Resumo
O artigo analisa a organização política e sindical dos professores ingleses, tendo como objeto o ativismo do National Union of Teachers (NUT) entre o final dos anos 1970 e meados dos anos 1980, período marcado pela intensificação da Guerra Fria e pela ascensão do neoliberalismo no Reino Unido. O estudo tem por objetivo compreender como o NUT ultrapassou as fronteiras do sindicalismo corporativo e assumiu um papel político de alcance internacional, articulando a defesa da educação pública à luta pela paz e pela justiça social. Fundamentado no materialismo histórico-dialético, o trabalho baseia-se na análise de fontes primárias: resoluções anuais do sindicato, o jornal The Teacher e o panfleto Education for Peace complementadas por bibliografia especializada e relatórios internacionais sobre armamentos. A investigação demonstra que o NUT desenvolveu uma práxis sindical orientada por valores emancipatórios, transformando o espaço educacional em campo de resistência cultural e política frente ao militarismo e às políticas de austeridade do governo Thatcher. Conclui-se que a atuação do sindicato exemplifica a passagem da consciência corporativa à consciência de classe ampliada, expressa na organização da Conferência Internacional pela Paz, em 1984. Essa experiência histórica revela que o sindicalismo docente, quando articulado a projetos ético-políticos universais, pode constituir-se em instrumento de transformação social e em expressão concreta da solidariedade internacional entre trabalhadores da educação.
Palavras-chave:
História do sindicalismo docente; National Union of Teachers; Guerra Fria; Educação para a paz; Conferência internacional
Abstract
This article analyzes the political and trade union organization of English teachers, focusing on the activism of the National Union of Teachers (NUT) between the late 1970s and the mid-1980s, a period marked by the intensification of the Cold War and the rise of neoliberalism in the United Kingdom. The study seeks to understand how the NUT moved beyond the boundaries of corporate unionism and assumed an international political role, linking the defense of public education to the struggle for peace and social justice. Grounded in historical-dialectical materialism, the research is based on the analysis of primary sources, including annual union resolutions, issues of The Teacher newspaper, and the pamphlet Education for Peace, complemented by specialized literature and international reports on armaments. The investigation demonstrates that the NUT developed a trade union praxis guided by emancipatory values, transforming the educational sphere into a field of cultural and political resistance against militarism and the austerity policies of the Thatcher government. It concludes that the union’s activities exemplify the transition from corporate consciousness to an expanded class consciousness, expressed in the organization of the International Peace Conference in 1984. This historical experience reveals that teacher unionism, when linked to universal ethical and political projects, can become an instrument of social transformation and a concrete expression of international solidarity among education workers.
Keywords:
History of teacher unionism; National Union of Teachers; Cold War; Peace education; International conference
Introdução
O estudo histórico das organizações sindicais constitui uma via privilegiada para compreender as dinâmicas sociais, políticas e culturais de cada época, permitindo revelar as interações entre o mundo do trabalho, a formação da consciência coletiva e os projetos de transformação social. No caso do National Union of Teachers (NUT), fundado em 1870 como União Nacional de Professores Elementares e posteriormente consolidado como o principal sindicato docente da Inglaterra e do País de Gales, a análise de sua trajetória durante o período da Guerra Fria revela uma experiência singular de politização e ampliação de horizontes na ação sindical docente. Sem negligenciar o seu papel político e social como uma entidade voltada à defesa de salários e condições de trabalho, o NUT tornou-se um espaço de elaboração intelectual e intervenção pública, articulando reivindicações educacionais com pautas de alcance internacional.
Sob a ótica do materialismo histórico-dialético, formulado por Marx e Engels (2007), a consciência histórica não se limita a um reflexo passivo das condições materiais de existência, mas resulta da práxis humana, da ação consciente e transformadora dos sujeitos sociais em seu tempo. Assim, a trajetória do NUT exemplifica o processo pelo qual uma organização profissional, ao se deparar com contradições estruturais mais amplas, é levada a redefinir sua identidade coletiva, desenvolvendo uma consciência de classe ampliada e engajando-se em debates que ultrapassam o campo restrito da profissão docente.
A atuação do sindicato, sobretudo no contexto de crescente tensão internacional e de crise do Estado de Bem-Estar Social, expressa o movimento dialético entre a luta particular dos trabalhadores da educação e a luta universal pela emancipação humana.
Este ensaio tem como propósito discutir a relevância dos estudos históricos sobre a organização política e sindical dos professores ingleses, tomando como objeto o ativismo do NUT entre o final da década de 1970 e meados da década de 1980, período marcado pelo recrudescimento da corrida armamentista e pela ascensão do neoliberalismo sob o governo de Margaret Thatcher.
Argumenta-se que o NUT, respondendo ao agravamento das desigualdades e ao risco de uma guerra nuclear, ultrapassou os limites do sindicalismo corporativo e assumiu um papel de agente político internacional. Essa inflexão culminou na organização da Conferência Internacional pela Paz entre o Ocidente e a Europa Oriental, realizada em Stoke Rochford Hall, em março de 1984, um dos episódios mais expressivos da diplomacia sindical e pedagógica inglesa no contexto da Guerra Fria.
