Open-access Caminhos da pesquisa, endogenia acadêmica e a Revista da Faculdade de Educação, 1994-1996: entrevista com Selma Garrido Pimenta

Paths of research, academic endogeny, and the Revista da Faculdade de Educação, 1994-1996: an interview with Selma Garrido Pimenta

Resumo

Este diálogo com Selma Garrido Pimenta integra as comemorações dos 50 anos de Educação e Pesquisa e revisita o período em que ela desempenhou o papel de editora-chefe da então Revista da Faculdade de Educação (1994-1996). A partir da trajetória acadêmica da entrevistada – de sua formação e docência na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo à carreira na Universidade de São Paulo (USP) –, a entrevista rememora a evolução dos programas de pós-graduação em Educação no país e na USP, bem como o papel das revistas acadêmicas na circulação do conhecimento durante e a partir da redemocratização do país. Pimenta descreve os vários movimentos que levaram a publicação endógena, destinada quase exclusivamente à disseminação de artigos de professores da Faculdade de Educação da USP, a se tornar um periódico progressivamente aberto ao campo educacional: ampliação e diversificação do Conselho Editorial e do corpo de pareceristas, estímulo a artigos em outros idiomas e reconfiguração de seções com conteúdo local. A entrevista mapeia, como fenômeno paralelo ao desenvolvimento do periódico, a virada epistemológica e metodológica no campo da Educação: das abordagens mais positivistas às perspectivas críticas, qualitativas, empíricas e colaborativas. Aliados à política de fomento às pesquisas científicas, esses movimentos favoreceram uma nova cultura de pesquisas e publicações no país, levando a um paulatino reposicionamento da Revista da Faculdade de Educação no campo, sem sacrificar a sua relevância na formação docente e no debate das políticas educacionais.

Palavras-chave:
Educação e Pesquisa; Produção do conhecimento; Internacionalização; Endogenia acadêmica; Pós-graduação

Abstract

This dialogue with Selma Garrido Pimenta is part of the celebrations marking the 50th anniversary of Educação e Pesquisa and revisits the period in which she served as editor-in-chief of the then Revista da Faculdade de Educação (1994-1996). Drawing on the interviewee’s academic trajectory – from her training and teaching career at Pontifical Catholic University of São Paulo to her professorship at University of São Paulo (USP) –, the interview recalls the evolution of graduate programs in Education in Brazil and at USP, as well as the role of academic journals in the circulation of knowledge during and after the country’s re-democratization. Pimenta describes the various movements that transformed what was once an endogenous publication – almost exclusively dedicated to disseminating articles by professors from School of Education at USP (FEUSP) – into a journal increasingly open to the wider educational field: expanding and diversifying the Editorial Board and the pool of reviewers, encouraging submissions in other languages, and reconfiguring sections with local content. The interview maps, as a phenomenon parallel to the journal’s development, the epistemological and methodological turn in the field of Education – from predominantly positivist approaches to critical, qualitative, empirical, and collaborative perspectives. Alongside national research funding policies, these movements fostered a new research and publication culture in Brazil, leading to a gradual repositioning of the Revista da Faculdade de Educação within the field, while maintaining its relevance to teacher education and the debate on educational policy.

Keywords:
Education and Research; Knowledge production; Internationalization; Academic endogeny; Graduate education

Não há ensino de qualidade, nem reforma educativa, nem inovação pedagógica, sem uma adequada formação de professores. Esta afirmação é de uma banalidade a toda prova. E, no entanto, vale a pena recordá-la num momento em que o ensino e os professores se encontram sob o fogo cruzado das mais diversas críticas e acusações. (Nóvoa, 1992, p. 9).

Foi com esta citação de António Nóvoa que a professora Selma Garrido Pimenta abriu o Editorial do primeiro número da Revista da Faculdade de Educação do ano de 1995. Para justificar a escolha da epígrafe, a então editora-chefe da Revista escreveu que, se “[...] de um lado ficamos perplexos e aflitos diante dos problemas do nosso ensino e da formação de nossos professores, de outro, a constatação de sua universalidade nos anima a prosseguirmos nossas pesquisas e nossas lutas buscando, irmanados, superá-los”. Com isso ela reforçava a necessária proximidade entre o conhecimento educacional veiculado no periódico e as lutas pela educação pública travadas na sociedade, manifestando o seu “[...] desejo de contribuir para o debate teórico-prático sobre a formação de professores enquanto condição de melhoria da qualidade do ensino” (Pimenta, 1995, p. 3).

