Open-access Tradição e inovação: transações transnacionais na História da Educação

RESUMO

O dossiê propõe uma abordagem transnacional, destacando os cruzamentos de fronteiras que geram hibridações entre saberes e práticas escolares. A polaridade entre tradição e inovação é central, sendo historicamente tensionada desde o século XVIII, quando a escola moderna passou a conciliar a preservação cultural com a preparação para o futuro. No século XIX, o evolucionismo influenciou teorias educacionais e justificou a escola graduada, enquanto a Escola Nova criticou a tradição e propôs métodos renovadores. Ao longo do século XX, eventos históricos desestabilizaram as noções lineares de tempo e progresso, provocando revisões conceituais na pedagogia e na produção historiográfica. A tradição, associada à conservação de saberes, e a inovação, vinculada ao progresso e à criatividade, tornaram-se categorias estratégicas para qualificar práticas e discursos educacionais. Os artigos deste dossiê analisam eventos e fontes diversas para investigar, em perspectiva transnacional, como tradição e inovação se afrontaram e se combinaram nos discursos e nas práticas educacionais.

Palavras-chave:
História transnacional; Tradição; Inovação; Cultura Escolar

ABSTRACT

This dossier proposes a transnational approach, highlighting border crossings that generate hybridization between educational knowledge and school practices. The polarity between tradition and innovation is central, being historically tensioned since the 18th century, when the modern school began to reconcile cultural preservation with preparation for the future. In the 19th century, evolutionism influenced educational theories and justified the graded school, while the New School movement criticized tradition and advocated for innovative methods. Throughout the 20th century, historical events destabilized linear notions of time and progress, prompting conceptual revisions in both pedagogy and historiography. Tradition, associated with the preservation of knowledge, and innovation, linked to progress and creativity, became strategic categories to qualify educational practices and discourses. The articles in this dossier analyze various events and sources to investigate, from a transnational perspective, how tradition and innovation confronted and intertwined within educational discourses and practices.

Keywords:
Transnational history; Tradition; Innovation; School Culture

A pesquisa e a escrita em história da educação têm se tornado mais diversa nos últimos anos, tanto no que se refere aos temas e problemas, quanto no que tange a abordagens teórico-metodológicas. Se, nas décadas de 1970 e 1980, era absoluta a prevalência do “materialismo histórico-dialético” na comunidade brasileira de pesquisadores e pesquisadoras em história da educação, uma ascendente “nova história cultural” matizou boa parte da produção da especialidade entre 1990 e 2000. O pluralismo que se constata nos sumários de coletâneas e revistas especializadas, assim como nas comunicações em reuniões científicas, resulta de fatores que ainda cabe investigar. É plausível, entretanto, supor que a intensificação da circulação internacional tenha sido um fator decisivo para o fenômeno da multiplicação de temáticas e referências. Com efeito, nos anos 1990 teve lugar um volume significativo de viagens, intercâmbios, encontros e enredamentos de pessoas pesquisadoras experientes e de discentes em formação ao exterior, pelos quais saberes, modos de fazer, instrumentos, inquirições e referências puderam cruzar fronteiras e, como efeito, reconfigurar tanto as historiografias nacionais quanto os seus campos de especialistas.

Essa hipótese, ilustrativa de que a abordagem transnacional compõe o variado quadro da pesquisa e da escrita contemporâneas em história da educação, é, ao mesmo tempo, a substância da questão central do dossiê1. Trata-se, em ambos os casos, de investigar historicamente agências e agentes, relações e efeitos dos cruzamentos de fronteiras, nos quais saberes e práticas transcenderam os Estados-nação para engendrar, tanto a disseminação de padrões de largo alcance, como apropriações e hibridações com fortes colorações locais. Em tais transações, a polaridade entre “tradição” e “inovação”, persistente quando se trata de educação escolar, é o aspecto que lançamos como desafio às contribuições ao dossiê.

