RESUMO:
Nas últimas décadas, a Análise Textual Discursiva (ATD) tem estado presente no desenho teórico/metodológico de um número crescente de investigações. Neste artigo, tencionamos compreender “o que é isto que se mostra” da/na ATD a partir da percepção de um conjunto de mestrandos, vinculados a um componente curricular que tinha como foco a metodologia supracitada. Durante as ações propostas, os pós-graduandos assistiram a três vídeos da professora Maria do Carmo Galiazzi, transcreveram, unitarizaram, elaboraram títulos e argumentos aglutinadores a partir das falas selecionadas. Posteriormente, esses argumentos foram analisados oportunizando a constituição de unidades de significado e categorias que estruturaram um metatexto, considerando os pressupostos desta metodologia. Como compreensões emergentes, destacam-se: i) a busca por não julgar na descrição do fenômeno; ii) seu potencial no processo de autoformação do pesquisador; iii) a aprendizagem/preocupação para com o exercício de escrita; iv) a revisão constante de entendimentos, oportunizando uma incessante busca por novos conhecimentos.
Palavras-chave:
Fenomenologia; Hermenêutica; Escrita com função epistêmica
RESUMEN:
En las últimas décadas, el Análisis Textual Discursivo (ATD) ha estado presente en el diseño teórico-metodológico de un número creciente de investigaciones. En este artículo, nos proponemos comprender “qué es eso que se muestra” del/en el ATD a partir de la percepción de un grupo de estudiantes de maestría vinculados a un componente curricular centrado en dicha metodología. Durante las actividades propuestas, los posgraduandos visualizaron tres videos de la profesora Maria do Carmo Galiazzi, transcribieron, unitarizaron, elaboraron títulos y argumentos aglutinadores a partir de los fragmentos seleccionados. Posteriormente, estos argumentos fueron analizados, lo que permitió la constitución de unidades de significado y categorías que estructuraron un metatexto, de acuerdo con los supuestos metodológicos del ATD. Entre las comprensiones emergentes se destacan: i) la búsqueda de no emitir juicios en la descripción del fenómeno; ii) su potencial en el proceso de autoformación del investigador; iii) el aprendizaje y la preocupación con respecto al ejercicio de la escritura; iv) la revisión constante de comprensiones, lo que posibilita una búsqueda incesante de nuevos conocimientos.
Palabras-clave:
Fenomenología; Hermenéutica; Escritura con función epistémica
ABSTRACT:
In recent decades, Discursive Textual Analysis (DTA) has been present in the theoretical/methodological design of an increasing number of investigations. In this article we intend to understand “what is shown” by/in DTA from the perception of a group of master's students, linked to a curricular component that focused on the aforementioned methodology. During the proposed actions, postgraduate students watched three videos by teacher Maria do Carmo Galiazzi, transcribed, unitized, developed titles and unifying arguments based on the selected speeches. Subsequently, these arguments were analyzed, enabling the creation of units of meaning and categories that structured a metatext, considering the assumptions of this methodology. Emerging understandings include: i) the search for non-judgment in the description of the phenomenon; ii) its potential in the researcher’s self-education process; iii) learning/concern for the exercise of writing; iv) the constant review of understandings, providing an opportunity for an incessant search for new knowledge.
Key words:
Phenomenology; Hermeneutics; Writing with an epistemic function
Primeiras palavras e pontos de ancoragem
A Análise Textual Discursiva (ATD) configura-se como uma metodologia de análise de informações empíricas, vinculada a pesquisas de natureza qualitativa no campo da Educação em Ciências, que objetiva oportunizar espaços de aprendizagem ao pesquisador na intencionalidade de possibilitar ao mesmo uma outra forma de perceber e compreender o mundo (Moraes; Galiazzi, 2016). Essa metodologia é frequentemente utilizada em investigações que intentem tecer interpretações a partir dos sentidos, significados e maneiras como as pessoas expressam suas experiências e percepções acerca da realidade e do mundo, seja em documentos, entrevistas ou qualquer tipo de texto.
O livro base da metodologia intitulado de “Análise Textual Discursiva”, originalmente publicado em 2007, já passou por duas reedições, respectivamente em 2011 e 2016. Para além da reedição e revisão, na terceira edição houve uma ampliação por meio da incorporação de um texto intitulado “O despertar de uma nova visão” e de um capítulo denominado de “Avalanches reconstrutivas: movimentos dialéticos e hermenêuticos de transformação no envolvimento com a Análise Textual Discursiva”. Sendo o primeiro proveniente de um capítulo da tese do professor Roque Moraes, e o último, referente a um texto em construção antes de sua prematura partida.
Um conjunto de outras publicações foi aglutinando-se à obra base desta metodologia, as quais podemos destacar: i) um dossiê na Revista de Pesquisa Qualitativa intitulado de “Análise Textual Discursiva: mosaico de metáforas”, publicado no ano de 20205; ii) o livro “Aprendentes do Aprender: um exercício de Análise Textual Discursiva”, publicado em 2021, que retrata uma das últimas ofertas do componente curricular de ATD, ministrado em conjunto pelos professores Roque Moraes e Maria do Carmo Galiazzi (Galiazzi; Ramos; Moraes, 2021); iii) o livro “Análise Textual Discursiva: uma ampliação de horizontes”, publicado em 2022, que contempla um compilado de textos que oportunizam um aprofundamento da compreensão das nuances teóricas, em especial da Hermenêutica, na ATD (Galiazzi; Sousa, 2022); iv) cinco E-books, provenientes das ações de um curso intitulado “ATD: teoria na prática”, respectivamente intitulados e publicados em: ATD: teoria na prática, 2022 (Silva; Marcelino, 2022a); ATD teoria na prática: ensaios orientados, 2022 (Silva; Marcelino, 2022b); ATD teoria na prática: mosaico de pesquisas atuariais, 2023 (Marcelino; Silva, 2023); Análise Textual Discursiva: teoria na prática - pesquisas autorais como uma tempestade de luz, 2024 (Marcelino; Silva, 2024); e Análise Textual Discursiva: Teoria na prática - Um ciclo de compreensões e aprendizados, 2025 (Silva; Marcelino, 2025)6; e v) para além do conjunto de capítulos de livro, artigos e investigações que assumem a ATD como referencial teórico/metodológico.
Em termos de citação, considerando a obra base, por ano, o número chega a ultrapassar o milhar. Diante desse cenário, um conjunto de pistas potencializa a compreensão do movimento de consolidação da ATD como referencial teórico/metodológico para o campo de investigações de natureza qualitativa na Educação em Ciências. Em sua gênese, vincula-se a um modo de interpretar e conduzir a pesquisa no campo da Educação Química e Ciências, em especial, do professor Roque Moraes, mas tem/vem transposto esse nicho em específico. Como marcadores característicos, além de sua vinculação visceral para com o campo da Educação Química/Ciências, assume e incorpora influências da Filosofia, principalmente, da Fenomenologia e Hermenêutica, a aposta na escrita em sua função epistêmica e o cuidado com o pesquisador iniciante (Calixto; Galiazzi; Kiouranis, 2024a; Calixto, 2025a).
Nesse ínterim, após apresentar alguns marcadores de contexto, no que tange à sua definição podemos argumentar que a ATD se configura como uma metodologia de análise de informações empíricas, que intenciona a produção de metatextos explicitando a compreensão de um fenômeno em estudo. Ela se estrutura por meio de etapas fundamentais, tais como: unitarização; categorização e elaboração do metatexto (Moraes; Galiazzi, 2016).
A relevância da escrita na ATD é destacada em distintos momentos pelos autores, Moraes e Galiazzi (2016), que ressaltam a importância de uma abordagem meticulosa e recursiva ao longo do processo analítico. Segundo eles, é fundamental que o pesquisador se comprometa com uma descrição minuciosa dos acontecimentos e discursos, incorporando também suas próprias percepções ao que não está explicitamente relatado, mas é discernível de diversas maneiras. A escrita é considerada essencial em todas as etapas da ATD, exigindo a produção de pequenos textos, em forma de ensaios interpretativos, oportunizando a tecitura de argumentos, para cada nível de categoria, mesmo quando a clareza e segurança sobre o que será descrito ainda não estão completamente estabelecidas.