Nesta entrevista2 comemorativa dos 50 anos da revista Educação e Pesquisa – denominada Revista da Faculdade de Educação ao longo de seus primeiros 24 anos (1975-1999) –, a hoje professora titular sênior da FEUSP conserva o mesmo tom do editorial de trinta anos atrás. Entre 1994 e 1996, Selma Garrido Pimenta presidiu a Comissão de Publicações da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), responsável pela Revista da Faculdade de Educação e pela publicação seriada Estudos e Documentos, herdada em 1976 do extinto Centro Regional de Pesquisas Educacionais de São Paulo (CRPE/SP).3

Ao mesmo tempo em que trata de seu período como editora-chefe da Revista, a entrevista abarca a trajetória pessoal de Selma Garrido Pimenta, primeiro como professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) – onde cursou a graduação em Pedagogia, o mestrado e o doutorado em Educação – e depois, a partir de 1989, como docente da Universidade de São Paulo (USP), no Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada (EDM) da FEUSP. Ao longo dos anos, Pimenta tornou-se diretora da FEUSP (2002-2006) e pró-reitora de graduação da USP (2005-2009), sendo uma referência incontestável nos estudos sobre a formação docente no país.

A vasta carreira de Selma Garrido Pimenta é também repleta de incursões pelo universo editorial. Em 1994, quando assumiu a editoria-chefe da Revista da Faculdade de Educação, ela já havia publicado quatro livros autorais e seis organizados. Atuou em parcerias editoriais em coleções de livros da Edições Loyola (de 1979 a 1987) e da Cortez Editora (desde 1990) – que acumulam, juntas, 87 títulos lançados4 – e integrou o Conselho Editorial de ANDE: Revista da Associação Nacional de Educação (1983 a 1986), além da própria equipe editorial da revista em 1987 (Araújo, 2021).

A experiência com publicações de variados tipos lhe ofereceu uma visão privilegiada sobre as transformações dos modos de fazer pesquisa e de produzir conhecimento em educação, tema que ela explora amplamente em sua entrevista, tratando como fenômenos paralelos o desenvolvimento dos programas de pós-graduação e das revistas acadêmicas do campo, cuja produção incidiu de forma definitiva nas políticas educacionais durante e após o último período de redemocratização do país.

Outro tema central da entrevista é o debate sobre a superação da endogenia acadêmica da Revista da Faculdade de Educação, que em seus primeiros anos tinha seu Conselho Editorial e seu corpo de pareceristas formado exclusivamente por professores da FEUSP, publicando artigos majoritariamente produzidos por essas mesmas pessoas. Foi no período de Selma Garrido Pimenta como editora-chefe que a Comissão de Publicações incluiu no Conselho Editorial da revista “[...] novos membros, colegas de outras instituições” (Pimenta, 1995, p. 4), estimulou a publicação de artigos em outros idiomas5 e descontinuou seções dedicadas a registros locais.6 A divulgação dos resumos de dissertações e teses defendidas na FEUSP deixaria as páginas do periódico em 1998, acompanhando os florescentes processos de digitalização dos acervos da USP.7 Por fim, em 1999, em uma simbólica culminação dos movimentos dos anos anteriores para superar a endogenia do periódico, a Revista da Faculdade de Educação deixaria definitivamente de carregar o nome da FEUSP em seu título.8

ENTREVISTA

Fernando Cássio: Eu proporia, em princípio, que você falasse livremente sobre aquilo que você, como ex-editora, deseja registrar para este momento dos 50 anos de Educação e Pesquisa. Depois eu posso fazer questões complementares, a partir de notas sobre alguns marcos históricos da revista que a equipe compilou.

Selma Garrido Pimenta: Bem, então eu começo lembrando que o meu período como editora-presidente responsável pela Revista da Faculdade de Educação foi de 1994 a 1996. Uma época em que a revista era publicada semestralmente; então foram seis números publicados sob a minha batuta: dois em 1994, dois em 1995 e dois em 1996.

Vou falar um pouquinho sobre a minha chegada na USP e alguns antecedentes de minha carreira que a precederam. Ingressei no EDM da FEUSP em 1989, por concurso em uma vaga de professor temporário na disciplina de Didática. Posteriormente, seguindo as regras da carreira docente da Universidade, prestei concurso público e fui efetivada em 1992 no cargo de professor doutor. Assumi a editoria da revista em 1994.

Cheguei na FEUSP tendo toda a minha formação e experiência docente desenvolvida na PUC-SP, onde fiz a graduação, o mestrado e o doutorado. E ali fiquei por 16 anos como professora associada. Minha saída se deu quando eu me encontrava pronta a prestar concurso para titular, a última etapa do quadro da carreira.

