RESUMO
O presente artigo apresenta reflexões acerca do processo de construção coletiva do documentário Mbyá Arandu: a sabedoria de viver entre dois mundos, que aborda a educação tradicional e a educação escolar Mbyá Guarani. O documentário foi realizado a partir da fala das próprias lideranças e professores das comunidades envolvidas com a elaboração deste audiovisual que se passa, majoritariamente, nas aldeias Mbyá Guarani situadas na região metropolitana de Porto Alegre (RS, Brasil). Buscando aproximar-se das compreensões de interculturalidade e de convivialidade na perspectiva filosófica guarani do Teko Porã (Bem Viver) em diálogo intercultural, as autoras tecem relações entre os momentos vivenciados nas com-vivências antes e durante as filmagens do documentário, salientando aprendizagens que frutificaram desses encontros. As reflexões aqui tecidas mostram como é possível, necessário e fecundo inspirar-nos na postura convivial e intercultural dos Guarani para revitalizar e ressignificar a educação escolar ocidental (branca), com a intenção pedagógica e humanitária de torná-la mais inclusiva e antirracista. Igualmente, o texto ressalta a importância de reconhecer e valorizar os conhecimentos, metodologias e sabedorias indígenas, neste caso, do povo Mbyá Guarani, como modo de reparação às violentas tentativas coloniais de apagamento cultural e epistemológico.
Palavras-chave:
Educação Mbyá Guarani; Educação Escolar Indígena; Interculturalidade; Convivialidade; Teko Porã (Bem Viver)
ABSTRACT
This article offers insights into the collaborative development of the documentary Mbyá Arandu: the wisdom of living between two worlds, which explores both traditional learning and the educational practices of the Mbyá Guarani community. The film was created using the insights and perspectives of community leaders and educators who participated in the making of this audiovisual production. This video presentation predominantly takes place in the Mbyá Guarani settlements located in the metropolitan region of Porto Alegre (RS, Brazil). By approaching the understandings of interculturality and conviviality from the Teko Porã (Good Living) Guarani philosophical perspective of in intercultural dialogue, the creators draw links between the experiences shared before and during the documentary’s production, emphasizing the insights gained from these interactions. The ideas conveyed here demonstrate that it is both essential and beneficial to look to the Guarani’s inclusive and diverse cultural practices as a means to enhance and transform Western (white) educational frameworks. The aim of this initiative is to promote inclusiveness and oppose racial discrimination through teaching and humanitarian efforts. In addition, the text points out the critical role of recognizing and honoring the traditional knowledge, practices, and wisdom of indigenous communities, in this case, the Mbyá Guarani people, as a way of repairing the violent colonial efforts at cultural and epistemological erasure.
Keywords:
Mbyá Guarani Education; Indigenous School Education; Interculturality; Conviviality; Teko Porã (Good Living)
Considerações iniciais
A “arte” da interculturalidade radica em voltar a esse nível da participação e tirar as consequências do fato de que antes de sermos protagonistas somos partícipes e que, portanto, tem que investigar e pensar com o outro. Isto é, o que tenho chamado caminhar com metodologias e epistemologias (se é que queremos seguir usando esses conceitos) que acompanham e se deixam acompanhar. E por isso também tenho insistido nesta ideia de que a prática da interculturalidade, para nós que somos produto da academia ocidental hegemônica, supõe um processo de desaprendizagem (Fornet-Betancourt, 2018, p. 176)
Quando caminhamos sozinhos, caminhamos um pouco, mas não vamos muito longe…, mas quando caminhamos juntos, o caminho não tem fim
(Santiago Franco - Sábio do povo Mbyá Guarani, 2022)
Este artigo apresenta o processo de construção coletiva de um vídeo-documentário que aborda a educação tradicional e a educação escolar do povo Mbyá Guarani, Mbyá Arandu: a sabedoria de viver entre dois mundos (2022), refletindo acerca das aprendizagens interculturais propiciadas por este processo. O documentário foi realizado a partir da fala das próprias lideranças e professores das comunidades Mbyá Guarani envolvidas com a elaboração do audiovisual e que participaram da concepção e da condução do mesmo. As autoras deste texto são professoras brancas; uma, professora da rede estadual de ensino, é também doutoranda na área de Educação, desenvolvendo pesquisa com a educação Mbyá Guarani; a outra, professora na Pós-Graduação em Educação, envolvida há mais de duas décadas em pesquisa-ensino-extensão com a educação indígena, expandindo nos últimos anos às metodologias e à orientação/aconselhamento de pesquisadores/as indígenas na universidade.
Neste percurso de aprendizagens interculturais através da com-vivência1 com comunidades do povo Mbyá Guarani, os caminhos teórico-metodológicos vêm se aprofundando à medida em que se busca fundamentar as pesquisas nas filosofias e metodologias indígenas, ao aprender com os(as) autores(as) indígenas, colegas, professores(as), pesquisadores(as), orientandos(as)/aconselhados(as)2. Estas filosofias e metodologias têm sido, sobretudo, fruto de aprendizagens interculturais, e refletem a noção de construção coletiva e colaborativa na produção de conhecimentos, o respeito e o reconhecimento das existências, dos saberes e conhecimentos indígenas, que emergem cada vez mais como alternativa e complemento ao pensamento ocidental moderno, que ainda tem uma predominância eurocêntrica.
A pesquisa no modelo eurocêntrico, objetivista, branco e masculino ainda predominante, é representativo da e na academia. É o modelo escritocêntrico, que relega a oralidade para uma posição inferior; desconsidera as ambiguidades em nome da afirmação de certezas, que não se deixa habitar pela desordem, que nega as contradições e as oposições como se fossem posições errôneas. O pensamento indígena é, sobretudo, um sentipensar, pois considera a pessoa - pesquisadora ou pesquisador - em sua integralidade, em que comporta o pensamento mas, igualmente, o sentimento (Menezes; Bergamaschi; Menezes, 2024, p. 185).
