Franco-brasileiro residente no Brasil desde 1975 e naturalizado em 1999, Michel Thiollent é professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), poeta, escritor e tradutor. Formado em Desenvolvimento Econômico e Social pelo Institut d’Études du Développement Économique et Social – Université Paris I (Panthéon-Sorbonne) (1966-1971), com doutorado em Sociologia pela Université Paris V (René Descartes) (1975), foi professor do Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) (1975-1980), professor associado da UFRJ (1980-2011), professor do Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade do Grande Rio (2011-2019), professor visitante sênior no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal da Bahia (2024-2025) e colaborador no Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (Nides) – do Programa de Pós-Graduação em Tecnologia e Desenvolvimento Social da UFRJ. Atuou também na formação de pesquisadores, com orientação de dezenas de dissertações de mestrado, teses de doutorado e supervisão de estágios de pós-doutorado; proferiu mais de uma centena de palestras e conferências em eventos científicos nacionais e internacionais, atuou em projetos de extensão universitária e prestou assessoria a projetos ligados à formação permanente de profissionais.
É autor de livros, capítulos, artigos, ensaios, prefácios e posfácios. Entre suas publicações científicas mais conhecidas e citadas (até o momento, mais de 21 mil citações no Google Acadêmico) – principalmente nas áreas de educação e ciências sociais –, destacam-se os livros: Crítica metodológica, investigação social e enquete operária; e Metodologia da pesquisa-ação. Entre suas traduções, encontram-se: as de livros de autores que abordam temas como pesquisa-ação e desenvolvimento local, entre os quais André Morin, Hassan Zaoual e El Andaloussi; e as de poetas da região francesa do Quercy. Entre suas publicações literárias, encontram-se: Cahier de poésie (1966-1976); Cahier de poésie 2; Cahier de poésie 3/Caderno de poesia 3 (finalista do 67º Prêmio Jabuti – Poesia – 2025, da Câmara Brasileira do Livro); e Cahier de poésie 4/Caderno de poesia 4.
Idealizada durante nossa participação no VII Seminário de Educação Brasileira – organizado pelo Centro de Estudos em Educação e Sociedade (Cedes) e realizado na Unicamp em 2024 –, esta entrevista foi motivada mais diretamente pela comemoração, em 2025, dos 50 anos da chegada de Michel Thiollent ao Brasil e dos 40 anos de publicação de Metodologia da pesquisa-ação. Por meio de relatos e comentários dos principais momentos da formação acadêmica na França, da carreira como docente e pesquisador no Brasil e de sua produção científica, ensaística e poética, o sociólogo franco-brasileiro dá a conhecer um perfil multifacetado com atuação sempre pautada em perspectivas teóricas e abordagens críticas relacionadas a questões prementes dos contextos sociais, políticos, educacionais e culturais tanto da segunda metade do século passado quanto das décadas iniciais deste século. Sua obra permanece atual, como referência indispensável para pesquisadores, gestores, professores e estudantes de diversas áreas de conhecimento, além de inspiração para todas as pessoas que buscam possibilidades concretas de ação participativa na sociedade.
Maria Mortatti: Sua formação acadêmica, desde o curso elementar até o doutorado, foi realizada na França, no início da segunda metade do século 20, período marcado por importantes movimentos de contestação e reivindicação de mudanças sociais, políticas, culturais e educacionais, como o movimento de maio de 1968 em Paris. Quais as principais influências desse período em sua formação acadêmica e escolhas profissionais?
Michel Thiollent: Nasci em 1947 na região da Normandia, França, na pequena cidade de Yainville. Em 1952, ingressei na Escola Municipal Jules Ferry, onde estudei até a conclusão do ensino primário. Cursei o ensino de 2º grau no Lycée Blaise Pascal, na cidade de Rouen, onde concluí o Baccalauréat1 “Matemática e Técnicas” em 1966, o que me possibilitou, naquele mesmo ano, ingressar na Universidade de Paris I – Panthéon-Sorbonne, no Institut d’Études du Développement Économique et Social (IEDES). Os estudos eram multidisciplinares e voltados para os problemas dos então chamados “países em via de desenvolvimento” ou “Terceiro Mundo”. Havia vários professores, e muitos alunos oriundos da África, da Ásia e da América Latina. Em 1970, realizei estágio de dois meses na Universidade de Budapeste, na Hungria, e em 1971 concluí os estudos no IEDES, apresentando a dissertação “Análise das necessidades sociais no socialismo”, sob orientação do professor Alain Touraine. Ainda em 1971, comecei os estudos de doutorado em Sociologia sob orientação dos professores Paul-Henry Chombart de Lauwe e Zdenek Strmiska, na École Pratique des Hautes Études. A tese intitulada “Ideologia econômica, sindicalismo e práticas de formação”, cujo objetivo era analisar problemas da formação de sindicalistas na França, foi defendida na Université Paris V (René Descartes), em fevereiro de 1975.