Então, quando aqui cheguei, já tinha uma certa experiência de pesquisa, inicialmente de pesquisa mais de natureza teórica, porque fiz o mestrado e o doutorado no programa Educação: Filosofia da Educação, no qual essa perspectiva era predominante. Embora, naquele contexto, eu tenha quebrado um pouco esse paradigma, porque – formada em Pedagogia – eu já tinha uma experiência anterior na área da educação básica, desde o primeiro ano de alfabetização. Já tinha uma perspectiva de que esse desenvolvimento teórico na Filosofia da Educação era importantíssimo para que as minhas pesquisas teóricas conversassem com as pesquisas de campo. E ali eu comecei. Concluí o mestrado em 1979 e o doutorado em 1985. Assim, quando cheguei no EDM eu já tinha uma longa experiência. Embora eu não pertencesse ao quadro docente dos programas de pós-graduação da PUC-SP, já havia orientado mestrandos e doutorandos. Na PUC-SP havia uma separação estrutural e institucional entre graduação e pós-graduação, enquanto na USP, logo após meu ingresso, fui credenciada pelos órgãos centrais como orientadora de mestrado e doutorado no nosso Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE). Então, nesse processo, fui seguindo minha carreira. Fiz concurso público para livre-docente em 1993 e ascendi ao cargo de [professora] associada. Em 1997, prestei o concurso público e me tornei professora titular.

Trabalhar no EDM foi uma experiência muito interessante. Eu vinha realizando inúmeras pesquisas com professores em escolas públicas; portanto, sempre com essa questão da formação teórico-crítica na análise das problemáticas da educação nas escolas públicas. E o EDM, quando cheguei, ainda estava – eu diria – em processo de formação de seus doutores: muitos colegas professores ainda não haviam concluído seus processos de doutoramento, na própria FEUSP ou no exterior.

Com relação à editoria da Revista da Faculdade de Educação, que vinha sendo publicada desde 1975, fui designada editora – presidente da Comissão de Publicações 1994-1996 – indicada pelos colegas e nomeada pela então diretora da FEUSP, professora Anna Maria Pessoa de Carvalho. Na Comissão também estavam os colegas Afrânio Mendes Catani e Sandra Zákia Sousa, do EDA [Departamento de Administração Escolar e Economia da Educação]; Andrea Daher e Cynthia Pereira de Sousa, do EDF [Departamento de Filosofia da Educação e Ciências da Educação]; Maria Felisminda de Resende e Fusari, do EDM; e as secretárias Cássia Andrade Oliveira, Elza Yukie Maeda e Márcia Regina Franguelli [exibe um exemplar do primeiro fascículo do volume 12 da revista, de 1995].

Depois de duas ou três gestões à frente da nossa, o nome da Revista foi trocado pelo atual [Educação e Pesquisa], o que foi muito bom. Em seus inícios e até os anos 1990, a tradição da revista era a de publicar artigos de professores da própria Faculdade. Os editores iniciais e nossos antecessores – à exceção do professor Nilson Machado, meu antecessor imediato na editoria – eram membros do EDF, sendo dois deles com uma forte formação e inserção na área da Filosofia da Educação (os professores João Eduardo Rodrigues Vilalobos e Ruy Afonso da Costa Nunes). O terceiro (professor Nicolas Boer) era um sociólogo muito conhecido, editorialista do Estadão.

Ou seja, era uma linha – lembrando que a revista foi criada em 1975 – num período em que as pesquisas eram incipientes na área da Educação, inclusive no próprio EDM. Embora o nosso PPGE tenha sido criado em 1971 – na esteira da Reforma Universitária de 1968, que instituiu a pós-graduação stricto sensu no Brasil –, os artigos da revista advinham de estudos teóricos. Uma revista, eu diria, endógena.

No contexto nacional, os educadores/pesquisadores da área da Educação havíamos criado a Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPEd), em 1978. É importante destacar nessa sigla o P de Pós-Graduação para destacar que a Associação foi criada após a ampliação dos programas de pós-graduação em educação (PPGEs) no Brasil, que haviam sido iniciados logo após 1968 – o da PUC-SP, o da PUC-Rio, o da FEUSP e o da UFRJ. Esses programas, aliás, foram responsáveis por formar, na pós-graduação stricto sensu, muitos professores que, por sua vez, assumiram a criação dos programas de pós-graduação no restante do Brasil. Os PPGEs stricto sensu pioneiros recebiam muitos estudantes de todos os estados do país. Formaram muitos mestres e doutores que se encontram, ainda hoje, na área da Educação em todo o país.