Esse reconhecimento também pode ser considerado uma forma de reparação aos povos originários, desde que nós, pesquisadores(as) brancos(as) da academia, nos coloquemos no lugar de fala que nos cabe, como parceiros(as) da causa indígena, evidenciando autorias próprias, nos colocando num lugar de escuta e aprendizagem. Nesse sentido, é importante ressaltar nossa compreensão acerca da racialização da estrutura da nossa sociedade, em que os espaços de poder são ocupados, em sua maioria, por pessoas brancas, resultando em uma gritante desigualdade entre diferentes povos e culturas, em que seres e seus conhecimentos são hierarquizados e um tipo de conhecimento é tomado como universal, em detrimento de outros. A história da colonização e da colonialidade como padrão de poder que se estabelece na América após a invasão dos europeus, com suas práticas colonialistas que hierarquiza a humanidade em superiores e inferiores por meio do marcador racial, encontra no continente americano povos com outras filosofias de vida, de ser-estar e de conviver com o outro. Sobre a colonialidade, nos fala Quijano (2005, p. 231) que,
um dos eixos fundamentais desse padrão de poder é a classificação social da população mundial de acordo com a idéia de raça, uma construção mental que expressa a experiência básica da dominação colonial e que desde então permeia as dimensões mais importantes do poder mundial, incluindo sua racionalidade específica, o eurocentrismo. Esse eixo tem, portanto, origem e caráter colonial, mas provou ser mais duradouro e estável que o colonialismo em cuja matriz foi estabelecido. Implica, consequentemente, num elemento de colonialidade no padrão de poder hoje hegemônico.
Contudo, essa colonialidade encontra resistências, ao tentar colonizar o que não pode ser colonizado, que é o modo próprio de ser-estar dos povos indígenas. Em particular, aqui falamos dos Mbyá Guarani, que é com quem nos inspiramos para pensar outras epistemologias e outras metodologias.
Convivialidade e Colaboração na produção do Documentário
No interior das estruturas de administração da educação escolar ocidental existem algumas iniciativas importantes, amparadas nas legislações vigentes acerca da Educação das Relações Étnico-raciais. Referimos mais especificamente às leis 10.639/2003 e 11.645/2008 - que modificaram o artigo 26 A da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei 9.394/1996) - que tornam obrigatórios os estudos sobre as histórias e culturas afrobrasileiras, africanas e indígenas e que se configuram cada vez mais necessárias, na medida em que vemos o racismo consolidado na estrutura da nossa sociedade.
Nessa perspectiva, de construir situações pedagógicas para aprender com os povos indígenas, surge o Sarau das Nações Originárias3, promovido pela Universidade Luterana do Brasil - ULBRA, Campus Guaíba, RS -, em parceria com a 12ª Coordenadoria Regional de Educação (12ª CRE)4, além da participação e apoio do Grupo de Pesquisa PEABIRU: Educação Ameríndia e Interculturalidade (CNPq/UFRGS/UNISC). Foram dois dias, 27 e 28 de setembro de 2022, dedicados a rodas de conversa, palestras, exposições de fotografias de autorias indígenas, exposição e venda de artesanato, todas as atividades protagonizadas por lideranças e sábios(as) indígenas, professores(as) e comunidades Mbya Guarani da região, além da exposição de trabalhos realizados por estudantes das escolas indígenas da 12ª CRE. Durante a realização do Sarau da Nações Originárias foi também apresentada a Exposição fotográfica Narrativas Ancestrais Kaingang: Kamé e Kanhrú em movimento na escola, resultante de um trabalho realizado por docentes e discentes da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC), assim como a exibição comentada do documentário Mbyá Arandu: a sabedoria de viver entre dois mundos, cujo processo de realização é o tema central deste texto. Aqui trazemos uma amostra das conversas, gravações e deslocamentos até as aldeias ao longo de aproximadamente dois meses - tempo em que durou a elaboração do documentário e que resultou em aprendizagens interculturais profundas na com-vivência com as comunidades guarani envolvidas na produção do audiovisual.
O documentário foi realizado nas aldeias Mbyá Guarani que possuem escolas vinculadas à rede estadual de Educação do Rio Grande do Sul, na região de abrangência da 12ª CRE, basicamente localizadas em municípios da região metropolitana de Porto Alegre, RS, conforme descrito na sequência. O roteiro do documentário foi construído com a preocupação e a intenção pedagógica antirracista, especificamente para enfrentar a discriminação e o preconceito para com este povo, por meio da visibilização e valorização da cultura e dos conhecimentos Mbyá Guarani, apresentados nas palavras das lideranças, sábios, sábias e professores. Ao longo dos 22 minutos que compõem o documentário, as pessoas guarani que dele participam trazem percepções e compreensões sobre a sua educação própria (tradicional e ancestral) e a educação escolar, bem como a relação entre elas. Aqui, não nos interessa analisar a perspectiva técnica do processo de filmagem, mas sim compreender a disposição para a convivência intercultural e a convivialidade presente entre os atores guarani e que fomentaram reflexões e aprendizagens registradas neste artigo. Para tanto, nos apoiamos nas noções conceituais de interculturalidade e convivialidade desenvolvidas pelo filósofo Raúl Fornet-Betancourt, estudioso da filosofia intercultural; nos debruçamos sobre sua obra para melhor compreender as relações e imbricações teóricas e práticas que podemos tecer entre interculturalidade e convivialidade.
Portanto, tomamos aqui a convivialidade5 como caminho para uma educação intercultural a ser expandida, isto é, as reflexões que aqui apresentamos visam contribuir na aposta do valor da convivialidade como modo de estar-junto na construção de uma educação dialógica, mais igualitária, mais inclusiva e antirracista. Nesse sentido, a educação intercultural necessita ser expandida, na medida em que se opõe ao atual modelo educativo hegemônico, em que ainda há um predomínio da individualidade, da hierarquização vertical, da competitividade. São valores constituídos na modernidade europeia e que resultaram em um modelo de escola que distancia educadores e estudantes, com o predomínio de práticas que alimentam e são alimentadas pelo racismo estrutural e que se assenta em uma visão eurocêntrica e sua suposta superioridade.
Para contribuir nessa aposta, escolhemos relatar e refletir sobre as com-vivências que constituíram a produção do documentário Mbyá Arandu: a sabedoria de viver entre dois mundos, como já anunciamos acima, realizado no ano de 2022, em uma parceria da 12ª CRE, representada por uma das autoras deste artigo -, com a Universidade Luterana do Brasil, Campus Guaíba, RS, tendo como cinegrafista e produtor Peterson Douglas Machado. Contamos aqui a caminhada de quase dois meses de construção coletiva deste documentário sobre a educação indígena, em que, como se perceberá, os protagonistas, professores e lideranças indígenas Mbyá Guarani, colocam suas concepções e percepções acerca da educação escolar indígena e, especialmente, sobre a sua própria educação tradicional ancestral.