Desde o século XVIII, a escola se constituiu como instituição moderna, de funcionamento orientado por princípios de racionalidade e eficiência aplicados ao ensino de conteúdos culturais e às normas de civilidade. Na medida em que servia à disseminação de um patrimônio cultural, a educação escolar assumia um compromisso com a tradição; por pretender preparar o futuro, mediante a formação de novas gerações, não poderia, contudo, manter-se impermeável à inovação. Nos discursos educacionais, a tradição comumente se associa a produções culturais e a conhecimentos consagrados, tidos como úteis, relevantes e universais, assim como, pelo viés crítico, vê-se atribuída ao conservadorismo das ideias e dos costumes enrijecidos e ultrapassados. A ideia de inovação, frequentemente relacionada à modernidade, ao progresso e à criatividade, por vezes tornou-se objeto de desconfiança e temor, ao representar uma ameaça à civilização e aos valores estabelecidos. Os termos “tradição” e “inovação” são categorias empregadas nos discursos educacionais para comparar, qualificar ou desqualificar saberes, práticas, instituições e sujeitos, sendo, portanto, estratégicas para a identificação dos pontos de tensão e conflito no campo. Por isso, importa atentar para a sua presença na linguagem, as transformações de seus sentidos no tempo, assim como para as variações percebidas em diferentes espaços, pois o que fora percebido como inovador em determinada região poderia ter sido, em outra, qualificado como retrógrado.

Sobretudo no século XIX, quando a urgência de configuração ou reconfiguração dos sistemas de ensino nacionais desencadeou dissensões quanto a modos domésticos de ser e agir e fez emergir contrastes entre elementos culturais e identitários autóctones em face de padrões escolares em expansão global, essa polaridade se revestiu de contornos dramáticos. Na mesma época, o campo científico vibrava com insurgências e rupturas paradigmáticas que afetaram o campo educacional. O tema da evolução tornou-se central nas ciências naturais e sociais, e o desenvolvimento dos indivíduos, assim como o progresso social, foram pensados na perspectiva evolucionista, que apreende o problema das diferenças entre os grupos humanos e os indivíduos em termos de maior ou menor grau de civilização e progresso. No campo das teorias da educação, passou a ser aceito o postulado de que haveria uma relação direta entre as leis naturais do desenvolvimento humano e a história das sociedades (Gould, 2003; Gouvêa; Gerken, 2010); na prática, a ideia da gênese evolutiva do intelecto humano foi transposta à divisão e à sequência ideal dos graus de ensino no modelo da escola graduada (Monarcha, 1999). Adiante, afirmou-se que o principal objetivo da escola não mais seria transmitir conhecimentos, mas promover o desenvolvimento do aluno. Este enunciado foi nuclear no discurso da Escola Nova, como crítica aos conteúdos e métodos da escola tradicional, condenada como empecilho para o desenvolvimento dos estudantes e para o progresso do conhecimento. Contra essa tradição pedagógica, o movimento defendeu a renovação dos métodos de ensino, fundamentada nos saberes científicos sobre o desenvolvimento da criança, com vistas à modernização da sociedade.

A escritora sueca Ellen Key designou o século XX como O Século da Criança, título do livro que publicou em 1909, em uma proposição que se disseminou no campo educacional. Passou-se a defender que os empenhos do Estado e das famílias na educação e na saúde das crianças eram investimentos para o futuro. As contradições do pensamento científico e social, no entanto, persistiram: se a criança era considerada como o futuro da humanidade, como a esperança de dias melhores, sob a tese da homologia entre ontogênese e filogênese, ela aparecia associada ao homem primitivo, ao selvagem incivilizado da psicologia evolutiva. Os professores, representantes dos valores da cultura e da civilização a transmitir, eram valorizados como responsáveis pela formação de novas gerações, mas, na condição de adultos em posição de autoridade, recebiam críticas por serem apegados ao passado do saber e das interações sociais, e mesmo resistentes à mudança.