As pesquisas iniciais na área da Educação, ainda marcadas pelas vertentes epistemológicas do positivismo lógico, foram assumindo – em alguns programas, como os da PUC-SP, da PUC-Rio e da UFRJ – as vertentes epistemológicas críticas pautadas na hermenêutica e na fenomenologia (e, posteriormente, no materialismo histórico-dialético), trazidas nos avanços teóricos da Filosofia, da Sociologia e da Psicologia com determinantes das teorias do personalismo, do existencialismo, da psicanálise e dos contextos sociais nos processos educativos.

Nos anos 1970 (lembrando que, em 1975, a FEUSP criou a Revista da Faculdade de Educação), ainda estávamos em plena ditadura, com a expulsão/exílio de muitos professores que tinham uma visão crítica das próprias universidades, particularmente na USP e na FEUSP. Nos anos 1980, depois desse período nefasto, as vertentes epistemológicas críticas, ampliadas nos aportes do materialismo histórico-dialético e das teorias críticas frankfurtianas, predominavam em vários PPGEs, especialmente no da PUC-SP, que acolheu parte dos docentes que haviam sidos expulsos da USP.

As vertentes epistemológicas críticas ainda não se faziam presentes na FEUSP, o que veio a ocorrer nos anos 1980, com a chegada de professores vindos da PUC-SP (além de mim, Marli André, Antônio Joaquim Severino, Luiz Eduardo Wanderley e outros) e formados nas epistemologias críticas – e que, aqui, assumiram presença marcante na constituição e no desenvolvimento do PPGE da FEUSP.

No meu caso, iniciei pesquisas empíricas enquanto me aprofundava em pesquisas teóricas crítico-interpretativas na pós-graduação. Bacharel e licenciada em Pedagogia, com especializações em Orientação Educacional e em Pesquisa Educacional, após a graduação na PUC-SP (1962-1966) desenvolvi pesquisas – à época, ainda incipientes – que já apontavam o campo prático contextualizado como necessário à compreensão dos fenômenos educativos no campo da Pedagogia. Ou seja, principalmente de inserção em escolas públicas, evidenciando os problemas, as dificuldades, as possibilidades... tanto na área da formação de professores, do trabalho docente, quanto na área das aprendizagens e por aí afora. Minhas teses de mestrado e doutorado seguiram nas abordagens que denominei crítico-interpretativas com bases empíricas.

Pesquisas empíricas se fizeram mais presentes na área a partir dos anos 1990, especialmente no campo da Pedagogia, das políticas educacionais, dos sistemas públicos escolares, da organização pedagógica e administrativa, dos processos de ensino/aprendizagem e da formação de professores. Sustentadas nas vertentes críticas, surgiram pesquisas qualitativas em abordagens como pesquisa-ação, pesquisa documental, pesquisa do cotidiano, pesquisa com professores, pesquisas narrativas, estudos do meio, entre outras. As professoras Marli André, nossa colega na FEUSP, e Menga Lüdke, na PUC-Rio, são referências nesse movimento.

Na livre-docência, elaborei a tese que defendi a partir de minha inserção por quatro anos nas escolas públicas, em pesquisas com (e não sobre) os professores nelas inseridos. Atribuí a essa pesquisa teórico-empírica a denominação de pesquisa-ação crítico-colaborativa9.

À época, o movimento da crítica no campo da Educação, gerando as pesquisas qualitativas em oposição às de base positivista, criou um embate muito grande. Foram necessários alguns anos para chegarmos à compreensão de que, na nossa área de Humanas, elas se complementam, com vistas a assegurar e fortalecer as finalidades transformadoras que a crítica almeja. Bem, a superação dessas disputas contribuiu para a ampliação do potencial humano de criar conhecimentos que fortaleçam as transformações sociais humanizadoras nas pesquisas de todas as áreas.

No período em que assumimos a editoria (1994-1996), percebemos que o movimento nacional de produção e publicações de pesquisas que vinha sendo gestado no país ainda não se expressava na Revista da Faculdade de Educação. O nosso PPGE, criado em 1971, foi se fortalecendo com a vinda de docentes doutores pesquisadores de outras universidades e com a conclusão do doutoramento dos próprios docentes da FEUSP, configurando uma cultura de pesquisas e publicações. É importante destacar que, a partir de 1989, a USP iniciou a implementação de seu novo quadro de carreira, tendo a produtividade em pesquisa e publicações como principais requisitos à progressão docente.