Por que a escuta atenta das falas dos povos indígenas sobre suas concepções de educação nos auxilia a pensar a educação escolar ocidental branca? Por que a preocupação na construção da com-vivência como modo de estar-juntos na produção deste documentário, em detrimento de perspectivas extrativistas, em que o pesquisa-dor6 se apresenta como sujeito e o “outro” como “objeto”? Colocamos entre aspas estas palavras, chamando a atenção para uma perspectiva colonial, em que grupos e seres de determinados povos e origens são tratados como outros e como objetos, segundo uma classificação hierarquizada entre europeus, supostamente superiores e os colonizados, supostamente os inferiores. A objetificação de seres é algo naturalizado numa sociedade colonial nas mais diversas formas de opressão, como o patriarcado que objetifica mulheres, e, na questão racial, a branquitude que escraviza negros e indígenas, além de negar e tentar apagar suas culturas e epistemologias. É o que Cida Bento (2022), denuncia como pacto da branquitude, ou seja, um pacto de autopreservação para manter e reforçar os pressupostos eurocêntricos que negam o que não seja espelho da Europa e, mais tarde, também dos Estados Unidos. Assim como os corpos não brancos, os conhecimentos diversos que são constituintes deste solo desde tempos imemoriais, produzidos e reproduzidos por povos indígenas (entre outros), são historicamente negados e re-negados na academia.
Além de nos ajudar a aventar outras possibilidades de educação, os povos indígenas apresentam e nos ensinam práticas de convivialidade e de com-vivência postas em vigor desde a chegada dos invasores ao território que habitamos, com a abertura ao outro, a lógica de não negação das diferenças, mas de incorporação destas, em muitos casos, na sua própria identidade, numa perspectiva de complementaridade e reciprocidade. Essa compreensão é afirmada pelo intelectual Kaingang Bruno Ferreira (2020, p. 44): “O diálogo deve ser constante entre culturas, para desvendar seus mecanismos, as funções e suas dinâmicas. Esse diálogo pressupõe reciprocidade, ferramenta fundamental para a interculturalidade.” Os modos próprios de aprendizagem e de educação coletiva, comunitária, de fortalecimento na ancestralidade e no reconhecimento da nossa dependência da Terra, nos fazem refletir e questionar as práticas tão fortemente ancoradas no mérito individual, no aspecto competitivo das vivências escolares, no modelo de ensino que repete e afrima a valorização da sociedade de consumo e do capital e o nosso apartamento da natureza, que tem nos levado à crise ambiental e humanitária atual.
Ao ouvirmos os professores e sábios Guarani, nos inspiramos a incorporar um horizonte de cordialidade entre povos, de convivialidade e de interculturalidade como a compreendemos, como vivência e aprendizagem recíprocas. O povo Mbyá Guarani, denominação de uma das parcelas da Nação Guarani, se concentra especialmente na região do Sul do Brasil e em países vizinhos, como Paraguai e Argentina7. Reconhecidos pela forte preservação da língua originária, quase que exclusivamente usada em suas comunidades, os Mbyá Guarani mantêm uma relação complexa e cheia de indagações acerca do papel e da função da escola em suas comunidades, uma vez que estas não deixam de representar a presença do Estado e dos currículos brancos ocidentais colonizadores. Alguns estudos mostram esta relação ambígua dos Mbyá Guarani com a escola, de um querer e de um não querer escola em suas comunidades, bem como por questionarem constantemente as práticas escolares em seu meio (Bergamaschi, 2004; 2005).
Nesse sentido, contrariando a história de uma relação desigual, constituída também por práticas escolares, em que a branquitude coloca suas concepções como superiores às concepções indígenas, a interculturalidade é compreendida como postura filosófica; uma postura que se dá a partir da simetria de poder entre culturas, que inclui a escuta e o reconhecimento da horizontalidade de saberes, que considera as sabedorias indígenas como mais uma epistemologia no panteão das ciências, dos conhecimentos e dos modos de produzi-los. Foi esta postura que nos impulsionou a escutar as falas Mbyá Guarani ao longo desta caminhada conjunta, na produção do documentário. Iniciamos a organização das visitas às aldeias em agosto de 2022, as quais foram efetivadas de fato entre final de agosto e meados de setembro. As Tekoa (aldeias) com escolas de abrangência da 12ª CRE, foram todas convidadas a participar do projeto e tiveram livre escolha e, das oito aldeias convidadas, duas optaram por não participar. As aldeias que participaram do projeto são: Tekoa Pekuruty (município de Eldorado do Sul), Tekoa Yvy’a Poty (município de Camaquã), Tekoa Tape Porã (município de Guaíba), Tekoa Nhu’u Poty, e Tekoa Yvy Poty, (ambas situadas no município de Barra do Ribeiro) e Tekoa Cacique Sepé Tiarajú (município de Mariana Pimentel). Importante também ressaltar que as escolas dessas comunidades são denominadas com o mesmo nome da Tekoa - com exceção de uma - por escolha das comunidades, nomes com significados profundos nas cosmologias Mbya Guarani. Portanto, participaram do documentário as seguintes Escolas Estaduais Indígenas (EEI): EEI Pekuruty; EEI Yvy’a Poty; EEI Nhu’u Poty; EEI Yvy Poty; EEI Cacique Sepé Tiarajú e a EEI Arasaty, esta última situada na Tekoa Tape Porã.
O primeiro movimento foi realizar reuniões com uma das assessoras da pasta responsável pela Educação Indígena na 12ª CRE, Márcia Luísa Tomazzoni e a equipe da ULBRA envolvida na produção do documentário. Foram discutidas ideias acerca do tema central a ser abordado, as formas de abordagem que teriam melhor resultado para o diálogo intercultural, melhores formas para romper a formalidade entre os atores envolvidos e que tivesse como fundamento a colaboração com todos os envolvidos, tanto entre os produtores, quanto entre estes e as comunidades visitadas. No mesmo sentido, foram elaboradas perguntas, apenas sugeridas aos professores, sábios e lideranças indígenas como questionamentos amplos, possibilitando um exercício da liberdade de expressão, o que frutificou nas mais diversas respostas. Contudo, essas perguntas constituíram o tema central do documentário, permitindo uma unidade com relação às preocupações acerca da escola, da escolarização, e do fortalecimento da educação própria Mbyá Guarani. A partir daí, saímos a campo com a convicção da escuta sensível e dos registros autorais das falas Mbyá Guarani.
As filmagens, captadas sensivelmente pelo cinegrafista Peterson Douglas Machado, buscaram traduzir nossas aproximações com abordagens pautadas no respeito e na cordialidade, desde os telefonemas que fizemos às lideranças solicitando uma data para nos receberem nas suas comunidades, para que pudéssemos conversar e explicar nosso projeto para o documentário. Dessa forma, o processo de produção do documentário nas comunidades se deu em três etapas: i) telefonemas para combinar datas da primeira visita para expor as ideias do documentário e saber sobre a concordância da liderança e da comunidade em participar; ii) a primeira visita para expor as ideias e colher a assinatura nos termos de concordância de participação e, em caso de aceite (lideranças de duas comunidades não aceitaram participar); iii) a primeira data de filmagem (e segunda data, caso fosse necessário mais de uma sessão de filmagem). Para as filmagens, em algumas aldeias estivemos duas vezes por um turno do dia, noutras, passamos o dia inteiro, por dois turnos. Todas e cada uma dessas situações foram combinadas conjuntamente, respeitando tempos e limites colocados pelas lideranças e comunidades, através da sensibilidade na percepção do que gostariam de nos mostrar em cada aldeia visitada.
