RESUMO
Este trabalho é resultado da pesquisa historiográfica sobre os manuais pertencentes à “Biblioteca de Cultura Pedagógica” (BCP), uma coleção da editora argentina Kapelusz, fundada e dirigida, entre 1946 e 1951, por Clotilde Guillén de Rezzano, uma das precursoras da Escola Nova na Argentina. Propõe-se o exercício de ampliar o olhar para a formação de professoras latino-americanas, analisando a produção e circulação das obras da BCP que compõem uma literatura pedagógica para a América Latina. Destarte, o objetivo é mostrar, em uma perspectiva transnacional, questões da materialidade e das narrativas de manuais da BCP. Metodologicamente, a análise incide na relação entre a materialidade do objeto e o texto, sendo que características sobre a editora, a BCP e sua fundadora, a produção e circulação das obras no Brasil e na América Latina, assim como os aspectos físicos das obras, compõem as análises da materialidade; as análises do texto, que aconselhava as futuras professoras sobre a importância do movimento de renovação educacional, serão apresentadas a partir de algumas obras da coleção e das considerações de sua fundadora. O referencial teórico utilizado, como Chartier (1999), Choppin (2004) e Batista e Galvão (2009), auxilia nos estudos e análises. Por meio desta pesquisa, conclui-se que os manuais da BCP subsidiavam a compreensão de temas como a Escola Nova e docência, rompendo fronteiras e contribuindo para a memória da formação de professoras latino-americanas.
Palavras-chave:
Biblioteca de Cultura Pedagógica; Formação de Professoras; América Latina; Clotilde Guillén de Rezzano; Manuais Escolares
ABSTRACT
This work results from a historiographical research about “Biblioteca de Cultura Pedagógica” (BCP), a collection published by the Argentinian publishing house Kapelusz, founded and directed between 1946 and 1951 by Clotilde Guillén de Rezzano, one of the pioneers of the New Education in Argentina. We analyze the training of Latin American teachers by studying the production and circulation of BCP works that form a pedagogical literature for Latin America. Thus, the aim is to present the materiality and narratives in BCP textbooks from a transnational perspective. Methodologically, the analysis focuses on the relationship between the materiality of the object and the text, with characteristics about the publisher, BCP, and its founder, the production and circulation of the works in Brazil and Latin America, as well as the physical aspects of the books, constituting the materiality examination. The analysis of the text, which advised future teachers on the importance of the educational renewal movement, will be presented based on some works from the collection and on the considerations of its founder. The theoretical framework used, such as Chartier (1999), Choppin (2004), and Batista and Galvão (2009), guides our studies and analysis. Through this research, we conclude that the BCP manuals helped to understand different themes, such as the New Education and teaching, breaking down boundaries, and contributing to the memory of the training of Latin American teachers.
Keywords:
Biblioteca de Cultura Pedagógica; Teacher Training; Latin America; Clotilde Guillén de Rezzano; School Manuals
Palavras iniciais
No todos los individuos son aptos para ser maestros, como no todos lo son para médicos, marino, políticos, agricultores, etc. Son necesarias o deseables ciertas condiciones esenciales, naturales unas, y adquiridas otras por medio de la preparación pedagógica y el ejercicio de la profesión (Rezzano, 1941, p. 71).1
Em 1921, a professora Clotilde Guillén de Rezzano, maestra de maestras2, então diretora da Escola Normal Nº. 5 de Buenos Aires - Argentina, tem seu discurso para as professoras recém-formadas publicado sob o título Consejos a las futuras maestras [Conselhos às futuras professoras]. Nesse discurso, a autora solicita que as professoras sejam justas, que sejam mães, no sentido de serem amorosas e piedosas com os estudantes. Filosoficamente, pede que as professoras liderem a melhoria ética da humanidade, e sociologicamente, que favoreçam a evolução social, a fim de que a razão impere e a pátria seja respeitada. Nas últimas páginas de seu discurso, Clotilde aconselha as professoras formadas a estudarem “los libros de los hombres” [os livros dos homens] e religiosamente se refere também ao estudo do “libro de Dios” [livro de Deus] (1921, p. 36).
Clotilde Rezzano, considerada uma das precursoras da Escola Nova na Argentina, é uma importante personagem na história dos livros e das leituras para as professoras latino-americanas (e, particularmente, para este trabalho), porque se dedicou à formação docente e, concomitante, à escrita de manuais, integrando o primeiro grupo de autores da editora argentina Kapelusz. Foi também responsável pela fundação e direção da coleção denominada “Biblioteca de Cultura Pedagógica” (BCP) dessa mesma editora, entre os anos de 1946 e 1951, com suas obras obtendo grande repercussão em vários países da América Latina.
A Editora Kapelusz foi fundada na cidade de Buenos Aires em 1905. De acordo com seu site3, o objetivo da transformação da pequena livraria em editora era melhorar a qualidade dos materiais didáticos e produzir inovações. A decisão de transformá-la em editora e, consequentemente, de criar suas coleções e produzir livros, coincidiria com o processo de expansão do sistema educacional argentino. Logo, a criação da Editora “não foi uma proposta improvisada” (De Luca, 2015, p. 204, tradução nossa).
A Editora Kapelusz se estabelece em um contexto marcado por mudanças nas legislações da Argentina. A Lei de Educação Comum de 1884 passa a instituir a escolaridade obrigatória, gratuita e laica, representando um marco na tentativa do governo central de “fazer da educação popular a base de uma sociedade coesa em torno de um projeto nacional” (De Luca, 2015, p. 204, tradução nossa). Com a aprovação das Leis Lainez, em 1905, e Palacios, em 1938, é autorizada a criação de escolas em todas as províncias do país. Antes disso, é importante destacar que a Universidade de Buenos Aires foi criada em 1821, e, entre 1825 e 1850, são criadas as escolas nacionais, como as “de Buenos Aires, Catamarca, Tucumán, Mendoza, San Juan e Salta” (Castro, 2007, p. 10). Na presidência de Domingos Sarmiento (1868-1874), iniciou-se a formação profissional de docentes nas escolas normais, anexas às escolas nacionais.