Nesse contexto, já com a criação da ANPEd enquanto espaço de discussão de pesquisas, a ampliação dos PPGEs e sua avaliação instituída pela Capes [Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior], além da atribuição de recursos e bolsas pelas agências de fomento, valorizando a produtividade em pesquisas e publicações, a Revista da Faculdade de Educação se abriu a essas demandas e superou uma certa endogenia até então dominante.

Apesar de haver apoios financeiros dessas agências, entre os professores e no âmbito dos departamentos da FEUSP ainda não havia uma cultura de buscar esses apoios. A professora Anna Maria Pessoa de Carvalho, então diretora da Faculdade, nos instigou. Ela nos empurrou [risos] a solicitar bolsas para as nossas pesquisas e para as pesquisas dos nossos orientandos de mestrado, doutorado e iniciação científica, além de buscar auxílios para participar de eventos no país e, principalmente, no exterior.

Tudo isso também foi configurando o desenvolvimento da revista, superando a endogenia. Já no período da presidência do professor Nilson Machado (1990-1994), a quem sucedi, introduzimos no Conselho Editorial colegas de outras universidades do Brasil. No último número que editei, iniciamos o movimento que se seguiu, de publicar artigos de pesquisadores de outros países; por exemplo, no volume 1 de 1995, foi publicado um artigo do professor António Nóvoa, da Universidade de Lisboa, escrito em francês e um de seus primeiros artigos.

Fernando: O que você nos conta é a própria história da forma de produzir conhecimento em Educação no Brasil, né? E como a nossa revista amadureceu junto com isso...

Selma: Uma questão que eu entendo que também fortaleceu muito as áreas, inclusive as de fundamentos da educação, foi o foco que, depois do encerramento da ditadura, nós começamos a colocar, sem nenhuma censura – porque antes nós éramos [censurados], né? – na relação da escola pública e da formação de professores com a democratização. Além de militante e uma das fundadoras da ANPEd, eu também militava na Associação Nacional de Educação [ANDE], da qual fui presidente10. Nessa condição, promovemos juntos – ANPEd, ANDE e Cedes/Unicamp [Centro de Estudos Educação e Sociedade] –, as seis Conferências Brasileiras de Educação.

Da IV Conferência, de 1986, um evento com mais de cinco mil participantes que aconteceu em Goiânia, saiu a Carta de Goiânia, que foi encaminhada à Assembleia Nacional Constituinte. Praticamente todos os pontos que levantamos naquele imenso colegiado de educadores foram incorporados no capítulo sobre educação da Constituição de 1988. O único ponto que nós perdemos – o que foi terrível – foi o da destinação exclusiva dos recursos financeiros públicos governamentais para as escolas públicas, para o sistema público de educação (e não para o sistema privado). Essa perda favoreceu, na minha leitura, os avanços do neoliberalismo, com a privatização da educação pública, que já se manifestava nas políticas do país desde a década de 1990. Mas isso é uma outra história, né? Quer dizer, é uma história que segue presente, com a redução sempre mais intensa das verbas para a educação pública, reverberando nas pesquisas e nas publicações das universidades.

Bem, então a Revista da Faculdade de Educação foi seguindo pari passu a esses movimentos, e foi retratando, nas suas publicações, esses avanços que tivemos nas décadas de 1980 e 1990 na pós-graduação e na educação brasileiras. Nas políticas democráticas, né? (Apesar das tentativas de destruição que tivemos no período de 2016 a 2022).

Com as lutas e a militância acadêmico-política das e dos educadores nos anos 1990, conseguimos ampliar no país a oferta de escolas públicas de educação básica para a totalidade das crianças e jovens em idade escolar (antes, atendia-se apenas 45% dessa população). É importante lembrar que chegamos a essa conquista graças aos movimentos que nos antecederam, em 1932, dos Pioneiros da Educação Nova, com Anísio Teixeira e outros; e em 1960, com o movimento Mais uma vez convocados, com Florestan Fernandes e outros. A criação do Inep [Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais] por Anísio Teixeira iniciou as pesquisas e publicações sobre a educação pública no país. A Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP), do Inep, que teve o seu primeiro número em publicado em 1944 (e segue nos dias atuais), formou gerações de educadoras como eu. A Biblioteca da FEUSP possui em seu acervo – talvez único dentre as universidades do país – todos os números da RBEP. Bom, mas apenas para mostrar que era um período de efervescência na área.