O período 1966-1975, na França e no mundo, foi marcado por grandes acontecimentos sociais, políticos, intelectuais, culturais e artísticos, que repercutiram na vida dos estudantes, especialmente as mobilizações contra a guerra norte-americana no Vietnã; a contestação do conservadorismo no ensino universitário; a revolta estudantil de 1968 em Paris; a Primavera de Praga; as guerrilhas da América do Sul; as guerras anticoloniais na África; o pensamento de Mao Tsé-Tung e a Revolução Cultural na China; o fim do salazarismo em Portugal e do franquismo na Espanha; os movimentos de contracultura na literatura, nas artes, na música e na vida cotidiana. No plano das ideias, havia grandes debates em torno do estruturalismo, do marxismo, das filosofias de Althusser, Foucault e Deleuze, da sociologia de Bourdieu, entre outros. Muitas informações e conhecimentos extracurriculares interferiam na formação dos estudantes das décadas de 1960 e 1970. Aspectos significativos desse período são abordados no texto “Maio de 1968 em Paris: testemunho de um estudante” (Thiollent, 1998a), republicado no livro Releituras e dissidências: três ensaios e um testemunho (Thiollent, 2026).
Esse contexto me levou a adquirir uma postura crítica, sem adesão a algum tipo de dogma, marcando posições políticas, epistemológicas e metodológicas que orientaram minha formação acadêmica, escolhas profissionais e as atividades acadêmicas e literárias que venho realizando desde então, no Brasil.
Tendo estudado, desde 1966, problemas do desenvolvimento econômico e social de diversos países do mundo, pretendia trabalhar no ensino e na pesquisa em universidade do Sul, fora da Europa. Em 1974, soube que a Unicamp, então recém-criada, estava contratando professores assistentes para o Departamento de Sociologia do IFCH. Recebi essa informação por meio de dois amigos brasileiros – ambos vinculados ao IFCH/Unicamp – com quem mantive interlocução em Paris: Sergio Silva, do Departamento de Economia, que tinha sido colega no IEDES, em Paris, em 1966 (falecido em 2022); e Décio Saes, do Departamento de Ciência Política, que conheci na capital francesa em 1972, quando eu cursava o mestrado e ele, o doutorado, também com orientação de Touraine. Interessei-me pela possibilidade de concorrer à vaga e, em seguida, decidi começar a aprender a língua portuguesa num curso de verão na Universidade de Coimbra, Portugal. No final daquele ano, encaminhei à Unicamp minha candidatura. Após o aceite e com o doutorado concluído, viajei para o Brasil – com passagem só de ida –, estabeleci-me na cidade de Campinas e iniciei as atividades no segundo semestre de 1975.
Maria Mortatti: Como foi o início da carreira de docente universitário na Unicamp, no contexto dos anos 1970? Quais eram suas expectativas e quais foram as dificuldades? Tinha algum projeto especial? Quais foram as atividades mais marcantes desse período?
Michel Thiollent: Chegando ao IFCH, passei a ministrar as disciplinas Metodologia da Pesquisa Social e Sociologia do Trabalho, na graduação em Ciências Sociais e no mestrado em Sociologia. Além do aprendizado na prática do novo idioma, comecei a carreira docente preparando as aulas semanais. O objetivo principal era estudar e divulgar a metodologia das ciências sociais de um ponto de vista crítico, procurando uma possível alternativa de pesquisa de caráter participativo, promovendo ações transformadoras democratizantes em várias áreas, como educação, comunicação, estudo do trabalho em áreas urbanas e rurais, sindicalismo, trabalho social etc.
Naquele contexto de ditadura militar, a Unicamp mantinha relativas independência e liberdade intelectual. Não fui incomodado, embora duas malas de livros que eu trouxe da França tenham sido apreendidas quando chegaram de navio ao Porto de Santos. Foram liberadas seis meses depois, com intervenção de algumas autoridades universitárias.
Comecei, então, a estudar e desenvolver o que seria uma crítica metodológica, com o objetivo de tornar as pesquisas mais “concretas” em sociologia, educação e movimentos sociais, no clima de prenúncio de reivindicação de transformações sociais mais amplas e democráticas. Lia muita bibliografia sobre os métodos mais utilizados, que eram de tipo positivista e de origem norte-americana. A expectativa era conseguir elaborar uma ampla crítica a essa tendência dominante, que já tinha sido denunciada por intelectuais críticos, em particular no que diz respeito às repercussões negativas do Projeto Camelot, codinome do projeto “Métodos para prever e influenciar a mudança social e o potencial de guerra interna”.
Nos anos 1960, como componente da política norte-americana de contenção do comunismo na América Latina, tal projeto consistia em coletar dados de pesquisa sobre a situação social da população em áreas urbanas e rurais, com o objetivo de detectar e acompanhar o início de possíveis movimentos sociais contrários ao capitalismo ou favoráveis ao socialismo e buscar meios de contenção. Para isso, os métodos de pesquisa empírica utilizados pelos pesquisadores locais deviam se conformar ao modelo norte-americano. Certos grupos de pesquisadores recebiam financiamentos e assistência metodológica especializada. A denúncia do Projeto Camelot começou no Chile em 1965, quando foi revelado que uma pesquisa sociológica acadêmica e “neutra” era financiada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos da América. O escândalo e suas repercussões foram analisados no livro Ascensão e queda do Projeto Camelot: estudos sobre as relações entre a ciência social e a prática política, coordenado por Irving Horowitz (1969). No Brasil, a crítica a esse projeto ficou bastante abafada nas universidades e agências de fomento à pesquisa. É de se supor que certos grupos de pesquisadores tiraram proveito dessa colaboração “científica” no plano internacional. Embora o projeto tenha sido oficialmente cancelado, a concepção de metodologia positivista em que se fundamentava continuou em uso por muitos anos e predominou em cursos de Ciências Sociais e em colaborações internacionais.