Com Lajolo e Zilberman (1996), ressaltamos que a história do livro e da edição escolar se insere na história cultural associada à constituição de uma sociedade letrada, apresentando peculiaridades à história educacional pelo estabelecimento de vínculos com a escola. Aliás, a produção do livro escolar está vinculada aos sistemas educacionais que são estabelecidos pelo Estado:
[…] se a sociedade supõe que a educação dos indivíduos passa pela escola, […] então é mister produzir livros para estudantes e dispor de professores, esses também formados pelos livros e usuários profissionais desse instrumento. A segunda condição relaciona-se à infraestrutura tecnológica: são necessárias tipografias e editoras para imprimir o material didático de que carecem docentes e discentes em sala de aula. […] Mas esse desenvolvimento também decorre de uma política, a econômica, gerenciada pela classe dominante de um povo (Lajolo; Zilberman, 1996, p. 121).
Na expansão dos sistemas de ensino e, consequentemente, com o fortalecimento do mercado editorial dos livros e manuais escolares, a Editora Kapelusz se consolida, conseguindo conquistar “a maior parte do mercado local de livros didáticos, e sua presença no mercado argentino e nas salas de aula argentinas se tornou uma marca distinta” (De Luca, 2015, p. 204, tradução nossa). Em 1947, os livros da Editora já circulavam por toda a América Latina e na Espanha. A Editora foi responsável pela publicação de várias coleções/séries que tanto subsidiavam os processos de formação docente como também as professoras que atuavam nas escolas primárias e secundárias, conseguindo entrar no mercado mundial dos livros didáticos e de livros de textos. Ainda hoje a Kapelusz permanece com um repertório significativo de publicações.
Destarte, os resultados aqui apresentados fazem parte da pesquisa, em andamento, sobre a história de leituras para a formação de professoras no Brasil e na América Latina entre os anos de 1930 e 1980, por meio da análise dos manuais pedagógicos e das coleções para além das suas fronteiras de origem, com o objetivo de refletir sobre os projetos de leitura para a formação de professoras engendrados numa perspectiva transnacional.
Portanto, nosso objetivo neste trabalho é mostrar, numa perspectiva transnacional, questões da materialidade e das narrativas dos manuais pertencentes à BCP no período em que foi fundada e dirigida por Clotilde Rezzano, de 1946 a 1951, sendo um projeto editorial da Kapelusz que permaneceu durante décadas subsidiando os cursos de formação docente. Do ponto de vista metodológico, a análise incide na relação entre a materialidade do objeto e o texto, sendo que questões sobre a editora Kapelusz, a BCP e sua fundadora Clotilde Rezzano, a produção e circulação das obras no Brasil e na América Latina, assim como sobre os aspectos físicos das obras, compõem as análises da materialidade; as considerações sobre as narrativas4 que compõem o texto - que aconselhava as futuras professoras sobre a importância do movimento de renovação educacional - serão apresentadas a partir de algumas obras da coleção e das considerações realizadas pela sua fundadora nos prólogos (prefácios) dos seguintes manuais: Hay que cambiar de educación: reflexiones, responsabilidades, perspectivas (1947); La vida afectiva y moral del niño: doce años de practica psicoanalitica (1948); Inexperiencia: ensayo pedagógico de uma madre maestra (1950); e El Jardín de infantes (1948). O transnacional neste trabalho se perfaz por meio da análise da produção e circulação dos manuais que atravessam suas fronteiras de origem e passaram a ser utilizados em outros países/cenários, em uma espécie de entrelaçamento de ideais voltados à formação de professoras, pressupondo um conjunto de relações em torno dos ideários de renovação educacional.
As análises que permitem observar o livro na fusão entre materialidade e texto provêm dos estudos realizados por Roger Chartier, que mostram que, nos livros, coexiste um conjunto comum a toda coisa escrita que a torna objeto (físico). Por meio de sua obra A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII (1999), compreende-se que o livro sempre visou instaurar uma ordem: a “ordem de sua decifração, a ordem no interior da qual ele deve ser compreendido ou, ainda, a ordem desejada pela autoridade que o encomendou ou permitiu sua publicação” (Chartier, 1999, p. 8). Também optamos por essa confluência de análise, a fim de romper com categorias de pesquisa estanques, descritas por Choppin5 (2004) como aquelas que ora concebem o livro escolar apenas como um documento histórico, analisando seus conteúdos, ora negligenciam seu conteúdo, o considerando apenas como um produto fabricado, comercializado e distribuído - objetos materiais.
Em conjunto com outros materiais (quadro-negro, caderno escolar, mobiliário etc.), os livros fazem parte da cultura material escolar que passou a ser objeto de estudos da História da Educação, devido à sua interlocução com a Nova História Cultural e, concomitantemente, à preocupação de historiadores(as) em preservar esses artefatos enquanto fontes de pesquisa e memória educacional. Os livros escolares também contribuem para a história das práticas e dos pensamentos educativos, da mesma forma que para a historiografia da educação, por serem reveladores de projetos de formação social. Manual escolar, livro escolar, livro didático, são terminologias frequentemente utilizadas pelos pesquisadores(as) na busca pela sua decifração, seja dos seus dispositivos técnicos, visuais, físicos, ou de suas narrativas, seus discursos. Neste trabalho, opta-se por denominá-los manuais, na medida em que sua produção corresponde aos temas previstos para o ensino de disciplinas formadoras pertencentes aos currículos de formação docente.
Sobre a Editora Kapelusz, como também sobre Clotilde Rezzano e a Escola Nova6, encontramos trabalhos significativos, como a dissertação de Sofía Dono Rubio, Experiencias alternativas de formación y prácticas docentes en la Argentina durante las primeras décadas del siglo XX. Las propuestas de Rosario Vera Peñaloza y Clotilde Guillén De Rezzano (2022); de Romina De Luca, La propuesta de la editorial Kapelusz para la escuela primaria argentina: un análisis cualitativo y cuantitativo de sus manuales para 4º grado en el área de Ciencias Sociales, 1976-2001 (2015); e de Ignacio Frechtel, Formas de circulación del conocimiento pedagógico renovador en la Argentina: revistas, visitas pedagógicas y exílios (2021).
Propõe-se, portanto, o exercício de ampliar o olhar para a formação de professoras latino-americanas, analisando os projetos de leituras para a formação docente, partindo da produção e circulação das obras da BCP que compõem uma literatura pedagógica. Lembrando que os livros não apenas transcenderam o tempo, mas também consentiram em conquistar o espaço (Escarpit, 1976).