A análise desenvolvida ancora-se no referencial marxista, que compreende a história como resultante das contradições entre estrutura e superestrutura e destaca a capacidade dos sujeitos coletivos de intervir na transformação da realidade (Marx, 2002; Marx; Engels, 1998). Nessa perspectiva, a atuação do NUT não apenas reflete o clima de uma possível e inconsequente beligerância internacional, mas também evidencia a práxis dos educadores enquanto força social capaz de questionar a lógica bélica e mercantil predominante.
Para fundamentar essa interpretação, o estudo recorre a fontes primárias, tais como moções das conferências anuais do sindicato, edições do jornal The Teacher e a publicação Education for Peace (1984), com o suporte de bibliografia especializada e relatórios internacionais sobre armamentos, como o SIPRI yearbook de 1981 (SIPRI, 1981).
Ao examinar essa experiência histórica, pretende-se demonstrar que o sindicalismo docente, em seu nível mais desenvolvido, é capaz de articular a luta por educação pública de qualidade à defesa da paz e à crítica das formas contemporâneas de dominação. A história do NUT durante a Guerra Fria, nesse sentido, ilumina um momento em que a prática sindical ultrapassou fronteiras nacionais, convertendo-se em instrumento de resistência e solidariedade internacional entre educadores. Essa perspectiva histórica não apenas amplia a compreensão do passado, mas oferece referências valiosas para a reflexão sobre o papel político e pedagógico dos sindicatos de professores diante das crises globais e dos desafios civilizatórios do presente.
Sindicalismo docente e consciência histórica no contexto da Guerra Fria
A análise do sindicalismo docente no contexto da Guerra Fria exige um alargamento teórico que ultrapasse uma leitura exclusivamente estrutural das contradições do capital. Se o materialismo histórico-dialético oferece o eixo interpretativo fundamental, ao compreender a consciência como produto das condições materiais e da práxis social, ele precisa ser articulado, no presente estudo, às contribuições da tradição da História Social e, particularmente, à reflexão de Norbert Elias (1944) sobre o processo civilizador.
Partimos da formulação clássica de Marx e Engels segundo a qual o ser social determina a consciência. No entanto, essa determinação não se realiza de maneira mecânica. Ela é mediada por experiências históricas concretas, por práticas cotidianas e por formas de sociabilidade que configuram o modo como grupos sociais interpretam o mundo e a si mesmos. É precisamente nesse ponto que o diálogo com Elias se torna fecundo: ao analisar o processo civilizador, o autor evidencia como padrões de autocontrole, sensibilidades morais e estruturas de interdependência social se transformam historicamente, produzindo novas formas de consciência.
O movimento do National Union of Teachers (NUT), entre o final dos anos 1970 e meados dos 1980, pode ser compreendido nesse duplo registro. De um lado, sua atuação expressa as contradições estruturais do capitalismo avançado: crise do Estado de bem-estar, ofensiva neoliberal, militarização da economia. De outro, revela a emergência de uma sensibilidade histórica específica: a percepção de que a ameaça nuclear e a degradação da educação pública constituíam dimensões interligadas de uma crise civilizatória mais ampla.
Ao incorporar a pauta do desarmamento e da educação para a paz, o sindicato não apenas reagiu a constrangimentos econômicos. Ele reinterpretou, à luz da experiência cotidiana docente, marcada pelo contato direto com os medos, expectativas e ansiedades das novas gerações, o sentido histórico do momento. A crescente manifestação de temores estudantis diante do risco nuclear, registrada no jornal The Teacher (1984), não pode ser compreendida apenas como reflexo ideológico, mas como expressão de um estágio específico do processo civilizador, no qual a possibilidade técnica da autodestruição da humanidade tensionava profundamente as bases morais da modernidade.
Nesse sentido, a consciência histórica do NUT não se limitou à passagem da “consciência em si” à “consciência para si”, nos termos marxistas clássicos. Ela também refletiu uma transformação na autopercepção do grupo docente enquanto mediador cultural de um processo histórico ameaçado. O sindicato passou a compreender que educar, naquele contexto, significava disputar o próprio horizonte civilizatório.
É aqui que a contribuição de Antonio Gramsci (2004a) se torna decisiva para a consistência teórica da análise. O sindicato deve ser compreendido como um aparelho privado de hegemonia, isto é, como organização da sociedade civil à qual se adere voluntariamente e que atua na produção e difusão de concepções de mundo. Inserido no interior do Estado Integral, entendido como unidade-distinção entre sociedade política (coerção) e sociedade civil (consenso), o NUT operava no terreno estratégico da disputa pela direção intelectual e moral.
A adoção da agenda pacifista e a defesa da “educação para a paz” configuraram, nesse sentido, uma autêntica guerra de posição. Em sociedades ocidentais de sociedade civil complexa, como o Reino Unido dos anos 1980, a supremacia de um grupo social se manifesta não apenas pelo domínio coercitivo, mas pela capacidade de direção cultural. Ao propor o redirecionamento dos gastos militares para a educação e ao inserir o debate nuclear no currículo escolar, o NUT buscava produzir uma reforma das consciências ou, mais precisamente, aquilo que Gramsci (2004a) define como criação de um novo terreno ideológico.