Ao longo do século XX, os temas da continuidade, da evolução e do progresso foram constantemente desafiados por acontecimentos históricos, como guerras mundiais e crises econômicas, o que se manifestou no campo das artes e das ciências humanas, incluindo a pedagogia e a produção historiográfica. Essa irradiação ideológica, cujo centro dispersor foi as nações ocidentais em posição dominante, teve implicações no campo das teorias ou nas políticas sociais dos Estados, mas afetou também as subjetividades a eles menos afeitas. A percepção do tempo, os significados atribuídos à sua “passagem” e as noções de acúmulo, descarte, progresso ou atraso, principalmente quando e onde puderam ser “reconhecidos” em fenômenos observáveis, desestabilizaram o discernimento do que se designava tradição e renovação (ou inovação). Localmente, a percepção da flecha unívoca do tempo em progresso confrontava o valor do “próprio” ou “nacional”, em face do “moderno” e “universal”.

Se tal modo dicotômico de pensar e sentir o tempo não chegou a ser amplamente subvertido, senão nas artes de Picasso e Stravinsky, a historiografia de hoje pode arregimentar instrumentos conceituais diversos para problematizar o sentido único e, no caso da história da educação e da escola, inquirir as temporalidades de outros modos. Tomando uma terminologia musical, as relações entre a tradição e a inovação podem ser pensadas como expressões dos movimentos melódicos e rítmicos do contraponto e da fuga. Em termos sucintos, o contraponto é a combinação de duas ou mais linhas melódicas, em que as subsequentes criam, com relação à primeira, resultados harmônicos em sentido horizontal. Com licença poética (e o perdão dos musicistas), teríamos como primeira linha melódica a tradição, a partir da qual cada inovação se posicionaria e criaria uma combinação, paralelamente e a cada momento, mediante intervalos mais ou menos dissonantes. Por sua vez, a fuga abre-se em uma voz, tendo como resposta uma segunda, que entoa o mesmo motivo, mas transposto. Na sequência, a primeira segue em acompanhamento, e a ela vão-se agregando outras vozes, gerando coloridos harmônicos mediante a sobreposição de respostas melódicas. Grosso modo, assim como os contrapontos de uma fuga, a inovação e a tradição coexistem, são polifônicas e se desdobram em tempos compactados ou distendidos. Nisto, a metáfora musical nos serve para atentar ao caráter reticulado das temporalidades, assim como aos sentidos complexos, não unívocos, dos discursos e práticas que as envolvem.

Os historiadores têm renunciado ao pressuposto do tempo linear que acomoda os acontecimentos em narrativa contínua e evolutiva. Multiplicaram-se as temporalidades em função de temas, objetos, fontes e perspectivas teóricas; desafiaram-se as explicações logicistas ou deterministas de causas e consequências nos processos históricos; procurou-se identificar e descrever os momentos de ruptura que produziram transformações imprevistas no curso dos acontecimentos. Paralelamente, as ciências humanas passaram a desafiar as classificações fundadas nas grandes narrativas universais, nas quais a Europa ocidental e os Estados Unidos figuravam como centros avançados, irradiadores da civilização, da inovação e do progresso, enquanto os polos periféricos, primitivos e atrasados, deveriam reproduzir os modelos mais adiantados para poderem avançar.

No campo da educação, a historiografia tem apontado que, em países de outras regiões do globo, saberes e as práticas pedagógicas de países considerados desenvolvidos não foram simplesmente importados, mas apropriados, ressignificados e transformados em vista das culturas e das necessidades das populações locais, tal como eram percebidas por educadores e responsáveis pela formulação das políticas públicas. Mais do que isso, nesses países e regiões formularam-se ideias e modos de fazer, os quais, por meio da circulação internacional e da divulgação em exposições, congressos e publicações, foram divulgados no exterior, significando que seus agentes participaram ativamente do movimento global de modernização da educação e da escola (Vidal; Silva; Lima; Bontempi Jr., 2024; Silva, 2018). Tais trabalhos têm mostrado que as relações entre tradição e inovação, além de não serem lineares e unidirecionais no que diz respeito ao fator tempo, não se compreendem nos limites de uma divisão geográfica estanque e parametrada na divisão centro-periferia.