Com base nesses estudos que realizei e nas discussões de metodologia em ciências sociais das quais participei no IFCH, ficou evidente para mim que, no ensino de técnicas de pesquisa, inclusive as mais comuns, como questionários, entrevistas, escalas de atitudes, análise de conteúdo etc., não se tratava apenas de uma questão técnica. Havia toda uma problemática epistemológica, ideológica e política subjacente, indicando que esses métodos e técnicas, ingenuamente aplicados em teses e dissertações, produziam uma visão de realidade bastante distorcida, estática, com tendência conservadora e que, por isso mesmo, era bem aceita pelo establishment.
Naquele contexto, a crítica dos métodos e técnicas de pesquisa positivista nas ciências sociais, e do taylorismo, fordismo e toyotismo na sociologia do trabalho, encontrava suportes teóricos no marxismo, na filosofia existencialista, na teoria crítica da Escola de Frankfurt (Horkheimer, Adorno, Habermas) e na sociologia de Bourdieu. Não era apenas uma questão de técnica investigativa, mas um desafio à visão dominante – como a do Projeto Camelot – decorrente da Guerra Fria entre o mundo ocidental e o mundo socialista. Nesse percurso reflexivo, incluí a discussão da “enquete operária”, com base no questionário sobre a condição dos trabalhadores, elaborado por Karl Marx em 1880 e atualizado nos anos 1960/1970 por um grupo de marxistas italianos reunidos em torno da revista Quaderni Rossi.
Um dos principais resultados desses estudos, pesquisas, atividades docentes e orientação de dissertações e teses no Departamento de Sociologia do IFCH/Unicamp foi a publicação, em 1980, de meu primeiro livro: Crítica metodológica, investigação social e enquete operária (Polis Editora), com 5ª edição em 1986. Nesse mesmo ano, como complemento, foi publicado também meu livro Pesquisa de opinião e debates políticos (Polis), abrangendo a área de pesquisa de opinião e pesquisas eleitorais como instrumentos de manipulação de eleições. Seria importante atualizar e desenvolver novas análises críticas sobre as pesquisas eleitorais e seus usos midiáticos manipulatórios, especialmente na conjuntura pré-eleitoral de 2026 no Brasil.
Simultaneamente, minha busca de alternativas em metodologia das ciências sociais se concentrou na pesquisa-ação/pesquisa participante, estendendo-se a discussões sobre problemas e perspectivas das relações entre educação e sociedade. Mantive, então, contatos com o professor Carlos Rodrigues Brandão, do Departamento de Antropologia, e com professores da Faculdade de Educação da Unicamp, em especial Moacyr Gadotti, Maurício Tragtenberg e as professoras Ivany Pino e Elisabeth Pompêo, além de outros colegas que integraram o Cedes – fundado em 1979.
Dessas interlocuções resultaram, entre outros, artigos, capítulos e participação em atividades e eventos acadêmicos. Na revista Educação & Sociedade, do Cedes, foram publicados meus artigos “Aspectos da didática universitária” (Thiollent, 1979) e “Crítica da racionalidade e reavaliação de tecnologia” (Thiollent, 1980). A convite do professor Tragtenberg, participei do seminário sobre o tema “Participação e autogestão”, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais, em Belo Horizonte, em 1976. Com o professor Gadotti, participei de uma pesquisa-ação junto ao alunado da Universidade Estadual de Maringá/PR, em 1979. A partir de então, pude dar continuidade aos estudos críticos de métodos e técnicas de pesquisa convencional, dedicando-me ao desenvolvimento da pesquisa participante/pesquisa-ação e seus desdobramentos para outras áreas.
Maria Mortatti: O que motivou a mudança para a UFRJ/Coppe, em 1980, vinculando-se ao Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, no qual permaneceu até sua aposentadoria em 2011? Quais as principais temáticas, projetos e atividades de ensino, pesquisa e extensão que você desenvolveu durante os 31 anos nessa instituição?
Michel Thiollent: Os estudos em sociologia do trabalho que iniciei como docente do Departamento de Sociologia do IFCH/Unicamp interessaram a um grupo de pesquisadores do Programa de Engenharia de Produção (PEP) da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe) da UFRJ. Esse grupo me convidou para trabalhar naquele programa, enfocando aspectos sociais da organização do trabalho e da tecnologia.
A proposta do PEP era atraente. Desliguei-me do IFCH/Unicamp e fui contratado na UFRJ. Realizar atividades de ensino, pesquisa e extensão na área tecnológica e organizacional me parecia útil no contexto da crise do sistema de produção taylorista e fordista e do advento de novas tendências, como gestão da qualidade, sociotécnica e grupos semiautônomos, reengenharia de processos, informatização, robotização e outras mudanças associadas à inovação. Era necessário compreender essas mudanças com suas múltiplas consequências sobre a vida dos trabalhadores e atualizar as discussões sobre a evolução do capitalismo. Foi um período de retomada e aprofundamento de estudos anteriores e desenvolvimento de novos temas no contexto político de democratização das práticas sociais, após 21 anos de ditadura militar no Brasil.