A reação do governo Thatcher confirma essa leitura. Ao acusar o sindicato de “doutrinação política”, o Estado em sentido estrito atuou como instância de coerção simbólica, procurando conter a expansão de uma contra hegemonia emergente no interior da sociedade civil. O conflito em torno da educação para a paz não foi mero desacordo pedagógico: tratou-se de disputa pela direção moral da sociedade britânica em plena escalada armamentista.
Metodologicamente, a abordagem proposta implica compreender o sindicalismo docente não como mero reflexo automático das determinações estruturais do capitalismo nem apenas como organização corporativa voltada à defesa imediata de interesses profissionais, mas como espaço privilegiado de produção de cotidiano político, no qual se articulam estrutura econômica, cultura e experiência social. A análise das resoluções aprovadas nas conferências de Jersey (1983) e Blackpool (1984), dos artigos publicados no The Teacher e do panfleto Education for peace, produzidos pelo National Union of Teachers, permite identificar não apenas posicionamentos institucionais formais, mas práticas discursivas, estratégias simbólicas e formas de sociabilidade que revelam a mediação concreta entre as macroestruturas da Guerra Fria e da ofensiva neoliberal e a experiência vivida pelos educadores em seu cotidiano escolar.
Nesse sentido, a incorporação do diálogo com a tradição da História Social, particularmente com as contribuições Edward Palmer Thompson e Norbert Elias, fortalece a coerência metodológica da análise ao deslocar o foco de uma concepção abstrata de classe para a historicidade concreta da experiência. Conforme Thompson (2002), a classe não é uma categoria estática, mas se delineia segundo o modo como homens e mulheres vivem suas relações de produção e segundo a experiência de suas situações determinadas no interior do conjunto de suas relações sociais, com a cultura e as expectativas herdadas, valendo-se dessas experiências em nível cultural.
A categoria “experiência”, assim compreendida, é atravessada pela heterogeneidade das relações sociais e pelo diálogo permanente entre ser social e consciência social. Essa perspectiva permite apreender o sindicalismo docente não apenas como instância organizativa, mas como processo histórico no qual os professores elaboram sentidos, reinterpretam constrangimentos estruturais e constroem respostas políticas ancoradas em suas vivências concretas no mundo do trabalho e na cultura escolar.
Ao mesmo tempo, o diálogo com Elias amplia a compreensão da consciência histórica como processo relacional e civilizatório. A ameaça nuclear e o recrudescimento da corrida armamentista tensionavam profundamente os padrões de autocontrole, segurança e expectativas de futuro que caracterizam o processo civilizador moderno. A presença do medo atômico no imaginário estudantil e docente, registrada nas fontes sindicais, não pode ser reduzida a efeito ideológico; ela constitui expressão de um momento específico em que as interdependências globais e a possibilidade técnica da autodestruição colocavam em xeque as bases morais da modernidade ocidental. O cotidiano docente, nesse contexto, emerge como espaço de mediação entre macroestrutura e experiência social, onde as grandes contradições do capitalismo tardio eram traduzidas em preocupações pedagógicas, debates curriculares e mobilizações sindicais.
Essa leitura ganha densidade quando articulada à concepção de Estado Integral desenvolvida por Antonio Gramsci (2004b). Inserido na sociedade civil, o sindicato configura-se como aparelho privado de hegemonia, organização à qual se adere voluntariamente e que atua na elaboração e difusão de concepções de mundo. A atuação do NUT, ao vincular luta salarial, crítica às políticas neoliberais e denúncia da economia de guerra, revela sua inserção na disputa pela direção intelectual e moral da sociedade britânica dos anos 1980.
A defesa da educação para a paz e o redirecionamento dos gastos militares para políticas sociais não constituíam apenas reivindicações conjunturais, mas movimentos típicos de uma guerra de posição travada no interior de uma sociedade civil complexa. Ao propor uma reforma das consciências por meio do currículo e da formação crítica dos estudantes, o sindicato operava simultaneamente na produção de consenso alternativo e na contestação da hegemonia dominante.
A organização da Conferência Internacional pela Paz, realizada em Stoke Rochford Hall, em 1984, representou o momento em que essa consciência ampliada ultrapassou o âmbito nacional e se projetou como estratégia internacional de articulação entre trabalhadores da educação. Longe de configurar uma política de conciliação de classes, tal iniciativa expressou a compreensão de que as contradições entre capital e trabalho assumiam dimensão global e exigiam respostas igualmente internacionalistas. O sindicato posicionou-se, assim, na encruzilhada entre o mundo do trabalho e o processo civilizador contemporâneo, articulando a experiência cotidiana dos docentes às grandes tensões geopolíticas da Guerra Fria.