E a Revista da Faculdade de Educação, após ganhar seu novo título, seguiu retratando todo esse movimento brasileiro. E seu movimento interno, ao retratar a contribuição das – já defendidas – teses de doutorado de colegas da FEUSP em outros países, vai ser muito perceptível nas áreas disciplinares dos três departamentos da Faculdade, assumindo perspectivas críticas colaborativas com escolas e sistemas públicos de formação humana no atual estado da democracia brasileira, mais política do que social.

Com a ampliação de pareceristas, o caráter endógeno inicial da revista foi se retraindo. Os aportes financeiros foram possibilitando o desenvolvimento das pesquisas e fortalecendo o campo da Educação no Brasil, embora a gente ainda tenha muitíssimo o que batalhar. E eu diria que só mantenho as minhas esperanças com respaldo nessa geração que foi formada nas duas últimas décadas do século passado e nas duas décadas e meia deste século. A gente tem hoje uma sólida produção na área de conhecimento sobre Educação e as relações da área no processo de transformação social, de políticas públicas… Então, de modo geral, eu diria que esse foi um período glorioso que vivi e que tenho pela frente; e no qual posso, dentro de minhas possibilidades, colaborar.

A escolha para a composição da equipe de editoria seguia o critério de dois professores de cada departamento. O meu antecessor foi o professor Nilson José Machado, do EDM. O professor Afrânio Catani, que me sucedeu, pertencia ao EDA. Ou seja, a gente foi desbancando um pouquinho a preponderância do EDF [risos] – que, entretanto, permaneceu tendo assentos na Comissão. Eu nem levantei os [nomes dos] demais [editores], embora me pareça que essa questão de uma certa endogenia, inclusive intradepartamental, desapareceu. Até porque, na composição da Comissão de Publicações, cuja presidente naquele período era eu, tínhamos membros dos três departamentos da FEUSP.

Fernando: Hoje o que nós temos é uma dupla de editores-chefes, de departamentos diferentes, que preside a Comissão Editorial. Então hoje a gente tem a Lúcia Sasseron, do EDM, e o Marcos Pagotto-Euzebio, do EDF, por exemplo. Mas essa composição é realmente variada.

Selma: Ótimo! Considero essa alternância muito sadia. Ela também foi sempre presente na escolha dos diretores e diretoras da FEUSP. Porque, lá nos primórdios, a predominância na diretoria era de professores externos à FEUSP, sucedidos por filósofos – dois ou três, se eu não me engano – do EDF. Depois, do EDM, foram a Myriam Krasilchik, em dois mandatos, e a Anna Maria Pessoa de Carvalho. Na sequência, eu e Sonia [Teresinha de Sousa] Penin. Após a preponderância desses dois departamentos, as eleições para o cargo de direção passaram a mobilizar a Faculdade toda, e veio a Lisete Arelaro, do EDA. Não me lembro a sequência depois. Enfim, modificou bastante, eu acho que para melhor. Esse percurso todo da direção da FEUSP, e também da coordenação da pós-graduação, é salutar.

Fui coordenadora do nosso PPGE no período após a Marli André. Ali fiquei por quatro anos, de 1998 a 2001. Depois de mim foi o Antônio Joaquim Severino. Depois, não me lembro... Estou aposentada e como docente sênior desde 2013. Em meus atuais 82 anos, ainda tenho uma participação o mais intensa possível na área da Educação. Eu diria que valeram a pena – e estão valendo ainda – esses quase 35 anos de FEUSP. Apesar de brigas e embates, como quando estive na Comissão de Avaliação dos PPGEs, na Capes, representando a ANPEd – a competição era desenfreada; tive que lutar pelos direitos do nosso Programa, porque ser da USP era visto como uma ameaça –, passou. Penso que aqueles momentos foram superados, pois temos um sólido sistema de pós-graduação no Brasil. E uma pós-graduação em Educação sólida no Brasil e na FEUSP, com o protagonismo da revista Educação e Pesquisa.

Fernando: De fato, é um desafio enorme tudo isso, incluindo o de sustentar uma revista científica por 50 anos em um alto nível de qualidade e acompanhar todas as transformações.

Selma: E tem mais uma coisinha que eu queria lembrar. Quando assumi a Revista da Faculdade de Educação, em 1994, introduzimos a seção Teses, publicando resumos de dissertações e teses defendidas no nosso PPGE e de teses de livre-docência defendidas na FEUSP. Eu não consegui ver se essa seção permaneceu até o término de meu mandato; acho que sim. Penso que encaminhamos a seção para a publicação então denominada Estudos e Documentos, sob a responsabilidade da mesma Comissão de Publicações responsável pela revista.