Nos anos 1980, pude dar continuidade também ao debate sobre pesquisa-ação e pesquisa participante em educação e ciências sociais. Com o professor Carlos Rodrigues Brandão, participei de mesa-redonda na II Conferência Brasileira de Educação, em 1982, em Belo Horizonte, sobre os temas da democratização da educação e do papel da pesquisa participante. Contribui com o capítulo intitulado “Notas para o debate sobre a pesquisa-ação” (Thiollent, 1984) no livro Repensando a pesquisa participante, organizado por Brandão. Com a professora Anamaria Fadul (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA/USP) e os professores José Marques de Melo (Universidade Metodista) e Isaac Epstein (Fundação Armando Alvares Penteado – Faap), da área de comunicação social, participei de eventos da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) e do livro Teoria e pesquisa em comunicação: panorama latino-americano, organizado por José M. Melo, em que colaborei com o capítulo “Problemas de metodologia da pesquisa-ação” (Thiollent, 1983a). As expectativas associadas à pesquisa participante estavam também no centro das preocupações em um seminário internacional organizado em 1984, no Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Pedagógicas (Inep), dirigido pelo professor Pedro Demo. Foi nessa ocasião, com o incentivo do professor Walter Garcia, também participante daquele evento, que decidi elaborar o livro Metodologia da pesquisa-ação, publicado em 1985 pela Cortez & Autores Associados.
No Programa de Engenharia de Produção da Coppe, passei a ministrar disciplinas, entre as quais: Metodologia de Pesquisa, Análise Organizacional, Organização e Cooperação. Em Metodologia de Pesquisa, abordei as especificidades nas áreas de engenharia e administração. Além das tradicionais questões de observação, coleta de dados, verificação de hipóteses, era necessário abordar a metodologia de projetação (design) de produtos ou de sistemas e a metodologia de modelagem, simulação e planejamento. As reflexões geradas nessas atividades de ensino resultaram no capítulo “Problemas de metodologia” (Thiollent, 1983b), publicado no livro Organização do trabalho, organizado pelos professores Afonso Carlos Corrêa Fleury (USP) e Nilton Vargas (Coppe/UFRJ).
Naquele momento, também me interessaram temas de pesquisa emergentes, tais como informação, comunicação, linguagem e cognição – decorrentes da informatização de gestão, de processos industriais e de serviços. Iniciei pesquisas nessas áreas e colaborei com professores do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Sistemas, da Coppe, em particular com a professora Dina Feigenbaum, com quem desenvolvi projeto de pesquisa financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Participei, ainda, com apresentação de trabalho, de vários eventos na área de ciências cognitivas e tive publicados artigos e capítulos de livros, tais como: “Informática e processos cognitivos” (Thiollent, 1985), “Wittgensteinian Philosophy and Epistemology of Artificial Intelligence” (Thiollent, 1987, 1989), “Pragmatique de la Représentation Ambiguë” (Thiollent, 1988), “Os processos cognitivos e normativos da tecnologia e suas implicações no ensino e na pesquisa” (Thiollent, 2012), “Funções mínimas de uma linguagem de interação num sistema industrial” (Thiollent, 1998b).
Em 1988, participei de uma assessoria em um centro de pesquisa tecnológica na área de petróleo. Tratava-se de um projeto de pesquisa-ação organizacional sobre a cultura técnica de engenheiros que encontravam dificuldades de compreensão e de colaboração entre equipes. A proposta consistia em encontrar meios de formação específica para superar essas dificuldades. Apresento parte dos resultados desse projeto no livro Pesquisa-ação nas organizações (Thiollent, 1997).
Na década de 1990, participei com o filósofo Daniel Vanderveken, da Université du Québec à Trois-Rivières (Canadá), de seminário sobre teoria dos atos de fala e lógicas não clássicas. Teria sido possível continuar pesquisando na direção dos estudos cognitivos, que se aproximavam dos debates sobre a Inteligência Artificial (IA), mas acabei decidindo retornar a assuntos mais “engajados” e mais “concretos”, como os relacionados com cooperação e pesquisa-ação, em função de demandas especificamente direcionadas à metodologia de pesquisa-ação, que considerava mais recomendável como forma de resistência ao neoliberalismo naquele contexto de mudanças sociais, educacionais e organizacionais.
No final da década de 1990, participei de um programa de pesquisa e extensão, no âmbito do convênio do Laboratório Trabalho & Formação da Coppe com a Confederação Nacional dos Metalúrgicos (CNM)/Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Ministério do Trabalho (Thiollent; Perrotta; Zamberlan, 2002). Os objetivos eram diagnosticar a situação dos trabalhadores do setor metal/mecânico, em dificuldades relacionadas às mudanças tecnológicas e organizacionais que ocorriam nas empresas, sob o choque neoliberal daquele momento, e propor um conjunto de ações de formação profissional para desempregados, incluindo possíveis planos de desenvolvimento local.
Atuei no projeto no município de João Monlevade/MG, cuja principal atividade estava ligada a uma grande indústria siderúrgica multinacional ali instalada. Foram adotados procedimentos de pesquisa-ação com a participação de uma equipe universitária de professores e estudantes envolvidos em projetos de extensão, um grupo de sindicalistas daquela empresa siderúrgica, professores da rede municipal de educação, funcionários da Secretaria de Desenvolvimento da prefeitura e Organizações Não Governamentais (ONGs) locais. O convite endereçado aos representantes da gestão da empresa siderúrgica foi recusado, devido à relação conflituosa com o sindicato local. O projeto durou dois anos e foi possível elencar ações de formação para trabalhadores e metas de desenvolvimento local para o município. No entanto, com a derrota do prefeito nas eleições de 2000, não foi possível dar continuidade. Os resultados foram apresentados em reunião com os interlocutores do município, em congresso na Universidade Federal de Viçosa/MG, em publicações coletivas do sindicato local de metalúrgicos e em anais de colóquio de que participei em Paris, França (Thiollent, 1998c).