Desse modo, o escopo teórico-metodológico aqui proposto permite compreender a experiência do NUT durante a Guerra Fria como expressão das contradições do capitalismo tardio, manifestação concreta de uma disputa hegemônica no interior do Estado Integral, momento singular de um processo civilizador tensionado pela ameaça nuclear e prática cotidiana de construção de consciência histórica no mundo do trabalho docente.
A articulação entre materialismo histórico, História Social e análise da experiência vivida nos ajuda a responder às críticas quanto às lacunas teóricas e metodológicas, ao demonstrar que o referencial marxista não é mobilizado de forma isolada ou dogmática, mas dialoga com a tradição historiográfica que reconhece a centralidade da experiência, da cultura e da vida cotidiana na formação da consciência e na constituição dos sujeitos coletivos.
A partir das resoluções aprovadas nas conferências anuais de Jersey (1983) e Blackpool (1984), observa-se o amadurecimento dessa consciência coletiva. As moções que condenavam o gasto “absurdamente crescente com armamentos” e reivindicavam o redirecionamento de recursos para a educação demonstram que o NUT incorporava o raciocínio histórico-dialético à sua ação política, relacionando causas estruturais e consequências sociais.
Ao mesmo tempo, a proposta de inserção da “educação para a paz” nos currículos escolares traduzia o esforço de articular teoria e prática, aliás, um movimento típico da práxis marxista, em que a formação de uma nova geração de cidadãos críticos era concebida como parte do processo de transformação social.
Sob esse prisma, o sindicalismo docente inglês revela-se mais do que um fenômeno organizativo: ele constitui uma forma de consciência histórica encarnada. A análise do NUT mostra que, quando a classe trabalhadora docente se reconhece como sujeito histórico e coletivo, sua luta deixa de se circunscrever ao campo econômico e passa a abarcar dimensões políticas, culturais e éticas da vida social.
A defesa da paz, da justiça social e da educação pública de qualidade não era apenas um ideal humanista, mas a expressão concreta de uma visão de mundo fundada na crítica às contradições do capitalismo e na possibilidade real de superação delas pela ação coletiva e consciente.
Portanto, a experiência do NUT durante a Guerra Fria exemplifica como o sindicalismo docente pode ser compreendido como um processo de construção de consciência histórica, no âmago de um movimento em que os educadores, a partir de sua prática cotidiana, reconhecem-se como agentes de transformação. A história do NUT demonstra que a práxis sindical, orientada por valores emancipatórios e pela crítica ao militarismo, representou uma forma específica de resistência à hegemonia capitalista. Ao fazê-lo, o sindicato reafirmou o papel político do magistério como mediador entre o conhecimento e a emancipação humana, contribuindo, de modo singular, para o avanço de uma consciência histórica crítica em escala internacional.
Guerra Fria, corrida armamentista e a crise do Estado de bem-estar social
O final da década de 1970 e o início dos anos 1980 configuraram um dos períodos mais críticos da história contemporânea, marcado pela intensificação das contradições do capitalismo em escala global e pela crise dos paradigmas que haviam sustentado o Estado de bem-estar social no segundo pós-guerra.
No plano internacional, a Guerra Fria, iniciada em 1947 e prolongada até o colapso da União Soviética em 1991, entrou em uma nova fase de tensão, caracterizada pelo recrudescimento da corrida armamentista e pela retomada do discurso belicista tanto no Ocidente quanto no bloco socialista. A invasão soviética do Afeganistão, em 1979, e a decisão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) de instalar mísseis de médio alcance na Europa Ocidental reavivaram o espectro de uma guerra nuclear, intensificando o clima de medo e insegurança que permeava as sociedades capitalistas e socialistas (Keeble, 1984d).
A partir da perspectiva marxista, esse contexto não pode ser compreendido apenas como uma disputa geopolítica, mas como expressão das contradições inerentes ao modo de produção capitalista. A corrida armamentista constituiu-se em um mecanismo de reprodução ampliada do capital, movido pela lógica da acumulação e pela necessidade de expansão dos complexos industriais-militares.
Como observa Marx (2002), o capital tende incessantemente a converter todas as esferas da vida, inclusive a guerra, em oportunidades de valorização. Nesse sentido, a militarização global e os investimentos bilionários em tecnologia bélica não foram apenas uma resposta estratégica à ameaça soviética, mas um componente essencial da economia política do capitalismo avançado. Segundo o SIPRI yearbook (SIPRI, 1981), o gasto mundial com armamentos alcançou, na década de 1970, a cifra de quatro trilhões de dólares (a preços de 1978), configurando um “desperdício trágico” de recursos que poderiam ter sido empregados na melhoria das condições de vida da população mundial.
Ao mesmo tempo, o Reino Unido vivenciava um processo de reestruturação econômica e política que corroía os pilares do consenso keynesiano construído no pós-guerra. A ascensão de Margaret Thatcher ao poder, em 1979, representou a consolidação de um projeto neoliberal de Estado, caracterizado pela desregulamentação dos mercados, privatizações em larga escala, redução de direitos trabalhistas e ofensiva contra os sindicatos.
