média, entre 10% e 30% da população residente nas cidades brasileiras é composta por indivíduos que não nasceram ou não vivem em seus estados de origem (Almeida; Zanlorenssi, 2017), evidenciando o expressivo volume de deslocamentos motivados por razões estruturais e aspiracionais.

Dentre os principais vetores dessa mobilidade, sobressaem-se a procura por instituições de ensino superior localizadas em outras unidades federativas, geralmente associadas a maior prestígio acadêmico, infraestrutura qualificada e oportunidades mais amplas de formação. Soma-se a isso o desejo de vivência em contextos regionais distintos, os quais proporcionam experiências formativas mais ricas do ponto de vista social, cultural e profissional (Lombas, 2017). Nesse cenário, a mobilidade estudantil e acadêmica aparece não apenas como um reflexo das desigualdades territoriais brasileiras, mas também como uma estratégia individual e familiar de ascensão socioeconômica, especialmente no que diz respeito à qualificação educacional.

Para além das fronteiras nacionais, observa-se um movimento contínuo e significativo de estudantes brasileiros em direção ao exterior, seja por meio de programas formais de intercâmbio cultural, seja por oportunidades acadêmicas mais robustas, como bolsas de pesquisa e convênios institucionais. Historicamente, essa movimentação foi interpretada sob a ótica da “fuga de cérebros” - expressão que carregava uma conotação negativa, ao sugerir perdas irreparáveis de capital humano para os países de origem - ou, em contraponto, como “ganho de cérebros”, do ponto de vista das nações receptoras (Adams, 1968). Com o avanço das discussões sobre internacionalização da ciência e cooperação acadêmica, essa visão foi gradualmente substituída pela noção de “circulação cerebral”, a qual enfatiza os efeitos positivos do nomadismo científico, como o fortalecimento das redes globais de pesquisa, a transferência de conhecimento e o retorno qualificado dos indivíduos aos seus países de origem (Meyer, 2001).

Sob essa perspectiva contemporânea, a mobilidade internacional de estudantes e pesquisadores passa a ser compreendida como um processo mutuamente benéfico, com impactos que transcendem os ganhos individuais. O retorno desses profissionais ao Brasil costuma estar associado a um aumento na produtividade científica, ao fortalecimento das redes de colaboração internacional e à introdução de novos saberes e metodologias nas instituições nacionais (Lombas, 2017). Tais resultados reforçam o valor estratégico da mobilidade acadêmica como instrumento de capacitação e inovação, tanto em nível pessoal quanto institucional.

É nesse contexto que se insere o presente estudo, cujo objetivo principal é analisar os padrões de mobilidade e as respectivas produções acadêmicas de estudantes brasileiros que deixaram suas cidades, seus estados ou mesmo o país de origem em busca de qualificação acadêmica. Para tanto, utilizou-se o framework LattesDataXplorer (Dias, 2016), ferramenta especializada na extração e tratamento de dados da Plataforma Lattes. A referida base de dados, que contava com cerca de nove milhões de currículos registrados até março de 2025, oferece uma fonte abrangente e altamente representativa do percurso formativo e profissional dos pesquisadores brasileiros. Com o auxílio desse instrumento metodológico, foi possível mapear trajetórias individuais e identificar padrões coletivos de mobilidade, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada dos efeitos da mobilidade acadêmica ao longo da carreira científica. Assim sendo, busca-se responder a seguinte pergunta: De que maneira a mobilidade acadêmica nacional e internacional influencia a produção científica dos doutores brasileiros, considerando volume, qualidade (Qualis CAPES) e idioma das publicações ao longo de suas trajetórias acadêmicas?

2 Trabalhos relacionados

Dubois, Rochet e Schlenker (2014) efetuaram um estudo com o intuito de analisar a produtividade e mobilidade acadêmica de um grupo de matemáticos espalhados por todo o mundo, totalizando 32.574 matemáticos ativos do período de 1984 a 2006. Inicialmente, para análise de mobilidade, os autores levaram em conta as filiações dos matemáticos para entender o processo de mobilidade acadêmica destes indivíduos, ou para aqueles que não possuem filiação, foi recuperado o país de localização da primeira publicação. Já sobre a produção científica, eles extraíram os autores que publicaram em 98 dos periódicos mais relevantes da área. Os autores destacaram que a maior porcentagem dos matemáticos tende a publicar nos Estados Unidos. Com relação a mobilidade, os autores observaram que os principais países que atraem os matemáticos nas primeiras publicações são: Canadá, Israel e Reino Unido. Uma vez analisando a média que os matemáticos ocuparam locais diferentes ao longo da análise, isto é, baseado em dados de departamentos ocupados pelos matemáticos, os autores destacaram que a média é equivalente a 1,87. A partir de análises de departamentos em universidades, comparando assim a questão econômica, os autores apontaram que as universidades mais ricas tendem a atrair melhores pesquisadores. Como conclusão, destacaram que incentivar a mobilidade parece ser uma forma de melhorar tanto a qualidade de um departamento onde um indivíduo está alocado quanto a produção científica de seus membros. Por outro lado, incentivar os membros de um departamento a colaborar mais não parece ser eficiente, exceto se a colaboração for com colegas de áreas diferentes. Sugerem, então, que grupos de leitura ou seminários reunindo matemáticos de diferentes especialidades podem ser uma forma de ampliar seus interesses e melhorar sua produção.

Chaves e Duarte (2015) realizaram um estudo baseado em dados da Plataforma Lattes considerando indivíduos com doutorado concluído, coletando dados da trajetória do pesquisador desde o nascimento, formações acadêmicas e atuação profissional. Para efetuar as análises utilizou-se como forma de visualização de dados a análise de redes denominado pelos autores como Gráfico de Mobilidade. Os nós são compostos pelas cidades que possuem Registro de Nascimento (RN), Formação (RF) e Trabalho (RT). Já as arestas são compostas pelo agrupamento de Fluxos de Nascimento para a primeira Formação (FNF), de Formação para outra Formação (FFF) e da última Formação para o local de Trabalho (FFT) de cada pesquisador entre duas cidades. Durante as análises, os autores chegaram à conclusão que 95% dos indivíduos são de origem das regiões Sul, Sudeste e Nordeste. Foi mencionado que 40% das primeiras formações dos doutores foram realizadas em suas cidades de origem, e que 87% daqueles que deslocam para outras cidades não ultrapassam o limite de 1.000 km, também foi citado que 61\% das pessoas saem da cidade de última formação para atuar profissionalmente. A cidade com maior formação de doutores é São Paulo e os continentes com maior número de formação são América do Sul, América do Norte e Europa.