A partir dos anos 2000, interessei-me pelo estudo do cooperativismo como movimento, filosofia, forma de organização e pedagogia, com base na obra de Henri Desroche (1914-1994). Selecionei textos do autor e comentários de vários estudiosos para organizar o livro Pesquisa-ação e projeto cooperativo na perspectiva de Henri Desroche (Thiollent, 2006). Um dos capítulos de minha autoria foi traduzido para o francês e publicado em Thiollent (2008a). O objetivo foi resgatar e divulgar conhecimentos sobre o movimento cooperativista, mal conhecido nas suas origens no século 19, e seus desenvolvimentos no século 20. Desroche conseguiu estabelecer relação entre o projeto cooperativo e a pesquisa-ação. Mais do que uma forma jurídica de empresa coletiva, a cooperação constitui um sistema exigindo reciprocidade entre as partes. Além das organizações, Desroche valorizava a educação, a teoria da ajuda mútua de Piotr Kropotkin, a pedagogia cooperativa de Célestin e Élise Freinet, e a pesquisa-ação – em particular quando inserida em processos de formação permanente de profissionais. Com base na perspectiva cooperativa de Desroche, durante o Congresso Ibero-Americano de Investigação Qualitativa (CIAIQ) realizado em 2016 na Cidade do Porto, Portugal, pude discutir a pesquisa-ação como forma de investigação qualitativa e a cooperação que, no processo de pesquisa, exige maior reciprocidade que uma simples participação. (Thiollent; Oliveira, 2016).
Nas áreas de administração, engenharia de produção e estudos organizacionais é sempre importante a introdução ao estudo da cooperação (Thiollent, 2008b). Essa problemática não é conhecida pelos estudantes nem, talvez, por muitos pesquisadores. Sob influência do neoliberalismo, os assuntos principais são competição e competitividade. Na atualidade, formas de cooperação podem ser reinventadas no contexto de economia social e solidária e do empreendedorismo em perspectiva social, gerando emprego e renda.
Entre 1996 e 2010, com colegas da UFRJ, Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal de São Carlos, Universidade Federal da Paraíba e Universidade Federal do Rio Grande do Norte, organizamos o Seminário de Metodologia para Projetos de Extensão (Sempe). Realizado periodicamente em várias universidades das regiões Sudeste e Nordeste do Brasil, o seminário tinha como objetivo promover a reflexão sobre as especificidades metodológicas da extensão universitária e as possibilidades de aplicação da metodologia participativa nessa área. O assunto foi abordado no livro que coorganizei e no capítulo de minha autoria (Thiollent, 2003).
Entre as questões então emergentes, havia significativa demanda de aplicação da metodologia de pesquisa-ação em assuntos relativos ao meio ambiente e à educação ambiental. As reflexões proporcionadas por uma experiência de pesquisa e extensão em uma plantação de tomates no interior fluminense, desenvolvida por pesquisadores e estudantes da UFRJ, resultaram em esquema de análise publicado num artigo em coautoria (Thiollent; Silva, 2007).
Para dar suporte aos projetos de extensão e outros projetos de pesquisa-ação em formação de professores e outros profissionais, traduzi e disponibilizei o livro Pesquisa-ação integral e sistêmica, de André Morin (DP&A, 2004). Com a professora Laura Susana Duque Arrazola, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, recuperei material de João Bosco Guedes Pinto (professor da Universidade Federal de Pernambuco, falecido em 1995), que foi apresentado no livro Metodologia, teoria do conhecimento e pesquisa-ação (Arrazola; Thiollent, 2014).
Em 2010, um grupo de professores e estudantes do Centro de Tecnologia da UFRJ iniciou o projeto sobre as possibilidades de implantação de iniciativas de economia solidária em comunidades da cidade do Rio de Janeiro (Convênio UFRJ/Prefeitura), no qual participei como assessor metodológico. A ampla dimensão das comunidades (favelas) foi um grande desafio. Com a falta de mobilização dos moradores, chegou-se à conclusão de que, no prazo definido, o objetivo era inalcançável.
Em 2011, com 36 anos de trabalho no setor público, 31 deles vinculado à Coppe, aposentei-me da UFRJ, bastante satisfeito por ter oferecido disciplinas de metodologia de pesquisa e de análise crítica em organizações e ter orientado muitas teses e dissertações, com repercussões importantes, algumas delas realizadas com parcerias internacionais (Espanha e Colômbia). Bastante satisfeito também de saber que ex-orientandos(as) foram aprovados(as) em concursos para cargos importantes de docência, pesquisa ou gestão em universidades e outras instituições. E por constatar que minhas publicações, palestras e conferências têm contribuído para avanços em debates sobre os assuntos aos quais me dediquei.
Maria Mortatti: Após a aposentadoria na UFRJ, você trabalhou no Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) na Universidade do Grande Rio (Unigranrio) (2011-2019), em 2016 passou a atuar como professor voluntário no Nides UFRJ e, de 2024 a 2025, trabalhou como professor visitante sênior no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social (PPGSS) da Universidade Federal da Bahia. O que o motivou a continuar trabalhando? Quais eram suas expectativas e projetos? Quais foram as atividades mais marcantes desse período?