Apostar na possibilidade de com-vivência, de momentos de conversa sobre o cotidiano, para além dos objetivos concretos do próprio trabalho, isto, é, para além de documentar as falas de professores e lideranças indígenas; se permitir viver e com-viver com as paisagens que compõem as aldeias, como a presença das crianças, da mata, da água, dos animais, do fogo, das histórias tradicionais, da língua e de tantos outros elementos representativos da vida cotidiana dos Guarani, faz parte de uma perspectiva metodológica que tem como crença a necessidade de criar projetos interculturais, em que se compartilha vidas e biografias a partir das respectivas culturas envolvidas no processo. Refletindo sobre as palavras de Fornet-Betancourt (2007, p. 28): “Es decir, el momento de la reflexión comunicativa a partir de biografías es sumamente importante. También las culturas tienen su biografía, no solamente las personas”.
Para tanto, fomos além das perguntas e respostas meramente formais; contamos as nossas próprias histórias ao nos aproximarmos de cada pessoa quando nos apresentamos. E assim nos portamos, não só como pesquisadores ou produtores de um documentário, mas como desejantes de escutar e aprender acerca das suas histórias e conhecimentos. Não há mais um “eu” e um “outro”, mas um “nós” quando compartilhamos projetos em comum. Com-vivências como estas nos deslocam dos lugares em que costumamos nos alojar socialmente, seja na academia, seja em instituições ocidentais em geral. Nesses momentos de com-vivência nos utilizamos de outras vestes e, embora vinculadas a instituições ocidentais colonizadoras, encontramos brechas para nos sentirmos novamente num estado de possibilidade de encontro com o outro em sua humanidade, especialmente ao partilhar um chimarrão, um café, um alimento; ou nas conversas triviais, ao escutar o vento nas folhas das árvores, ao observar o pôr do sol nos despedindo, temporariamente, até outros encontros. A interculturalidade vai além do encontro de pessoas, mas exige o engajamento real em projetos sociais entre culturas.
Neste caso, nossa preocupação, além de visibilizar existências e conhecimentos da cultura Mbyá Guarani, anda junto a intenção de apreender noções conceituais que podem constituir um horizonte educativo que contribua para romper com alguns valores da escola ocidental branca atual, colaborando para a estruturação de uma educação intercultural. Em consonância a esse pensamento, diz Fornet-Betancourt (2007, p. 63): “La interculturalidad no puede excluir la corrección de las culturas, porque entiendo que éstas se van redimensionando. Las culturas van rompiendo sus límites por las perspectivas de otras culturas y se van mejorando en ese sentido, incluso en el aspecto ético y moral”.
Na metodologia, salientamos o caráter colaborativo e intercultural - tanto na produção do documentário, quanto na produção de conhecimentos que intentamos a partir deste processo - e, sobretudo, com preocupação central na construção e sustentação da convivialidade entre os atores destas com-vivências. Resguardadas as devidas diferenciações entre nossa atuação como educadora-pesquisadora e cinegrafista-produtor, é interessante destacar um trecho do texto Una historia colaborativa: retos para el diálogo indígena-académico, em que Joanne Rappaport (pesquisadora vinculada à academia) e Abelardo Ramos Pacho (pesquisador do povo Nasa, Colômbia) ponderam:
En los casos de colaboraciones realizadas por expertos externos, la metodología y epistemología del etnógrafo profesional tiene que subordinarse a las del equipo. Lo anterior implica aceptar la conmensurabilidad e igualdad entre los diferentes modos de saber y, especialmente, que las prioridades indígenas conformarán el marco general de la investigación (Rappaport; Pacho, 2005, p. 49).
Trazendo para o contexto desta experiência, definimos desde as reuniões iniciais de organização da realização do documentário acerca do protagonismo dos indígenas em todos os aspectos: seja pela presença exclusiva destes na audiovisualidade, seja pela forma e conteúdo que desejaram expor e expressar, seja pela decisão de não participação nesta produção (como mencionado anteriormente). Nossas indagações que estimularam as falas dos professores e lideranças indígenas foram elaboradas de modo a reconhecer e respeitar as diferenças culturais, possibilitando a abertura para reflexões profundas acerca da cultura ancestral dos Guarani, bem como a sua percepção atual da escolarização realizada nas aldeias pelo Estado. Nesse sentido, salientamos que a metodologia colaborativa possui um viés intercultural, pois um projeto colaborativo entre culturas necessariamente se caracteriza pela colaboração entre elas, e, neste caso, buscamos o “aperfeiçoamento” da nossa cultura, branca e ocidental, ao aprendermos com a postura intercultural e convivial dos povos indígenas.
Sobre a noção conceitual de convivialidade, Raúl Fornet-Betancourt (2018, p. 173) nos diz que
A vida humana é convivência. Ninguém pode viver sua vida sem conviver; porém, por isso mesmo, é a convivência também o lugar que pode acabar com ou reduzir a um mínimo a vida dos que consideramos outros. Consciente disto, a filosofia intercultural propõe que o desafio radica precisamente em converter a convivência fática, o factum da convivência, numa experiência de convivialidade, entendendo por esta última esse processo lento de ir logrando um ambiente de paz e amizade em nossas relações sociais, políticas ou culturais; somente num ambiente assim podemos ressignificar a realidade histórica de nossos conflitivos mundos cotidianos tratando de convertê-los em mundos de proximidade que equilibram as diferenças com justiça e solidariedade.
Assim, a convivialidade é mais do que a mera convivência, não é o rotineiro encontro de pessoas, mas depende de condições para a construção de um ambiente de convívio fundado na confiança, na abertura ao outro, o que constitui um ambiente de respeito, paz e amizade. Como fala o autor, é a partir da convivialidade que poderemos repensar e reconstruir laços, reconciliar povos e culturas que possuem uma história de opressão de uns sobre outros.