Com um estudo baseado em economistas espalhados pelo mundo todo, Albarrán, Carrasco e Ruiz-Castillo (2017) em seu trabalho tinham um objetivo de analisar a mobilidade geográfica e produtividade de pesquisa de economistas a partir de uma seleção dos principais departamentos de economia mundial, logo selecionaram 81 principais departamentos de economia. Sendo assim, obtiveram dados da primeira graduação, o doutorado dos indivíduos e atuação profissional no ano de 2007. Após isto os autores subdividiram o conjunto de indivíduos em grupo um, dois e três, de acordo com a quantidade e qualidade de publicações efetuadas pelos indivíduos, respectivamente. Para as análises foi utilizado grupo dois (elite) e a amostra total. Os autores destacaram a maioria dos indivíduos tanto da elite como da amostra total optaram por se localizar nos Estados Unidos, seguido da União Europeia para efetuar a graduação, o doutorado e o atuar profissionalmente. O principal país em que os indivíduos optam por habitar é o Estados Unidos nestas três etapas citadas anteriormente. Já se tratando da elite, de acordo com Albarrán, Carrasco e Ruiz-Castillo (2017), a quantidade de indivíduos que habitam nos Estados Unidos em todas as três etapas é superior ao somatório daqueles indivíduos que habitam em outros países. A respeito da mobilidade geográfica, percebe-se que 47,7% dos economistas saem do seu país de origem. No entanto, a divisão daqueles que saem de seu país de origem e os que permanecem é muito diferente em cada área geográfica, por exemplo: os EUA conseguem reter a maioria de seus graduados para vínculos empregatícios, bem como a maioria de seus doutores atuam em instituições dos EUA. Assim, 92% dos economistas nascidos nos EUA são permanentes. Já em outros países do mundo, a situação é exatamente oposta: os que permanecem no país representam apenas 26,3%, enquanto a fuga de cérebros representa 61,2%. Ao ser analisada a elite, a primeira mudança a ser observada é o aumento dos que permanecem versus os que se movem. No entanto, os autores destacaram que, enquanto o número de residentes nos EUA aumenta em aproximadamente 18%, o de residentes em outros países diminui em cerca de 9%.

No estudo conduzido por Dias e Moreira (2020), os autores buscaram compreender as dinâmicas de colaboração científica entre os principais pesquisadores brasileiros, com especial atenção às diferentes modalidades de bolsas de produtividade concedidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A análise centrou-se exclusivamente nos bolsistas de produtividade, por representarem uma parcela altamente qualificada da comunidade científica nacional. Para isso, os autores utilizaram como fonte de dados os currículos disponibilizados na Plataforma Lattes, que contém informações detalhadas sobre formação, vínculos institucionais e produção acadêmica. Com base nessa base de dados, foi possível construir redes de colaboração entre os pesquisadores, permitindo a identificação de padrões de interação e coautoria.

Os resultados do estudo revelaram que os pesquisadores contemplados com a modalidade de bolsa 1A - considerada o mais alto nível dentro da hierarquia do CNPq - tendem a apresentar um padrão equilibrado de publicações, distribuindo-se entre anais de congressos e periódicos científicos com alto fator de impacto. Tal comportamento pode estar relacionado à ampla inserção desses pesquisadores em redes nacionais e internacionais de pesquisa, o que favorece tanto a participação em eventos quanto a publicação em periódicos de prestígio. Por outro lado, observou-se que bolsistas de modalidades inferiores concentram a maior parte de sua produção em anais de eventos, possivelmente por limitações de acesso a redes consolidadas ou por estarem em fases mais iniciais de sua trajetória acadêmica. Outro aspecto relevante evidenciado pelo estudo foi a diferença na intensidade colaborativa: pesquisadores com bolsas das modalidades superiores demonstram maior densidade e diversidade em suas redes de coautoria, enquanto aqueles vinculados às modalidades inferiores tendem a colaborar predominantemente com indivíduos do mesmo nível, sugerindo uma segmentação estrutural dentro da própria elite científica brasileira.

Em estudo complementar, Sachini et al. (2020) analisaram a mobilidade de pesquisadores gregos a partir de uma abordagem bibliométrica, utilizando indicadores como número de publicações, padrões de afiliação institucional e localização geográfica dos autores. Os dados foram extraídos da base Scopus, permitindo ampla cobertura da produção científica internacional. Para visualizar a dispersão e os fluxos dos pesquisadores, os autores aplicaram técnicas de análise de redes, mapeando os principais polos de produção e circulação do conhecimento. Os resultados demonstraram que a maioria dos pesquisadores mantinha-se vinculada ao país de origem - a Grécia - totalizando 74,6% do total analisado. Apenas 21,7% apresentavam algum tipo de mobilidade internacional. Dentre estes, 60% foram classificados como “viajantes”, ou seja, mantinham múltiplas afiliações simultâneas, incluindo a instituição grega de origem, enquanto os “migrantes” - que haviam rompido completamente com o país de origem - representavam os 40% restantes. Um dado particularmente significativo refere-se à elite científica grega: 90,5% dos pesquisadores mais produtivos mantinham vínculos com instituições nacionais, o que indica uma forte ligação institucional mesmo em contextos de mobilidade internacional. Tais achados sugerem que a mobilidade, nestes casos, não implica necessariamente em ruptura, mas sim em ampliação das redes de colaboração transnacionais.

Por sua vez, Vaccario, Verginer e Schweitzer (2020) propuseram uma abordagem inovadora para a análise da mobilidade científica ao longo do tempo, fundamentada na trajetória institucional dos cientistas, inferida a partir de publicações indexadas nos repositórios MEDLINE e Microsoft Academic Graph (MAG). O foco da análise recaiu sobre as 100 universidades mais relevantes presentes nessas bases, o que permitiu traçar com maior precisão os percursos profissionais dos pesquisadores. A construção de redes de mobilidade baseadas em nós institucionais revelou a existência de uma “componente gigante” - uma estrutura interconectada na qual todas as universidades estavam, direta ou indiretamente, ligadas. Esse achado evidencia que há caminhos possíveis entre qualquer par de instituições por meio de mobilidade acadêmica intermediada por publicações, ilustrando o caráter global e relacional da ciência contemporânea. A comparação entre os dados empíricos e um modelo teórico previamente proposto pelos autores revelou que os fluxos de mobilidade são fortemente marcados por relações temporais, refletindo trajetórias progressivas e cumulativas ao longo da carreira dos cientistas, muitas vezes influenciadas por oportunidades institucionais específicas em determinados períodos.