Além disso, Moraes e Galiazzi (2016) argumentam que as descrições devem ser densas, buscando ancorar-se na realidade empírica para validar e contextualizar os fenômenos observados/investigados. Isso implica não apenas a compreensão do pesquisador, mas também a descrição das compreensões dos participantes da pesquisa, expressas tanto individual quanto coletivamente. “Neste movimento de interpretação do significado atribuído pelo autor exercita-se a apropriação das palavras de outras vozes para compreender melhor o texto” (Moraes; Galiazzi, 2006, p. 118).
Na ATD, os fenômenos podem ser analisados em sua extensão e profundidade, associando o primeiro aspecto ao quantitativo, e o segundo, ao qualitativo. Assim, a capacidade de descrever profundamente as percepções e fenômenos é crucial para a compreensão e interpretação desses elementos na pesquisa. A ATD proporciona uma abordagem flexível, permitindo a exploração de questões predefinidas e a abertura para novas descobertas. Essa integração da escrita, como parte essencial do processo analítico, reforça o papel central desta abordagem como metodologia de análise de informações empíricas, colaborando para a produção de metatextos que elucidam/comunicam a compreensão de fenômenos em estudo, conforme estruturado por meio de etapas fundamentais como unitarização, categorização e captação do novo emergente.
O primeiro momento, considerando as etapas da ATD, ocorre mediante leituras e interpretações do corpus, exercício que possibilita a elaboração de unidades de significado, também conhecido como unitarização ou desmontagem dos textos. Esse movimento potencializa a imersão e impregnação do pesquisador no seu fenômeno em estudo, sobretudo quando este investe esforços na leitura intensa e profunda do material delineado como corpus de sua investigação. Por conta desta característica da ATD, o pesquisador experiencia a oportunidade de compreender e reconstruir significados dos fenômenos investigados, o que também possibilitará sua autoformação, principalmente quando consideramos a premissa, expressa pelos autores, de que leitura e interpretação ocorrem de maneira conjunta (Moraes; Galiazzi, 2006).
Ante o exposto, a ATD permite atribuições de diferentes sentidos a um mesmo texto, pois cada leitura é única, impregnada pela ontologia do pesquisador. Ao nos depararmos com um texto, como um livro ou um artigo, estamos sempre olhando para ele de uma certa perspectiva ou usando algum tipo de teoria/conceito para entendê-lo, mesmo não estando totalmente conscientes disso. Nossa leitura é influenciada por crenças e conhecimentos prévios, não conseguimos fazer a interpretação de forma completamente neutra. Ter consciência dessa realidade oportuniza ao pesquisador uma “outra” forma de entender e fazer pesquisas de natureza qualitativa, impregnando-se pela provisoriedade inerente ao processo de construção do conhecimento científico por meio do fenômeno investigado (Calixto, 2020; Calixto; Galiazzi; Kiouranis, 2024a).
Entretanto, assumir a provisoriedade do conhecimento não pode ser confundida com falta de rigorosidade, tampouco com a aproximação a perspectivas epistemológicas ancoradas no relativismo. A esse respeito Gonçalves (2020) argumenta que a ATD distancia-se do relativismo, principalmente, ao considerarmos/avaliarmos as seguintes dimensões: i) a sua atenção aos movimentos de descrição, ancoragem empírica e validação; ii) a compreensão de que podem existir diferentes interpretações, mas isto não implica todas serem configuradas como válidas e/ou possuírem uma mesma hierarquia; iii) a aposta na relação entre texto e contexto; iv) a postura atrelada em não reduzir o objeto ao que se expressa sobre ele; e v) a inspiração/ancoragem nos princípios da Hermenêutica, em especial por considerar a relevância de aproximar horizontes variados.
As teorias podem mudar ao longo do tempo, o que significa que a forma como entendemos um texto também pode ser alterada com o passar dos dias, meses e anos. Assim, um mesmo texto pode sempre ser reinterpretado e ganhar novos significados à medida que nossas teorias se desenvolvem e ressignificam-se. No entanto, validar nossas interpretações e compreensões se delineia como uma premissa importante nas etapas que constituem os desdobramentos de nossas investigações. Nesse ínterim, quando consideramos as dimensões que estruturam a ATD, construir um exercício rigoroso de publicização do processo de categorização se configura como uma potente estratégia no intento de validar as interpretações e insights desenvolvidos no processo. Além disso, estruturar um metatexto ancorado no exercício de entretecer unidades empíricas, teóricas e de interpretação do pesquisador se esboça como uma ação imprescindível nesse intuito.
Em síntese, esse processo da ATD envolve a desconstrução dos textos em unidades menores, a reescrita dessas unidades, para torná-las compreensíveis, e a atribuição de níveis que resumem o conteúdo de cada unidade, tudo isso em busca de interpretar e compreender o fenômeno investigado. Diante desse propósito selecionam-se palavras-chave, advindas da unitarização, e elaboram-se títulos, que retratam o entendimento do pesquisador acerca da mesma e adensam os movimentos de interpretação. O propósito da análise consiste em identificar e comunicar novos sentidos e significados que possam emergir por meio dessa interpretação. Consequentemente, a ATD implica a interpretação de um texto com base em nosso conjunto de conhecimentos e teorias, progredindo à medida que novos significados presentes no texto em questão são desvelados.
A segunda etapa a ser realizada é a categorização ou estabelecimento das relações, que se configura como o processo de buscar conexões entre as unidades de significado, a partir de possíveis zonas de semelhança, gerando diferentes níveis de categorias de análise. Assim, essa etapa consiste num conjunto de dimensões descritas na sequência: i) emergência de categorias iniciais, por meio da análise dos títulos elaborados para cada unidade de significado ao longo da unitarização; ii) escrita de títulos para as categorias iniciais; iii) desenvolvimento de argumentos parciais para cada uma das categorias iniciais; iv) emergência das categorias intermediárias, mediante avaliação dos argumentos das categorias iniciais; v) escrita de títulos para as categorias intermediárias; vi) elaboração de argumentos parciais para cada uma das categorias intermediárias; vii) emergência da categoria final, por intermédio da análise dos argumentos das categoriais intermediárias; viii) escrita de títulos para as categorias finais; e ix) elaboração de um argumento aglutinador a partir de cada categoria final.
Essas etapas serão primordiais para a construção do metatexto, que se delineia como o momento de culminância e também o principal objetivo da ATD. O metatexto constituí a essência da ATD, principalmente por sua característica de comunicar as interpretações e compreensões elaboradas no itinerário da investigação, e por sua estrutura, na qual são entretecidas as unidades de significado, as interpretações dos pesquisadores/autores e o referencial teórico, com a finalidade de contribuir com a percepção e compreensão do fenômeno que está sendo investigado.
O objetivo precípuo de toda a análise é “criar” um metatexto que se configura como o retrato final do processo de investigação e interpretação do fenômeno. Percurso inaugurado por meio da seleção e categorização do material empírico, o que forma a base do metatexto. Após criar7 essas categorias, o pesquisador busca maneiras lógicas de conectá-las, costurar e experimentar diferentes maneiras de organizá-las de forma válida e coerente.
Ao elaborar títulos e argumentos, o pesquisador, quase que despretensiosamente, esboça os primeiros alinhavos do metatexto, ensaiando possíveis zonas de aproximação e formato de paisagens. No adensamento do exercício de interpretação, intensificado na passagem da elaboração de títulos, em forma de frases, rumo a argumentos, com dimensão de parágrafos, estrutura-se o esboço de uma compreensão mais ampla, diversa e validada. Por meio dessa estratégia, o pesquisador pode encontrar qual é a melhor maneira de construir o metatexto final. Ou seja, a própria discussão ao longo das categorias de análise já gera o conteúdo do metatexto, ainda que seja um longo e difícil caminho a ser percorrido, no final garante bons frutos e uma autoformação.
Calixto (2020) desenvolve um exercício de escrita na intencionalidade de tornar mais inteligível o processo de elaboração do metatexto, à vista disso, argumenta que o mesmo se estrutura e subdivide-se por meio do conjunto de categorias emergentes da análise e pode ser representado por meio da seguinte ilustração, expressa na Figura 1.