O tempo histórico não se esgota, portanto, no eixo passado-presente-futuro, mas abarca diferentes durações, permanências e aceleramentos. A cultura escolar é um bom exemplo da coexistência de práticas de longo termo, tais como o controle da presença dos alunos e a atribuição de nota a seus trabalhos, e outras bem recentes, como a incorporação das novas tecnologias ao currículo. Deve-se levar em conta, ainda, as diferentes histórias que podem ser escritas sobre processos desiguais de escolarização de meninos e meninas, de crianças das camadas mais favorecidas da população e dos grupos aos quais a frequência à escola só foi admitida bem mais tarde (Nóvoa, 2001, p. 48). Assim, pode-se falar de histórias que se cruzam, bem como de outras que seguiram correndo em paralelo por longo tempo.

A perspectiva desse dossiê aproxima-se, ainda, das teorizações derivadas da virada linguística, que evidenciaram a dimensão produtiva do discurso, que deixou de ser considerado como mera representação da realidade para ser visto como constitutivo dos objetos, dos sujeitos e dos acontecimentos (Foucault, 2004). Como observou António Nóvoa (2001, p. 51), o conceito de discurso tornou-se central para a mudança de perspectiva na história da educação, que por um longo tempo foi dominada pelas ideias pedagógicas, ou seja, pela “busca sem fim das origens, influências e causas, numa tentativa de interpretar as ideias dos grandes educadores do passado” (tradução nossa). Para ele (Nóvoa, 2001, p. 51),

A “nova” história cultural da educação, em contraste, está interessada na produção, difusão e recepção dos discursos educacionais através do tempo e do espaço. Sendo assim, o foco da pesquisa mudou para as práticas discursivas que regulam a escolarização, especialmente onde há ruptura ou conflito (tradução nossa).

Neste dossiê, sugeriu-se que as tensões entre as categorias da tradição e da inovação no universo dialógico dos saberes e das práticas escolares deveriam ser situadas nas situações históricas de transações entre o global, o nacional e o local, ou seja, nas diversas modalidades em que se poderia verificar o cruzamento de fronteiras. A opção por essa perspectiva se deve ao potencial de revelar aspectos problematizadores e desafiadores da autossuficiência das histórias nacionais, inclusive, porque nelas se abrigam os sentidos, por vezes antagônicos, do “nacional” e do “internacional”, do “autóctone” e do “estrangeiro”. Para Saunier (2013), até mesmo a “nação” torna-se uma categoria usada pelos agentes para gerarem situações, papéis, valores, instituições e comportamentos que conformam os processos de internacionalização. Nessas relações complexas e intrincadas, as mudanças na substância do “nacional” irão sempre impactar as dinâmicas do “internacional” (Caruso, 2014, p. 11).

Isto não significa, entretanto, a dissolução do Estado-nação, tampouco o descrédito de seu papel na geometria das relações internacionais. Embora dirija o foco aos agentes e suas ações em contextos temporais e geográficos específicos, a história transnacional transita por diferentes concepções de espacialidade, por atentar-se às mobilidades e aos cruzamentos de fronteiras. Importam, portanto, as interconexões e as interdependências entre o nacional e o resto do mundo, tanto quanto a presença estrangeira no interior da história doméstica.

Segundo Droux e Hofstetter (2014, p. 5), as análises relacionais têm o poder de evidenciar a “habilidade dos atores nacionais, quer seja de servidores civis, quer seja de membros da sociedade civil local, de sair de suas fronteiras a fim de iniciar novas políticas [policies], inspiradas por experiências estrangeiras (ou, por vezes, desenhadas contra suas influências). A ementa deste dossiê estimulou, por isso, o empenho na descrição e na interpretação dos modos pelos quais agentes individuais e coletivos implicaram-se em relações transnacionais, seja a fim de preservar os saberes e as práticas tradicionais aprendidos em sua formação e valorizados em suas experiências, seja para criticar a tradição e sustentar iniciativas de renovação de programas e métodos de ensino e formular expectativas associadas às inovações pedagógicas. Nos artigos que o compõem são objeto de escrutínio as maneiras pelas quais, ao longo dos séculos XIX e XX, formaram-se e se difundiram histórica e transnacionalmente critérios de inovação e tradição, adiantamento ou atraso, por meio dos quais foi possível comparar e hierarquizar sistemas escolares, instituições, saberes, práticas e sujeitos. As principais fontes examinadas são livros e manuais escolares empregados na educação básica e na formação de professores, além de materiais didáticos, como apostilas, mapas para o ensino de história, instrumentos psicométricos e textos autobiográficos.