Finalmente, Kosztyán et al. (2021) desenvolveram um estudo com o objetivo de avaliar o desempenho institucional a partir da inserção de universidades em redes de mobilidade e colaboração científica, com base em dados provenientes dos programas Erasmus e Seventh Framework Programme (FP7), ambos financiados pela União Europeia. Tais programas têm como objetivo central a promoção da cooperação acadêmica transnacional e a consolidação da União Europeia como uma sociedade do conhecimento. Os autores analisaram a correlação entre os fluxos de mobilidade (notadamente o Erasmus, voltado à mobilidade docente e discente) e os vínculos de colaboração científica institucionalizados por meio do FP7. Os resultados indicaram que, apesar dos objetivos semelhantes, a mobilidade acadêmica promovida pelo Erasmus teve impacto limitado na formação de redes científicas robustas no contexto do FP7. Embora tenha sido observada uma complementaridade entre os dois programas, os autores destacam a ausência de sinergia efetiva, contrariando a hipótese de que o trânsito de professores e estudantes levaria, naturalmente, ao fortalecimento das redes de pesquisa. Como conclusão, os autores sugerem a necessidade de políticas mais integradas, capazes de alinhar os objetivos de internacionalização acadêmica com estratégias efetivas de fomento à colaboração científica, garantindo maior coerência entre mobilidade e produção de conhecimento.

Ferreira et al. (2023) conduziram um estudo com o objetivo de analisar a mobilidade dos pesquisadores e suas produções acadêmicas. Os metadados foram coletados de dois repositórios de informações bibliográficas e citações reconhecidas: Web of Science e Scopus. Eles selecionaram pesquisadores de 108 países, totalizando aproximadamente 9,2 milhões de artigos publicados, representando cerca de 4.000 instituições para análise de filiação acadêmica. Os pesquisadores classificaram os dados por subáreas de conhecimento, visando identificar padrões de migração. Observaram que áreas como Ciências Sociais, Humanas, Matemática e Ciências da Computação apresentam taxas de colaboração mais baixas em comparação com Ciências Naturais ou Engenharias. Além disso, Ferreira et al. (2023) analisaram as linhas de pesquisa dos pesquisadores selecionados e constataram que os recém chegados tendem a publicar na mesma linha de pesquisa dos colegas da instituição onde se encontram, especialmente em instituições de maior prestígio. No entanto, os pesquisadores que deixam a instituição tendem a ter um perfil mais semelhante aos pesquisadores nativos da instituição, em comparação com os recém chegados. Os autores destacaram ainda que, ao contratar novos colaboradores, as instituições tendem a favorecer aqueles com perfil acadêmico mais semelhante aos nativos da instituição. Logo, concluíram que as colaborações entre pesquisadores estrangeiros tendem a enriquecer as pesquisas acadêmicas, pois os pesquisadores combinam suas competências para produzir trabalhos acadêmicos de maior qualidade.

Na pesquisa conduzida pelos autores Valero-Ribeiro-Saes e Invernizzi (2023), buscou-se examinar a internacionalização do Programa de Pós-graduação em Ciências da Universidade Federal do Paraná. Para isso, foram utilizadas como fontes de dados a Plataforma Sucupira e a Plataforma Lattes. O período analisado compreendeu o quadriênio de 2013 a 2016, focalizando-se na formação e mobilidade docente, bem como na produção científica.

Logo, Valero-Ribeiro-Saes e Invernizzi (2023) destacaram nos resultados que aproximadamente 65% dos docentes selecionados para a análise realizaram doutorado sanduíche ou pós-doutorado em instituições estrangeiras, sendo o Reino Unido, Estados Unidos, Austrália e França os principais países de destino, com destaque para o Reino Unido. Quanto à quantidade de publicações, observou-se que três dos indivíduos mais prolíficos migraram para o Reino Unido, Estados Unidos e Itália ao longo de sua trajetória acadêmica. Como conclusão, os autores ressaltaram que os docentes com formação integral no exterior, ou seja, aqueles que completaram a sua formação acadêmica em um determinado nível de ensino no exterior, não foram os mais produtivos em termos de publicações científicas.

Moreno-Delgado et al.italic> (2024) no seu estudo investiga a mobilidade acadêmico-profissional de pesquisadores formados na Alemanha, França, Itália, Espanha e Países Baixos, principais economias da Zona do Euro, com base em dados da plataforma ORCID. A análise foca na relação entre país de formação e de atuação, considerando diferentes níveis de titulação e estimando taxas de emigração científica.

Logo, Moreno-Delgado et al. (2024) chegaram nos resultados que há uma forte concentração de mobilidade em direção aos Estados Unidos e Reino Unido, configurando um “bloco atlântico” estruturado por laços linguísticos, históricos e culturais. Observam-se também padrões regionais específicos, como o caso espanhol, com forte vínculo à Ibero-América. França e Países Baixos apresentaram as maiores taxas de emigração entre os países analisados, enquanto Espanha registrou a menor.

Barbosa et al. (2025) analisam os impactos do programa Ciência sem Fronteiras (CsF) sobre a qualificação e a internacionalização da pós-graduação brasileira, com foco na produtividade acadêmica dos bolsistas de doutorado sanduíche. Por meio da integração de bases administrativas da CAPES, do CNPq e de currículos extraídos da Plataforma Lattes, os autores construíram um banco de dados e aplicaram uma estratégia empírica, combinando técnicas de reponderação por entropia com modelos de regressão linear.

De acordo com Barbosa et al. (2025), os resultados indicam que, no curto e médio prazo, os participantes do CsF não apresentam ganhos significativos de produtividade científica em relação aos doutorandos que realizaram integralmente sua formação no Brasil. Em alguns casos, observam-se inclusive efeitos negativos, especialmente quando se analisa a produção acadêmica após o início do doutorado. Tais efeitos são mais pronunciados entre os bolsistas que realizaram o doutorado sanduíche em países como Estados Unidos.