Michel Thiollent: Pouco tempo depois da aposentadoria, fui convidado para atuar no PPGA da Unigranrio (entidade privada, sediada na Baixada Fluminense), para ministrar disciplinas de metodologia e análise crítica das organizações e orientar pesquisas de mestrado. No desenvolvimento dessas atividades, pude aprofundar e expandir reflexões anteriores sobre metodologia da pesquisa-ação participativa e sua utilização nas novas áreas em que passei a atuar.
No PPGA/Unigranrio, meu principal objetivo era desenvolver uma linha de ensino e pesquisa sobre a abordagem crítica em organizações. Embora a área de CMS (Critical Management Studies) tenha crescido em nível internacional, o ensino de administração no Brasil, especialmente nas entidades privadas, continuava (ou continua) bastante conservador, sempre idolatrando o mercado, o poder empresarial, a competição, o empreendedorismo individual etc. Por isso, durante esse período, os principais assuntos que abordei foram: estudos críticos em organizações; crítica ao behaviorismo ainda vigente na área de recursos humanos; cooperação; metodologia participativa em estudos organizacionais. Como resultados das reflexões, participei do 1º Congresso Brasileiro de Estudos Organizacionais, da Sociedade Brasileira de Estudos Organizacionais, apresentando a comunicação “Estudos organizacionais: possível quadro referencial e interfaces”, publicada na Revista Brasileira de Estudos Organizacionais (Thiollent, 2015). Nesse PPGA, ainda, desenvolvi – com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) – um projeto de pesquisa sobre a metodologia de pesquisa-ação e suas aplicações em projetos de extensão. Nesse programa, orientei dissertações e teses e supervisionei estágios de pós-doutorado sobre temas relacionados aos estudos organizacionais. Entre essas, destaco a coorientação, em parceria com o professor Alfonso Torres Carrillo, da Universidade de Bogotá, Colômbia, da tese de Maria Madalena Colette sobre a relação entre pesquisa-ação e compromisso social da universidade (Thiollent; Colette, 2014, 2017, 2020).
Nesse período, também me envolvi com assuntos relacionados à economia e gestão solidária, quando, em 2016, um grupo de colegas e estudantes do Departamento de Engenharia Industrial da Escola Politécnica/UFRJ deu início à criação, nesse departamento, de uma área de ensino, pesquisa e extensão em assuntos sociais. Em seguida, foi criado o Nides e o Programa de Pós-Graduação em Tecnologia para o Desenvolvimento Social (PPGTDS), do qual participo como professor voluntário desde 2016 e onde ministrei aulas de metodologia participativa e de tópicos especiais sobre temas, tais como pós-verdade e fake news, em evidência a partir de 2018. Durante a pandemia de covid-19, orientei à distância dissertações de mestrado no PPGTDS sobre esses temas e apresentei a comunicação “Approche de la Post-Vérité dans le Domaine de la Gestion. Exemple au Brésil” (Thiollent, 2019), no VII Congrès de Philosophie(s) du Management. Société de Philosophie des Sciences de la Gestion, em Paris.
Após desligamento do PPGA/Unigranrio em 2019, atuei como professor visitante sênior, entre 2024 e 2025, no PPGSS da Universidade Federal da Bahia. Ministrei disciplinas de metodologia da pesquisa científica e de metodologia participativa para projetos de extensão desenvolvidos por mestrandos e pude discutir com as colegas a relevância da pesquisa de campo e seus desafios, especialmente em relação a temas de pesquisa recorrentes naquele programa de mestrado: observação das populações em situação de vulnerabilidade social e acolhimento por parte de profissionais que atuam na assistência social. Pude, também, manter maior contato com os objetivos e as novas problemáticas do serviço social centradas em desigualdades e diversidade cultural, tais como raça, gênero, classes sociais e direitos humanos. Apresentei discussão preliminar de propostas de alternativas de pesquisa nas práticas do serviço social (Thiollent, 2024), na mesa-redonda com a professora Jane Cruz Prates da PUC-RS, no XVII Encontro Nacional de Pesquisadores em Serviço Social, em Fortaleza/CE.
Além de participação em eventos científicos em várias universidades, com apresentação de conferências e palestras sobre assuntos relacionados com metodologia da pesquisa, pós-verdade e fake news, ministrei disciplina de Metodologia da Pesquisa Social no PPGSS da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Franca, o que me possibilitou retomar e ampliar a interlocução com estudantes e pesquisadores de serviço social.
Durante esse período, também ministrei, como professor convidado, em conjunto com você, professora Maria Mortatti, a disciplina Metodologia da Pesquisa: Análise da Configuração Textual, no Programa de Pós-Graduação em Educação da Unesp, campus de Marília, onde também ministrei conferência e aula magna sobre metodologia da pesquisa-ação para o Programa de Mestrado Profissional em Sociologia. Especialmente dessas atividades na Unesp Marília resultou a publicação do livro Releituras & dissidências: três ensaios e um testemunho (Thiollent, 2026). Ainda em 2024, ministrei um minicurso e uma palestra sobre a metodologia de pesquisa-ação, no Departamento de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo, a convite da professora Mariângela Almeida, que trabalha com pesquisa-ação fundamentada na filosofia de Jürgen Habermas.
Maria Mortatti: O que motivou as atividades de organização, tradução e produção de ensaios sobre livros de autores de língua francesa a que se dedicou especialmente nesse período?