O argumento desenvolvido pela autora supramencionada propõe que cada categoria final, emergente do processo de análise na ATD, oportuniza a elaboração de um metatexto. Ante o exposto, o título do metatexto configura-se como o mesmo da categoria final. O argumento aglutinador, proposto para a categoria final, configura-se como o parágrafo de conclusão do metatexto. No que se refere às categorias intermediárias, sua inserção na estrutura do metatexto, vincula-se a zonas de divisão/níveis do texto, quantas forem as categorias intermediárias, essas serão os subtítulos do mesmo. Da mesma forma, ao final de cada um desses subtítulos/níveis, serão inseridos os argumentos das categorias intermediárias, como parágrafo de fechamento. A cada categoria intermediária, entendida como subdivisão/nível do texto, serão incorporadas as categorias iniciais que se vinculam a mesma, assim como o argumento parcial que constitui cada uma, respectivamente.
Na sequência, após estruturar o metatexto, mediante a organização explicitada no estabelecimento das relações/categorização, as unidades de significado, mais representativas, de cada categoria inicial, serão incorporadas. Nesse movimento, os títulos criados para cada unidade de significado podem ser aproveitados, pois esboçam os primeiros ensaios de interpretação do pesquisador. Após esse processo, cabe ao autor do metatexto, o pesquisador, alinhavar com competência cada uma dessas dimensões, adensando os movimentos de interpretação e compreensão, além de incorporar unidades teóricas que ancorem suas percepções e validem seus argumentos.
O metatexto descritivo-interpretativo configura-se como um exercício de comunicação que envolve compartilhar suas ideias e novos insights após uma análise aprofundada acerca do fenômeno em estudo. É um processo que visa entender melhor o que está sendo estudado. O autor basicamente continua retornando ao texto e mergulhando mais fundo no que já “descobriu”8, sempre procurando “descobrir” elementos novos. Nesse cenário, críticas e perguntas são importantes, pois ajudam a rever e ajustar o que você já pensou anteriormente.
Principiamos nossa caminhada mergulhando na fase inicial de leitura e interpretação, desenhando o roteiro de nossa jornada como em um mapa. Avançamos, gradualmente, enfrentando os desafios da categorização e estabelecendo conexões entre unidades de significado, preparados como estrategistas que elaboram planos minuciosos para explorar territórios desconhecidos, mas ao mesmo tempo abertos para o que se desvelava no percurso. Como catalisador do processo um questionamento: “O que é isto que se mostra, a percepção de mestrandos acerca da ATD?”. Este itinerário cuidadoso nos conduziu à construção do metatexto.
Dessa maneira, esse itinerário culmina em uma ampliação dos horizontes de compreensão, interpretando a ATD para além de sua configuração como metodologia de análise de informações empíricas, mas também como potência para a constituição de uma forma de compreender o mundo, de ser e estar nele, mais preparados para desbravar novas fronteiras no vasto oceano do conhecimento, a pesquisa qualitativa na Educação em Ciências. Diante dessa conjectura, nesse artigo, nossa intencionalidade se centrou em “compreender o que é isto que se mostra da/na ATD a partir da percepção de mestrandos em um componente curricular denominado de Horizontes Compreensivos da/na ATD”.
Nuances metodológicas
Uma vez estabelecidos nossos horizontes de ancoragem e compreensão da/na ATD, explicitamos aqui nossa associação a pesquisa de natureza qualitativa. Segundo Flick (2009), a pesquisa qualitativa busca compreender fenômenos sociais e humanos em profundidade, explorando os significados, experiências e perspectivas dos participantes, em detrimento da quantificação de dados. Assim, se concentra na busca pela compreensão de fenômenos complexos, mostrando-se adaptável às descobertas que surgem durante o processo de investigação.
A metodologia assumida em uma investigação, independentemente de sua amplitude, delineia-se como um ponto essencial e explicita metas e influências teóricas que constituem o pesquisador e, por decorrência, o seu pesquisar. No entanto, para além de assumir a natureza da pesquisa, ferramentas para constituição do material empírico e metodologias de análise em nossos planos de investigação, precisamos avaliar, entender e compreender quais são as nossas intencionalidades. Por vezes, antes de avançar alguns passos é preciso retroceder observar e (re)pensar os caminhos a serem percorridos.
Como argumentam Ghedin e Franco (2011), a pesquisa atrelada ao campo educacional precisa considerar nossas intenções, visto que toda investigação em seus atos preliminares possui, apenas, a intencionalidade metodológica. No caminhar do fazer pesquisa nossas propostas vão se tornando mais compreensíveis e conectadas ao que tem se desvelado como aprendizagens e pistas emergentes do processo. Moraes e Galiazzi (2016) apresentam compreensão convergente ao esboçar a defesa de que na investigação construímos o mapa ao caminhar.
Diante desse cenário, em nossa proposta havia, preliminarmente, bem estabelecida, com cores e matizes vivos, a intencionalidade de compreender a ATD para além de sua dimensão procedimental. Mobilizados por esse catalisador as ações desenvolvidas no espaço do componente curricular, no qual constituímos informações que balizaram as análises expressas nesse artigo, foram se modificando e modificando-nos no percurso. Nesse ínterim, nesse momento, parece-nos pertinente descrever algumas das atividades que estruturaram esse contexto.
Durante o segundo semestre de 2023, o componente curricular denominado de "Horizontes Compreensivos da Análise Textual Discursiva" foi ofertado para a turma do Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). Nesse espaço, os mestrandos foram desafiados a desenvolver um conjunto de atividades que tinham como intencionalidade majorante oportunizar um espaço/tempo de aprendizagem teórico/prática das nuances correlatas a essa metodologia.
Em sua ementa, estavam explícitas as metas e algumas pistas concernentes à proposta de avaliação, conforme exposto no Plano de Ensino:
Pressupostos teórico/metodológicos da pesquisa em Educação em Ciências e sua articulação para com a Análise Textual Discursiva. Os princípios orientadores fundantes da metodologia: Hermenêutica e Fenomenologia. Os processos de operacionalização da análise: unitarização, categorização e tessitura do metatexto. Experiências com essa metodologia em investigações com foco na Educação em Ciências (Plano de Ensino do componente curricular de Horizontes Compreensivos da Análise Textual Discursiva).
Mediante o exposto, as aulas foram organizadas/estruturadas no formato de Rodas de Conversa, nas quais alguns capítulos da obra base da ATD foram selecionados para debate e imersão nas propostas e fundamentos que ancoram a mesma. Destes, podemos mencionar: o capítulo um, intitulado “Uma tempestade de luz: a compreensão possibilitada pela Análise Textual Discursiva”; o capítulo quatro “Movimentando-se entre as faces de Jano: o comunicar e o aprender na produção escrita que acompanham a Análise Textual Discursiva”; e o capítulo seis “Análise Textual Discursiva: Análise de Conteúdo? Análise de Discurso?”. Esses capítulos foram selecionados, pois contemplam nuances teóricas e práticas da ATD, focando em sua definição, vinculação para com a pesquisa qualitativa e debate minucioso dos aportes teóricos que sustentam as etapas de análise. Da mesma forma, em especial o segundo capítulo, enfatiza a importância da escrita na ATD, centrando-se de maneira majorante na argumentação em torno da potência da escrita em sua função epistêmica.
Para além dessas leituras, foram realizadas indicações de materiais suplementares que poderiam ampliar e/ou aprofundar as discussões que haviam sido estabelecidas. Como ações avaliativas, foram propostas: i) elaboração de resenha crítica dos capítulos supracitados; ii) assistir, selecionar e transcrever/unitarizar falas de três vídeos que tinham como foco a ATD; e iii) desenvolvimento de um texto final, que apresentasse o movimento de análise, o metatexto, por meio da seleção de unidades de significado dos vídeos.
Mediante o exposto, nesse momento, destinaremos esforços em contextualizar os movimentos que estruturaram a segunda atividade avaliativa, referente à fragmentação dos vídeos. Foram selecionados três vídeos, respectivamente intitulados: 1) "Análise Textual Discursiva: entre a descrição e a compreensão9 ", 2) "Análise Textual Discursiva: Das perguntas ao metatexto 10" e 3) "ATD: uma ampliação de horizontes da palavra ao conceito 11", identificados respectivamente como vídeos 1, 2 e 3, na Figura 2 na sequência:
O primeiro vídeo, intitulado "Análise Textual Discursiva: entre a descrição e a compreensão", com duração de 1 hora e 18 minutos e mais de treze mil visualizações, concentra-se na essência da ATD. Especialmente ao residir seu debate em torno da relevância da abertura do pesquisador para com o fenômeno que se revela durante a pesquisa, na importância da flexibilidade para deixar que a percepção do corpus guie a compreensão e na constante reflexão sobre o que realmente se mostra, afastando-se de preconceitos e expectativas rígidas. Um outro elemento potente, estabelecido por meio do debate no/do vídeo, ocorre mediante o movimento de entender o que se caracteriza como compreensão. Nesse exercício foram analisadas teses organizadas em dois grupos: as que se aproximavam da descrição e teorias a priori, e aquelas que buscavam um processo de autoconhecimento.