A postura intercultural dos Guarani nesse espaço-tempo de com-vivência nos ensinou sobre a generosidade de um povo que, mesmo após a opressão e genocídios, com uma história marcada pela violência extrema, segue um caminhar que se dispõe a experienciar a vida em comunhão com outras culturas, com pessoas que foram educadas em práticas eurocentradas, constituindo com elas ambientes de paz e de amizade, com disposição para a escuta recíproca, postura que podemos traduzir como a própria convivialidade. Nesse sentido, a convivialidade significa uma disposição para a com-vivência numa perspectiva de estar-juntos afetivo, dispostos à trocas de experiências, afetos e conhecimentos. Na perspectiva das nossas pesquisas, também assumimos uma postura do estar-junto como metodologia da com-vivência, constituindo uma outra visão do que foi estabelecido academicamente como trabalho de campo (Bergamaschi, 2005). Segunda a autora, o estar-junto como um intenso com-viver, buscando uma visão mais justa daquele que se convencionou chamar “outro”; uma com-vivência que permite compreender o modo de vida Guarani desde seu tempo-espaço, sem julgamentos a priori. Ou, como diz Maffesoli (2001, p. 142), o mero estar-junto que permite “identificar-se com ele, ainda que seja de modo provisório, e examinar seus atos a partir do interior, sem a prioris judicativos ou normativos”.
Nesse sentido, a convivialidade é traduzida pela postura dos Guarani que se deslocam entre as culturas, se identificam e interagem com o que é diferente, abraçando outros modos de estar no mundo conforme suas necessidades, interesses e afetos, produzindo um conhecimento integral a partir desse estar no mundo que contempla uma disposição de abertura a todas as instâncias da vida. São exemplos disso a forma como os povos indígenas andinos reverenciam as montanhas, como o povo Krenak reverencia Watu - nosso avô -, chamado de Rio Doce por nós. As palavras míticas de interação com todos os elementos da natureza, o respeito pela Terra, seus rituais, cânticos e rezas em que reverenciam forças da natureza.
Com-vivência e convivialidade
O primeiro dia de gravações para o documentário Mbyá Arandu: a sabedoria de viver entre dois mundos começou cinzento, pesado, chuvoso: até sermos recebidos por Artur Souza, a liderança da Tekoa Cacique Sepé Tiarajú - aldeia que tem uma escola com esse mesmo nome -, acompanhado por seu filho, Geraldo Souza. Ambos nos recepcionaram na sua casa-comunidade. Como todas as lideranças e famílias das comunidades Mbyá Guarani que nos recepcionaram, eles nos mostraram a disposição de convivialidade para receber pessoas não indígenas. Suas casas compõem o espaço do território-aldeia - tekoa - e seus movimentos de acolhida fazem com que nos sintamos tão perto de suas rotinas diárias permeadas pelo fogo, pelo som dos pássaros, pelo brincar das crianças. Os planos eram filmar um pouco da aldeia, mostrar a paisagem ao longo do caminho que leva à escola, porém o tempo fechado nos deixou receosos.… Seria possível gravar antes do temporal? Logo descobrimos com seu Artur que a gente precisava pedir para Nhanderu Tupã - divindade Guarani - para não cair a chuva antes da gente terminar de filmar, mostrando o profundo respeito dos Mbyá pelas forças da natureza e sua soberania sobre nós. E deu tudo certo: a gravação ao ar livre foi ao som de trovões, mas a chuva não caiu e conseguimos entrar na escola para terminar as gravações em seu interior.
Enquanto o cinegrafista montava os equipamentos de luz para a gravação, observamos a escola. Em um galpão aberto, foram colocadas lonas pretas para defender da chuva e dos ventos que, nesses meados de agosto, se faziam muito presentes. E o frio, muito frio. A gravação foi feita nessas condições, porém com uma vontade e disposição tão profunda de todos que as coisas acontecessem. Assim, as gravações foram saindo: o professor Geraldo dando aula na língua guarani para as crianças, elas, interagindo; seu Artur, no cantinho da porta, olhando tudo com cuidado. Quando nos via - saímos algumas vezes para tomar o café que prepararam para nós -, sorria; não trocamos uma palavra, mas nada dizia que era necessário falar através de palavras.
A chuva, os trovões e o vento marcaram muito o primeiro dia de gravação nas aldeias. Parece ter dado sorte a presença dessa força da natureza que costuma nos inquietar tanto. Remexe nas certezas, deslocar pensamentos, sentimentos, abre portas-possibilidades.
O processo de tecer com-vivências nas idas e vindas das Tekoa nos trouxe um aprendizado sobre a realidade do cotidiano da escolarização indígena da nossa região, das tantas demandas das lideranças, das precariedades vividas na estação mais fria do ano. Mas também o acolhimento e a alegria de um povo que nos recebeu de braços abertos para mostrar um pouco da sua vida na aldeia e na escola. As escolas indígenas, na região da 12ª CRE, são todas construções feitas pelas comunidades e cedidas para que as aulas tenham funcionamento; outras, são a utilização de casas antigas que já existiam nos territórios em que as comunidades foram alocadas. Nenhum prédio das oito escolas indígenas desta Coordenadoria de Educação foi construída pelo Estado, embora seja uma reivindicação de anos, até de décadas, por parte dos Mbyá. Há, igualmente, a solicitação de ensino médio - até hoje, nesta CRE têm apenas escolas com ensino fundamental, obrigando jovens que desejam continuar estudando a procurarem escolas fora da aldeia, na cidade. Ainda assim, podemos ver o apreço dos(as) estudantes e dos(as) professores(as) pelo espaço por eles construído, decorados com as simbologias dos Guarani, entre imagens, pinturas, frases, trabalhos feitos em aula. A escola é tomada pelos Mbyá, que a tornam intercultural com suas presenças, pelos modos próprios de aprender e de ensinar, através da frequência de estudantes e de professores(as) da comunidade, assim como do idioma originário.
O título Mbyá Arandu para o documentário foi escolhido a partir de conversas com algumas das lideranças que nos explicaram que a palavra poderia ser traduzida por sabedoria. Concordamos, pois achamos justo para designar esse modo cuidadoso e atento de pisar na Terra, como os Guarani mostram ao se deslocar entre “dois mundos”, o mundo Mbyá, e o mundo juruá (não indígena), constante travessia em que foram colocados após a invasão colonial e o contato intensificado devido a sua alocação em áreas próximas a rodovias e centros urbanos. Com todas as interferências e as influências do modo de ser juruá, o estar indígena permanece vivo dentro e fora das Tekoa.
Aprendemos, nesses dias de convivência nas filmagens nas aldeias, sobre uma das principais atribuições dos Mbyá para a escola: o que almejam dela. A escola na aldeia é para aprender a falar bem a língua portuguesa, para evitar e enfrentar o preconceito dos brancos, como na fala de João Batista, cacique da aldeia Yvy’a Poty.