O artigo “O processo educativo valdense no Uruguai (1858-1880)”, de Gerardo Garay Montaner, abre o dossiê. Valendo-se de um rico repertório de fontes, que inclui cartas pessoais, diários de memórias e documentos oficiais, o autor caracteriza a construção da identidade cultural dos colonos valdenses, “uma minoria religiosa com raízes medievais” em seu processo de assentamento no Uruguai, focalizando a centralidade da educação e da cultura escrita para a assegurar a sua coesão comunitária e fazer frente às dificuldades econômicas e sociais. O autor desafia a narrativa tradicional que descreve esse processo como sendo de simples transplante cultural, argumentando que se tratou, em vez disso, de uma história que envolveu tanto a adaptação quanto a inovação, diante dos desafios que se precisou enfrentar no novo contexto.

Os dois artigos seguintes voltam-se para a circulação transnacional de ideias e seus efeitos locais, a partir do exame de casos brasileiros. No artigo “‘Educadores da raça”: metáfora política da circulação transnacional de ideias de inclusão racial no início do século XX”, Jonatas Roque Ribeiro valeu-se da biografia do educador José Eutrópio (1886-1929) e de sua interlocução com outros intelectuais negros do Ocidente, centrando a análise no modo como os estudos desse educador foram mobilizados na defesa de princípios orientadores para a educação formal no Brasil. Sua análise focaliza os discursos sobre a escola que, como argumenta, “se tornou uma metáfora central nos debates sobre direitos civis e políticos de movimentos negros transnacionais”. Em “Herbert Spencer: ciência e evolução nos manuais de História da Educação em circulação no Brasil (1914-1999)”, Leonardo Batista dos Santos e Décio Gatti Jr. examinam como as ideias do pensador britânico foram traduzidas, apropriadas e disseminadas nos manuais de História da Educação que circularam no Brasil entre 1914 e 1999. A base empírica inclui os manuais estrangeiros traduzidos para o português, entre 1939 e 1999, e os brasileiros, publicados entre 1914 e 1989. Cotejando esse material à luz da recensão de obras de comentadores e do próprio Spencer, os autores revelam como os conceitos e as categorias pertinentes aos temas do evolucionismo, da hierarquização de saberes e da educação científica foram diversamente apresentados. Entre classificações, divergências, seleções e acomodações, Santos e Gatti Jr. confirmam a presença de Spencer no cânone da pedagogia moderna, assim como inventariam as “traduções” de seu pensamento que chegaram aos professores e às professoras em formação.