O segundo vídeo, denominado de "Análise Textual Discursiva: Das perguntas ao metatexto", com duração de 1 hora e 28 minutos e que ultrapassa sete mil visualizações, aborda a constituição e construção do metatexto. Nele, destaca-se que a primeira etapa da construção do metatexto é a descrição. Para a ATD, essa importância advém da etnografia, refletindo a inserção do pesquisador no ambiente onde o fenômeno ocorre, para uma melhor compreensão. O metatexto é delimitado como o esforço do pesquisador em articular as compreensões construídas durante a investigação, considerando o campo empírico, teórico e suas próprias percepções.
O terceiro vídeo, “ATD: uma ampliação de horizontes da palavra ao conceito”, com duração de 1 hora e 46 minutos e mais de trezentas visualizações, aborda que a ATD representa uma abordagem metodológica que integra a fenomenologia e a hermenêutica, promovendo uma investigação com ênfase reflexiva e transformadora. Diferente da análise de conteúdo, proposta por Laurence Bardin, que se baseia em uma estrutura teórica fixa, a ATD envolve o pesquisador em um processo contínuo de descrição, interpretação e compreensão profunda do fenômeno estudado. A descrição é fundamental na ATD porque reflete o modo como o pesquisador percebe o fenômeno, proporcionando uma base sólida para a interpretação hermenêutica.
A tarefa inerente aos vídeos supracitados envolvia a análise dos mesmos, mediante o seguinte itinerário: i) Cada mestrando deveria assistir aos vídeos na sua integralidade e selecionar trechos, no formato de unidades de significado, que posteriormente seriam transcritos. Um quantitativo mínimo de quinze unidades de significado deveria ser selecionado em cada um dos vídeos; ii) As unidades poderiam ser organizadas em uma tabela de Excel, na qual o código de identificação dos vídeos seria apresentado. Por exemplo, V1part.T ou V1pal.T, em que "V" representa o número do vídeo, "part." indica o participante presente no vídeo, "pal." refere-se ao palestrante e "T" indica o tempo do vídeo; iii) Após organizar as unidades de significado dos três vídeos e inserir na planilha, deveriam ser selecionadas as palavras-chave, que seriam designadas a partir do texto da unidade; iv) Na sequência um título deveria ser elaborado, para cada uma das unidades, a partir das palavras-chave; v) Na etapa final um argumento, para cada conjunto de unidades que compunha o vídeo, deveria ser estruturado. Na sequência o Quadro 1, explícita a organização da planilha construída nos movimentos supramencionados.
Com a conclusão das atividades que oportunizam a organização da planilha, expressa no Quadro 1, a docente responsável aglutinou os argumentos elaborados pelos pós-graduandos em um único arquivo. Neste havia, apenas, os argumentos selecionados a partir das planilhas entregues pelos pós-graduandos. No total, foram enviados seis argumentos, no intento de preservar a identidade dos autores um código foi proposto, estruturado a partir da letra P, acrescida de um numeral, por exemplo: P1, P2, P3, P4, P5 e P6. Sendo assim, os seis argumentos, acrescidos do código, foram organizados em um quadro, como ilustrado no Quadro 2, e disponibilizados aos pós-graduandos para análise.
Posteriormente, foi proposto aos mestrandos o desafio que envolvia a realização, individualmente ou em duplas, da unitarização e categorização desses argumentos, culminando na elaboração de um metatexto (que constituiu o trabalho final). O conjunto das atividades desenvolvidas no decorrer das aulas pode ser observado por meio da Figura 3.
Nesse ínterim, o texto proveniente desse artigo vincula-se ao exercício desenvolvido por uma dupla de mestrandos mediante análise dos seis argumentos12, disponibilizados seguindo a lógica expressa no Quadro 2. A partir da análise dos argumentos, foram identificadas doze unidades de significado, duas unidades de cada argumento, originando palavras-chave, títulos e o início da categorização. A análise conduziu à emergência de cinco categorias iniciais (A, B, C, D e E), que se agrupam em três categorias intermediárias (I, II e III). Conforme expresso na Figura 4:
Diante do exposto, na próxima dimensão desse texto, apresentaremos o exercício de comunicação das nossas interpretações e compreensões, mediante o metatexto. O mesmo se estrutura por meio da categoria final, emergente da análise, e subdivide-se em níveis, perante as três categorias intermediárias e das respectivas categorias iniciais que as constituem, conforme descrito no processo de categorização representado na Figura 4, acima. A esse esboço, aglutinam-se nossas percepções e contributos teóricos que ancoram e adensam nossos movimentos de análise.
Um horizonte compreensivo da/na ATD: percepções dos mestrandos(as) em um curso de Ensino em Ciências e Matemática
Este metatexto intenciona comunicar o processo investigativo desenvolvido por meio da análise de uma atividade elaborada em um componente curricular, com foco na ATD, de um curso de mestrado. Nesse ínterim, mediante análise dos argumentos, entregues como parte da avaliação do componente supramencionado, emergiram doze unidades de significado, que foram organizadas em cinco categorias iniciais, as quais, posteriormente, oportunizaram a elaboração de três categorias intermediárias e uma final.
Diante dessa conjectura, o metatexto explicitado, nesse momento, retrata o exercício de interpretação e compreensão operacionalizado na Figura 4, e se subdivide em três níveis, cada um atrelado às categorias intermediárias emergentes da análise, com seus títulos e argumentos. A esses níveis, são incorporadas as categorias iniciais que o compõem e os títulos e argumentos das mesmas. Para além do exposto, adicionam-se as unidades de significado, as dimensões de ancoragem teórica e ampliam-se os exercícios de análise e interpretação do pesquisador.
Nos três níveis que estruturam esse metatexto argumenta-se em torno da ATD como uma metodologia que transcende a finalidade atrelada à análise de informações empíricas rumo à percepção da mesma, enquanto uma forma de compreender o mundo e a pesquisa qualitativa na Educação em Ciências. Ante o exposto, em cada uma das categorias intermediárias, são apresentadas pistas que ancoram esse argumento. Na categoria intermediária I (Nível I), intitulada como “A relação transformadora entre o pesquisador e o fenômeno na pesquisa empírica”, a nuance da teoria emergente na ATD assume o foco do debate. Na categoria intermediária II (Nível II), “Em busca do significado profundo da descrição e a hermenêutica na compreensão conceitual”, a ênfase hermenêutica da ATD assume o centro do diálogo. Já na categoria intermediária III (Nível III), denominada de “Compreendendo o fenômeno sem preconceitos e explorando as percepções do pesquisador”, o papel do pesquisador mediante o fenômeno, na perspectiva da ATD, é contemplado. Diante do exposto, nos próximos níveis, categorias intermediárias, entreteceremos movimentos de interpretação, compreensão, ancoragem empírica e teórica na intencionalidade de comunicar nossos horizontes de compreensão da/na ATD.
Nível I - A relação transformadora entre o pesquisador e o fenômeno na pesquisa empírica13
Este primeiro nível, correlacionado à categoria intermediária I, é composto pela categoria inicial A, intitulada “Relação fenômeno-pesquisador”, com três unidades de significados, e pela categoria inicial C, intitulada “O manifestar do fenômeno emergente”, com duas unidades, que possuem juntas cinco unidades. Ambas assumem como cerne o diálogo e problematização em torno da compreensão de como a teoria emergente manifesta-se mediante as limitações encontradas pelo pesquisador.
Categoria inicial A - Relação fenômeno-pesquisador
A categoria inicial A possui três unidades de significado, nela são expressas percepções dos mestrandos em torno da finalidade da ATD, mais especificamente acerca da intenção do pesquisador em compreender e ressignificar as características do fenômeno que se propôs a investigar. Dessa forma, na sequência analisaremos mais profundamente cada uma das unidades de significados presentes na categoria A. Inauguremos esse exercício por meio da unidade P4.114, que tem como título “O surgimento do fenômeno durante o processo de compreensão do pesquisador”, e argumenta que “A intenção do pesquisador é buscar compreender e ressignificar, reconstruir o que se mostra no processo desenvolvido durante a investigação, mantendo o foco na intenção com a percepção para que o fenômeno se mostre” (P4.1).