A substituição do compromisso social-democrata pela lógica de mercado implicou a progressiva desarticulação do Estado de Bem-Estar Social, especialmente nas áreas de saúde, moradia e educação, convertendo direitos em mercadorias e ampliando as desigualdades estruturais (Hobsbawm, 1995). Para o materialismo histórico, esse processo expressa uma mudança na forma de dominação de classe: o Estado, antes mediador das tensões sociais, passa a atuar diretamente como instrumento de manutenção das relações capitalistas de produção.
Essa conjuntura de crise estrutural e confronto político serviram de pano de fundo para a reorganização das lutas sociais, incluindo o movimento sindical docente. No plano internacional, a política externa norte-americana sob Ronald Reagan e a britânica sob Thatcher reativaram o eixo ideológico da Guerra Fria, defendendo o armamento nuclear como garantia da “paz pela força”.
No plano interno, o aumento do desemprego, o congelamento salarial e o desmonte dos serviços públicos provocaram um ciclo de mobilizações e greves, entre as quais se destacou a dos mineiros (1984-1985), símbolo da resistência à ofensiva neoliberal. Para os educadores, a deterioração das condições de trabalho e a mercantilização da educação pública revelavam que a política de austeridade era, em essência, um projeto de reconfiguração ideológica e social, destinado a enfraquecer as organizações coletivas e a despolitizar o ensino.
A crise do Welfare State e a escalada militar da Guerra Fria expressam duas faces do mesmo fenômeno: a necessidade do capital de restaurar suas taxas de lucro por meio da compressão dos salários e da expansão de novos mercados, inclusive o da guerra. O militarismo, nesse contexto, funcionava como válvula de escape para as contradições do sistema produtivo, ao mesmo tempo em que consolidava a hegemonia ideológica do imperialismo. Marx e Engels (1998) já advertiam que o capitalismo tende a deslocar suas crises internas para o exterior, transformando a violência e o conflito em instrumentos de reprodução do capital. Assim, o armamentismo não pode ser compreendido apenas como paranoia política, mas como mecanismo econômico de sustentação do sistema.
O National Union of Teachers (NUT), inserido nesse contexto de desagregação social e tensão geopolítica, desenvolveu uma leitura crítica das contradições do período. As resoluções de suas conferências anuais entre 1983 e 1984 identificavam a corrida armamentista como fator de empobrecimento das nações e de ameaça à sobrevivência humana, propondo o redirecionamento dos gastos militares para a educação e as políticas sociais.
Essa postura expressava, em termos práticos, a articulação entre consciência histórica e consciência de classe: os educadores reconheciam que a luta por melhores condições de ensino estava intrinsecamente vinculada à crítica das estruturas econômicas e políticas que reproduziam a desigualdade e o militarismo. Ao denunciar a irracionalidade da economia de guerra, o NUT afirmava uma visão socialista de educação e sociedade, fundamentada na solidariedade internacional e na defesa da paz como valor civilizatório.
Em síntese, o contexto histórico da Guerra Fria e da crise do Estado de Bem-Estar Social configurou o cenário de emergência de uma nova práxis sindical docente. O NUT, ao inserir-se criticamente nesse panorama, transformou o espaço escolar em território de resistência e reflexão política, reafirmando o papel da educação como instrumento de emancipação. A compreensão marxista desse processo revela que, mesmo em meio ao avanço do neoliberalismo e à lógica destrutiva do capital, a ação coletiva dos trabalhadores da educação pode resgatar o sentido humano e histórico da luta social: o de construir, pela práxis, novas formas de solidariedade e de consciência.
A organização política e sindical do NUT: da defesa de classe ao ideário pacifista
A transformação do National Union of Teachers (NUT) entre o final da década de 1970 e meados dos anos 1980 ilustra de forma exemplar a passagem de um sindicalismo essencialmente corporativo para uma ação política de caráter internacionalista e pacifista. Esse processo, longe de ser espontâneo, deve ser compreendido à luz do materialismo histórico-dialético, que identifica na práxis coletiva e na consciência histórica os elementos centrais da superação das formas imediatas de alienação. Como destacam Marx e Engels (2007), os indivíduos não fazem história sob as condições escolhidas livremente, mas nas circunstâncias herdadas de processos anteriores, e é justamente na luta contra essas determinações que se forja a consciência de classe.
O NUT, ao expandir sua pauta da esfera estritamente profissional para a denúncia do militarismo e da destruição social engendrada pela corrida armamentista, encarnou o movimento dialético entre as condições objetivas e a ação subjetiva. A crise do Estado de Bem-Estar Social e o avanço das políticas neoliberais no Reino Unido, expressos na precarização da escola pública e na ofensiva contra os sindicatos, criaram as condições materiais para que os docentes percebessem a interdependência entre a luta educacional e a luta mais ampla contra a lógica destrutiva do capital.
A passagem do sindicalismo reivindicativo à militância pacifista representou, portanto, uma elevação qualitativa da consciência coletiva dos professores, que passaram a compreender a educação como prática social orientada por valores de emancipação e solidariedade humana.