Três artigos tratam especialmente da formação docente, valendo-se da análise de livros destinados aos professores: Os manuais da ‘Biblioteca de Cultura Pedagógica’ e os consejos sobre renovação educacional de sua fundadora Clotilde Rezzano (1946-1951) apresenta os resultados da pesquisa conduzida por Roberlayne de Oliveira Borges Roballo sobre os manuais dessa coleção, dirigida pela educadora Clotilde Guillén de Rezzano, reconhecida precursoras da Escola Nova na Argentina. A autora apresenta a trajetória de Clotilde, analisa os elementos relacionados à produção e à circulação das obras da coleção, as quais compõem a literatura pedagógica destinada à formação de professoras. Apoiado em robusta empiria, o artigo explora tanto a materialidade como as narrativas, problematizando representações e analisando estratégias editoriais. Conclui que os manuais da “Biblioteca de Cultura Pedagógica”, da lavra de autores e autoras de diversos países, promoveram a difusão e o aconselhamento para práticas docentes à luz de princípios renovadores, cruzando fronteiras nacionais e afetando, graças à pujança da Editora Kapelusz, a formação de professoras em outras nações latino-americanas. Em “‘Ornado de conceitos modernos’: circulação de referenciais estrangeiros nas Apostillas de Pedagogia, de Balthazar Góes (1905)”, Rony Rei do Nascimento Silva faz um exame detido de um material didático para a formação de professores, produzido por um professor da Escola Normal Ruy Barbosa, em Aracaju, no início do século XX. A análise caracteriza os modos de apropriação de referenciais estrangeiros com vistas à modernização do ensino no estado de Sergipe. Valendo-se do conceito de “repertório cultural”, o autor mostra como o educador sergipano mobilizou referências às publicações de Pestalozzi e de Norman Calkins em suas apostilas, no intuito de difundir e defender o método intuitivo de ensino. O artigo A Didática e seus manuais em perspectiva transnacional: fronteiras disciplinares e espaços de circulação (Brasil-Portugal-Espanha, 1930 a 1970), por sua vez, apresenta uma análise comparativa de 32 manuais de didática, disciplina que se tornou central na formação docente, publicados nos três países, procurando caracterizar as suas similaridades. Nesse trabalho, Carolina Ribeiro Cardoso e Vivian Batista da Silva se valem de uma perspectiva transnacional na análise das fontes para evidenciar a importância das traduções e da circulação internacional dos autores, fatores que contribuíram de maneira decisiva para que os manuais de didática atravessassem fronteiras nacionais e fossem lidos por professores de diferentes países. Como afirmam as autoras, “Ao ler os manuais, os professores entraram em contato com outras ideias e experiências, as quais constituíram um corpo de conhecimentos compartilhados para além das fronteiras nacionais”.

Em semelhante abordagem, em “Entre a tradição e a inovação: a prática educativa nos grupos escolares do Piauí (1927-1961) à luz da História Transnacional”, Maria do Socorro Pereira de Sousa Andrade analisa a constituição da cultura escolar nos grupos escolares do Piauí, entre 1927 e 1961. A autora trata das escolas graduadas de ensino primário, pondo ênfase na formação de normalistas e em práticas docentes, sobretudo, ao examinar as prescrições curriculares e metodológicas para o ensino de Geografia. Por meio de análise documental que abarca um conjunto de fontes normativas, memoriais, relatos e programas de ensino, destaca a mediação dos agentes nas traduções locais de saberes pedagógicos de circulação global. Referenciado na abordagem transnacional, o estudo explora os modos locais de apropriação e os usos da pedagogia moderna, revelando práticas que expressam uma cultura escolar construída de memória e experiência, em que tradição e a inovação coexistiam integradas.

Também com o propósito de caracterizar a circulação transnacional de ideias e recursos que atravessaram fronteiras, Rogério Monteiro Siqueira e Luciana Dadico investigam os modos de apropriação local dos saberes e instrumentos da psicometria internacionais, provenientes especificamente da Alemanha, no artigo “Da presença e ausência da pessoa na psicometria: circulação de instrumentos psicométricos na São Paulo dos anos 1920”. Sua contribuição é valiosa por lembrar a dimensão material da apropriação dos discursos e da produção dos conhecimentos, as quais, seja no âmbito do saber científico, seja no âmbito dos processos de escolarização, demandam o acesso e a manipulação de materiais como livros, revistas e objetos, tais como materiais escolares, instrumentos de laboratório, aparelhos e máquinas. Partindo da análise de um trabalho apresentado pelo engenheiro e professor politécnico José Octávio Monteiro de Camargo em um congresso de higiene, e focalizando um instrumento específico, o tremômetro, empregado em processos de seleção profissional, os autores discutem o intrincado processo de produção, circulação, apropriação e divulgação científica.

Carolina Carvalho Ramos de Lima, em “Quadros e mapas cronológicos para o ensino de História nas últimas décadas do Oitocentos”, insere-se no campo de estudos sobre a história do ensino de História, de modo particular, mediante o exame da materialidade e da cultura escolar. A autora analisa quadros cronológicos e mapas utilizados no Colégio Abílio, do Rio de Janeiro, nas últimas décadas do século XIX, situando-os no trânsito internacional de artefatos e métodos de ensino. Na trama, ressalta-se o protagonismo do diretor-proprietário do colégio, Abílio Cezar Borges, como mediador na circulação de métodos de ensino, ideias pedagógicas e artefatos produzidos em outras nações. Lima observa, logo após uma minuciosa análise dos materiais, que a circulação proporcionada pela convergência da expansão do sistema público de ensino com o incremento do mercado internacional voltado à escola envolveu conexões transnacionais que ampliaram o repertório pedagógico de corte inovador que, contudo, carregava consigo valores culturais e ideológicos que impactaram o ensino nos Oitocentos.