Michel Thiollent: Durante as atividades que desenvolvia, fui constatando a escassez de novas publicações sobre pesquisa-ação e pesquisa participante. Tive, então, a ideia de traduzir livros em língua francesa de autores canadenses, marroquinos e belgas, para tornar acessível uma maior variedade de obras dedicadas a essa metodologia e sobre assuntos relacionados, como desenvolvimento local, diversidade cultural e globalização. Entre os anos de 2003 e 2024, traduzi, além de um artigo, oito livros sobre esses assuntos, escritos por André Morin, Hugues Dionne, Khalid El Andaloussi, Henry Panhuys, Hassan Zaoual. Também organizei um livro com tradução de poemas de autores franceses da região do Quercy. Penso que foram importantes para os objetivos de divulgação no Brasil dessa produção intelectual e poética em língua francesa.
Maria Mortatti:Entre suas publicações, conforme dados do Google Acadêmico, o livro mais citado é Metodologia da pesquisa-ação, com primeira edição em 1985 e sucessivas edições até 2025, quando foi lançada a edição mais recente, a 19ª, comemorativa dos 40 anos da obra, com prefácio de Moacir Gadotti. Como foi a trajetória editorial desse livro em diferentes contextos sociais e políticos? A que se deve sua repercussão e permanência ainda neste século 21?
Michel Thiollent: O livro, como comentei, teve origem nos estudos que realizei quando iniciei a carreira docente no IFCH/Unicamp, com base nas perspectivas críticas que aprendi durante minha formação na França e pude expandir em diálogo com professores da área de educação. As críticas aos métodos convencionais de pesquisa, especialmente positivistas, demandavam uma análise crítica. E a decisão de elaborar o livro ocorreu a partir de minha participação no seminário internacional organizado em 1984, no Inep, liderado pelo professor Pedro Demo, e publicado em 1985 pela Cortez & Autores Associados, com sucessivas edições até a mais recente (Thiollent, 2025).
Foi concebido como introdutório ao assunto. É bastante didático e ajuda concretamente estudantes, pesquisadores ou extensionistas na formulação e na execução de seus projetos. Além disso, a concepção geral do livro sugere formas de atuação em práticas sociais de orientação democrática, progressista, participativa, emancipatória. Respondendo às demandas de várias áreas sociais aplicadas, em particular em educação, de fácil uso em sala de aula e em projetos de pesquisa e extensão, com o passar do tempo sua circulação e utilização se ampliou para as áreas de comunidades, saúde, enfermagem, engenharias, administração, estudos rurais e urbanos, economia solidária, áreas de cultura e humanidades, entre outras. Vem sendo utilizado também em projetos interdisciplinares ou transversais em várias universidades.
O livro tem boa aceitação, como indica o número de edições – uma edição a cada dois anos, em média –, as significativas tiragens, as mais de 15 mil citações no Google Acadêmico até o momento, além do público de palestras e conferências presenciais ou por meio virtual – totalizando quase 100 mil visualizações no YouTube – que ministrei em várias universidades de diferentes estados brasileiros.
Maria Mortatti: Entre suas publicações mais recentes, estão ensaios sobre temas literários e educacionais e uma série de livros de poemas, em que se ressalta a inspiração literária e musical, especialmente da poesia francesa e do jazz. O que o levou a escrever textos poéticos e ensaísticos e, apenas mais recentemente, publicar e dar a conhecer essa faceta de poeta e ensaísta?
Michel Thiollent: Meu interesse por poesia é antigo. Desde a época de estudante, lia principalmente os poetas franceses Rimbaud, Baudelaire, Apollinaire, Éluard. Esse interesse ficou contido por um bom tempo em função das exigências disciplinares e “produtivistas” do trabalho universitário. Os anos passavam sem dedicação à poesia, a não ser como atividade das horas vagas ou como hobby nos finais de semana. Com a aposentadoria da UFRJ, tive mais tempo para deixar fluirem, sem compromisso, a imaginação, o improviso, as reminiscências e sensações de vários tipos. A transfiguração poética dessa “matéria” vem resultando na publicação de uma série de livros, iniciada em 2014 e a ser continuada no futuro próximo. Até o momento, foram publicados Cahier de poésie (1966-1976) (Multifoco, 2014); Cahier de poésie 2 (Gramma, 2017); e, em edições bilíngues, pela Scortecci Editora, Cahier de poésie 3/Caderno de poesia 3 (2024; finalista do 67º Prêmio Jabuti – Poesia – 2025, da Câmara Brasileira do Livro); e Cahier de Poésie 4/Caderno de poesia 4.
No livro Releituras e dissidências: três ensaios e um testemunho (Thiollent, 2026) são republicados: dois ensaios com releitura dos livros A guerra dos botões (1912), de Louis Pergaud, e Hors du nid (1934), de Charles ab der Halden, possibilitando a compreensão dos padrões de pedagogia que ainda estavam em vigor nos anos 1950 na França, quando eu frequentava a escola primária; um ensaio sobre o dramaturgo, ator e poeta Antonin Artaud (1896-1948); e meu testemunho de estudante sobre o movimento de maio de 1968 em Paris. Para essas releituras, escolhi a forma textual de ensaios, pois não pretendia trabalhar com preocupações de estrito rigor acadêmico. No caso desses textos, preferi interpretar as reminiscências, situações e vivências com liberdade, possibilitando um retrospecto do ambiente cultural e político em que brotaram minhas reflexões e que marcaram a consciência dissidente de muitos estudantes daquela geração.