3 Metodologia

O presente trabalho utiliza como principal fonte de dados o repositório curricular da Plataforma Lattes, selecionado em razão de sua amplitude, detalhamento e representatividade no registro das trajetórias formativas e profissionais de estudantes, técnicos e pesquisadores brasileiros. A plataforma, mantida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), constitui-se como um dos instrumentos mais relevantes para o mapeamento da produção científica e tecnológica no país, além de oferecer dados valiosos sobre formação acadêmica, vínculos institucionais, produção intelectual e participação em redes de colaboração científica.

Apesar do valor reconhecido da Plataforma Lattes para estudos sobre a evolução da ciência brasileira, seu uso em análises de grande escala apresenta obstáculos significativos. A principal limitação refere-se à forma de acesso aos dados: embora seja possível consultar individualmente os currículos por meio da interface pública da plataforma, essa abordagem torna-se impraticável quando se busca realizar análises abrangentes, que envolvam dezenas ou centenas de milhares de registros, independentemente da área de atuação ou do nível de formação dos indivíduos. Nesse cenário, a extração e o tratamento automatizado de dados curriculares demandam o uso de ferramentas computacionais especializadas.

Cabe destacar, contudo, que o uso da Plataforma Lattes apresenta limitações inerentes à sua natureza. Por se tratar de um sistema de autopreenchimento, os dados estão sujeitos a vieses individuais, como omissões, inconsistências e diferenças nos critérios de registro adotados pelos pesquisadores. Além disso, a atualização dos currículos ocorre de forma irregular, podendo haver defasagens temporais entre os eventos acadêmicos e seu registro na base. Essas limitações devem ser consideradas na interpretação dos resultados, embora não comprometam análises em larga escala baseadas em padrões agregados.

Com o intuito de superar essas limitações e viabilizar a análise em larga escala, este estudo recorreu ao uso do LattesDataXplorer (Dias, 2016), um framework desenvolvido especificamente para a coleta, extração e organização de dados estruturados provenientes da Plataforma Lattes. Esse ambiente computacional é composto por diferentes componentes que permitem a automação do processo de recuperação, filtragem e transformação dos currículos em arquivos no formato XML, adequados para posterior análise.

A coleta de dados foi realizada em abril de 2022, resultando em um total de 381.462 currículos de indivíduos com doutorado concluído. A escolha por esse recorte específico justifica-se por se tratar do grupo com o mais alto nível de formação acadêmica, que, além disso, tende a manter seus currículos atualizados com maior frequência, o que assegura maior completude e confiabilidade das informações registradas. Além disso, os currículos de doutores contêm, com maior regularidade, os parâmetros necessários para a identificação de trajetórias de mobilidade acadêmica e padrões de produção científica.

O LattesDataXplorer permite, ainda, o refinamento da busca de currículos com base em diversos filtros, como nome, nível de titulação, nacionalidade, idioma, grande área e área de atuação, entre outros. Uma vez definidos os critérios de seleção, os dados são extraídos no formato XML e submetidos a um processo de análise baseado na linguagem XPath (XML Path Language). Essa linguagem, amplamente utilizada na manipulação de arquivos XML, permite a construção de expressões de consulta semelhantes a expressões regulares, possibilitando o acesso direto a qualquer elemento do documento, independentemente de sua posição estrutural. Dessa forma, torna-se possível gerar subgrupos de currículos com base em parâmetros específicos, organizando-os em listas contendo os identificadores únicos de cada currículo e sua localização no repositório.

Com base nesse processo, foi possível selecionar e organizar um corpus robusto de currículos de doutores brasileiros, o qual serviu de base para as etapas subsequentes da pesquisa. Para mapear os padrões de mobilidade - com foco especial naqueles que deixaram suas cidades, estados ou mesmo o país - foram empregadas técnicas de mineração de dados, seguidas por procedimentos de tratamento e enriquecimento da base, de modo a viabilizar a análise dos fluxos de deslocamento, da produtividade acadêmica e dos vínculos institucionais ao longo do tempo.

A Figura 1 apresenta uma visão geral da arquitetura funcional do framework utilizado, detalhando os principais componentes desenvolvidos para garantir a extração sistemática, o tratamento dos dados e a geração de informações estruturadas capazes de responder aos objetivos da pesquisa. O uso do LattesDataXplorer, aliado à robustez da base da Plataforma Lattes, permitiu uma abordagem metodológica rigorosa, baseada em dados empíricos, para a compreensão da mobilidade acadêmica de doutores brasileiros e suas implicações na trajetória científica dos indivíduos.

Figura 1
Aspecto geral do conjunto de componentes utilizados

Após a etapa de seleção dos currículos que compõem o universo a ser analisado, tem início o funcionamento do módulo de filtragem dos dados, conforme ilustrado na Figura 2. Esta fase é essencial para a estruturação do banco de dados analítico e tem como principal objetivo processar os arquivos em formato XML previamente coletados, extraindo informações relevantes para os propósitos específicos da pesquisa. A filtragem é conduzida de maneira sistemática e automatizada, assegurando a padronização dos dados e sua organização em um formato estruturado, que constitui o conjunto dos chamados arquivos de dados pré-processados.

Figura 2
Filtragem dos dados

O processo de filtragem envolve a leitura e o mapeamento de diversos elementos presentes nos currículos da Plataforma Lattes. Entre os dados extraídos, destacam-se o identificador único do currículo, o estado e a cidade de nascimento do indivíduo, bem como as classificações da grande área e da área de atuação acadêmica, conforme definidas pelos parâmetros do CNPq. Essas informações possibilitam não apenas a caracterização sociodemográfica dos sujeitos analisados, mas também o agrupamento por áreas do conhecimento, o que é fundamental para as análises comparativas entre campos disciplinares.

Além desses dados, são extraídos também os elementos referentes ao vínculo profissional atual dos pesquisadores, incluindo o código institucional, o nome da instituição, seu endereço completo com CEP, e o identificador do vínculo vigente. Essas informações são cruciais para mapear a localização institucional e geográfica dos indivíduos no momento da coleta dos dados, possibilitando análises espaciais e institucionais sobre a atuação profissional dos doutores.

O módulo de filtragem também contempla os dados referentes à formação acadêmica completa dos indivíduos, desde a graduação até o doutorado. Para cada nível de formação registrado, são extraídos o nome da instituição, o país de realização do curso, os anos de início e término, bem como o código de identificação do programa. Tais informações permitem a reconstrução da trajetória formativa dos indivíduos, incluindo deslocamentos geográficos associados à qualificação acadêmica, o que é fundamental para os objetivos do presente estudo sobre mobilidade.