(...) as crianças a partir de 10 anos ainda não conseguem falar bem português, porque eu mesmo, por exemplo, eu aprendi a falar depois de 20 anos. Depois dos 20 anos que eu tentei falar alguma coisa no português, eu sofri bastante com isso aí. Imagina só as crianças indo pra cidade, pra escola e ter dificuldade pra falar e sobre isso a gente tem preconceito né, tem muitos fazendo piadinha na escola, e com isso sofre bastante (Souza, 2022)8.
Sobre essa necessidade de se deslocar em dois mundos: “É muito importante aprender o português porque as crianças vão na cidade para se comunicar com as pessoas não indígenas, aí a gente vem ensinando para as crianças o português também, junto com a língua Guarani” (Gomes, 2022). Dois mundos, duas línguas, duas biografias culturais, possibilidades inúmeras de conflitos, mas também de encontros através da disposição para a convivialidade. Esta fala de Leandro Gomes, cacique da Tekoa Tape Porã corrobora com a fala de Cristiano Dario de Souza, filho do cacique João Batista: “dentro da escola as crianças aprendem as duas culturas, de como tem que viver, porque hoje a gente tem que aprender a viver em dois mundos, como eu sempre falo, a nossa cultura e a cultura dos não indígenas, como falar a língua portuguesa e falar a nossa língua também” (Souza, 2022).
Na Tekoa Yvy Poty fomos recebidos com música, o coral tradicional Mbyá Guarani com seu canto e dança, os sorrisos e abraços das crianças, nos aquecendo no frio do inverno. Fizemos a trilha etnoecológica organizada por Gerônimo Franco9, professor guarani da comunidade, e pudemos experienciar o estar em torno da fogueira, exercitando a escuta atenta das suas palavras que se misturavam à fumaça, à névoa e ao silêncio que tomavam conta da mata. Gerônimo nos contou sobre a sua história e da sua comunidade, o quanto persistiu, apesar das dificuldades inúmeras em acreditar que um dia sairiam da beira estrada para um lugar bom, adequado para viver a cultura em sua plenitude. Embora ainda existam muitas questões para serem melhoradas no atendimento humanitário à comunidade da Yvy Poty, o território é permeado pela mata e por um arroio em que pescam e podem usufruir para as demais finalidades que desejam.
Entre perguntas, respostas e silêncios, as falas arrebatadoras dão conta de uma reflexão que vai além da educação escolar indígena, apenas pontuando as reivindicações de melhoria para que o diálogo entre culturas e entre mundos possa se constituir em convivialidade, num ambiente de respeito, paz e amizade, como nas palavras do cacique Artur Souza: “Porque nós guarani somos humanos também e precisamos conviver, então eles não nos devem tratar como se fosse nada, nós queremos respeito também, nós temos direito também”. Diante dessa mensagem, que mostra profunda sabedoria, humanidade, e também consciência dos próprios direitos, devemos nos colocar em posição de humildade, para aprender com a ancestralidade Mbyá Guarani.
A convivialidade dos povos indígenas
A conexão espiritual profunda, irmandade dos povos originários com todas as instâncias da existência no cosmos é o que nos move a pensar sobre a convivialidade que podemos aprender como base para uma educação intercultural. Nesse sentido, o diálogo intercultural não deixa de ser uma forma de compreender, mais uma vez, o movimento de fagocitação entre culturas que, ao se contatarem e, ao admitir sua incompletude, buscam complementar seus conhecimentos e sabedorias em outras formas de existência no cosmos. Como nos fala Rodolfo Kusch, filósofo argentino que mergulha nas sabedorias da América Profunda, acerca do encontro entre os povos indígenas e os colonizadores:
De la conjunción del ser y del estar durante el Descubrimiento, surge la fagocitación, que constituye el concepto resultante de aquellos dos y que explica ese proceso negativo de nuestra actividad como ciudadanos de países supuestamente civilizados. Como es natural, todo esto deriva finalmente en una sabiduría, como saber de vida [...] (Kusch, 2009, p. 6).
Ler para compreender os processos histórico-sociais que constituíram as biografias de nossas culturas é tarefa obrigatória, contudo a interculturalidade como convivialidade entre culturas exige que se compartilhe momentos de vida, histórias de vida, que nos coloquemos em situação de conversação honesta, partilha de alimentos, de práticas culturais: de com-viver, de estar-juntos. Como diz Fornet-Betancourt: “La consulta o lectura de textos puede ayudar, pero nunca sustituye a la experiencia contextual, al encuentro directo que permite la narratividad” (2007, p. 28).
O que é proposto neste trabalho é que aprendamos com os mestres e as mestras da convivialidade, os povos indígenas. É neles que encontramos base para nos aproximarmos de uma possível saída à crise que vivemos, à emergência climática, aos conflitos que dominam nossa sociedade e nossa educação como um todo. Isto não quer dizer que as culturas indígenas sejam perfeitas, pois sabemos que não existe a perfeição, mas sim que o intercâmbio entre culturas é sumamente importante para o melhoramento de todas. Neste caso, são os valores da cultura oprimida que trazem exemplos de respeito para conhecer com o outro, para reconhecer a humanidade no outro, para construir a confiança apesar de todos os fatos históricos e atuais deporem contra a cultura ocidental hegemônica.
Ainda, na perspectiva de Fornet-Betancourt (2018, p. 173):
Compreender o outro, acolhê-lo na sua alteridade e hospedá-lo, é sempre um processo que implica escutar o reclamo de vida e mundo próprios que representa a alteridade do outro; por isso não se pode ficar numa experiência abstrata de abertura cognitiva, mas que tem que concretizar na repartição justa da realidade histórica, numa política de restituição que complementa o reconhecimento com a devolução daquilo que se lhe tem negado.
Por isso insistimos na disposição de aprender com os Mbyá Guarani, assim como outros povos indígenas que, diferente das culturas ocidentais, vivem a perspectiva da complementaridade: necessitam do outro e prezam a diferença. O mundo indígena ensina o valor da diferença, ao considerá-la um valor e não um problema a ser negado, apagado.
Aprendizagens interculturais: convivialidade e educação intercultural
Um dos aprendizados deste trabalho realizado junto aos Mbyá Guarani é a perspectiva colaborativa que resultou em trocas sobre diversos temas passíveis de serem trabalhadas, seja por pesquisadores(as), seja por educadores(as), a respeito da lei nº 11.645/2008, que torna obrigatória a inclusão da história e da cultura indígena nos currículos das escolas brasileiras. Conforme Fornet-Betancourt (2007, p. 22): “No todo se enseña. El sistema educativo es una decisión”. Trabalhar a temática indígena de forma cuidadosa e profunda, por si só contempla uma gama enorme de possibilidades: a percepção de que existem culturas e não cultura, diversidade, valores, direitos, histórias e suas diversas narrativas conforme quem conta e protagoniza, a relação entre seres humanos e natureza, cultura e natureza, oralidade, ancestralidade, linguagem e significado, práticas culturais, modos de vida, constituição da população e da cultura brasileira, distribuição de poder na sociedade conforme os grupos étnicos-sociais, acesso e permanência à educação escolar pelos povos indígenas, entre outros.