Maria Mortatti: Depois de meio século no Brasil, com sua intensa atuação profissional e relevantes projetos científicos, ensaísticos e literários bem-sucedidos, como avalia sua trajetória? No contexto atual, quais são os desafios e perspectivas da metodologia participativa no ensino, pesquisa e extensão universitários e quais suas possíveis contribuições, de uma perspectiva crítica, sobre questões sociais, educacionais e culturais do Brasil? Quais seus projetos como pesquisador, escritor e poeta?
Michel Thiollent: Nos últimos tempos, em vários meios sociais, o neoliberalismo e o autoritarismo criaram um clima de desprezo aos conhecimentos científicos, quando contrários aos interesses de mercado e dos detentores de poder. Há esvaziamento dos discursos sobre participação, empoderamento, emancipação. Com os meios digitais, torna-se difícil a mobilização das pessoas em grupos presenciais. Projetos de resistência ou de mudança com base na pesquisa participante/pesquisa-ação exigem um maior respeito à diversidade cultural, classe, raça, gênero. É preciso assegurar a transparência nas relações com instituições de apoio, a autenticidade e a maior reciprocidade nas trocas. A participação/colaboração/cooperação dos interessados, de modo direto, permanece insubstituível por tecnologias.
Atualmente, para continuar trabalhando na busca de alternativas metodológicas, como a pesquisa-ação participativa, é necessário retomar, atualizar ou renovar bases teóricas e procedimentos de investigação e planejamento de ações. Como principais missões relativas ao desenvolvimento da pesquisa-ação, destacam-se: o compromisso com ciência, tecnologia, educação e cultura em perspectiva democrática, humanizadora, antiautoritária e emancipatória; o engajamento dos universitários e intelectuais críticos voltados para o avanço do conhecimento e a resolução de problemas sociais, educacionais, tecnológicos, ambientais etc.; a valorização dos saberes e capacidades criativas populares, eruditas e técnicas, sem dissolução em propostas populistas ou religiosas. E, com o advento da era digital, uma questão está na ordem do dia: como a pesquisa-ação evoluirá em função das tecnologias de informação e comunicação? Ainda existem muitas dúvidas. É preciso acompanhar novas experiências e extrair novos ensinamentos.
Na área acadêmica, planejo dar continuidade à reflexão e à ampliação de aspectos da metodologia participativa e pesquisa-ação, além de acompanhar trabalhos e intervenções em organização, educação, cooperativismo e economia solidária. Planejo, também, uma reflexão crítica e produção de ensaios sobre a relação entre autoritarismo, ciberburocracia, desumanização e pós-verdade.
Na área literária, pretendo ler obras poéticas inspiradoras e continuar a escrever e publicar a série de cadernos de poesia, em edição bilíngue, com os números 5, 6 e 7, além de outros projetos em andamento, sobre assuntos transdisciplinares que gostaria de aprofundar. Como exemplo, posso mencionar o projeto independente de estudo sobre as possíveis aplicações da metodologia participativa em artes e cultura, em particular em atividades performáticas, como o teatro e a “poesia-ação”.
Revendo agora tanto meu percurso formativo na França quanto a carreira profissional e a produção científica e poética no Brasil, avalio que consegui abranger assuntos diversificados nas diferentes áreas em que atuo. A vida intelectual e literária no Brasil é densa e instigante. Francamente, não estou arrependido de ter deixado para trás o velho mundo, para descobrir um novo mundo e poder contribuir para debates e ações em busca de soluções coletivas.
Gostaria de ter feito muito mais, tanto na parte científica e tecnológica quanto na parte artística, cultural e educacional. Apesar das dificuldades e limitações de recursos estimuladas pelas políticas neoliberais de competitividade e produtivismo acadêmico impostas à atividade de docente e pesquisador, tentei cooperar com colegas de diversas áreas e instituições. Antes de terminar a viagem pela vida, desejo recuperar, compilar, sintetizar grande parte do material que produzi durante meio século e disponibilizá-lo em coletâneas de textos.
Agradeço a todos os colegas e estudantes que compartilharam conhecimentos e contribuíram para o desenvolvimento das atividades a que me dediquei. Agradeço também pelo convite para esta entrevista, que me possibilitou relembrar, organizar e apresentar aos leitores experiências e reflexões que, espero, possam também contribuir para a construção coletiva de um futuro melhor.
Maria Mortatti: Agradeço pelo aceite e pela disponibilidade em conceder esta entrevista, que vem contribuir para compreender aspectos importantes de sua trajetória e, ao mesmo tempo, ilumina momentos importantes da história política, social, educacional e universitária no Brasil. Certamente, será também referência indispensável para estudantes, pesquisadores e todos os interessados nos assuntos aqui abordados.
Marília/SP, 23 de abril de 2026.
Agradecimentos
Não se aplica.
Nota
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1
Conhecido popularmente por “le bac”, é um exame nacional que confere o diploma de ensino secundário, obrigatório para ingresso no ensino superior.
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Declaração de Uso de Ferramentas de Inteligência Artificial
Os autores declaram que nenhuma ferramenta de inteligência artificial foi usada na preparação, redação, análise de dados ou revisão deste manuscrito.
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Financiamento
Não se aplica.
Disponibilidade de Dados de Pesquisa
Todos os dados foram gerados ou analisados no presente artigo.
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Editor de seção:
Antonio Alvaro Soares Zuin https://orcid.org/0000-0001-7519-4370