Neste caso em específico, aborda-se a percepção de que o pesquisador, ao trabalhar com os aportes da/na ATD, objetiva assumir, como foco central, o desafio de entender e dar novos sentidos ao que está pesquisando. Ele reconstrói e ressignifica, progressivamente, o que emerge do/no fenômeno que constitui sua pesquisa, sempre focado na razão de estar ali. Movimento catalisado pela intencionalidade de “enxergar” as aparências de forma mais nítida, mantendo a mente aberta para captar o emergente. Essa postura é importante, pois oportuniza a atribuição de sentido profundo e significativo ao fenômeno que está sendo investigado.
Na ATD, a compreensão profunda e a ressignificação emergem como processos intrínsecos, orientando o pesquisador na avaliação do significado subjacente aos discursos investigados (Moraes; Galiazzi, 2016). A atenção à compreensão original da pesquisa se dá também à percepção sensível, permitindo que a aparência se revele de maneira mais acessível e significativa durante o desenvolvimento do estudo. O pesquisador em apropriação da ATD, arroga posturas que notabilizam o emergente, ao expressar em textos seus exercícios de argumentação, munindo-se de ancoragens empíricas “constituindo abstrações teóricas emergentes das análises” (Moraes, 2020, p. 598).
A segunda unidade de significado, refere-se à importância de olharmos para as coisas de uma forma especial, uma perspectiva fenomenológica, e isso significa deixar as características se mostrarem de maneira natural, enquanto estudamos e as analisamos. Essa unidade, intitulada como “O fenômeno emergente que surge por meio da intencionalidade do pesquisador” discorre que: “Na Análise Textual Discursiva é preciso adotar a perspectiva fenomenológica e deixar que os fenômenos se mostrem no processo de análise, no entanto, é importante assumir uma intencionalidade de pesquisa para conseguir enxergar os fenômenos emergentes” (P5.1).
Ao incorporar a ATD em nossas investigações, é crucial adotar uma abordagem fenomenológica, permitindo ao fenômeno revelar suas características intrínsecas no decorrer da análise. Contudo, faz-se necessário definir, de maneira explícita, a intencionalidade da pesquisa para discernir a potencialidade das características emergentes. Nesse contexto, a perspectiva fenomenológica funciona como uma lente interpretativa, enquanto a intencionalidade da investigação atua como um guia estratégico para uma análise textual mais profunda e significativa. Nesse sentido, inspiramo-nos em Moraes (2003, p. 201), especialmente quando argumenta que:
Ao longo do presente texto não escondemos nosso viés por uma abordagem qualitativa. Entendemos que o deslocamento proposto de uma abordagem de análise objetiva e quantitativa para uma perspectiva subjetiva e qualitativa implica assumir um olhar fenomenológico em relação aos objetos investigados. Implica assumir uma atitude de deixar que os fenômenos se manifestem, sem impor-lhes direcionamentos. É ficar atento às perspectivas dos participantes, exercitando uma atitude fenomenológica. Essa abordagem implica valorizar argumentos qualitativos, movendo-se do verdadeiro para o verossímil, daquilo que é provado por argumentos fundamentados na lógica formal para o que é fundamentado por meio de uma argumentação dialética rigorosa.
Como já mencionado, a categoria inicial A é composta por três unidades de significado, a última mobiliza aspectos sobre como o fenômeno se mostra. Nesse contexto, contemplaremos o significado do “emergir do conhecimento ao pesquisador”, ou seja, a interação dinâmica entre o investigador e o fenômeno de estudo. Conforme expresso na unidade P1.1, denominada de “O emergir do fenômeno ao pesquisador”, a qual problematiza que “Para a ATD o fenômeno é o que se mostra a consciência do pesquisador como resultado de uma interrogação. Ou também respondido como o que se mostra ao pesquisador que tem a intenção de melhor compreender aquele fenômeno” (P1.1).
Na ATD, a compreensão do/no fenômeno que poderá emergir é como aquele insight que se manifesta na mente do pesquisador, quando ele está curioso sobre algo. É como se fosse uma resposta que brota da vontade sincera de entender, e essa conexão entre o pesquisador e o fenômeno destaca que a pesquisa precisa ter um propósito bem nítido e definido. Nas palavras de Moraes (2020, p. 599):
Os mergulhos na intensidade dos fenômenos, característicos da ATD, implicam o envolvimento em ciclos de caos e ordem, movimentos em espaços não lineares, com o questionamento de conhecimentos existentes, desorganização e desconstrução, seguidas de categorização e reorganização, espaços para a criação e produção de novas ordens e novas compreensões.
Na abordagem da ATD proposta por Moraes e Galiazzi (2016), a perspectiva fenomenológica emerge como um alicerce significativo, ancorada na compreensão da importância do estabelecimento da intencionalidade de pesquisa, ao mesmo tempo em que preserva uma direção deliberada no processo de investigação. Sendo assim, da análise e discussão da categoria A, temos o intuito do pesquisador de compreender o fenômeno que se mostra por meio da investigação do material empírico, a partir de uma impregnação com o mesmo, fazendo com que o pesquisador construa e reconstrua significados, acarretando no surgimento do novo emergente. Sucedendo então, em uma relação direta entre pesquisador e fenômeno, para além da separação sujeito e objeto15.
Categorial inicial C - O manifestar do fenômeno emergente
A Categoria Inicial C, intitulada "O manifestar do fenômeno emergente", possui duas unidades de significado e traz como essência do debate questões inerentes ao encontro do pesquisador com o fenômeno emergente. A primeira unidade, P2.1, intitulada “A liberdade dada ao pesquisador na ATD” dialoga em torno de que “Na ATD é preciso considerar algumas escolhas da parte do pesquisador, desde a seleção dos trechos que comporão seu material empírico, até as teorias que serão abordadas” (P2.1).
A unidade de significado, P2.1, aborda como, na ATD, o pesquisador possui um grau de liberdade acentuado, em especial no que se refere a sua interação para com o material empírico. Isso ocorre porque, ao nos depararmos com os desdobramentos da investigação, algo diferente pode chamar a atenção de cada pesquisador. Facetas distintas do fenômeno podem desvelar-se para cada pesquisador, que adota uma perspectiva única no desenvolvimento da pesquisa.
Segundo Galiazzi e Souza (2020, p. 1169), na pesquisa fenomenológica, não se possui clareza do fenômeno no início, ele emergirá no decorrer da análise, “é o movimento que parte do empírico à teorização”. As compreensões na ATD partem do intenso envolvimento do pesquisador com o material empírico e de sua criatividade, que são alimentados por sua ontologia (Moraes; Galiazzi, 2016).
Entretanto, apesar desse nível de abertura ao que se mostra do/no fenômeno, é preponderante considerar e avaliar, de maneira constante e progressiva, nossas intencionalidades de investigação. Essa nuance configura-se como a bússola que nos orienta no processo de interpretação e compreensão. Nesse sentido, a intencionalidade se torna tão relevante que se materializa como elemento estruturante do pesquisar. Nesse processo, a perspectiva da fenomenologia na ATD, especialmente, o trabalho com o fenômeno, configura-se como o estudo da experiência (Galiazzi; Souza, 2020).
Na unidade intitulada “O novo emergente surgindo a partir da limitação do pesquisador acerca do fenômeno”, a questão da teoria emergente que se revela ao pesquisador assume o foco do diálogo. Este entendimento se alicerça, inicialmente, a partir da percepção de que o pesquisador pode defrontar-se com aspectos/dimensões do/no fenômeno que não esperava/imaginava/conhecia, desse processo emergem múltiplas possibilidades de interpretação e compreensão. Conforme expresso na unidade de P4.2: “Ao investigar um fenômeno, pode se chegar a um determinado ponto em que percebe-se que há um limite, o que nos mostra que somos limitados, estamos em um período do espaço-tempo contextualizado e temos um fim, somos finitos, o que muitas vezes nos impulsiona a superar obstáculos e buscar novos horizontes”.
O fenômeno não se trata de algo que pode ser objetificado pelo sujeito. Em outras palavras, não é algo que o pesquisador tenha em mente e, ao se deparar com a pesquisa, ele o encontrará ali, da forma que o idealizou. O fenômeno surgirá quando o sujeito atento perceber o que é e/ou como se manifesta (Bicudo, 2011; Galiazzi; Sousa, 2020). Deste modo, na categoria C, contemplamos o momento no qual o pesquisador, ao investigar o fenômeno, depara-se com teorias que não possui um conhecimento prévio, o chamado Novo Emergente, e precisa aperfeiçoar seus conhecimentos, buscando, na literatura, autores que abordem as nuances desveladas16.