A “Biblioteca de Cultura Pedagógica” e sua fundadora Clotilde Rezzano: a produção de manuais em defesa de ideias pedagógicas modernas
No prólogo do livro La salud del niño em su relación com la educación, de Gertrude Cromwell, vigésima nona obra publicada pela BCP, em agosto de 1951, há uma homenagem à Clotilde Rezzano, em virtude de seu falecimento em junho desse mesmo ano. Nesse texto, a importância de Clotilde como fundadora e diretora da coleção foi lembrada, ressaltando sua colaboração para a “vida pedagógica da América Latina” (Cromwell, 1951, p. XIII, tradução nossa).
Nascida em Buenos Aires, em 1880, Clotilde Guillén estudou na Escola Normal Nº. 1, Dr. Roque Sáenz Peña, formando-se em 1899. Completou seus estudos na Facultad de Filosofía y Letras, na qual se graduou em 1906 e para onde retornaria anos mais tarde para lecionar e dirigir um seminário de Pedagogia (que formava professores para o ensino secundário). Durante os anos de estudos universitários, ela conheceu José Rezzano (1877-1960)7, com quem se casaria anos mais tarde (Dono Rubio, 2022).
Clotilde foi professora de escolas primárias de 1900 a 1904. No ano de 1905, em “reconhecimento a sua formação e seu talento, o Conselho Nacional de Educação concedeu-lhe o cargo de Inspetora de Economia Doméstica” (Dono Rubio, 2022, p. 107, tradução nossa). Em 1909, assumiu o cargo de diretora da Escuela Normal de Maestras de Barracas al Norte - Nº. 5, fundada no mesmo ano, e, em 1910, participou do Congresso Internacional Feminista. Dessa sua consonância com a vanguarda feminista, Clotilde “foi tecendo um pensamento naturalista, pragmático e utilitarista que conviverá com noções do idealismo alemão, o espiritualismo, o nacionalismo liberal e o catolicismo”, o que impactará suas práticas (Dono Rubio, 2022, p. 109, tradução nossa). Clotilde também defendeu o papel da educação para a manutenção da liberdade e para evitar o avanço de regimes autoritários na Europa. Como gestora, e com base nas relações estabelecidas com o Conselho Nacional de Educação, viajou à Europa para ter contato com as primeiras experiências da Escola Nova.
Na Escola Normal Nº. 5, além de diretora, foi professora de Psicologia e Pedagogia, até sua aposentadoria em 1932. Clotilde buscou realizar nessa escola uma reforma pedagógica e institucional baseada nos princípios da Escola Nova, implementando uma série de ações como os “centros de interesse”, à luz dos pensamentos de Jean Ovide Decroly8, tornando-a modelo a nível nacional e internacional.
Neste cenário de atuação como professora e diretora, publicou em 1929 o manual Los centros de interés en la escuela, na Coleção “Escuela Activa” da Editora Losada (outra importante editora argentina que publica coleções voltadas para a formação docente). Na introdução dessa obra, Clotilde destaca a importância das obras de Decroly, de Maria Montessori e dos projetos de Winnetka99, explicando às futuras professoras que os “centros de interesse” ofereciam vantagens inegáveis, pois se opunham ao ensino fragmentado e enciclopédico. Os “centros de interesse” eram considerados pela autora ferramentas de trabalho para que as crianças aprendessem se movimentando em cenários/ambientes, de forma sucessiva e de acordo com suas preferências. Clotilde explica, em seu manual, que os centros de interesse poderiam ser desenvolvidos em qualquer escola argentina, propondo, a partir das experiências desenvolvidas na Escola Normal Nº 5, centros relacionados à alimentação para as crianças do primeiro ano (sete anos de idade) e à moradia/habitação para as crianças do segundo ano (oito anos de idade). De forma prática, Clotilde propõe, por exemplo, o “centro de interesse” denominado la granja, para que as crianças do primeiro ano pudessem estudar os animais, como as galinhas, os coelhos, as vacas, e também legumes, verduras, entre outros elementos naturais (Rezzano, 1946). Lembremos que na década de 1920 - em um período pós-guerra - passa a ocorrer um movimento de internacionalização da pedagogia por meio dos postulados da Escola Nova, sendo a paz um objetivo “primordial para grande parte da intelectualidade ocidental, e a educação deveria ser um meio para alcançá-la” (Frechtel, 2021, p. 19, tradução nossa).
Sem dúvida, um dos aspectos mais marcantes da trajetória de Clotilde foi sua defesa pela Escola Nova, sendo “campanha durante toda a vida para introduzir no país ideias pedagógicas modernas e novos métodos de ensino e adaptá-los ao nosso ambiente” (Cromwell, 1951, p. XIII, tradução nossa). Para essa professora-autora, a criança deveria ser o centro de toda a ação da escola, desenvolvendo sua personalidade por meio de sua atividade construtiva. Nesta perspectiva, Clotilde se reconhecia como parte do movimento da Escola Nova, que questionava a pedagogia tradicional e o “normalismo positivista”, tornando a formação de professores “hegemonizada”10 (Dono Rubio, 2022, p. 119, tradução nossa).
Aposentada da docência desde 1932, continuou escrevendo livros sobre Educação, Pedagogia e Didática, sendo autora de obras que circularam por toda a América Latina, como Hacia la escuela activa (1934); Didáctica general y especial (1936); Didáctica especial (1938); Los jardines de infantes (1940); e Manual de Pedagogía (1941).
Segundo o editorial da Kapelusz, a BCP foi criada e orientada por Clotilde porque ela estava convencida de que a nova educação, colocada a serviço da criança, exigia muito mais dos professores do que o que os manuais atuais da Pedagogia poderiam lhes oferecer. Ela se propôs a garantir que a profissão de professor “hispano-americano acompanhasse, junto com ela e mais de perto, todos os avanços da ciência da educação” (Cromwell, 1951, p. XIV, tradução nossa). Com esse objetivo, criou a coleção na forma de uma “enciclopédia dinâmica universal dos problemas pedagógicos e de suas soluções”:
A BIBLIOTECA DE CULTURA PEDAGÓGICA é a coroação de uma nobre vocação para o ensino, e o prolongamento e projeção em direção às fronteiras mais amplas de uma preocupação com o aprimoramento e a capacitação de professores e pais, em nosso país e em toda a América, para uma ação educacional cada vez mais inteligente e fértil (Cromwell, 1951, p. XV, tradução nossa).