Na sequência do processo metodológico, é acionado o Módulo de Tratamento dos Dados (Figura 3), cuja principal finalidade consiste em processar, enriquecer e organizar as informações previamente filtradas dos currículos de doutores, convertendo-as em um formato adequado para análise sistemática e comparativa. Este módulo constitui uma etapa essencial para a consolidação dos dados, permitindo transformar registros brutos em variáveis analíticas consolidadas, otimizando a estrutura dos arquivos e assegurando a consistência e a qualidade da base de dados final.

Figura 3
Tratamento dos dados

O tratamento dos dados envolve um conjunto de cinco etapas complementares, cada uma delas voltada à transformação e caracterização dos dados de modo a atender aos objetivos analíticos da pesquisa:

  • a) obtenção do CEP da instituição de vínculo - nesta etapa, é realizada a extração e padronização dos códigos de endereçamento postal (CEPs) das instituições com as quais os indivíduos possuem vínculos profissionais registrados. Esse dado serve como ponto de partida para georreferenciar as instituições e mapear os deslocamentos espaciais dos doutores ao longo de sua trajetória acadêmica e profissional;

  • b) busca pela localização geográfica - a partir dos CEPs obtidos, o sistema realiza consultas automatizadas a bases geográficas externas, com o objetivo de identificar a latitude, longitude, cidade e estado correspondentes a cada instituição. Esses dados possibilitam análises espaciais mais precisas, como a construção de mapas de fluxo migratório, distribuição regional da força científica e centros de concentração acadêmica;

  • c) extração da classificação dos periódicos - com base nos dados de produção bibliográfica dos currículos, é realizada a identificação dos periódicos onde os doutores publicaram, associando cada periódico junto a seu ISSN à respectiva classificação Qualis (A1 a C), conforme as listas vigentes no momento da coleta. Esse cruzamento permite análises de produtividade científica por estrato de qualidade, idioma de publicação e áreas do conhecimento;

  • d) limpeza e agrupamento dos dados - esta etapa compreende a remoção de registros inconsistentes, duplicados ou incompletos, além da padronização de nomes de instituições, programas e áreas de atuação. Também são realizadas operações de agrupamento e categorização, com o objetivo de estruturar os dados em subconjuntos analíticos, como áreas temáticas, regiões geográficas ou perfis institucionais;

  • e) normalização dos dados - por fim, os dados tratados são convertidos para um formato padronizado, com variáveis consistentes, formatos uniformes e codificação compatível com os softwares de análise estatística e visualização utilizados na etapa posterior. A normalização garante a integridade da base e facilita a replicação de resultados, contribuindo para a transparência e reprodutibilidade da pesquisa.

Após a conclusão das etapas anteriores - seleção, filtragem e tratamento dos dados -, é gerado o arquivo final denominado “Resultados”, que consolida todas as informações extraídas e processadas a partir dos currículos de doutores brasileiros. Esse arquivo sintetiza os dados de forma estruturada e acessível, eliminando a necessidade de retorno às versões originais em formato XML dos currículos. Com isso, torna-se possível conduzir as análises de forma mais eficiente, segura e escalável, utilizando um banco de dados integrado que contém todas as variáveis relevantes para os objetivos da pesquisa.

O arquivo de resultados constitui o produto final da arquitetura de extração e tratamento de dados, consolidando um conjunto abrangente de atributos individuais e institucionais dos doutores analisados. Esse conjunto inclui informações relativas à trajetória acadêmica, aos vínculos profissionais, a características demográficas, à localização geográfica e à produção científica. Destaca-se que foram coletados todos os registros de produção científica disponíveis na Plataforma Lattes para os indivíduos considerados, independentemente do ano de publicação. Assim, a análise incorpora a produção científica acumulada ao longo de toda a trajetória acadêmica dos doutores, contemplando publicações desde o início de sua formação em nível de graduação.

Com os arquivos devidamente organizados e formatados, torna-se possível a aplicação de diversas métricas e abordagens analíticas, visando compreender os padrões e características da mobilidade acadêmica dos doutores brasileiros. Essas métricas permitem explorar como os deslocamentos geográficos - seja entre cidades, estados ou países - ocorrem ao longo do processo de formação acadêmica e quais são seus efeitos sobre a trajetória profissional e a produção científica dos indivíduos. As análises derivadas desse conjunto de dados fornecem subsídios empíricos robustos para refletir sobre a distribuição da força científica nacional, os efeitos da mobilidade sobre a qualificação e o desempenho dos pesquisadores, e as desigualdades regionais e institucionais que permeiam o sistema científico brasileiro.

4 Resultados

Inicialmente, foram exploradas as publicações do conjunto de doutores brasileiros em anais de eventos, com o intuito de compreender a relação entre a mobilidade acadêmica e a disseminação científica em congressos. No total, os doutores analisados neste estudo publicaram 11.717.342 artigos em anais de eventos, evidenciando a relevância desse tipo de produção como forma de difusão de resultados de pesquisa no contexto brasileiro.

Diante da expressividade do volume de publicações, optou-se por realizar uma análise da distribuição dessas publicações ao longo das trajetórias de mobilidade dos indivíduos. Para isso, foram definidos cinco casos distintos, com base na ocorrência ou não de mobilidade acadêmica durante a graduação, o mestrado ou o doutorado - fases fundamentais da formação científica. A distribuição comparativa dessas categorias é apresentada na Figura 4.

O primeiro grupo analisado corresponde aos autores que não realizaram qualquer tipo de migração acadêmica ao longo de sua formação, permanecendo no mesmo município ou estado durante os três níveis educacionais.

Os demais indivíduos foram classificados como migrantes e subdivididos com base na natureza territorial da mobilidade. O segundo grupo inclui aqueles que realizaram mobilidade apenas em âmbito nacional, ou seja, deslocaram-se entre diferentes cidades ou estados dentro do território brasileiro para cursar ao menos uma das etapas de sua formação acadêmica. O terceiro grupo refere-se aos indivíduos que migraram em âmbito internacional, tendo cursado parte da graduação, mestrado ou doutorado fora do Brasil.