Mas essa seção deixou de constar da revista em 1996, se não me engano, quando o professor Severino, então coordenador da pós-graduação, propôs organizar as teses e dissertações defendidas na FEUSP desde 196711. Depois, acho que não foi mais necessário manter a seção, porque as teses e dissertações foram sendo digitalizadas na Biblioteca e na Capes. Enquanto seção na revista, ela cumpria um papel importante, pois não havia internet, inteligência artificial, Google etc.

Então, Fernando, acho que falei o essencial sobre o que me foi solicitado.

Fernando: Eu quero dizer que gostei muito de lhe escutar. Não dá para falar de uma revista como essa sem falar da nossa própria trajetória. Da nossa própria visão sobre o que são o conhecimento em Educação e a sua produção qualificada. Ao seu modo, a revista também contribui para isso. Aprimora as pesquisas, influencia os programas de pós-graduação e as outras revistas. Por outro lado, a gente também aprendeu muito com as outras revistas ao longo do trajeto. Como editor-assistente, quero lhe agradecer pela entrevista.

Referências

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  • PENIN, Sonia Teresinha de Souza; SOUZA, Maria Cecilia Cortez Christiano de. Revista Educação e Pesquisa - 10 anos e Revista da Faculdade de Educação - 35 anos. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 36, n. esp., p. 17-21, 2010. https://doi.org/10.1590/S1517-97022010000400002
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  • PIMENTA, Selma Garrido. Editorial. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, v. 21, n. 1, p. 3-4, 1995. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/rfe/v21n1/v21n1a01.pdf Acesso em: 31 out. 2025.
    » http://educa.fcc.org.br/pdf/rfe/v21n1/v21n1a01.pdf
  • PIMENTA, Selma Garrido. Pesquisa-ação crítico-colaborativa: construindo seu significado a partir de experiências com a formação docente. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 31, n. 3, p. 521-539, 2005. https://doi.org/10.1590/S1517-97022005000300013
    » https://doi.org/10.1590/S1517-97022005000300013
  • SÃO PAULO; Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Resolução SE nº 118, de 6 de junho de 1983. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 136-136, 1984. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/rfe/v10n1/v10n1a09.pdf Acesso em: 31 out. 2025.
    » http://educa.fcc.org.br/pdf/rfe/v10n1/v10n1a09.pdf
  • SILVA JR., Celestino Alves da et al. A propósito do Relatório da CEI (Coordenadoria do Ensino do Interior) sobre o Documento Preliminar: análise da Unesp, UFSCar e Unimep. Revista da Faculdade de Educação, São Paulo, v. 10, n. 1, p. 157-164, 1984. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/pdf/rfe/v10n1/v10n1a12.pdf Acesso em: 31 out. 2025.
    » http://educa.fcc.org.br/pdf/rfe/v10n1/v10n1a12.pdf
  • 2
    - Entrevista realizada via plataforma Google Meet, em 14 de agosto de 2025. A gravação da conversa foi transcrita e editada pelo entrevistador. O texto final da entrevista foi conferido e editado pela entrevistada.
  • 3
    - A série Estudos e Documentos, publicada pelo CRPE/SP entre 1966 e 1975, foi assumida pela FEUSP em 1976 e mantida até 2003 (com uma tentativa de retomada nove anos depois) (Arelaro, 2012). Através dela foram disseminados estudos monográficos, coletâneas, os anais do Simpósio de Pesquisa da FEUSP e outros documentos relacionados à Faculdade. Segundo Penin e Souza (2010, p. 19), em artigo comemorativo dos 35 anos de Educação e Pesquisa, uma outra publicação do CRPE/SP, a revista Pesquisa e Planejamento (1957-1975), constituiu “[...] o núcleo formador da Revista da Faculdade de Educação da USP”.
  • 4
    - Por coleções e número de títulos: Edições Loyola – coleções Realidade Educacional (9), Educar (15), Educ-Ação (5) e Educação Popular (9); Cortez Editora – coleções Magistério/2º Grau (17) e Docência em Formação (32 títulos até o momento).
  • 5