Dirigindo a BPC e redigindo os prólogos de mais de vinte e sete livros dessa coleção, a própria Clotilde sinalizou, nas palavras introdutórias do livro La salud del niño em su relación com la educación (1951), que a Editoria Kapelusz criou uma biblioteca sob o nome de Biblioteca de Cultura Pedagógica porque divulgaria as melhores obras educativas publicadas em todo o mundo, “escolhendo aquelas que estão de acordo com a idiossincrasia americana e os ideais tradicionais de nosso continente” (Cromwell, 1951, p. XV, tradução nossa).
Dessa maneira, durante a direção de Clotilde da BCP, foram publicados vinte e nove manuais, sendo priorizados temas como: jardim de infância; exames e testes; orientação educacional; concepção sobre educação e pedagogia; ensinar e aprender; psicologia em diferentes frentes de estudos; Escola Nova; leitura e escrita; escola ativa; escolas experimentais. Entre as autorias, destacam-se os pedagogos suíços Robert Dottrens e Adolphe Ferrière, o sociólogo e psiquiatra cubano Emilio Mira y López, a psicanalista suíça Madeleine Rambert, a brasileira e técnica de educação da Divisão de Ensino Secundário do Brasil Isabel Junqueira Schimidt, o educador equatoriano Gonzalo Abad Grijalva e o psicólogo e professor da Universidade de Michigan Harry E. Bake, demonstrando a diversidade de autorias e de seus países de origem e mostrando que os manuais rompem fronteiras e oferecem às leitoras de diversos países a complementaridade entre dimensões científicas e curriculares voltadas à formação docente, além da sintonia com os princípios de renovação educacional.
Todos os vinte e nove manuais da BCP foram escolhidos e revisados por Clotilde, seja em sua redação original ou em sua versão em espanhol. Mesmo após seu falecimento, algumas obras que já haviam sido selecionadas, supervisionadas e traduzidas por Clotilde foram publicadas: La individualidad del niño en la educación, de Henri Bouchet; Cómo ensenar a leer por el método global, de Charles Hendrix; La escritura infantil: su importancia para comprender al niño, de Curt Honroth e R. Ribera; La historia, la geografía y la instrucción cívica: nuevas aportaciones para su enseñanza, de Delgado de Carvalho; Historia de la pedagogía: realizaciones y doctrinas, de René Hubert.
René Hubert11 teve suas obras publicadas em variados países, sob a direção de diferentes editoras. Na BCP da Editora Kapelusz, o manual História da Pedagogia foi publicado a primeira vez em 1952. Já no Brasil, foi publicado em 1957 na Coleção Atualidades Pedagógicas (CAP), da Companhia Editora Nacional, e, com apenas três edições (1957, 1967, 1976), obtivera tiragem de 30.000 exemplares (aproximadamente), representando um número significativo à época.
Na BCP, destacamos também o manual La historia, la geografía y la instrucción cívica: nuevas aportaciones para su enseñanza (1952), do geógrafo Carlos Miguel Delgado de Carvalho, filho de pai brasileiro, nascido em Paris, mas radicado no Brasil (1884, Paris - 1980, Rio de Janeiro). Com relação ao campo da Geografia, o autor ganhou notoriedade com a obra Metodologia do ensino geográfico (1925), considerada um dos trabalhos mais importantes da primeira metade do século XX, segundo Silva (2001). As colocações de Delgado sobre a Geografia no Brasil, “além de demonstrar uma erudição sobre o assunto, podem ser correlacionadas aos inovadores processos vividos por esse campo do conhecimento na França, na virada do século XIX para o XX” (Silva, 2001, p. 44). Delgado de Carvalho publicou 49 livros nas áreas da Geografia, Sociologia, Estatística, História e Educação. Daí a repercussão de suas obras no cenário internacional, como a publicada pela Kapelusz.
Nesses termos, é possível afirmar que as obras da BCP destinadas a subsidiar os cursos de formação de professoras e escolhidas pela diretora Clotilde iam ao encontro dos princípios renovadores da educação, em oposição ao que Clotilde chamava de “concepto tradicional de la educación” (Dottrens, 1947, p. XI). Autores como Robert Dottrens e Adolphe Ferrière fizeram parte das suas escolhas. Dottrens, como a própria Clotilde se refere no prólogo da sua obra Hay que cambiar de educación: reflexiones, responsabilidades, perspectivas (1947), foi discípulo de Pierre Bovet, Eduardo Claparède e Adolphe Ferrière, reconhecidos educadores difusores do amplo movimento teórico e metodológico de reforma e renovação educativa - a Escola Nova.
Adolphe Ferrière, um dos nomes mais expressivos do movimento da Escola Nova, foi fundador do Bureau International d´Éducation Nouvelle (1899) e um dos fundadores do Institut Jean Jacques Rousseau (1912), juntamente com Pierre Bovet e Edouard Claparède. Colaborou na criação da Ligue Internacional pour l`Éducation Nouvelle, em 1921. Escritor de diversas obras sobre a Escola Ativa, foi chamado de fascinante filósofo da educação renovada por Lourenço Filho, na apresentação da edição brasileira da obra A lei biogenetica e a Escola Activa, de Ferrière, publicada em 1929. Em 1930, esteve na Argentina e em outros países da América Latina, em uma viagem para observar e conhecer as experiências desenvolvidas sobre a Escola Nova, bem como para ministrar palestras sobre psicologia genética e sobre práticas da escola ativa para professores (Frechtel, 2021, p. 24). A viagem de Ferrière foi documentada por ele mesmo, e os textos que surgiram desse registro foram publicados em espanhol em 1936, no livro intitulado La escuela activa en América Latina1212 (Ibid.). Em Buenos Aires, segundo Frechtel (2021, p. 25), Ferrièrre elogiou o trabalho de Clotilde, destacando que a Escola Normal Nº. 5, sob sua direção, era a mais progressista da América Latina, pois trabalhava com o material desenvolvido pela própria professora (inspirado em Montessori e Decroly).
Os primeiros volumes publicados pela BCP tinham características materiais semelhantes. As capas dos manuais apresentavam um mesmo padrão, com o formato 14,5 x 19,5 cm, em um tom amarelado. O título da coleção está localizado na parte superior, com a fonte maiúscula na cor vermelha, o título em destaque na cor preta e o nome do(a) autor(a) abaixo do título. A logomarca da coleção remete, por hipótese, à deusa grega Atena (deusa da sabedoria, da inteligência, da justiça, das artes e da guerra), e está centralizada na parte inferior, na cor vermelha, seguida do nome da editora na cor preta e da cidade na cor vermelha, como é possível observar na Figura 1.