A fim de compreender com maior profundidade os efeitos da mobilidade sobre a produção científica em anais de eventos, os grupos de migrantes (tanto nacionais quanto internacionais) foram novamente subdivididos com base em um critério temporal: foram analisadas separadamente as publicações realizadas antes do ano da migração e aquelas realizadas durante ou após o ano da migração. Vale ressaltar que as publicações são desde o ano da primeira publicação até o ano mais recente. Para determinar a data inicial das publicações, considerou-se apenas aquelas que ocorreram após o início da data de graduação. Logo, se um indivíduo exerceu sua primeira publicação em anais em 2010 e sua graduação iniciou em 2011, esta publicação realizada em 2010 não será considerada. O mesmo acontece com os artigos publicados em periódicos, considerando apenas artigos que possuíam o idioma de publicação cadastrado e o ISSN, para que assim tenha a possibilidade de realizar análises baseadas no Qualis dos periódicos onde os artigos foram publicados.

Figura 4
Distribuição de artigos dos doutores brasileiros em anais de eventos

Analisando a distribuição desses grupos, observa-se que a migração dos indivíduos tem impacto na produção científica de artigos em anais de eventos. A mediana de publicações dos autores antes da migração é inferior à dos autores após a migração, tanto nacional quanto internacional. No entanto, os autores que permaneceram na mesma localidade apresentam as maiores medianas de publicações, sendo superados apenas pelo grupo que migrou dentro do país. Isso pode ser explicado pela maior afinidade desses autores com seus grupos de pesquisa, o que pode resultar em um aumento na quantidade de publicações em anais de eventos.

Após analisar a distribuição das produções dos indivíduos, optou-se por realizar uma análise da quantidade de artigos em periódicos publicados pelos indivíduos (Figura 5). Esta análise examina a disposição dos artigos em periódicos classificados pelo Qualis da CAPES, no quadriênio de 2017-2020, utilizando dados extraídos da Plataforma Sucupira.

O Qualis é um sistema de avaliação da produção científica utilizado pela CAPES no Brasil. Ele classifica e qualifica os periódicos científicos onde os pesquisadores publicam seus trabalhos, sendo seu principal objetivo, auxiliar na avaliação dos programas de pós-graduação brasileiros, fornecendo um parâmetro para medir a qualidade das publicações científicas. Originalmente, a qualificação dos periódicos pelo Qualis era realizada em triênios, com a primeira avaliação abrangendo os anos de 2010 a 2012. Posteriormente, o sistema foi ajustado para uma periodicidade de avaliação quadrienal. A primeira referência quadrienal para a avaliação dos periódicos compreendeu os anos de 2013 a 2016. A referência mais recente e utilizada nesta pesquisa considera o quadriênio de 2017 a 2020. O Qualis Capes para periódicos é caracterizado e estratificado na seguinte ordem: A1 (mais bem classificado), A2, A3, A4, B1, B2, B3, B4, C (mais mal classificado).

Figura 5
Qualis de periódicos publicados pelos doutores brasileiros

Observa-se uma propensão dos pesquisadores em publicar em periódicos estratificados na categoria A1, ápice da avaliação da CAPES. Essa preferência é presumivelmente impulsionada pelo reconhecimento e renome atribuídos a esses periódicos, fatores que impactam na avaliação dos programas de pós-graduação pela CAPES. Ressalta-se, ainda, a tendência à menor produção em periódicos B4 e C, classificações inferiores, conforme esperado.

Logo, após ter sido identificada a distribuição das classificações do Qualis CAPES, optou-se por realizar uma análise buscando entender como estão distribuídas as classificações do Qualis dos artigos em periódicos publicados pelo conjunto de indivíduos analisado nesta pesquisa, estratificando o conjunto de indivíduos em três distintos grupos: indivíduos que efetuaram migração a nível nacional (Figura 6a), indivíduos que efetuaram a migração a nível internacional (Figura 6b) e indivíduos que não efetuaram a migração (Figura 6c).

Figura 6
Tipos de migração e classificação do Qualis de publicação dos artigos publicados em periódicos

É possível observar que a maioria das publicações em periódicos é proveniente do grupo de doutores que migraram nacionalmente. Isso indica que esses indivíduos têm sido ativos na produção científica e têm contribuído significativamente para o avanço do conhecimento em suas respectivas áreas de pesquisa. Uma possível explicação para essa predominância é o fato de que o grupo dos doutores que migraram nacionalmente tende a ser numericamente maior, principalmente em comparação com os doutores que realizaram a migração em nível internacional.

Observa-se que em todos os casos, a menor quantidade de publicações está presente nos periódicos classificados com o menor Qualis, especificamente na categoria C e B4. Isso sugere que os doutores têm direcionado seus esforços para publicações em periódicos com maior prestígio e impacto na comunidade científica.

Observa-se, ainda, a concentração dos maiores volumes de publicações em periódicos com as melhores classificações do Qualis, especialmente nas categorias A1 e A2. Essas categorias representam uma parcela considerável, correspondendo a 32% do total de artigos publicados em periódicos por indivíduos com migração nacional, 37% das publicações de indivíduos sem migração e 52% das publicações de indivíduos com migração internacional. Essa predominância de artigos em periódicos de alto Qualis sugere que os pesquisadores buscaram reconhecimento e visibilidade em suas áreas de atuação, priorizando a publicação em periódicos com as melhores classificações do Qualis.

Na Figura 6b, evidencia-se uma predominância de publicação de melhores classificação de qualis, observando ainda, que esta ordem respeita o critério de classificação de qualis utilizado pela CAPES, indo do mais bem classificado com maior quantidade de publicações até o qualis mais mal classificado (C) com menor quantidade de publicações, diferente das outras análises presentes na Figura 6.

Observa-se que o grupo de indivíduos sem migração apresenta uma propensão maior para publicar em periódicos Qualis A4 em comparação com o Qualis A3. Essa tendência se repete quando se compara a escolha por periódicos Qualis C em relação ao Qualis B4, tanto para os indivíduos sem migração quanto para aqueles com migração nacional. Essa tendência pode estar relacionada a diversos fatores, como a área de pesquisa, a disponibilidade de acesso a periódicos específicos ou até mesmo preferências individuais.

No entanto, é importante destacar que o foco nos periódicos de alto Qualis não deve ser o único critério para avaliar a contribuição científica dos pesquisadores. A qualidade e o impacto dos trabalhos devem ser considerados em conjunto com outros indicadores, como número de citações dos artigos, fator de impacto do periódico, dentre outros.