Nas conferências anuais do sindicato, especialmente as realizadas em Jersey (1983) e Blackpool (1984), essa inflexão tornou-se evidente. Em Jersey, o NUT aprovou uma moção histórica que vinculava diretamente o crescimento do gasto militar ao empobrecimento das políticas sociais e educacionais, defendendo o redirecionamento dos recursos bélicos para a educação e o bem-estar das crianças.
Tal formulação expressava, em termos marxistas, uma crítica concreta à lógica da acumulação capitalista e ao fetichismo da mercadoria, uma vez que denunciava a subordinação da vida humana à produção de armamentos. A moção condensava, assim, o movimento da teoria à prática, ou seja, o momento em que a consciência teórica se converte em ação transformadora.
Em 1984, durante a conferência de Blackpool, o sindicato radicalizou essa perspectiva ao defender o desarmamento nuclear unilateral do Reino Unido e propor a inclusão da “educação para a paz” nos currículos escolares. Essa proposta ultrapassava o âmbito pedagógico: tratava-se de uma ação política voltada à formação de uma nova consciência social, em consonância com o princípio marxista da práxis como unidade entre o pensar e o agir.
A educação, nesse sentido, era compreendida não como instrumento de reprodução ideológica, mas como espaço de resistência e de construção de subjetividades críticas. O NUT reivindicava que o trabalho educativo deveria possibilitar a leitura crítica do mundo, desmistificando o discurso da inevitabilidade da guerra e da competição como fundamentos da vida social.
A resposta do governo Thatcher foi imediata e agressiva. O Secretário de Educação, Sir Keith Joseph, acusou o sindicato de promover doutrinação política e de introduzir a “ideologia da paz” no ensino (Minister questions..., 1984 apudMcCulloch, 2015, p. 135). Essa reação, entretanto, apenas confirmou o que Marx (2007) denominara de luta ideológica no interior da superestrutura: a disputa pela hegemonia cultural, na qual o Estado busca garantir a reprodução das relações de dominação. Ao desafiar o monopólio estatal sobre o discurso pedagógico, o NUT assumia uma posição de contrapoder, articulando o campo educacional à luta política mais ampla contra o imperialismo e a exploração capitalista.
A defesa da “educação para a paz” materializou-se na publicação Education for Peace (NUT, 1984b), que reunia orientações didáticas e reflexões sobre o papel social da escola diante da ameaça nuclear. O documento afirmava que a formação para a paz não se reduzia a uma questão moral, mas constituía um problema histórico e político, ou seja, uma dimensão essencial da luta de classes travada também no terreno da cultura. Em sua essência, o NUT reconhecia que o trabalho educativo, ao reproduzir ou transformar consciências, participava diretamente do processo histórico de construção da sociedade.
A adoção desse ideário pacifista expressava o amadurecimento político de um sindicalismo que reconhecia sua inserção na totalidade social e que buscava intervir conscientemente nela. O NUT, ao associar a crítica ao militarismo à defesa da educação pública, articulava a luta imediata por melhores condições de trabalho à luta histórica pela emancipação humana.
Essa perspectiva aproxima-se da concepção de Marx e Engels (1998) no Manifesto comunista, segundo a qual a consciência de classe só se completa quando a classe trabalhadora reconhece seus interesses como universais, isto é, quando sua luta particular se transforma em luta por toda a humanidade.
Dessa forma, a organização política e sindical do NUT entre 1979 e 1984 deve ser compreendida como expressão de uma práxis docente emancipada, capaz de integrar a dimensão econômica, política e cultural da luta social. Ao converter o espaço escolar em arena de enfrentamento ideológico e pedagógico contra o militarismo e o neoliberalismo, o sindicato demonstrou que o trabalho educativo é, em última instância, trabalho político. A defesa da paz, nesse contexto, não representava neutralidade, mas o exercício mais elevado da consciência histórica: a recusa ativa de aceitar a guerra e a destruição como destino inevitável da humanidade.
A Conferência Internacional de Stoke Rochford Hall: o ápice da atuação internacional do NUT
A realização da Conferência Internacional pela Paz em março de 1984, em Stoke Rochford Hall, representou a consolidação e o ponto mais elevado do amadurecimento político e ideológico do National Union of Teachers (NUT). Este evento não foi um ato isolado, mas a culminância de um processo de mobilização interna que se iniciou com as resoluções pacifistas aprovadas nas Conferências Anuais de Jersey (1983) e Blackpool (1984), simbolizando a transição da consciência em si, centrada nas reivindicações categoriais, para a consciência para si, na qual os educadores percebiam sua luta como parte integrante de um movimento universal pela emancipação humana e pela paz.
O contexto imediato da conferência era de extrema tensão geopolítica. O fracasso da ratificação do Tratado SALT II e o colapso das conferências de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear haviam criado um vácuo na diplomacia oficial, dominada por interesses estratégicos e econômicos dos complexos industriais-militares (Ferreira Junior, 2019). Nesse cenário, a iniciativa do NUT emergiu como uma forma de “diplomacia popular”, um esforço consciente de intervenção da sociedade civil no curso da história, buscando construir pontes onde os canais estatais haviam falhado.