“Valores e propostas em torno do rádio como meio educativo no Brasil e na Espanha na década de 1930: um estudo comparativo, artigo escrito em colaboração por Kelly Alves, da Universidade Federal da Bahia, e Víctor Guijarro Mora, da Universidad Rey Juan Carlos, de Madri, focaliza as propostas pedagógicas envolvendo o uso do rádio como tecnologia num período de grande desenvolvimento da radiodifusão nos dois países. A partir da análise dos artigos das publicações espanholas Ondas (1925-1936) e Catalunya Ràdio (1931-1934), para as quais contribuíram profissionais de diversas áreas, e do exame do manual pedagógico brasileiro Rádio e Educação (1934), de Ariosto Espinheira, os autores se valem do método comparativo para elaborar uma caracterização dos discursos que circulavam nos dois países acerca do potencial do rádio para a universalização da cultura e o avanço da civilização, desde que fosse associado a práticas pedagógicas e a currículos modernos.

O artigo “Uma interpretação da história da educação brasileira: o Manual Bibliográfico de Estudos Brasileiros (1949), da autoria de Roni Menezes, apresenta-se como um contraponto interessante às análises sobre a apropriação local de saberes e práticas transnacionais. Ao incidir sobre uma obra organizada pelo brasileiro Rubens Borba de Moraes, que atuava como subdiretor de serviços bibliotecários da ONU e William Berrien, educador estadunidense e professor da Universidade de Harvard, como uma “iniciativa do Instituto de Estudos Latino-Americanos, sediado nos Estados Unidos, o artigo contribui para a compreensão dos modos como se procurou elaborar uma síntese da cultura brasileira para o público interessado no Brasil e no exterior.

Em “CIEP: uma instituição (trans)nacional de formação de educadores do ensino secundário (1945-1952)”, Norberto Dallabrida e Laurent Gutierrez tratam de duas dimensões pedagógicas originais do Centre International d’Études Pédagogiques (CIEP), sediado na cidade de Sèvres, A primeira dimensão abordada é a função do centro de preparar docentes para o trabalho voluntário nas classes nouvelles, recém-implantadas por Gustave Monod no ensino secundário. Tendo como fontes o boletim publicado pelo órgão, a legislação educacional francesa e os testemunhos de ex-estagiários e educadores, os autores destacam que a formação docente incluía conferências pedagógicas, estágios de planejamento e avaliação, envolvendo também visitas ao Liceu de Sèvres, no qual práticas inovadoras, tais como o tempo integral, os trabalhos dirigidos e a orientação educacional se davam na prática. Quanto à segunda dimensão, revelam que, a partir de 1949, com a criação da Associação dos Amigos de Sèvres, o Bulletin d’Information Les Amis de Sèvres e o apoio da UNESCO, o CIEP se afirmou como um polo de atração internacional para educadores e autoridades, interessados em conhecer o funcionamento das classes nouvelles e as ideias e propostas de renovação do ensino secundário.

O conjunto dos trabalhos aqui reunidos proporciona uma boa visão da fertilidade da produção acadêmica em história da educação contemporânea interessada nos modos como se deram as relações entre sujeitos, práticas e saberes provenientes de diferentes regiões geográficas, a partir de uma perspectiva transnacional. Quando esses estudos levam em consideração ainda as tensões que se produziram no campo educacional em torno das categorias temporais de tradição e inovação, permitem apreender uma variedade de formas de (des)qualificação de certos modos de pensar e de fazer as coisas em razão de seu lugar de origem ser considerado desenvolvido ou atrasado. Como os artigos que compõem esse dossiê permitem observar, assim como se envidaram esforços na importação e incorporação do que se produzia nos países reconhecidos como loci do progresso, também se procurou mostrar no exterior aquilo que se produzia e se realizava de mais inovador nas escolas dos países considerados menos adiantados, os quais também foram visitados por pesquisadores dos centros mais avançados em busca da ampliação de seus conhecimentos e de suas referências. Consideramos ter atingido o nosso objetivo ao propor esta chamada e agradecemos aos autores e às autoras que contribuíram para o dossiê. Finalmente, agradecemos à equipe editorial de Educar em Revista, que nos proporcionou as condições necessárias para que esse trabalho pudesse ser levado a termo.