As capas representam a identidade da coleção e sua afirmação, compreendendo que, neste contexto, o mercado de livros se faz cada vez mais competitivo. Também, chamam a atenção do público-alvo para o projeto editorial voltado à formação de professoras. Por sua vez, as orelhas das capas dos manuais da BCP procuravam mostrar as qualidades da obra e do(a) autor(a), através de prescrições que proporcionavam às leitoras impressões positivas dos manuais para os processos de formação. As orelhas que acompanham as contracapas, em sua maioria, serviam para divulgar algumas obras já publicadas e a própria coleção.
As folhas de rosto dos manuais da BCP são um elemento pré-textual no qual se encontram os dados essenciais da obra, como o nome do(a) autor(a) e sua projeção no cenário educacional, título da obra e subtítulo (quando há), editora, local de publicação, entre outras informações, como a autoria do prólogo (apresentação da obra). O lugar institucional do(a) autor(a) é fundamental como estratégia editorial, pois demonstra seu espaço de fala na coleção e difunde suas ideias e seus conteúdos sobre educação. É por meio desse jogo de representações que a coleção legitima suas escolhas e sua condição de biblioteca fundamental para suas leitoras - as alunas em processo de profissionalização docente e suas professoras.
A organização das primeiras páginas segue uma mesma sequência, contendo uma página com a indicação das obras da coleção, a folha de rosto, uma folha com os dados do título original e da edição do manual, folhas para o índice (sumário), seguidas do prólogo (prefácio) contendo reflexões e elogios à obra - sempre assinado por Clotilde Rezzano -, dos capítulos, da bibliografia e dos anexos em algumas obras.
Nos manuais da BCP, o uso de letras maiúsculas e em negrito (destaque) nos títulos e subtítulos dos índices e capítulos antecipa os conteúdos contemplados e torna os textos mais acessíveis à leitura. Lembramos que, ao analisar os “livros azuis”, Chartier mostra que esse recorte, que organiza o texto por títulos de capítulos ou mudanças de linhas, é como uma inscrição no livro daquilo que a editora pensava ser a leitura: “uma leitura que não é exímia nem contínua, mas que pega e larga o livro, só decifra com facilidade seqüências [sic] breves e fechadas, exigindo marcações explícitas” (2004, p. 272-273).
Em se tratando do projeto de cada manual, pode-se supor que as características materiais dos manuais “divulgavam as finalidades do livro, os objetivos, o autor da obra, e o público visado” (Roballo, 2012, p. 202). Ao adentrar em seus índices e na organização dos capítulos, as leitoras se deparavam com conteúdos repletos de representações e valores predominantes em um determinado período e contexto, anunciadores de marcas culturais que vinculam concepções pedagógicas, saberes e dimensões simbólicas.
O editorial da Kapelusz ressaltaria que, mesmo com o falecimento de Clotilde Rezzano, a BCP continuaria com o ritmo de suas publicações. E assim o fez. Foram mais de 100 obras publicadas na coleção, atravessando décadas de sua circulação na América Latina. Na década de 1980, por exemplo, a BCP passa a ser dirigida por Juan Carlos Tedesco13, que, possivelmente levado por suas ações desenvolvidas junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), passa a produzir obras da BCP em parceria com a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e com a própria UNESCO. Na obra El sistema educativo em América Latina (1984), de Ricardo Nassif, Germán W. Rama e Juan Carlos Tedesco, é possível observar na capa e folha de rosto a parceria Kapelusz-Unesco-Cepal-Pnud. A BCP também passou a ser organizada por séries, como: Educación y Sociedad; Los Nuevos Problemas Educativos; Pedagogía Organización; e Administración Escolar. Em 1994, a Kapelusz juntou-se ao grupo colombiano Norma, dando continuidade à sua forte presença no sistema educacional argentino.
Aliás, a presença dos manuais da BCP pode ser observada há décadas (e ainda hoje) nas prateleiras das bibliotecas de universidades e das escolas de formação de professores em nível médio/secundário dos países da América Latina. No Brasil, por exemplo, em uma busca no acervo da Biblioteca de Humanas da Universidade Federal do Paraná, podem ser encontrados 76 registros de obras da BCP em espanhol. Na Biblioteca de Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro estão registradas 51 obras. Na Biblioteca Federal do Ceará encontram-se 11 obras da coleção. Em Montevidéu, no Uruguai, na Biblioteca Pedagógica Central Mtro. Sebastián Morey Otero, encontram-se 73 registros de obras da BCP. Além disso, nessa mesma biblioteca, em um caderno datilografado de uma estudante da Escola Normal (1943), encontramos referência a Clotilde Rezzano (p. 13) na parte sobre o programa da matéria de Pedagogia14.
Na composição material dos manuais, didaticamente se inspira seu uso. E, nas suas narrativas (como veremos no próximo tópico), se encontram os possíveis sentidos que reverberam de seu uso. Tanto sentidos relacionados à leitura e interpretação dos conteúdos sobre a educação, mudança, renovação, quanto sentidos pedagógicos que os manuais exprimem para a profissionalização docente ou o exercício do ensino.
“Hay que cambiar de educación”: os conselhos para as professoras latino-americanas nos manuais da BCP
A educação precisa ser mudada, renovada. Em várias narrativas de Clotilde Rezzano é possível observar esse apelo, ou melhor, conselho às futuras professoras.
Na obra Hay que cambiar de educación: reflexiones, responsabilidades, perspectivas (1947), quarto volume da coleção BCP, Clotilde, em seu prólogo, chama a atenção das futuras professoras para a necessidade de mudança na direção da educação, ressaltando que Robert Dottrens (autor da obra e professor do Instituto de Ciencias de la Educación de Genebra, Suíça) reconhece não ser fácil a mudança de uma tendência de educação tradicional para uma nova educação, como também a mudança da coação para a autonomia e liberdade com responsabilidade. A nova educação, nesse sentido, necessita educar para a liberdade, exigindo uma nova “arquitetura didática” aos olhos de Clotilde, com o ensino permitindo que o indivíduo se adapte e encontre por si mesmo a solução para os problemas da vida, devolvendo “à vontade e ao sentimento sua capacidade de determinar o que é bom e o que é certo: ‘não mais agir porque é forçado a agir, mas porque se sente o desejo de fazê-lo’” (1947, p. X, tradução nossa). Ela defende, ainda, a fórmula “aprender a aprender, aprender a se comportar”, proposta por Dottrens, apontando que o problema essencial da educação é a formação da personalidade moral e lembrando da importância dos(as) professores(as) nesta tarefa.