Decidir por trabalhar as culturas indígenas ao longo de todo ano escolar e não somente tratar os povos originários como efeméride no mês de abril é uma decisão que implica em incluir povos historicamente invisibilizados com os seus conhecimentos, suas filosofias e práticas de vida que podem nos ensinar sobre convivialidade entre todas as instâncias de seres no cosmos, entre culturas e entre culturas e natureza. Essas culturas ensinam, sobretudo, a importância de conhecer para viver, e não o conhecer apenas por conhecer.
Com os indígenas aprendemos, por meio da oralidade e das suas práticas vivenciais, a nos aproximarmos novamente de aspectos da existência que se encontram solapados pelo modo de ser na sociedade capitalista-moderna.
Vivemos num tempo tragicamente adverso, cuja adversidade se manifesta, por exemplo, nos níveis da política, do social, e do econômico, assim como também nos âmbitos da cultura e da educação, e com isso, ademais, nos níveis da ética e a epistemologia. Pois é um tempo que, reduzido e submetido à cronologia do calendário do Capital e seus interesses de acumulação privada, só conhece um presente que esgota na função de dar presença ou exibir seu “mercado”. (...) Creio que se trata, também, e acaso fundamentalmente, de uma adversidade que já é parte do que somos, pois se nos tem educado, se nos educa e educamos em grande parte para a apropriação e interiorização dos “valores” da sociedade dominante: autonomia individualista, possessão privada dos bens, incluído os cognitivos, a combatividade competitiva, a aceleração dos ritmos da vida e o consequente esquecimento das memórias que somos, etc. Seria, pois, do meu ponto de vista, enganar-se a si mesmo pretender fazer crer que este processo “educativo” não tem deixado rastros em nossa maneira de ser e de entender o modo como devemos ser humanos (Fornet-Betancourt, 2018, p. 167-168).
Quando observamos a escassez de diálogos - diálogos que foram desgastados e perdidos na nossa era -, lembramos justamente neste referencial para não nos espelhar, que devemos pontuar como momentos de violência extrema entre culturas e povos, e mesmo entre pessoas da mesma cultura. Podemos observar isso na rotina de escolas (brancas) e as queixas recorrentes de educadores sobre a ausência de condições para criar um ambiente de ensino-aprendizagem saudável. Na com-vivência com os Mbya Guarani podemos buscar outros horizontes civilizatórios para a refundação de valores humanitários. Que valores são estes que sustentam a escassez de espaço para o diálogo? É na beleza da convivialidade do Teko Porã10 que lembramos quando procuramos respostas para um caminho de cura. Como fala Carlos Papá, indígena Guarani que faz a abertura do livro Arandu Mirim: pequenas sabedorias:
O escuro é responsável por todo o Universo, tudo o que é criado brota do escuro: a terra, a água, as montanhas, nós todos. Da origem da nossa ancestralidade, seguimos conservando nossa memória, cuidando de nosso território sagrado, Nhe’ery, que nos ensina cada dia a conviver com todos os seres em harmonia. Seguimos com as crianças, nossos rezadores e rezadoras, entoando cantos sagrados para que a floresta continue viva e para que continuemos a ter plantinhas que curam, as frutinhas que alimentam e a alegria que motiva o nosso caminhar junto ao Bem Viver (Citado por Franco; Ramos; 2023, s/n).
É o Bem Viver que nos ensina acerca da postura convivial, forma de educação tradicional, que não passa - necessariamente - pela escola, mas que circula e se atualiza de geração em geração entre os Mbyá Guarani, por meio dos conselhos e das sabedorias passados pelos mais antigos aos mais jovens. E assim que vão sustentando uma cultura e modo estar no mundo que não pode ser colonizado, justamente por existir e re-existir ao largo das instituições ocidentais modernas.
A delicada e frágil tessitura das relações humanas mostra, na história entre colonizador e povos originários da América, que estes nos apresentam uma forma de civilidade outra, mostram quem é o “civilizado”: quem é capaz de construir redes de diálogo, de discussões coletivas, de movimentos de resistência e de re-existência - outros modos de ser e viver apesar das intervenções e violências. Na obra A conquista da América: a questão do outro (Todorov, 1999), em diversas passagens nos deparamos com as incompreensões ego-eurocêntricas e colonizadoras de Cristóvão Colombo, como quando ele se coloca como possível interlocutor de uma língua que desconhece por completo; ou quando descreve uma voz humana que ele se refere como “ausência” de fala, uma vez que ele era incapaz de reconhecer como uma língua diferente. Em outras palavras, incapaz de reconhecer como uma característica vital a diferença. Segundo Todorov, diversos tradutores se chocaram tanto com essa percepção de Colombo que corrigiram suas palavras, modificando as colocações “para que aprendam a falar” utilizado por ele em suas cartas para o rei da Espanha - numa intenção em levar indígenas para se tornarem “civilizados” no Reino da Espanha -, “para que aprendam nossa língua” (Todorov, 1999, p. 36). É nítido o espanto de outras cosmovivências diante dessa limitação de Colombo e outros tantos invasores/colonizadores em reconhecer e aceitar a diferença.
E, mesmo diante de tantas incompreensões, os povos originários não cansam de nos ensinar, nos mostrando como é possível um caminho de cura para a reconciliação da ferida profunda causada pelo colonizador, ao abrir as Tekoa para visitantes interessados em conhecer a cultura e construir uma com-vivência intercultural.
Rememoramos o esforço necessário que fazemos ao reavivar as lembranças e as origens de nossas histórias ao tentar responder à pergunta “quem somos?” É uma pergunta vital para pensar os valores que carregamos e que nos carregam em nossas andanças pelo nosso finito espaço-tempo na Terra. Enquanto coletivo, a pergunta “quem somos?” toma uma dimensão ainda mais urgente em todas as vezes que nos deparamos em situações irreversíveis de violação de direitos humanos básicos, de tentativa de apagamento cultural, de violência ou mesmo de aniquilação do outro.