A conferência reuniu representantes de sindicatos de professores de ambos os lados da Cortina de Ferro: a National Education Association (NEA) dos Estados Unidos, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação e Ciência da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) – conforme registrado em O Planeta é o lar de todos nós (Agência de Imprensa Nóvosti, 1984) –, sindicatos da Alemanha Oriental, Bulgária e Finlândia (Keeble, 1984a; Ferreira Junior, 2019). A mera realização deste encontro, em plena polarização Leste-Oeste, constituiu um ato simbólico de contestação ao discurso da inevitabilidade do conflito. Na perspectiva gramsciana, tratou-se de um ato de contra hegemonia, que opunha a ideologia da solidariedade e da paz à ideologia belicista sustentada pelos interesses do capital e do imperialismo.
Os objetivos práticos acordados durante a conferência refletiam essa nova orientação internacionalista e prática. Entre as resoluções aprovadas estavam (NUT, 1984b; Ferreira Junior, 2019):
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criação de um sistema de intercâmbio de professores e estudantes entre os blocos;
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A organização de escolas de verão internacionais voltadas para a educação para a paz;
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O estímulo à colaboração direta entre escolas de diferentes países;
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A formação de uma rede internacional para troca de informações e materiais didáticos sobre paz;
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A produção de materiais que estimulassem o pensamento crítico e o diálogo intercultural.
Essas propostas materializavam a concepção marxista de práxis, onde a teoria (a defesa da paz) se converte em ação transformadora concreta (o intercâmbio, a colaboração). A educação era, assim, reafirmada como instrumento de emancipação, capaz de formar uma nova cultura política antagônica ao militarismo.
Os depoimentos dos líderes sindicais presentes revelam a profundidade do significado atribuído ao evento. Don Winters, Presidente do NUT, descreveu a conferência como “a realização de um sonho”, expressando o desejo de que não fosse um evento isolado, mas o início de uma cooperação duradoura (Keeble, 1984c). Gary Watts, da NEA estadunidense, classificou o encontro como “um grande passo educacional adiante” que demonstrava o compromisso do NUT com a paz mundial (Keeble, 1984c). Já Tamara Yanushkovskaya, representante soviética, enriqueceu o debate ao contextualizar a luta pela paz na experiência traumática da URSS na Segunda Guerra Mundial, lembrando os 20 milhões de cidadãos soviéticos mortos e defendendo que “apenas o desarmamento geral e completo pode ser o meio mais radical de fortalecer a paz mundial” (Keeble, 1984b). A fala de Rudolf Taegtmeyer, da Alemanha Oriental, encapsulou poeticamente o espírito do evento: “a reunião em Stoke Rochford Hall plantou uma flor nos jardins de Hiroshima e Nagasaki, que deve ser cuidada com carinho para que cresça” (Keeble, 1984b).
A Conferência de Stoke Rochford Hall representou, portanto, o ápice de uma estratégia sindical que articulou coerentemente a luta interna por educação pública com a luta internacional pela paz. O NUT, ao promover esse diálogo transnacional em um momento de paralisia diplomática, demonstrou compreender que a transformação das estruturas de dominação exigia a formação de redes internacionais de solidariedade de classe.
Essa iniciativa materializou uma práxis socialista no campo da educação, convertendo o espaço pedagógico em um terreno de disputa hegemônica e reafirmando o internacionalismo como princípio fundante de um sindicalismo docente verdadeiramente emancipador. A conferência não apenas quebrou o gelo da Guerra Fria entre educadores, mas também legou um conjunto de ações práticas que projetavam a luta pela paz para além do discurso, inscrevendo-a no cotidiano das escolas e na cooperação concreta entre os trabalhadores em educação do mundo.
Considerações finais
A trajetória do National Union of Teachers entre o final da década de 1970 e meados dos anos 1980 evidencia que o sindicalismo docente, longe de constituir-se como esfera meramente corporativa, inscreve-se no interior das grandes tensões estruturais do capitalismo tardio e das disputas hegemônicas próprias das sociedades ocidentais contemporâneas. Contudo, a análise desenvolvida ao longo deste estudo permite avançar para além de uma leitura estritamente estrutural, incorporando a dimensão da experiência histórica concreta como elemento constitutivo da formação da consciência coletiva.
Nesse sentido, a categoria de experiência, tal como formulada por Edward Palmer Thompson (2002), revela-se central para a compreensão do processo pelo qual o sindicato ampliou sua atuação da defesa salarial à crítica do militarismo e à formulação de uma agenda internacionalista de paz. A classe, como afirma o historiador, delineia-se segundo o modo como homens e mulheres vivem suas relações de produção e segundo a experiência de suas situações determinadas no interior do conjunto de suas relações sociais, com a cultura e as expectativas transmitidas, valendo-se dessas experiências em nível cultural.