Em variadas obras da BCP é possível observar que há capítulos especificamente endereçados às (futuras) professoras. É o que acontece na obra de Dottrens, que possui uma parte do texto dedicada aos maestros y maestras. A obra original, Èducation et démocratie, publicada em Neuchâtel, Suíça, em 1946, está dividida em três partes intituladas “reflexões”, “responsabilidades” e “perspectivas”, com a discussão sobre a formação e atuação dos professores contida na última parte. Nessa, o autor questiona o “ensino pedagógico” demasiado dogmático das Escolas Normais, a “formação técnica” incompleta e o tardio contato dos estudantes com as crianças (1947, p. 210). Destaca, ainda, que as Escolas Normais ignoram os problemas concretos dos professores, como a administração escolar, a relação com as famílias e os serviços extraescolares (proteção à infância, serviço médico, cozinhas escolares, orientação profissional etc.).
Entre questionamentos e críticas, Dottrens propõe para as futuras professoras o conhecimento da vida social, com a suspenção dos seus estudos durante seis meses, no mínimo, para realizar viagens e exercer alguma atividade fora da escola. Sugere, da mesma forma, que as professoras se informem sobre salários, férias, aposentadoria, condições de trabalho, entre outras questões que as profissões exigem (1947, p. 211). O autor trava uma discussão sobre a formação de professores primários e secundários e os benefícios de atuarem nas escuelas infantiles e clases primárias, respectivamente, para que efetivem as realizações da Escola Nova, terminando com reflexões sobre a importância da formação de diretores escolares e inspetores de ensino.
No prólogo da obra de Madeleine Rambert (professora e psicanalista suíça), intitulada La vida afectiva y moral del niño: doce años de practica psicoanalitic (1948, décimo segundo volume da BCP), Clotilde destaca que sua incorporação na Biblioteca teve por objetivo oferecer às professoras e aos pais um “ângulo visual apropriado”, que permite observar e julgar, nos alunos e filhos, as falhas de conduta, dando condições ao encaminhamento deles para diagnóstico e tratamento com psicanalista. Aconselha as futuras professoras sobre o livro não servir para formar psicanalistas da infância, mas para detectar sintomas complexos e proceder com rapidez.
Na obra Inexperiencia: ensayo pedagógico de uma madre maestra (1950), de Amelia Dubouquet, vigésimo primeiro volume da BCP, Clotilde destaca no prólogo que essa é uma obra de “pedagogia da educação nova”, que informa sobre o resultado de métodos e procedimentos didáticos em vez de apenas defini-los e explicá-los (1950, p. XIV, tradução nossa). O título da obra se adjetiva como “inexperiência” porque a autora admite que lhe faltava experiência no início de sua tarefa como mãe-professora, por isso propõe narrar atividades práticas realizadas com as crianças, difundidas por meio de procedimentos didáticos da escola ativa. Clotilde descreve que desfilam pelas páginas do livro os procedimentos didáticos mais difundidos da escola ativa:
[…] trabalho individualizado, autonomia, liberdade limitada pelo autocontrole, atividade criativa, autoelaboração e autocrítica de ideias, autoemulação, espontaneidade, observação e experimentação relacionada com o meio ambiente, cooperação, ajuda mútua, solidariedade, respeito à idiossincrasia psíquica, respeito, pela criança, pelo adulto em gestação, contato direto com a natureza; e no campo dos procedimentos: os centros de interesse, os questionários, as planilhas, o trabalho em equipe, a leitura global e silenciosa, o trabalho manual, o desenho livre, etc. (Dubouquet, 1950, p. XIV, tradução nossa).
No volume oito da BCP, intitulado El Jardín de infantes (1948), de Madeleine Faure (professora de classes elementares na França), a diretora Clotilde sugere a leitura da obra para as maestras jardineiras, pois se constitui como uma nova afirmação do “método froebeliano”, apresentando os melhores procedimentos para desenvolver as crianças de três a seis anos de idade, como os centros de interesse.
Essas questões apresentadas nos manuais apontam para uma função prática das obras da BCP, escolhidas porque ensinavam às futuras professoras saberes úteis sobre temas que envolvem comportamento infantil, psicologia, formação docente, Escola Nova, práticas educativas, entre tantos outros. As autoras e autores dos manuais aqui descritos, com suas escolhas teórico-metodológicas, evocam um conjunto de vozes narrativas que encantam por meio de um léxico pedagógico capaz de provocar sentidos nas (futuras) professoras, conduzindo conselhos e explicações sobre a importância da renovação e mudança na educação, particularmente na educação escolar.
São manuais que apresentam lições com descrições de ideais de mudança e renovação e de práticas educativas para as futuras professoras.
Considerações finais
Ao observar os manuais da BCP, é possível compreender que eles estabelecem um “protocolo de leitura”, nos valendo do termo utilizado por Batista e Galvão (2009). Nesse protocolo reuniam-se as intenções do(a) autor(a), da editora e da diretora da coleção para suas leitoras, a fim de conduzi-las à leitura do livro. Dos elementos externos aos internos, como os índices, os capítulos, os prólogos e as referências, os manuais sugerem uma leitura e constroem significados. Significados relacionados a uma nova educação “que se orienta hacia el porvenir” [que é orientada para o futuro] - de acordo com o prólogo de Clotilde Rezzano na obra Hay que cambiar de educación: reflexiones, responsabilidades, perspectivas (Dottrens, 1947, p. IX).
Dos textos à forma impressa - formato de livro -, observamos que as obras da BCP, publicadas primeiramente na Argentina, passaram a ser transportadas para outros países, rompendo as fronteiras de sua nação de origem, oferecendo às leitoras (futuras professoras) de diversos países a complementaridade entre dimensões científicas e curriculares, em um movimento que passou a legitimá-las para a formação docente. Assim, em formato de livro (objeto), foi possível criar aberturas e passagens para que essas obras da coleção percorressem o Brasil, a América Latina e o mundo.