Neste sentido, por meio da Categoria Intermediária I - “A relação transformadora entre o pesquisador e o fenômeno na pesquisa empírica", podemos encontrar pistas que reforçam a compreensão do elo entre as categorias iniciais A e C, que reside na transformação mútua entre o pesquisador e o fenômeno. A intenção do pesquisador, conforme abordado na Categoria Inicial A, é enfatizada na necessidade de compreensão profunda e ressignificação. Essa intencionalidade, por sua vez, leva à Categoria Inicial C, na qual o pesquisador se depara com escolhas e limitações inesperadas, resultando na emergência do novo fenômeno. Assim, a relação entre o pesquisador e o fenômeno é um processo dinâmico e interativo, que culmina na construção de significados mais profundos e no encontro com teorias emergentes da/na pesquisa empírica17.
Nível II - Em busca do significado profundo da descrição e a hermenêutica na compreensão conceitual
Esta categoria intermediária II é composta pela categoria inicial B, intitulada "A distinção entre as análises: um olhar cuidadoso ao texto e ao pesquisador", com duas unidades de significado, e pela categoria inicial E, intitulada "A influência da Hermenêutica na ATD: A compreensão por meio das palavras", com quatro unidades de significado, que possuem juntas seis unidades. Tem como cerne a compreensão de como a ATD adota uma perspectiva hermenêutica, ao dedicar atenção tanto ao texto quanto a formação do pesquisador, diferenciando-se, assim, de outras metodologias.
Categoria inicial B - A distinção entre as análises: um olhar cuidadoso ao texto e ao pesquisador
Prosseguiremos nosso itinerário compreensivo de investigação de sentidos por meio da apresentação da categoria inicial B, com o título “A distinção entre as análises: um olhar cuidadoso ao texto e ao pesquisador". Essa categoria possui duas unidades de significado que, em sua essência, contemplam a atenção que a ATD dedica ao examinar o texto, centrando seus esforços na compreensão das palavras que o constitui. Além de buscar o sentido das palavras, a metodologia também visa a transformação do pesquisador, oportunizando condições de possibilidade para realizar esse exercício com maestria e culminando em uma outra forma de ser e estar no mundo.
A primeira unidade desta categoria refere-se ao interesse da ATD para com as palavras expressas no material empírico, e que desvelam pistas no exercício de compreensão do fenômeno, o que pode ser denominado de movimento hermenêutico. Segundo Galiazzi e Sousa (2019, 2020, 2022), a hermenêutica, especialmente a hermenêutica filosófica gadameriana, nos desafia a compreender uma outra experiência de verdade, ancorada na interpretação da importância da linguagem, em que o Ser é texto. Porém, elementos como a historicidade e a tradição influenciam nos modos como essa linguagem é construída e cristalizada. Portanto, resta ao pesquisador a tentativa de compreender o que foi dito no material empírico, uma vez que é impossível a articulação entre o dito, o escrito e a intenção do autor. Nesse cenário, argumenta-se que na ATD não analisamos o que nosso colaborador quis dizer, mas o que disse.
Dimensão expressa na unidade de P6.2, em especial, quando o pós-graduando intenciona desenvolver um exercício de comparação ancorado nas experiências que desenvolveu mediante o trabalho com outras propostas metodológicas. Nas suas palavras: “Na análise de conteúdo, é mais uma questão de aplicar uma teoria já existente, enquanto na ATD, a abordagem é mais profunda, buscando entender as características de forma mais completa. Essa mudança de abordagem é resumida na expressão "da palavra ao conceito"” (P6.2).
Ainda sobre o movimento hermenêutico na ATD, especialmente no seu processo de operacionalização, Galiazzi e Sousa (2019, p. 13) argumentam que “envolver-se num processo de categorização é encaminhar uma teorização sobre o fenômeno de pesquisa”. Essa teorização pode ser realizada a partir das teorias a priori e das teorias emergentes. Ao adotar as teorias a priori, o pesquisador estabelece previamente as dimensões de ancoragem teórica que o auxiliarão no processo de análise. Por outro lado, ao optar pelo segundo processo, as teorias são construídas durante o próprio movimento de pesquisa. Isso destaca a importância do engajamento ativo do pesquisador no desenvolvimento das teorias, seja por meio de um enquadramento prévio ou pela emergência durante a análise.
A segunda unidade, intitulada "O olhar minucioso da ATD em comparação à AC", revela-nos que a ATD não direciona seu foco exclusivamente para o resultado da pesquisa, mas sim para o processo que nela ocorre. Conforme explicitado na unidade de P1.2: “Sempre que falamos em ATD surge questões do tipo: qual a diferença de ATD para A.C? esta pode ser respondida do seguinte modo. As diferenças são mais do modo de olhar a pesquisa do que o procedimento” (P1.2).
Nesse contexto, Galiazzi e Sousa (2019) destacam que a ênfase da ATD está na compreensão profunda do fenômeno em estudo, indo além da análise superficial. Enquanto na ATD o foco está na interpretação e compreensão do significado das palavras e conceitos, na Análise de Conteúdo (AC), sob a égide de Laurence Bardin, há uma ênfase na objetividade e classificação de categorias, muitas vezes ignorando a subjetividade inerente ao discurso.
No que tange à comparação entre a ATD e outras metodologias, Calixto, Galiazzi e Kiouranis (2024, p. 33, grifos nossos), ao desenvolverem um exercício de escrita, no qual apresentam compreensões acerca das dimensões de operacionalização da ATD, propõem seis reflexões, das quais citam:
i) a demanda de que, ao nos aventurarmos na ATD, precisamos nos desafiar a compreender seus princípios fundantes, em especial os concernentes ao contexto filosófico, a Hermenêutica e a Fenomenologia; ii) a exigência da elaboração de categorias (iniciais, intermediárias e final) e do metatexto; iii) a pertinência de elaborar quadros representativos do processo de estabelecimento das relações, categorização, como estratégia para validação; iv) a possibilidade de deslocarmos o diálogo centrado no fetiche de comparação, da ATD para com outras metodologias, para a compreensão de sua gênese e pilares teóricos e metodológicos; v) a intensificação dos debates em torno da problematização do suposto relativismo, atrelado a mesma; vi) a potência da ATD como referencial teórico/metodológico da/ na pesquisa qualitativa, não restringindo a mesma a uma metodologia de análise de informações discursivas.
Precisamos avançar, para além de compararmos as metodologias de análise de informações empíricas no campo da Educação em Ciências. Seria mais potente analisar: “Quais delas se aproximam do meu modo de ser e estar na pesquisa qualitativa, teóricos que me ancoram e o fenômeno com o qual me debruço a investigar?”. Assim temos que, a categoria B constitui-se por um movimento que se estrutura por exercícios de argumentação que intencionam apresentar a existência de características distintas entre ATD e AC. Uma dessas refere-se ao olhar minucioso da ATD para o texto, buscando em uma análise textual enxergar para além do simples significado de uma palavra dita.
Categoria inicial E - A influência da hermenêutica na ATD: a compreensão por meio das palavras
Dando continuidade, abordaremos a categoria inicial E, intitulada "A influência da Hermenêutica na ATD: a compreensão por meio das palavras", que possui quatro unidades de significado e potencializa o debate em torno da importância da compreensão presente na hermenêutica. A unidade intitulada "O olhar voltado para o texto na ATD" destaca a atenção da metodologia para o texto em si, em contraste com a intenção do que o sujeito quis dizer. Conforme exposto por P3.1 “O que será analisado é o texto, não a intenção do que o sujeito quis dizer”.
Como mencionado no exercício de argumentação da categoria inicial B, é impensável para os pesquisadores alcançarem plenamente a intenção do autor. Essa afirmação ressalta a ênfase da ATD na análise direta do texto, reconhecendo as limitações inerentes à compreensão completa das intenções subjacentes do autor. Nuance expressa por Sousa (2020, p. 658) quando argumenta que:
No modo de tratar o texto na ATD, aparece inicialmente a necessidade de se ter uma atitude fenomenológica que se encaminha para uma interpretação textual. Nesse tratamento, podemos interpretar o pesquisador como um tradutor-intérprete dos textos do mundo acerca do fenômeno de interesse. Os sentidos atribuídos pelo pesquisador são elaborados pela tradição histórica que ele está imerso e cujo horizonte de compreensão é também por ela limitado. Resta ao pesquisador colocar-se no jogo interpretativo a partir do que nele se apresenta.