Seguindo a mesma metodologia da Figura 6, a Figura 7 apresenta uma análise quantitativa dos principais idiomas utilizados nas publicações por Qualis da CAPES, logo, dividiu-se o conjunto de publicações em três distintos grupos: publicações de artigos em periódicos dos indivíduos que não efetuaram a migração (Figura 7a), publicações de artigos em periódicos dos indivíduos que efetuaram migração a nível nacional (Figura 7b) e publicações de artigos em periódicos dos indivíduos que efetuaram a migração a nível internacional (Figura 7c).

Figura 7
Qualis de periódicos e idiomas publicados pelos doutores brasileiros

A análise dos idiomas utilizados nas publicações revela uma clara predominância de três línguas principais: inglês, português e espanhol. Dentre elas, o inglês se destaca como o idioma hegemônico, especialmente nos estratos mais elevados da classificação Qualis (A1, A2 e A3), conforme ilustrado na Figura 7. Essa tendência se mantém tanto entre os pesquisadores com trajetória acadêmica exclusivamente nacional quanto entre aqueles que realizaram mobilidade internacional durante sua formação ou atuação profissional. Observa-se, inclusive, que essa preferência pelo inglês também se manifesta de forma expressiva no estrato Qualis A4, particularmente entre os indivíduos com histórico de migração acadêmica internacional.

A ampla adoção do inglês nesses extratos superiores pode ser atribuída a dois fatores principais. Primeiramente, muitos periódicos de alto impacto exigem a submissão de manuscritos nesse idioma como condição para avaliação e eventual publicação. Em segundo lugar, mesmo na ausência de obrigatoriedade, muitos autores optam por traduzir seus trabalhos para o inglês como estratégia de ampliação da visibilidade e do alcance internacional de suas pesquisas. Tal prática é coerente com a consolidação do inglês como língua franca da ciência contemporânea, sendo reconhecido como o meio de comunicação dominante em contextos acadêmicos e científicos globais.

Em contrapartida, quando se observam os estratos Qualis B1, B2, B3, B4 e C, nota-se uma inversão dessa dinâmica. Nesses níveis, o português assume o papel de idioma predominante, seguido pelo inglês e, em menor proporção, pelo espanhol. Essa distribuição pode ser explicada, em parte, pela maior flexibilidade linguística adotada por periódicos de menor classificação, os quais, em sua maioria, não impõem restrições quanto ao idioma de submissão, favorecendo, assim, o uso do português por parte dos autores brasileiros. Além disso, esses periódicos por vezes possuem foco editorial mais regional ou nacional, o que reforça a adoção do idioma local como meio de comunicação científica.

As evidências apontadas sugerem que a escolha do idioma de publicação está fortemente relacionada à busca por maior reconhecimento acadêmico e impacto científico. Publicar em inglês, especialmente em periódicos de maior estrato Qualis, configura-se não apenas como uma exigência editorial, mas também como uma estratégia deliberada de inserção em redes científicas internacionais, potencializando o alcance das publicações e a probabilidade de citação. Por outro lado, a publicação em português e espanhol permanece relevante, sobretudo quando os objetivos de disseminação se concentram em públicos regionais, políticas públicas ou aplicações locais do conhecimento produzido.

Outro aspecto a ser considerado diz respeito à origem dos periódicos analisados. Apesar da predominância do inglês nos estratos superiores, a maioria dos periódicos onde os autores publicam são de origem brasileira. Esse dado reforça o protagonismo nacional na produção e disseminação científica, ao mesmo tempo em que evidencia a internacionalização da ciência brasileira por meio da adoção do inglês como idioma de publicação. Em síntese, as escolhas linguísticas observadas refletem não apenas exigências institucionais, mas também estratégias conscientes de inserção, visibilidade e consolidação no cenário científico global.

5 Conclusão

Os dados analisados neste estudo permitem evidenciar a relevância da mobilidade geográfica como um fator associado à dinâmica da produção científica dos doutores brasileiros. A partir da exploração da base de dados da Plataforma Lattes, com apoio do framework LattesDataXplorer, foi possível identificar que a migração acadêmica tanto em nível nacional quanto internacional exerce influência positiva sobre o volume de publicações em anais de eventos científicos. De modo geral, os indivíduos que migraram apresentaram aumento na mediana de publicações após a migração, o que sugere que a exposição a novos contextos acadêmicos, redes de colaboração e ambientes de pesquisa pode potencializar a produtividade científica.

Contudo, observou-se que os doutores que não migraram também apresentaram níveis elevados de produção, sendo superados apenas pelos indivíduos que realizaram mobilidade em âmbito nacional. Esse resultado pode estar relacionado à consolidação de vínculos com grupos de pesquisa locais e à continuidade em projetos institucionais, fatores que também favorecem a produtividade acadêmica.

No que se refere à publicação em periódicos científicos, observou-se uma forte concentração de artigos nas faixas superiores do Qualis CAPES (A1 e A2), independentemente da ocorrência de mobilidade. Tal padrão reforça a busca dos pesquisadores por maior visibilidade e reconhecimento no meio científico. Destaca-se, ainda, que os doutores que realizaram mobilidade internacional concentram maior proporção de publicações em periódicos de alto estrato, indicando possível correlação entre internacionalização e qualidade percebida da produção científica.

A análise dos dados sugere que, embora a mobilidade acadêmica não seja o único determinante da produtividade ou da qualidade das publicações, ela se configura como um fator relevante no fortalecimento das trajetórias acadêmicas. Dessa forma, políticas públicas que incentivem a mobilidade - especialmente programas de intercâmbio e cooperação nacional - podem contribuir de maneira significativa para o desenvolvimento científico do país, ampliando redes colaborativas, diversificando experiências formativas e estimulando a excelência acadêmica.

Os resultados apresentados ao longo deste estudo apontam para a centralidade do idioma na dinâmica de publicação científica, sobretudo no contexto da internacionalização da ciência brasileira. Observou-se que a predominância do inglês nos estratos superiores do Qualis (A1 a A3) não é apenas reflexo de exigências editoriais, mas também pode ser de uma estratégia consciente adotada por pesquisadores - com ou sem histórico de mobilidade internacional - para ampliar a visibilidade, o alcance e o impacto de suas produções acadêmicas. Ainda que grande parte dos periódicos onde esses artigos são veiculados pertença ao sistema editorial brasileiro, a opção pelo inglês contribui para inserir a ciência nacional em redes globais de circulação e citação, refletindo uma busca crescente por legitimação internacional.