Em 1920, entre os vários aspectos e eventos que contribuíram para a efervescência reinante no Brasil, as teorias pedagógicas consideradas progressistas no meio educacional, formuladas por americanos e europeus, começaram a exercer fascínio nos educadores brasileiros. Essas novas ideias passam a permear as reformas educacionais promovidas em todo o Brasil. Em 1930, as reformulações empreendidas nos currículos dos cursos de formação de professores provocariam mudanças significativas no campo editorial do país. Não por acaso, as editoras brasileiras passaram a investir em uma literatura educacional para a formação docente e a intensificar a abertura do mercado editorial para a entrada de obras e autores e autoras internacionais.
Na Argentina, a partir de 1920, começam a surgir e a se ampliar os empreendimentos editoriais, que combinavam os objetivos comerciais com os educacionais. No caso da Kapelusz, vimos que a criação da BCP ocorre nos anos de 1940, possivelmente movida pelo desejo de inovação educacional nos seus primeiros anos de existência, mesmo sob um cenário de mais de meio século de instabilidade política. Figuras como Clotilde Rezzano, entre outros professores, inspetores e diretores de escolas nacionais, apresentavam posições transgressoras e buscavam modificar a prática escolar, inspirados(as) pelos princípios da Escola Nova.
A partir das obras escolhidas por Clotilde e de seus prólogos, é possível observar narrativas, ou melhor, conselhos para as futuras professoras, que levam a interpretação de que a Escola Nova é o caminho para promover a mudança social por meio de ações pedagógicas ajustadas à experiência: pela coeducação, pela música e pelo canto, pelos trabalhos coletivos, pelo desenho, pelos centros de interesse, entre outros elementos com foco no desenvolvimento da criatividade, da imaginação e da personalidade livre da criança. O cânone que acompanharia essas explicações é composto de personalidades como Adolphe Ferrière, Decroly, Maria Montessori, John Dewey e Édouard Claparède. Assim, um léxico pedagógico vai se estabelecendo nessa literatura, relacionado à afirmação do método da Escola Nova como uma atividade construída pela experiência concreta e ativa de cada indivíduo (aluno e aluna).
Na produção, na circulação, na tradução e na sua (possível) utilização, os manuais latino-americanos da BCP nos levam para dois pressupostos de análise: o primeiro pautado na materialidade e na sua circulação, compreendendo que essas obras se tornaram suportes (físicos) que circulavam nas instituições de formação do professorado em seus países de origem e em outros locais, vinculando saberes; o segundo relacionado aos aspectos das suas narrativas, que definiam o que ensinar, como ensinar e o que aprender. Significa dizer, portanto, que, resultantes da circulação em diferentes lugares, os manuais visaram fortalecer os ideários de valorização da educação, da renovação, da instrução e, ainda, nos oferecem memórias da formação docente.
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Apoio ou financiamento:
O artigo é resultado das pesquisas realizadas durante o afastamento para pós-doutorado (julho de 2024- julho de 2025). Não houve financiamento de agência de fomento.
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Disponibilidade de dados de pesquisa:
Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.
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Como citar este artigo:
ROBALLO, Roberlayne de Oliveira Borges. Os manuais da “Biblioteca de Cultura Pedagógica” e os consejos sobre renovação educacional da sua fundadora Clotilde Rezzano (1946-1951), Educar em Revista, Curitiba, v.42, e99096, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.99096
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“Nem todos os indivíduos são aptos a serem professores, assim como nem todos são aptos a serem médicos, marinheiros, políticos, agricultores etc. Certas condições essenciais são necessárias ou desejáveis, algumas naturais, outras adquiridas por meio da preparação pedagógica e do exercício da profissão” (Rezzano, 1941, p. 71, tradução nossa).
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Frase utilizada por Sofía Dono Rubio em sua dissertação de mestrado, intitulada Experiencias alternativas de formación y prácticas docentes en la Argentina durante las primeras décadas del siglo XX: las propuestas de Rosario Vera Peñaloza y Clotilde Guillén De Rezzano (2022), nos lembrando que Clotilde Rezzano foi uma professora formadora de professoras, já que a maioria das destinatárias de suas obras eram mulheres. Por isso, da mesma forma, utilizaremos o gênero feminino neste trabalho, em respeito à história das mulheres professoras.
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Site da Editora Kapelusz: https://www.editorialkapelusz.com/. Acesso em: 01 mar. 2025.
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Compreendemos, com Roland Barthes (2011, p. 19), que a narrativa “pode ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem, fixa ou móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas estas substâncias; está presente no mito, na lenda, na fábula, no conto, na novela, na epopeia, na história, […] na conversação”. No nosso caso, as narrativas estão presentes na composição dos textos dos manuais da “Biblioteca de Cultura Pedagógica”, que circularam em diferentes tempos e espaços com a finalidade de subsidiar os processos de formação docente. Nesses termos, buscamos, nesses manuais, interpretar as diferentes vozes das narrativas que atravessam os textos, a partir da análise de segmentos, observando não só o que é dito, mas como se é dito, para poder compor uma trama de significados que orientavam e aconselhavam as (futuras) professoras sobre a importância da Escola Nova e, consequentemente, o movimento de renovação educacional.
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Choppin, em seu artigo “História dos livros e das edições didáticas: sobre o estado da arte” (2004), propõe abranger as principais problemáticas e os principais temas abordados pela pesquisa histórica sobre os livros e as edições didáticas, buscando destacar as “tendências mais marcantes e as possíveis perspectivas de evolução” (p. 549).
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Optamos neste trabalho por utilizar o termo “Escola Nova”, por ser mais comumente utilizado no Brasil, observando que o movimento pela Escola Nova, a partir da década de 1920, mobilizou um conjunto significativo de intelectuais brasileiros em torno de um projeto que, nas palavras de Lourenço Filho, visava à organização nacional através da organização da cultura. Contudo, há variadas formas de se referir a esse movimento de renovação educacional, como o uso do termo “Educação Nova” em diferentes países. Na Espanha, por exemplo, é chamado de “Escuela Nueva”, em países de língua anglo saxã é “New Education” ou “Progressive Education”, na França, “Éducation Nouvelle”.