Referências

  • CARUSO, Marcelo. Within, between, above, and beyond: (Pre)positions for a history of the internationalization of educational practices and knowledge. Paedagogica Historica, v. 50, n. 10-26, 2014. https://doi.org/10.1080/00309230.2013.872678
    » https://doi.org/10.1080/00309230.2013.872678
  • DROUX, Joële; HOFSTETTER, Rita. Going international: the history of education stepping beyond borders. Paedagogica Historica, v. 50, n. 1-2, p. 1-9, feb-apr. 2014. https://doi.org/10.1080/00309230.2013.877500
    » https://doi.org/10.1080/00309230.2013.877500
  • GOULD, Stephen Jay. A falsa medida do homem. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  • GOUVÊA, Maria Cristina; GERKEN, Carlos Henrique. Desenvolvimento Humano: história, conceitos e polêmicas. São Paulo: Cortez, 2010.
  • FOUCAULT, Michel. A Arqueologia do Saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.
  • KEY, Ellen. Century of the Child. New York: Putnam, 1909.
  • MONARCHA, Carlos. A Escola Normal da Praça. O lado noturno das luzes. Campinas: Unicamp, 1999.
  • NÓVOA, António. Texts, Images and Memories: writing “new” histories of education. In: POPKEWITZ, Thomas S.; FRANKLIN, Barry M.; PEREYRA, Miguel A. Cultural History and Education: critical essays on knowledge. New York: Routledge Falmer, 2001.
  • SAUNIER, Pierre-Yves. Transnational History. England: Palgrave Macmillan, 2013.
  • SILVA, Vivian Batista da. Saberes em viagem nos manuais pedagógicos: construções da escola em Portugal e no Brasil (1870-1970). São Paulo: Editora UNESP, 2018.
  • VIDAL, Diana Gonçalves; SILVA, Vivian Batista da; LIMA, Ana Laura Godinho; BONTEMPI Jr., Bruno. Introduction. In: VIDAL, Diana Gonçalves; SILVA, Vivian Batista da. Rethinking Centre-Periphery Assumptions in the History of Education: exchanges among Brazil, USA and Europe. New York: Routledge, 2024.
  • Apoio ou financiamento:
    FAPESP (Processo n. 2018/26699-4) - autor 1 e autor 2; CNPq (Processo n. 314524/2023-1) - autor 1; CNPq (Processo n. 308832/2023-0) - autor 2.
  • 1
    Este trabalho foi realizado com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Processo nº 2018/26699-4.
  • Disponibilidade de dados de pesquisa:
    Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.
  • Como citar esse artigo:
    BONTEMPI Jr.; Bruno. LIMA, Ana Laura Godinho. Tradição e inovação: transações transnacionais na História da Educação, Educar em Revista, Curitiba, v. 42, e101987, 2026. https://doi.org/10.1590/1984-0411.101987
  • Editora responsável: - Editora Chefe:
    Angela Scalabrin Coutinho

Disponibilidade de dados

Todos os dados foram gerados/analisados no presente artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    16 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2025
  • Aceito
    28 Maio 2025
location_on
Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná Educar em Revista, Setor de Educação - Campus Rebouças - UFPR, Rua Rockefeller, nº 57, 2.º andar - Sala 202 , Rebouças - Curitiba - Paraná - Brasil, CEP 80230-130 - Curitiba - PR - Brazil
E-mail: educar@ufpr.br
rss_feed Stay informed of issues for this journal through your RSS reader
Go to top Report error