Esse fenômeno reforça a ideia de que a internacionalização da ciência não se limita à mobilidade física de pesquisadores, mas também se materializa em escolhas linguísticas que afetam diretamente a difusão do conhecimento. O inglês, consolidado como língua franca da ciência, funciona como um vetor de integração acadêmica e também como um marcador simbólico de pertencimento ao circuito internacional de produção e validação do saber.

Os resultados relacionados à classificação de periódicos devem ser interpretados à luz do caráter dinâmico do sistema Qualis, que se encontra em processo de reformulação. Mudanças nos critérios de avaliação e na estrutura de classificação podem alterar o enquadramento dos periódicos ao longo do tempo, o que não invalida as análises realizadas, mas reforça seu caráter contextual e temporal.

Referências

  • ADAMS, Walter (org.). The brain drain. New York: Macmillan, 1968.
  • ALBARRÁN, Pedro; CARRASCO, Raquel; RUIZ-CASTILLO, Javier. Geographic mobility and research productivity in a selection of top world economics departments. Scientometrics, New York, v. 111, p. 241-265, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11192-017-2245-x Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1007/s11192-017-2245-x
  • ALMEIDA, Rodolfo; ZANLORENSSI, Gabriel. Fluxos migratórios: a distribuição da população de cada estado pelo país. Nexo Jornal, São Paulo, 01 dez. 2017.
  • BARBOSA, Gerrio Santos et al. Effectiveness of the Science without Borders program in high qualification and internationalization of Brazilian higher education. Empirical Economics, New York, v. 69, p. 299-339, 2025. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00181-025-02732-1 Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1007/s00181-025-02732-1
  • CHAVES, Luiz Carlos Rodrigues; DUARTE, Alexandre. Analisando a mobilidade de pesquisadores através de registros curriculares na Plataforma Lattes. Anais do Brazilian Workshop on Social Network Analysis and Mining, Porto Alegre, p. 1-12, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.5753/brasnam.2015.6774 Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.5753/brasnam.2015.6774
  • DIAS, Thiago Magela Rodrigues. Um estudo da produção científica brasileira a partir de dados da Plataforma Lattes. 2016. Tese (Doutorado Modelagem Matemática e Computacional) - Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2016.
  • DIAS, Thiago Magela Rodrigues; MOREIRA, Tales Henrique José; DIAS, Patrícia Mascarenhas. Fomento à pesquisa científica no Brasil: a colaboração dos pesquisadores de excelência. Parcerias Estratégicas, São Paulo, v. 24, n. 48, p. 151-166, 2020.
  • DUBOIS, Pierre; ROCHET, Jean-Charles; SCHLENKER, Jean-Marc. Productivity and mobility in academic research: evidence from mathematicians. Scientometrics, New York, v. 98, p. 1669-1701, 2014. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11192-013-1112-7 Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1007/s11192-013-1112-7
  • FERREIRA, Marcia et al. Scientific mobility, prestige and skill alignment in academic institutions. arXiv, Ithaca, p. 1-29, 12 jul. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.48550/arXiv.2307.06426 Acesso em: 3 jun. 2024
    » https://doi.org/10.48550/arXiv.2307.06426
  • KOSZTYÁN, Zsolt et al. Investigating collaborative and mobility networks: reflections on the core missions of universities. Scientometrics, New York, v. 126, p. 3551-3564, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11192-021-03865-7 Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1007/s11192-021-03865-7
  • LOMBAS, Maria Luiza Santana. A mobilidade internacional acadêmica: características dos percursos de pesquisadores brasileiros. Sociologias, Porto Alegre, v. 19, n. 44, p. 308-333, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1590/15174522-019004413 Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1590/15174522-019004413
  • MEYER, Jean-Baptiste. Network approach versus brain drain: lessons from the Diaspora. International Migration, New Jersey, v. 39, n. 5, p. 91-110, 2001. Disponível em: https://doi.org/10.1111/1468-2435.00173 Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1111/1468-2435.00173
  • MORENO-DELGADO, Alicia et al. Mapping scientific mobility in leading Eurozone economies: insights from ORCID data analysis. Scientometrics, New York, v. 129, p. 6889-6907, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11192-024-05153-6 Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1007/s11192-024-05153-6
  • SACHINI, Evi; Karampekios, Nikolaos; BRUTTI, Pierpaolo; SIOUMALAS-CHRISTODOULOU, Konstantinos. Should i stay or should i go? Using bibliometrics to identify the international mobility of highly educated greek manpower. Scientometrics, New York, v. 125, p. 641- 663, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11192-020-03618-y Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1007/s11192-020-03618-y
  • VACCARIO, Giacomo; Schweitzer; VERGINER, Luca; SCHWEITZER, Frank. The mobility network of scientists: analyzing temporal correlations in scientific careers. Applied Network Science, New York, v. 5, n. 1, p. 1-14, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s11192-020-03618-y Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1007/s11192-020-03618-y
  • VALERO-RIBEIRO-SAES, Klarissa; INVERNIZZI, Noela. La política de internacionalización en los estudios de posgrado brasileños: efectividad de la movilidad académica para internacionalizar la producción científica y la colaboración internacional. Revista Iberoamericana de Educación Superior, Ciudad de México, v. 14, n. 41, p. 20-38, 2023. Disponível em: 10.1007/s41109-020-00279-x. Acesso em: 03 jun. 2024.
    » https://doi.org/10.1007/s41109-020-00279-x
  • Declaração de disponibilidade de dados
    O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.
  • Como citar
    MASCARENHAS, Higor Alexandre Duarte; DIAS, Thiago Magela Rodrigues. Impactos da mobilidade acadêmica na produção científica: evidências da Plataforma Lattes. Em Questão, Porto Alegre, v. 32, e-148021, 2026. DOI: https://doi.org/10.1590/1808-5245.32.148021

Editado por

  • Editor-chefe
    Thiago Henrique Bragato Barros

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo não está disponível publicamente.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    12 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Jun 2025
  • Aceito
    14 Jan 2026
location_on
Universidade Federal do Rio Grande do Sul Rua Ramiro Barcelos, 2705, sala 519 , CEP: 90040-285., Fone: +55 (51) 3308- 2141 - Porto Alegre - RS - Brazil
E-mail: emquestao@ufrgs.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error