A convivialidade com todas as formas e instâncias de existência no cosmos é parte fundante do Teko Porã, modo de viver tradicional Guarani, o Bem Viver, dentro dos preceitos sagrados deixados por Nhanderu a seus filhos e filhas, como nos contam os Mbyá. É na ontologia intercultural dos Guarani, na busca pela complementaridade com o outro, com a diferença que se desdobra a sua cosmovivência fundada na convivialidade. Da disposição originária para a convivialidade parte sua abertura ao outro. Como fala o Santiago no documentário Mbyá Arandu:
Aqui na terra foi criado pelo Nhanderu, a natureza, os bichinhos, o ser humano, a planta, foi criado pelo Nhanderu, então nós guarani conhecemos dessa forma, e nós ensinamos, nós xeramoi (mais velhos, sábios), nossos bisavôs ensinaram pra nós pra ter respeito porque foi criado por Nhanderu (...) e com essa natureza, se nós acabar, se deixa acabar, acho que vai ser muito difícil de recuperar nossa vida e nosso ambiente, que é principalmente nossa terra” (Franco, 2022).
Assim se mostra a preocupação e o cuidado com a vida, com o outro, na filosofia do Teko Porã, a partir da qual podemos nos inspirar para refazer nossos valores humanitários, os quais devem animar uma educação intercultural nas escolas brancas ocidentais. Ao aprender a interculturalidade e a convivialidade com os Mbyá Guarani podemos novamente sentipensar11 uma educação que já não sabe para onde caminhar, que se coloca apenas à serviço de modelos empresariais que tem como valores a competitividade para o mercado e a competência e não para a convivialidade.
A mensagem de Santiago é translúcida:
Vamos se respeitar, vamos se conhecendo, vamos ter amor pelas pessoas, o rico, o pobre. Somos pobres, não temos dinheiro, mas nossa vida é um valor, nossa mente é um conhecimento, nossa visão é muito valor pra gente, o valor que vale mais que dinheiro, que é a vida, o pensamento, a natureza que é importante(...) Vamos se respeitando, abraçar nosso mundo, abraçar nossa vida, e abraçar Nhanderu que ilumina sempre nossa vida pra que nosso povo viva melhor, cada vez mais (Franco, 2022).12
O ensinamento e o convite à convivialidade e à interculturalidade são mais do que transparentes nas palavras de Santiago, nos fazendo relembrar que nossos valores humanitários não devem estar nas coisas, não são objetos, mas sim em nossas vidas, em nossos corações e corpos, em nossa existência - e inevitável co-existência - em Pachamama. Por esse motivo, fazer desse espaço-tempo de conviver deve ser construído como convivialidade entre nós.
Referências
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Apoio ou financiamento:
Não se aplica.
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Disponibilidade de dados de pesquisa:
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Como citar este artigo:
BERGAMASCHI, Maria Aparecida; TOMAZZONI, Márcia Luísa Aprendizagens interculturais na com-vivência com os Mbyá. Educar em Revista, Curitiba, v. 42, e98132, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.98132
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1
Propositalmente usamos assim grafada a palavra com-vivência, enfatizando a experiencia compartilhada, o viver com, o estar-juntos. O com da com-vivência sinaliza para “um mundo compartilhado” (Bergamaschi, 2005, p. 50).
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2
A palavra aconselhamento surgiu entre mestrandos e doutorandos indígenas para designar os processos de orientação nos programas de pós-graduação. Segundo a tradição indígena, aconselhamento remete a uma relação não hierárquica, pois todos os envolvidos no processo são detentores de escuta, de fala e de aprendizagens.
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3
Sarau das Nações é um evento anual promovido pela Assessoria de Relações Internacionais da Ulbra. Especialmente, na edição de 2022, o país homenageado foi o Brasil, representado pelos povos indígenas.
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4
As Coordenadorias Regionais de Educação (CREs) fazem parte da Secretaria de Educação do Estado do Rio Grande do Sul (SEDUC/RS). São 30 coordenadorias e cada uma delas articula a educação escolar de uma região do estado. No ano de 2022 houve, por parte desta instância de gestão, a proposição de trazer à centralidade de suas ações a temática da educação e das culturas indígenas.
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5
Segundo Fornet-Betancourt (2018, p. 173), a convivência pode ser convertida em uma “experiência de convivialidade”, ao se colocar estratégias para manter e aprofundar a interação, ou seja, a convivência fática.
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6
Pesquisa-dor como aquele que se concentra em explorar a dor do outro para redigir teorias que pouco contribuem em retorno significativo às comunidades e povos historicamente oprimidos. Linda Tuhiwai Smith (2018), intelectual maori, em seu livro Descolonizando metodologias: pesquisa e povos indígenas, denuncia a violência das pesquisas científicas: “é uma história de dor que ainda fere, no mais profundo sentido, a nossa humanidade” (idem, p. 11)
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7
Conforme informações do Instituto Socioambiental Povos Indígenas no Brasil: https://www.pib.socioambiental.org/pt/Povo:Guarani_Mbya. Consultado em: 03/01/2025.
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8
Fala transcrita do documentário Mbyá Arandu: a sabedoria de viver entre dois mundos. Todas as falas destacadas do documentário e aqui apresentadas vem com o sobrenome da pessoa e o ano (2022) da realização.
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9
Conforme a tese de Laura Nelly Mansur Serres: “O Projeto da Trilha Etnoecológica Yvy Poty, desenhado e executado pela comunidade da Tekoa Yvy Poty, busca fortalecer a memória do seu povo e preservar o patrimônio indígena Guarani Mbya. É uma escola viva onde se autoeducam. É também aberta à visitação de não indígenas, buscando contribuir para a educação intercultural dos jurua” (Serres, 2022, p. 193).
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10
Modo de ser Guarani; expressão utilizada pelos Guarani para expressar aos não indígenas seu modo tradicional e ancestral do Bem viver. Cledes Markus, em sua tese de doutorado intitulada “As contribuições da concepção indígena do Bem Viver para a educação intercultural e descolonial” (2018, p. 84), nos diz que no documento final do VII Encontro Continental sobre Teologia Índia em Pujilí, no Equador, em 2013, sobre o Bem Viver, este termo aparece na língua dos 50 povos presentes do evento, e o Teko Porã é registrado como a tradução do Bem Viver pelo povo Mbyá Guarani do Paraguai e do Brasil.
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Sentipensante, uma noção apreendida e difundida por Orlando Fals Borda (2015) em seu trabalho junto aos povos originários e ribeirinhos colombianos, que consideram o pensar na dimensão do próprio viver, ou seja, como ação do coração e da mente = sentir-pensar.
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12
Citação transcrita do documentário Mbyá Arandu: a sabedoria de viver entre dois mundos.
Todos os dados estão disponíveis em links e/ou referências apontados no artigo.