A segunda unidade, intitulada “A compressão que a ATD busca através dos textos e palavras”, tem como objetivo estabelecer a articulação entre a hermenêutica e a categorização na ATD. Nesse sentido P3.2 problematiza que: “A ATD busca fazer uma fusão entre o que diz a palavra e o conceito dela. De modo geral o que define a ATD é o seu processo de construção ligado ao texto e as categorias, buscando com base em sua categorização compreender os sentidos e o que mostra o fenômeno” (P3.2).
Essa metodologia se destaca pelo seu processo construtivo centrado no texto e na categorização emergente. Ao realizar a análise, os pesquisadores na ATD buscam compreender não apenas o que as palavras explicitamente dizem, mas também os significados mais profundos e os conceitos que emergem desse discurso. A fusão entre palavra e conceito, mediada pelo processo de categorização, permite uma compreensão mais rica e aprofundada dos fenômenos discursivos analisados. Dessa forma, a ATD se caracteriza não apenas pelo seu cuidado com a categorização, mas também pela atenção dedicada à relação entre palavras e conceitos, enriquecendo a compreensão dos sentidos presentes nos fenômenos analisados.
A terceira unidade desta categoria, intitulada “A presença da hermenêutica na ATD: o aprofundamento na compreensão das palavras”, evidencia a base filosófica presente na ATD ao adotar a fenomenologia e a hermenêutica como pilares para a compreensão dos fenômenos. Nessa perspectiva P5.2 discorre que: “Para compreender um fenômeno é preciso mergulhar profundamente nos significados das palavras que o descrevem, de modo a transitar entre os significados obtidos a partir do texto e a partir do conceito, estabelecendo, assim, os círculos hermenêuticos” (P5.2).
Moraes e Galiazzi (2016) enfatizam o compromisso com a descrição na ATD, na qual o pesquisador tem a responsabilidade de ser fiel aos acontecimentos e falas, adicionando a esses elementos aquilo que não está explicitamente relatado, mas que, de diversas formas, é perceptível ao pesquisador no fenômeno em questão. Nesse intento, a escrita deve ocorrer ao longo de todo o processo. Os autores afirmam que, para cada categoria e subcategoria, é necessário a produção de pequenos textos, que serão organizados e encadeados ao longo da produção escrita, o metatexto. Mesmo na ausência de clareza e segurança sobre o que será descrito, é imperativo escrever.
Consequentemente, “as descrições precisam ser densas” (Moraes e Galiazzi, 2016, p. 120), visando uma base na realidade empírica, com intuito de validação e contextualização. Deste modo, a escrita deve conter, além da compreensão do pesquisador, a descrição das compreensões dos participantes da pesquisa, que pode ser manifestada em uma perspectiva individual ou como um discurso constituído por outras vozes (Moraes; Galiazzi, 2016).
A quarta unidade da categoria inicial E, intitulada “Desvendando entrelinhas: o aperfeiçoamento do pesquisador na ATD”, traz novamente a influência da hermenêutica na ATD. Destaca-se o olhar mais atento para as palavras e a busca pelos significados ocultos por trás de cada sentença. Dimensão contemplada na escrita de P6.1 ao argumentar que:
É um método flexível e criativo que se concentra nas palavras usadas nos textos. Para fazer isso bem, o pesquisador precisa evitar julgamentos preconcebidos. Em vez de tentar adivinhar o que o autor quis dizer, a análise se concentra em descobrir o que o texto realmente se mostra, como se estivéssemos resolvendo um quebra-cabeça. É um processo de reunir o que as palavras dizem com o que elas significam para construir uma compreensão mais profunda. É como desvendar segredos escondidos nos textos, o que nos ajuda a aprender coisas novas e desafiar nossos conhecimentos anteriores.
Na ATD, a descrição possui um papel fundamental, pois é nesse momento que compartilhamos com os outros o que aprendemos com o fenômeno em estudo de nossa investigação. Escrever engloba atividades como ler, descrever, interpretar e argumentar. Os participantes da pesquisa devem sentir-se representados nesse contexto, mesmo que de maneira geral. É aconselhável que a interpretação se ancore tanto em ideias pré-existentes (a priori), quanto em ideias novas (emergentes). Da mesma forma, não é interessante nos limitarmos a descrever o que encontramos, mas é crucial interpretar e apresentar argumentos válidos, ancorados teórica e empiricamente. É dessa maneira que novas ideias e teorias afloram. Sendo assim, na categoria E, temos a intenção da ATD de não se restringir aos significados das palavras presentes no fenômeno, mas buscar o conceito por trás de cada uma delas, sua tradição, respaldando-se na hermenêutica para o desenvolvimento da compreensão do conceito destas palavras.
Nesse contexto, as categorias iniciais B e E compartilham o foco na compreensão do fenômeno por meio da ATD, destacando a atenção dada ao texto, à linguagem, à interpretação das palavras e ao crescimento do pesquisador, sua formação. Ao agrupar essas categorias, a categoria intermediária II busca explorar a convergência desses aspectos na aproximação dos princípios da hermenêutica à ATD, promovendo uma compreensão mais ampla e integrada dos fenômenos em estudo.
Nível III - Compreendendo o fenômeno sem preconceitos e explorando as percepções do pesquisador
No âmago desta categoria intermediária, encontra-se a categoria inicial D, intitulada "A imparcialidade presente na ATD", que abrange uma unidade de significado. Essa categoria tem como foco principal apresentar e problematizar a nuance correlata ao julgamento que alguns pesquisadores adotam em suas investigações, perspectiva que se distancia dos princípios inerentes ao processo de análise na ATD, uma vez que esta metodologia não intenciona realizar inferências.
Categoria inicial D - O distanciamento do julgamento na ATD
A primeira e única unidade da categoria inicial D, designada como “O distanciamento do julgamento na ATD”, descreve, como o título sugere, o afastamento de inferências que possam surgir no processo de análise. Nas palavras de P2.2, “A metodologia não busca o que é certo ou errado, mas sim o que se aproxima ou se distancia do que as teorias abordam, sejam elas a priori ou emergentes”.
A ATD não assume como objetivo “testar hipóteses para comprová-las ou refutá-las, mas sim buscar compreensão e reconstrução de conhecimentos sobre os temas investigados” (Moraes; Galiazzi, 2016, p. 33). Desta forma, compreendemos que a ATD, não possui a intencionalidade de expressar o certo ou errado, mas sim, dentro das pistas emergentes, o que se aproxima ou se distancia do que a literatura e os autores abordam acerca do fenômeno em estudo. Nesse escopo Calixto (2025a, p. 185) ao problematizar polarizações, como o mal e bem/mau e bom, no escopo das pesquisas qualitativas na Educação em Ciências discorre que:
Em específico, quando consideramos as dimensões correlatas ao fazer pesquisa, no desenvolvimento da/na análise, em muitas propostas desafia-se ao pesquisador a adensar exercícios de inferência, que se pauta no julgamento, por muitas vezes polarizado e imobilizado. Esse cenário se fundamenta, de forma majorante, em perspectivas filosóficas que se ancoram em pressupostos dualistas, os quais separam mente e corpo, razão e emoção. Descartes (1596-1650), e seus construtos teóricos, é exemplo disso. No decorrer de sua argumentação discorre acerca da relevância de separarmos mente e corpo, propondo uma Filosofia dualista, sustentada pela percepção de que a mente racional detinha o domínio sobre o corpo e poder sobre os afetos e paixões. Nessa perspectiva o corpo era compreendido como a fonte de todos os erros. Essa ênfase influenciou/influencia o desenvolvimento do conhecimento científico e as suas formas de comunicação.
A ideia de se afastar do que é certo ou errado sugere uma abordagem mais ampla na compreensão do texto em análise. Isso se alinha com a ATD, que busca ir além da dicotomia de bem e mal/bom e mau, explorando as nuances e complexidades do texto. Portanto, o foco está na compreensão sem ponderar juízos de valor sobre o que é tido como correto ou errado. A análise busca entender como os elementos textuais se relacionam com as teorias ou quadros conceituais existentes. Assim sendo, a categoria D, nos mostra que a ATD busca compreender o fenômeno, sem julgamentos, mas encharcada pela intencionalidade da interpretação. Almejando o aprofundamento do/no fenômeno. Voltando-se para as percepções do pesquisador ao deparar-se com o texto e aprender com ele.