    - A Revista da Faculdade de Educação já vinha publicando, desde 1976 e de forma regular, traduções de textos de autores estrangeiros (isso ocorreu até 2021). Os artigos de autores de outros países – sobretudo de Portugal – produzidos especialmente para a Revista eram mais raros. Antes do artigo em francês de Nóvoa (1995) mencionado pela professora Selma em sua entrevista, a revista havia publicado somente um artigo em língua espanhola (Martinez Bravo, 1992). Até 1998, quando o periódico foi rebatizado Educação e Pesquisa, foram publicados apenas seis artigos em espanhol (um em 1992, um em 1996 e quatro em 1997) e dois em francês (em 1995 e 1997). Para se ter uma ideia do movimento de internacionalização da revista, o volume 50 de Educação e Pesquisa publicou, em 2024, 15 artigos em espanhol (17,8% do total) e quatro em inglês (4,7%), além de 33 traduções para o inglês de artigos publicados em português ou espanhol (41,2% dos textos traduzidos).
  • 6
    - A partir de 1983, a Revista da Faculdade de Educação passou a publicar documentos públicos e diálogos de pesquisadores da FEUSP com esses documentos. Um exemplo é o conjunto de análises políticas do Documento Preliminar nº 1 para a reorientação das atividades da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Azanha, 1984a, 1984b; São Paulo, 1984), produzido por docentes da FEUSP e de outras universidades do estado de São Paulo (Moraes; Nadai; Sposito, 1984; Silva Jr. et al., 1984) mediante a provocação do responsável pela elaboração do documento: José Mário Pires Azanha, professor da FEUSP e então chefe de gabinete da Secretaria da Educação no governo de Franco Montoro. Em 1986, já numa perspectiva mais acadêmica de debate, o volume 12 (n. 1-2) da Revista da Faculdade de Educação trouxe uma seção especial com quatro artigos denominada Educação e Constituinte. A presença dos registros e documentos – que aproximavam a Revista da Faculdade de Educação do debate mais conjuntural da política educacional, mas também reforçavam a sua endogenia acadêmica – rareou na década de 1990, desaparecendo por completo da revista em 1996, quando Selma Garrido Pimenta presidia a Comissão de Publicações da FEUSP.
  • 7
    -A seção Teses, contendo os resumos dos trabalhos de mestrado, doutorado e livre-docência defendidos na FEUSP entre 1993 e 1996, integrou os volumes 20 (n. 1-2), 21 (n. 1 e 2), 22 (n. 1 e 2) e 23 (n. 1-2) da Revista da Faculdade de Educação, publicados entre 1994 e 1997. Seções com resumos de teses e dissertações (inclusive de outras universidades) foram publicadas de forma episódica nos volumes 1 (n. 1), 2 (n. 1 e 2) e 5 (n. 1-2) da Revista, entre 1975 e 1979. Depois disso, a publicação dos resumos foi feita de forma regular entre 1989 e 1993, nos volumes 15 (n. 1), 16 (n. 1-2), 17 (n. 1-2), 18 (n. 1) e 19 (n. 1); e então, finalmente, na seção Teses, entre 1994 e 97. O desaparecimento dessa seção a partir de 1998 se explica pelo crescimento acelerado do número de trabalhos defendidos na FEUSP, o que acarretava o aumento do número de páginas da seção – e, portanto, dos custos de impressão da revista. A seção que em 1989 fora publicada com oito páginas de resumos de teses e dissertações defendidas em 1988, por exemplo, cresceu em 1996 e 1997 para 35 e 42 páginas, respectivamente, tendo sido necessário dividir os resumos das teses de livre-docência e de trabalhos de pós-graduação nos dois fascículos de 1996. A isso se soma a publicação, pelo Sistema Integrado de Bibliotecas da USP, do Catálogo da produção técnico-científica e artística do corpo docente e pesquisadores da Universidade de São Paulo (de 1986 a 1989), do Catálogo da produção bibliográfica do corpo docente e pesquisadores da Universidade de São Paulo (de 1990 a 1993) e do Catálogo da produção técnico-científica e artística do corpo docente/pesquisadores e teses da USP (de 1995 a 1997) – este já em formato digital (CD-ROM) – e, finalmente, o lançamento da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP, no ano 2000.
  • 8
    - O subtítulo de Educação e Pesquisa, ao menos em suas versões impressas até 2016, seguiu como Revista da Faculdade de Educação da USP.
  • 9
    - A entrevistada detalha esse conceito em Pimenta (2005).
  • 10
    - Essa presidência foi posteriormente exercida pelos colegas da FEUSP Sonia Penin e César Minto.
  • 11
    - Posteriormente à nossa conversa, a entrevistada localizou a publicação na Biblioteca da FEUSP (Battaglia, 2003).

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    19 Dez 2025
  • Data do Fascículo
    2025
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