Assim, a transformação do NUT não pode ser interpretada como simples reflexo das contradições macroeconômicas da Guerra Fria ou da ofensiva neoliberal, mas como resultado do modo pelo qual os docentes ingleses vivenciaram, interpretaram e ressignificaram essas condições no cotidiano escolar, no contato com seus estudantes e na organização coletiva de suas lutas.
A ameaça nuclear, os cortes na educação pública e a desestruturação do Estado de bem-estar social não foram apenas fenômenos externos. Tornaram-se experiências vividas, traduzidas em debates pedagógicos, resoluções sindicais, textos publicados no The Teacher e na formulação da proposta de educação para a paz. O sindicato atuou, assim, como espaço de elaboração cultural dessa experiência heterogênea, na qual se entrecruzavam condições materiais, expectativas morais e responsabilidades profissionais.
Essa dinâmica evidencia igualmente o papel da memória coletiva na constituição da consciência histórica. Conforme argumenta Maurice Halbwachs (1990), a memória individual não opera isoladamente, mas apoia-se em quadros sociais que fornecem palavras, ideias e referências compartilhadas. A construção da pauta pacifista do NUT articulou memórias da Segunda Guerra Mundial, recordações do trauma europeu e representações contemporâneas do risco nuclear, produzindo uma narrativa coletiva que legitimava a intervenção sindical no debate internacional. A memória, nesse caso, não funcionou como mera recordação do passado, mas como instrumento ativo de orientação da ação presente.
Ao incorporar essa dimensão, a análise supera possíveis lacunas anteriormente apontadas quanto à insuficiência de uma interpretação totalizante. A experiência do NUT deve ser compreendida simultaneamente como expressão das contradições do capitalismo avançado, como momento de disputa hegemônica no interior do Estado Integral, nos termos de Gramsci (2004b), e como manifestação específica de um processo civilizador tensionado pela possibilidade concreta da autodestruição nuclear, conforme permite problematizar o diálogo com Norbert Elias. Estrutura, experiência e cultura não aparecem aqui como esferas dissociadas, mas como dimensões interdependentes de uma totalidade histórica em movimento.
Também é necessário reconhecer, seguindo a reflexão de Marc Bloch (2001), que o passado não fala por si mesmo. Ele é interrogado a partir das inquietações do presente. A escolha de examinar a atuação internacional do NUT, sua defesa do desarmamento e sua proposta de educação para a paz responde às questões contemporâneas acerca do papel político da escola, da função social do sindicalismo docente e da persistência das ameaças globais à democracia e à vida humana. Nesse sentido, o presente condiciona as perguntas dirigidas ao passado, ao mesmo tempo em que o passado ilumina as possibilidades e os limites da ação coletiva no presente.
Por fim, ao reconstruir essa experiência histórica, procurou-se atender à tarefa que Walter Benjamin (1996) definiu como a necessidade de “escovar a história a contrapelo”. Em vez de narrar a Guerra Fria apenas pela ótica das grandes potências e das decisões diplomáticas estatais, privilegiou-se a ação de sujeitos coletivos situados na sociedade civil, evidenciando que professores organizados sindicalmente foram capazes de intervir no debate internacional e propor alternativas ao discurso dominante da inevitabilidade do conflito. Ao destacar essa dimensão contra hegemônica, a pesquisa reafirma que a história do trabalho docente integra a história mais ampla das lutas por emancipação.
Dessa forma, as conclusões aqui apresentadas consolidam uma análise que articula estrutura econômica, experiência social, memória coletiva e disputa ideológica, superando leituras fragmentadas ou unilaterais. O caso do NUT demonstra que o sindicalismo docente pode constituir-se como sujeito histórico ativo na construção de consciência crítica, operando na intersecção entre mundo do trabalho, cultura e política internacional. A educação, nesse horizonte, não é espaço neutro, mas terreno de disputa pela hegemonia e pela definição do próprio sentido civilizatório da sociedade.
Em última instância, a experiência analisada revela que, mesmo em contextos de forte ofensiva neoliberal e de militarização global, a ação coletiva fundada na experiência compartilhada, na memória social e na elaboração crítica da realidade pode produzir formas alternativas de direção moral e intelectual. A história do NUT durante a Guerra Fria, interrogada a partir das inquietações do presente, reafirma que a construção da consciência histórica no mundo do trabalho docente permanece elemento decisivo para pensar as possibilidades de resistência e transformação social no tempo atual.
Referências
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1- Disponibilidade de dados:
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo, conforme listado na seção de Referências, obras e documentos de apoio. As fontes primárias consultadas, incluindo resoluções do National Union of Teachers (NUT), edições do jornal The Teacher, o panfleto Education for Peace e o SIPRI yearbook de 1981 (SIPRI, 1981), constituem a base documental da análise apresentada.
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Editor responsável:
Prof. Dr. Roni Cleber Dias de Menezes
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo, conforme listado na seção de Referências, obras e documentos de apoio. As fontes primárias consultadas, incluindo resoluções do National Union of Teachers (NUT), edições do jornal The Teacher, o panfleto Education for Peace e o SIPRI yearbook de 1981 (SIPRI, 1981), constituem a base documental da análise apresentada.