Considerações finais
A ATD tem sua gênese atrelada à área da Educação Química e Educação em Ciências, entretanto, tem, de maneira progressiva, ultrapassado essas barreiras e vem sendo adotada em propostas de investigação de distintos campos do conhecimento. Para além de sua vinculação a um nicho, que tradicionalmente não elaborava propostas metodológicas correlacionadas à intencionalidade de analisar materiais empíricos, apresenta singularidade ao assumir como pilar teórico a Filosofia, especialmente na fenomenologia e na hermenêutica. Nesse sentido a ATD alicerça seus modos de entender e fazer pesquisa na fenomenologia da percepção e na hermenêutica filosófica, em especial, no exercício de interpretar e compreender os fenômenos em estudo; ancora-se na intencionalidade de elaborar metatextos, estruturados por movimentos de categorização, com distintos níveis - iniciais, intermediários e finais -, que apresentem pistas que oportunizam a comunicação das aprendizagens desenvolvidas; e provoca/desafia o pesquisador a desenvolver a escrita, a autoria, a criatividade e ampliar seus horizontes acerca do/no fazer pesquisa qualitativa na Educação em Ciências/Química.
Nesse ínterim, convida/desafia o pesquisador a (re)pensar dimensões estruturantes da pesquisa qualitativa, tais como o próprio conceito de objeto, problema, hipótese e objetivo. Esse processo catalisa um itinerário no qual o objeto passa a ser o fenômeno, o ser, que é linguagem; o problema é aberto, com ênfase fenomenológica no “o que é isto que se mostra?”; as hipóteses avançam da percepção de teses fracas a serem defendidas rumo a hipóteses de trabalho, tecidas no percurso de imersão no e com o fenômeno; e os objetivos estão mais próximos a intencionalidades, ancoradas na realidade (sempre influenciada pela tradição e historicidade).
Ante ao exposto, nesse texto intencionamos compreender “o que é isto que se mostra” da/na ATD a partir da percepção de um conjunto de mestrandos que participaram das aulas de um componente curricular que se desafiou a abordar a mesma em suas nuances teóricas e práticas. Mobilizados por esse objetivo/meta/intencionalidade analisamos, mediante os pressupostos da ATD, os argumentos elaborados nesse contexto. Da análise dos seis argumentos constituímos doze unidades de significado, cinco categoriais iniciais, três intermediárias e uma final. Entre os movimentos de caos e ordem, fragmentação e tecitura do metatexto, emergiram compreensões que desvelam a percepção da ATD como metodologia que ultrapassa as barreiras de diálogo em torno do método - unitarização, categorização e elaboração do metatexto-, rumo a compreensão de seus pilares e de como os mesmos influenciam nas posturas desenvolvidas/assumidas pelos pesquisadores. Além do exposto, nosso exercício investigativo oportunizou reflexões que demarcam a relevância do desenvolvimento de pesquisas que incorporem o desafio de compreender a potência da dimensão escrita da/na ATD no contexto da Educação em Ciências/Química.
Nesse sentido, compreendemos que a ATD, sob a influência inquestionável da fenomenologia e da hermenêutica, desafia o pesquisador na Educação em Ciências a compreender o fazer pesquisa e o seu fenômeno em estudo a partir de outras lentes, catalisadas pela investigação de sentidos distintos. Nesse processo, transformam-se pesquisador e fenômeno, especialmente quando consideramos a relevância atribuída à compreensão das palavras, que não só versam acerca do fenômeno, mas sobre o que o pesquisador é capaz de perceber no/do mesmo. A esse movimento, acrescenta-se à fórmula a variável inerente ao desafio de não julgar. Para além de estabelecer certo ou errado, bom ou mau, almeja-se perceber, interpretar e compreender os fatores que influenciam a realidade. Em síntese, por meio do itinerário de investigação de sentidos desenvolvido desvelam-se algumas pistas, tais como: i) a busca por não julgar na descrição do fenômeno; ii) seu potencial no processo de autoformação do pesquisador; iii) a aprendizagem/preocupação para com o exercício de escrita; e iv) a revisão constante de entendimentos, oportunizando uma incessante busca por novos conhecimentos. Soma-se a essas pistas a compreensão da relevância de intensificarmos investigações em torno da ATD na Educação em Ciências/Química, para além de sua configuração como contexto, rumo a sua materialização como fenômeno em estudo, na interpretação das singularidades deste campo, em suas particularidades e demandas.
Diante dessa conjuntura, argumentamos que fazer pesquisa na Educação em Ciências, sob a égide da ATD, é escrever. E no exercício de escrever, descrever e interpretar, almejamos não inferir. Mais do que isso, nos interessa interpretar o porquê a realidade se apresentou desta forma, ou mais especificamente, porque a compreendo por meio desse prisma. No estranhamento entre o que consigo ou não perceber, desvelam-se possibilidades de aprender. Assumir essa postura implica estar aberto ao inesperado, a nossa incompletude e a aprendizagem. Ao movimento! Como discorre Calixto (2025a, p. 191) “[...] nesse momento, ao contemplar o horizonte, esboçam-se paisagens diversas. Culminamos aqui, apenas, parte do itinerário/caminhada. Transitamos em um pequeno trecho da imensa floresta, ainda sem experienciar uma parcela vasta das infinitas possibilidades desse fenômeno, complexo e plurifacetado”.
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Sousa, R. S. (2020). O texto na análise textual discursiva: uma leitura hermenêutica do “tempestade de luz”. Revista Pesquisa Qualitativa,São Paulo SP, 8(19), 641-660. https://doi.org/10.33361/RPQ.2020.v.8.n.19.363
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5
O dossiê pode ser acessado por meio do seguinte link: https://editora.sepq.org.br/rpq/issue/view/20
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6
As diferentes edições dos E-books podem ser baixadas de maneira gratuita por meio do endereço: https://linktr.ee/analisetextualdiscursiva
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Nesse momento cabe demarcar nossos horizontes, sempre limitados. Em nossa vivência e experiência com a ATD habita o movimento de categorização/teorização emergente, por isso nossa ênfase no criar.
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O verbo descobrir, assim como sua conjugação descobriu, estão entre aspas pois retratam uma zona de sentido singular, que contempla o fato de que quando nos deparamos com algo desconhecido por nós desenvolvemos uma descoberta. Não se trata, especificamente de encontrar algo novo, para a comunidade científica, por exemplo, mas defrontar-se com nossa própria ignorância, que se configura como catalisador no/do processo de aprender.
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9
Disponível em: <https://www.youtube.com/live/MPl94LmzSQY?si=w1bqSyReAxYtOSOg> Acesso em: 27 fev. 2024
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10
Disponível em: <https://www.youtube.com/live/fmYQubabEME?si=St4ZHQaoVuO8oP25> Acesso em: 27 fev. 2024
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11
Disponível em: <https://www.youtube.com/live/OZ8SZ5COTRY?si=P2pDOIFAv0g0IcOm> Acesso em: 27 fev. 2024
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Cabe destacar que os pós-graduandos, envolvidos nas atividades, assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) disponibilizando os materiais elaborados no decorrer do componente curricular para análise.
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Neste texto, em especial, optamos por demarcar de maneira explícita as categorias intermediárias e iniciais na intencionalidade de tornar ainda mais inteligível, principalmente para os pesquisadores iniciantes, a estrutura do metatexto. Da mesma forma indicamos, ao longo do texto, os títulos, elaborados para cada unidade de significado, durante o processo de unitarização.
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O código indica que este excerto refere-se a primeira unidade de significado do argumento de P4.
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Este último parágrafo, apresentado ao final das categorias iniciais, comunica o argumento parcial tecido.
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Neste parágrafo pode-se observar o argumento parcial da categoria inicial.
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Este parágrafo comunica o argumento aglutinador da categoria intermediária.
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.
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O CECIMIG agradece ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico) e à FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) pela verba para a editoração deste artigo.
Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.







Fonte:
Fonte: Desenvolvida pelos autores.
Fonte: Material do acervo do componente curricular de ATD.
Fonte: Material do acervo do componente curricular de ATD.
Fonte:
Fonte: Elaborado pelos autores.