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José Rezzano foi professor de Ciências da Educação a partir de 1920. Entre 1932 e 1936, foi decano da Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación da Universidade de La Plata. Paralelamente, em 1922, tornou-se Inspetor Geral do Ensino Secundário. A partir de 1926, passou a dirigir a seção “Nueva Era” da revista La Obra, considerada um dos principais caminhos de difusão da Escola Nova e anexada à Liga Internacional da Escola Nova, a qual “inaugurará a institucionalização das alternativas pedagógicas na Argentina” (Dono Rubio, 2022, p. 109, tradução nossa). Foi representante da Liga Internacional para la Nueva Educación, uma organização oficial do movimento europeu de escolas ativas, e editor da revista Pour l’ere nouvelle, dirigida por Ovide Decroly, e do Boletín del Bureau Internacional de Educación, do qual participavam, no comitê de redação, Adolphe Ferriere e Raúl Fauconnet (Ibid., tradução nossa).
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Jean Ovide Decroly, belga (1871-1932), formado em Medicina com especialização em neurologia, despontou no Brasil como um dos pioneiros do movimento da Escola Nova: “A metodologia de Decroly parte da ideia de uma educação que rompa com a rigidez de programas escolares pré-estabelecidos ou criados a partir da visão eu-adulto-professor para um modelo educativo centrado no eu-criança-mundo, no interesse de quem aprende, através de eixos que atendam às necessidades fisiológicas, psicológicas, sociais e educacionais de quem aprende” (Faria Borges et al, 2023, p. 6). Na interpretação de Lourenço Filho, para Decroly, a transformação das escolas poderia ser feita se algumas medidas fossem tomadas, como a modificação dos programas e processos para a aplicação dos centros de interesse, os quais permitiriam o desenvolvimento de atividades conforme o interesse dos alunos. Logo, os centros de interesse são constituídos pela formação de classes (turma de alunos) que iniciam seus estudos a partir de um tema central - ponto de partida -, desencadeando livremente outros temas. Uma liberdade que “sempre tem o acompanhamento do mestre na execução dos passos, os quais são constituídos por três grandes fases do pensamento: observação, associação e expressão” (Mattos, 2008, p. 72).
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Em Winnetka, uma pequena cidade nos Estados Unidos, diferentemente do que ocorreu em outros lugares, em que o Estado assumia a responsabilidade pela educação pública, foram os empresários que assumiram essa responsabilidade. “Foram eles, os responsáveis por nomear os experts em educação […]” (Pinheiro, 2021, p. 4). Nessa perspectiva, Carleton Washburne foi um dos nomeados, tendo autonomia para experimentar novas concepções pedagógicas. Durante 24 anos Washburne se dedicou ao sistema de ensino de Winnetka, “onde em parceria com sua equipe de professores reorganizou o currículo, redigiu novos materiais autoinstrucionais, elaborados sob medida, o que permitiu às crianças se autoinstruírem, segundo seus avanços ou atrasos em diferentes matérias e níveis” (Pinheiro, 2021, p. 5). Descrevem Pinheiro e Valente (2016) que o sistema pedagógico de Winnetka se baseava em um método de individualização de ensino, permitindo que cada aluno tivesse seu próprio ritmo de aprendizagem.
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Conforme destaca Olano (2020, p. 11, tradução nossa), a década de 1930 foi caracterizada por uma “crise econômica e social, acompanhada pelo estabelecimento de uma junta militar após a derrubada de Hipólito Yrigoyen e a interrupção do processo democrático iniciado em 1916 em um contexto internacional de crise econômica e político-militar. Isso provocou uma fragmentação das posições políticas e sociais no movimento escolanovista argentino que confrontava os que apoiavam e os que não apoiavam a chegada do nacionalismo ao poder por meio do golpe de Estado, que encheu o discurso educacional de declarações religiosas, moralizantes e autoritárias”. É neste período que se legaliza um discurso oficial da Escola Nova, através de textos como os de Clotilde Rezzano, tornando-os obrigatórios para as escolas normais.
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René Hubert (1885-1954) foi um sociólogo francês, reitor da Universidade de Strasbourg, e autor de várias obras, como: Les Sciences Sociales dans L’Encyclopédie (1923), Manuel de Sociologie (1935) e Contribution à l’étude sociologique de la notion de droit naturel (1933).
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Trata-se de uma obra revisada e aumentada de L’Amérique latine adopte l’école active. Le magnifique effort des peuples ibéro-américains en faveur de l’education nouvelle, de 1931 (Frechtel, 2021, p. 24).
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Juan Carlos Tedesco foi um importante educador argentino. Entre 1982 e 1986 dirigiu o Centro Regional de Educação Superior da América Latina e Caribe (CRESALC) da Unesco, com sede em Caracas, Venezuela. Entre 1986 e 1992 foi diretor da Oficina Regional de Educação para América Latina e Caribe (OREALC) da Unesco, com sede em Santiago, Chile. Em Genebra, Suíça, de 1992 a 1997, foi diretor da Oficina Internacional de Educação. Retornando à Argentina, dirigiu a Sede Regional do Instituto Internacional de Planejamento da Educação, sediado em Buenos Aires. Foi professor de História da Educação em inúmeras universidades argentinas e latino-americanas, como na Universidade Nacional de La Plata (UNLP), Universidade Nacional de Comahue (UNCo) e Universidade Nacional de La Pampa (UNLPam). Entre 1970 e 1975, dirigiu aRevista de Ciencias de la Educación(RCE). Foi autor de livros sobre as relações entre Educação e Sociedade. Foi secretário de educação e ministro de educação da Argentina entre 2007 e 2009.
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Em pesquisa realizada no dia 15 de janeiro de 2025 na Biblioteca Pedagógica Central Mtro. Sebastián Morey Otero, em Montevidéu, encontramos um caderno datilografado (possivelmente pela própria aluna) contendo 16 páginas, em que são apresentados programas das disciplinas de 5º ano do Curso Normal. Entre os programas, é apresentado o da disciplina de Pedagogia (p. 13), sendo dividido em seis partes, mais a parte sobre o exame. Não fica claro a qual obra de Clotilde Rezzano a aluna está se referindo, pois ela faz anotações sobre essa autora a lápis na página, mas o conteúdo diz respeito à parte IV do programa, intitulado “El Maestro”, que trata das condições, da vocação, da seleção, da preparação, dos direitos, das obrigações e das responsabilidades profissionais dos professores.
Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.


Fonte: Obra La infancia irregular: psicología clínica (